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Cinquenta Tons de Cinza

04/08/2013

às 10:05 \ Disseram

“Cinquenta Tons de Cinza”, o livro mais lido em Guantánamo

“Em vez do Alcorão, o livro mais requisitado pela maioria é Cinquenta Tons de Cinza. Eles leram a série toda em inglês.”

Jim Moran, deputada americana, depois de uma visita à prisão de Guantánamo, onde descobriu que os acusados de terrorismo islâmico detidos lá preferem leituras picantes

05/05/2013

às 18:00 \ Livros & Filmes

Depois da explosão de “Cinquenta Tons…”, há muito mais (boa) literatura erótica para ler. Seis escritoras dão seis dicas

O mundo do erotismo não exclui o da boa literatura (Foto:  Bob Carlos Clarke)

O mundo do erotismo não exclui o da boa literatura (Foto: Bob Carlos Clarke)

Texto de Luciana Ackermann, publicado em edição impressa da revista Lola

SEIS TONS DE OUTRA COISA

O mundo do erotismo não exclui o da boa literatura. Seis escritoras brasileiras indicam títulos em que esses encontros acontecem

Em pouco mais de seis meses desde seu lançamento no Brasil, a trilogia formada pelos romances Cinquenta Tons de Cinza, Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade, da britânica E. L. James (Intrínseca), bateu em 3,5 milhões de exemplares vendidos. No mundo, o número está na casa dos 70 milhões – é mais gente, por exemplo, do que toda a população da Grã-Bretanha.

Mas, como se sabe, depois do ápice vem um certo vazio: o que essa multidão ávida por narrativas picantes vai ler agora? Não é preciso esperar outro arrasa-quarteirão: sensualidade e erotismo estão espalhados em bons livros, muitas vezes fora da classificação habitual de literatura erótica.

A pedido de Lola, seis escritoras indicam títulos, clássicos ou não, em que se pode explorar esses universos de desejo secretos – uns até obscuros.

PORNOGRAFIA – Witold Gombrowicz (Companhia das Letras, 2009)

“Um homem de meia-idade passa a observar um jovem casal e a construir, a partir de gestos e insinuações, uma narrativa que, mais do que corresponder à realidade, serve para manter vivo seu próprio desejo. O romance não é exatamente um exemplo do gênero, mesmo assim tem a rara felicidade de desvendar as leis do erotismo e seu mecanismo de funcionamento. Em suma, tudo está na imaginação.”

Adriana Lunardi, autora de Vésperas e A Vendedora de Fósforos, entre outros

 

 

 

DELTA DE VÊNUS — Anaïs Nin (L&PM, 2005)

“A linguagem do sexo ainda está por ser inventada. A linguagem dos sentidos ainda está para ser explorada.”

Isso Anaïs Nin escreveu em fevereiro de 1941, há 72 anos – e a carência permanece.

Há muito tempo não surge alguém como ela, capaz de reunir sexo, força, elegância, música, paixão, curiosidade e poesia em um mesmo estilo.

Em Delta de Vênus, há dois exemplos interessantes de contos em que o protagonista é homem, “Manuel” e “O Aventureiro Húngaro” – delícia de textos. Neles, não há timidez nem apelo à orgia para fingir um erotismo forçado, uma liberdade que poderia parecer falsamente pornográfica ou caricata.

Anaïs fazia do seu jeito: uma junção poética de sentimento, liberdade, sexo e perfume – os textos dela têm cheiro e sabor. E cores, muitos tons diferentes além do cinza aborrecido.”

Claudia Nina, autora do recém-lançado romance Esquecer-te de Mim

 

LOLITA — Vladimir Nabokov (Alfaguara, 2011)

“O romance me fez entender uma faceta do desejo masculino. No caso, um desejo reprovável e terrível, que só a literatura consegue trazer à tona com liberdade.

Como se trata de alta literatura, o autor consegue fazer o leitor torcer pelo ato, acompanhando aquela obsessão convencido de que o personagem precisa daquilo.

