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28/02/2012

às 14:00 \ Livros & Filmes

“Hugo Cabret”, filme que venceu cinco Oscars: homenagem de Scorsese ao pioneiro dos efeitos especiais

A festa do Oscar, no Hollywood and Highland Center:o filme de Martin Scorsese saiu com cinco estatuetas (Foto: presslist.oscars.org)

 

A Invenção de Hugo Cabret, outro filme que referencia suas raízes, é mais uma obra-prima do mestre Martin Scorsese. Brilhou na noite do Oscar e saiu com cinco estatuetas, entre elas a de melhor fotografia e direção de arte.

Confira o comentário sobre o filme da crítica de cinema e editora executiva de VEJA Isabela Boscov, publicada na edição de 15 de fevereiro,

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O pioneiro da ilusão

 

Em Hugo Cabret, Scorsese homenageia Georges Méliès, o inaugurador da narrativa cinematográfica e dos efeitos especiais

 

"Hugo Cabret": Scorsese e a esperança de que sempre haja alguém que se encante com a beleza criada no passado

O público nem se habituara a cenas simplicíssimas como a de uma locomotiva chegando à estação (era comum que a plateia saísse correndo da sala, temendo ser atropelada), e o francês Georges Méliès já se dera conta de que o aparato apresentado naquele ano -1895 – pelos irmãos Lumière poderia se prestar a um uso bem mais interessante: contar histórias.

Mágico de profissão, ele tentou comprar dos Lumiére um cinematógrafo, mas eles se recusaram a vendê-lo. A invenção não tinha futuro, e eles não seriam poltrões de lucrar com a ingenuidade alheia, alegaram.

Méliès adquiriu uma tecnologia rival e foi aprender a operar a câmera. No erra e acerta dos autodidatas, descobriu que interromper a filmagem, rearranjar a cena que estava em quadro e então voltar a rodar rendia impressões maravilhosas: personagens sumiam ou apareciam, o cenário se transformava.

Estava inventado o stop-motion, que até o advento da computação gráfica foi a base de todos os efeitos especiais no cinema.

Méliès lançou seu primeiro filmete em 1896. Lançaria cerca de outros 500 até falir, depois de uma lenta queda na obscuridade, atropelado pelos avanços narrativos de gênios para os quais ele fora a inspiração primeira, como D.W. Griffith e Chaplin. Mas durante muito tempo suas criações extravagantes, repletas de cores (pintadas a mão na película), personagens de fantasia e cenários exóticos, venderam milhões de ingressos.

O dado demora a se revelar, mas o pai do cinema como território de mundos imaginários – e dono do primeiro estúdio da Europa – é central em A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, Estados Unidos, 2011), de Martin Scorsese, que estreou em 17 de fevereiro já com onze indicações ao Oscar.

Baseado no romance homônimo de ficção histórica do americano Brian Selznick, de 2007, no princípio o filme se ocupa quase que só do Hugo Cabret (Asa Butterfield) que lhe dá nome – um órfão que, nos anos 30, mora clandestinamente numa estação de trem parisiense, cujos grandes relógios acerta e onde furta para sobreviver, sempre fugindo do inspetor que nunca o alcança porque o aparelho que usa na perna o impede de correr (Sacha Baron Cohen, o Borat).

Certo dia, Hugo é pego por quem menos espera: o velhinho que toca uma loja de brinquedos na estação, e que se apodera do maior tesouro de Hugo – um caderno herdado de seu pai relojoeiro (Jude Law), com as instruções para reparar um antigo autômato em forma de menino.

O velho, chamado Georges (Ben Kingsley), empalidece ao ver os esboços contidos no caderno: eles dizem respeito a um passado do qual ele nunca fala, nem mesmo com sua sobrinha Isabelle (Chloe Grace Moretz).

Isabelle e Hugo, na arte de se espantar

Isabelle e Hugo, na arte de se espantar

O velho Georges, claro, é Méliès – mas um Méliès reclusivo e amargurado, tão ferido pelo esquecimento em que caiu que até mencionar quem foi um dia lhe seria insuportável.

Scorsese, que aos 69 anos inevitavelmente está se aproximando da etapa final de sua carreira, se compadece do homem e se irmana com o cineasta: Griffith, Orson Welles e muitos outros grandes diretores terminaram sob o castigo de não mais conseguir crédito para filmar (Méliès é, porém, um dos casos mais tristes: morreu na penúria, em 1938, aos 76 anos, tendo vendido a maior parte de seus negativos como sucata).

A esperança de Scorsese é que, da mesma forma que ele na infância se maravilhou com as imagens de Viagem à Lua, de 1902, e outras criações de Méliès, sempre haja entre as novas gerações quem queira se encantar com a beleza criada no passado, esquecida ou não.

As crianças Hugo e Isabelle representam essa possibilidade de redescoberta – e é às crianças em geral que Hugo Cabret se destina. Tão forte é o desejo de Scorsese de falar a elas que, por vezes, seu filme freia para que se faça uma ou outra exposição didática.

Nada, porém, que tolde o deleite de ver projetadas na tela grande (oportunidade raríssima hoje em dia) as imagens fantásticas com que Méliès inaugurou uma era – a dos séculos do cinema.

 

As indicações

 

- Melhor filme – quem levou foi O Artista

- Direção – Martin Scorsese – quem levou foi Michel Hazanavicius, de O Artista

- Roteiro adaptado – quem levou foi Os Descendentes (Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash)

- Montagem – quem levou foi Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (Kirk Baxter e Angus Wall)

- Fotografia (Robert Richardson)

- Direção de arte (design de produção: Dante Ferretti; decoração do set: Francesca Lo Schiavo)

- Efeitos visuais (Rob Legato, Joss Williams, Ben Grossman e Alex Hennemg)

- Trilha sonora – quem levou foi O Artista (Ludovic Bource)

- Som (Tom Fleischman e John Midgley) 

- Edição de som (Philip Stockton e Eugene Gearty)

- Figurino – quem levou foi O Artista (Mark Bridges)

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5 Comentários

  • JOrge

    -

    2/3/2012 às 16:07

    Setti,
    caso nao queira perder tempo demais, basta que se assistam as partes, nas quais os jornalistas fazem as perguntas. Em especial as perguntas do Conti, como já havia escrito. Em 1:33:33 podes ver o pedido de desculpas ao Bruno Daniel.
    Desejo um boa sorte e estômago. Um abraco

  • JOrge

    -

    2/3/2012 às 14:19

    Caro Setti,
    o link está correto. Repito-o aqui: http://youtu.be/Pq_8l4ytPok

    Tratou-se, nao de uma entrevista, mas de procedimento inquisitório, de linchamento moral, de piada de mal gosto.
    Bruno Daniel foi constantemente interrompido, agredido verbalmente com perguntas rudes, com insinuacoes absurdas, trejeitos cínicos e, pior de tudo, questionado “onde estavam os documentos, os papéis” (isso lhe soa familiar?!) que comprovariam suas alegacoes.
    Enfim, foi tratado com desdém, como suspeito, como acusado, nao como o irmao de um político que foi morto em um dos casos mais estranhos ocorridos na política recente do país.
    Mario Sérgio Conti, a quem respeitava desde o “Notícias do Planalto” puxou a onda, parecia indignado, tratou o entrevistado com um rudeza poucas vezes vista. O interrompeu em quase todas as vezes que falava (e, nao, nao exagero, basta que se veja a entrevista).
    Ao final, tendo desempenhado um papel absurdo e ridiculo, e tendo percebido que havia passado dos limites, pediu desculpas, com um sorriso amarelo e sem convencer, nem a si mesmo, nem ao entrevistado e, muito menos, aos que assistiam àquele linchamento.
    Enfim, uma pena que gente como o sr. nao tenha conseguido assistir. Uma pena mesmo.
    Enfim, nao deixa de ser um sintoma da queda de qualidade de um programa como o Roda Viva que ele nao disponha nem a jornalistas profissionais e respeitados (como é o seu caso), a “perder” uma hora de seus ocupados dias.

    Seu relato é de horrorizar. Vou procurar assistir ao programa pela internet. Veja bem, caro Jorge, é impossível a qualquer pessoa, inclusive jornalista, assistir a tudo o que interessa. Costumo, sim, ver o Roda-Viva, mas nem sempre consigo.

    Agradeço seu comentário e sua dica, importantíssima.

    Um grande abraço.

  • JOrge

    -

    29/2/2012 às 13:23

    Uma pena que nao tiveste a oportunidade, Setti.
    Mas neste link já podes ver a entrevista na íntegra:

    http://www.youtube.com/watch?v=Pq_8l4ytPok

    Gostaria de saber se o senhor considera do que foi feito como jornalismo?!
    Um abraco

    Prezado Jorge,

    O link não abriu. O YouTube informa que ocorreu um erro etc.

    Mas vi que se trata de um programa com Bruno Daniel, irmão do prefeito assassinado de Santo André, Celso Daniel.

    Não tenho tempo físico para assistir a um programa de uma hora e meia (ou até mais, hoje em dia) para poder responder a você, caro Jorge. Lamento.

    Me diga então porque você critica a atitude dos jornalistas que o entrevistaram?

    Abraço

  • SergioD

    -

    28/2/2012 às 21:37

    Ricardo, assissti esse filme no último sábado. Por acaso foi o primeiro filme em 3D que tive a oportunidade de asistir. Creio que essa tecnologia contribuiu em muito para a magia da história, que queria justamente magnificar a pessoa de Georges Melies, praticamente o pai dos efeitos especiais.
    Pouco tempo atrás a HBO apresentou um série espetacular, “Da Terra a Lua”, produzida por Smeven Spielberg Tom Hanks. Cada um de seus doze episódios enfocava uma etapa da grande conquista ou algum aspecto importante daquela grande aventura. Em seu último episódio, o que apresentava o vôo da Apollo XVII, houve uma grande homenagem a George Melies e o seu filme sobre a viagem à Lua, baseada a obra de Júlio Verne. Foi um fecho de ouro para uma série que não foi tão badalada quanto “Band of Brothers” e “Tha Pacific”, mas de uma qualidade e fidelidade históricas fenomenais.
    Não sou muito apreciador de filmes que sejam um elogio/homenagem a alguém, mas a obra de Scorsese, mas esse filme me tocou.
    Abraços

  • JOrge

    -

    28/2/2012 às 14:19

    Setti,
    o sr. assistiu ao Roda Viva ontem à noite?
    Qual a sua opinião sobre a entrevista?! Aquilo representa o que o sr. entende por jornalismo?!

    Infelizmente não pude assistir, não, caro Jorge.

 

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