Blogs e Colunistas

Casa Rosada

06/09/2012

às 15:00 \ Vasto Mundo

Argentina: o marxista que está por trás da crescente estatização da economia

FAVORITO -- Cristina ao lado de seu confidente em temas econômicos, o vice-ministro Axel Kicillof (Foto: Raul Ferrari/Télam/CF)

FAVORITO -- Cristina ao lado de seu confidente em temas econômicos, o vice-ministro Axel Kicillof (Foto: Raul Ferrari/Télam/CF)

Matéria de Tatiana Gianini, publicada em edição impressa de VEJA

 

TODO O PODER A “KICILOVE”

O jovem e sedutor Axel Kicillof é o ideólogo e o faz-tudo do plano a conta-gotas de Cristina Kirchner para centralizar a economia da Argentina nas mãos do Estado

Ainda de luto pela morte do marido, o ex-presidente Néstor Kirch­ner, há distantes 22 meses, a presidente Cristina Kirchner avança com um projeto político próprio. Se Néstor inventou o kirchnerismo, uma evolução do peronismo ainda centrado no favorecimento de empresários amigos, na perseguição a opositores e no uso dos sindicatos como instrumento de pressão, Cristina forjou o cristinismo.

Desde que ela assumiu o segundo mandato, o “modelo”, como dizem os argentinos, extrapola o legado político do marido. Sua ambição é ter o controle total da economia, em que o Estado definirá o que as empresas devem produzir, quanto vão investir e de onde importarão matérias-primas.

Não basta determinar os preços a ser cobrados. O cristinismo quer sentar-se na direção das companhias e tomar as decisões estratégicas. O homem com as habilidades para instalar à força essa nova fase já foi escolhido. É o economista de 40 anos Axel Kicillof, ou “Kicilove”, como a oposição o apelidou numa referência irônica aos seus olhos azuis e à sua pinta de cantor de tango.

Ele é membro do La Cámpora, o grupo de jovens liderado pelo filho da presidente, Máximo, que colocou 7 mil apadrinhados na burocracia estatal.

Militantes da organização La Cámpora em manifestação nas ruas: já com 7 mil filiados em cargos públicos (Foto: hacer.org)

Com costeletas protuberantes, antiquadas ideias marxistas e o primeiro botão da camisa sempre aberto, Kicillof precisou de apenas oito meses no governo para conquistar o status de confidente para assuntos econômicos da presidente.

Confiscar a Repsol foi ideia dele

Nomeado em dezembro passado para o segundo posto na hierarquia do Ministério da Economia, foi dele a ideia de confiscar as ações da espanhola Repsol na petrolífera YPF, em abril. De lá para cá, Kicillof estendeu sua influência. É ele quem define o preço da gasolina e, em breve, da eletricidade. Também instalou gente de confiança nos cargos de diretoria aos quais o governo tem direito em 41 empresas privadas com participação de fundos públicos.

Arrogante como só podem ser aqueles que se creem detentores de uma verdade ideológica absoluta, Kicillof mandou dizer que vai colocar um braço direito seu para comandar uma gráfica expropriada na quarta-feira passada. A empresa foi acusada de ter como sócio o vice-presidente, Amado Boudou, que tentou favorecê-la em uma licitação para imprimir dinheiro. Ao estatizar a gráfica problemática, a Casa Rosada valeu-se de uma tática no mínimo original para jogar areia sobre o escândalo.

Apesar de seus múltiplos defeitos, o kirchnerismo ainda acreditava que a iniciativa privada era necessária. Cristina não pensa assim. Com ela, a participação do Estado na economia se tornou a maior da América Latina: 42% do PIB. “Néstor Kirchner pressionava os empresários a baixar os preços, já Kicillof quer determinar diretamente os valores”, diz o cientista político Marcos Novaro, diretor do Centro de Pesquisas Políticas, em Buenos Aires.

Ele completa: “Estamos passando por uma clara transição de capitalismo de amigos para um capitalismo de Estado, com economia centralizada”.

Os empresários temem que o vice-ministro faça uso dos relatórios de orçamento das companhias e dos balanços para coibir demissões e forçar investimentos, mesmo que isso comprometa os lucros. Kicillof não liga para esse detalhe.

Quando ajudou a administrar a Aerolíneas Argentinas, estatizada em 2008, a companhia passou a registrar déficits anuais espantosos. Os empresários que se rebelarem contra as ordens de Kicillof correm o risco de ter suas empresas expropriadas. O ideólogo do cristinismo é um insaciável.

