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25/11/2011

às 14:45 \ Tema Livre

O tubarão é o grande predador dos mares, sim — mas o maior predador dele somos nós, seres humanos

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RETRATO AMARGO: Ilustração do artista carioca Leonardo Porto premiada pelo Greenpeace: a poluição do ambiente marinho

O predador do predador

O peixe tem fama de vilão, mas é o homem quem mata 70 milhões de tubarões por ano — só para lhes arrancar as barbatanas — e enche de lixo os oceanos onde eles vivem

Sempre que um tubarão ataca um banhista, evoca-se sua condição de grande predador dos mares. A reputação é justa, já que ele é carnívoro e está no topo da cadeia alimentar dos oceanos.

A imagem da fera que ronda as praias à espreita de humanos desavisados para lhes mastigar os membros, porém, é falsa. Os ataques de tubarões a mergulhadores são acidentais. Ocorrem quando eles são confundidos com focas, tartarugas, leões-marinhos e peixes de grande porte.

Em comparação com suas presas favoritas, o ser humano tem pouca gordura no corpo e não agrada ao paladar dos tubarões. É por isso que suas vítimas não são devoradas — quando o ataque acaba em morte, é por hemorragia ou afogamento.

Eles surgiram antes dos dinossauros, e agora estão ameaçados

Se os tubarões atacam o ser humano por acidente, a recíproca não é verdadeira. Esses peixes contam-se entre as maiores vítimas da pesca predatória no planeta. Uma preciosidade da evolução, os tubarões surgiram antes mesmo dos dinossauros, há 400 milhões de anos, e agora começam a sucumbir à sanha destruidora do ambiente do bicho homem.

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Nova Southeastern e da Universidade Stony Brook, ambas nos Estados Unidos, concluiu que todo ano 73 milhões de tubarões são pescados. Das 465 espécies já identificadas pela ciência, 74 estão ameaçadas de extinção. Apenas uma parte ínfima dos animais é pescada para que sua carne se transforme em alimento — no Brasil, essa carne chega à mesa sob o nome de cação.

Prática cruel: cortar as barbatanas e lançar o tubarão mutilado ao mar

O principal objetivo dos pescadores é a retirada das barbatanas, valiosas porque a sopa feita com elas é consumida como iguaria na China e, em escala menor, no Japão, em Taiwan e em Singapura. Em geral, os pescadores lanção mão de uma prática extremamente cruel na pesca aos tubarões: capturam os animais, arrancam suas barbatanas e os devolvem agonizantes ao oceano.

Barbatanas de tubarão: a sopa é sinal de status na China, e o consumo predatório aumenta (Foto: Morrison World News)

Um quilo de barbatanas vale, em média, 450 dólares. A sopa, um prato caro, é aguada, quase sem gosto e tem fibras gelatinosas que lembram os finos fios do macarrão oriental. Para os chineses, a sopa de barbatanas de tubarão não significa sabor, mas tradição. Na época das dinastias Sung (960-1279) e Ming (1368-1644), ela era consumida apenas nos banquetes oferecidos pela elite chinesa.

Hoje, como reflexo daquela época, é sinal de status. É servida frequentemente em casamentos e chega a responder por 20% dos gastos da cerimônia. Com o crescimento econômico da China, a demanda pelas barbatanas não para de crescer. “Aqui, no Brasil, se quero mostrar aos amigos que estou bem de vida, sirvo caviar e lagosta. Na China, eles servem sopa de barbatana de tubarão”, compara o biólogo marinho Marcelo Szpilman, diretor do Instituto Aqualung.

Não há lei internacional que vede a prática

Os tubarões são particularmente sensíveis à pesca predatória porque têm poucos filhotes e o tempo de gestação é relativamente longo, de oito a onze meses, dependendo da espécie. Não existe lei internacional que restrinja a pesca do tubarão para a retirada das barbatanas.

Alguns países, porém, têm tomado medidas para evitar a rápida diminuição das populações do animal. Quatro Estados americanos, Califórnia, Havaí, Washington e Oregon, proibiram neste ano o comércio de barbatanas e a sopa não pode mais ser oferecida pelos restaurantes.

No Caribe, as Bahamas proibiram a pesca de tubarão, inclusive para uso da carne, em julho deste ano. Do outro lado do planeta, Maldivas e Palau também proíbem a pesca. Os três países contam com o tubarão para atrair turistas. Nas Bahamas, os mergulhos de observação rendem 80 milhões de dólares por ano à economia do país.

No Brasil, também se pratica a pesca para a retirada de barbatanas. Em agosto do ano passado, o Ibama apreendeu 1 400 quilos de barbatanas congeladas que seriam remetidos irregularmente para Hong Kong. A empresa pesqueira responsável foi multada em 128 000 reais porque não conseguiu mostrar as carcaças correspondentes — o que leva a crer que os tubarões mutilados haviam sido jogados de volta ao mar.

Uma portaria do Ibama determina que não se podem descartar carcaças de tubarão sem barbatanas e que, no desembarque, o peso das barbatanas tem de corresponder a 5% do peso das carcaças. Outros países adotam normas semelhantes.

CREDITO: MATTHEW MEIER/CATERS NEWS

Carinho no focinho: a mergulhadora italiana Cristina Zenato - domadora de tubarões (Foto: Matthew Meier / Caters News)

Seu desaparecimento seria catastrófico

O desaparecimento dos tubarões traria alterações catastróficas ao ecossistema oceânico. Como figuram no topo da cadeia alimentar, eles influenciam a sobrevivência de todos os animais marinhos que estão em sua base.

Um caso ilustrativo ocorreu na ilha australiana da Tasmânia há vinte anos. A pesca exagerada de tubarões levou à superpopulação de uma de suas principais presas, os polvos, que por sua vez praticamente acabaram com as lagostas da região. O desaparecimento dos tubarões quase levou à falência a indústria da pesca da lagosta na Tasmânia.

Má reputação, mas podem ser inofensivos

Ao contrário do que ocorre com as baleias, a preservação dos tubarões não desperta a mesma mobilização das entidades ambientais. Em parte, isso se deve à má reputação do animal. E também à sua aparência assustadora, atribuída basicamente ao fato de ele nadar de boca aberta. Ele o faz simplesmente porque de boca fechada não consegue respirar.

A maioria dos peixes respira por meio dos opérculos, aberturas localizadas nos dois lados da cabeça, que criam um fluxo e puxam a água para dentro da boca. Os tubarões não têm esse mecanismo. Precisam ficar o tempo todo nadando — e com a boca aberta — para que a água passe pelas fendas branquiais.

Na verdade, os tubarões podem ser inofensivos em contato próximo com os humanos. Que o diga a mergulhadora italiana Cristina Zenato, que consegue transformá-los em animais dóceis a seus carinhos. Seu segredo: massagear seu focinho para estimular uma estrutura chamada ampola de Lorenzini, sensível ao campo eletromagnético produzido por outros seres vivos.

Numa espécie de transe, o predador terrível se transforma num peixinho de aquário.

(Reportagem publicada na edição impressa de VEJA que está nas bancas, de autoria de Ricardo Westin e Carolina Melo)

 

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