21/08/2011
às 19:30 \ Política & CiaReportagem imperdível: como é e o que mostra o documentário sobre drogas que teve FHC como fio condutor
O tema é espinhoso, e muito atual. Apesar de toda a polêmica gerada quando o assunto é drogas, todo debate é sempre bem-vindo. Aqui no blog os posts relativos a drogas têm gerado bastante interação. Assim sendo, achei que essa interessante reportagem de Otávio Cabral e Kalleo Coura, publicada originalmente por VEJA (edição 2220, de 8 de junho de 20110), pode trazer mais luz ao assunto.
Sob o título original de “A utopia de desfazer o nó”, ela trata do documentário Quebrando o Tabu — uma reportagem que mostra que a “guerra às drogas” fracassou e, tendo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como fio condutor, procura retratar, no Brasil e no exterior, as dimensões do problema e as soluções alternativas que vêm sendo encontradas, que incluem a descriminalização do uso.
Os intertítulos são de nossa responsabilidade.
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A utopia de desfazer o nó
O documentário Quebrando o Tabu faz uma reportagem minuciosa sobre experiências bem e malsucedidas na guerra às drogas. Seu argumento: descriminalizar o uso é um passo crucial para reduzir o poder dos criminosos do narcotráfico

O cineasta Fernando Grostein Andrade e o cartaz do documentário: experiências bem e malsucedidas no combate às drogas
Seis chefes de estado que participaram diretamente da guerra mundial contra as drogas — e nela investiram centenas de milhões de dólares – admitem sem meias palavras: “Erramos”. Em depoimentos diretos e contundentes, líderes do combate ao narcotráfico como Ernesto Zedillo, que presidiu o México de 1994 a 2000, César Gaviria, presidente da Colômbia entre 1990 e 1994, e o americano Jim Kolbe, congressista republicano que durante seis anos integrou o Subcomitê da Guerra às Drogas da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, concordam que o resultado de sua cruzada foi inócuo, quando não um equívoco.
A política de tolerância zero instituída nos últimos 40 anos e liderada pelos Estados Unidos não conteve a produção, não impediu o tráfico nem reduziu o consumo de entorpecentes no mundo. “Pensar no combate às drogas como uma guerra da sociedade, como se houvesse para ela uma solução militar, é enganoso”, reflete Bill Clinton, presidente dos EUA entre 1993 e 2001. “E tenho experiência pessoal nisso: tive um irmão viciado em cocaína. Hoje, muito do que fiz faria diferente”, completa Clinton, em uma das declarações mais impactantes do documentário Quebrando o Tabu (Brasil, 2011), desde sexta-feira em cartaz no país.
Reportagem minuciosa, com 168 entrevistados
Dirigido pelo paulistano Fernando Grostein Andrade, Quebrando o Tabu não é uma peça de propaganda nem uma ferramenta de proselitismo. Ao contrário, é uma reportagem minuciosamente apurada no decorrer de dois anos, com 168 entrevistados – alguns do porte dos mencionados acima e outros menos conhecidos, mas não menos credenciados.
Localizados em 18 cidades do mundo, esses personagens, que incluem desde premiês e policiais até presidiárias e viciados reabilitados, ajudam a compor o painel que ampara o argumento proposto pelo documentário: o de que a descriminalização absoluta do usuário, seja de que droga for, e a regulamentação do uso da maconha podem ser cruciais para quebrar a corrente cada vez mais forte e devastadora do narcotráfico.
Fernando Henrique como condutor da narrativa
Autor do documentário sobre Caetano Veloso Coração Vagabundo, Andrade, 30, é um profissional requisitado no meio do cinema publicitário. Entre os patrocinadores que colaboraram no orçamento de 3 milhões de reais de Quebrando o Tabu, aliás, incluem-se um grande banco, uma montadora de caminhões e uma empresa de telefonia – além de Luciano Huck, meio-irmão do cineasta, que endossa assim, com sua imagem positiva entre o público, a iniciativa de que se inicie um debate sobre uma questão tão grave, e que tantas vidas tem destruído.
O principal condutor da narrativa de Quebrando o Tabu é uma personalidade de probidade indisputada - o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que coloca todo o seu capital político e acadêmico em defesa dessa tese. Ao lado de Andrade, FHC visitou cidades na Europa, Estados Unidos e América Latina, conheceu cadeias e centros de reabilitação, frequentou praças e cafés onde o uso de drogas é liberado e analisou experiências bem e malsucedidas. Saiu dessa jornada com a convicção em favor da descriminalização reforçada.
Descriminalizar não é liberar
Entenda-se que descriminalização não é liberação. No modelo pelo qual se argumenta em Quebrando o Tabu, o cerco ao tráfico e aos criminosos nele envolvidos deve continuar inflexível. Mas o usuário não mais cai no sistema judiciário; seu lugar, defende o filme, é o sistema de saúde — o qual muitas vezes o dependente não procura por temer sofrer as penas da lei. A proposta de regulamentação do uso da maconha é levantada sob essa mesma lógica: se a erva fosse obtenível por meios legais, raciocinam os proponentes, milhões de usuários deixariam de estabelecer contato com traficantes. Cujo interesse, claro, é encorajar o novo freguês a consumir quantidades cada vez maiores de drogas e saltar para as substâncias que lhes são mais lucrativas, como a cocaína.
Com o amparo de campanhas maciças de alerta sobre os riscos da droga, estaria quebrado assim o primeiro elo da corrente. “Pela via da força, não conseguiremos acabar coma produção de drogas: o mercado é tão favorável, ganha-se tanto nele, que sempre haverá alguém pronto a se arriscar - a não ser que o consumo caia. Mas o que tem sido feito para reduzir o consumo? Mandar o usuário para a cadeia”, disse FHC a VEJA.
Em 10 anos, cresceu 210% o número de flagrantes
Já não é bem assim. Quem vai para a cadeia atualmente, e cada vez em maior número, é o traficante. Em São Paulo, o número de boletins de ocorrência relacionados ao tráfico cresce a uma velocidade impressionante. Em 2000, houve 9 800 flagrantes. Em 2010, foram 30 400 — uma alta de 210%. Em parte, esse aumento é reflexo da maior produtividade da polícia. Mas só a repressão não explica a elevação drástica do índice. É consenso entre os policiais que a quantidade de pessoas envolvidas com o tráfico também tem crescido. “Nunca prendemos tanta gente. A razão é simples: o número de criminosos está aumentando porque a demanda por droga também cresceu. É a lei da oferta e da procura”, diz o delegado Reinaldo Corrêa, do Departamento de Narcóticos da polícia paulista.

Delegado Corrêa: "lei da oferta e da procura" aumenta a demanda por drogas e, também, a quantidade de entorpecentes apreendidos e de traficantes presos
Esse fenômeno pode ser conferido nas penitenciárias brasileiras. O primeiro levantamento confiável sobre a população carcerária foi feito em 2008. Naquele ano, havia 77 400 pessoas presas por tráfico, ou 17% do total de detentos. No ano passado, já eram 106 500 presos por essa razão — 21,5% do total. Desde 2006, com a Lei nº 11 343, apenas traficantes vão para a cadeia. Os consumidores não mais estão sujeitos à prisão, mas podem ser submetidos a advertência, prestação de serviços à comunidade e medidas educativas.
Nas ruas, a distinção entre usuários e traficantes é feita pelos próprios policiais, de forma subjetiva. Por exemplo: se a droga estiver bem embalada e separada em pequenas porções, é provável que seu dono seja um traficante — seja qual for a quantidade que ele carrega. “Hoje eu nem perco tempo com usuário. Se encontrar alguém fumando maconha na rua, dou um susto e libero. Se levar para a delegacia, é arriscado ouvirmos uns palavrões do delegado — eles só querem saber de grandes apreensões”, explicou a VEJA um policial militar que atua na Zona Leste de São Paulo.
É difícil transpor a bem sucedida experiência de Portugal para o Brasil
Quebrando o Tabu mostra uma experiência que, sob qualquer parâmetro, é considerada bem-sucedida: a de Portugal, onde, desde que o consumo de drogas deixou de ser crime, o número de usuários e de contaminados pelo vírus HIV declinou. Quem é flagrado com drogas para uso próprio não ganha ficha policial nem vai para a cadeia. Mas recebe algum tipo (ou vários) de penalidade considerada administrativa: prestação de serviços, multa e tratamento obrigatório são os mais comuns.
Paralelamente, montaram-se campanhas educativas, reforçou-se o policiamento de fronteira e preparou-se o sistema público de saúde para tratar usuários. Ou seja: nenhum flanco ficou a descoberto. Mas Portugal é um país de 10 milhões de habitantes. Faz fronteira por terra com apenas um vizinho, a desenvolvida Espanha, tem uma polícia bem equipada e uma saúde eficiente. Dados como esses tornam essa uma experiência de difícil transposição – em particular para o Brasil.
O Brasil é o único país que faz fronteira com os três maiores produtores de coca do mundo: Peru, Colômbia e Bolívia. Dos três, apenas a Colômbia tem uma política agressiva de combate às drogas. A Bolívia é governada por um ex-cocalero, e o Peru será apontado na próxima semana pela ONU como o maior produtor mundial da droga. O plantio da coca, antes concentrado nos vales andinos, já chegou à Amazônia peruana, ao lado do Brasil. No total, as fronteiras brasileiras somam mais de 24 000 quilômetros. Mesmo que o país contasse com o mais eficiente sistema de segurança do mundo, seria impossível barrar a entrada de drogas por tal vastidão — que dirá, então, com os míseros 27 postos da Polícia Federal instalados para vigiá-la.
Sofremos, ainda, com corrupção generalizada e verticalizada, que atinge todos os escalões de todas as instituições. A alta taxa de informalidade da economia é outra grande amiga dos criminosos: permite ao tráfico fincar estacas em todas as regiões do país, cooptando jovens sem instrução, de famílias pobres e desestruturadas. Da geografia às mazelas crônicas, portanto, tudo conspira para que no Brasil o tráfico floresça e produza sua horda de viciados. Que, nem adianta enganar-se, não ganhariam nenhum amparo real de um sistema de saúde tão falido que, em certas regiões, não consegue atender a queixas básicas.
Países onde a descriminalização não funcionou
Países que já solucionaram essas questões provavelmente teriam a ganhar em ao menos examinar argumentos como os expostos em Quebrando o Tabu antes de descartá-los. Mas, mesmo nesses, a descriminalização deixaria a descoberto uma questão essencial. Veja-se o caso da Holanda, onde a venda varejista de maconha e haxixe em coffee shops é aceita e regulada e a venda no atacado, por assim dizer, é crime. Como a droga segue abastecendo o comércio, é óbvio que há uma medida de conivência do Estado com o tráfico. Que, sim, é um problema do qual os holandeses têm de se defender ferozmente.
Por isso países como a Suécia reverteram suas políticas liberalizantes. No início da década de 60, os suecos estiveram entre os primeiros a aceitar o uso de entorpecentes. Mas o afrouxamento fez explodir o número de usuários e congestionou o sistema de saúde. Na década seguinte, então, o país endureceu a legislação e voltou a proibir ouso e a impor penas tanto a traficantes como a usuários. Hoje, a Suécia tem um terço da média europeia de usuários de drogas.
Na Suíça, na década de 80, foram criados os “parques da seringa”, onde se podia consumir qualquer tipo de droga sem ser incomodado. A ex-presidente Ruth Dreifuss (1999) admite o fracasso: “Perdemos o controle dos parques: os criminosos os aproveitavam para trazer drogas para os viciados”.
Por dez anos seguidos, nos Estados Unidos, a política da tolerância zero fez cair oconsumo de maconha entre os estudantes. Há três anos, ele voltou a subir: segundo especialistas, efeito direto da liberação da maconha para fins medicinais na Califórnia e em outra dezena de Estados - a qual favoreceu o surgimento de uma rede de ”médicos-traficantes” que prescrevem a erva aqualquer um que pague entre 100 e 500 dólares por uma receita.
A tragédia pandêmica e assassina do crack
No Brasil, qualquer discussão que vise a mitigar o problema das drogas tem de reconhecer a tragédia pandêmica e assassina do crack.
Essa forma de consumir cocaína, antes restrita às grandes cidades, hoje está espalhada pelo país. Mais destrutivo ainda, o óxi chegou aos centros urbanos a 2 reais a pedra. “Não há dúvida de que a maconha é uma porta de entrada. Ninguém começa direto no crack. Primeiro é o cigarro, depois uma cervejinha, um baseado…”, diz o psiquiatra André Malbergier, da Universidade de São Paulo.
Segundo essa visão, qualquer tolerância ao uso da maconha provocaria, de imediato, um aumento do consumo, alargando a porta de entrada a que se refere o psiquiatra Malbergier. Seu colega Dartiu Xavier, da Universidade Federal de São Paulo, discorda: “Em um primeiro momento, cresceria o número de curiosos que tomariam coragem de experimentar e de ex-usuários eventuais que deixaram a droga porque ela não é socialmente aceita”. Dartiu comandou a última grande pesquisa nacional sobre entorpecentes, em 2005, com 8 000 entrevistados. Dos pesquisados, 8,8% já haviam fumado maconha e 65% achavam muito fácil ter acesso à droga.
“Fla-Flu ideológico não leva a lugar nenhum”
Não há dados consolidados mais recentes, mas estima-se que o total de usuários já tenha ultrapassado os 10% da população, o que representa quase 20 milhões de brasileiros. “O debate provocado pelo documentário é pertinente”, avalia o psiquiatra Arthur Guerra, da Universidade de São Paulo. “Necessitamos argumentos sólidos. Hoje, um lado é contra porque a maconha é coisa do demônio. Outro é a favor porque ela é bacana. É um Fla-Flu ideológico que não leva a lugar nenhum.”
Um ponto central nessa discussão: a maconha é uma droga, que vicia e faz mal à saúde. E não há droga boa: cada entorpecente causa prazer e dependência em um certo grupo de usuários. Como relata o escritor Paulo Coelho em um trecho do filme: “A cocaína não fazia efeito para mim. E eu tentava, tentava… De repente, deu certo. Eu tinha passado uma noite maravilhosa em Nova York. Estava com aquela namorada linda, nua, deitada. Já era de manhã, porque você não consegue dormir. Sem a menor vontade de fazer amor, sem nada. Aí eu disse: ‘Estou parando. Estou parando porque essa vai me enganchar. Essa vai me viciar, vai acabar comigo. Droga do demônio’ “. O mesmo pode acontecer com heroína, haxixe e até com maconha.

Paulo Coelho falando sobre o passado: "Estou parando porque essa [droga, a cocaína
O tráfico tem a maconha como seu produto mais vendido, embora menos lucrativo que a cocaína e o crack. Tráfico que sitia partes de cidades, arregimenta jovens para o crime, decreta toque de recolher, substitui o Estado e abre portas para outros tipos de delito, como tráfico de armas, sequestro, homicídio e roubo de carros. Em suma, quem fuma maconha está ajudando a movimentar a roda do crime.
Ela é também um problema de saúde pública. Pelo menos 6% dos usuários se tornam viciados. É menos que o álcool (15%) e a cocaína (40%), mas o índice não pode ser desprezado. No período de uso intenso, há alteração da memória e da capacidade de concentração. Se for muito utilizada na adolescência, pode antecipar transtornos psíquicos. “Em meu consultório, atendo garotos que perderam o controle. Como acham que a maconha não traz problemas, eles usam de manhã, de tarde e à noite. Saem do eixo, deixam a escola”, alerta Arthur Guerra.
FHC: é mais efetivo combater do que fingir que o problema não existe
Hoje, na prática, quem fuma maconha no Brasil não vai para a cadeia. Já socialmente há uma forte restrição ao uso de drogas. A última pesquisa nacional de opinião sobre o tema foi feita pelo instituto Datafolha, em março de 2008, ouvindo 4 044 pessoas. Para 76% dos entrevistados, o uso da maconha deve continuar a ser considerado crime.
Mesmo entre os especialistas, o tema é polêmico. A Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento divulgou um documento no início do ano defendendo o fim da criminalização dos usuários. Já a Associação Brasileira de Psiquiatria fez manifestos contra a liberalização.
No filme, Fernando Henrique Cardoso propõe que o governo utilize essa restrição social às drogas para lançar uma campanha educativa nos moldes da que foi feita com o tabaco. E, com isso, reduzir o consumo, o que afetaria o tráfico: “Houve um esforço do governo em fazer do cigarro um vilão. Fumar não é proibido, mas é regulamentado, há lugares restritos para o uso do tabaco. E deu certo. Agora, por que não fazer o mesmo com a maconha? Porque a maconha preferem esconder, como se não houvesse. Mas é muito mais efetivo combater do que fingir que o problema não existe”.

A recente marcha da maconha reuniu 700 pessoas: proibida, é diferente do cigarro, que não é proibido, mas regulamentado
É difícil imaginar que alguma política emane do governo Dilma
Que conclusão tirar do fato de que a política liberalizante portuguesa surtiu efeito – assim como a política repressiva sueca? A de que definir nos pormenores uma política antidrogas e ater-se ferreamente a ela, tornando-a fato, não apenas teoria, é o que funciona. Mas, para isso, é preciso discutir com clareza, sem temores nem preconcepções, todas as inúmeras facetas do problema – e, nesse sentido, é difícil imaginar que alguma política eficiente emane do governo de Dilma Rousseff. Não porque ela seja leniente, mas porque detesta tanto as drogas que termina por evitar o tema completamente.
Em seu primeiro mês de governo, tirou do cargo o titular da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, Pedro Abramovay, que defendeu mudanças na legislação. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, apoia a proposta do líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP), de descriminalizar o consumo e autorizar cooperativas de usuários a produzir sua própria droga. Mas teme apresentar a ideia e ter o mesmo fim de Abramovay. O Congresso também é refratário: uma pesquisa feita no início da atual legislatura mostrou que, de 414 deputados entrevistados, 298 foram contra a descriminalização.

Ex-titular da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, Pedro Abramovay perdeu o cargo por defender mudanças na legislação
Assim, ainda que Quebrando o Tabu seja algo utópico nos termos práticos do Brasil, eis por que a iniciativa de Fernando Henrique Cardoso e Fernando Grostein Andrade é corajosa e louvável: separados na idade por quase cinquenta anos e na experiência por trajetórias tão distintas, eles no entanto mostram que é possível reunir-se para travar uma discussão civilizada, informada e desassombrada. Este, enfim, é o tabu que verdadeiramente o documentário quebra: o de que aceitar o debate sobre um tema não implica escolher nele um lado.

FHC
OPINIÕES DE ALGUNS DOS ENTREVISTADOS PELO DOCUMENTÁRIO
“Só quem é burro não muda de opinião diante de fatos novos. Eu não tinha consciência da gravidade dessa questão das drogas e do que ela significava como tenho hoje. E, no Brasil, a consciência média na época era de que isso se resolvia com ação policial. Mas nada funcionou. E eu não vi tudo isso. Errei.”
Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil entre 1995 e 2003
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“Servi o Congresso por 22 anos. Durante mais de seis deles, participei do subcomitê responsável pelo financiamento do que viemos a chamar nos Estados Unidos de ‘guerra às drogas’. A guerra às drogas é um fracasso, e muita gente nos Estados Unidos vem falando isso há muito tempo. Oproblema, claro, é que não sabemos pelo que devemos substituí-la.”
Jim Kolbe, deputado republicano pelo Estado norte-americano do Arizona entre 1985 e 2007
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“A Colômbia é o único país a usar fumigações aéreas nas próprias plantações de drogas. Isso destrói as plantações e também os alimentos. É algo muito traumático para a sociedade colombiana. Quando o Plano Colômbia começou, havia plantações de coca em oito Estados. Hoje, são 24 ou 28 Estados. O número mais que triplicou. As plantações mudaram de zonas despovoadas para zonas povoadas. Elas são menores e muitas vezes ficam escondidas entre culturas de outras espécies. São difíceis de achar. Bem, se o resultado esperado era eliminar o consumo pesado de drogas na América e as redes de narcotraficantes, não funcionou.”
César Gaviria, presidente da Colômbia entre 1990 e 1994 e secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) entre 1994 e 2004
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“O crime organizado não poderia ter a força que infelizmente adquiriu no México e em outros países. Isso não teria ocorrido sem os muitos recursos que fluem desse tráfico ilegal de drogas.”
ERNESTO ZEDILLO, presidente do México entre 1994 e 2000
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“O grande perigo da droga é que ela mata a coisa mais importante de que você vai precisar na vida, que é o poder de decidir. A única coisa que você tem na vida é o seu poder de decisão. Realmente a droga é fantástica, você vai gostar. Mas cuidado. Porque você não vai decidir mais nada.”
PAULO COELHO, escritor
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“Pensar nisso como uma guerra da sociedade é um pouco enganoso, como se houvesse uma solução militar. E tenho experiência com isso, experiência pessoal: tive um irmão viciado em cocaína. Muita coisa eu teria feito deforma diferente. Acho que minha oposição à distribuição de seringas e àmaconha medicinal, quando fui presidente, foi errada.”
BILL CLINTON, presidente dos Estados Unidos entre 1993 e 2001
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“No começo, tentamos estratégias diferentes. Em Berna e em Zurique, tivemos os ‘parques da seringa’, como foram chamados pela mídia internacional. Esse experimento fracassou. Perdemos o controle dos ‘parques da seringa’: os criminosos aproveitavam esses locais para trazer drogas aos viciados. Então, tivemos de tentar uma alternativa: organizar espaços nos quais os usuários, distantes do alcance dos traficantes, tivessem suporte médico e social.”
RUTH DREIFUSS, ministra de Assuntos Internos da Suíça entre 1993 e 2002 e presidente do país em 1999.
Tags: "Quebrando o Tabu", Bill Clinton, César Gaviria, cocaína, crack, dependente químico, drogas, Ernesto Zedillo, FHC, Holanda, Jim Kolbe, José Eduardo Cardozo, Luciano Huck, maconha, Paulo Coelho, Ruth Dreifuss, Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, tráfico











































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11 Comentários
Generino
-17/05/2012 às 6:48
Quem compra um leptop roubado, um CD pirata ou um perfume contrabandeado, mesmo que seja para uso próprio, está cometendo crime. Isto acontece porque quem adquire qualquer coisa ilegal está também cometendo uma ilegalidade. Como então quem compra droga para seu uso não é criminoso também? Essa descriminalização esconde interesses: 1) pessoas poderosas querendo livrar a cara de parentes ou amigos; 2) a indústria do vício legalizado está louca para ganhar dinheiro. Que tal “Tarugos Continental”?! Ou “Baseados Hollywood”!
Os defensores da legalização da maconha acham que os usuários vão retirar-se a um local apropriado e ali passar o dia todo curtindo seu vício, sem importunar ninguém. Nada mais falso. Com a legalização acontecerá massificação igual à do cigarro e da bebida. Os viciados estarão em todo lugar. Já imaginaram viajar de avião com uma tripulação chapada? Fazer uma cirurgia com médicos noiados ou dirigir no trânsito doidão?
Rafael
-27/12/2011 às 10:08
Nobres:
Existe, sim, uma maneira de legalizar a cannabis aqui sem que haja desvios.
Se o governo jogar para a iniciativa privada a função de produzir, transportar, beneficiar e vender, além de gerar mais tributos ao estado geraria mais empregos.
Em Medianeira / PR, o quilo da cannabis de boa qualidade custa R$ 100,00. Aqui em Curitiba, ele chega ao consumidor final a R$ 1.000,00 o quilo; uma amiga do interior de Minas disse que o quilo chega a R$1.500,00. Esta disparidade no preço deve-se a proibição: é arriscado trazer por 600 km até a capital paranaense, mais ainda até Minas.
Entre o preço que o produto cobra e o que o consumidor final paga tem uma fossa das marianas a ser explorada pelo Governo, com impostos: Se o risco fosse retirado, o porque do alto preço também sairia. Claro,a regulamentação do preço deverá obedecer padrões rígidos, porque se subir demais o tráfico vai voltar a compensar. Com o valor de tributos a ser recolhido em várias esferas (produtor rural, transportador, beneficiador, vendedor) poderia ser investido em saúde e segurança pública. Com esta medida, 70% do dinheiro do tráfico iria para as mãos da iniciativa privada e do Governo, o que quebraria o Paraguai, maior fornecedor do cigarro jamaicano, e o tráfico de drogas; nenhuma empresa que perde 70% de seus clientes continua com as portas abertas.