10/05/2012

às 14:00 \ Vasto Mundo

Argentina: A guarda pretoriana de Cristina Kirchner, liderada por seu filho, desfruta de cada vez mais poder

CRISTINA KIRCHNER-GRUPO LA CAMPORA-FAIXA (Foto: Editorial Perfil)

Cristina Kirchner desfralda bandeira homenageando a organização La Cámpora (Foto: Editorial Perfil)

 

A GUARDA PRETORIANA DO CRISTINISMO

(Reportagem de Tatiana Gianini, de Buenos Aires, publicada na edição de VEJA que está nas bancas) 

O exército de jovens denominado La Cámpora, comandado por Máximo, filho da presidente Cristina Kirchner, aumenta a influência no governo argentino ao liderar a expropriação da YPF e os ataques à imprensa

 

Na Roma antiga, a guarda pretoriana era responsável pela segurança dos imperadores. Na Argentina de hoje, tornou-se epíteto de um grupo de jovens responsáveis pela imposição da ideologia da presidente Cristina Kirchner e da perpetuação de sua família no poder. Os membros do La Cámpora, como se chama a agrupação, são liderados por Máximo, de 35 anos, filho da governante.

Máximo Kirchner: guardião ideológico e sucessor do clã (Foto: Editorial Perfil)

Máximo Kirchner: guardião ideológico e sucessor do clã (Foto: Editorial Perfil)

Não há ministério ou repartição pública argentina em que eles não estejam infiltrados. No ano passado, mais de 7 mil novos cargos públicos foram oferecidos a membros do La Cámpora ou a pessoas indicadas por eles. Desses, pelo menos quarenta são cargos-chave do governo.

Os camporistas gerenciam algumas das principais empresas estatais, como a Aerolíneas Argentinas e a agência de notícias Télam, e conquistaram dez cadeiras no Congresso. Máximo e seus amigos estão por trás das medidas recentes mais truculentas da Presidência de Cristina, como os ataques à imprensa independente e a expropriação da petrolífera YPF, controlada pela espanhola Repsol, aprovada na semana passada pela Câmara dos Deputados.

ELEIÇOES2011_ARGENTINA_LA CAMPORA 172 Natacha Pisarenko/AP

Jovens camporistas, na campanha para reeleição, em 2011 (Foto: Natacha Pisarenko / AP)

O La Cámpora surgiu como uma alternativa aos órgãos de sustentação do peronismo tradicional. Em 2003, após ser eleito presidente com parcos 22% dos votos, Néstor Kirchner concluiu que necessitava de um instrumento para exercer o populismo, um mal atávico da política argentina, com total controle.

Os sindicatos, que no peronismo costumam exercer essa função, não lhe pareciam suficientemente confiáveis. O presidente pediu ao filho, Máximo, que reunisse seus amigos para criar uma agremiação leal ao kirchnerismo. Assim nasceu o La Cámpora.

O nome do grupo homenageia Héctor José Cámpora, o efêmero presidente argentino que governou o país por 49 dias, enquanto Juan Domingo Perón estava no exílio. [Cámpora, dentista de profissão, fez toda a sua campanha eleitoral em 1973, quando os militares que implantaram uma ditadura em 1966 se aprestavam a deixar o poder, com base na promessa de que, uma vez eleito e empossado, renunciaria e convocaria novas eleições para que Perón, preparando sua volta ao país do exílio em Madri, pudesse ser eleito.]

Em 2007, após eleger a própria mulher, Cristina, como sucessora, Néstor passou a receber os camporistas em encontros quase semanais. O grupo ganhou destaque em 2008, ao apoiar o governo na crise com os fazendeiros, quando Cristina tentou validar no Senado a restrição às exportações agrícolas.

Dois anos depois, Néstor morreu de infarto. “Foi quando os jovens do La Cámpora preencheram em definitivo o círculo de confiança de Cristina, uma princesinha peronista que, privada dos conselhos do marido, teve de aprender a fazer alianças e a governar”, diz a socióloga Laura Di Marco, autora do livro La Cámpora, recém-publicado na Argentina.

MAYRA MENDOZA 1

Mayra Mendoza, musa da guarda pretoriana da presidente (Foto: Editorial Perfil)

Há uma “musa” na liderança

A cúpula é composta de Máximo e seis subordinados. Três são deputados nacionais: Andrés Larroque, Eduardo de Pedro e a única mulher (e musa) da liderança, Mayra Mendoza.

Mariano Recalde preside as Aerolíneas Argentinas. Os outros dois, Juan Cabandié e José Ottavis, são deputados provinciais. O camporista mais comentado das últimas semanas é Axel Kicillof, vice-ministro da Economia, um dos responsáveis por coordenar o confisco da YPF e o principal conselheiro da presidente em matéria econômica.

O baixo escalão do La Cámpora é formado por jovens cuja memória política mais antiga se refere aos anos de 2001 e 2002, quando o país chegou ao fundo do poço, do qual acreditam terem sido tirados pelo kirchnerismo.

No ano passado, durante a campanha para a reeleição de Cristina, uma das atividades da militância consistia em comprar legumes e verduras em mercados centrais para vendê-los a preço de custo em praças da cidade. “Queremos mostrar que o alto valor pago pela comida nos supermercados de bairro não se deve à inflação, e sim aos intermediários”, diz Enrique Aurelli, dirigente do La Cámpora no bairro de San Telmo, em Buenos Aires.

O argumento é o mesmo que o governo usa para culpar os empresários pela inflação, atualmente em 25% ao ano, segundo dados não oficiais, e pelo desabastecimento de produtos. Na realidade, ambos os problemas são resultado da política de gastos públicos exacerbados, de controle de preços e de protecionismo.

Cerco à imprensa

Daniel Dessein_5

Daniel Dessein: "temos bons motivos para ficar preocupados" (Foto: Mariana Eliano / Archivolatino)

A atuação mais visível do La Cámpora não está na defesa ideológica das políticas econômicas de Cristina, mas no cerco à liberdade de imprensa.

Em dezembro passado, o governo aprovou uma lei que tornou o papel para a impressão de jornais um insumo de interesse público, sujeito ao controle do Estado. Suspeita-se que o objetivo seja repetir o que ocorreu nos anos 50, quando Perón reduziu a importação de papel e passou a distribuir a matéria-prima de forma arbitrária para reduzir a circulação dos jornais opositores. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

14/01/2012

às 17:34 \ Vasto Mundo

Vitória eleitoral, luto, mausoléu, biografia e um provável filme: Cristina Kirchner consolida dinastia na Argentina

O mausoléu de Kirchner: com 3 andares e 660 m2 de construção num terreno de 2 mil m2, kirchnerismo já tem local de peregrinação

Publicado originalmente em 3 de novembro de 2011

Depois de sua arrasadora vitória eleitoral do último dia 23, quando obteve no primeiro turno mais de 53% dos votos dos eleitores contra apenas 16% do concorrente mais próximo, a presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, continua dando passos para consolidar a mitologia da “dinastia Kirchner”, iniciada por seu marido, Néstor Kirchner, quando eleito para a Casa Rosada em 2003.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Boa parte dos elementos para tal, inclusive alguns característicos da política argentina, como a relação com a morte, já estavam postos antes da vitória de Cristina, cuja foto aninhada nos braços de um Kirchner vitorioso, aparentemente sua preferida, está por toda parte.

Em todos os discursos, referências a “él”

A presidente, política de carreira (ex-deputada provincial, deputada federal e senadora) e eleita pela primeira vez para o cargo em 2007 após a morte súbita do marido, veste-se de luto desde então e passou praticamente o último ano recordando Kirchner em todos os seus discursos ou falas informais, sempre sem precisar citá-lo pelo nome mas referindo-se a él (“ele”), como se se tratasse de uma entidade.

Ao votar em Río Gallegos, terra natal de Kirchner e capital da província de Santa Cruz (que ele governou), na Patagônia, e mesmo antes de abertas as urnas, ela praticamente dedicou ao marido a vitória, dizendo:

– Eu sei que él, onde esteja, deve se sentir muito feliz por tudo o que ocorreu antes, e porque as pessoas vão votar e tudo está em paz e concórdia.

A foto preferida: ainda primeira-dama, aninhada a "El Pingüino"

Quatro dias após a vitória, na quinta, 27, no exato primeiro aniversário da morte de El Pingüino (o pinguim), um dos bem-humorados apelidos com que os argentinos brindaram Kirchner, no caso por ter nascido na gelada Patagônia, ela esteve presente à inauguração do enorme mausoléu dedicado ao marido em sua cidade natal, financiado por amigos e admiradores e para onde foi transferido seu corpo, até então no cemitério da cidade.

O kirchnerismo, pois, dispõe de um local de peregrinação, como compete.

Sigla, a presidente já tem, há tempos, como toda líder que se preze: CFK, iniciais de seu nome completo.

Depois do livro, um provável filme

Livro autobiográfico oficial, também: La Presidenta, edulcorada entrevista sem perguntas incômodas conduzida pela jornalista kirchnerista Sandra Russo, e em cuja capa Cristina aparece, séria, com o tradicional luto e a mão esquerda no peito. Está em todas as listas de best-sellers desde seu lançamento, em agosto.

"La Presidenta": versão edulcorada da vida de Cristina

Se for necessário deter um partido ou um movimento dentro da enorme, confusa e disparatada salada ideológica que é o peronismo, lá está, também, pretendendo integrar sua “ala progressista”, a Frente pela Vitória (FPV) da presidente.