É um desejo avassalador, incontornável. Quando acontece o ato, você não tem mais dúvida de que é uma criança. O cinema não teve essa coragem. É evidente que abomino homens que transam com crianças, claro, aqui a questão é que a literatura transforma chumbo em ouro e tem o dom de colocar o leitor onde ele jamais estaria. Ao terminar o livro, só pensei que se tratava de uma obra-prima!”

Andréa del Fuego, autora de Os Malaquias, entre outros

 

PORNOPOPEIA — Reinaldo Moraes (Objetiva, 2009)

“Livros eróticos a gente acha de monte, mas este foi o livro mais incrivelmente erótico que li. Não é um livro quadrado, e muito menos com sexo como tema central. Não é nada romântico, não é pornográfico.

Na verdade, a história é suja, envolve drogas, sexo e, por causa disso, muito humor. Vale muito a pena pela ousadia e pela história, que dão o `incrivelmente’ ao erótico.”

Luisa Geisler, autora de Contos de Mentira e Quiçá

 

 

A CHAVE DE CASA — Tatiana Salem Levy (Record, 2007)

“Uma jovem que viaja para Portugal e para a Turquia (e a Turquia nem existia em novelas) a pedido do avô, levando a chave da casa que o título anuncia. É um misto de relato de aventuras, de exercício de perdas e de sofrimento físico e moral.

Mas, acima de tudo, o livro transpira erotismo: todos os sentidos são convocados e há belas, e fortes, descrições de sexo. Algumas cenas são literalmente arrebatadoras.”

Cíntia Moscovich, autora de Arquitetura do Arco-Íris e Essa Coisa Brilhante Que é a Chuva, entre outros

 

 

O COMPLEXO DE PORTNOY — Philip Roth (Companhia das Letras, 2004)

“Foi o livro que mais mexeu comigo. É muito real, você vê o personagem vivendo tudo aquilo. Você se sente ele.

Eu me senti um homem lendo. Foi incrível. Tem uma riqueza de detalhes íntimos e neuróticos sem nenhuma vergonha, sem pudor.”

Tati Bernardi, autora de livros como A Mulher Que Não Prestava e A Menina Que Pensava Demais

 

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50 Tons de Cinza é o novo preto

06/04/2013

às 18:00 \ Livros & Filmes

LIVRO QUE ESTÁ EXPLODINDO DE VENDER: ‘Garota Exemplar’ leva às ultimas consequências os perigos do casamento

A escritora Gillian Flynn (foto: Heidi Jo Brady)

A escritora Gillian Flynn (Foto: Heidi Jo Brady)

Resenha de Raquel Carneiro publicada no blog Veja Meus Livros

“GAROTA EXEMPLAR” LEVA ÀS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS OS PERIGOS DO CASAMENTO

O novo livro da jornalista americana Gillian Flynn, Garota Exemplar (Intrínseca), segue a linha de mistério de suas duas obras anteriores, Sharp Objects e Dark Places, e apresenta um thriller intrigante sobre uma esposa desaparecida, um marido suspeito e um complicado caso a ser resolvido.

A obra ganhou notoriedade ao anotar no currículo a proeza de desbancar Cinquenta Tons de Cinza do primeiro lugar dos mais vendidos do site da Amazon e entrar para o topo da lista de bestsellers do New York Times.

3 milhões de exemplares em 37 semanas

Lançado em junho de 2012 nos Estados Unidos, o livro vendeu em 37 semanas três milhões de exemplares.O feito rendeu à sua autora um contrato para adaptar a história para o cinema pela produtora da atriz Reese Witherspoon, que se encaixaria com perfeição no papel principal, mas ainda não confirmou se atuará ou não no longa. David Fincher (A Rede Social, Os Homens que Não Amavam as Mulheres) está em negociação para assumir a direção.

Lançado em março no Brasil, a história foca em Nick e Amy Dunne, casal que vive à risca o papel de um conto de fadas moderno, com seus hábitos de estilo cult e metropolitanos na cidade de Nova York. Ambos gostam de se destacar dos demais casais comuns, aparentando uma relação tranquila, despreocupada e que parece não exigir esforços.

O rumo da história muda quando Nick, um jornalista cultural, enfrenta a crise que atinge a profissão e é demitido da revista em que trabalha. Amy, que é psicóloga, mas também trabalhava escrevendo para uma publicação feminina, passa pelo mesmo destino e perde o emprego.

Ao contrário do marido, Amy é uma garota rica e por isso não se preocupa tanto com a situação. Seus pais construíram um império ao escrever uma série de livros infantis chamados Amy Exemplar, claramente inspirados na filha.

De repente, sem dinheiro e sem perspectiva

As obras renderam uma fortuna à família e Amy poderia viver tranquilamente com o marido por um longo período por causa desse dinheiro. O que eles não imaginavam é que os pais da jovem eram péssimos administradores e acabaram gastando quase todas as economias para saldar dívidas.

Diante das circunstâncias, soma-se o fato de a mãe de Nick estar com câncer e precisar de ajuda em uma cidade no interior de Missouri. Sem dinheiro e sem perspectiva, o perfeito casal nova-iorquino precisa abandonar toda a vida construída até então para se mudar para um lugar provinciano e altamente afetado pela crise financeira nos Estados Unidos, que se arrasta desde 2008, e gerou um elevado índice de desemprego na região.

Os problemas minam o amor do casal, que se entrega ao marasmo e a uma vida distante do que sonhou para si.

Um desaparecimento e um suspeito: o marido

Insatisfeita com o relacionamento, Amy decide preparar uma surpresa para o marido no aniversário de cinco anos do casamento. Porém, ao chegar em casa, Nick encontra uma sala revirada, sinais de luta e sua esposa desaparecida. No desenrolar da história, o caso ganha notoriedade nacional, e a polícia, a mídia e toda a população do país apontam o marido como o principal suspeito do desaparecimento e possível morte de Amy. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

20/12/2012

às 19:00 \ Livros & Filmes

Entrevista com E.L. James, autora do livro mais vendido no mundo no momento: “Experimentar coisas diferentes [no sexo] com o parceiro pode ser um bocado divertido”

"As mulheres não querem e não devem ser submissas. Mas estamos falando aqui do que acontece no quarto, a portas fechadas" (Foto: Ni Sindication / Other Images)

"As mulheres não querem e não devem ser submissas. Mas estamos falando aqui do que acontece no quarto, a portas fechadas" (Foto: Ni Sindication / Other Images)

Publicado originalmente em 8 de agosto de 2012.

(Entrevista concedida a Isabela Boscov e publicada na edição de VEJA que está nas bancas)

“O SEXO NÃO TEM REGRAS”

 

Iniciada como uma brincadeira na internet, a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”, da inglesa E.L. James, virou um fenômeno ao combinar romantismo com sadomasoquismo

Mais de 20 milhões de exemplares já vendidos nos Estados Unidos, outros 10 milhões nos demais países de língua inglesa, 500 000 na Alemanha em apenas cinco dias, dezenas de milhares de cópias voando das prateleiras no Brasil, desde a semana passada: a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, da inglesa E.L. James, é um fenômeno inqualificável.

Escrita em prosa simples e não muito sofisticada, a história de como o jovem milionário Christian Grey se apaixona pela estudante virgem Anastasia — ou Ana — Steele é um romance tão descabelado quanto a criação que a inspirou, a série  adolescente Crepúsculo — exceto pelo fato de que Christian e Ana protagonizam cenas vívidas de sadomasoquismo, descritas em pormenores.

A combinação curiosa deu até origem a um novo termo, mommy porn, ou “pornô para mamães”. Vai também virar filme, sob supervisão da autora — uma londrina de seus 40 e tantos anos, filha de chilena e escocês, muito simpática e falante.

Casada e mãe de dois adolescentes, Erika Leonard fala de como foi pega de surpresa pelo sucesso, das reviravoltas em sua vida e, claro, de sexo.

 

O sadomasoquismo é uma fantasia feminina?

Creio que é uma fantasia que as mulheres não sabem ter até deparar com ela. Por razões óbvias, trata-se de algo muito subterrâneo, um tabu. Portanto, a maioria das mulheres não conhece os princípios básicos do sadomasoquismo — e essa novidade, em Cinquenta Tons, acabou se revelando muito atraente para as leitoras.

 

Mas as objeções que os críticos de Cinquenta Tons fazem à dominação sexual que Christian Grey impõe a Ana Steele são na maioria de caráter feminista — o tabu, hoje, é a ideia de uma mulher se submeter a um homem, não?

As mulheres não querem e não devem ser submissas, mas estamos falando aqui do que acontece no quarto, a portas fechadas. É bem sabido que a sexualidade ignora regras, e experimentar coisas diferentes com o parceiro pode ser um bocado divertido. Não significa que a submissão vai continuar fora do quarto, ora.

Fico ofendida quando alguém diz que estou contribuindo para um retrocesso da condição feminina. Que bobagem! O que Cinquenta Tons fez, na verdade, foi encorajar as mulheres a voltar a falar sobre sexo — e essa é a razão pela qual a trilogia, antes de ser encampada pelo mercado editorial, foi um fenômeno viral na internet. Isso não é retrocesso. É avanço.

 "Experimentar coisas diferentes com o parceiro pode ser um bocado divertido. Não significa que a submissão vai continuar fora do quarto" (Foto: IStockphoto)

"A maioria das mulheres não conhece os princípios básicos do sadomasoquismo — e essa novidade, (nos três livros da série) 'Cinquenta Tons', acabou se revelando muito atraente para as leitoras" (Foto: IStockphoto)

 

Existe muita ficção picante feita para mulheres. Por que sua trilogia, especificamente, se tornou um fenômeno?

A maior parte dessa ficção é produzida não sob impulso criativo, mas como um plano de marketing: vamos atender às demandas desse segmento demográfico com um produto talhado para ele. Mas nem que eu quisesse eu seria capaz de conceber um livro como estratégia de marketing. Sou uma diletante que começou a escrever sobre dois personagens que lhe vieram à cabeça e que foi sendo levada pela história deles.

Minha trilogia pode ter defeitos, mas a falta de autenticidade não é um deles. O meu interesse por Christian e Ana é genuíno e, nos termos do mercado editorial, inocente.

 

O que a levou a trocar sua carreira como gerente de produção em TV pela escrita?

Uma coincidência. Eu estava muito infeliz no último emprego — e, no mesmo momento, vi por acaso o primeiro filme da série Crepúsculo. Adorei. Pedi então ao meu marido que me desse o livro como presente de Natal. Ele me deu a série toda, e eu a li inteirinha, de cabo a rabo, em cinco dias. Antes do Ano-Novo já tinha terminado — e só não a recomecei do início imediatamente porque me sentei ao computador e comecei a escrever. Foi como se alguém tivesse acionado um interruptor em mim.

No princípio, escrevia para me consolar da insatisfação no trabalho. Mas a coisa foi ganhando vulto. Escrevi um romance entre janeiro e abril, e mais outro nos meses seguintes. Nenhum dos dois, aliás, viu a luz do dia até hoje: eu teria de mexer muito neles até deixá-los em condições mínimas de publicação.

 

O que a seduziu em Crepúsculo?

O fato de ser um romance tão assumido e tão desavergonhado no seu romantismo — feito sem ironia, sem tentar parecer mais do que é. E achei-o também muito erótico, embora seja tão casto.

 

Como essa brincadeira levou a Cinquenta Tons?

Descobri a fan fiction — sites em que fãs de determinado livro escrevem seus próprios contos ou livros tendo o original como inspiração. Achei que poderia ser um exercício divertido, e das minhas incursões nele me veio a ideia do que viria a ser Cinquenta Tons.

Mas era estritamente um passatempo. Nunca, nem nos meus devaneios mais delirantes, imaginei que a trilogia se tornaria o que se tornou. Mesmo quando o livro começou a fazer sucesso na internet, meu sonho se limitava a ver o livro exposto na vitrine de uma livraria — um único exemplar que fosse. E esse parecia então um sonho distante: Cinquenta Tons foi publicado originalmente por uma pequena editora australiana, em forma de e-book ou de edição impressa sob encomenda, que saía caríssimo para o freguês.

 

Os dois primeiros romances que a senhora escreveu, aqueles que nunca viram a luz do dia, têm algo em comum com Cinquenta Tons?

O primeiro também é um romance erótico, e o segundo tem elementos sobrenaturais. Embora sejam enredos completamente diferentes do de Cinquenta Tons, são ambos histórias de amor adultas. Isso é o que me interessa, histórias de amor — e o fato é que, quando as pessoas se apaixonam e começam uma relação, elas fazem sexo. Muito sexo, se não me falha a memória.

 

A senhora nasceu e morou a vida toda na Inglaterra. Por que então Cinquenta Tons se passa nos Estados Unidos, com personagens americanos?

Porque ele nasceu de um exercício de fan fiction de Crepúsculo, e eu não queria mudar o cenário geral nem a idade aproximada dos personagens. É claro que escrever em “americano” não foi fácil: faltam-me as referências culturais, o conhecimento das expressões idiomáticas do dia a dia — coisas que só conheço de filmes e seriados. É bem possível que eu tenha cometido escorregões, mas até agora nenhum leitor americano reclamou.

 

Crepúsculo, séria inspiradora, é "um romance tão assumido e tão desavergonhado no seu romantismo" (Foto: Divulgação)

Crepúsculo, séria inspiradora, é "um romance tão assumido e tão desavergonhado no seu romantismo" (Foto: Divulgação)

 

Talvez porque eles estejam mais preocupados com outros aspectos do livro?

O sexo, claro. Tenho estranhado um pouco a reação da imprensa e do público americanos: às vezes eles falam de Cinquenta Tons como se a trilogia fosse escandalosamente pornográfica. Ora, o sexo, inclusive o sexo descrito em termos gráficos, é frequente na ficção romântica.

Eu mesma, nos meus 30 anos, quando tinha de andar horas de metrô todo dia, adorava passar o tempo lendo autores americanos cujos livros pingavam sexo. Eu dobrava o livro no meio, para a capa e a contracapa ficarem encostadas e ninguém perceber com o que é que eu estava tão entretida.

Acho que o que chama atenção em Cinquenta Tons é o sadomasoquismo. Mas a minha versão dele é ligeiríssima se comparada com a coisa real.

 

A senhora recebe muita correspondência de fãs?

Dezenas de e-mails todos os dias. Eles vão desde congratulações até comentários sobre como a trilogia apimentou a vida sexual da leitora. E, em alguns casos, recebo mensagens de leitores e leitoras que, assim como Christian, sofreram abuso sexual na infância.

Algumas dessas mensagens são de levar às lágrimas. Então, por mais que se comente o sexo explícito do livro, acho que há também outras razões que fazem os leitores envolver-se com ele.

 

Qual a sua opinião sobre o termo “mommy porn”, que entrou em circulação por causa de Cinquenta Tons?

A mim parece que é uma dessas expressões que jornalistas adoram criar para categorizar coisas novas. Cinquenta Tons trata de uma relação consensual entre dois adultos. Não me incomoda que apliquem a palavra “porn” ao livro, portanto, porque ela perdeu o sentido de designação da pornografia de fato, no seu cunho explorativo e abjeto.

Hoje em dia tudo é “porn”: revistas de arquitetura e decoração são “property porn”, programas de culinária na televisão são “food porn”. Qual a importância de um “porn” a mais ou a menos?

 

Vir de outra profissão e não ter sido treinada como escritora atrapalhou ou deu à senhora mais liberdade para desprezar as convenções literárias que não lhe interessavam?

Ajudou muito mais do que atrapalhou. Eu tinha uma boa carreira e poderia ter continuado nela até o fim da vida. Escrevia para mim mesma e, portanto, fazia-o livre de angústia e de preocupações. Acho sinceramente que esse prazer na escrita transpira nas páginas dos livros e responde ao menos em parte pelo sucesso deles. O difícil, agora, é compreender essa criatura que a minha vida se tornou.

 

A senhora já se deu conta de que não há caminho de volta?

Não, não completamente. Até porque haverá: um dia essa comoção vai arrefecer. Por isso me orgulho um tantinho de poder afirmar que sou a mesma pessoa de antes de Cinquenta Tons. Não mudei, e sei que essa integridade me será útil no futuro.

 

Mas a trilogia a deixou rica, não?

Tento não pensar nisso. Aliás, nem preciso tentar: outro dia fiquei presa no metrô, por causa de um problema na linha, e os amigos com quem eu estava indo me encontrar perguntaram: “Mas por que você não tomou um táxi?”.

Não tomei porque nunca teria tomado, ora. Estava bem no metrô, vez por outra ele atrasa, e é assim que as coisas são. Não pretendo sair torrando dinheiro por aí. A bem da verdade, meu marido e eu fazemos o possível para esquecer que ele está lá, no banco.

Compramos um carro novo e tiramos longas férias em família, nós dois e nossos meninos, de 17 e 15 anos. Não há mais nada em que eu sinta necessidade de gastar neste momento. Depois, veremos.

 

A senhora saiu, da noite para o dia, de uma vida normal para uma roda-viva de viagens, contratos, sessões de autógrafos e entrevistas. Tem sido difícil lidar com a celebridade súbita?

Aqui na Inglaterra ninguém me reconhece, ou, se reconhece, não demonstra, o que ajuda a manter a aparência de normalidade da vida. As sessões de autógrafos são uma diversão: adoro conhecer as leitoras, e não me conformo com as intimidades que elas me contam. As entrevistas, tudo bem — exceto as de TV. Odeio com todas as minhas forças aparecer na TV.

Passei a vida do outro lado da câmera, e me sinto até meio mal, fisicamente, depois. Suponho que tenha algo a ver com vaidade: se eu fosse jovenzinha, magra e linda, talvez até gostasse. Mas acho que, na maior parte das vezes, essa aversão vem de essa ser uma situação fora do meu controle: não sei como vou aparecer no vídeo, como o material vai ser editado — sabe como é, de alguém Christian Grey tinha de herdar essa obsessão controladora.

Essa, eu diria, é a parte mais difícil da celebridade súbita. Sempre fui uma pessoa organizada, tanto que fiz da capacidade de organização uma profissão na TV. Hoje, quando estou a trabalho, há uma multidão encarregada de “cuidar” de mim: é para lá que a senhora vai, este é o hotel, aqui está o carro, a tal hora viremos buscá-la ou lhe dar de comer. Deve haver quem goste, mas eu acabo me sentindo uma incapaz.

 

Trilogia Cinquenta Tons de Cinza: um sucesso estrondoso, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos somente em língua inglesa

Trilogia Cinquenta Tons de Cinza: um sucesso estrondoso, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos somente em língua inglesa

Seus filhos demonstraram algum interesse na leitura de Cinquenta Tons?

Não, não, não. Meus meninos não leem nada, de jeito nenhum. Com a exceção de ameaçá-los com uma arma, já tentamos de tudo, mas parece que, para eles, não ler é uma questão de honra.

Nesse caso em particular, acaba sendo um alívio. Não quero nem imaginar meus garotos lendo Cinquenta Tons. Nem eles, claro: mamãe e sexo são duas ideias que não vão bem juntas.

Eles sabem por alto do que se trata. Sabem que tem um lado salaz, que é gráfico, que está fazendo sucesso — e têm orgulho desse sucesso, por mim. Mas dispensam maiores detalhes.

Outro dia, aliás, uma leitora de apenas 15 anos veio falar comigo. Tive vontade de dar um pito nela: “Sua mãe sabe que você está lendo isto aqui?”.

 

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20/10/2012

às 16:30 \ Tema Livre

Vai ser possível dar uma voltinha no espetacular Audi de Christian Grey, o protagonista de “Cinquenta Tons…”

O espetacular Audi R8 GT Spyder 2013: no Brasil, vai custar 1,2 milhão de reais

Nota publicada na seção “Holofote” da edição impressa de VEJA, por Otávio Cabral

O carro de Christian Grey

As mulheres em geral que não ligam para carros, mas que leram o best-seller Cinquenta Tons de Cinza, têm um motivo para visitar o Salão do Automóvel de São Paulo, que começa na próxima quarta, dia 24.

O Audi R8 GT Spyder, a nova versão de um dos bólidos do protagonista da série, estará em exibição e, a cada dia, 25 visitantes terão a oportunidade de dirigir o conversível pelas ruas que circundam o Anhembi.

O carro vai de zero a 100 km/h em 3,8 segundos e atinge a velocidade de 317 km/h.

A experiência será uma cortesia da montadora que produz o R8, mas quem quiser comprar uma das duas unidades que serão vendidas no Brasil terá de desembolsar 1,2 milhão de reais.

24/06/2012

às 16:05 \ Livros & Filmes

Sexo, sexo, sexo, do começo ao fim, no livro mais falado do momento — e o mais vendido no mundo

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A despeito de décadas de feminismo, ser subjugada e dominada por um macho alfa ainda seria mesmo a suprema fantasia feminina? (Foto: Getty Images)

(Publicado em VEJA de 6 de junho de 2012, por Mario Mendes)

 

CINQUENTA TONS DE CINZA: ATA-ME

O estrondoso sucesso mundial do livro “Cinquenta Tons de Cinza” sugere que, a despeito de décadas de feminismo, ser subjugada e dominada por um macho alfa ainda seria a suprema fantasia feminina

Anastasia Steele é uma radiante garota na flor de seus 21 anos, prestes a se formar em literatura. Ingênua e bem-comportada, ela nunca teve sequer um namorado. Na verdade, ainda é virgem. Perto dos 30 anos, Christian Grey tem cabelos acobreados, é alto, forte, de corpo muito bem definido, porém não musculoso demais, e bi – isto é, bilionário.

Os dois se encontram por acaso quando ela vai, no lugar de uma amiga, entrevistá-lo para o jornal da faculdade. A atração mútua é fulminante e avassaladora. Se Grey é a imagem perfeita do príncipe encantado dos sonhos de Anastasia, ele não suporta mais ficar um instante longe dela. Parece se tratar de uma união simplesmente divina, não fosse o fato de o magnata possuir um traço terrível e obscuro em sua personalidade.

Na luxuosa cobertura envidraçada onde vive, na cidade americana de Seattle, entre valiosas obras de arte e um piano de cauda branco – que ele toca com o talento de um virtuose -, existe “o quarto da dor”. Decorado com veludo vermelho e couro negro, o cômodo é equipado com cama gigante, almofadas confortáveis, chicotes, coleiras, correntes, algemas e todo o aparato necessário para intensas sessões de sexo sadomasoquista.

Em vez de propor casamento, Grey espera que Anastasia se torne sua escrava sexual e principal objeto de prazer. “Não sou do tipo romântico”, diz, em tom autoritário, para a aterrorizada porém perdidamente apaixonada donzela. Mesmo hesitante, ela aceita o desafio, que inclui total submissão, açoitamento, palmadas, olhos vendados, punhos atados e nenhum carinho.

Tudo descrito nos detalhes mais gráficos, epidérmicos e voluptuosos. Conseguirá a inocente heroína conquistar o amor verdadeiro mergulhando nessa relação no mínimo doloridíssima?

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PORNÔ PARA MAMÃES -- A trilogia de E.L. James tornou práticas sexuais nada ortodoxas palatáveis para o grande público: "As mulheres se sentiram encorajadas a voltar a falar sobre sexo", diz a autora

Esse é o enredo de Cinquenta Tons de Cinza, o livro que todo mundo está lendo, comprando, baixando na internet, comentando, recomendando, discutindo e, acima de tudo, a-do-ran-do no mundo inteiro. Devido ao caráter extremamente explícito das cenas de sexo, que vêm misturadas à linguagem simples dos romances baratos e ao enfoque descaradamente água com açúcar da história de amor, a obra já foi qualificada como “pornô para mamães” e “Cinderela tarada”.

Desde seu lançamento nos Estados Unidos, em março, vendeu mais de 10 milhões de exemplares em apenas seis semanas, tornando-se o maior fenômeno editorial dos últimos tempos e deixando para trás pesos-pesados como o mega-best-seller O Código Da Vinci e a saga Crepúsculo. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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