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Campeão Brasileiro

04/12/2011

às 19:40 \ Tema Livre

Sócrates, o craque e o cidadão: deixo de lado a objetividade jornalística e choro sua morte

Sócrates: sua identificação definitiva com o Corinthians ia muito além da mera paixão clubística (Foto: Irmo Celso)

A morte de Sócrates, o grande craque, doi e revolta.

Sócrates não foi apenas um dos grandes craques da história do futebol brasileiro, o gênio de calcanhar de ouro, dos dribles surpreendentes para quem tinha seu porte físico, da visão inteligente e criativa de jogo.

Sócrates foi um brasileiro de seu tempo, preocupado com seu país e sua gente. Líder da democracia corintiana, foi aos palanques da campanha das Diretas-já em pleno regime militar, sempre se lixando para o que pensavam ou poderiam fazer os cartolas de clube ou os mandachuvas da CBF.

O futebol como metáfora da vida

Suas simpatias políticas, daí para a frente, poderiam ser questionadas, mas isso não importa: diferentemente da massa alienada de craques que só pensam em ganhar dinheiro e nos prazeres que ele pode proporcionar, Sócrates era um cidadão consciente, sintonizado  com os problemas de seu país e alguém que sentia fundo as dores do mundo.

Sua identificação com o Corinthians seria algo que o acompanharia até seu triste e prematuro fim, e não decorria de mera paixão clubística. Enxergava no futebol mais do que um esporte: uma metáfora da vida, cheia de paixão e fúria, de grandeza e miséria. Um esporte, sim, mas que espelhava o que existe de mais profundo na alma humana: a solidariedade, o altruísmo, a superação, a entrega, a comunhão com o povo – e também o outro lado da medalha.

A partida contra o Palmeiras, hoje, em que o Corinthians selou seu quinto título de Campeão Brasileiro, acabou sendo uma grande homenagem do Timão e especialmente da torcida a um de seus maiores ídolos em mais de 100 anos de história. “Doutor Sócrates, eternamente em nossos corações”, dizia uma das faixas portadas por torcedores, que lançou mão de um verso do hino do clube para dar seu recado de tristeza e de adeus.

O capitão Sócrates quando tocava a bola para fazer o segundo gol do Brasil, no fatídico 3 a 2 para os italianos em 1982 (Foto: Rodolpho Machado)

Saudável ceticismo diante da condição de ídolo

Tive o prazer e a honra de conviver longamente com Sócrates há muitos anos, durante os meses de preparação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 1982, na Espanha, e,depois, durante os 50 dias em que a Seleção permaneceu na Europa para disputar aquele título que, mais do que nenhuma outra, merecia ganhar.

Telê Santana, técnico formidável, não errou ao escolhê-lo capitão do time. Sua liderança era natural, espontânea, ninguém a colocava em dúvida.

Pude testemunhar, nesse período, seu alto grau de inteligência, seu senso de humor, seu interesse por uma enorme variedade de aspectos da vida e do mundo, o saudável ceticismo com o qual ele encarava tanto sua condição de ídolo quanto toda uma série de situações artificiais e efêmeras que o futebol propicia.

Guardo até hoje sua camisa 8

Um homem reto, bom, generoso. Até hoje tenho – sob guarda de meu filho Daniel –, a camisa 8 que ele tanto honrou e que me deu na concentração da Seleção em Mas Badó, nas proximidades de Barcelona, no dia seguinte à histórica vitória de 3 a 1 sobre a Argentina, com Maradona e tudo, e às vésperas da fatídica e injusta derrota para a Itália que colocou fim ao sonho do time de Telê Santana levantar a Copa FIFA.

O tamanho da figura de Sócrates para o Corinthians e o futebol brasileiro tornariam desejável que tivesse um velório no qual pudesse ser homenageado por muitos milhares de torcedores — na sede do Corinthians, no Estádio do Pacaembu, na Assembleia Legislativa do Estado, onde fosse. A família, porém, cuja vontade deve ser respeitada, preferiu uma cerimônia menos ruidosa em Ribeirão Preto, a 330 quilômetros de São Paulo, a cidade onde se radicaram seus pais, paraenses, e onde nasceram vários dos irmãos do Doutor, como Raí.

Hoje, deixando de lado qualquer objetividade jornalística, choro por ele.

 

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