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Congresso

01/04/2013

às 16:38 \ Política & Cia

Pior ainda do que o caso do pastor — uma ameça ao Estado laico

As armas da República: Estado laico há mais de 123 anos

Amigas e amigos do blog, é importantíssimo o tema de que trata o “Estadão” no editorial abaixo — que remete o jornal fundado em 1875 a suas melhores e mais gloriosas tradições republicanas.

Editorial da edição de domingo do jornal O Estado de S. Paulo

Com o noticiário do Congresso concentrado no escândalo Feliciano – a entrega da presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara ao deputado evangélico Marco Feliciano, do Partido Social Cristão (PSC), que deu motivos para ser considerado racista e homofóbico, e que insiste em permanecer no cargo, apesar dos incessantes protestos de que é alvo – a imprensa deu escasso destaque a uma aberração ainda maior.

Na mesma quarta-feira em que o mau pastor mandou prender um manifestante, retirar os demais do plenário da comissão para, enfim, justificar a truculência com a alegação de que “democracia é isso”, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa aprovou uma proposta que agride um dos princípios basilares da República brasileira: o caráter laico do Estado.

De autoria do tucano João Campos, de Goiás, membro da suprapartidária bancada evangélica, o projeto estende às organizações religiosas a prerrogativa de contestar a constitucionalidade das leis no Supremo Tribunal Federal (STF).

Pela Constituição, podem propor ações dessa natureza o presidente da República, as Mesas do Senado, Câmara e Assembleias Legislativas, governadores, o procurador-geral da República, a OAB, partidos com representação no Congresso, confederações sindicais e entidades de classe de âmbito nacional.

O leque de agentes públicos e privados aptos a entrar no STF com as chamadas Ações Diretas de Constitucionalidade (Adin) é, portanto, suficientemente amplo para representar legitimamente as múltiplas correntes da população insatisfeitas com essa ou aquela norma legal – preservada a separação entre Estado e igreja. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

20/03/2013

às 15:39 \ Política & Cia

E não é que de vez em quando vem notícia boa do Congresso? Veja só: o presidente da Câmara, de quem não se esperava nada, pressiona para que o sujeito horroroso que assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos renuncie

Feliciano: currículo negro para um cargo sensível (Foto: globo.com)

Amigas e amigos do blog, como costumo dizer, aqui e ali, de vez em quando vem notícia boa do Congresso.

E essa pode ser muito boa: o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Alves (PMDB-RN), está pressionando fortemente para que renuncie o deputado-pastor de currículo tenebroso — no qual se incluem ofensas aos povos da África e posturas similares, que ele vem tentando canhestramente explicar – escolhido para a presidência de uma das comissões mais sensíveis do Congresso, a de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

A escolha foi propiciada por uma manobra de que o PT é responsável, porque teve como objetivo propiciar ao partido o controle de outras comissões com mais poder sobre verbas públicas.

O presidente da Câmara dos Deputados é um velho integrante do “baixo clero” interesseiro da Casa, cuja ascenção ao cargo provocou enorme decepção e uma torrente de críticas.

Parace, porém, que o deputado Henrique Alves, que já adotou algumas medidas de austeridade na Câmara antes de pressionar o pastor-deputado Marco Feliciano (PSC-SP), está querendo melhorar seu prontuário político.

Se continuar nessa linha, não é bom apenas para sua carreira: é bom para o Legislativo e bom para o país.

Claro que ainda falta muito para que a Câmara dos Deputados recupere sua credibilidade — a começar pela renúncia do deputado-pastor, que resiste e não quer sair –, mas passos assim são saudáveis e devem ser aplaudidos.

Mais informações sobre este assunto e outros temas quentes no Radar On-Line.

20/02/2013

às 16:00 \ Política & Cia

“The Economist” chama Renan Calheiros de zumbi. Será? Vocês o chamariam como?

Renan: um "morto-vivo" que, na verdade, é vivíssimo (Foto: Agência Senado)

Os jornalistas da inteligentíssima e bem informada revista semanal britânica The Economist conhecem muito bem a America Latina e, naturalmente, o Brasil.