João Jardim
-08/11/2011 às 13:51
E se eu plantar e consumir na minha casa sem incomodar ninguém !?
Estevam Cortez
-24/08/2011 às 0:08
Esse moleque é maconheiro, logo sabemos que lado o moleque vai defender e colocar no filme.
Kaos
-23/08/2011 às 9:06
Tenham certeza de uma coisa : É ESSENCIAL fazer campanhas maciças nas escolas para crianças a partir de 10/12 anos, mostrando vídeos, fotos, etc que realmente CHOQUEM as crianças para que elas NÃO cheguem nem a experimentar pela PRIMEIRA VEZ qualquer droga, pois o risco de se tornarem dependentes químicos sempre existe. Quem tem dependente químico na família sabe o que é esta doença. A pior de todas. “NEM UMA VEZ” tem que ser o lema da campanha.
Luciano
-22/08/2011 às 11:59
O usuário é responsável sim pelo que o traficante faz com seu dinheiro. Comprar um baseado não vai botar uma cesta básica na favela, vai comprar armas ilegais de calibres restritos, vai ser usado para manter e propagar a corrupção no Estado. Usuário tem que ser internado e tratado, ele tem culpa sim. E não jogue essa culpa na familia. Ele é assim por que escolheu ser assim. Parem de tratá-lo como um bebê e tratem-no como um adulto que fez escolhas péssimas. A holanda está revendo sua política liberal por que viu a corja que atraiu para dentro de suas fronteiras com essa política imbecil que FHC agora quer trazer pra cá. Esse indivíduo também trouxe a politica do desarmamento, importada da inglaterra. Deu no que deu.
Mari Labbate
-22/08/2011 às 9:16
Querido SETTI, a guerra contra as drogas não acabou, visto que a questão é de natureza filosófica. Nesse Terceiro Milênio, o homem está sendo conscientizado a respeito de seu papel, no Universo. Reitero que Fernando Henrique Cardoso experimenta um momento obscuro de sua carreira política. Ele cometeu algum deslize e está com a visão perturbada por essas energias inferiores. Traduzindo, esse irmão está vivendo o seu “ponto cego”. Identifico-me, totalmente, com a avaliação do grande escritor Paulo Coelho. Liberar as drogas consiste em incitar as pessoas perdidas, na Vida, a consumi-las mais facilmente e expor os outros irmãos aos seus atos insanos, pois a violência aumentará. Não é racional pautarmo-nos somente nas experiências de outros países, porque cada um possui as suas especificidades.
JT
-22/08/2011 às 8:47
As drogas devem ser combatidas pois elas tiram do indivíduo o seu maior bem, que é o centro de comando da própria vida.
Viver de cara limpa já não é fácil. Viver sob o domínio de um entorpecente é simplesmente não viver. É se comportar como um terminal biológico, antes de se comportar como um ser vivo.
Concordo em discutir a maneira de combater o tráfico de drogas, mas não isso passa por tolerância à usuários e criminosos, uma vez que usuários não decidem mais por si próprios e criminosos não respeitam as regras.
O que a sociedade precisa, é oferecer algo bom no lugar das drogas, que possa servir de orientação para a vida. Infelizmente a cultura ocidental se capitalizou tanto que sepultou deuses e mitos, que tinham a função de nos dar um norte moral. Tudo está secularizado demais, agora.
Não é por acaso que as poucas pessoas que conseguem se safar dos vícios, em geral os fazem amparadas pela família, pela caridade de terceiros e pela religião.
Enquanto ignorarmos isso, não haverá solução para este mal que assola a humanidade.
Antunes
-22/08/2011 às 2:00
Caro Setti,
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Sem dúvida é uma discussão importante para a sociedade, e FHC têm o mérito de a ter difundido…
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Porém acho que estamos indo na direção errada no Brasil. Tomando o exemplo de Portugal que descriminalizou o uso das drogas, isso só foi possível após o consumo interno ter sido controlado, com uma rede assintêncial ao usuário e a repressão ao tráfico funcionando…
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Ao contrário, o Brasil passa por um período de aumento de consumo interno… Além disso, aliada a descriminalização, querem estabelecer um limite para a posse de drogas, sendo assim determinando também um limite para o tráfico, legalizando-o, já qua têm justamente a característica de ser capilarizado e baseado em pequenas quantidades…
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A proposta de Pedro Abromovay é jogar gasolina no fogo, alimentando o consumo e o tráfico…
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O Brasil deveria primeiro reprimir o consumo, e talvez adotar medidas que rompessem com o ciclo de fianciamento do tráfico, por exemplo liberando o plantio caseiro da maconha e punindo a compra da droga através do traficante… usuário pego comprando de traficante deveria ser obrigado a trabalhar em clínicas de recuperação de dependentes, etc.
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Enfim, Pedro Abromovay está apenas se preoucupando com a super-população carcerária, e deseja diminuir o número de traficantes presos… Seu posicionamento é uma confissão da inoperância do governo Dilma em relação as drogas…
Franco
-21/08/2011 às 22:49
O problema das drogas é gravíssimo. Talvez seja o pior da nossa sociedade e o de solução mais difícil.
O posicionamento a favor da descriminalização do uso de drogas e da regulamentação do uso da maconha é rico em opiniões de pessoas influentes e bem informadas, mas é fraco na argumentação. É claro que ninguém é contra que se trate os viciados como doentes. O que não se pode fazer é eximi-los de suas responsabilidades, já que o uso de drogas passa por uma escolha. Vale lembrar também que a maioria dos usuários não é viciado, é consumidor eventual. Em todo caso, viciado ou não, o usuário financia o tráfico e suas atrocidades, é parte da cadeia econômica e deve ser punido.
A impressão que fica é que a argumentação tende sempre a uma espécie de defesa ou proteção ao usuário. Mas não esclarece como, ou por qual mecanismo, o tráfico diminuiria em consequência da descriminalização.
Diz-se que tudo que foi feito até agora não trouxe resultados aceitáveis e que por isso algo novo tem que ser tentado. É um problema de estratégia ou de eficácia? Fico com a segunda opção. O controle nas fronteiras é quase nulo. Os países produtores não são pressionados. Não se fala na responsabilidade desses países. A polícia, não bastasse seus problemas estruturais, compete com interesses de alguns que deveriam estar a seu favor. A prevenção é fraca. A educação contra as drogas deveria fazer parte da grade curricular das escolas.
A descriminalização facilita o consumo, causando aumento na demanda. Como isso pode ser bom? Mais demanda, mais oferta, mais poder para o traficante.
FHC foi um grande presidente e é um grande intelectual, mas dessa vez, não dá pra concordar com ele.
Paulo Bento Bandarra
-21/08/2011 às 20:56
Acho que os ex-presidentes, este poucos mencionados, estão dizendo bobagens homéricas. Apenas os fatos relevantes são os seus reconhecimentos que não sabiam nada antes, seus despreparos para os cargos. Apenas afirmaram que agora fariam diferentes com a mesma sabedoria de antes. Se daria certo é uma promessa sem fundamentos novamente.
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Se tivessem deixado como estava para ver como ficava certamente estaríamos pior depois destas décadas. Simples assim. Toneladas aprendidas teriam sido consumidas e redes se aprofundado mais rapidamente no aumento da produção. Carteis teriam crescido mais e se infiltrado ainda mais. As pessoas que se viciaram não foi pelo combate empregado, mas pelas áreas em que falharam fazê-lo. A maior delas, que no nosso caso vem desde o regime militar, é tratar usuário como coitadinho doente. Tudo aquilo que o tráfico precisa para enriquecer: que os usuários não tenham medo de punição e usem até o vício! Mesmo quando pegos, continuarão a serem fregueses certos vitalícios. O índice de cura é muito baixo, e para poucos. E o grande perigo da tolerância e deste vacilo é mais locais ficarem como o México hoje. Criminosos com todos os direitos democráticos preservados e matam com todo o vigor e violência. O estado que manda mais que o Estado.
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Pedro Abramovay caiu do cargo adequadamente pois mostrou a falta de convicção no trabalho que deveria fazer. Ele não foi chamado para legislar, mas para executar a política sobre drogas. O homem obviamente errado para o lugar.