30/09/2011
às 17:31 \ Vasto MundoIgreja Ortodoxa russa quer proibir clássicos da literatura mundial

Vsévolod Chaplin, do Patriarcado de Moscou: guerra contra obras-primas da literatura e a canonização do czar (Foto: Alexander Zemlianichenk - AP)
Chega a ser tragicômica a notícia que vem circulando desde quarta-feira referente à intenção da Igreja Ortodoxa da Rússia de proibir dois dos maiores romances do século XX, duas obras-primas da literatura, Lolita, publicado pelo russo Vladimir Nabokov (1899-1977) em 1955 e Cem Anos de Solidão, de autoria do colombiano Gabriel García Marquez, cuja primeira edição chegou às livrarias em 1967.
Segundo o sacerdote Vsévolod Chaplin, assessor de comunicação do Patriarcado de Moscou, as obras “justificam a pedofilia” e “idealizam as paixões que fazem as pessoas infelizes”.
Além de pedir que os livros sejam banidos dos currículos literários escolares russos, Chaplin deu outras “recomendações”, divulgadas por diversos veículos do país. Entre as quais, que as mulheres observem o dress code ortodoxo – ou seja, utilizando saias mais compridas – e que exista um controle sobre os conteúdos de rádio e televisão.
Apenas ficção – e das boas
Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1982 e um dos maiores ícones do chamado Realismo Fantástico, Cem Anos de Solidão conta a saga da família Buendía, na qual não raramente os parentes casam-se ou relacionam-se afetiva e sexualmente. Mas sobre esse fio narrativo desfila todo um enorme rol de criatividade e beleza que encantou o mundo quando o livro saiu, e que ainda encanta.
Já Lolita, que Nabokov escreveu originalmente em inglês, só a traduzindo ao russo doze anos mais tarde, em 1967, relata a relação entre um professor adulto e uma adolescente. Obviamente, a obra transcende a sexo, sendo uma parábola riquíssima sobre a obsessão, a culpa, a solidão e a auto-depreciação.
E não custa lembrar que ambas são apenas ficção literária. Ou seja, histórias inventadas e contadas por craques da narrativa, a cujos personagens e suas ações não compete julgar se estão certos ou errados.
De acordo com a lógica delirante e repressora expressa por Vsévolod Chaplin, portanto, Romeu e Julieta, de Shakespeare, deveria ser proibida imediatamente para não incentivar o suicídio juvenil. Outra obra-prima da literatura mundial, Crime e Castigo, do russo Fiódor Dostoíewski, passaria a ser vedada para não sugerir o assassinato de velhinhas.
Se a “lição” do religioso fosse aplicada ao Brasil, então, não sobraria um leitor de Nelson Rodrigues, um dos maiores nomes de nossa literatura, com a sanidade mental ou a integridade física intactas. E assim por diante, os exemplos tendem ao infinito.
O fantasma da censura
Em ascensão desde a queda da União Soviética – bloco que oprimiu a religião – a Igreja Ortodoxa Russa, que já tem em seu currículo a canonização do czar Nicolau II e de toda a sua família. é seguida, de acordo com o mais recente censo, por cerca de 100 dos 142 milhões de russos.
Se, por pressão de seus maiores representantes, as grandes obras da farta e riquíssima literatura da Rússia ou de escritores internacionais passarem a ser censuradas, o antigo fantasma soviético voltará a assombrar a cultura russa: Lolita, por exemplo, foi proibido pela antiga ditadura comunista por seu conteúdo “pornográfico”.
Por sorte, as autoridades culturais russas já sinalizaram que não atenderão aos pedidos dos ortodoxos. Se bem que, num país em que o primeiro-ministro Vladimir Putin, um autocrata apelidado de Superman, manda no presidente da República, Dmitri Medvedev, deve voltar à Presidência — que já exerceu duas vezes — nas eleições do ano que vem e, como presidente, governou com poderes imperiais e zero de transparência, não é impossível que uma coisa dessas venha a acontecer.
Tags: Cem Anos de Solidão, censura, ditadura comunista, Gabriel García Marquez, Igreja Ortodoxa, inccesto, Lolita, Nelson Rodrigues, pedofilia, Romeu e Julieta, Rússia, União Soviética, Vladimir Nabokov, Vsévolod Chaplin, William Shakespeare

























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