27/02/2012
às 18:45 \ Livros & Filmes“O Artista”, vencedor do Oscar de melhor filme, celebra a alegria descomplicada que o cinema é capaz de proporcionar

O diretor francês Michel Hazanavicius com o Oscar de melhor filme estrangeiro, por "O Artista" (Foto: AFP)
O filme O Artista, produção franco-belga, já sabemos, foi o brilho da festa do Oscar.
Além de ser o primeiro filme francês ganhar o prêmio principal — o de melhor filme –, levou também as estatuetas de melhor diretor, com o francês Michel Hazanavicius, e melhor ator, com o igualmente francês Jean Dujardin, sem contar que, em plena era do 3D, é um filme em preto e branco. O cãozinho Uggie, 9 anos de idade, ator de múltiplos recursos, e nascido nos Estados Unidos, é um espetáculo à parte.
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Um prazer simples
A alegria de dançar, a sorte de ter um cãozinho fiel e a sedução de uma pintinha no canto do lábio são algumas das coisas que o diretor francês Michel Hazanavicius tem em mente no exultante O Artista (The Artist, França/Bélgica, 2011), que estreou no dia 10 de fevereiro no Brasil com uma inesperada penca de indicações ao Oscar – dez, atrás apenas das onze de A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese.
Inesperada porque, no fato mais notável sobre esta criação de um cineasta antes conhecido por paródias dos filmes de 007, O Artista é um filme em preto e branco – e mudo. Que reproduz os filmes em preto e branco, e mudos, do fim da década de 20 para tratar entre outras coisas da queda em desgraça de alguns astros do período com a passagem do cinema silencioso para o sonoro, entre 1928 e o início dos anos 30.
Na história, George Valentin (Jean Dujardin, protagonista das paródias do diretor) é a estrela mais brilhante no firmamento da Hollywood de então: sedutor como Rodolfo Valentino e ágil como Errol Flynn, ele tem um sorriso de 500 watts que se ilumina ao menor sinal de fãs nas proximidades.
Fãs como Peppy Miller (Bérénice Bejo), que o beija de surpresa num tapete vermelho, provocando furor: “Quem é esta garota?”, gritam as manchetes dos jornais. Assim, a jovem, atrevida e adorável Peppy ganhará passe para entrar no estúdio; sob protestos do produtor (John Goodman), fará uma cena com o astro; e os dois inevitavelmente se apaixonarão.
Mas, como no clássico enredo de Nasce uma Estrela (três vezes filmado, em 1937, 1954 e 1976), Valentin e Peppy tiveram o infortúnio de encontrar-se naquele instante que precede o distanciamento: ele está a um passo de cair na ruína, destronado de seu posto pela arte dos diálogos – e ela está prestes a se tornar grande como Greta Garbo, uma “it girl” que transforma em ouro tudo o que toca.
O segredo de seu sucesso: a pintinha que, num momento de intimidade, Valentin desenhou logo acima de seu lábio.
Desde que foi exibido no Festival de Cannes, O Artista vem arrebanhando prêmios por onde passa (já está em quase 130 indicaçães, fora as do Oscar). Feito como uma celebração do prazer simples que é o cinema – e da simplicidade de recursos com que o cinema pode proporcionar tal prazer -, o filme brinca de imitar os filmes mudos no desempenho largo dos atores e nas cartelas de diálogos.
Mas o vocabulário e a gramática de que ele se vale são um tantinho mais tardios, e mais palatáveis para a plateia contemporânea: vêm das comédias e melodramas falados que Ernst Lubitsch, Fritz Lang e Billy Wilder dirigiram nas décadas de 30 e 40, e que permanecem modelos de economia, eficácia e puro júbilo cinematográfico. (O final, caracteristicamente, é em tom alto, graças à fidelidade tanto de Peppy quanto do espertíssimo [cãozinho] jack russell que põe todo o seu bom-senso canino em prol de seu dono.)
Outros recursos são decididamente extemporâneos: numa cena antológica, Valentin é surpreendido pelo ruído que seu copo faz ao tocar a mesa – e então pelo soar do telefone, o soprar do vento, a percussão de seus passos; a única coisa incapaz de produzir ruído é sua própria garganta.
Essas piscadelas pós-modernas são inevitáveis nos filmes que reproduzem um artigo cujo contexto original se perdeu. Quando um cineasta abdica da cor (como Woody Allen em Manhattan e Celebridades, os irmãos Coen em O Homem que Não Estava Lá e Mel Brooks em O Jovem Frankenstein) ou do som (de novo Brooks, em A Última Loucura), a intenção primeira é evocar ou justapor.
Hazanavicius, no entanto, abdica de som e cor simultaneamente, e assim aprofunda a experiência de quem se retrocedeu quase um século e comprou um bilhete para ver uma fita – como se dizia – em algum daqueles velhos palácios do cinema quando estes eram ainda novos em folha. … uma ilusão, simplesmente.
Mas, num ano em que Hollywood falhou na tarefa de transportar o espectador, e a Academia na missão de reconhecer as poucas fagulhas de imaginação entre as quais poderia escolher, há um tantinho de justiça no fato de tanto O Artista quanto Hugo Cabret serem homenagens à arte de fazer cinema. Quanto à plateia que se dispõe a assistir a O Artista (…), sua surpresa não tem tamanho: como é fácil divertir-se com pouco, quando esse pouco é bom e benfeito.
(Texto da crítica de cinema e editora executiva de VEJA Isabela Boscov, publicado na edição de 8 de fevereiro de 2012)
Assista ao trailer:
As indicações
- Melhor filme
- Direção (Michel Hazanavicius)
- Ator (Jean Dujardim)
- Atriz coadjuvante – Bérénice Bejo – que ficou para Octavia Spencer, Histórias Cruzadas
- Roteiro original – que ficou para Meia-Noite em Paris (Woody Allen)
- Montagem – que ficou para Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (Kirk Baxter e Angus Wall)
- Fotografia – que ficou para A Invenção de Hugo Cabret (Robert Richardson)
- Trilha sonora (Ludovic Bource)
- Direção de arte – que ficou para A Invenção de Hugo Cabret (design de produção: Dante Ferretti; decoração do set: Francesca Lo Schiavo)
- Figurino
Tags: A Invenção de Hugo Cabret, Errol Flynn, Festival de Cannes, Greta Garbo, irmãos Coen, it girl, Jean Dujardin, Martin Scorsese, Michel Hazanavicius, O Artista, Oscar, Rodolfo Valentino, Woody Allen


































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5 Comentários
Reynaldo-BH
-28/02/2012 às 17:19
Bem, vamos ver se este funciona. Abraços.
http://www.youtube.com/watch?v=rNjtZ5V4P-c
Perfeito, amigo Reynaldo. E belíssimo!
Abração e obrigado
Reynaldo-BH
-28/02/2012 às 2:19
Setti, um breve retorno com mais um comentário sobre o The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, que enviei em outro comentário postado.
Chega a ser emocionante. Para quem ama os livros (os reais, me desculpe a turma dos tablets…) e tem neles mais do que companhia. Tem a descoberta – lá da infância – de um mundo novo a cada livro. As “aventuras” que hoje também são as dúvidas, críticas, relatos e vivências. A busca de respostas ou um sonho renovado. O que se deixa como herança. Democrática e humanística herança. Para todos. Não uma tela em um museu. Mas uma viagem que passa de mão em mão. Não teria dúvidas em – se preciso fosse – escolher o que (e mesmo quem…) levaria para uma ilha deserta. Todos os livros que lá pudessem caber. E tenho a certeza que você, mais que eu, nutre esta mesma paixão. Até por que é autor de filhos que estão aí em cantos e esquinas que você jamais imaginou enquanto escrevia. Deve ser um sentimento mágico.
Creio que este curta é uma homenagem.
A todos nós.
Mas principalmente aos livros.
Abraços,
Reynaldo.
PS: imensa coincidência se ter esta premiação na mesma semana que VEJA celebra a consolidação do hábito da leitura no Brasil.
Espero viver para ver este comportamento ser tão adquirido e usual que deixará até mesmo de ser notícia…
Amém!
Comunista Até a Alma.
-28/02/2012 às 1:36
O problema de nós comunistas mandarmos no cinema americano é que só sai coisa ruim e um filme mudo acaba sendo o melhor do ano. Não posso ter mais um passa-tempo legal vendo filmes porque já vi todos os filmes antigos bons, agora com o a gente mandando em Hollywood perdi um bom passa tempo. Mas a causa é mais importante que alguns prazeres fúteis!
Reynaldo-BH
-28/02/2012 às 1:33
Setti, meu amigo.
Segue uma outra obra-prima, premiada ontem.
E que nunca estaria disponível por cá senão fosse a WEB. Espero que goste.
http://www.youtube.com/watch?v=Adzywe9xeIU
Caro Reynaldo, não consigo abrir. O YouTube diz que aconteceu um problema e pede para tentar mais tarde.
carlos nascimento.
-27/02/2012 às 22:32
O filme vencedor – O ARTISTA – foi uma grata surpresa, em plena era 3D, Hollywood resolveu criar juízo e resgatar a alma da sétima arte, premiando o verdadeiro talento, uma produção simples, em preto e branco, mudo, onde as expressões são evidenciadas com sinceridade,sem o artificialismo dos efeitos especiais, somando-se a tudo isso, quebrando paradigmas – olha ai o que ando pedindo para os diversos segmentos – ao preterir os ícones americanos – Brad e George – laureando um francês – Dujardin – um talento nato.
Há esperança de novos RUMOS, a indústria do cinema é sempre um catalizador de culturas, o passado pode ser aprimorado, pois o atual momento é de extrema pobreza neural.
VIVA O VERDADEIRO CINEMA.