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Alfonso Pérez Rubalcaba

15/12/2011

às 20:44 \ Vasto Mundo

Espanha: escândalo com genro não afeta apenas o Rei Juan Carlos, mas coloca a monarquia na berlinda

espanha rei com zapatero

Zapatero, acompanhado da mulher, Sonsoles, cumprimenta o Rei Juan Carlos antes do almoço no Palácio Real: elogios à "figura-chave da transição democrática" na Espanha. À esquerda do Rei, a Rainha Sofia (Foto: ABC)

O que não faz a ganância, não é mesmo?

Veja-se o caso de Iñaki Urdangarin, duque de Palma de Mallorca, suspeito de envolvimento em dois espetaculares escândalos de superfaturamento de eventos e desvio de dinheiro público por meio de duas fundações sem objetivo de lucro que dirige.

Genro do Rei da Espanha, Juan Carlos I, bastião da restauração democrática no país, Urdangarin — ora sendo responsável por um brutal desgaste do monarca e da própria monarquia constitucional — é desde o berço abençoado pela sorte.

Nascido de uma família burguesa do País Basco, alto, forte e bem apessoado, foi durante longos anos ídolo do handebol – esporte muito popular na Espanha –, tendo atuado em 14 temporadas pelo Barcelona, onde obteve 12 títulos internacionais e, entre títulos nacionais de pequena, média e alta significação, abiscoitou nada menos do que 40.

Espanha família real

O Rei com os três filhos, a nora, o genro e os oito netos. Saiu das fotos oficiais um ex-genro, separado da filha mais velha, Elena (de vermelho). Urdangarin é o mais alto na foto

Defendeu a seleção espanhola em três Olimpíadas, levando duas medalhas de bronze para casa.

Não bastasse isso, casou-se em 1997 com uma jovem bonita – Cristina, que além do mais vinha a ser a segunda dos três filhos do Rei. Com ela, teve três filhos e uma filha, todos bonitos e saudáveis.

Salário anual de 1 milhão de dólares

Portador de um diploma de economia, outro de administração e dois másters, sempre teve bons empregos e, atualmente, ganha o confortabilíssimo salári de 1 milhão de dólares por ano como presidente da Comissão de Assuntos Públicos da multinacional Telefónica para os Estados Unidos e a América Latina, razão pela qual desde 2009 ele e família residem em Washington.

Precisava mesmo se enfiar em manobras obscuras, para dizer o mínimo, a ponto de o Rei tê-lo afastado da agenda oficial da família real por seu comportamento “não exemplar”?

PRIMERA COMUNION DE MIGUEL URDANGARIN

Iñaki Urdangarin, Cristina e os quatro filhos

Nada foi provado ainda contra Urdangarin, mas o assunto não sai das manchetes dos jornais e dos noticiários e programas de fofocas da TV, num momento especialmente delicado para o país, mergulhado em profunda crise econômica, abatido pela dúvida dos mercados quanto a sua capacidade de fazer frente a sua dívida pública e em transição de um governo socialista, derrotado nas urnas, para um conservador, do Partido Popular.

O momento também não poderia ser pior para o Rei, que nesta semana está recebendo líderes de todos os partidos para os contatos obrigatórios antes de chamar o líder do PP, Mariano Rajoy, para que forme um governo.

Apoios importantes

É verdade que o Rei vem merecendo apoios importantes, mesmo que não se mencione especificamente o escândalo.

Num almoço de despedida que ofereceu no Palácio Real – em grande parte um museu, utilizado apenas para cerimônias – ao ainda presidente do governo (primeiro-ministro) José Luís Rodríguez Zapatero, sua mulher, Sonsoles Espinosa, e todos os atuais ministros, Juan Carlos ouviu de Zapatero que ele foi “figura-chave na Transição” (o período entre a morte do ditador Francisco Franco, em 1975, e a entrada em vigor da Constituição democrática de 1978) um agradecimento “de coração” por seu “compromisso com a Espanha”.

No Congresso de Deputados, Juan Manuel Albendea (PP), o deputado mais velho, que presidia interinamente a sessão inaugural, destacou que o Rei desenvolve “exemplarmente” seu papel há 36 anos, e pediu que os presentes rendessem a ele “uma merecida homenagem de gratidão, respeito e carinho”. O plenário prorrompeu em aplausos, excetuados os deputados nacionalistas bascos e catalães.

Também o atual líder dos socialistas, Alfonso Pérez Rubalcaba, candidato derrotado nas eleições de 20 de novembro, expressou o “apoio sem fissuras” do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) ao Rei, e destacou as decisões adotadas pela Casa Real para “avançar no caminho da transparência”. (O Rei decidiu colocar todas as contas e despesas da Casa Real à disposição do público, na internet).

O principal jornal da Espanha, El País, de centro-esquerda, assinalou, em editorial, que o gesto de transparência “é a melhor garantia para dissipar dúvidas acerca de uma instituição que conta com o afeto majoritário dos cidadãos, principalmente pelos serviços que prestou em momentos difíceis da Transição, nos quais esteve em jogo o futuro da democracia e da Monarquia constitucional”.

Estrago já feito

O problema, porém, é que, mesmo ainda sem Urdangarin ter sido indiciado em inquérito, um estrago está feito. A Espanha tem sido um país monárquico desde sempre, excetuadas a curtíssima experiência republicana ocorrida entre 1873 e 1874, e, depois, a avançada mas trágica República restaurada em 1931 para, em 1936, ver explodir contra ela o levante fascista comandado por Franco e a guerra civil que terminou com a vitória dos chamados “nacionalistas”, em 1939.

Mesmo tendo o país vivido períodos republicanos tão curtos, não foi fácil a restauração da monarquia, após a morte de Franco, que se auto-intitulou Caudillo e permaneceu, por conta própria, como o teórico regente de um trono inexistente.

Juan Carlos havia sido designado sucessor do Caudillo como chefe de Estado, num esquema arquitetado pelo ditador em que caberia ao futuro Rei ser peça decorativa. O regime autoritário, em que tudo estaria, segundo expressão da época, “atado e bem atado” seguiria em frente.

Desconfianças diante do jovem Rei e da monarquia

Morto Franco, o jovem Rei de 37 anos era visto com compreensível desconfiança, ainda mais que fora educado sob o controle de Franco. As desconfianças se estendiam não apenas a ele, mas à instituição monárquica.

Espanha Alfonxo XIII

O Rei Alfonso XIII, avô de Juan Carlos: vaidoso e mundano, deu seu beneplácito a uma ditadura e abdicou após vitória dos republicanos numa eleição

O pai de Juan Carlos e aspirante à Coroa, don Juan de Borbón, levava uma vida pessoal dissoluta e apregoava convicções democráticas nunca confirmadas na prática, tendo sido simpatizante de Mussolini e Hitler durante um tempo e flertado com a ditadura franquista com o objetivo supremo, muitas vezes manifestado com avidez, de ir para o trono fosse como fosse.

Don Juan, porém, nunca mereceu a confiança de Franco, até por seus constantes ziguezagues políticos, e não foi sem dificuldade que engoliu ser preterido pelo filho.

O avô foi um rei odiado

Seu pai, o último rei da Espanha, Alfonso XIII, avô de Juan Carlos, vaidoso e mundano, conduziu a o país de forma tão desastrosa em que a certa altura, premido por uma sucessão de crises e de insatisfação popular, abençoou um golpe de Estado: em 1923, o general Miguel Primo de Rivera assumiu como ditador após suspender a Constituição, dissolver o Parlamento e calar a imprensa, governando, sob beneplácito real, até 1930 – quando, num gesto raríssimo, o general-ditador renunciou e mudou-se para Paris. Doente, morreu um mês depois.

Pode-se dizer que o Rei era odiado e, quando tentou restabelecer um regime democrático, realizando eleições, viu os partidos republicanos terem grande maioria de votos e abdicou, em 1931.

ESpanha rei alfonso xiii com primo de rivera

O Rei Alfonso XIII com o general Miguel Primo de Rivera

O jovem Rei, porém, mostrou-se ousado e corajoso mal assumiu com a morte de Franco. Em poucos meses, livrou-se do veterano homem de confiança que o ditador instalara como chefe do governo, Carlos Arias Navarro. Para seu lugar, trouxe o jovem quarentão e simpático Adolfo Suárez, membro do partido oficial mas sem um passado negro pelas costas, e com ele manobrou de tal forma que as Cortes, o Parlamento biônico da ditadura, decidiram se autodissolver.

O Rei e Suárez convocaram eleições gerais e um Parlamento saído das urnas redigiu uma Constituição democrática que entrou em vigor em 1978, cautelosamente adotando a monarquia, com apoio praticamente unânime dos parlamentares, inclusive dos historicamente republicanos socialistas e comunistas. Submetida a plebiscito, a Carta foi aprovada por grande maioria.

Em fevereiro de 1981, quando altos chefes militares tentaram um golpe de Estado e um tenente-coronel da Guarda Civil, com um grupo de homens armados, ocupou o Congresso , o Rei se legitimou de vez.

Como comandante supremo das Forças Armadas, convocou ao Palácio de la Zarzuela ou falou diretamente por telefone com generais leais – que conhecia por ter cursado as três academias militares, do Exército, Força Aérea e Marinha –, chamou às falas militares rebeldes, ordenou a prisão de um general de alto coturno que fora esteio da ditadura e lutara na Guerra Civil, Milans del Bosch, e foi à televisão denunciar os golpistas e reafirmar sua convicção democrática.

Espanha Príncipe Girona

O príncipe herdeiro, Felipe de Borbón (à direita), com o presidente do governo nacionalista catalão: "gesto nítido de apoio à monarquia" (Foto: El Periódico)

Toda essa longa trajetória, agora, está abalada. Não se discute, na Espanha, apenas o “caso Urdangarin”. Discute-se, agora, a própria conveniência da monarquia. De ontem, quarta, para hoje, quinta, dia 15, os sete principais jornais espanhóis publicaram 57 artigos sobre o escândalo, e não poucos questionavam a necessidade e a conveniência de se manter o regime.

O herdeiro promete “adaptar e adequar” a Coroa aos novos tempos

Justamente por isso, e não por acaso, durante uma solenidade que presidiu em Barcelona, o príncipe herdeiro, Felipe, 43 anos, acompanhado da mulher, Letícia, e uma vez mais sem tocar no escândalo, acentuou seu propósito de “adaptar e adequar” a Coroa aos novos tempos e, muito aplaudido, falou em “rigor, seriedade e coerência”.

Curiosamente, a solenidade foi prestigiada em massa pelo governo nacionalista catalão, tendo à frente seu presidente, Artur Mas, no que o centenário jornal La Vanguardia interpretou como “um gesto nítido de apoio à monarquia através dos príncipes Felipe e Letícia”.

Que ninguém se iluda, porém. A crise não passou.

 

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