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chanceler Héctor Timerman

10/02/2012

às 20:09 \ Vasto Mundo

Fala de Cristina Kircher sobre as Falklands/Malvinas beira o ridículo atroz

A presidente Cristina falando à nação com o mapa das Falklands/Malvinas coberto com a bandeira argentina: "militarização" de milhões de km2 no Atlântico Sul com um só navio? (Foto: Leo la Valle / Agência EFE)

É patética, beira o ridículo atroz a acusação da Argentina, iniciada pela presidente Cristina Kirchner e formalizada hoje na ONU pelo chanceler Héctor Timerman, de que a Grã-Bretanha está promovendo “a militarização do Atlântico Sul” por ter enviado um único navio — o destróier HMS Dauntless — para patrulhar as águas das ilhas Malvinas/Falklands.

A assinatura, no começo da semana, de um decreto autorizando a liberação de documentos mantidos em sigilo durante três décadas sobre a Guerra das Malvinas (1982) – a “aventura militar” da ditadura militar argentina, como corretamente diz um relatório do governo – foi o pretexto para que a presidente abordasse o o tema.

Voz trêmula, falando à frente de um mapa das ilhas ao qual se sobrepôs uma bandeira da Argentina, a presidente declarou, sobre a “militarização” do Atlântico Sul:

– Não podemos interpretar de nenhuma outra maneira o envio de um destruidor (tradução para o espanhol um tanto assustadora para um destróier), acompanhado do herdeiro real vestido de uniforme militar e não roupas civis.

Ora, meu Deus do céu. “Militarização” do Atlântico Sul? Com o envio de um mísero destróier, por poderoso e ultramoderno que seja (tem até proteção contra radar)? O Atlântico Sul, que tem dezenas de milhões de quilômetros quadrados, está sendo “militarizado” pelo envio de um destróier para defender um recanto do que é, tecnicamente, território britânico desde 1833? (Vários países se revezaram, antes, no controle das ilhas, sendo que os argentinos só tiveram soberania sobre elas durante dois anos).

Tudo o que está ocorrendo, na verdade, é que o HMS Dauntless(“destemido”) está substituindo uma belonave de menor porte, a fragata HMS Montrose, como parte do sistema de defesa das Falklandas, como os britânicos denominam o desolado arquipélago de mais de 700 ilhas, ou Malvinas, como é tido pelos argentinos.Trata-se de um rodízio de rotina.

O poderoso destróier "HMS Dauntless" submetido a duras provas antes de entrar em serviço, em 2010 (Foto: dailymail.co.uk)

Desde a invasão das ilhas promovida pela ditadura argentina em abril de 1982, e que resultou em fragorosa derrota militar frente ao Reino Unido e na queda do regime tirânico, os britânicos, compreensivelmente, mantêm um esquema de defesa para as ilhas.

Dele fazem parte a Marinha, o Exército e a Real Força Aérea (RAF). Na parte naval, é esquema constituído sempre por um navio de guerra de maior porte – e já houve “destruidores” antes, como o HMS Edinbugh e o HMS Clyde, este último, por sinal, praticamente idêntico ao HMS Dauntless – e por um barco de patrulha.

O Exército mantém, em sistema de rodízio, 1.200 homens bem armados, o que inclui pelo menos uma potente bateria antiaérea, numa base a 60 quilômetros da capital das ilhas, Port Stanley.

A RAF estaciona nas ilhas quatro caças Thypoon, dois aviões de transporte de tropas, cargas ou combustível, e dois helicópteros de regate Sea King.

Um desses Sea King, por sinal, é motivo de especial irritação por parte do governo argentino, porque no aparelho está fazendo treinamento de dois meses e meio o príncipe William, futuro rei, que é tenente-aviador da RAF e pretende, acumulando horas de voo, ser promovido a capitão.

William serve as Forças Armadas como especialista em busca e resgaste. Mas é claro que o envio de “William Wales”, como ele é conhecido, às ilhas é um recado político do governo britânico.

Como disse o porta-voz do primeiro-ministro David Cameron, “os [cerca de 3.500] habitantes das ilhas são livres para determinar o seu próprio futuro e, a menos que eles queiram, não haverá negociações com a Argentina sobre soberania.”

E, gostem ou não os argentinos, os habitantes das ilhas, descendentes em sua maioria de ingleses que aportaram no arquipélago há mais de 300 anos, não querem. Pesquisas de opinião ao longo do tempo conferem sempre perto de 99% em favor da manutenção dos laços com o Reino Unido – o que inclui um percentual de chilenos e descendentes que habitam o arquipélago.

O jornal Clarín, de Buenos Aires, enviou recentemente uma repórter para sondar o ânimo dos kelpers, como são conhecidos os habitantes das ilhas, e – como assinalou o Estadão, em recente editorial –, a coisa mais suave que ela ouviu sobre o governo argentino foi:”Deixem-nos em paz”.

 

 

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