Assim, estranhei o fato de um de seus textos da edição deste último sábado, 16, ter classificado como “zumbi” o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

“Zumbi”, segundo o Dicionário Houaiss,  é um…

“Substantivo masculino ( 1680) B

1 alma que vagueia a horas mortas; cazumbi

2 p.ext. fantasma de animal morto

3 p.metf. indivíduo que só está ativo ou só sai à noite”

O vulgo também costuma chamar de zumbi, por causa do cinema, a figura dos mortos-vivos.

Como, assim, cara-pálida? Renan, “MORTO-vivo”? “Alma que vagueia” onde?

Pois Renan, pelo contrário, está vivo, vivíssimo! (Leia post a respeito).

É presidente do Senado — e ali está tudo dominado — e do Congresso, o Poder Legislativo brasileiro.

Vai dar um jeito de reeleger em 2014, embora a Constituição proíba — mas uma interpretação malandra do texto constitucional passou a considerar que, quando muda a legislatura, com a eleição de novos deputados e senadores, fica tudo zerado e a escolha dos presidentes da Câmara e do Senado não podem ser consideradas reeleições, mesmo que recaia sobre os ocupantes já sentados na respectiva cadeira.

Vai poder disputar quedas de braço com o Planalto em questões que interessam à presidente Dilma, e dar um jeito de, com isso, obter vantagens.

Vai fazer e acontecer dentro do próprio Senado, como ocorreu anteriormente, recheando cargos técnicos com cupinchas sem capacitação.

Vai lançar mão da TV Senado para se promover, como já lançou quando ocupou a presidência anteriormente, em 2007, período no qual os profissionais da emissora precisavam até viajar Brasil afora para registrar todos os passos de Sua Excelência.

Vai implantar o regime de “se está comigo, tudo, se está contra mim, nada”, como já ocorreu com a demissão de duas estagiárias que o criticaram em redes sociais.

Morto-vivo, hein? Tá bom…

 

18/02/2013

às 14:46 \ Política & Cia

Noblat: “Renan não tem o direito de ser cínico” diante de mais de 1,5 milhão de pessoas que já querem seu impeachment

"O controle que Renan exerce sobre o Senado é acachapante", escreve Noblat. Na foto, no dia 1º passado, o senador é festejado após sua eleição para presidir a Casa pelos senadores Eduardo Braga (PMDB-AM), Jader Barbalho (PMDB-PA), Gim Argello (PTB-DF) e Clésio Andrade (PMDB-MG) (Foto: Geraldo Magela / Agência Senado)

Cínico

Por Ricardo Noblat

Há limite para tudo – até mesmo para os direitos fundamentais das pessoas.

Por exemplo: você é livre para dizer o que quiser. Mas você não pode sair por aí dizendo o que quiser. A lei considera crime dizer determinadas coisas.

Ela também deveria punir quem abusa do cinismo – e por abusar, ofende a sociedade.

Foi o caso recente de Renan Calheiros (PMDB-AL), eleito presidente do Senado no início do mês. Abusou de ser cínico.

Um manifesto que pede o impeachment de Renan é o sucesso do momento nas paradas das redes sociais. Atraiu até agora mais de um milhão e meio de assinaturas. No dia em que for encaminhado ao Senado, seu destino será a lata do lixo.

Milhares de assinaturas obrigam o Congresso a examinar propostas de leis ordinárias, mas o afastamento de um dos seus dirigentes… Esqueça. Não me pergunte por que é assim. Simplesmente é.

O Congresso, que em 2007 absolveu Renan contra todas as evidências de que prevaricara, jamais o condenará. A cara do Congresso é igual ao focinho de Renan.

Expressiva fatia dos votos que elegeu Renan presidente do Senado pela segunda vez tem a ver com a tranquilidade que ele inspira aos seus pares. Quem esteve com a cabeça a prêmio tudo fará para que seus camaradas sejam poupados de experiência tão angustiante.

Renan governará o Senado por dois anos. E talvez por mais dois. Enquanto ali estiver, respirem em paz os senadores que temem ser alvo de uma ação moralizadora de origem interna ou externa.

O controle que Renan exerce sobre o Senado é acachapante.

O corregedor do Senado, encarregado de zelar pelo bom comportamento dos senadores, será uma figura da inteira confiança de Renan.

A presidência do Conselho de Ética caberá a outro homem de confiança de Renan. Ou do PT, o que não fará diferença.

Só terá assento ali quem representar a sólida garantia de que defenderá Renan acima de qualquer coisa, bem como todos os que desfrutem da condição de aliados fiéis dele.

No passado, acusado de quebra de decoro, Renan foi condenado pelo Conselho de Ética e absolvido pelo plenário. A história não se repetirá.

Portanto, tudo bem até aqui e a perder de vista – para Renan, os seus e aqueles que não se importam com essa coisa comezinha chamada ética.

Tudo bem, nada! Mas o que fazer se o Congresso (Câmara dos Deputados e Senado) está todo dominado?

Nem mesmo isso, contudo, assegura a Renan o direito de ser cínico. Excessivamente cínico. Abusivamente cínico. Descaradamente cínico. Insolentemente cínico.

Prefiro “insolentemente” cínico. Lembra-me um professor do curso ginasial que bradava com os alunos: “Não sejam insolentes”. Pois Renan foi ao comentar o pedido de impeachment dele.

(Clique aqui para continuar lento.)

07/02/2013

às 18:20 \ Política & Cia

Post do Leitor: Mantega viaja para trazer investimentos estrangeiros, ou só para acumular milhas?

Guido Mantega: milhas? (Foto: Wilson Dias / ABr)

Guido Mantega: investimentos para o Brasil ou... milhas? (Foto: Wilson Dias / ABr)

Amigas e amigos do blog, esse comentário do assíduo leitor Moacir mereceu se tornar um Post do Leitor. Vejam lá:

Prezado Setti,

Eu acho que está acontecendo o impossível: a ficha parece ter caído na massa encefálica sem sinapses dos donos da economia.

Lembra que eu mencionei aqui,faz alguns dias que estavam organizando um ROAD SHOW?

 

Pois é. Hoje, no Globo, li mais detalhes.

Mantega acaba de arrumar as malas para decolar, não para Caracas, Buenos Aires, La Paz, Quito e Teerã, esses lugares todos onde a economia está bombando devido a políticas libertárias, mas para Nova York, Londres, Tóquio e Cingapura onde vai tentar VENDER aos imperialistas malignos e mercenários – que coisa, sô! –, ou seja, a grupos internacionais CAPITALISTAS, um bilionário pacote de projetos de Dilma A Dura.

Entre energia, aeroportos, portos, ferrovias e rodovias, o pacotinho totaliza 370,2 bilhões de reais. Se Dilma não tiver finalmente descoberto que o Brasil mora no Vasto Mundo e se não estiver tentando falar inglês em vez de dilmês com os tão necessários (e indomináveis e animalescos) investidores então, diz O Globo: “O ministro viajará apenas para acumular milhas”

Os únicos problemas são: o conteúdo do tal PACOTE, a sintaxe utilizada na sua elaboração, e essas coisinhas que ficam acontecendo o tempo todo por aqui:

* o Executivo dando pitaco nas elétricas;

* a Petrobras perdendo 40% do seu valor de mercado em três anos;

A Petrobrás perdeu 40% do seu valor de mercado em 3 anos(Foto: Germano Luders)

A Petrobrás perdeu 40% do seu valor de mercado em 3 anos(Foto: Germano Luders)

* a inflação subindo;

* 3 mil vetos presidenciais paralisados no Congresso;

* o Legislativo peitando o Supremo;

* João Paulo dizendo que o Mensalão é Mentirão, sob os aplausos do embaixadorda Venezuela;

* o presidente do Senado denunciado,;

* Lula sob investigação do Ministério Público em Minas Gerais….

O que o investidor estrangeiro quer, nos países onde for colocar seu rico dinheirinho, é segurança, paz social, respeito às leis, independência de poderes, democracia, zero corrupção e burocracia.

Como o capital é dele, investidor, e não della, Dilma, precisa dar lucro.

Senão ele investe no México, no Chile, na Colômbia, ora, bolas.

Investidor não é masoquista.

31/01/2013

às 15:23 \ Política & Cia

Clic, clic, clic… A bomba-relógio do rombo da Previdência segue seu caminho

(Foto: photodictionary.com)

Vocês viram os números com que a Previdência Social fechou 2012?

Pois é: 43,2 bilhões de reais de déficit, 9% mais do que no ano anterior.

9% é mais do que a inflação, muito mais que o crescimento do PIB… e por aí vai.

Como sempre, a grande parte do problema ficou com a previdência dos funcionários públicos.

O presidente Fernando Henrique teve a coragem de promover mudanças na Previdência que requereram reformas na Constituição, mas não pôde ir até o fim devido ao fortíssimo lobby do funcionalismo junto a deputados e senadores.

O presidente Lula também avançou num terreno dificílimo. Conseguiu uma verdadeira proeza: aprovar no Congresso já no primeiro ano de seu mandato, 2003, reforma constitucional que limitou a aposentadoria de novos servidores ao teto do INSS, igualando-os à esmagadora maioria dos trabalhadores brasileiros, e determinando que quem quisesse manter o poder aquisitivo recolhesse para um fundo de previdência complementar para o qual o governo também contribuiria, tal como ocorre com os patrões nos fundos de previdência “fechados” das empresas.

Lula, porém, conseguiu outra proeza: empurrar com a barriga a constituição do fundo durante os oito anos de seu governo.

Só em 2007 enviou projeto de lei ao Congresso regulamentando a inovação. Seu governo não fez o menor esforço para que o Congresso aprovasse a criação do fundo.

Quando deixou o governo para Dilma, havia cerca de 250 mil funcionários mais no serviço público, que se aposentarão com salário integral em boa parte às custas do Tesouro — ou seja, de todos os demais brasileiros –, uma vez que a contribuição mensal sobre os vencimentos não é suficiente, na grande maioria dos casos, para pagar os proventos de aposentadoria pelo resto da vida do servidor.

Dilma, finalmente, obteve do Congresso, no ano passado, a lei que cria o fundo — na verdade, três fundos por ora separados, para os servidores do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.

Isso aliviará a Previdência daqui a três décadas ou mais. Nesse ínterim, são necessárias novas mexidas, como o aumento do tempo de contribuição e o aumento da idade mínima para aposentadoria — que países muito mais organizados e ricos do que o Brasil, como a Alemanha, o Reino Unido e vários outros integrantes da União Europeia jão fizeram ou estão fazendo.

Com esses 43,2 bilhões de reais, seria possível modernizar e ampliar dramaticamente a rede ferroviária brasileira, para ficar só em um exemplo.

Preferimos, no entanto, jogá-los no poço sem fundo dos déficits sucessivos.

Enquanto isso, a bomba-relógio do rombo continua clicando.

 

17/09/2012

às 15:37 \ Política & Cia

MENSALÃO: Acabou a festa — o relator Joaquim Barbosa diz no Supremo que “não há dúvida” de que houve compra de votos

Ministro Joaquim Barbosa: a bala de prata no esquema do mensalão (Foto: STF)

CHEGOU O DIA DELES!!!

Não adiantaram os desmentidos dos envolvidos, as mentiras, as invenções, as histórias mirabolantes, os malabarismos feitos por advogados pagos regiamente: o relator do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, acaba de atirar com bala de prata nos vampiros que há anos asseguram que o mensalão — compra de apoio parlamentar ao governo Lula com dinheiro público — é uma “farsa”, uma invenção da “imprensa golpista” e outras barbaridades do gênero.

Lendo serenamente seu longo voto que trata, justamente, do chamado “núcleo político” do escândalo, e lendo em pé, para evitar as dores de coluna não o deixam em paz, o ministro Joaquim Barbosa acaba de chegar à página 25 de seu texto. E disparou a frase fatal contra os mentirosos:

– Há farta documentação [nos autos deste processo] e não há dúvida da existência do esquema de compra de votos [no Congresso].

Tudo na leitura do relatório do ministro Joaquim indica que votará pela condenação de todos os envolvidos no núcleo político, a começar pelo “chefe da quadrilha”, segundo o Ministério Público: o ex-todo-poderoso chefe da Casa Civil de Lula e deputado cassado José Dirceu.

LEIAM TAMBÉM:

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17/07/2012

às 18:10 \ Política & Cia

Vejam a foto do Delúbio: não parece que ele está gozando com a nossa cara? Pois ele está. Saiba como

Delúbio, tal qual Lula: o mensalão não existiu (Foto: Ed Ferreira / Agência Estado)

Tudo seguiu o figurino previsto: Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT, assumiu sozinho, como se não existisse mais nada nem ninguém envolvido, a responsabilidade pela distribuição de dinheiro ilegal a políticos e a partidos da chamada “base aliada” do governo no Congresso durante o governo Lula — o escândalo do mensalão, que veio à tona em 2005.

Assumiu, sim, mas, segundo ele, o dinheiro repassado não teve a mais remota relação com o que chama de “o falacioso mensalão”. Não houve compra de apoio para o governo no Congresso, nem nada parecido — alega. O que houve foi distribuição de dinheiro para fazer frente a supostas “despesas de campanhas eleitorais”. Portanto, ele se declara inocente das acusações de ter praticado os crimes de corrupção ativa e  formação de quadrilha, constantes da denúncia do procurador-geral da República, apresentada em 2006 e recebida pelo Supremo Tribunal Federal em 2007.

Tudo com a bênção de Lula

O jornal O Estado de S. Paulo havia antecipado que, com a bênção do ex-presidente Lula, o chamado “núcleo central da quadrilha”, conforme definiu o então procurador Antonio Fernando de Souza, decidiu que fazer Delúbio assumir responsabilidade por irregularidade menor (distribuir para cobrir despesas eleitorais dinheiro não declarado, mas de origem supostamente legal) seria a tática utilizada para livrar a cara dos 38 demais mensaleiros. Teriam particiado da decisão, entre outros, o ex-ministro José Dirceu e o ex-presidente do PT José Genoino.

Em magras 35 linhas de um memorial apresentado ao Supremo por seus advogados, o ex-tesoureiro declara, em juridiquês, que “restou comprovado que o dinheiro utilizado para pagamento de dívidas de campanha foi obtido por meio de empréstimos, junto ao Banco Rural e ao banco BMG”.

Prudentemente, esqueceu que a CPI dos Correios — que investigou o mensalão — concluiu que o dinheiro teve origem em repasses ilegais de órgãos do governo para empresas do empresário Marcos Valério que, delas, fez o dinheiro andar para o caixa do PT e para as mãos de vários políticos.

A foto de Ed Ferreira acima é muito feliz. Parece que Delúbio está gozando com a cara de todos nós — o que ele, de fato, faz, ao praticar essa manobra.

05/07/2012

às 14:07 \ Política & Cia

Dora Kramer: “Há um assombro geral com a desfaçatez de Lula ao passar por cima de tudo e de todos”

Lula não é o espetacular articulador que se imagina, e nem comete erros novos (Foto: Reuters)

Lula não é o espetacular articulador que se imagina: apenas tinha, e agora não tem mais, os instrumentos do poder nas mãos (Foto: Reuters)

(Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo)

Mítica do articulador

Muito tem se falado sobre os recentes atos políticos imperfeitos do ex-presidente Lula.

Ora os tropeços são atribuídos a presumidos efeitos de medicação decorrente do tratamento de um câncer na laringe, ora a uma suposta crise aguda de onipotência pós-Presidência da República.

Seja qual for a tese defendida, seus autores partem do princípio de que Lula sempre acertou e de repente começou a errar sem uma explicação plausível para as falhas de seu instinto tido como infalível.

Há um assombro geral com a desfaçatez do ex-presidente ao passar por cima de tudo e de todos, da lógica, dos procedimentos institucionais, sem a menor preocupação com as circunstâncias de seus companheiros de partido e com a repercussão de suas ações sobre a opinião pública.

Da mesma forma que se acha capaz de submeter processos eleitorais à sua vontade, não avalia consequências, não dá ouvidos às críticas preferindo enquadrá-las na moldura da conspiração engendrada por adversários políticos, dos quais a imprensa seria agente engajado.

Ele não é o único a atuar de costas para o contraditório, como se qualquer ação estivesse a salvo de reações

Falta, nessas análises, um exame mais acurado do ambiente político como um todo e do histórico de ações de Lula.

Se olharmos direito, não é de hoje que age assim – fez e disse barbaridades enquanto estava na Presidência – nem é o único a atuar de costas para o contraditório como se qualquer ação estivesse a salvo de reações.

O Congresso vem construindo há muito tempo sua crescente desmoralização agindo exatamente da mesma forma: toma decisões que excluem o interesse público, voltadas para seus próprios interesses como se a sociedade simplesmente não existisse.

Os escândalos ali produzem no máximo recuos temporários, promessas não cumpridas e recorrentes avaliações de que o Parlamento é um Poder aberto e, por isso, vítima de ataques injustos.

O descarte de Marta Suplicy e o pedido de bênção a Maluf

Sob essa argumentação os erros se acumulam, mas não cessam. Quando se imagina que deputados e senadores tenham ciência do repúdio que provocam, eis que de novo tentam patrocinar uma farra de salários mal saídos de crises em série decorrentes de farras de privilégios outros.

Lula achou que pudesse descartar impunemente a senadora Marta Suplicy, aproximar-se de Gilberto Kassab ao custo do constrangimento da militância e do discurso petista, anular uma prévia reconhecida como legal no Recife, pedir bênção a Paulo Maluf, direcionar a posição de um ministro do Supremo Tribunal Federal e administrar uma comissão de inquérito ao molde de seus interesses como se não houvesse amanhã.

E escolheu agir assim por quê?

Porque é assim que as coisas têm funcionado na política.

Congresso Nacional: não deixa de ser reincidente (Foto: Luis Humberto)

Também o Congresso Nacional não deixa de ser reincidente, ao inocentar parlamentares de culpa comprovada, adiar a reforma política -- e por aí vai (Foto: Luis Humberto)

Lula não é o espetacular articulador que se imagina. Apenas tinha, e agora não tem mais, todos os instrumentos de poder nas mãos, os quais utilizou com ausência total de escrúpulos. Quem age ao arrepio das regras ganha sempre de quem é obrigado a segui-las.

Assim como faz o Congresso quando inocenta parlamentares de culpa comprovada, adapta a Constituição às suas conveniências, adia a reforma política, não acaba com o voto secreto para processos de cassação de mandatos e inventa regras segundo as quais a comprovação de desvios de vida pregressa não serve como critério de avaliação da conduta presente.

Nem Lula comete erros novos nem o Parlamento deixa de ser reincidente.

Ambos se unem no mesmo equívoco, imaginando que seja possível fazer a opção por atos erráticos acreditando que não chegará o momento em que aquilo que parece sempre certo começa irremediavelmente a dar errado.

(…)

03/07/2012

às 15:00 \ Política & Cia

Congresso precisa endurecer poderes das CPIs, sob pena de uma desmoralização adicional que não está em condições de suportar

O presidente da CPI, Vital do Rêgo, precisou encerrar a sessão de hoje da CPI do Cachoeira: nenhum depoente apareceu (Foto Geraldo Magela / Agência Senado)

Não tem o menor cabimento o desrespeito ao Congresso Nacional representado pelo pouco caso com que testemunhas da CPI do Cachoeira vem tratando seu dever de comparecer perante senadores e deputados.

Hoje, por exemplo, das quatro testemunhas convocadas, nenhuma compareceu, três delas com desculpas e manobras de estudante gazeteiro e uma delas sem sequer se dar ao trabalho de apresentar uma razão qualquer para a ausência, plausível ou não.

Não houve outra saída para o presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), que não encerrar a sessão.

É claro que o trabalho de uma CPI, como já ressaltei várias vezes, não se resume à tomada de depoimentos. Há montanhas de documentos a escrutinar — extratos bancários, relação de ligações telefônicas, relatórios da Polícia Federal, transcrição de gravações de telefonemas autorizadas pela Justiça…

É, porém, uma desfaçatez o que vem ocorrendo com sucessivos depoentes, que ignoram solenemente a CPI, tratando de suas convocações como se fossem brincadeira de moleques.

Isso configura um desrespeito não apenas à verdade dos fatos, que a sociedade toda espera que venha à tona com a CPI, mas um desrespeito ao Congresso Nacional — que, criticado e muitas vezes injustiçado, é e continua sendo, não obstante, representante legítimo do povo brasileiro, constituído por senadores e deputados eleitos em eleições limpas.

O fato de que muitos dos que criticam o Congresso não concedem importância à escolha de seu candidato na hora de votar não depõe contra o Legislativo — mas contra eleitores que se comportam assim, e aos quais falta a autoridade, que imaginam ter, de criticar os que elegeram de forma irresponsável.

O Congresso é quem faz as leis no país, e está em suas próprias mãos, assim, endurecer as regras que regem as CPIs, impondo com mais energia a obrigatoriedade do comparecimento de testemunhas às CPIs, tornando mais estritas as brechas para o não comparecimento e, se for o caso, dotando as comissões de mais poderes.

É o que deve ser feito, sob pena de uma desmoralização adicional que o Congresso não está em condições de suportar.

 

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