Blogs e Colunistas

20/02/2012

às 14:00 \ Livros & Filmes

Vale alugar o DVD de “Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme”: o filme não chega a ser genial, mas nele o diretor Oliver Stone reencontra sua verve

Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme

Os reis da selva

 Em O Dinheiro Nunca Dorme, continuação do icônico Wall Street, o diretor Oliver Stone bem que quer enxovalhar os especuladores financeiros – mas não consegue disfarçar a admiração por eles

Com sua história de homens viciados em dinheiro e em poder – e, principalmente, no tipo de dinheiro que alimenta o poder de manipular outros homens -, Wall Street é o filme-síntese dos anos 80.

Em uma década ela própria viciada em riqueza e ambição, a fábula do diretor Oliver Stone calhou de se encaixar no momento mais relevante possível: foi rodada enquanto a economia mundial estava em um pico vertiginoso, e chegou aos cinemas algumas semanas depois de ela ter se atirado no despenhadeiro – o do crash de outubro de 1987, em que a Bolsa americana caiu mais pontos em um único dia do que em qualquer outro dia da história até então.

Assim, quando o tubarão do mercado financeiro Gordon Gekko, em interpretação icônica de Michael Douglas, dizia na tela que “a ganância é boa”, as plateias ainda aturdidas pelo tumulto geral sentiam na pele, com todas as cargas positivas e negativas de eletricidade, a emoção que ele descrevia: como a ganância fora excitante até 19 de outubro daquele ano, e como passara a pa­recer insensata e até suicida naquela virada para 1988.

Sorte e presciência trabalharam a favor de Oliver Stone, além da voluptuosidade com que ele filmou a trama sobre o corretor de valores novato, vivido por Charlie Sheen, que se deslumbra com as prestidigitações financeiras de Gekko. Mesmo tudo o que o filme tem de datado – as telas de computador arcaicas, os celulares ridiculamente grandes, os penteados pavorosos e as camisas de colarinho redondo – não consegue, ainda hoje, roubar da urgência que ele transmite.

E esse é o espírito que Stone tenta recuperar em Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme (Wall Street: Money Never Sleeps, Estados Unidos, 2010) (…) Surpresa: em grande parte, consegue. Se não completamente, é porque falta a esta continuação aquela sincronia com os acontecimentos; em vez de antecipá-los, como no original, ela busca flagrar em retrospecto, por assim dizer, o fenômeno atordoante que foi a quebradeira de setembro de 2008.

Gordon Gekko, de novo, tem papel proeminente. Solto da prisão em 2001, depois de cumprir pena por fraude de valores e uso de informação privilegiada, ele não tem mais nada além da atitude de galo de briga e da filha Winnie (Carey Mulligan, de Educação), que não quer vê-lo pela frente.

Em um lance edipiano, porém, Winnie está noiva de um corretor de valores, Jake (Shia LaBeouf), que trabalha em uma firma decalcada da gigante Lehman Brothers, cuja quebra anunciou o estouro da bolha. O dono da firma apela ao Fed, o banco central americano, e é repelido. Então, suicida-se.

Jake orquestra uma pequena vingança contra o megainvestidor que convenceu o Fed de que o resgate seria um mau negócio – Bretton James (Josh Brolin), cuja empresa, por sua vez, é um decalque da Goldman Sachs. E, por ter urdido bem a revanche, chama a atenção de Bretton, que lhe oferece um emprego.

Como no primeiro filme, assim, tem-se um jovem ambicioso que faz um pacto faustiano. Mas o verdadeiro demônio que atenta contra sua alma é Gordon Gekko, que o vem aconselhando às escondidas da filha. Gekko anda de novo no noticiário, mas, quem diria, como guru da temperança. “A ganância ficou gananciosa demais”, sentencia ele, acrescentando que é um santo perto dos novos magos do crédito fantasioso.

“O dinheiro nunca dorme”, avisa Gekko a Jake – no sentido de que ele é um dragão que está sempre com um olho aberto, à espera de qualquer vacilação para devorar suas presas. Obviamente, ele sabe muito bem do que está falando: Gekko é o dinheiro, e é portanto também o dragão. Parece estar dormindo, mas está bem desperto.

Novamente, Michael Douglas é o grande prazer deste filme. Nem sempre um ator eficaz, ele entretanto brilha como Gekko: é ao mesmo tempo escorregadio e contundente, arruinado mas cheio de vida, e um predador por excelência – assustador e grandioso, com uma cabeleira leonina que é em si um personagem.

Jake, na atuação de Shia LaBeouf, é um caçador ágil, mas não tem como competir com tanta força bruta. Nem está aqui para isso, aliás: como Jake é um entusiasta do investimento em energias alternativas, já fica claro que sua alma não corre verdadeiramente perigo. O interesse de Stone por ele, portanto, é apenas circunstancial. Quando Jake está aprontando, tem a atenção do diretor; quando não, atrai-lhe bem menos.

Assim como não tem muita paciência com as mulheres (no Wall Street original, elas eram todas recepcionistas ou troféus, enquanto Winnie é, nesta continuação, um mal necessário ao roteiro), Stone não consegue se irmanar com um personagem tão politicamente correto.

wall street 2 cena

Winnie é, nesta continuação, um mal necessário ao roteiro

O que não resulta mal. Depois de filmes mornos como As Torres Gêmeas e W., e de várias palhaçadas em companhia do ditador venezuelano Hugo Chávez, de quem é paladino e amigão, Oliver Stone reencontra sua verve, aqui, no mesmo lugar onde ela sempre esteve: em suas contradições insolúveis e em sua energia precipitosa, que ele só parcialmente domina.

O Dinheiro Nunca Dorme quer ser inteligente, mas se distrai com seus melodramas lúridos (ainda bem). Condena o apetite capitalista, e se contagia com ele. Deplora homens como Gordon Gekko, mas não contém sua admiração por eles. E avisa contra as bolhas econômicas que se sucederão – mas mal pode esperar pela próxima.

Stone, enfim, pode até adorar a Venezuela amordaçada e falida de Chávez. Mas se sente à vontade mesmo é na América capitalista.

(Texto da crítica de cinema e editora executiva de VEJA Isabela Boscov, publicado na edição impressa da revista em 22 de setembro de 2010)

 

Deixe o seu comentário

Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.

» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA

2 Comentários

  1. JulioK

    -

    22/02/2012 às 17:28

    Melhor comprar uma cópia original para ver várias vezes.
    Faz bem ao capitalismo, o sistema de relações humanas que vem desde os tempos das cavernas!!!

    De minha parte, compro, sim, DVDs em lojas — jamais obras pirateadas — de filmes que me agradam muito. Já não cabem mais em minha casa…

    Abração

  2. Heron

    -

    20/02/2012 às 18:13

    Já vi o filme duas vezes.
    A segunda para recuperar melhor o diálogo.
    O melhor momento é o da palestra no lançamento do livro do especulador.
    E a frase impagável, com a qual demonstra que os tempos mudaram para pior, ao comparar os motivos atuais – que anteriormente os levaram à prisão – dizendo: “Agora é legal!”.
    Outro interessante, na mesma linha, com Irons e Spacey, é Margin Call. Vale a pena.

    Obrigado, Heron. “Margin Call” será indicação ainda nos feriados, já está programado, e você tem toda razão: vale a pena.
    Abraço


 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados