Blogs e Colunistas

Ademir da Guia

06/04/2012

às 19:03 \ Livros & Filmes

Um bom livro do melhor cronista esportivo do Brasil: Tostão

tostao-pedro-silveira-folhapress

CONHECIMENTO DE CAUSA -- Tostão: ter sido craque, um dos melhores de todos os tempos, lhe dá vantagem entre os cronistas esportivos (Foto: Pedro Silveira / Folhapress)

FUTEBOL SUBSTANTIVO

As crônicas de Tostão revelam que é possível — embora raro — escrever sem os clichês que contaminam o tema na literatura e no jornalismo

capa-a-perfeicao-nao-existe

Capa: A Perfeição não Existe

Tostão chuta da entrada da área. a bola bate em um zagueiro e volta uns 10 metros. Ele se vira de costas e vai buscá-la. Toca para Paulo Cézar Caju e a recebe novamente. Tira um defensor da jogada com o braço direito. Põe a pelota, calmamente, entre as pernas de Bobby Moore, depois leva um zagueiro ao chão com um sutil corte para a esquerda.

Caindo, consegue se virar e alcança Pelé na marca do pênalti. O camisa 10 encontra Jairzinho. Gol.

São vinte segundos que entraram para a história (vá ao YouTube), 1 a 0 para o Brasil contra a Inglaterra, na Copa de 70 — vinte segundos que ajudam a entender como o cronista Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, escreve sobre futebol.

Se um texto não está claro, ele volta um pouquinho e cuida de burilá-lo na frase seguinte. É preciso dar uma cotovelada retórica em um cartola? É com ele mesmo.

Para a esquerda, vai com frequência, em busca de referências como Che Guevara e Oscar Niemeyer.

À falta de um bom raciocínio, recorre a citações, “para explicar melhor coisas que eu mesmo não consigo explicar tão bem”.

A Perfeição Não Existe — Paixão do Futebol por um Craque da Crônica (Três estrelas; 288 páginas; 37 reais) é uma coletânea de 101 textos de Tostão publicados na Folha de S.Paulo entre 2000 e 2011. O caprichado índice remissivo dá uma ideia do arco de interesses do ex-jogador e ex-médico com diversos cursos de psicanálise no currículo: vai de “a”, de Ademir da Guia, a “Z”, de Zorba, o Grego.

Tostão é o melhor cronista esportivo do Brasil na atualidade. Aos que conhecem futebol, oferece o olhar de quem esteve dentro de campo. Aos neófitos, entrega clareza e simplicidade. Não é pouca coisa para um gênero — a crônica — que já foi celebrado como genuinamente brasileiro, teve momentos brilhantes e hoje anda muito aborrecido.

Mineiro de Belo Horizonte, onde vive até hoje, ícone cruzeirense, Tostão consegue escapar da grande praga a contaminar a literatura e o jornalismo, sobretudo este, a respeito do futebol: os clichês. Não que tenha 100% de sucesso, mas ao menos tem o raro dom de rir dessa situação.

No texto que abre a antologia, ele faz uma lista bem-humorada de lugares-comuns associados a rápidos comentários. “Dois a zero é um resultado perigoso. É mais perigoso que três a zero e menos que um a zero.” Outro: “Vamos correr atrás do prejuízo. Se o time está perdendo, tem de correr atrás do lucro”.

Ter jogado futebol — aliás, ter sido um dos maiores jogadores de todos os tempos — é condição que lhe permite alguma vantagem, por conhecimento de causa, no duelo literário com nomes como Nelson Rodrigues (inigualável no assunto), Armando Nogueira e Mario Filho (irmão de Nelson).

tostao-artilheiro

"É mais interessante ler Tostão que boa parte das reportagens sobre futebol" (Foto: Dedoc)

É mais interessante ler Tostão que boa parte das reportagens sobre futebol. Em alguns casos, ele revela histórias muito boas, como a de uma conversa com João Saldanha.

Escreve Tostão, ao lembrar um diálogo de 1969 com o então treinador da Seleção: “‘Você tem as pernas muito grossas e não pode atuar com essa meia de náilon. Ela aperta e atrapalha a circulação. Vou mandar fazer uma meia especial para você, de algodão’. Fez. Senti-me mais leve para correr”.

Em outros momentos, ele nos faz entender o que se passa na cabeça de um atleta profissional. “Quando jogava, gostava mais de dar um belo e eficiente passe, que resultasse em gol, do que de envolver o adversário com um lúdico drible ou mesmo fazer um gol.”

Tostão no computador é assim — o agradável está nos detalhes, aqui e ali, na garimpagem, mais do que em um gol de placa, definitivamente lapidada em dourado.

(Resenha publicada por Fábio Altman na edição impressa de VEJA)

 

03/11/2011

às 15:11 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: o PC do B, coerente só no stalinismo

Patrícia Galvão e Olga Benário: apropriação indébita

Patrícia Galvão e Olga Benário: apropriação indébita (Fotos: Wikipédia)

Amigos, para mim é sempre um privilégio poder publicar artigos, sempre originais, inteligentes e primorosamente escritos, do jornalista Roberto Pompeu de Toledo. Ainda mais como, neste caso, e como quase sempre, concordo com cada palavra do texto, publicado na edição de VEJA que está nas bancas desta semana.
O título original é o de abaixo. Os intertítulos foram colocados por nós.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . .

‘À moda stalinista’

Roberto Pompeu de ToledoPouco antes de jogar a toalha, na semana passada, e entregar a cabeça do ministro do Esporte, Orlando Silva, o PC do B tentou reinventar seu passado.

No programa de propaganda obrigatória que foi ao ar no dia 20, apresentou como emblemas do partido Luís Carlos Prestes, Olga Benario, Jorge Amado, Portinari, Patrícia Galvão (a Pagu), Oscar Niemeyer e Carlos Drummond de Andrade.

Era uma fraude similar às operações do programa Segundo Tempo. Dos sete, os seis primeiros pertenceram ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o arquirrival do Partido Comunista do Brasil (PC do B). O sétimo, o poeta Carlos Drummond de Andrade, não foi nem de um nem de outro.

Safar-se do escândalo pegando carona

O partido tentava, num programa de TV em que jogava as últimas fichas para safar-se do escândalo no Ministério do Esporte, pegar carona num casal de ícones da história brasileira (Prestes e Olga) e em algumas das mais queridas figuras da cultura do país.

O caso menos grave é o de Oscar Niemeyer, o único vivo do grupo. Apesar de ter sido militante do PCB, já apareceu em programas anteriores do PC do B, do qual aceita as homenagens.

O mais grave é o de Prestes. O PC do B surge, em 1962, do grupo que, no interior do PCB, discordou da denúncia do stalinismo promovida na União Soviética após a morte do ditador. O PC do B, com um curioso “do” no meio da sigla, será daí em diante o guardião da pureza stalinista. Os outros são a “camarilha de renegados”. E o renegado-mor, claro, é Prestes, o líder do PCB.

Apropriando-se de Prestes, o “renegado-mor”

No verbete “PC do B” da Wikipédia, escrito num tão característico comunistês que não deixa dúvida quanto à sua procedência oficial, Prestes é tratado de “revisionista” (insulto grave, em comunistês) e acusado de ter “usurpado a direção partidária”. Também se diz ali que “abandonado à própria sorte, em idade avançada”, Prestes “dependerá de amigos como Oscar Niemeyer para sobreviver”.

Eis colocadas na mesma cloaca da história (o comunistês é contagiante) duas figuras que agora o PC do B alça ao altar de seus santos.

Entre os outros casos de usurpação biográfica, a alemã Olga, primeira mulher de Prestes, foi fiel soldado das ordens de Moscou. Morreu muito antes de surgir o desafio do PC do B, mas é de apostar que essa não seria a sua opção. Portinari e Pagu morreram, no mesmo 1962 do cisma comunista, ele fiel à linha de Moscou, ela convertida ao trotskismo, portanto inimiga do stalinismo.

Jorge Amado na década de 60 já tinha o entusiasmo mais despertado pelo cheiro de cravo e pela cor de canela do que pela causa do proletariado. Em todo caso, sua turma era a de Prestes, o “Cavaleiro da Esperança” que cantara num livro com esse título.

portinari-prestes

Portinari morreu no ano do "racha" e Luís Carlos Prestes, o "revisionista": o primeiro não mudou de lado e o segundo desprezava o PC do B e era furiosamente combatido pelo partido

O caso estapafúrdio do poeta Drummond

O caso mais estapafúrdio é o de Drummond. Nos anos 1930/1940 ele praticou uma poesia de cunho social e filocomunista. Chegou a colaborar com o jornal Tribuna Popular, do PCB. Mas nunca se filiou ao partido. Cultivou a virtude de nunca ser firme ideologicamente. O namoro com o comunismo, dividia-o com a fidelidade ao Estado Novo, ao qual serviu no Ministério da Educação.

No pós-guerra, mitigava o comunismo com a sedução pela UDN do amigo e mentor Milton Campos. Em 1945 votou para senador em Luís Carlos Prestes, do PCB, e para presidente em Eduardo Gomes, da UDN. E, em 1964, apoiou o golpe militar. “A minha primeira impressão foi de alívio, de desafogo, porque reinava realmente, no Rio, um ambiente de desordem, de bagunça, greves gerais, insultos escritos nas paredes contra tudo. Havia uma indisciplina que afetava a segurança, a vida das pessoas”, explicou numa entrevista, transcrita em livro recente (Carlos Drummond de Andrade, Coleção Encontros).

Agora vem o PC do B dizer que Drummond foi um dos seus!?

Um partido coerentemente stalinista

Desconcertante história, a desse partido. A defesa do stalinismo levou-o a festejar o grande timoneiro Mao Tsé-tung e, quando o timão do chinês emperrou, buscar inspiração na Albânia do “Supremo Camarada” Enver Hoxha.

Arriscou uma aventura guerrilheira nos barrancos do Araguaia. E, em anos recentes, encantou-se pela UNE e pelo monopólio da carteirinha de estudante, declarou ao esporte um amor insuspeitado em quem associava o partido à figura franzina do patrono João Amazonas (1912-2002) e recrutou, para reforço de suas chapas, jogadores de futebol (Ademir da Guia, Muller) e cantores (Netinho de Paula, Martinho da Vila) em quem nunca se suporia inclinação pela causa da foice e do martelo.

Se há uma coisa em que manteve a coerência, é no vezo stalinista. Stalin mandava cortar das fotos dirigentes do partido caídos em desgraça. O PC do B inclui em suas fileiras gente que lhe foi alheia.

Pelo avesso, chega ao mesmo fim de falsificar a história.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados