01/03/2011
às 20:01 \ Política & Cia“Folha de S. Paulo” reconhece, décadas depois, que colaborou com a ditadura e colocou policiais na redação de um jornal do grupo
Amigos do blog, o texto espantoso que reproduzo abaixo e que, confesso, tinha me escapado, foi publicado na Folha de S. Paulo do dia 19 passado sobre os 90 anos do jornal.
Sob o título “Os 90 anos da Folha em 9 atos”, é um resumo, a cargo do competente jornalista Oscar Pilagallo, no qual a Folha pela primeira vez assume a sua colaboração com a ditadura, algo que os meios jornalísticos sabiam de sobra na época, mas que o jornal, hoje palmatória do mundo e dono da verdade, nunca assumiu.
Com uma confissão que, repito, muitos jornalistas conheciam na época, mas que hoje soa inacreditável: a empresa entregou a hoje extinta Folha da Tarde diretamente a agentes da repressão (inclusive colocando meganhas na redação), para, supostamente, reagir à “inflitração” da organização armada Aliança Libertadora Nacional (ALN) e de seu dirigente, Carlos Marighella, no jornal.
Quer dizer que, para rebater uma suposta infiltração da extrema esquerda totalitária, a empresa que edita a Folha de S. Paulo adotou a espantosa, desatinada decisão de entregar a edição da tarde para agentes d
os órgãos de segurança, que agora chama eufemisticamente de “jornalistas entusiasmados com a linha dura militar”!
Que jornalistas, cara-pálida??? Amigos e colegas que trabalham no grupo Folhas na época podem atestar quem e como eram.
A Folha também reconhece, candidamente, que se submeteu à censura e às proibições do regime, “ao contrário do que fizeram o Estado [o jornal O Estado de S. Paulo], a revista VEJA e o carioca Jornal do Brasil, que não aceitaram a imposição e enfrentaram a censura prévia, denunciando com artifícios editoriais a ação dos censores.”
Ao lado de meu espanto, devo registrar aqui a honestidade da atual direção do jornal em reconhecer, ainda que tardiamente, esses fatos.
Leiam o trecho do texto em que se narra a atitude do jornal diante da ditadura, e tirem suas próprias conclusões:
“4 – O PAPEL NA DITADURA
A Folha apoiou o golpe militar de 1964, como praticamente toda a grande imprensa brasileira. Não participou da conspiração contra o presidente João Goulart, como fez o Estado, mas apoiou editorialmente a dita
dura, limitando-se a veicular críticas raras e pontuais.
Confrontado por manifestações de rua e pela deflagração de guerrilhas urbanas, o regime endureceu ainda mais em dezembro de 1968, com a decretação do AI-5. O jornal submeteu-se à censura, acatando as proibições, ao contrário do que fizeram o Estado, a revista VEJA e o carioca Jornal do Brasil, que não aceitaram a imposição e enfrentaram a censura prévia, denunciando com artifícios editoriais a ação dos censores.
As tensões características dos chamados “anos de chumbo” marcaram esta fase do Grupo Folha. A partir de 1969, a Folha da Tarde alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares.
A entrega da Redação da Folha da Tarde a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional), de Carlos Marighella, um dos ‘terroristas’ mais procurados do país, morto em São Paulo no final de 1969.
Em 1971, a ALN incendiou três veículos do jornal e ameaçou assassinar seus proprietários. Os atentados seriam uma reação ao apoio da Folha da Tarde à repressão contra a luta armada.
Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da Folha sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins.”
O link para a íntegra do texto está aqui.
Tags: AI-5, anos de chumbo, ditadura militar, Folha da Tarde, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, Oscar Pilagallo, VEJA
































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20 Comentários
JULIO CESAR
-04/03/2011 às 9:36
É lamentavel que esse meio de comunicação, possa ter dado abertura a uma ditadura que silenciavam de todas as formas horriveis seus opositores. O Jornal, persegue a mesma trajetoria de tantos anos de massacre a liberdade, quando tenta influenciar a população a abandonar sua religiosidade, apoiando o FIM do ensino religioso no país. Essa imprensa, estar contribuindo em muito para o fim da democracia. Quando a Folha Decide abrir os porões escuros de seu estado jornalistico, ela não somente estar mostrando seu lado “negro” que contribuiu em muito para a defesa da intolerancia democratica, apoiando abertamente a ditadura. Mas, os rastro dessa ditadura ainda persistem de forma sorrateira com o apoio escancarado de algumas instituições ou Ongs para abolir a religiosidade nesse país, levando-o a abandonar Deus a começar pelas escolas. Um país laico, não pode influencia seus cidadãos a viverem como pagãos
O jornal, meu caro, tem todo o direito de apoiar o fim do ensino religioso no país. Você me desculpe, mas apoiar o fim do ensino religioso não tem absolutamente nada a ver com o apoio passado à ditadura. Estamos em uma democracia, e, se essa for a posição da Folha, não há nada de antidemocrático ou de errado nisso, e muito menos manifesta “intolerância democrática”. O jornal estaria apenas defendendo um ponto de vista, que pode vir a ser adotado pela sociedade, via Congresso Nacional, ou não.
Abraços
André Pessoa
-03/03/2011 às 11:00
A matéria da Folha é sensacional, pela autocrítica que carrega e também pelo retrato fiel da história do jornal. Fica claro que a Folha teve fases muito diferentes entre si. Infelizmente, parece que a melhor fase já passou (espero estar enganado).
Pedro Luiz Moreira Lima
-02/03/2011 às 23:16
Amigo Setti:
Sua tribuna esta sempre em defesa da democracia,as criticas duras e injustas é o preço desta luta.
Abraços
Pedro Luiz
Humberto Werneck
-02/03/2011 às 20:07
Meu querido Setti: vejo humildade, correção jornalística e até grandeza no gesto da Folha de S.Paulo ao ajoelhar no milho e reconhecer, ainda que tanto tempo depois, uma tamanha nódoa no seu passado.
Palmatória do mundo, como diz você? Talvez.
Mas — para usar a palavra que você sacou — quantas publicações dariam a mão à palmatória como fez agora a Folha? Para não ir muito longe, pense nos jornais e revistas em cujas redações estivemos juntos, você e eu, ao longo de décadas — e me diga se alguns daqueles veículos, do Estado ao Jornal do Brasil, da Veja à IstoÉ, teriam a grandeza de reconhecer, não exatamente seus pecadilhos, mas as suas vilanias?
Baita abraço do seu
Humberto Werneck
jfaraujo
-02/03/2011 às 18:15
Caro Setti, por falar em ditadura, os manifestantes líbios já estão começando a queimar as cópias do livro verde do Kadaffi.
Beto Santista
-02/03/2011 às 17:31
Para o Militão>>pelo seu nome já se vê que vc é um daqueles militantes de esquerda que só defendem os que nos deram terroristas e comunistas e que diz que matar é p/justificar os fins. Vai estudar a história, rapaz.
jfaraujo
-02/03/2011 às 13:20
Uma coisa é certa. A vida de um jornalista num país governado por ditadura não deve ser nada fácil.
Kah Leew
-02/03/2011 às 13:13
Emir Sader não será nomeado para Fundação Casa de Rui Barbosa
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/883263-emir-sader-nao-sera-nomeado-para-fundacao-casa-de-rui-barbosa.shtml
Obrigado, caro Kah.
A notícia é bem posterior a meu comentário. A não nomeação se deve, provavelmente, à entrevista que ele concedeu à Folha de S. Paulo.
Abraço
Paulo Bento Bandarra
-02/03/2011 às 12:49
Veja como estas coisas são engraçadas. Lula abraçou tudo que é ditador, quando não os chamou de “amigo e irmão”! Isto foi idéia dele, é sentimento dele? Não, isto justamente é o sentimento dos “democratas do PT” que estão no governo lutando para consolidar o poder do partido a qualquer custo. Os mesmos que alegam que lutaram contra a ditadura! Que vieram nos libertar. Ser ou não ser, eis a questão! Não me permito ser ingênuo!
Paulo Bento Bandarra
-02/03/2011 às 12:24
Acho que o(a?) Fafa pode ter suas predileções e opinião, mas impedir que o totalitarismo comunista tomasse conta do país, não se caracteriza como crime contra a humanidade. Pol Pot, o sanguinário líder do Khmer Vermelho que dirigiu o Camboja entre 1975 e 1979 pode ser atribuído isto. O que os “iluminados progressistas” tentavam impor no Brasil e o Setti vacila em condenar. Como o Holocuasto hoje abominado, que foi praticado pelos socialistas e anticapitalistas.
.
Qual foi a “atitude sórdida da Folha na época”? Enxergar o que até hoje você minimiza? Infiltrar a imprensa para defesa da “revolução progressistas” é legitimo, defender o país desta infiltração é sórdido? Nesta época já desembarcara o grupo no Araguaia, do PCdoB, criado em 1962, separando-se do PCB, com este claro objetivo de criar as FARCs do Brasil. O que assistimos, é que se dependesse dos nossos intelectuais da época, hoje cantaríamos a internacional socialista e a liberdade de imprensa seria como a cubana ou venezuelana! Nesta época a Primavera de Praga tinha três anos com a prisão do líder comunista Alexander Dubcek, sob a URSS comandada por Leonid Brejnev! Jango teria enfrentado as ameaças? Não é o que seu filho deixa claro hoje, o que seria “progresso”! As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam pelos de lá!
Paulo Bento, meu caro, eu não vacilo em condenar, não. Não me empurre para posições que nunca tomei. Acho que os brasileiros que se engajaram na luta armada no período da ditadura queriam substituir uma por outra.
De que não gosto é de ditadura, seja em nome do que for. As democracias têm instrumentos para enfrentar qualquer ameaça. O pretexto disso e daquilo para dar golpes de Estado e se perpetuar no poder me repugnam. Parece que a você, não.
Abraços
Jefff
-02/03/2011 às 11:20
È o epitáfio da folha!
fafa
-02/03/2011 às 10:51
Algumas pessoas nesse mundo querem apagar/negar certas atrocidades.
Alguns negam que houve o holocauto, alguns negam que houve crime contra a humanidade durante a ditadura brasileira.
É pena que não aprendemos com o passado!!
Paulo Bento Bandarra
-02/03/2011 às 9:28
Você parece que torcia pelos militantes da esquerda radical na sua luta armada para impor o totalitarismo castrista no país! Me lembro na época que também se negava na imprensa que os “libertadores” fossem treinados fora e recebessem armamentos e dinheiro de fora. Isto que hoje os derrotados contam com orgulho e a imprensa dizia que era “paranóia” e “mentira” dos militares. Já em 62 havia pessoas das ligas camponesas treinando em Cuba.
Ô,amigo Paulo Bento, que que é isso? Deus me livre! Sempre fui um democrata e acho que os que foram para a luta armada queriam também impor uma ditadura ao país. Não torcia pra eles, não! E estou cansado de saber dos treinamentos em Cuba. De onte você tirou essas suas conclusões a meu respeito, rapaz? Repudiar a atitude sórdida da Folha na época é uma coisa completamente diferente.
Abraço
Altamiro Martins
-02/03/2011 às 3:01
Sobre o JB, citado no texto como exemplo de resistência à ditadura, é sempre bom lembrar o que a “Voz do Dono” (os editoriais) diziam à época, inclusive acerca do dispositivo jurídico extremo do regime, o AI-5, cujo poder de cerceamento não livrou nem mesmo a cara da imprensa adesista. Vejam:
http://news.google.com/newspapers?id=r8sRAAAAIBAJ&sjid=c-4DAAAAIBAJ&pg=6638%2C1709690
Dois outros editoriais do JB, imediatamente anteriores ao do link acima:
http://news.google.com/newspapers?id=rcsRAAAAIBAJ&sjid=c-4DAAAAIBAJ&pg=6644%2C1295254
http://news.google.com/newspapers?id=rssRAAAAIBAJ&sjid=c-4DAAAAIBAJ&pg=7274%2C1492314
Mauro Pereira
-01/03/2011 às 23:52
Caro Ricardo Setti, boa noite.
