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21/02/2012

às 10:34 \ Livros & Filmes

Um DVD indispensável para entender a crise financeira que explodiu em 2008: “Margin Call — O Dia Antes do Fim”

Margin Call – O Dia Antes do Fim

Na longa noite adentro

No sensacional Margin Call, um retrato, em clima de holocausto nuclear iminente, das 24 horas que antecederam o estouro da crise de 2008

Margin Call – O Dia Antes do Fim (Margin Call, Estados Unidos, 2011), que estreou em 9 de dezembro passado no país, se inicia com a mais cortante cena de demissão já vista desde que o cinema americano passou a dramatizar a recessão.

É dia de passaralho em um banco de investimentos não identificado, os “demissores” terceirizados (como o personagem de George Clooney em Amor sem Escalas) tomaram todo o andar do prédio, e cada um dos chamados a uma sala reservada sabe o que o espera. O filme, porém, tem especial interesse na demissão de Eric Dale (Stanley Tucci), funcionário sênior do setor de avaliação de riscos.

Eric ouve resignado a demissora desfiar seu jargão burocrático; manifesta-se apenas para indagar o que será feito da tarefa que ele estava cumprindo naquele exato momento. “Não é mais problema seu”, ela replica.

Eric já sai da sala acompanhado por um segurança; quando deixar o edifício, seu celular e sua conta de e-mail já estarão desativados. Mas, antes de entrar no elevador, ele cede à preocupação com a tarefa deixada incompleta e entrega um pen drive a seu subalterno Peter Sullivan (Zachary Quinto). “Dê uma olhada nisto”, diz. E completa: “Tenha cuidado”.

Simon Baker

Simon Baker (no centro, uma figurante) e Demi Moore estão no elenco de "Margin Call"

Peter vai, sim, dar uma olhada no conteúdo do pen drive. E o que descobre nele põe em nova perspectiva a brutalidade dessa manhã: ela não é nada perto do que ainda está por vir. Se os papéis manipulados pelo pessoal de seu andar (só do seu andar, frise-se) continuarem a perder valor no ritmo que levou ao passaralho daquele dia, os prejuí­zos serão maiores do que todo o valor de mercado do próprio banco – ou seja, a empresa cavou para si um buraco em que cabe com folga.

Mais: o modelo contido no pen drive sugere que esse ritmo está sendo ultrapassado. Naquele momento. Essas 24 horas de 2008 são, de fato, o instante antes do fim: andando por Manhattan, Peter e um colega olham para as pessoas circulando pela cidade e maravilham-se de elas não saberem que o mundo em que vão acordar, pela manhã, será outro. E muito pior.

Margin Call não foge dos diálogos em economês (mas eles são tão bem construídos que, mesmo sem entendê-los, se sente em cheio sua pressão) e se recusa a generalizar as minúcias dos procedimentos que estão em curso. Quer a autenticidade. E, por insistir nela, transforma-se em algo surpreendente – um filme-catástrofe, com clima de holocausto nuclear iminente.

Dirigido pelo estreante J.C. Chandor, Margin Call é de longe o melhor dos vários bons filmes já feitos sobre a crise deflagrada em setembro de 2008.

O que se tem em cena aqui são os peixes-pilotos, os tubarões e as barracudas que compõem o ecossistema de um gigante como o Lehman Brothers (cuja trajetória catastrófica este banco sem nome reproduz muito de perto) nadando para lá e para cá e vasculhando as águas em busca da presa mais fácil sobre a qual descarregar suas perdas tremendas.

É óbvio que essa presa será a arraia-miúda, os milhões de pessoas comuns que se deslumbraram com financiamentos mágicos – mas nem esse personagem ausente sai bem na foto. Como diz Will Emerson (Paul Bettany), um dos executivos do banco, gente como ele dá ao público o que ele quer: a chance de viver como reis, comprando casas e carros que estão muito além de suas possibilidades.

Culpado, ele? Não, afirma Will. Sem pessoas como ele, o mundo rapidamente se tornaria justo – e quem quer um mundo assim? Um dos elementos mais sedutores de Margin Call é seu espanto diante da audácia – ou estupidez, ou irresponsabilidade aterradora – com que os bancos de investimentos foram esticando a margem de risco dos pacotes miraculosos que negociavam.

O outro é a argúcia com que argumenta que a loucura só chegou a esse ponto porque teve amplo respaldo nos anseios dos cidadãos.

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John Tuld (Jeremy Irons), o chefe supremo da empresa calcada na Lehman Brothers: um predador que nada sozinho, devora tudo que não seja maior do que ele e escapa sempre, para faturar em mais uma bonança e orquestrar mais uma crise.

Margin Call é, também, talvez o melhor dos inúmeros filmes já feitos sobre Wall Street na sua compreensão aguda da hierarquia estabelecida entre esses jogadores e das expectativas que os movimentam em seus respectivos patamares. (A título de informação: o pai do diretor foi veterano da Merrill Lynch, outra das firmas postas de joelhos pela crise.)

Peter Sullivan faz sua descoberta e a comunica a seu chefe, Will Emerson. Este aciona seu superior, Sam Rogers (Kevin Spacey). Que faz uma chamada de urgência para o seu próprio chefe, Jared Cohen (Simon Baker). Que então convoca o chefe de todos eles, John Tuld (Jeremy Irons). “Explique-me o que está acontecendo como se estivesse falando com uma criança, ou com um [cão] golden retriever.

