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01/02/2014

às 15:00 \ Política & Cia

Lya Luft: A violência não é uma fantasia

“Se não tivermos nenhum medo, estaremos sendo perigosamente alienados. A segurança, como tantas coisas, parece ter fugido ao controle de instituições e autoridades” (Ilustração: Atômica Stúdio)

“Se não tivermos nenhum medo, estaremos sendo perigosamente alienados. A segurança, como tantas coisas, parece ter fugido ao controle de instituições e autoridades” (Ilustração: Atômica Stúdio)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

A VIOLÊNCIA NÃO É UMA FANTASIA

Lya LuftA violência nasce conosco. Faz parte da nossa bagagem psíquica, do nosso DNA, assim como a capacidade de cuidar, de ser solidário e pacífico. Somos esse novelo de dons. O equilíbrio ou desequilíbrio depende do ambiente familiar, educação, exemplos, tendência pessoal, circunstâncias concretas, algumas escolhas individuais.

Vivemos numa época violenta. Temos medo de sair às ruas, temos medo de sair à noite, temos medo de ficar em casa sem grades, alarmes e câmeras, ou bons e treinados porteiros.

As notícias da imprensa nos dão medo em geral. Não são medos fantasiosos: são reais. E, se não tivermos nenhum medo, estaremos sendo perigosamente alienados. A segurança, como tantas coisas, parece ter fugido ao controle de instituições e autoridades.

Nestes dias começamos a ter medo também dentro dos shoppings, onde, aliás, há mais tempo aqui e ali vêm ocorrendo furtos, às vezes assaltos, raramente noticiados. O que preocupa são movimentos adolescentes que reivindicam acesso aos shoppings para seus grupos em geral organizados na internet.

É natural e bom que grupos de jovens queiram se distrair: passear pelos corredores, alegres e divertidos, ir ao cinema, tomar um lanche, fazer compras. Porém correr, saltar pelas escadas rolantes, eventualmente assumir posturas agressivas ou provocadoras e bradar palavras de ordem não é engraçado.

Derrubar crianças ou outros jovens, empurrar velhos e grávidas, não medindo consequência de suas atitudes, não é brincadeira. Shoppings são lugares fechados, com grande número de pessoas, e portanto podem facilmente virar perigosos túneis de pânico.

Juventude não é sinônimo de grossura e violência (nem de inocência e ingenuidade). Neste caso, os que perturbam são jovens mal-educados (a meninada endinheirada também não é sempre refinada…) ou revoltados.

Culpa deles? Possivelmente da sociedade, que por um lado lhes aponta algumas vantagens materiais, por outro não lhes oferece boas escolas, com muito esporte também em fins de semana, nem locais públicos de prática esportiva com qualidade (esportistas famosas como as tenistas irmãs Williams, meninas pobres, começaram em quadras públicas americanas).

Parece que ainda não se sabe como agir: alguns jornalistas ou psicólogos e antropólogos de plantão, e gente de direitos humanos às vezes tão úteis, acham interessante e natural o novo fenômeno, recorrendo ao jargão tão gasto de que “as elites” se assustam por nada, ou “as elites não querem que os pobres se divirtam”, e “os adultos não entendem a juventude”.

Pior: falam em preconceito racial ou social, palavrório vazio e inadequado, que instiga rancores. As elites, meus caros, não estão nos nossos shoppings; estão em seus iates e aviões pelo mundo.

No momento em que as manifestações violentas de junho estão aparentemente calmas (pois queimam-se ônibus e crianças, há permanentes protestos menores pelo Brasil), achar irrestritamente bonito ou engraçado um movimento juvenil é irresponsabilidade. E é bom lembrar que, com shoppings fechando ainda que por algumas horas, os empregados perdem bonificações, talvez o emprego.

As autoridades (afinal, quem são os responsáveis?) às vezes parecem recear uma postura mais firme e o exercício de autoridade: como pode ocorrer na família e na escola, onde reinam confusão e liberalismo negativo, queremos ser bonzinhos, para desamparo dessa meninada.

Todos devem poder se divertir, conviver. Mas cuidado: exatamente por serem jovens, os jovens podem virar massa de manobra. Os aproveitadores de variadas ideologias, ou simplesmente os anarquistas, os violentos, estão sempre à espreita: já começam a se insinuar entre esses adolescentes, ou a organizar grupos de apoio a eles — certamente sem serem por eles convidados.

Bandeiras, faixas, punhos erguidos e cerrados e palavras de ordem não são divertimento, e nada têm a ver com juventude. Não precisamos de mais violência por aqui. É bom abrir os olhos e descobrir o que fazer enquanto é tempo.

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12 Comentários

  1. Calebe Santos crulha

    -

    14/08/2014 às 9:53

    A Lya Luft tem toda a razão, muitos acham bonitos, engraçados…seria sem dúvida lindo se esses adolescentes estivessem cada um com um instrumento de sopro nas ruas, hora tocando, hora gritando insatisfeitos com a educação, com a segurança pública, com o descaso com a saúde,com atitudes irresponsáveis de muitos políticos que estão locupletando com o dinheiro público.

  2. Edenilza Pereira da Silva (A_Bio AP16 M1)

    -

    11/03/2014 às 19:26

    Eu achei muito importante a matéria pois nos faz refletir o quanto a nossa cultura precisa de uma mudança urgente antes que tal modernidade tão ligada a violência se repercuta e nos faça escravos de tanta violência.

  3. Taiane

    -

    06/03/2014 às 9:13

    Olá, quero dizer que concordo com a senhor, que a violência nasce conosco, como o lado mais calmo também, e creio que isso varia de pessoa à pessoa para demonstrar o seu lado “mau”, que tem haver seu sistema nervoso. E convenhamos que a sociedade ajuda para que alguns jovens de hoje em dia se tornem violentos.

  4. Ana

    -

    13/02/2014 às 23:58

    Gostei muito do texto e como estou trabalhando com a temática da violência por gentileza precisaria da referência deste texto de Lya Luft para citar num trabalho acadêmico, acabei ficando só com a página 20 e não a capa.

    LUFT, Lya. A violência não é uma fantasia. Revista Veja, Local de Publicação, Número do Volume, Número do Fascículo, p. 20, Jan, 2014.

    Preciso local de publicação, n° do volume e n° fascículo

    Se for atendida agradeço imensamente!

    Vamos providenciar, cara Ana. Aguarde, tá?
    Abraço

  5. Pedro

    -

    03/02/2014 às 19:13

    Obrigado lya Lufit,concordo plenamente com a Sr

  6. Carlos

    -

    02/02/2014 às 9:15

    Os brasileiros somos um povo que não queremos confusão. Não está no nosso DNA. Se isso é ruim quando os mandatários nos fazem de trouxa e nos comportamos bovinamente, é bom quando os mesmos mandatários insistem em nos jogar uns contra os outros: negros contra brancos, pobres contra ricos, cidadão contra PMs, nós contra eles… Mas, é temeroso insistir – ou, permitir – demasiadamente nessa tecla. Somos pacientes e bonzinhos pensando em nosso bem estar e de nossa família, mas, até quando?

  7. Jorge Luiz

    -

    02/02/2014 às 2:50

    Concordo “A violência nasce conosco” mas exercer
    controle sobre ela. Aqueles que não conseguem devem
    ser punidos e como não o são eles continuam violentos. Vamos deixar de demagogia e começar a
    discutir a pena de prisão perpétuas para os crimes hediondos.

  8. Marco

    -

    01/02/2014 às 19:06

    D. Setti, Como sempre os degenerados do populistas querem tirar proveito. Mas te digo por experiência própria, quando um Shopping muda o foco do juvenil para o mais maduro, cresce muito, me lembro de Caxias do Sul, um antigo Centro Comercial, q só trabalhava com cinemas e moda jovem, só se incomodava com a insegurança,eles não são capazes de nenhum respeito nesses ambientes. Depois q mudou o foco e o perfil, chegou a conclusão o quanto tinha investido para esse público sem necessidade. E hoje compete com larga vantagem com shoppings consagrados no Brasil todo. Como o melhor shopping de venda. Esse negócio de amizades entre jovens se torna loucura para quem quer administrar fora o baixo poder aquisitivo.
    Abs.

  9. norton

    -

    01/02/2014 às 17:40

    NÃO QUERO A COPA.
    Mais de 99% dos brasileiros vão assistir a Copa pela TV.
    Faz diferença se transmitida do Brasil ou por outro país?
    TAMBÉM NÃO QUERO AS OLIMPÍADAS.
    Quero que os bilhões sejam aplicados na educação, saúde, segurança, transportes …

  10. Brasileiro

    -

    01/02/2014 às 15:40

    Caminhos sombrios esses percorridos pela juventude do Brasil. Sera que reflete o exemplo dos mais velhos?

  11. arlete

    -

    01/02/2014 às 15:39

    Excelente texto! Parabéns!
    Mas a frase que mais chamou-me a atenção por ser verdadeira foi exatamente essa:
    ” As elites, meus caros, não estão nos nossos shoppings; estão em seus iates e aviões pelo mundo.”

  12. Elena

    -

    01/02/2014 às 15:23

    Obrigada, Lya Luft !!
    Concordo plenamente !!
    Todos aqui em casa a admiram muitíssimo, e todos os meus amigos e colegas, também !!
    Deus a abençoe!!!
    Obrigada por tudo!! :)

 

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