Com toda sinceridade, caro amigo, essa notícia não me causa nenhuma surpresa. Desde a época da ditadura eu jamais confiei nesse jornal. Raras foram as vezes que eu o li.
Diferentemente do bom e velho “Estadão” – ao qual viria se juntar a destemida independência editorial da Revista Veja – que, de uma forma ou de outra, procurava burlar os censores do governo militar buscando na ironia a defesa das liberdades inserindo receitas de bolos e outros quitutes na página 2, ou no exercício perigoso do enfrentamento ousado, como a publicação de editoriais memoráveis, por sua vez, a Folha sempre se mostrou mais arredia, ausente, para não chegar ao exagero da capitulação.
Meu distanciamento com o jornal da Barão de Limeira se consumou por definitivo depois do golpe publicitário de quinta categoria que tentou aplicar nos seus leitores e assinantes, quando de forma descarada, pelo menos para mim, transformou em “invasão” a ação da Polícia Federal no departamento contábil da empresa, denunciada que fora por prática de ilícito fiscal.
Em tipos corpo 220 da família Times Negrito, deixou transparecer sua incontrolável tendência para o sensacionalismo barato. A manchete da edição do dia seguinte estampava, mais ou menos isso: “Folha invadida!”. Ali eu pude perceber que o coração de um dos maiores jornais do País não estava na sua Redação, nem, muito menos, nas suas Oficinas. A partir desse dia nunca mais li um artigo sequer desse periódico. E não carrego comigo nenhum arrependimento ou trauma.
A julgar-se pelo momento apropriado e ambiente favorável em que essa “mea culpa” ocorreu, a coragem dos atuais diretores da Folha de São Paulo pode se exaurir nas águas mansas, porém, às vezes fétidas, da oportunidade.
Pedro Luiz Moreira Lima
-01/03/2011 às 21:29
Uma observação de humor negro -dizia-se a época que pegar carona em carros da Folha era uma verdadeira FRIAS.
A observação era real,infelizmente para o jornalismo brasileiro.
Pedro Luiz Moreira Lima
-01/03/2011 às 21:25
Setti:colocar a matéria da Folha e o melhor comenta-la como fez,o faz um jornalista de grande coragem,sei que deve estar sofrendo (ou acho que deve)para calar sobre o tema.
Admiro sua coragem em continuar.
Meu abraço sincero
Pedro Luiz
PS- vc esta contribuindo com a Liberdade e não as trevas.
Obrigado, caro Pedro, mas não sei se requereu essa coragem, não. É obrigação da gente, como jornalista, expor essas coisas e, para quem pensa como eu, repudiá-las. Também é elogiável que a Folha admita hoje suas culpas passadas.
Militão
-01/03/2011 às 21:16
Beto Santista deve ser um daqueles ausentes em Nuremberg.
O Brasil deveria fazer como a Argentina. julgar e prender os canalhas, sejam torturadores, mandantes ou colaboracionistas, dos generais ao Beto Santista.
SergioD
-01/03/2011 às 20:37
Ricardo, muito digna a atitude da Folha em reconhecer essa nódoa de seu passado. Seria importante que outros jornais/TVs também o fizessem, como O GLOBO e a REDE GLOBO. Os primeiros comícios do movimento das diretas, entre 83/84, não foram noticiados no Jornal Nacional, o que acabou acontecendo em função da grandiosidade do movimento.
Excelente sua lembrança pois esse artigo me passou despercebido, uma vez que leio sempre a Folha pela internet.
Parabéns.
Beto Santista
-01/03/2011 às 20:13
não podemos criticar a Folha, pois guerra é guerra, e contra a ditadura comunista que queriam instalar aqui, infiltraram terroristas em todos os lugares. Eu vivi essa época e estou tb ao lado do Delegado Fleury.