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26/05/2014

às 14:00 \ Livros & Filmes

O filme “Xingu”: a trajetória épica dos irmãos Villas Bôas

CONVOCADOS À AVENTURA Orlando (Felipe Camargo, à esq.) e Cláudio (João Miguel) sob a mira de um xavante, no primeiro contato com os índios estabelecido na expedição Roncador-Xingu: heróis no sentido clássico do termo (Foto: Divulgação)

CONVOCADOS À AVENTURA — Orlando (Felipe Camargo, à esq.) e Cláudio (João Miguel) sob a mira de um xavante, no primeiro contato com os índios estabelecido na expedição Roncador-Xingu: heróis no sentido clássico do termo (Foto: Divulgação)

 

Publicado originalmente em 15 de abril de 2012 às 16h03.

Campeões-de-audiência

A JORNADA MATA ADENTRO

 

Em Xingu, o diretor Cao Hamburger recria a trajetória épica dos irmãos Villas Bôas, da excitação dos primeiros contatos com os índios ao dilema de não mais poder conter o avanço que haviam ajudado a iniciar

 

Em 1943, quando Cláudio, Leonardo e Orlando Villas Bôas se juntaram à expedição Roncador-Xingu para desbravar a imensidão do Oeste brasileiro, seu desejo era lançar-se no desconhecido.

Logo veio o medo: cercados de índios durante as noites, ouvindo gritos e entrevendo flechas apontadas para si, os irmãos experimentaram, no século XX, o sobressalto que os descobridores haviam vivido na costa no século XVI. Depois, a partir dos primeiros contatos com os índios, sobrepôs-se a excitação de estar onde nenhum branco chegara antes e descobrir um Brasil primordial, abrir pistas de pouso no meio do nada, viver a vida frugal da mata.

Essa inocência, porém, durou só até a primeira epidemia de gripe a varrer os índios recém-contactados. Nas décadas seguintes, Cláudio e Orlando (Leonardo deixou cedo a expedição e morreu em 1961), criadores do Parque Nacional do Xingu e indisputadamente os maiores sertanistas brasileiros, se dedicaram a ser a vanguarda do avanço inevitável para proteger as tribos no caminho deste, e para tentar regular esse avanço.

Seu sentimento, aí, já se tornara de obstinação, missão e um quê de amargura.

Esse percurso descrito em Xingu (Brasil, 2012), do diretor Cao Hamburger, já em cartaz, é o de uma jornada heroica, na acepção do termo: vai do chamado à aventura até a síntese de tudo o que ela representou – o primeiro avistamento dos kranhacarores, que no início dos anos 70 se acreditava serem a última tribo ainda isolada.

Minucioso na pesquisa e majestoso na realização, Xingu sobretudo reapresenta à plateia o gregário, político e pragmático Orlando (Felipe Camargo) e o idealista, irredutível e complicado Cláudio, que na história esteve quase sempre à sombra do irmão mas ganha, aqui, uma excepcional interpretação por parte do ator João Miguel.

Ver o filme é como estar de volta com os irmãos à mata, narra nas páginas seguintes o fotógrafo Pedro Martinelli, que acompanhou os Villas Bôas entre 1971 e 1973.

 

xingu

FASE DA INOCÊNCIA — Cláudio, Orlando e Leonardo (Caio Blat, à dir.) no início da expedição: a excitação da descoberta daria lugar ao grave senso de responsabilidade quando os índios contraíram gripe pela primeira vez  (Foto: Divulgação)

“Eram brasileiros espetaculares”

Por três anos, o fotógrafo Pedro Martinelli acompanhou a última expedição dos irmãos Cláudio e Orlando Villas Bôas no norte de Mato Grosso e sul do Pará.

A viagem, que se estendeu de 1971 a 1973 com breves interrupções, tinha por objetivo o primeiro contato com os índios kranhacarores, que somente anos depois se descobriu chamarem panarás – como é comum, o primeiro nome da tribo fornecido aos brancos foi o nome dado a eles por seus inimigos.

Os panarás ocupavam uma área de floresta pela qual passaria a BR-163, a Cuiabá-Santarém. Pedrão, como era chamado por Cláudio e ainda hoje é conhecido pelos amigos, tinha então 20 anos. Foi enviado pelo jornal O Globo para cobrir a épica viagem dos sertanistas, que foi documentada também pelo então fotógrafo de VEJA Luigi Mamprin.

Durante a longa espera dos Villas Bôas pelo encontro com os “índios gigantes”, Pedrão passou a se sentir adotado por Cláudio, o mais arredio, sagaz e idealista dos irmãos. “Ele foi meu pai de mato”, diz. Passados 39 anos, o fotógrafo, autor das imagens destas páginas, assistiu à exibição de Xingu.

A seguir, seu relato ao editor Leonardo Coutinho sobre o que viu na tela e, sobretudo, viveu ao lado dos Villas Bôas.

 

MOMENTO DECISIVO O índio paraná Sôkriti, fotografado por Pedro Martinelli em fevereiro de 1973, na primeira vez em que um membro da tribo ficou frente a frente com um dos expedicionários - no caso, Cláudio Villas Bôas. Quase três anos transcorreram até que se conseguisse esse contato inicial com os "índios gigantes"

MOMENTO DECISIVO — O índio panará Sôkriti, fotografado por Pedro Martinelli em fevereiro de 1973, na primeira vez em que um membro da tribo ficou frente a frente com um dos expedicionários – no caso, Cláudio Villas Bôas. Quase três anos transcorreram até que se conseguisse esse contato inicial com os “índios gigantes”

“Fui ao cinema com o pé atrás, com medo de encontrar uma ficção cheia de clichês. Mas fiquei muito impressionado com o que vi. Principalmente com a imagem do Cláudio, que sempre foi um grande injustiçado. Orlando tinha mais visibilidade. Não que não a merecesse, mas o fato de ele ser o relações-públicas acabava por ocultar a verdadeira dimensão de Cláudio na história.

“Orlando era o sujeito capaz de falar com os militares, atender os jornalistas e mostrar para o mundo a importância do que eles estavam fazendo pelo interior do Brasil. Era uma pessoa extremamente agradável, capaz de contar as histórias mais saborosas.

“Brasileiros extraordinários”

“Cláudio não era assim. Era recluso, não dava a mínima para os militares e não tinha paciência com repórteres. Mas era ele o maestro. Deu o conteúdo e o sentido ao trabalho dos Villas Bôas. Eles foram brasileiros extraordinários. O filme me surpreendeu justamente nisso. Dá a medida exata de cada um. O ator João Miguel ficou tão parecido com Cláudio e conseguiu reproduzir seu temperamento com tamanha fidelidade que eu me senti de novo dentro do mato, com ele.

Cláudio sofria muito e raramente extravasava esse sentimento. Há uma cena no filme em que, depois de tomar um porre, ele se vê sozinho em uma praia, largado. É uma representação perfeita da impotência dele diante do que ele previa sobre o que ia acontecer com os kranhacarores. Tanto Cláudio quanto Orlando sabiam que, embora a expedição tivesse por objetivo salvar os índios, o contato em certa medida resultaria no fim daqueles que eles imaginavam ser os últimos isolados. Essa dor é visível no filme.

“Naqueles três anos, fui aprendendo a admirar os dois. Cláudio era meu herói. Foi meu paizão de mato.

Debaixo de chuva, comendo carne de macaco

Aprendi a andar no mato e a gostar disso com o meu pai de verdade, Pedro. Mas, com Cláudio, aprendi o que é uma expedição. A ter método, passar oito meses debaixo de chuva e comer macaco cozido, moqueado, de qualquer jeito.

Na verdade, era uma delícia. Cláudio não pescava e não caçava, mas gostava de comer e cozinhar de tudo. Temperava um feijão maravilhoso com uns condimentos que ele escondia ninguém sabe onde. Nos dias em que batia saudade da cidade, a gente construía na imaginação caminhos que nos levavam aos nossos restaurantes preferidos em São Paulo. Ele adorava `ir´ ao Gigetto.

A imaginação era tão poderosa que a gente até falava com os garçons e pedia o prato. Eu saí do mato umas três vezes, para ver minha mãe. Orlando viajava muito também. Cláudio, não; estava sempre lá no mato.

 

EXPEDICAO 1

GENTE ARREDIA — Os Villas Bôas (na canoa à esq.) e os índios xinguanos que participavam da expedição voltam de uma aldeia abandonada pelos panarás: uma entre sucessivas tentativas de contato frustradas (Foto: Pedro Martinelli)

 

Meses esperando no mato — até o dia emocionante do primeiro encontro

“Enquanto Orlando negociava com os militares e tentava atrasar a obra da Cuiabá-Santarém, ou até mesmo desviar o trajeto da estrada — esse tipo de esforço político era fundamental para o trabalho deles –, a tática do Cláudio era morar no quintal dos índios e ali marcar presença.

Nunca ele tomava a iniciativa do contato. Passamos meses nas redes, ouvindo gritos dos índios, sem tomar nenhuma iniciativa. A vida era amarga. Cláudio resistia. Não tinha pressa, pois também ele queria adiar o contato. Até o dia em que os índios vieram até nós, em 4 de fevereiro de 1973. Cláudio foi sozinho ao encontro deles.