Se faltasse alguma coisa mais para fechar o ciclo do culto kirchnerista – um filme –, a lacuna logo será preenchida. No entorno da presidente, fala-se com entusiasmo em um filme sobre a história de amor dos dois jovens que se casaram em 1975, seis meses depois de se conhecerem na Faculdade de Direito da Universidade Nacional de La Plata, cidade natal da presidente, ela com 22 anos, ele com 25. O casal teve dois filhos – Máximo, hoje com 34 anos, e Florencia, com 21.

12/11/2011

às 19:40 \ Política & Cia

Especialista americano adverte: o terror islâmico já está no Brasil

Washington, D.C., 27 de Outubro de 2011. O embaixador americano Roger Noriega no seu escritório em Washington D.C. Foto de Mabel Feres

Roger Noriega no seu escritório em Washington. D.C.: o terror islâmico se infiltrou na América Latina e está presente no Brasil (Foto: Mabel Feres)

Em entrevista ao jornalista Leonardo Coutinho publicada pela edição de VEJA que deixa hoje as bancas, o embaixador Roger Noriega, americano neto de imigrantes mexicanos nascido em Kansas e especialista em América Latina, descreve como o terrorismo islâmico está infiltrado no continente e chega ao Brasil: ”Rezo para que as autoridades brasileiras deixem de cometer o erro de ignorar o terrorismo”, diz ele. “O risco para o país é real e iminente”.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O Brasil não é imune a atentados

Nas últimas duas décadas, o embaixador americano Roger Noriega, de 51 anos, atuou na linha de frente na elaboração da política externa dos Estados Unidos em relação à América Latina. Trabalhou como consultor do Congresso americano e, no governo de George W. Bush, foi chefe da delegação dos EUA junto à Organização dos Estados Americanos (OEA) por dois anos.

Em 2003, assumiu o cargo de secretário adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental, do Departamento de Estado. Ficou no posto até 2005, quando deixou a vida pública para atuar no American Enterprise Institute for Public Policy Research, um centro de estudos em Washington que reúne pesquisadores das mais diversas áreas, principalmente as de segurança e políticas públicas.

Em outubro, uma semana antes da prisão do iraniano acusado de planejar um atentado contra o embaixador da Arábia Saudita em Washington, Noriega divulgou um artigo sobre as atividades do Irã e do grupo libanês Hezbollah na fronteira mexicana. Na entrevista a seguir, ele conta como foi capaz de antecipar a presença dos terroristas nas franjas do território americano e denuncia a escalada do terror na América Latina.

Como o senhor sabia que o Irã e o Hezbollah atuavam em consórcio com traficantes mexicanos?

Nossa investigação foi baseada em meses de estudos realizados por uma equipe de quatro pessoas que percorreu, além do México, muitos países vizinhos. Essa equipe entrevistou autoridades e fontes secretas nos grupos comandados pelo libanês Hezbollah na região. Nós juntamos os nomes, ligamos os pontos e revelamos uma realidade perigosa.

O Irã e o Hezbollah têm expandido suas bases na América Latina com o objetivo de promover atentados terroristas. Eles construíram uma estrutura operacional de recrutamento, treinamento e captação de recursos. Os fatos observados indicam que os terroristas compartilharam suas experiências com os cartéis do tráfico no México.

Além do relatório publicado a respeito no site do American Enterprise Institute for Public Policy Research, que antecipou as informações sobre essas ações extremistas, nós produzimos um documento confidencial compartilhado com autoridades e vários governos da região.

Por que os Estados Unidos demoraram a detectar essa movimentação em sua fronteira sul?

Gasto grande parte do meu tempo explicando aos políticos americanos que negligenciamos a América Latina.

Recentemente, apresentei no Congresso provas consistentes das atividades desses grupos terroristas no continente. Nossos investigadores identificaram pelo menos duas redes paralelas que colaboram entre si e crescem de forma alarmante na América Latina.

Essas redes são compostas de mais de oitenta extremistas instalados em doze países, concentrados sobretudo no Brasil, na Venezuela, na Argentina e no Chile. Nós não podemos enfrentar as ameaças transnacionais do tráfico de drogas e do terrorismo sem a cooperação de nossos amigos na região.

Por isso, os Estados Unidos precisam prestar mais atenção na região, estabelecer relações econômicas fortes e saudáveis para estimular o crescimento, a prosperidade e a estabilidade entre nossos vizinhos.

Adel-Al-Jubeir-Reuters

O embaixador saudita em Washington, Adel Al-Jubeir: alvo de complô falido de traficantes mexicanos e Quds iranianos

Qual tem sido o papel da CIA, a agência de inteligência americana, em relação a esse problema? » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados