Blogs e Colunistas

analfabetismo

08/03/2014

às 15:00 \ Política & Cia

LYA LUFT: Podemos ser mais dignos? Podemos

“Talvez a esperança seja não a destruição de ônibus, a quebradeira de lojas, a insensatez desatada, mas o gesto mais simples, breve, transformador, desde que a gente saiba o que está fazendo: o ‘voto’” (Ilustração: Atômica Studio)

“Talvez a esperança seja não a destruição de ônibus, a quebradeira de lojas, a insensatez desatada, mas o gesto mais simples, breve, transformador, desde que a gente saiba o que está fazendo: o ‘voto’” (Ilustração: Atômica Studio)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

PODEMOS SER MAIS DIGNOS? PODEMOS

Lya LuftDificilmente encontramos alguém, a não ser criança ou adolescente naquela fase de autorreferência compulsiva e natural, que esteja contente com a situação em geral.

Que pense ou diga: “Está tudo bem, estamos tranquilos, o país cresce, o povo é razoavelmente bem tratado, nada a reclamar…”.

Manifestações se agitam no Brasil. Pelos mais singulares motivos, ora surreais, ora convincentes, saímos às ruas, querendo ordem, progresso e paz, mas admitindo entre nós a violência e o crime, tudo organizado e financiado por alguém. Um partido, uma instituição, um grupo… alguém. Pois nada disso acontece aleatoriamente.

Há sincronicidade, combinação, uma teia básica que controla tudo. O que, quem, como, de onde, não sabemos, pelo menos nós, pessoas comuns. Sentimos que algo está no ar, e não é amável, mas perigoso e sombrio. Temos de achar um equilíbrio entre a indignação justa e essencial e o desejo de destruição e violência.

A mim me impressionam centenas de pessoas descendo de um trem quebrado e andando pelos trilhos em busca do seu destino ou de uma condução. Às vezes jogam pedras e quebram vidros ou portas do trem, mas a maioria, mesmo reclamando, não demonstra indignação. Muitos, num meio sorriso resignado, dizem: “É ruim, mas é assim, que fazer?”.

Ou, quando a enchente mais uma vez inundou a casa, matou a criança, destruiu os bens, e ninguém em alguns anos providenciou nada, comentam: “Com a ajuda de Deus, vou mais uma vez começar do zero”.

Manadas de seres humanos apinhados nos ônibus e trens, sem o menor conforto, pendurados naquelas alças, esfregados, amassados por tantos corpos humanos suados e exaustos, dia após dia, ano após ano, consumindo diariamente duas, quatro horas de seu tempo, sua saúde, sua vida, vão para o trabalho e voltam, em condição subumana, e fazem suas reclamações, às vezes com palavras duras e justas, mas acrescentam: “O que fazer? Por aqui é assim”.

Os indignados, e mesmo os mansos, todos quereriam mudar; iriam mudar, se pudessem. Ou melhor: se soubessem o que fazer. Não há autoridade a quem se queixar, pois o máximo que se recebe é a notícia de mais uma comissão, um projeto, empilhado sobre dezenas de outros que há muitos anos mofam em gavetas ou em pastas.

Podemos melhorar de vida? Podemos não ser caçados por bandidos como coelhos pelas ruas dia e noite, podemos viver em morros sem nos enfiarmos embaixo da cama nos frequentes tiroteios, podemos ter água para beber, cozinhar e tomar banho, e energia elétrica para o chuveiro, o ventilador, a luz da casa?

Podemos uma porção de coisas melhores em nossa tumultuada vida? Podemos ser mais dignos e mais altivos? Podemos.

Não sabemos para que lado nos virar, onde procurar, a quem recorrer. Talvez a esperança seja não a destruição de ônibus, a quebradeira de lojas, a insensatez desatada, mas o gesto mais simples, breve, pequeno, porém transformador, desde que a gente saiba o que está fazendo, o que deve fazer: o “voto”.

Porém uma imensa maioria de nós, embora adulta, nem sabe ler. Outra boa parte da população, se sabe ler, não tem energia, interesse, tempo, instrução suficiente para se dedicar a esses assuntos, se informar, debater e descobrir algum nome a quem confiar esse voto.

De modo que, levados pelas corredeiras eleitorais já deslanchadas, provavelmente muitos — que cedo se arrependerão, pois ignoravam a força de seu ato —, por desalento, votem em nomes que não conhecem, que não levam a sério, de que não ouviram falar ou que chegam montados em promessas impossíveis e falações vãs.

Então, por estarmos tão cansados, suados, desanimados ou zangados, mas sem lucidez, eles vão receber, na hora da eleição, o apoio de quem parou um instante no posto da ilusão e digitou um número, um nome, uma sigla, um destino seu, que não acabará significando nada.

12/05/2013

às 17:00 \ Política & Cia

O Brasil saiu forte da crise de 2008 — mas está se enfraquecendo quando o mundo começa a melhorar. É triste

O Brasil perdeu o bonde? (Foto: Bia Alves / Fotoarena)

O Brasil perdeu o bonde? (Foto: Bia Alves / Fotoarena)

Do blog Política & Economia Na Real, do jornalista José Márcio Mendonça e do economista Francisco Petros

O BRASIL PERDEU A OPORTUNIDADE

Convenhamos: há oportunidades seculares que, quando se perdem, são lamentadas por um bom tempo. Veja-se, a título de ilustração, o Brasil e a Coreia do Sul no início dos anos 1970.

Eram ambos “países emergentes” com PIB semelhantes, nível educacional parecido, dimensão de comércio exterior mais ou menos igual. O Brasil era o gigante do “milagre econômico” do regime militar e a Coreia do Sul, um país pequeno também sujeito a uma ditadura.

Pois bem: olhado o resultado depois de 40 anos, vê-se a oportunidade perdida. A Coreia do Sul toca os indicadores dos países centrais e o Brasil ainda discute o fim do analfabetismo.

Da mesma forma é o que se vê hoje: um país paralisado politicamente por um pacto de poder que se calça na ambição de permanecer mandando. Enquanto isso, a indústria está capenga, a criminalidade impera, a educação mostra suas cáries e assim vai.

O Brasil saiu forte da crise de 2008. Agora está se enfraquecendo quando o mundo começa a melhorar. Seria risível, não fosse trágico.

26/09/2012

às 16:42 \ Política & Cia

Lya Luft: “Estamos carentes de excelência. A mediocridade reina, assustadora, implacável e persistente”

O mérito deve ser verificado pelo empenho e resultados dos alunos, considerando uma boa educação pública - mesmo que em forma de bolsas (Foto: Tiago Lubambo)

"As infelizes cotas (...) servem magnificamente para alcançarmos a mediocrização também do ensino superior" (Foto: Tiago Lubambo)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA que está nas bancas

 

BUSCANDO A EXCELÊNCIA

Lya Luft

Lya Luft

Quando falo em excelência, não me refiro a ser o melhor de todos, ideia que me parece arrogante e tola. Nada pior do que um arrogante bobo, o tipo que chega a uma reunião, seja festa, seja trabalho, e já começa achando todos os demais idiotas. Nada mais patético do que aquele que se pensa ou se deseja sempre o primeirão da classe, da turma, do trabalho, do bairro, do mundo, quem sabe? Talento e discrição fazem uma combinação ótima.

Então, excelência para mim significa tentar ser bom no que se faz, e no que se é. Um ser humano decente, solidário, afetuoso, respeitoso, digno, esperançoso sem ser tolo, idealista sem ser alienado, produtivo sem ser viciado em trabalho. E, no trabalho, dar o melhor de si sem sacrificar a vida, a família, a alegria, de que andamos tão carentes, embora os trios elétricos desfilem e as baladas varem a madrugada.

Estamos carentes de excelência. A mediocridade reina, assustadora, implacável e persistente. Autoridades, altos cargos, líderes, em boa parte desinformados, desinteressados, incultos, lamentáveis. Alunos que saem do ensino médio semianalfabetos e assim entram nas universidades, que aos poucos — refiro-me às públicas — vão se tornando reduto de pobreza intelectual.

As infelizes cotas, contra as quais tenho escrito e às quais me oponho desde sempre, servem magnificamente para alcançarmos este objetivo: a mediocrizaçâo também do ensino superior. Alunos que não conseguem raciocinar porque não lhes foi ensinado, numa educação de brincadeirinha.

E, porque não sabem ler nem escrever direito e com naturalidade, não conseguem expor em letra ou fala seu pensamento truncado e pobre. Professores que, mal pagos, mal estimulados, são mal preparados, desanimados e exaustos ou desinteressados. Atenção: há para tudo isso grandes e animadoras exceções, mas são exceções, tanto escolas quanto alunos e mestres. O quadro geral é entristecedor.

E as cotas roubam a dignidade daqueles que deveriam ter acesso ao ensino superior por mérito, porque o governo lhes tivesse dado uma ótima escola pública e bolsas excelentes: não porque, sendo incapazes e despreparados, precisassem desse empurrão. Meu conceito serve para cotas raciais também: não é pela raça ou cor, sobretudo autodeclarada, que um jovem deve conseguir diploma superior, mas por seu esforço e capacidade, porque teve ótimos 1º e 2° graus em escola pública e ou bolsas que o ampararam.

Além do mais, as bolsas por raça ou cor são altamente discriminatórias: ou teriam de ser dadas a filhos de imigrantes japoneses, alemães, italianos, que todos sofreram grandemente chegando aqui, e muitos continuam precisando de esforços inauditos para mandar um filho à universidade.

Em suma, parece que trabalhamos para facilitar as coisas aos jovens, em lugar de educá-los com e para o trabalho, zelo, esforço, busca de mérito, uso de sua própria capacidade e talento, já entre as crianças. O ensino nas últimas décadas aprimorou-se em fazer os pequenos aprender brincando.

Cotas, ainda mais por raça ou cor, "são altamente discriminatórias: ou teriam de ser dadas a filhos de imigrantes japoneses, alemães, italianos, que todos sofreram grandemente chegando aqui, e muitos continuam precisando de esforços inauditos para mandar um filho à universidade: (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / ABr)

Cotas, ainda mais por raça ou cor, "são altamente discriminatórias: ou teriam de ser dadas a filhos de imigrantes japoneses, alemães, italianos, que todos sofreram grandemente chegando aqui, e muitos continuam precisando de esforços inauditos para mandar um filho à universidade" (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / ABr)

 

» Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

20/08/2012

às 17:05 \ Política & Cia

ANALFABETISMO: a situação é ruim, e tem tudo para piorar

analfabetismo

Menos de 30% dos brasileiros são plenamente alfabetizados

Amigas e amigos do blog, são péssimas as notícias contidas no texto abaixo, da repórter Amanda Cieglinski, da Agência Brasil, sobre a questão dos graus de alfabetização no Brasil.

E, como diz um grande amigo meu, essa situação vai melhorar muito quando começarem a aparecer os efeitos de livros ensinando que falar errado está certo (o MEC comprou cerca de 500 mil exemplares de um deles).

Menos de 30% dos brasileiros são plenamente alfabetizados, diz pesquisa

Brasília – Apenas 35% das pessoas com ensino médio completo podem ser consideradas plenamente alfabetizadas e 38% dos brasileiros com formação superior têm nível insuficiente em leitura e escrita. É o que apontam os resultados do Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf) 2011-2012, pesquisa produzida pelo Instituto Paulo Montenegro e a organização não governamental Ação Educativa.

A pesquisa avalia, de forma amostral, por meio de entrevistas e um teste cognitivo, a capacidade de leitura e compreensão de textos e outras tarefas básicas que dependem do domínio da leitura e escrita. A partir dos resultados, a população é dividida em quatro grupos: analfabetos, alfabetizados em nível rudimentar, alfabetizados em nível básico e plenamente alfabetizados.

Os resultados da última edição do Inaf mostram que apenas 26% da população podem ser consideradas plenamente alfabetizadas – mesmo patamar verificado em 2001, quando o indicador foi calculado pela primeira vez. Os chamados analfabetos funcionais representam 27% e a maior parte (47%) da população apresenta um nível de alfabetização básico.

“Os resultados evidenciam que o Brasil já avançou, principalmente nos níveis iniciais do alfabetismo, mas não conseguiu progressos visíveis no alcance do pleno domínio de habilidades que são hoje condição imprescindível para a inserção plena na sociedade letrada”, aponta o relatório do Inaf 2011-2012.

O estudo também indica que há uma relação entre o nível de alfabetização e a renda das famílias: à medida que a renda cresce, a proporção de alfabetizados em nível rudimentar diminui. Na população com renda familiar superior a cinco salários mínimos, 52% são considerados plenamente alfabetizados. Na outra ponta, entre as famílias que recebem até um salário por mês, apenas 8% atingem o nível pleno de alfabetização.

De acordo com o estudo, a chegada dos mais pobres ao sistema de ensino não foi acompanhada dos devidos investimentos para garantir as condições adequadas de aprendizagem. Com isso, apesar da escolaridade média do brasileiro ter melhorado nos últimos anos, a inclusão no sistema de ensino não representou melhora significativa nos níveis gerais de alfabetização da população.

“O esforço despendido pelos governos e também pela população de se manter por mais tempo na escola básica e buscar o ensino superior não resulta nos ganhos de aprendizagem esperados. Novos estratos sociais chegam às etapas educacionais mais elevadas, mas provavelmente não gozam de condições adequadas para alcançarem os níveis mais altos de alfabetismo, que eram garantidos quando esse nível de ensino era mais elitizado. A busca de uma nova qualidade para a educação escolar em especial nos sistemas públicos de ensino deve ser concomitante ao esforço de ampliação de escala no atendimento para que a escola garanta efetivamente o direito à aprendizagem ”, resume o relatório.

A pesquisa envolveu 2 mil pessoas, de 15 a 64 anos, em todas as regiões do país.

Veja quais são os quatro níveis de alfabetização identificados pelo Inaf 2011-2012:

Analfabetos: não conseguem realizar nem mesmo tarefas simples que envolvem a leitura de palavras e frases ainda que uma parcela destes consiga ler números familiares.

Alfabetizados em nível rudimentar: localizam uma informação explícita em textos curtos, leem e escrevem números usuais e realizam operações simples, como manusear dinheiro para o pagamento de pequenas quantias.

Alfabetizados em nível básico: leem e compreendem textos de média extensão, localizam informações mesmo com pequenas inferências, leem números na casa dos milhões, resolvem problemas envolvendo uma sequência simples de operações e têm noção de proporcionalidade.

Alfabetizados em nível pleno: leem textos mais longos, analisam e relacionam suas partes, comparam e avaliam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Resolvem problemas que exigem maior planejamento e controle, envolvendo percentuais, proporções e cálculo de área, além de interpretar tabelas, mapas e gráficos.

 

Leia também:

Vergonha nacional: temos mais analfabetos do que o Paraguai, a Mongólia, a Albânia…

Roberto Pompeu de Toledo – 232 bombas atômicas

07/08/2012

às 13:09 \ Tema Livre

Lya Luft: Quando morre alguém que amamos

revoada

"Hoje quero falar da morte dos nossos afetos"

(Texto publicado na edição impressa de VEJA)

 

QUANDO MORRE ALGUÉM QUE AMAMOS

 

Lya Luft

Lya Luft

Hoje não vou me alongar sobre o espantoso analfabetismo brasileiro que inclui universitários, o que para mim nem foi choque nem novidade: há anos sabemos disso. E, quanto mais baixamos o nível do ensino pensando agradar aos mais simples e incluir os mais despossuídos, em lugar de lhes prestar um favor, apenas lhes oferecemos coisas piores.

Poderíamos, em lugar disso, oferecer excelentes cursos técnicos, de onde sairiam para profissões extremamente necessárias ao país, e que eventualmente pagam melhor do que muitas profissões liberais.

Hoje quero esquecer educação, deseducação, abandono, desinteresse, incompetência, mediocridade: quero falar da morte dos nossos afetos, de mais um amigo perdido. Figura inesquecível, de quem não darei o nome, pois tantos mereceriam estar aqui citados.

Quem o conheceu sabe de quem falo. Quero nele homenagear os bons afetos que nos ajudam a viver, e a crescer, especialmente aqueles que foram originais, inimitáveis como este, e que nos fazem sentir quanto nos dedicamos a bobagens, sofremos por tolices, nos desperdiçamos em futilidades (não que futilidades não sejam necessárias, ou seríamos uma manada de bois obtusos ruminando o nada).

Mas devíamos lhes reservar um espaço um pouco menor, e quem sabe o choque da morte, da doença, do drama humano, em qualquer idade e lugar, nos fizesse rever alguns conceitos, elaborar alguns valores – ainda que por poucas horas ou semanas.

Quando morre alguém que a gente ama, seja amigo, amado, alguém da família, todo o resto diminui, fica encoberto por um nevoeiro, tudo para. O mundo é pura sombra, o planeta não gira, e se gira não interessa. Estamos petrificados no choque, na dor, na inconformidade, às vezes na autocompaixão.

Conheci um viúvo que diante da mulher morta gritava: “Como é que isso foi me acontecer?”. Ele tinha sofrido esse último tipo de traição: a amante Morte sempre vence. Tanto mais quanto mais não aceitarmos, com o tempo, que aqueles que morrem apenas se transformam; enveredam por outra dimensão; vão crescer e se aperfeiçoar mais; ou se escondem, fingem-se de mortos e nos espiam lá do seu enigma, e nos cuidam, conforme a crença de cada um.

Quando foi bom o amor, os mortos pedem que a gente não os perturbe, e que viva sem muito desgosto e sem mórbido luto. Pedem que abaixemos o ruído das nossas aflições, e que, porque os amamos, seja agora com um amor que não os algeme. Se a onda natural de culpa for excessiva e tiver algum real fundamento, vamos nos agarrar desesperadamente aos mortos – não para que nos ensinem a viver de novo, mas como bandeiras escuras de isolamento e rancor.

Quando estavam de bom humor, os deuses abriram as mãos e soltaram neste mundo os oceanos e as sereias, os campos onde corre o vento, as árvores com mil vozes, as manadas, as revoadas – e, para atrapalhar, as pessoas. Que passaram a correr meio desnorteadas atrás de coisas que nem sabem direito: a mulher mais sedutora, o homem mais poderoso, ou coisa nenhuma. Tudo menos parar e pensar. Enquanto isso a Morte revira seus grandes olhos de gato, termina de palitar os dentes e prepara o bote: nós nunca estamos preparados.

Quando de bom humor, os deuses fizeram as manadas, bem como as revoadas

"Quando de bom humor, os deuses abriram as mãos e soltaram neste mundo os oceanos e as sereias, os campos onde correm os ventos (...), as manadas, as revoadas"

Nem eu que, como todos, perdi muitos afetos. Mas isso me ensinou a não acreditar demais na morte nem desistir da esperança, que rebrilha entre o cascalho bruto. A gente tem de aprender a enxergar, tem de crescer como, dizem as lendas, crescem ainda nos silenciosos túmulos os cabelos de quem se foi (mas hoje a gente é cremada, nem vermes nem longas cabeleiras).

A Morte, amiga indesejada, vai colhendo alguns dos que mais amamos, e os esconde nas suas largas mangas. Quando trabalhamos ou nos divertimos, ela passeia pelas praças, sobe nos telhados mais altos, e aponta aqui e ali seu dedo ossudo: este, este, esta, aquela. Às vezes vários num só golpe.

Ela é natural, dizem; é inevitável, sabemos. Mas a gente não entende, não aprende, não se conforma. Porque não se decifra esse enigma. Porque não somos bons alunos nessa dura escola.

24/07/2012

às 14:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo – 232 bombas atômicas

navio-brasil

"Se quatro brasileiros, cada um com um manual de sobrevivência na mão, têm cinco minutos para lê- lo, num barco que está afundando, um deles morrerá"

(Artigo publicado na edição de VEJA que está nas bancas)

232 BOMBAS ATÔMICAS

Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo

Pesquisa divulgada na semana passada pela ONG Ação Educativa, em colaboração com o Instituto Paulo Montenegro, ligado ao Ibope, indica que 27% dos brasileiros são analfabetos funcionais.

Isso significa que, se quatro brasileiros, cada um com um manual de sobrevivência na mão, têm cinco minutos para lê- lo, num barco que está afundando, um deles morrerá.

A pesquisa toma por base os 130 milhões de brasileiros com idade acima de 15 anos. Caso todos eles se encontrassem na mesma situação, num superbarco, 32,5 milhões morreriam.

O cataclismo é de proporções cósmicas. Seriam necessárias 232 bombas como as que caíram sobre Hiroshima, onde morreram 140000 pessoas, para chegar a esse total.

O leitor, que é esperto, e tem a sorte de desde a adolescência ter escapado do clube dos analfabetos funcionais, sabe que o superbarco da imagem acima é o barco Brasil, e o “morrer” não é morrer de verdade, mas ser desclassificado para trabalhos que exijam o domínio de textos e de cálculos com média complexidade.

Temos quase dois Chiles de pessoas despreparadas para tarefas acima das rudimentares

O resultado continua sendo catastrófico: 32,5 milhões de brasileiros estão de saída desclassificados. O barco Brasil carrega quase dois Chiles de despreparados para tarefas acima das rudimentares.

A ONG Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro começaram em 2001 a pesquisar o que chamam de Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). De lá até agora, o índice de analfabetismo puro e simples caiu pela metade no país — de 12% para 6%. O de analfabetismo funcional também caiu — de 39% para 27%.

Nem por isso os índices são satisfatórios e, em alguns detalhes, a pesquisa revela um quadro ainda mais cruel. Afora o analfabetismo puro e simples, o Inaf considera três níveis de alfabetização: a rudimentar, a básica e a plena. A rudimentar é a que permite ler um anúncio e operar com pequenas quantias; a básica, a que possibilita ler textos mais longos e vencer operações como as que envolvem proporções; a plena, a que contempla os níveis mais altos de análise de textos e de operações matemáticas.

São três os níveis de alfabetização: a rudimentar, a básica e a plena. A rudimentar é a que permite ler um anúncio e operar com pequenas quantias; a básica, a que possibilita ler textos mais longos e vencer operações como as que envolvem proporções; a plena, a que contempla os níveis mais altos de análise de textos e de operações matemáticas

São três os níveis de alfabetização: a rudimentar, a básica e a plena. A rudimentar é a que permite ler um anúncio e operar com pequenas quantias; a básica, a que possibilita ler textos mais longos e vencer operações como as que envolvem proporções; a plena, a que contempla os níveis mais altos de análise de textos e de operações matemáticas. O percentual de plenos -- 26% -- é o mesmo hoje do que era em 2001!

Nem formados em universidades alcançam a alfabetização plena

Da soma dos alfabetizados básicos e plenos resulta o total dos alfabetizados funcionais. Eles são 73% hoje, contra 61% em 2001. Mas, considerados só os alfabetizados plenos, o total não se moveu: eram 26% em 2001 e continuam 26%.

Também é desanimadora a constatação de que, mesmo entre os portadores de diploma universitário, há carências na alfabetização. Trinta e oito por cento deles não alcançam o nível de alfabetização plena. Tal constatação põe por terra o argumento de que o mar de faculdades mambembes espalhado pelo país cumpriria ao menos o papel de suprir as deficiências escolares anteriores do aluno.

A presidente Dilma Rousseff disse outro dia, rodeada pelas crianças que participavam da Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que não é pelo PIB que um país deve ser julgado, mas pela capacidade “de proteger o seu presente e o seu futuro, que são suas crianças e seus adolescentes”.

Foi criticada por vários motivos: porque sem um PIB robusto não há como cuidar bem das crianças; porque suas palavras embutiam a falácia de que o país cuida bem das crianças; porque fez a declaração no mesmo dia em que o Banco Central divulgava mais uma das hoje habituais más notícias quanto à saúde da economia.

Acompanhamos milimetricamente os respiros do PIB. Já em relação à educação…

As críticas eram justas. Se o PIB anda mal, vamos mudar de assunto — eis o convite com que acenava a presidente. Mas o fato de ela invocar o PIB quando falava de crianças tem a virtude de ressaltar a desproporção da atenção dispensada no país a um e outro. Os respiros do PIB são acompanhados milimetricamente. Uma notícia negativa, como o recuo de 0,02% em maio com relação a abril, como anunciava o Banco Central naquele dia, provoca a mobilização do ministro da Fazenda.

Já as más notícias na educação, que em última análise é o que mais importa, quando se fala em crianças e adolescentes, não produzem o mesmo efeito. Não há sinal de que o ministro da Educação tenha se abalado com a divulgação da pesquisa sobre o analfabetismo. Aliás, onde está o ministro da Educação? Não só o atual, mas seus antecessores, a não ser quando são candidatos a alguma coisa, onde se enfiam? Os ministros da Fazenda, o atual como os antecessores, estão sempre em todas.

Para fazer justiça, o problema não é só o ministro da Educação. Também não é só o governo. A sociedade mostra interesse igualmente apenas relativo pela catástrofe das 232 bombas de Hiroshima sobre a educação brasileira. As gerações perdidas vão se acumulando umas sobre as outras, num barco Brasil que mal e mal se equilibra, com tanta gente despreparada para decifrar o manual de sobrevivência.

14/10/2011

às 15:00 \ Política & Cia

J. R. Guzzo: governantes de um país com os problemas do Brasil deveriam ficar quietinhos, trabalhando, e não dando conselhos de como salvar o mundo

Amigos, publicado na edição de VEJA que está nas bancas, vai, como sempre, direto ao ponto o artigo de J. R. Guzzo, ex-diretor da própria revista durante 15 anos e atual diretor do grupo Exame da Editora Abril.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Aulas para o mundo

“Os governantes de um país que tem os índices de criminalidade, analfabetismo e corrupção do Brasil deveriam ficar em silêncio e trabalhar o tempo todo para resolver nossas desgraças, em vez de se meter a dar palpite em problemas alheios”

J. R. Guzzo

J. R. Guzzo

Tornou-se um hábito do governo brasileiro e suas redondezas, nos últimos tempos, dizer aos países desenvolvidos o que deveriam fazer para melhorar de vida e sair da triste situação em que andam metidos – em contraste, é claro, com o Brasil, onde tudo é melhor hoje em dia, da política econômica ao misto-quente, e onde a gerência da administração pública praticamente não encontra rivais em nenhum outro lugar do mundo em matéria de sabedoria, qualidade das decisões tomadas e quantidade de problemas resolvidos.

Basta a uma pessoa atenta passar meia hora em algum país rico para ver que ali está tudo liquidado, segundo nos asseguram figuras-chave do atual governo e, sobretudo, do seu antecessor. Não é bem o que milhões de brasileiros que viajam ao exterior veem com os próprios olhos, mas quem está interessado em sua opinião?

Dilma dando conselhos aos países desenvolvidos

Já no Brasil, enquanto isso, qualquer um pode ver como foram bem resolvidos, finalmente, problemas que têm sido uma dor de cabeça para a humanidade durante os últimos 10 000 anos. Ainda na semana passada, em Bruxelas, a capital da comunidade europeia, a presidente Dilma Rousseff deu um novo pacote de conselhos às nações desenvolvidas. Vejam só que beleza está o Brasil, disse a presidente. Por que vocês não fazem como a gente?

Dilma acha que a Europa, os Estados Unidos, o Japão e outros países atualmente em ruínas deveriam aprender com o Brasil que o sistema financeiro precisa ser severamente controlado através do mundo. Seria bom, também, que vissem como o governo brasileiro, com o seu entendimento superior das coisas, conseguiu dar ao país crescimento econômico, aumento de renda, mais emprego, melhora na produtividade e equilíbrio nas contas públicas.

Os governos deveriam fazer uma “coordenação política” entre si para lidar com a “crise” e, possivelmente, governar o mundo do jeito que ele deveria ser realmente governado; havendo qualquer dúvida, o Brasil está aí para ensinar o que for preciso.

Lula também “ensinava” a Obama

A presidente da República está longe de ser a única a dar aulas de “boa governança”, como se diz hoje, aos países ricos – e só a eles, claro, porque dar conselho a país pobre não tem graça nenhuma. Seu antecessor no cargo já faz isso há muito tempo; uma das suas lições preferidas é ensinar aos Estados Unidos (ou, como diz, “ao Obama”) que o seu problema é não terem (“como eu tinha no Brasil”) um Banco Central, um Banco do Brasil, uma Caixa Econômica, um BNDES e outras maravilhas da finança estatal. Se tivessem algo parecido, a crise internacional já estaria resolvida há muito tempo.

Até o ministro da Fazenda, Guido Mantega (foto), que no Brasil prefere normalmente ficar sentado na classe a ir para o quadro-negro, se sente animado a dar suas aulas quando a plateia é de Primeiro Mundo. Já sugeriu, por exemplo, que os Brics forneçam ajuda à zona do euro para resolver os problemas atuais da moeda europeia.

É verdade que não explicou como uma coisa dessas poderia ser feita na prática, nem o que os outros Brics achariam da sua ideia, mas fica aí mais uma contribuição para a melhoria do mundo. Da mesma forma, deram também para fornecer suas lições de sabedoria analistas políticos, cérebros da ciência econômica nacional e até empresários citados nas listas de bilionários internacionais. O que há em comum entre eles é que pouco ou nada de útil resulta de todo o seu palavrório pelo mundo afora.

guido-mantega-sorrindo-nova

Mantega já sugeriu que os Brics forneçam ajuda à zona do euro. O que será que os outros Brics acharam da ideia? (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/EXAME)

O Brasil passou os últimos 100 anos ouvindo do Primeiro Mundo, através de suas cabeças mais respeitadas, todos os tipos possíveis de conselho. Líderes de governos e de organizações mundiais, capitães da grande indústria e da grande finança, economistas que fizeram história, prêmios Nobel – todos, num momento ou outro, disseram quanto o Brasil estava errado, e como teria de se comportar para ter alguma esperança de salvação.

É perfeitamente sabido e comprovado, hoje, que muitos dos conselhos que deram estão entre os mais estúpidos já registrados pela história humana. Seria prudente, diante dessa experiência, que autoridades ansiosas em aconselhar os outros pensassem um pouco mais antes de falar, para não acabarem cometendo o mesmo erro.

Deveríamos ficar quietinhos, resolvendo nossos grandes problemas

Mais que tudo, na verdade, governantes de um país que tem os índices de criminalidade, analfabetismo e corrupção do Brasil, para mencionar apenas uma parte da calamidade nacional permanente, deveriam ficar em silêncio e trabalhar o tempo todo para resolver nossas desgraças, em vez de se meter a dar palpite em problemas alheios. Pelo jeito, é esperar demais.

11/05/2011

às 9:58 \ Política & Cia

Uma preciosidade: em filme de Glauber Rocha, Sarney promete tirar o Maranhão da miséria ao assumir o governo, em 1966. De lá para cá, o Maranhão mudou?

Amigos, como é bom registrar a história, não?

Vejam a preciosidade que é o vídeo com a “reportagem cinematográfica” dirigida por Glauber Rocha e Fernando Duarte — na verdade, um descarado trabalho de propaganda claramente feito sob encomenda — mostrando a posse no governo do Maranhão, em 1966, do então jovem ex-deputado e futuro presidente da República José Sarney.

Vindo da chamada “Bossa Nova” da extinta UDN, eleito pela Arena, magrinho e com cabelos originalmente escuros, Sarney chegou como promessa de renovação de costumes e de redenção econômica de um dos Estados mais miseráveis do país.

O filme mostra cenas da cidade de São Luís e flagrantes da miséria do Maranhão — hospitais caindo aos pedaços, lixões percorridos por catadores, prisões horrendas, crianças carentes — entremeadas da festa popular por Sarney e tendo como trilha sonora seu discurso de posse diante de grande multidão.

Ele promete acabar com a roubalheira, com a “miséria, a angústia e a fome”, combater o analfabetismo, “as mais altas taxas de mortalidade infantil, de tuberculose, de malária e de xistosoma [esquistossomose] como exercício do quotidiano” — e por aí vai.

Hoje, 45 anos depois, tendo o Estado sido governado na maior parte do tempo pela família Sarney e por aliados e ostentando os últimos lugares em quase todos os indicadores sociais, confira se o cenário mudou fundamentalmente no Maranhão em relação ao quadro que o então jovem governador descrevia.

29/04/2011

às 15:30 \ Política & Cia

Vergonha nacional: temos mais analfabetos do que o Paraguai, a Mongólia, a Albânia…

Amigos, precisamos instituir o Dia da Vergonha.

Se formos fazê-lo para cada uma das vergonhas nacionais, talvez fôssemos precisar lançar mão do calendário inteiro.

Mas o Dia da Vergonha deveria ser criado como uma data-símbolo de mobilização pela educação: melhor salário, melhor treinamento, melhores planos de carreira e melhor forma de avaliar os professores – e tantas coisas mais.

O primeiro item, porém, precisaria ser acabar com a praga que, combatida desde o regime militar, continua firme, viçosa, exuberante – uma chaga feia e exposta nas nossas pretensões de seermos um grande país: a grande vergonha do analfabetismo.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) acaba de divulgar, com base no Censo de 2010, que quase 10% de nossa população com 15 ou mais anos é analfabeta. Para ser mais preciso, 9,6%. São quase 14 milhões de brasileiros analfabetos – mais que a população inteira do Chile ou de Portugal.

Sem contar os analfabetos funcionais, que Deus sabe quantos seriam.

É muita coisa. Estamos atrás, bem atrás, de países como a Albânia, a Somoa Americana ou a Mongólia. (Veja a relação dos índices de alfabetização no mundo, com dados da CIA americana, aqui).

E olhem que as coisas melhoraram, pois o Censo de 2000 indicava um índice de 13,6% de analfabetos.

Só quem piorou, proporcionalmente, foi o Nordeste, que contém o maior contingente de analfabetos e, sozinho , representa 53,3% (7,43 milhões) dos brasileiros que não sabem ler nem escrever. No Censo anterior, o percentual era de 51,5%.

Nossos vizinhos na América do Sul estão muito melhores do que nós. Contra os quase 10% de analfabetos no Brasil, a Argentina, com todos os seus tropeços, crises e desencontros, abriga apens 2,8% e o Uruguai somente 2% — nível europeu.Até o mais pobre e sempre problemático Paraguai mostra índices mais vistosos: 94% da população é letrada, e apenas 6% são analfabetos.

Que venha o Dia da Vergonha.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados