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Bahia

02/04/2013

às 19:50 \ Política & Cia

César Borges, o novo ministro dos Transportes, deve toda a sua carreira política a ACM. Ele esperou o chefe morrer para, em troca de cargos, aderir correndo ao governo que combatia. É assim a política “neztepaiz”

O agora ministro César Borges com Dilma: feliz, instalado num governo do lulopetismo que, quando seu chefe -- ACM -- era vivo, combatia de forma implacável (Foto: Estadão)

Demorou, mas os prêmios vieram. Belos prêmios: primeiro, foi uma gorda, vistosa vice-presidência do Banco do Brasil, em maio passado, com gordo salário e mordomias várias.

Agora, está assumindo um dos ministérios mais ricos e importantes do governo: o dos Transportes .

Sem exagerar, é possível dizer que é um prêmio a uma vocação para a sabujice e vassalagem do premiado – o ex-governador da Bahia e ex-senador César Borges. Mais que isso: o “caso Borges” é uma parábola perfeita de como funcionam as benesses do poder no Brasil, atropelando e anulando ideologias e posições políticas, além, naturalmente, de rebaixar os padrões morais com que é conduzida a vida pública..

Borges, 64 anos, existe na política única e exclusivamente por obra e graça do todo-poderoso e falecido senador Antonio Carlos Magalhães – o ACM, que foi deputado, prefeito de Salvador, presidente da Eletrobrás, ministro das Comunicações, governador da Bahia, presidente do Senado e, de uma ou outra forma, mandou e desmandou em todos os governos desde 1964, tanto na ditadura como na democracia, à exceção do governo do presidente Itamar Franco (1992-1995).

Borges, discípulo fiel e obediente de ACM, foi deputado, secretário de Estado, vice-governador, governador e senador — tudo pela mão do chefe.

Detalhando um pouco mais: o hoje ministro do governo lulopetista foi duas vezes deputado estadual pelo PFL (hoje DEM), nas asas de ACM, senhor absoluto da Bahia por um longo período. No terceiro governo de ACM, o chefe convocou-o para ser seu secretário de Recursos Hídricos.

O passo seguinte foi colocá-lo, em 1994, como candidato a vice-governador pelo PFL na chapa encabeçada pelo então secretário do Planejamento de ACM, Paulo Souto, que havia saneado as finanças da Bahia, permitindo ao cacique realizar um governo operoso.

Souto fez um governo bem avaliado (1995-1998). Entre outras corajosas inovações, foi o primeiro governador de Estado “neztepaiz” a instituir — com boa parte do dinheiro oriundo da privatização do Banco do Estado da Bahia (Baneb) — um fundo de pensão complementar para os funcionários públicos admitidos a partir de então, o que a médio e longo prazo irá provocar enorme alívio ao Tesouro da Bahia, que não mais arcará com as aposentadorias integrais dos servidores.

Com ACM no Senado: sempre obediente, sempre sentado ao lado do chefe, nunca caminhando à sua frente nos corredores do Congresso (Foto: Dedoc/ Editora Abril)

Souto cometeu a imprudência de fazer um bom governo e destacar-se a ponto de levar o chefe a cortar-lhe as asas e, contra toda a lógica, não permitir que fosse candidato à reeleição em 1998. Ordenou que concorresse ao Senado, e assim se fez Souto. E quem é que foi escolhido para a candidatura a governador?

César Borges. E lá foi ele, sempre pelo PFL, conduzido pela mão de ACM por todo o Estado – e facilmente eleito.

Terminando o mandato, em 2002, ACM resolveu que Souto, agora, sim, poderia voltar ao governo baiano, e que a César Borges caberia disputar o Senado, junto com ele próprio, ACM. Os dois, naturalmente, foram eleitos com enorme votação.

Sempre se comportou direitinho diante do chefe

César Borges, como senador, sempre se comportou direitinho diante do chefe. Votava em tudo o que ACM determinava. Tal qual o cacique, votava contra o governo Lula e criticava o governo Lula, ao qual ACM se opunha ferozmente. Nos corredores do Congresso, tal como sempre ocorreu com outros senadores carlistas, nunca caminhava adiante do chefe – sempre, respeitosamente, um pouco atrás. No plenário do Senado, sentava-se sempre junto a ACM.

Pois bem, foi só ACM morrer, em julho de 2007, e tudo mudou. Nem bem o cadáver do chefão havia esfriado e, já em outubro, Borges bandeou-se para o insípido, incolor e inodoro PR, partido pau-para-toda-obra, e, claro, absolutamente aderido ao lulalato.

César Borges com o governador Jaques Wagner: antes, adversário ferrenho, hoje um aliado todo sorrisos (Foto: Agência Estado)

No PR, também se aproximou do governador petista Jaques Wagner, de quem ACM era acérrimo crítico e adversário.

Certa vez, quando instado a responder a uma crítica de Wagner, o então senador ACM, sempre desbocado, respondeu:

– Em vez de se preocupar comigo, o governador Jaques Wagner deveria tomar banho, fazer a barba e começar a trabalhar pela Bahia.

A mudança de Borges para o PR, infelizmente para ele, não lhe permitiu reeleger-se para o Senado em 2010. Ficou em terceiro lugar, atrás de dois candidatos mais diretamente caros ao lulalato — Walter Pinheiro (PT) e Lídice da Mata (PSB).

Dilma atende ao PR — e descumpre uma promessa

Esperou sentado a recompensa, e ela viria em maio do ano passado, quase dois anos depois da eleição.

Com a indicação para o vistoso posto no Banco do Brasil, a presidente Dilma Rousseff atendia a uma reivindicação do PR, que estava sem função no governo desde a demissão de Alfredo Nascimento do Ministério dos Transportes, alvo de denúncias de irregularidades, em julho de 2011. A presidente também descumpriu a promessa que fez de que só nomearia técnicos para cargos em empresas do governo ou por ele controladas que necessitam de comandos altamente profissionais.

A promessa foi novamente descumprida com a ida de César Borges para o Ministério dos Transportes, até agora tocado pelo engenheiro Paulo Passos, indicado pelo PR mas um técnico respeitado — é engenheiro com pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas, funcionário de carreira do Ministério do Planejamento e tido como uma das maiores autoridades públicas no setor de transportes.

Depois da saída de Nascimento, o PR chegou a anunciar espalhafatosamente que deixaria a base de Dilma no Congresso, mas cedeu ao “apelo” do governo para retomar funções no Executivo.

E lá está ex-comandado de ACM, feliz da vida. Agora, em posto mais importante, com mais verbas e mais influência.

21/11/2012

às 14:00 \ Política & Cia

CRIMINALIDADE: na Bahia governada pelo PT, Salvador bate recordes negativos em taxa de homicídios

Polícia Militar da Bahia em ação: segundo especialistas, modelo de combate à criminalidade "está falido"

Em Salvador, número de homicídios aumentou cinco vezes em dez anos

Do jornal O Globo

Cidade que registrou 25 homicídios em apenas 72 horas no último fim de semana, de acordo com levantamento feito pelo GLOBO, Salvador vive há mais de dez anos uma explosão nos números de violência. [Desse período, a Bahia é governada há seis anos pelo petista Jaques Wagner.]

Segundo o Mapa da Violência, do respeitado Instituto Sangari, em 2000, a capital baiana estava entre as três capitais com menores taxas de homicídios do país. Naquele ano, Salvador registrou 12,9 homicídios por cem mil habitantes.

Em 2010, Salvador de 12,9 passou a registrar 69 homicídios por cem mil habitantes, um aumento de cinco vezes, pulando para a quarta colocação no ranking das capitais mais violentas, atrás apenas de Maceió, João Pessoa e Vitória.

Hoje, Salvador tem taxa de homicídios de 61 por cem mil habitantes, cinco vezes mais do que estabelece as Organizações das Nações Unidas (ONU) como suportável para grandes cidades: de 12 por 100 mil. [Só como comparação: São Paulo já chegou a 8,95 por 100 mil habitantes em 2011 e mesmo agora, no auge da onda de assassinatos promovida por uma organização criminosa, a média em outubro foi de 15,7, um quarto da taxa de Salvador.]

Para o sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, organizador do Mapa da Violência, alguns fatores somados explicam o acirramento da violência baiana. O principal, segundo ele, diz respeito a uma disseminação da violência por todo o país:

— Nos Estados com as capitais mais violentas, como era o caso de São Paulo e Rio de Janeiro, aumentaram, e muito, os investimentos em segurança pública. Ao mesmo tempo, o país passou por uma fase de desconcentração econômica, com a chegada de polos industriais em áreas do interior do Brasil e do Nordeste.

Combinados, esses dois fenômenos, afirma o sociólogo, promoveram uma migração do crime para localidades que não estavam preparadas para enfrentar essa criminalidade.

— Isso aconteceu muito no Nordeste. O aparelho policial não estava pronto para aquele tipo de criminalidade — explica o especialista.

De acordo com Jacobo, esse aumento nos indicadores de violência de Estados até então mais pacíficos, foi um fenômeno nacional, mas ocorreu com força especial em Alagoas e na Bahia.

Para o professor Eduardo Paes Machado, especialista em Sociologia do Crime, Vitimização, Violência Relacionada ao Trabalho e Segurança Pública da Universidade Federal da Bahia, a perda da autoridade do Estado no setor de segurança pública é uma das causas do aumento da violência.

— O crescimento da criminalidade se deve à ineficácia do sistema de contenção da violência. O modelo de combate está falido. Tem que haver uma nova engenharia jurídico-policial para acabar com essa espiral de violência. A política de retaliação não funciona mais. Antes, o aumento de contingente policial nas ruas bastava para reduzir a onda de violência. Hoje, não. O que vemos é o Estado se igualando aos bandidos, partindo para a retaliação.

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04/11/2012

às 18:15 \ Política & Cia

BAHIA: ACM Neto se sai bem ao enfrentar o cerco do PT a seu futuro governo em Salvador

ACM Neto comemora com eleitores a vitória nas eleições em Salvador (Foto: acmneto.com.br)

Publicado originalmente a 3 de novembro de 2012

A presidente Dilma esteve — ou ainda está — irritada com o deputado ACM Neto (DEM-BA), prefeito eleito de Salvador.

Foi a tal entrevista polêmica do novo prefeito à Folha de S. Paulo, como noticiou, sempre muito bem informado, o nosso Lauro Jardim, do Radar On-line.  A presidente ficou tiririca com a lembrança de ACM Neto, aliás correta, de que vários deputados à época protagonistas da CPI dos Correios (a CPI que apurou o mensalão, em 2005) tiveram grande êxito nas eleições municipais.

Ué, mas não é verdade? Pois vejam os casos do ex-tucano Eduardo Paes, hoje no PMDB, reeleito já no primeiro turno prefeito do Rio, de Gustavo Fruet, outro ex-tucano, agora no PDT, que virou o jogo e levou Curitiba, do ainda tucano e ex-líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, em Manaus.

Dilma no palanque de Pellegrino (braços levantados): força total do PT contra ACM Neto -- mas o candidato do DEM levou (Foto: oglobo.globo.com)

E, claro, dele próprio, ACM Neto, que, mesmo em seu primeiro mandato, com apenas 26 anos e carregando o peso gigantesco de ser herdeiro do velho cacique, com as inevitáveis comparações, realmente se destacou como integrante ativo da CPI.

Agora, fez uma aposta extremamente arriscada, que poderia decepar no nascedouro seus projetos de voos mais altos: enfrentou  e ganhou em Salvador de um candidato forte, o deputado e duas vezes secretário de Estado Nelson Pellegrino, apoiado maciçamento pelo poder petista: o governador Jaques Wagner, a presidente da República e o próprio deus supremo do lulalato, em pessoa.

O deputado estreante, na CPI do mensalão (ao lado do presidente da comissão, senador Delcídio Amaral, do PT): lembrança que irritou a presidente (Foto: Agência Senado)

Só por comparação, seu companheiro do DEM, presidente do partido e herdeiro do ex-prefeito Cesar Maia no Rio, deputado Rodrigo Maia, meteu-se igualmente numa aposta arriscada, ao enfrentar o popular prefeito Eduardo Paes, e montando para isso uma aliança com inimigos históricos do pai e dele próprio, os Garotinhos, pela qual a filha do casal, Clarrissa, concorreu como vice.

O resultado não poderia ter sido pior: Maia e Clarissa foram massacrados, obtendo apenas miseráveis e humilhantes 2,94% dos votos.

Já no caso baiano, ACM Neto, com sua vitória na terceira maior cidade do Brasil, ressuscitou o moribundo “carlismo”, órfão e em debandada desde a morte do morubixaba Antonio Carlos Magalhães, em 2007, adquiriu peso na política nacional e passou a ser figura decisiva no DEM.

Nesse pós campanha, que tanto irritou Dilma, quem deveria estar irritado, na verdade, é o próprio ACM Neto, alvo de uma tremenda grosseria pública por parte da presidente que, fugindo a seu estilo discreto — sobretudo se comparado à estridência e desconhecimento de limites de seu antecessor –, fez ferinas referências pessoais ao hoje prefeito quando subiu em Salvador no palanque do derrotado Nelson Pellegrino.

Mas o jovem prefeito está revelando jogo de cintura. Tirou de letra a falta de educação da presidente — “coisas de momento, de palanque” –, já demarcou território, avisando ao PSDB que o DEM não será seu aliado automático nas eleições de 2014, flerta com o PSB do governador pernambucano Eduardo Campos e, ao lançar pontes para tratativas institucionais com o vice-presidente Michel Temer, do PMDB, ainda criou um caso na cozinha do Palácio do Planalto.

Sergio Gabrielli: mais tiros contra o novo prefeito virão (Foto: Vanderley Almeida / France Presse)

Não bastasse isso, atrevido e matreiro, espalhou um venenozinho, afirmando categoricamente que o governo Dilma “é melhor do que o de Lula”.

O herdeiro do carlismo com certeza não perde por esperar. A política, em qualquer lugar do mundo, é implacável e cruel. Por trás da bela retórica de que trabalharão “administrativamente” juntos pelo bem de Salvador, é evidente que o governador Jaques Wagner e sua equipe procurarão torpedear a gestão de ACM Neto.

A declaração infeliz e espantosa do secretário do Planejamento do governo petista da Bahia, José Sérgio Gabrielli – que ameaçou claramente ACM Neto de ser tratado a pão e água se não aceitar “a liderança” do governo estadual na condução dos principais projetos de que Salvador necessita — foi, sem dúvida, só um tiro a mais no cerco que o PT realiza contra o deputado do DEM desde antes do começo da campanha eleitoral, e que sem dúvida continuará fazendo..

Outros tiros de diferentes calibres com certeza virão, a testar a têmpera, a paciência e a habilidade de que o novo prefeito de Salvador, com seus verdes 33 anos, possa dispor. Nesses primeiros embates, até agora, contudo, ele está se saindo bem.

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ELEIÇÕES: Secretário do Planejamento da Bahia faz vergonhosas ameaças ao prefeito eleito de Salvador, ACM Neto (DEM), se não se submeter à “liderança” e à “condução” do governo petista

02/11/2012

às 12:00 \ Bytes de Memória

Histórias secretas de “Playboy” (2): uma militante do MST ia posar nua, e o mundo veio abaixo

Débora Rodrigues, na Capa da Revista Playboy, em outubro de 1997

Débora Rodrigues, a ex-militante sem terra estrela da capa de "Playboy" em outubro de 1997

Publicado originalmente a 24 de outubro de 2010

(Os leitores não têm a menor obrigação de saber, mas a uma certa altura de minha longa carreira no chamado jornalismo hard – cuidando especialmente de temas políticos e relações internacionais – e no desempenho de cargos editorias executivos, coube-me ser diretor de Redação da revista Playboy, entre 1994 e 1999.

Um período muito rico, que, felizmente, deu resultados muito positivos para a Editora Abril e rendeu muitas histórias que nunca contei. E que agora, no blog, estou contando, como já fiz antes. Se quiser conferir a história anterior, leia aqui).

Em 22 anos de história de Playboy até então, nunca tínhamos vivido nada parecido – mesmo agora, aos 35 anos de idade, a revista não viu o fenômeno se repetir. O fato é que de alguma forma vazou, dentro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a informação, verdadeira, de que uma de suas militantes, Débora Cristina Rodrigues, havia assinado contrato para posar nua para a revista.

A imprensa, como sempre, ficou sabendo. E seu súbito, avassalador interesse por Débora transformou a bela sem-terra num caso espetacular do que os americanos chamam de instant celebrity — alguém que passa, em questão de dias, do absoluto anonimato para a condição de celebridade.

Foi uma loucura midiática – não estou exagerando. Parecia que o mundo vinha abaixo. Reportagens pipocaram não apenas em jornais e revistas das maiores capitais, como O Globo e a Folha de S. Paulo, a Istoé e o Jornal da Tarde, ou os belo-horizontinos Diário da Tarde e Hoje em Dia, ou, ainda, o Correio Braziliense, do Distrito Federal. A coisa se espraiou por dezenas de jornais regionais do país, do Rio Grande do Sul a Pernambuco, do Paraná à Bahia.

Eu a descobri lendo jornal na praia

Playboy tinha sob contrato, na época, uma assessoria de imprensa encarregada principalmente de divulgar a revista para a mídia do interior do país, além de providenciar clippings – coleções de recortes de jornais e revistas e gravações de programas de rádio e TV em que a se mencionasse Playboy. Tenho até hoje, nos arquivos de meu escritório, a montanha de material sobre Débora.

Os programas de fofocas nas redes de TV não falavam de outra coisa. Celebridades, como a socialite Thereza Collor ou a atriz Danielle Winits, palpitavam. Num programa de rádio em São Paulo, a hoje senadora Marta Suplicy (PT-SP), que ainda comentava profissionalmente assuntos de sexo e relacionamento, mesmo sem saber nada de concreto do caso espinafrou a revista e a mim, pessoalmente, por “explorar” uma militante dos “movimentos sociais”.

Thereza Collor: para ela o ensaio não combinava bem com uma militante

Até um deputado do PT, o bigodudo Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), acabou entrando na história, para “defender os direitos” de Débora.

Eu não imaginava, juro que não, que tudo aquilo fosse ocorrer quando, lendo sossegadamente ao sol o Estadão de domingo ao lado de minha mulher no refúgio litorâneo onde recuperava as energias com a família, na escondida minipraia de Sorocotuba, no Guarujá, a 90 quilômetros de nosso apartamento em São Paulo, dei com uma reportagem sobre José Rainha Júnior, o líder dos sem-terra no Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do estado.

Num canto da foto em preto e branco de Rainha com um grupo, aparecia uma bela mulher, de calças jeans, rabo-de-cavalo, um boné do MST e grandes brincos tipo argola. Era Débora, e resolvi na hora que iria colocá-la nas páginas de Playboy. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

30/10/2012

às 15:15 \ Política & Cia

ELEIÇÕES: Secretário do Planejamento da Bahia faz vergonhosas ameaças ao prefeito eleito de Salvador, ACM Neto (DEM), se não se submeter “à liderança” e “condução” do governo petista

José Sergio Gabrielli, Secretário do Planejamento do Estado da Bahia

José Sergio Gabrielli, Secretário do Planejamento do Estado da Bahia (Foto: AE)

Amigas e amigos do blog, o secretário do Planejamento da Bahia, José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e candidato à sucessão do governador petista Jaques Wagner, publicou no Facebook um texto com claras ameaças de retaliação financeira — para dizer o menos — contra o futuro prefeito de Salvador, ACM Neto, do oposicionista DEM.

Em alguns países civilizados, o texto de Gabrielli daria processo e, talvez, cadeia.

Aqui, é claro, fica tudo por isso mesmo. Leiam vocês mesmos e julgem o texto, cujo título vai em negrito, abaixo:

Algumas reflexões sobre o dia seguinte a vitória de ACM Neto em Salvador 

Os eleitores de Salvador elegeram ACM Neto prefeito. Até aí uma vitória da democracia, pela escolha livre os dirigentes municipais. E agora?

A Prefeitura Municipal de Salvador tem um orçamento de pouco mais de 4 bilhões e não tem capacidade de financiamento por falta de condições financeiras.

Uma Prefeitura que precisa de obras estruturantes no que se refere a mobilidade urbana, a recuperação da Orla Atlântica e Orla do interior da Baia de Todos os Santos, no Centro Antigo da Cidade, nos bairros mais populosos com a necessidade de expansão de rede de assistência básica a saúde e ampliação da rede municipal de educação.

Uma Prefeitura que precisa ampliar o ordenamento urbano com obras de desafogo dos gargalos do trânsito.

Uma cidade que precisa tratar bem as suas diversas populações e incluir milhares de pessoas nos serviços básicos da cidade.

Uma Prefeitura que precisa dos governos do Estado e da União para realizar parte dessas obras.

Mas os eleitores de Salvador escolheram ACM Neto com os partidos DEM, PSDB, PMDB, PPS e PV, partidos que são ferozes opositores ao governo no plano estadual e federal ou em ambos.

Para implementar os projetos necessários para enfrentar as necessidades de Salvador há de haver uma ação harmônica e equilibrada entre a Prefeitura e os governos do Estado e federal.

Como fazer a integração da Linha 1 do Metro com a Linha Dois que vai até Lauro de Freitas, sem o acordo entre os dois governos?

Como fazer os viadutos e passarelas para melhorar o trânsito da cidade sem a cooperação entre as duas esferas de governo?

Como articular as concessões das novas linhas de ônibus com a alimentação das estações de alimentação do Metro sem que haja um trabalho conjunto entre a PMS e o Governo Estadual?

Como fazer as grandes intervenções programadas no Centro Antigo de Salvador sem a equilibrada cooperação da PMS e governo do Estado?

A questão não é de perseguição ou comportamento não republicano de retaliação ao opositor que ganhou as eleições em um determinado município.

A questão é a realidade difícil de diálogo entre um conjunto de partidos que deliberadamente são de oposição ao governo do Estado, e buscam se legitimar no combate a esse governo, com a necessidade desse governo municipal de aceitar a liderança e condução desses projetos pelo governo estadual, que é o único que tem capacidades financeira e gerencial de gerir as ações desses programas.

Some-se a isso a reação dos movimentos sociais que vão exigir da Prefeitura Municipal de Salvador a aceleração dos benefícios prometidos em campanha e a diversificação das atuações do governo municipal, ameaçando ainda mais a combalida posição financeira do município.

Por cima disso, a nova Câmara de Vereadores pode ser mais um campo de batalha entre o Executivo de Salvador e seu legislativo, com vários temas conflitantes na agenda legislativa.

Frente a esse quadro, os partidos que apoiaram Pelegrino [Nelson Pellegrino, candidato derrotado do PT a prefeito] não dispõem de muita alternativa: só resta a oposição ao novo governo.

Não uma oposição por oposição, mas uma ação que busque ampliar as pressões referentes aos interesses de importantes segmentos da sociedade soteropolitana que não estarão representados na coalizão vencedora, que exija um reconhecimento do papel do governo do Estado na execução e liderança desses importantes projetos para a cidade e uma plataforma de reverberação para as demandas do movimento social que tenderão a estar limitadas pelo ideário dos partidos que ganharam a eleição.

Nesse movimento de conflito e tensão, o governo estadual é o único que tem as condições de implementar vários dos programas previstos.

O novo prefeito precisa levar em conta essa realidade de que o Estado é o principal condutor de muitas da soluções dos problemas para o povo da cidade. Não é do feitio da coligação vencedora com tradição oligárquica e autoritária admitir que tem que reconhecerr a importância e tamanho dos seus adversários.

Espero que o povo de Salvador não sofra por sua escolha!

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29/07/2012

às 19:32 \ Política & Cia

Carlos Brickmann: Casal que fatura unido…

Jaques Wagner e Fátima Mendonça: casal que fatura unido (Foto: Rafael Campos)

O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), e sua mulher, Fátima Mendonça: somados, ganham 40 mil reais por mês dos cofres públicos (Foto: Rafael Campos)

 

Amigos, reproduzo três boas notas da excelente coluna publicada aos domingos pelo jornalista Carlos Brickmann em cinco jornais.

 

CASAL QUE FATURA UNIDO

O problema dessas histórias mal explicadas é que precisa ser tudo bem combinado: se alguém erra, dá a impressão de que todos estão mentindo.

Imagine!

Pois descobriu-se que a primeira-dama da Bahia, Fátima Mendonça, enfermeira de profissão, esposa do governador petista Jaques Wagner, tem salário mensal de R$ 14.632, como assessora de supervisão geral da Coordenação de Assistência Médica do Tribunal de Justiça de Salvador.

Aí as peças começam a se desencaixar: a assessoria de Imprensa de Fátima Mendonça diz que ela está licenciada desde 2007, quando assumiu o comando das Voluntárias Sociais, cargo tradicionalmente reservado às primeiras damas.

A assessoria de Comunicação do Tribunal diz que ela não está licenciada, não: desenvolve projetos relacionados a menores “em situação de vulnerabilidade”, e que ser presidente das Voluntárias Sociais “não a descredencia de suas atividades profissionais”.

Licenciada ou não, o salário continua sendo pago à esposa do governador. E é um belo reforço à receita do casal: somando-se o que ambos recebem do Estado, dá uns R$ 40 mil.

É um acréscimo muito bem recebido.

Jaques Wagner está pagando o apartamento onde vai morar no fim de seu mandato, em 2014, no Corredor da Vitória, elegantíssima região de Salvador.

O preço da Mansão Leonor Calmon, segundo informações oficiais, foi de R$ 3,7 milhões.

Mansão Leonor Calmon, o futuro retiro do governador: "um bom exemplo de quem se esforçou e cresceu na vida". Cada apartamento custa a bagatela de R$ 3,7 milhões a R$ 5,2 milhões

Mansão Leonor Calmon, o futuro retiro do governador: "um bom exemplo de quem se esforçou e cresceu na vida". Cada apartamento custa a bagatela de R$ 3,7 milhões a R$ 5,2 milhões

Para quem começou como técnico de manutenção de petroquímica, entrou no PT e em sindicatos e depois só exerceu cargos públicos, é um bom exemplo de quem se esforçou e cresceu na vida.

 

Tudo de bom

A propósito, quem não quer ser voluntário ganhando altos salários?

 

Meio milhão, deve ser bom

O levantamento é do portal jurídico Espaço Vital: há 464.545 candidatos às próximas eleições, em todo o país.

Destes, 434 mil saem para vereador, 15.300 para prefeito, outro tanto para vice-prefeito.

Considerando-se que campanha eleitoral é cansativa, custa caro, interrompe as atividades normais do candidato e é, com frequência, frustrante, deve-se imaginar que ter mandato é bom demais.

Compensa todos os sacrifícios e despesas.

18/05/2012

às 20:00 \ Política & Cia

César Borges, cria de ACM durante toda sua vida política, mal esperou o chefe morrer para aderir ao governo que combatia. Agora, veio o presente: é vice do Banco do Brasil. Isso diz muito sobre a política por aqui

César Borges com a presidente Dilma: de obediente crítico do lulalato enquanto esteve sob as asas de ACM a aliado do governo com a morte do chefe. Agora, veio o presentão de recompensa (Foto: estadao.com.br)

Demorou, mas o prêmio chegou – e que belo prêmio: uma vice-presidência do Banco do Brasil, gordo salário, mordomias várias.

Sem exagerar, é possível dizer que é um prêmio a uma vocação para a sabujice do premiado – o ex-governador da Bahia e ex-senador César Borges. Mais que isso: a história é uma parábola perfeita de como funcionam as benesses do poder no Brasil, atropelando e anulando ideologias e posições políticas, além da moral.

Borges existe na política única e exclusivamente graças ao todo-poderoso e falecido senador Antonio Carlos Magalhães – que foi deputado, prefeito de Salvador, presidente da Eletrobrás, ministro das Comunicações, governador da Bahia, presidente do Senado, mandou e desmandou em todos os governos desde 1964, tanto na ditadura como na democracia, à exceção do governo do presidente Itamar Franco (1992-1995).

Deputado, secretário, vice-governador, governador — tudo pela mão de ACM

Borges foi duas vezes deputado federal pelo PFL (hoje DEM), nas asas de ACM, senhor absoluto da Bahia por um longo período. No terceiro governo de ACM, o chefe convocou-o para ser seu secretário de Recursos Hídricos.

O passo seguinte foi colocá-lo, em 1994, como candidato a vice-governador pelo PFL na chapa encabeçada pelo então secretário do Planejamento de ACM, Paulo Souto, que saneou as finanças da Bahia e permitiu ao cacique realizar um governo operoso.

Souto fez um governo bem avaliado (1995-1998). Entre outras corajosas inovações, foi o primeiro governador de Estado no país a criar um fundo de pensão complementar para os funcionários públicos admitidos a partir de então, o que a médio e longo prazo irá provocar enorme alívio ao Tesouro da Bahia, que não mais arcará com as aposentadorias integrais dos servidores.

Com ACM no Senado: sempre obediente, sempre sentado ao lado do chefe, nunca caminhando à sua frente nos corredores do Congresso (Foto: Dedoc/ Editora Abril)

Talvez Souto tenha ido bem demais, porque ACM, que não queria ninguém sequer remotamente lhe fazendo sombra, cortou-lhe as asas e não permitiu que fosse candidato à reeleição. Ordenou que concorresse ao Senado, e assim se fez. Quem foi ungido com a candidatura a governador?

César Borges. E lá foi ele, sempre pelo PFL, conduzido pela mão do chefe por todo o Estado – e facilmente eleito.

Terminando o mandato, em 2002, ACM resolveu que Souto, agora, sim, poderia voltar ao governo baiano, e que a César Borges caberia disputar o Senado, junto com ele próprio, ACM. Os dois, naturalmente, foram eleitos.

Sempre se comportou direitinho diante do chefe

César Borges, como senador, sempre se comportou direitinho diante do chefe. Votava em tudo o que ACM determinava. Tal qual o cacique, votava contra o governo Lula e criticava o governo Lula, ao qual ACM se opunha ferozmente. Nos corredores do Congresso, nunca caminhava adiante do chefe – sempre, respeitosamente, um pouco atrás. No plenário do Senado, sentava-se sempre junto a ACM.

Pois bem, foi só ACM morrer, em julho de 2007, e tudo mudou. Nem bem o cadáver do chefe havia esfriado e, já em outubro, Borges bandeou-se para o insípido, incolor e inodoro PR, partido pau-para-toda-obra, e, claro, absolutamente aderido ao governo.

César Borges com o governador Jaques Wagner, a quem ACM combatia ferozmente: risos e participação do PR no governo (Foto: AE)

No PR, também se aproximou do governador petista Jaques Wagner, de quem ACM era acérrimo crítico e adversário. (Certa vez, quando convidado a responder a uma crítica de Wagner, ACM, sempre desbocado, respondeu: “Em vez de se preocupar comigo, o governador Jaques Wagner deveria tomar banho, fazer a barba e começar a trabalhar pela Bahia”).

Agora, fala-se até na participação do PR no governo Wagner.

A mudança de Borges para o PR, infelizmente para ele, não lhe permitiu reeleger-se para o Senado em 2010. Ficou em terceiro lugar, atrás de dois candidatos ligados mais diretamente ao lulalato — Walter Pinheiro (PT) e Lídice da Mata (PSB).

Dilma atende ao PR — e descumpre uma promessa

Esperou sentado a recompensa, e ela veio agora.

Com a indicação, a presidente Dilma Rousseff atende uma reivindicação do PR, que estava sem função no governo desde a demissão de Alfredo Nascimento do Ministério dos Transportes, alvo de denúncias de irregularidades. A presidente também descumpre a promessa que fez de que só nomearia técnicos para cargos em empresas do governo ou por ele controladas que necessitam de comandos altamente profissionais.

Depois da saída de Nascimento, o PR chegou a anunciar estrepitosamente que deixaria a base de Dilma no Congresso, mas cedeu ao “apelo” do governo para retomar funções no Executivo.

E lá está ex-comandado de ACM, feliz da vida.

26/03/2012

às 16:00 \ Livros & Filmes

Livro: o outono de Vinicius de Moraes, o grande poetinha

Cena rara Gesse e Vinícius no mar: em geral, ele acordava às 6 da tarde

CENA RARA -- Gesse e Vinícius no mar: em geral, ele não ia à praia, pois acordava às 6 da tarde

O OUTONO DO GRANDE POETINHA

A sétima mulher de Vinicius de Moraes conta que, na última década de vida, ele optou por uma produção mais popular porque estava cansado do meio intelectual e se revoltava com a velhice

Tanto quanto a poesia e a música, as paixões fulminantes, nas quais mergulhava de corpo e alma, marcaram a vida de Vinicius de Moraes, o grande parceiro de Tom Jobim.

Vinicius casou-se nove vezes. As paixões duraram, como diz seu verso, o tempo de a chama se apagar. O casamento mais resistente foi com Beatriz Azevedo de Mello, sua primeira mulher. Durou onze anos.

O mais curto acabou em menos de um ano. Foi com Cristina Gurjão, a sexta esposa.

Com Gesse, o relacionamento mais explosivo

O mais público e explosivo relacionamento de Vinicius, com a atriz baiana Gesse Gessy, a sétima, produziu levas de comentários maldosos enquanto durou – de 1970 a 1976. Os amigos acusaram a atriz, quase trinta anos mais jovem, de, literalmente, carregar Vinicius para a Bahia, iniciá-lo no candomblé, afastá-lo das “boas companhias” e encaminhá-lo para uma muito criticada veia de criação popularesca.

Hoje com 73 anos, Gesse, produtora cultural em Salvador, conta sua versão em uma biografia ainda sem título que deve lançar até o fim do ano. Ela nega responsabilidade pelas mudanças na vida ou na personalidade de Vinicius, “o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão”, segundo dizia Carlos Drummond de Andrade.

Vinicius se mudou para a Bahia para se afastar de três episódios dramáticos

Entre histórias inéditas da vida do casal, Gesse afirma que foi ele quem propôs que se mudassem para a Bahia. Queria se afastar do Rio de Janeiro para se recuperar de três episódios dramáticos: a perda da mãe, em 1968, a expulsão do Itamaraty, no ano seguinte, e, pouco depois, a tumultuada separação de Cristina Gurjão.

Segundo Gesse, o “branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô” (como se apresenta no Samba da Bênção) era agnóstico e nunca pisou em um terreiro de candomblé. No golpe definitivo na imagem do grande pensador enfeitiçado por sua musa, a ex-mulher conta que ele se afastou dos versos mais eruditos simplesmente porque estava “cansado” dos intelectuais que o cercavam.

Gesse e Vinicius engataram seu romance em 1969, quando Cristina Gurjão estava grávida de poucos meses. O desfecho foi difícil. Cristina chegou a agredi-lo com um castiçal, ferindo sua testa, e quando a filha deles, Maria, nasceu, só permitiu que ele a visse dias depois.

Gesse conta que certa vez, quando Vinicius ainda estava casado, os dois foram passar uns dias em um hotel em Ouro Preto. Numa manhã, Cristina apareceu de surpresa, transtornada. Chegou a subir até o quarto levando um revólver na bolsa. Por sorte, o casal foi avisado pela recepção e Vinicius conseguiu esconder Gesse na suíte ao lado.

A saída do Itamaraty: “Demitam esse vagabundo”

O compositor, malvisto pelo governo militar, havia acabado de ser expulso do serviço diplomático, depois de 26 anos de carreira. A acusação, diga-se, não foi de subversão. Vinicius foi afastado por “conduta irregular”, ou seja, era artista e bebia.

[Há uma versão bem fundamentada de que a ordem de sua aposentadoria compulsória veio diretamente do presidente militar de plantão, marechal Arthur da Costa e Silva, nos seguintes termos: "Demitam esse vagabundo".]

Sua fase de maior sucesso de público

No livro Chega de Saudade, Ruy Castro diz que, ao receber a notícia, Vinicius chorou copiosamente, pois adorava o Itamaraty. Segundo Gesse, ele ficou sentido pela maneira como foi demitido, mas já não tinha a menor paciência com a diplomacia. “Achou que havia sido vítima de uma injustiça e ficou magoado, mas preferiu não fazer estardalhaço”, diz.

Foi a gota d’água para dar as costas ao ambiente restrito da intelectualidade carioca que reverenciava o “Poetinha”, como era chamado contra sua vontade. Vinicius mudou de cidade e de gostos.

Nasceu assim a parceria com o violonista Toquinho. Foi sua fase de maior sucesso de público.

 

Pingos nos is Gesse hoje: biografia para desfazer o mito de que "enfeitiçou" Vinicius (Foto: Pedro Accioly)

PINGOS NOS IIS --Gesse hoje: biografia para desfazer o mito de que "enfeitiçou" Vinicius (Foto: Pedro Accioly)

Encarando a velhice e a proximidade da morte

Na Bahia, Vinicius en­carou a velhice e a proximidade da morte.

A diferença de idade entre ele e Gesse o perturbava. Reagiu com um palavrão quando o recepcionista de um hotel na Espanha elogiou a beleza da “sua filha”.

Alcoólatra e diabético, odiava exercícios físicos e não considerava a hipótese de deixar a bebida. Escondia doces no bolso e, quando Gesse descobria, usava sempre a mesma desculpa: “Trouxe para você”. A cada três meses, ela o internava para um período de desintoxicação em uma clínica.

A vida em Salvador, paradoxalmente, não foi passada sob o sossego da sombra de um coqueiro. Gesse conta que o compositor de Tarde em Itapuã (inspirada em um pescador) odiava o sol e só muito raramente a acompanhava ao banho de mar.

A madrugada na banheira

Vinicius acordava às 6 da tarde, começava a beber e entrava na banheira, onde passava a madrugada. Só dormia ao amanhecer. Certa noite, propôs a Gesse um pacto de morte. Planejou inclusive como se mataria: comendo uma bandeja de papos de anjo, seu doce predileto, e entrando em coma diabético. “Uma morte suave, em que parece que a pessoa está viajando para o Polo Norte”, disse.

O casal se separou em 1976. Vinicius morreu quatro anos e dois casamentos depois, vítima de edema pulmonar, mergulhado na banheira de sua casa no Rio de Janeiro.

(Reportagem de Marcelo Bortoloti publicada na edição impressa de VEJA

03/01/2012

às 19:33 \ Política & Cia

Exclusivo: PMs e bombeiros de todo o Brasil relatam vidas dramáticas

(Post originalmente publicado a 5 de abril de 2011, que, por sua importância, republico)

Amigos desta coluna, desde que começamos a acompanhar no blog, por dever profissional, a tramitação da proposta de emenda constitucional que fixa um piso salarial para policiais militares e bombeiros em todo o país, recebemos mais de 2.000 comentários de interessados de praticamente todos os Estados brasileiros.

Boa parte dos comentários, além conter apoio à chamada PEC-300 (que oficialmente já nem mais leva este nome), descreve as agruras da vida dos leitores PMs e bombeiros de todo o país. Entre as muitas experiências relatadas, a repórter Domitila Becker, meu braço direito, selecionou algumas para compartilhar com vocês.

Como jornalista, sei perfeitamente que os problemas das corporações não se limitam aos baixos salários. Há falta de treinamento e de critérios mais modernos de avaliação, regulamentos superados, equipamento sucateado ou insuficiente, poucas viaturas — e corrupção, abusos e violações dos direitos humanos, que muitos comandantes combatem, e outros não. Nos relatos abaixo, nos limitamos a reproduzir trechos de comentários em que policiais e bombeiros contam as durezas da vida de quem exerce um papel social importante, arrisca muito e ganha pouco. Confiram:

“Os policiais não podem morar em qualquer bairro, pois se os agressores da sociedade souberem que naquela casa mora um policial, eles pixam seus muros, efetuam disparos em direção a sua casa, ocorrendo o absurdo de quando o policial lavar sua farda, não pode por para secar no varal do quintal de sua casa, tendo que fazer isso dentro de sua casa.

Os filhos dos policiais, sua mulher, e todos seus familiares passam pela mesma coisa (se os agressores da sociedade souberem que são parentes, essas pessoas sofrem represálias)! Então precisam morar em outros locais, seus filhos precisam estudar em outras escolas, e com o salário que recebem não têm condições, e nas sua horas de folga precisam trabalhar em “bicos”, geralmente em portas de comércios ou se derem sorte fazendo a segurança de pessoas abastadas” — Ricardo Aragão, policial militar

“Aqui no Rio de Janeiro o policial não recebe 1.500 reais. Eu, que tenho cinco anos e tenho dependentes, não recebo essa quantia!” — Anderson, policial militar no Rio de Janeiro

“Sou formado em Direito, pós-graduado em Penal e Processo, estou me preparando para cursar um Mestrado na PUC e, além disso, sou Sargento da PM (…) Se pararmos para pensar bem, o que justifica a Polícia do DF ganhar tanto e a do RJ receber tão pouco? Desafio os Congressistas a conseguirem demonstrar essa inversão de valores salariais. Insta salientar que nosso Estado já foi visitado por várias autoridades sérias de outros países e das mais variadas instituições, dentre essas: o FBI, a Scotland Yard, a ONU, a OEA…

E segundo palavras de um instrutor do FBI que apenas sobrevoou de helicóptero o Complexo do Alemão, ‘nossos policiais (cariocas) estão prontos para atuar em qualquer território e/ou área do mundo, pois somente no Rio existe essa estrutura criminal e essa diversidade de terrenos, favelas e áreas de risco e conflito’” — Ulisses Louzeiro, sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro

“Sou filha de policial militar e também sou casada com um. Meu marido, há oito anos, sofreu um acidente em serviço e o que nós recebemos do governo? Nada. O que aconteceu foi a redução da renda e o aumento com despesas médicas” Andreia Santos, Pernambuco

“Não temos tempo nem de ficar com a família, pois temos que fazer bicos para complementar o salário, que está defasado. Depois, o governo quer um serviço de primeira. Um oficial de Justiça aqui na Bahia ganha 500 reais como auxilio alimentação, enquanto um soldado da PM ganha 180 reais” – Moura, soldado da Polícia Militar da Bahia

“Tenho vinte anos de farda e 1.300 reais de salário” — Gelson Monteiro, policial militar

“Sou policial de tropa especializada. No meio do mês, já me preocupo se o resto do salário dá para chegar até o final do mês, mas o governo conta comigo por todo esse mês para ajudar a diminuir a taxa de homicídios” — Celestino, soldado da Polícia Militar do Ceará

“Fala-se muito em melhoria da segurança pública. O paradoxo é que, justamente a polícia, a principal ferramenta nesse processo de melhoria, não tem piso salarial definido, não tem carga horária definida e, submetida a um Regime Especial de Trabalho Policial (RETP), chega a trabalhar mais de trezentas horas mensais, expostos a todo tipo de periculosidade e insalubridade, sem receber nada mais por isso” – Borges, sargento da Polícia Militar em Diadema, São Paulo

“Como posso pensar em dar segurança e prestar um bom serviço se minha família está passando por dificuldades, inclusive falta de segurança? Vejo, em sua grande maioria, amigos bombeiros e policiais militares com falta de estímulo para o trabalho, pois o salário é insuficiente para sanar as necessidades básicas de sua família e, além desta situação, enfrentamos diariamente a falta de profissionais para o atendimento de ocorrências que só tendem a aumentar e aumentar…” — Rogério Marcos de Souza Hammes, bombeiro militar em Curitiba, Paraná

“Ontem minha filha passou mal e eu não tinha dinheiro para comprar remédios. Hoje ela foi internada com varias convulsões seguidas. Horrível minha situação, mas infelizmente está sendo nossa realidade. Não tenho mais motivação para trabalhar”. – Roberto Amaral, policial militar em Alagoas

“Sou 1º sargento da Polícia Militar do Rio Grande do Sul, também conhecida pelo nome de Brigada Militar. São 20 anos de trabalho dedicados exclusivamente ao policiamento de rua, sempre alternando minha jornada de trabalho com o chamado serviço extra “bico”, já que recebo um salário mensal de 2.800 reais bruto — valor bem menor do que hoje é pago a um irmão de farda que inicia a carreira na graduação de soldado no Distrito Federal, que recebe hoje cerca de 4.500 reais. Será que não merecemos tratamento igualitário ou será que não temos a mesma capacidade profissional que a dos colegas brasilienses?” Cristiano Costa Agostinho, sargento da Brigada Militar do Rio Grande do Sul

“No interior do Mato Grosso, os policiais militares cumprem uma escala desumana de 24 horas trabalhando e 24 horas de folga. Tem alguns profissionais que chegam a trabalhar 96 horas semanais, sendo que o máximo permitido pelo TRT é de 44 horas semanais. Sem contar que não há pagamento de hora extra, adicional noturno e nem periculosidade” Juliano Junior Garcia, policial militar em Mato Grosso

“Tenho 21 anos de polícia e continuo sendo soldado, mesmo tendo em minha ficha 13 elogios e ter sido considerado instrutor e monitor de destaque na minha corporação. Não existe uma política séria de promoção, nem tampouco salarial, pois uma pessoa que entra hoje na PM ganha o mesmo que eu com 21 anos de polícia” — Givaldo, policial militar em Pernambuco

“Já tive dois colegas de curso de formação que cometeram suicídio, enfim, pelo menos esperamos ser valorizados para poder morar em locais seguros e o mais importante: dar dignidade a nossos filhos!” — Ronaldo de Oliveira, policial militar

“Sou mergulhador do corpo de bombeiros militar. Tenho uma função insalubre e superperigosa, mergulhando em águas muitas vezes imundas, sem visibilidade, arriscando minha vida em uma das profissões mais perigosas que existe, mas tenho amor a minha função. Sonho com essa emenda todos os dias quando vou para o banco pagar minhas contas ou para o mercado fazer minhas compras, pois não recebo nada de adicional à minha função e meu salário é bem abaixo do policial militar que é citado em sua coluna, gira em torno de 1.190 reais” Fabio Silva, mergulhador do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro

“Muitas vezes, o PM tem uma única aula de tiro durante um ano de curso durante toda a vida profissional. Aqui no meu Estado tem policial com mais de 20 anos de profissão e a única vez que deu um tiro foi no curso de formação, há 19 anos. Não se faz uma reciclagem com esses profissionais para melhorar o serviço” — Jeferson Rodrigues Gaia, policial militar no Pará

“O bairro de Cajazeiras, em Salvador, coberto pela 3ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM), chamada Polícia Cidadã e Comunitária, possui apenas 150 policiais militares. A 3ª CIPM cobre a região composta pelos bairros de Águas Claras, Fazenda Grande, Boca da Mata e parte da Estrada Velha do Aeroporto e Cajazeiras. Apenas este último possui cerca de 700 mil habitantes. A 3ª CIPM tem somente três viaturas em condições de patrulhamento e um ínfimo efetivo de 150 policias. Para fazer um comparativo, coloco como exemplo o município de Feira de Santana, que possui a mesma densidade populacional, considerada segunda cidade mais violenta da Bahia, que possui ao seu dispor cerca de 1.500 policiais militares e mesmo assim são insuficientes” – Fábio Brito, policial militar em Salvador, Bahia

“Tenho apenas três anos de carreira, sou novo tanto na corporação quanto na vida. Porém, sinto completa desmotivação em mim e em meus companheiros. Você pegar no trabalho com uma arma na cintura é alvo hoje em dia. Quanto mais ostensivo melhor, correto?! Não, pior, com mais estresse você chegará em casa. Deverá ter 360º de visão e só no ‘bater do olhar’ distinguir em frações de segundo se é uma ameaça ou não, se aciona o gatilho ou aguarda. Isto, mesmo após as três, quatro da madruga. Você acha que é fácil?!

Muita gente não aguenta isso, quanto mas com 12 quilos de equipamentos, num morro, debaixo de sol quente e sem almoço. Detalhe, você não pode atirar antes! Mas foi a vida que escolhemos e muitos a honram. Com todas as dificuldades, ainda reduzimos índices. Mesmo com todo desrespeito e periculosidade, estamos na rua, de peito aberto, pronto pra enfrentar mais um dia” — Diogo, policial militar em Juiz de Fora, Minas Gerais

23/11/2011

às 16:12 \ Política & Cia

Oito Estados brasileiros concentram 80% da riqueza. SP aumenta participação, Rio se distancia de MG e Bahia passa SC

São Paulo: um terço do PIB do Brasil, e contando (Foto: Germano Lüders/EXAME)

São Paulo: um terço do PIB do Brasil, e aumentando a participação entre 2008 e 2009 (Foto: Germano Lüders/EXAME)

Amigos do blog, os dados sobre a distribuição da riqueza brasileira entre seus 26 Estados e o Distrito Federal são de 2009, mas foram divulgados hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

São, portanto, os mais atualizados dados oficiais existentes sobre o tema.

O dado aparentemente espantoso de que o Distrito Federal esteja à frente de um Estado dinâmico e industrializado como Santa Catarina deve-se, naturalmente, ao fato de Brasília ser sede do governo e de o dinheiro público ser o grande responsável pela movimentação econômica do DF.

Da Agência Brasil

Rio de Janeiro – Oito estados ainda concentravam 78,1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 2009. O dado foi divulgado hoje (23) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da pesquisa Contas Regionais do Brasil 2005-2009.

Apenas o Estado de São Paulo concentrou um terço do PIB brasileiro, com 33,5% de participação na economia nacional. Outras unidades da Federação que lideraram a participação no PIB foram o Rio de Janeiro (10,9%), Minas Gerais (8,9%), o Rio Grande do Sul (6,7%), Paraná (5,9%), a Bahia (4,2%), o Distrito Federal (4,1%) e Santa Catarina (4%).

As cinco maiores economias do país, em 2009, mantiveram a posição de 2008. O Estado da Bahia assumiu a sexta colocação no ranking, ocupando a posição que era de Santa Catarina em 2008.

São Paulo foi o Estado que mais ganhou participação no PIB de 2008 para 2009 – passou de 33,1% para 33,5%. Já Rio de Janeiro e Minas Gerais foram os Estados que mais perderam participação. A parcela do Rio na economia nacional caiu de 11,3% para 10,9%, enquanto a de Minas Gerais diminuiu de 9,3% para 8,9%.

 

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