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26/01/2012

às 12:00 \ Música no Blog

As aberrações impostas pela ditadura de Franco na Espanha mundo da música

A capa original do disco “Force It”, lançado pela banda UFO em 1975, era assim...

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...mas na Espanha de Franco teve que sair assim

Por Daniel Setti

Parece não haver limites para os danos culturais que uma ditadura pode causar. No Brasil conhecemos bem a saga dos compositores que, principalmente nas décadas de 1960 e 1970, tiveram que criar sempre pensando na possibilidade de terem sua obra censurada. Mas a MPB não estava só nesta roubada.

Na Espanha, durante os últimos anos do sanguinária e ultraconservadora ditadura do “generalíssimo” Francisco Franco (1939-1975), o nível de paranoia contra tudo que pudesse minimamente parecer “subversivo”, “profano”, “mundano” ou simplesmente moderno demais, foi ainda maior. Nudez, então, mesmo apenas insinuada, nem pensar. No entanto, diferentemente do que ocorria no Brasil, o principal alvo da censura espanhola eram os lançamentos de artistas estrangeiros.

Uma perseguição, aliás, coerente com o nacionalismo fanático de Franco, o mesmo que obrigava todos os filmes a serem exibidos dublados nos cinemas – algo que perdura até hoje, com poucas exceções – e que se traduzissem ao idioma de Cervantes também nomes e faixas dos discos de artistas americanos ou ingleses.

Apenas quatro censores – e um estrago incalculável

Os efeitos colaterais da caretice arbitrária e obsessiva da doutrina do Generalísimo no mercado musical ibérico acabam de ser compilados magistralmente pelo pesquisador galego Xavier Valiño no livro Veneno en Dosis Camufladas: la Censura en los Discos Pop Durante el Franquismo, a ser editado em breve na Espanha pela Milenio (no Brasil, sem previsão).

Formado por apenas quatro pessoas – duas delas entrevistadas por Valiño -, o departamento encarregado de vigiar o material colocado a venda nas lojas espanholas atuou implacavelmente entre 1966 e 1977. Escarafunchavam letras de canções, pesquisavam metáforas potencialmente maliciosas da língua inglesa e não faziam cerimônia ao alterar estrofes inteiras ou simplesmente vetá-las quando seu conteúdo lhes parecida inapropriado.

Mas quem mais sofreu foram as capas dos álbuns.  Cartões de visitas definitivos da era do vinil, eram presas fáceis dos censores que, no absurdo da situação, acabavam agindo como diretores de arte impostos, dando grotescos palpites de como ocultar esta foto ou aquela ilustração “indecente”. Confiram alguns outros exemplos:

-Rolling Stones – “Sticky Fingers” (1971)

Do projeto original assinado por ninguém menos que Andy Warhol, que incluía um zíper de verdade, alterado à (macabra!) montagem dos dedos dentro de uma lata (baixo). A edição espanhola virou item de colecionador.

 

-Roxy Music – “Country Life” (1974)

Esta não foi só a Espanha que censurou. EUA e a liberalíssima Holanda acharam que o torso nu e os pelos púbicos das modelos alemãs (fotografas em Portugal, sob iluminação dos faróis de um automóvel) eram too much e editaram o disco com capas diferentes. A americana trazia só a vegetação do fundo, enquanto a espanhola mudava o foco (abaixo).

 

 -Leonard Cohen – “New Skin for Old Cerimony” (1974)

Seria cômico, não fosse trágico. A Columbia americana também não gostou do erotismo da gravura do século XVI, e propôs uma foto de Cohen em seu lugar. Mas o departamento censor espanhol teve a coragem de sugerir que a asa de um dos anjos tapasse a mão na genitália (abaixo).

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2 Comentários

  • WALTER CARVALHO

    -

    10/2/2012 às 11:50

    Pois é meu caro, aqui no Brasa, além das censuras imbecis da ditadura, ainda podíamos contar com as trapalhadas das gravadoras em errar na confecçâo das capas originais dos discos, um exemplo claro das burradas, é exatamente sôbre este discaço “Force It” da banda UFO, o dito cujo, saiu aqui, com a mesma capa do album posterior intitulado “No Heavy Petting”, portanto 2 albuns diferentes, mas com capas iguais, eu tenho os 2 lp’s e adoro essa banda.abs.

  • wilson

    -

    26/1/2012 às 17:37

    Isto serve de advertencia aos fâs do tal controle
    social e “democratização” dos meios de comunicação.
    Neste mesmo jugo de censura é clássico o caso do
    filme Mogambo onde Ava Garner de amante vira irmã
    de Clarck Gable.

 

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