Eu vinha atrás em outro barco. Um deles usava um colar preto e branco que eu deixara pendurado em um varal de presentes para os índios. Esse índio esticou o arco e apontou uma flecha na cara do Cláudio, que estava sem camisa e desarmado – esses contatos eram as únicas ocasiões em que ele andava sem arma. Cláudio não se moveu. Foi como um teste para mostrar quem mandava ali.

“Pouco antes fiz a fotografia que mudou minha vida e definiu minha carreira. Sôkriti (o índio que aparece acima) apareceu do nada na mata. Foi a primeira visão de um panará. Depois do contato, a euforia era tamanha que os índios xinguanos que acompanhavam a expedição viraram as canoas, de tanto pular dentro delas. Minhas câmeras e filmes foram para o fundo do rio. Vi minha vida terminar. Mas todos se jogaram na água para recolher na lama o meu equipamento.

 

DE PERTO Os paranás investigam a "falsa estrela cadente" que os sobrevoara tantas vezes - e que sempre recebiam a flechadas (Foto: Pedro Martinelli)

DE PERTO — Os panarás investigam a “falsa estrela cadente” que os sobrevoara tantas vezes – e que sempre recebiam a flechadas (Foto: Pedro Martinelli)

“Essa é uma história difícil de ser repetida. Hoje não há mais sertanistas, e ninguém quer mais ir para o mato. Cláudio e Orlando foram mestres, e merecem receber a devida atenção.”

(Publicado em VEJA de 11 de abril de 2012, por Isabela Boscov)

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24 Comentários

  • janiele

    -

    3/6/2014 às 16:51

    interessante o que os irmãos vilas boas fizeram para salvar os indios dos perigosos”homens brancos” mas eu acho que se arriscaram de mais nessa expedição by.janiele

  • Adriano Brasil

    -

    27/5/2014 às 20:02

    Não entendo a admiração por esses *******. Tavam lá os indios belos e saudáveis´chegam esses boquirrotos e os expõem ao mundo. resultado, miséria e deesgraça. ******* ********* é o que são.

  • Platão

    -

    27/5/2014 às 11:11

    Não podemos nos esquecer também do incrível trabalho dos jesuítas na época colonial, promovendo a conversão dos índios em todo o litoral do país. Impediram um cruel extermínio, como aconteceu com nossos irmãos do norte.

  • Natal

    -

    26/5/2014 às 18:03

    PS.: ao contrário do que alguns leitores afirmam aqui, a população indígena no Brasil tem crescido e muito, nos últimos anos. MT é um dos estados onde a população indígena é muito grande e cresce a cada dia, tendo mais de 150 etnias; especialmente nas regiões leste, norte, nordeste e noroeste do estado.

  • Natal

    -

    26/5/2014 às 17:58

    Comovedor post, prezado Ricardo; parabéns! Por coincidência, acabo de voltar de uma viagem de mais de 4 mil km pela região noroeste de Mato Grosso, estive em duas cidades que fazem parte do Parque do Xingu. Ainda hoje, tantos anos depois, as coisas por lá ainda são bem difíceis. Posso imaginar na época dos Irmãos Vilas Boas. Parabéns pelo post, vou ver o filme tão logo passe nos cinemas de Cuiabá. Sou admirador da saga dos Vilas Boas, assisti aquela reconstituição da Globo, já andei por todos aqueles lugares.

  • LUCIANA

    -

    24/6/2013 às 9:13

    Adorei vou colocar no meu trabalho de história.

  • amanda

    -

    13/5/2013 às 20:59

    essa historia incrivel aventtttura extraordinari ame sz s2

  • Pamella Agatha

    -

    19/4/2013 às 19:49

    Adorei esse resumo vou colocar no meu trabalho de Português!

  • emeli luiza both

    -

    4/4/2013 às 10:57

    adorei tirem 100 no trabalho da escola

  • Erika

    -

    28/12/2012 às 2:04

    Ola para as pessoas que queiram saber mais sobre os indios http://www.tocadaraposa.com.br/

  • Rocio Belen

    -

    27/12/2012 às 12:29

    o.O

  • ROCIO gata

    -

    27/12/2012 às 12:28

    O O INDIO

  • ROCIO gata

    -

    27/12/2012 às 12:27

    OOOOOOOOOOOOOOOOOOO K Q OROR

  • Mirelle Castro

    -

    21/10/2012 às 21:21

    Ótimo filme! Retrata de uma forma clara o acontecido naquela época. Infelizmente houve uma drástica redução do número indígena dos tempos coloniais para cá. Significa que é nossa obrigação defender os direitos do índio, seus descentes, suas pequenas aldeias espalhadas pelo Brasil adentro, afinal tomamos o lugar que antes pertenciam a eles. Lembremos então que, a defesa pelos direitos de culturas diversas tem que prevalecer em todas as instâncias.

  • samara meneses cardoso

    -

    23/7/2012 às 9:15

    eu estava de ferias em Caseara no tocantins quando foi filmado o filme e fico feliz por ver uma história tão linda da história do Brasil, contada de forma inteligente e bem feito………..eu estive nas gravações olhando o quanto erram profissionais desde a pesquisa até o termino das gravações, e fico feliz pela escolha de caseara minha terra natal para a filmagem deste filme……..

  • taty

    -

    8/5/2012 às 21:13

    fiko legal mas eu queria saber qual a diferença da questão indígena abordada no filme com a questão indigena atualmente

  • Sirlei Batista

    -

    1/5/2012 às 21:10

    Filme muito bom. A fotografia é linda e impressionantemente feita nos dias de hoje no nosso país. Possui a capacidade de nos emocionar. O Brasil precisa de produções como essa para contar nossa história, para que os brasileiros percebam que ela foi construída também por muitos cidadãos de bem, munidos de idealismo, determinação, amor. Estamos em um momento histórico em que precisamos formatar a identidade brasileira, a fim de aumentar o orgulho da nação que tem o direito de saber, estudar que há histórias lindas a serem contadas e não somente casos de corrupçao, impunidade, repressão etc. Obrigada Noel Villas Boas por arquivar, sonhar e correr atrás do possível para que possamos compartilhar esse momento.

  • IGNACIA CAVALCANTE

    -

    25/4/2012 às 22:43

    GOSTARIA DE REGISTRAR AQUI QUE ACHEI SUPER LOUVAVEL E JA NAO ERA SEM TEMPO UMA HOMENAGEM AOS VILAS BOAS.ENTRETANTO APESAR DE TER ADORADO O FILME, EM ALGUNS PONTOS A FITA ESTA MUITISSIMO EMBAÇADA, O QUE PROVOCOU MUITA RECLAMAÇAO DA PLATEIA E TIROU O BRILHO DO FILME.TALVEZ SEJA SO A COPIA QUE VEIO PRA RECIFE, MAS E BOM QUE SE REVEJA ISSO. NO MAIS E NOTA DEZ ESPECIALMENTE PRO DESEMPENHO DOS TRES ATORES QUE ATUARAM DIVINAMENTE. PARABENS A TODOS QUE PARTICIPARAM DESSA BELA ESTORIA.
    IGNACIA CAVALCANTE

  • ROLDAO CAMPOS VILLAS BOAS

    -

    23/4/2012 às 21:12

    Desde pequeno meu falecido pai contava sobre os ir-
    maos villas boas “primos”.
    Na cidade onde cresci (Tres Lagoas – MS – Decada de
    1970), sempre nos tratavam com respeito e admiracao
    por serem “parentes”.
    Quando nos mudamos para Sao Paulo (janeiro/1980), e
    comecei a trabalhar e conhecer novos amigos, sempre
    fui bem tratado ao me comparar com os sertanistas.
    Com muito orgulho de ser comparado com os irmaos, e
    de ter como referencia por sua historia de honesti-
    dade e de proteger os mais fracos (os indios).
    Nasci numa familia de 8 irmaos, hoje todos cristaos
    GRACAS A DEUS.

  • Angela Maria Pellegrini

    -

    22/4/2012 às 20:53

    Adorei o filme, pois relembrou a nossa história,ou melhor o começo da civilização brasileira.Pena que hoje existam poucos índios,essa população foi extinta em nome do progresso.

  • denis dos santos guimaraes

    -

    19/4/2012 às 16:25

    bela história essa, é fantástico ver algo que um dia na vida, brancos tiveram realmente respeito e consideração por indígenas que a décadas são marginalizados e deixados de lado, justo eles que foram e ainda são a essencia desse país.

  • José Celestino Teixeira

    -

    18/4/2012 às 20:39

    Os irmãos Villas Boas representam o que há de mais puro no coração do homem branco em contato com os índios da América/Amazônica. Uma história de coragem e muita dedicação às populações indígenas. No coração do Brasil nasceu XINGU berço e preservação de uma Raça em Extinção.

  • duduvieira10

    -

    17/4/2012 às 9:50

    E saber meu caro, aquela época romântica e inocente os íidios contentava com qualquer bigiganga, chaverinho , brinquedinho,,, e saber que hoje as época são bem outras,,, os índios querem é reluzantes caminionetas com 200 cavalos, cobram pedágios em rodovias federais, usa celular, cantranabandeia, madeira, pedras preciosas, aves e animais raros.

  • Vera Scheidemann

    -

    16/4/2012 às 11:17

    Foram realmente brasileiros excepcionais.
    Pena que a triste figura do índio brasileiro
    de hoje deixaria ambos muito tristes.
    Vera

 

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