“Garanto que não é pelo meu intelecto que cheguei até aqui”, diz Tuld, com cinismo teatral, para o analista Peter Sullivan (e vale mencionar que Zachary Quinto, o Sr. Spock de Star Trek, está excelente, assim como todos os outros atores). Mentira: Tuld é brilhante. Mas verdade, também: não foi sua inteligência, e sim seu fabuloso instinto predatório e de autopreservação, que o levou ali, à cabeceira da mesa.

A cada esfera de poder retratada em Margin Call, esse instinto vai se tornando mais nítido e marcante. O demitido Eric Dale lembra com saudade da ponte que construiu em 1986, quando ainda era engenheiro, e do benefício concreto e quantificável que ela proporciona aos motoristas que a utilizam.

O Sam Rogers interpretado por Kevin Spacey se angustia com a ordem de descarregar papéis que logo não terão valor, e tenta achar um compromisso possível entre essas pontadas de moralidade e a necessidade de sobreviver.

Já Tuld é instinto em estado puro: dinheiro, para ele, não passa de papel pintado, e as vidas que ele faz ou desfaz, mera abstração. Margin Call não é afeito à demonização dos tipos de Wall Street – lá há, sim, gente tão decente quanto em qualquer outra parte, defende.

Mas, no topo de uma operação como essa, só um tipo de predador poderia sobreviver aos outros predadores: uma barracuda experimentada como Tuld, que nada sozinho, devora tudo que não seja maior do que ele e escapa sempre, para faturar em mais uma bonança e orquestrar mais uma crise.

(Texto da crítica de cinema e editora executiva de VEJA Isabela Boscov, publicado na edição de 7 de dezembro de 2011 da revista impressa)

ASSISTA AO VÍDEO EM QUE ISABELA BOSCOV COMENTA MARGIN CALL:

 

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5 Comentários

  1. Heron

    -

    21/02/2012 às 15:23

    Irons, realmente, mostrou-se insuperável, no filme.
    A sua dicção contida e gutural parece emanar das profundezas de um vulcão na iminência da erupção.
    Tudo bem encadeado, com a certeza de que os governos não teriam como deixar de intervir para arbitrar as perdas que os dealers impuseram ao mercado.
    A conta, por exemplo, pode ser medida pelas taxas de desemprego, quer nos EUA, na Espanha e nos despossuídos gregos.
    Uma tragédia espreita a primavera do Euro. As condicionalidades pinceladas no Tratado de Versailhes parecem revisitar as exigências que o Tratado de Maastricht. No traco de lugar histórico e social, os alemães substituídos pelos gregos.
    A ser veraz o fato da história repetir-se como tragédia, faz tão somente 75 anos que um cabo austríaco incendiou a alma germânica na Baviera e chegou ao Reichstag.
    MacArthur, a bordo do Missouri, ao aceitar a rendição incondicional do Imperador do Sol Nascente, declarou esperar que “do sangue e morticínio de milhões surgisse um mundo melhor”.
    Bem, neste exato momento, a elite política mundial que dá rumo ao curso da história, não parece ter em mente, de que foi da crise de 29, travejada com as regras de Versailhes, aplicadas até 37, que o mundo chegou ao fundo de um inferno, que nem um Dante delirante seria capaz de imaginar.
    Um mundo estável, seguro e ordenado foi o que buscaram os sobreviventes dos escombros e dos horrores após 45.
    O que se vislumbra, portanto, para além de Margin Call, é um background muito pior.
    Dos seus 92 anos, ainda lúcido, aposentado faz 20 anos do mundo financeiro, meu velho disse-me o seguinte, após ver Margin Call,(ele já havia visto Wall Street), ouvindo repetidas vezes os diálogos, dada aquela dificuldade típica de audição própria da idade, apesar dos aparelhos contra a surdez.
    Acho que a frase merece o registro: “Diferente do crucificado, os executivos sabem o que fazem. A besta ficou livre da jaula”.

  2. carlos nascimento.

    -

    21/02/2012 às 12:34

    Ricardo,
    Como perdi essa resenha ? Imperdoável, já estou atrás desse filme, confesso que é o tipo de tema que me fascina, pois militei por 30 anos na área financeira, sei como funciona parte desse mundo.
    Obrigado pela dica, vale à pena no carnaval navegarmos nas Colunas dos iluminados.
    Prometo que vou assistir e comentarei aqui mesmo.
    abração
    Carlos Nascimento.

    Valeu, caro Carlos. Quando publico comentários de colegas jornalistas sobre filmes, só faço, naturalmente, sobre filmes a que assisti e só publico resenhas com as quais concorde.

    Assisti “Margin Call” há poucos dias, em DVD — tinha perdido a chance quando passou nos cinemas –, e achei realmente arrasador.

    Depois então você comenta. Aguardarei.

    Abraços

  3. SergioD

    -

    21/02/2012 às 12:15

    Ricardo, seria injusto de minha parte não citar a interpretação do excelente James Woods como CEO do Lehman Brothers. Até pouco tempo atrás “Grande demais para quebrar” estava na grade de programação da HBO. Vale a pena conferir.

  4. SergioD

    -

    21/02/2012 às 12:09

    Ricardo, vale também mencionar o excelente “Grande demais para quebrar”, filme que mostra o episódio do ponto de vista do gorverno americano. Digno de nota a interpretação de Willian Hurt, como o Secretário do Tesouro Henry Paulson, e a de Paul Giamati, muito bem caracterizado como o chairman do FED, Ben Bernanke.
    Abraços

    Ótima dica, caro SergioD. Inclusive para mim, que perdi esse filme. Vou atrás!
    Abraço

  5. brasil 2022

    -

    21/02/2012 às 10:58

    Reativaram a bomba relógio!
    Ainda bem que tem occupy Wall Street.
    Honestidade corporativa.


 

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