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07/08/2012

às 16:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: sobre mensalão, Olimpíada, Bolívia, Gore Vidal etc

Brasileiro subiu ao lugar mais alto do pódio nas argolas, superando ginastas da China e da Itália

Um brasileiro subiu ao lugar mais alto do pódio nas argolas, superando ginastas da China e da Itália - com nossos atletas, as Olimpíadas é que engrandecem o Hino Nacional

(Publicado em VEJA de 8 de agosto de 2012)

 

OLIMPÍADA, BOLÍVIA, GORE VIDAL ETC.

Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo

O Hino Nacional vive seu grande momento em Olimpíadas. Não há ocasião em que venha mais a propósito. Talvez isso não seja tão evidente para americanos, chineses, russos ou ingleses, acostumados a ouvir seus hinos muitas vezes, na competição.

Para os brasileiros, que pouco ouvem o seu, a raridade ressalta a especificidade do momento. Não é que o Hino Nacional engrandeça as Olimpíadas. Ao contrário, as Olimpíadas é que engrandecem o Hino Nacional. Naquele momento, ele recupera seu significado e justifica sua razão de ser.

O pior momento do Hino Nacional é quando é tocado antes dos jogos dos campeonatos disputados rotineiramente no Brasil. Por efeito de estúpida lei estadual que, salvo engano, primeiro foi baixada em São Paulo, e em seguida copiada em outros estados, o hino tem de ser executado antes de qualquer competição esportiva.

Não se tinha inventado ainda maneira mais segura de torná-lo banal e inoportuno. Hino Nacional é ferramenta para ser utilizada com parcimônia. As Olimpíadas oferecem um momento adequado e justo para que ele provoque os efeitos de que é capaz.

O mensalão não é o primeiro escândalo a envolver pessoas situadas no coração do poder, no Brasil, mas é o primeiro cujo julgamento transcorre sem que se anteveja o abalo das instituições. Ao atentado da Rua Tonelero, em 1954, em que morreu o major Vaz e foi ferido o jornalista Carlos Lacerda, por obra de agentes subalternos do governo Getúlio Vargas, seguiram-se um inquérito ilegalmente conduzido por militares e uma gritaria da oposição que preparavam o golpe.

"O mensalão não é o primeiro escândalo a envolver pessoas situadas no coração do poder, no Brasil, mas é o primeiro cujo julgamento transcorre sem que se anteveja o abalo das instituições"

"O mensalão não é o primeiro escândalo a envolver pessoas situadas no coração do poder, no Brasil, mas é o primeiro cujo julgamento transcorre sem que se anteveja o abalo das instituições"

No processo de impeachment de Fernando Collor, em 1992, pairavam desconfianças de que o caso pudesse desandar em ameaça às recém-conquistadas liberdades. O fato de não se preverem catástrofes semelhantes para o atual julgamento representa uma coisa boa, a contrastar com as tantas ruins que o episódio evoca

Uma frase do ministro das Relações Exteriores da Bolívia, David Choquehuanca, causou confusão na semana passada. Ele fez votos para que o dia 21 de dezembro, o último do calendário maia, marque o fim da Coca-Cola na Bolívia e o início do mono-cochinche, uma bebida popular no país.

O ministro tomava carona nos augúrios do calendário maia para profetizar “o fim do egoísmo, do individualismo e da divisão do país”, simbolizados na troca da Coca-Cola pela bebida nacional. Era uma alegoria, mas foi interpretada como notícia de que o governo iria proibir a Coca-Cola na Bolívia, e como tal circulou em sites brasileiros.

O.k., houve engano. Mas as palavras do ministro indicam que a Coca-Cola continua no centro das fantasias bolivarianas do governo Evo Morales.

É curioso que a declaração do boliviano venha à luz na mesma quadra em que o novo presidente da Coreia do Norte, o jovem Kim Jong-un, surpreendeu o mundo com uma festa em que dividia as atenções com Mickey Mouse, Branca de Neve e o ursinho Puff.

O fim do calendário maia pode estar indicando que os dois países se preparam para permutar posições. Enquanto a Bolívia imbica no rumo de tornar-se uma Coreia do Norte dos Andes, a Coreia do Norte apresta-se para tomar-se, pelo menos, uma Bolívia do mar da China.

Grande Gore Vidal. O escritor americano falecido na semana passada tinha a veia dos grandes provocadores. “O grande e nunca mencionado mal no centro da nossa cultura é o monoteísmo”, defendeu, numa palestra de 1992, em Harvard.

gore-vidal

"Os grandes provocadores assacam com espantosa sem-cerimônia contra as verdades estabelecidas, e nisso Gore Vidal era um campeão"

Um “Deus do céu” está no centro das grandes religiões monoteístas. “Elas (essas religiões) são literalmente patriarcais —Deus é o pai onipotente —, daí o desprezo pela mulher por 2000 anos nos países afetados pelo Deus do céu e seus delegados machos na terra. O Deus do céu é ciumento, claro. Requer total obediência. (…) Em última análise, o totalitarismo é a única política que serve aos propósitos do Deus do céu. Qualquer movimento de natureza liberal ameaça sua autoridade e a de seus delegados na teira. Um Deus, um rei, um papa, um chefe na fábrica, um pai-líder na casa da família.”

Os grandes provocadores assacam com espantosa sem-cerimônia contra as verdades estabelecidas, e nisso Gore Vidal era um campeão. (O colunista agradece ao amigo José Roberto Whitaker Penteado por lhe ter revelado a palestra de Gore).

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6 Comentários

  1. Hans Rudolf Zollinger

    -

    09/08/2012 às 10:40

    “O grande e nunca mencionado mal no centro da nossa cultura é o monoteísmo …”
    Eu admiro o colunista Roberto Pompeu de Toledo pela sua coragem de ter publicado as palavras de Gore Vidal (através do jornalista José Whitaker Penteado Jr). O mundo precisa acordar.

  2. Ricardo Saueressig

    -

    08/08/2012 às 22:03

    Roberto, é verdade, esse negócio do hino nacional antes de jogos de futebol locais é uma vulgarização do hino… Toquem os hinos estaduais, ora…

  3. Corinthians

    -

    08/08/2012 às 13:40

    Este Paulo Moreira Leite é uma piada… de mau gosto.
    Ele quer evitar o paraguai jurídico… já vemos o que ele quer então – o desrespeito às leis.
    Talvez deseje uma Venezuela jurídica, ou então Cuba jurídica.
    Mas dei umas risadas ao ler que não há testemunha de que Dirceu estava articulando a quadrilha, depois dos depoimentos na CPI e da célebre frase “saí daí Zé! e sai rápido!” proferida por Jefferson, que fez o ministro inocente pedir demissão em menos de dois dias. Incrível. Tudo filmado.
    Pior é a de Delúbio que diz que os pactos políticos foram anteriores ao financeiro, e portanto não há quadrilha. A ilógica é tanta que chega a doer.
    Mas ruim mesmo foi ouvir que não precisamos usar da “pressa paraguaia” e que nada se sustenta. Pressa esta que vimos por parte de Lewandovski claro.
    Mas dada a história deste senhor, não fico surpreendido. É só mais um a clamar por impunidade.

  4. Rodrigo

    -

    08/08/2012 às 12:19

    Pedro Luiz, acho que voce nao leu a Veja nos ultimos anos. Voce cita Paulo Moreira Leite porque lhe e conveniente. Leia isto: http://veja.abril.com.br/270705/p_058.html

  5. Ricardo Igreja

    -

    07/08/2012 às 20:13

    Caro Ricardo Setti, acompanho a coluna on line e trago aqui uma sugestao de pauta interessante – desde que o MPU denunciou a quadrilha petralha do mensalao, os servidores e, pasmem, ate os membros , por coincidencia, estao sem reajuste da inflacao no periodo (os membros em 4 anos e nos em 8 anos quase). Aos servidores do MPU e do Judiciario federal, o buraco eh mais embaixo – sao quase 8 anos sem nada…o `companheiro` Lula prometeu que logo que se elegesse a `companheira` Dilma eles sentariam a mesa com os servidores para engendrar alguma negociacao sobre a reposicao da inflacao no periodo, alias, norma constitucional. Mas ate hoje estamos esperando a tal negociacao de reajuste que nao foi negada, porem, a outras categorias do executivo ha 4 anos atras que, curiosamente, estao em greve por novo reajuste. Nossa situacao, porem, eh triste, sao 7 anos, quase 8 sem nenhuma reajuste, ou melhor, recomposicao da inflacao, transformando-se os vencimentos de analistas e tecnicos do MPU – que ajudam o PGR e os Procuradores a escreverem denuncias, pareceres e recursos judiciais contra a corrupcao e crimes varios, alem de acoes civis publicas e outros — nos mais baixos vencimentos da area federal, quando ja foram um dos cinco melhores (curiosamente na era FHC). Temos uma campanha sendo lancada para nunca mais se votar no PT, pois PT eh melhor na oposicao mesmo…a pagina do facebook dos servidores eh essa https://www.facebook.com/pages/MpuForteServidorValorizado/443276775695345
    Um abraco do leitor e amigo Ricardo Igreja.

    Obrigado pela sugestão, caro Ricardo. Vou passá-la ao diretor de Redação de VEJA porque acho que o assunto merece uma divulgação mais ampla do que a do blog.

    Um grande abraço

  6. Pedro Luiz Moreira Lima

    -

    07/08/2012 às 16:30

    Primeiras lições do julgamento

    08:25, 7/08/2012 PAULO MOREIRA LEITE JUSTIÇA, POLÍTICA TAGS: MENSALÃO
    Para quem abriu espaço na agenda para o julgamento do mensalão, assistir ao confronto entre a acusação e a defesa tem sido uma oportunidade única de exercício democrático.

    O Brasil passou os últimos 7 anos ouvindo versões variadas do depoimento de Roberto Jefferson. Alvejado pelo único depoimento claro de malfeitorias no governo, resumido naquele vídeo-confissão de um protegido que nomeou para os Correios, Jefferson foi transformado numa espécie de herói conveniente para o jogo político da oposição, que pretendia atacar o governo Lula, José Dirceu em particular e o PT em geral. Pela repetição em milhares de depoimentos, entrevistas, editorais, reprises, idas, voltas, e assim por diante, Jefferson só não virou herói porque assim também não dá – mas esteve perto, vamos combinar.

    A questão é que pela primeira vez a espessa camada geológica que protegia a verdade publicada sobre o mensalão tem sido submetida publicamente ao contraditório, ao conflito de opiniões, ao questionamento de provas parciais. O resultado é que o mensalão pode até ter sido o ”maior escândalo da história” mas cabe perguntar: de qual história? Por que? Da Justiça? Da política? Da imprensa? Do Ministério Público? O tempo vai dizer.

    Quem assistiu às cinco horas de acusação de Roberto Gurgel, na semana passada, assistiu a uma demonstração de competência. Walter Maierovich disse, na CBN, que a denúncia de Gurgel é comparável a um cruzado de direita, aquele golpe de uma luta de boxe capaz de nocautear o adversário. Isso porque o procurador geral lançou a jurisprudência do domínio do fato, muito aceita em julgamentos que envolve o crime organizado e seu chefe – aquele que comanda uma rede de malfeitorias sem deixar rastros, nem enviar e-mails, sem falar ao telefone nem assinar recibo. Aceita em vários julgamentos a noção de domínio do fato, não pode, é claro, ser uma simples declaração de intenções, uma construção teórica sem apoio em fatos, à moda do Senado Paraguaio, que afastou o presidente Fernando Lugo porque “todo mundo sabia” que ele era culpado daquilo que cinco deputados de oposição diziam que tinham feito sem se dar ao trabalho de juntar provas nem testemunhos críveis.

    A questão é evitar o Paraguai jurídico, evidentemente. E aí a segunda feira foi fundamental. Permitiu, pela primeira vez, que as acusações conhecidas dos brasileiros desde a célebre entrevista de Jefferson durante longo sete anos – há algo de bíblico nesse prazo? – fossem passadas pelo outro lado, pelo crivo da contestação, pela versão dos acusados. E aí é preciso reconhecer que nem tudo ficou de pé.

    O advogado de José Dirceu mostrou que não há uma única testemunha de que o então ministro da Casa Civil estivesse articulando a compra de votos. Admitiu o óbvio, que Dirceu tinha uma imensa influência política em tudo o que ocorria no Planalto. Mas citou testemunhas e testemunhas que afirmavam o contrário do que disse Gurgel.

    O advogado de Delúbio Soares mostrou uma realidade difícil de ser desmentida, a de que a verdade dos acordo políticos, os pactos entre partidos, é anterior ao acordo financeiro. É um argumento bom para se negar a noção de quadrilha, de bandidagem, que desde o início se coloca no debate. A defesa de Delúbio citou uma jornalista insuspeita de qualquer simpatia pelo governo Lula, para sustentar a tese de que todos os gastos e despesas se destinam, na origem, a cobrir despesas de campanha. Admitiu-se, portanto, crime de natureza eleitoral – e não corrupção.

    O advogado de José Genoíno mostrou que é difícil sustentar que seu cliente tenha tido uma atuação além da articulação política. Mostrou que Genoíno assinou os pedidos de empréstimo do PT ao Banco Rural – e lembrou que este episódio, o único contra Genoíno, foi considerado inteiramente legal pela perícia, na época, destinando-se a cumprir uma necessidade real do partido, em situação de penúria após a vitória de 2002. A defesa também lembrou a condição pessoal de Genoíno, sujeito com vida de cidadão honrado, que até hoje reside no mesmo endereço na Previdência onde criou os filhos como professor e depois como deputado em não sei quantos mandatos. Fica difícil falar em corrupção sem sinais de benefício pessoal – motivação que é a causa inicial de malfeitorias de qualquer espécie

    Numa intervenção que superou muitas previsões, a defesa de Marcos Valério conseguiu questionar, tecnicamente, alguns testemunhos e alegações contra seu cliente. Apoiado no depoimento de vários publicitários de grande reputação no mercado, demonstrou que uma alegação de irregularidade contra as agências de Marcos Valério, envolvendo uma remuneração conhecida como bonificação por volume simplesmente não tem sustentação técnica. A defesa ainda citou vários exemplos de depoimentos — usados pela acusação – que os mesmos autores desmentiram na Justiça.

    Não é preciso usar da pressa paraguaia e concluir que nada se sustenta na denúncia de Roberto Gurgel. É necessários esperar novos questionamentos daqui por diante. Grandes leões do júri ainda não se pronunciaram. Acho impossível não surgir nenhuma novidade na fala de um Márcio Thomaz Bastos, de um José Carlos Dias. Teremos, ainda, os votos dos onze ministros e é claro que muitos deles têm o que dizer. O relator Joaquim Barbosa ainda não leu seu voto. Nem o revisor Ricardo Lewandovski.

    O debate está apenas começando. Dificilmente será resolvido por nocaute.

 

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