Blogs e Colunistas

01/04/2012

às 16:05 \ Livros & Filmes

Exclusivo para VEJA: Spielberg fala sobre seu último filme, “Cavalo de Guerra”, sobre chorar ou não chorar e outros temas

cavalo-de-guerra-1

"Cavalo de Guerra", a história de amor entre um garoto e seu puro-sangue (Foto: Divulgação)

O MUNDO EM TRANSE

Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg, trata da paixão de um menino por seu cavalo – e de como a I Guerra lançou o mundo à força no século XX

Por Isabela Boscov, de Nova York

As patas traseiras recolhidas junto às dianteiras em sinal de exaustão extrema, o corpo todo tremendo, o potro Joey está pronto a desistir: o arado é pesado demais, e o terreno, seco e pedregoso, resiste a todos os seus esforços.

Para o menino Albie (Jeremy Irvine), e para seu pai e sua mãe (Peter Mullan e Emily Watson), será a calamidade final.

Aquele pequeno campo, no qual eles pretendem plantar nabos, é tudo que os separa da falência, da perda da fazenda, da venda de Joey – pelo qual Ted, o pai de Albie, pagou uma fortuna, por se ter encantado com o puro-sangue que evidentemente não nasceu para o trabalho pesado. Mas então começa a chover. Joey, instigado por Albie, dá mais uma arrancada – e o arado, enfim, revira a terra.

cavalo-de-guerra-franca

O potro Joey (à direita) na fazenda francesa, com sua nova dona (Foto: Divulgação)

Essa emoção concentrada, em que a vitória é arrancada dos dentes da derrota, foi sempre a especialidade de Steven Spielberg. E Cavalo de Guerra (War Horse, Estados Unidos, 2011), é repleto desse tipo de oportunidade.

Baseado no livro infantil do inglês Michael Morpurgo (que está sendo lançado aqui pela Martins Fontes), o enredo virou filme depois que Spielberg, por insistência da produtora Kathleen Kennedy, foi assistir à montagem teatral inaugurada em 2007 pelo Royal National Theatre de Londres – na qual os cavalos eram “interpretados” por extraordinárias marionetes em tamanho natural concebidas por uma dupla sul-africana de titereiros.

O efeito, no palco, era mágico: embora os três homens que operavam cada uma das marionetes ficassem a plena vista da plateia, esta se entregava sem reservas à ilusão.

Spielberg, porém, preferiu usar cavalos de verdade (“grandes atores”, diz) para tratar, em veia de realismo clássico, da paixão que Albie sente por Joey desde que o viu nascer, e da determinação com que, separado de seu cavalo, o rapaz vai procurá-lo no fim do mundo mesmo, nas terríveis trincheiras da I Guerra.

cavalo-de-guerra-batalha

Os antigos ideais de bravura da cavalaria seriam aniquilados com a chegada abrupta do século XX mecanizado e tecnológico, com a I Guerra Mundial (Foto: Divulgação)

Do ponto de vista dramatúrgico, Joey é um curinga eximiamente concebido: na primeira parte da história, é um emblema da dureza da vida no campo do pré-guerra, onde o século XIX ainda não havia cedido lugar ao século XX.

Vendido por Ted, em mais uma tentativa de salvar sua fazenda, para um capitão inglês (Tom Hiddleston, em uma atuação tocante), Joey ilustrará como os antigos ideais de bravura da cavalaria seriam aniquilados com a chegada abrupta do século XX mecanizado, pragmático e tecnológico que a I Guerra Mundial (1914-1918) iniciou à força: em uma cena de cortar o coração, o regimento inteiro galopa para o que acredita ser uma vitória indiscutível, mas na verdade se revelará seu massacre – à espera dos cavalos e cavaleiros, oculta na floresta, está uma linha de metralhadoras alemãs.

Joey é então alocado na caravana de carga alemã, puxando ambulâncias; viverá um breve interlúdio de paz numa fazenda francesa onde moram uma menina e seu avô (o magnífico Niels Arestrup); e finalmente cairá em cheio no horror das trincheiras.

Embora não possua um intelecto, compartilhará com os soldados enterrados na lama, sob fogo constante, sua perplexidade: como é possível que o homem crie tal inferno, e então se jogue nele?

Veterano de muitos combates encenados, Spielberg recebeu VEJA, em Nova York, para falar por que a guerra é um tema tão constante em sua obra e sobre o valor – e a ciência – de fazer uma plateia chorar.

 

steven-spielberg-set-cavalo-de-guerra

Se toda a equipe estiver imbuída da mesma emoção, ela ficará impressa no negativo, diz Spielberg (Foto: Divulgação)

Em muitos dos seus filmes e nas séries de TV que o senhor produziu transparece a crença de que, por devastadora que a guerra seja, ela proporciona certos ensinamentos sobre moral e caráter que nenhuma outra situação é capaz de propiciar. A vida desta geração, no Ocidente, é complacente demais?

Como dramaturgo, procuro situações-limite – aquelas em que certas escolhas extremas se impõem a nós. E a guerra nos testa de maneiras que nenhum outro conflito pessoal ou político poderia fazê-lo.

Nela, temos de tomar decisões instantâneas, intuitivas, sem reflexão. O combate nos mostra quem somos de fato, no que temos de melhor e de pior. Não que eu pense que a guerra é necessária ou instrutiva, ou que a deseje a qualquer homem ou nação. Na verdade, nem considero que Cavalo de Guerra seja um filme de guerra, no sentido estrito do termo.

É uma história de interesse humano, sobre o amor entre um menino e seu cavalo, Joey, e as mudanças que esse animal opera nas vidas humanas que toca. As pessoas cuja trajetória Joey atravessa se relacionam com ele de uma forma que talvez nunca tenham experimentado antes com outro ser humano.

 

Que poder especial Joey possui para instigar essas transformações?

Não é acaso que animais sejam usados como ferramenta terapêutica, e com muito sucesso: acho que tendemos a nos expor a eles de maneira mais intensamente emocional, e com menos resguardos, do que faríamos com outra pessoa.

Não que eu fale de terapia em Cavalo de Guerra: meu objetivo é usar Joey como um pivô, para tratar de eventos decisivos – começando com a história tristíssima de uma pequena fazenda que está sob o tacão de um proprietário sem compaixão, e as medidas duríssimas a que um fazendeiro é capaz de recorrer em tempos difíceis.

Cavalo de Guerra é tanto sobre a terra quanto sobre os personagens que vivem nela – na fazenda inglesa à beira da falência, e na França, nas trincheiras da I Guerra.

 

No livro de Michael Morpurgo há um tema importante correndo sob o enredo: o de que, com a I Guerra, o mundo passou por uma transformação vertiginosa, mais profunda e rápida do que seria possível ao homem reconciliar-se com ela. Por que a opção de mostrar essa mudança pelo que, na prática, é o ponto de vista de Joey, o cavalo?

Primeiro, há uma questão estratégica na trama: Joey, evidentemente, não tem afiliações, não está de um lado nem de outro – mas, por ser um cavalo, e útil, passa de mão em mão, transitando de uma fazenda inglesa para a batalha, entre os soldados ingleses, os franceses e os alemães.

Como personagem, ele tem essa vantagem única. E permite a quem conte a história não ter de tomar partido também.

Não me interessa, aqui, comentar os méritos políticos de cada lado da I Guerra, mas, sim, mostrar como ela afetou todos esses lados igualmente – como foi cruel para todos.

 

Desde antes da I Guerra a cavalaria vinha se tornando obsoleta. O senhor diria que esse personagem, o cavalo, é o símbolo de uma era que se encerrava – não apenas de uma mudança na forma como a guerra é travada, mas da passagem do mundo rural do século XIX para o mundo mecanizado do século XX?

Com certeza.

E para mim, também, prova que não há nobreza no sacrifício. Esse ideal elevado que a cavalaria um dia representou acarretou, na I Guerra, a morte não apenas de milhares de oficiais desses regimentos, mas de literalmente milhões de cavalos – atingidos por balas ou em ataques com gás, de doença, de fome, de maus-tratos.

Para mim, além disso, mostra que o sofrimento da guerra é indiscriminado. Ela é uma tragédia para todos, de um lado da trincheira ou de outro, e tenha-se um intelecto ou não.

 

O senhor já tinha alguma familiaridade com cavalos?

Minha filha de 15 anos compete em torneios de salto, e minha mulher pratica hipismo. Moramos num pequeno rancho com dez cavalos.

De manhã, gosto de passar pelos animais e inferir em que estado de espírito cada um deles está naquele momento. Cavalos são extremamente intuitivos e reativos, e muito expressivos.

Pode-se ler a emoção deles nos olhos, e essa foi uma das coisas que tentei trazer para o filme – a sensibilidade dos cavalos a tudo o que está à volta deles.

 

Na montagem teatral de Cavalo de Guerra, dupla de titereiros emocionou Spielberg (Foto: divulgação)

Na montagem teatral de "Cavalo de Guerra", dupla de titereiros sul-africanos com seus fabulosos marionetes emocionou Spielberg (Foto: divulgação)

A dupla de titereiros que coordenou o trabalho da produção teatral de Cavalo de Guerra defende a ideia de que as marionetes são capazes de comunicar o sentimento animal com mais eficácia do que os cavalos de verdade. O senhor cogitou usar marionetes?

Esse aspecto realmente me preocupava: meu receio era que os cavalos de verdade não manifestassem suas emoções de maneira tão visível e nítida quanto as marionetes na produção teatral.

Mas o oposto se deu. Os cavalos prestavam atenção no que estava ocorrendo na cena – não vou dizer que eles compreendiam, mas ficavam atentos – e no que estava sendo dito ou expressado sobre eles, e reagiam de maneira incrivelmente pontual.

Foram pouquíssimas as ocasiões em que tivemos de ajeitar uma cena na montagem: em quase todas as cenas, a reação do cavalo é genuína, sem cortes. Muitas vezes, aliás, os atores é que tiveram de improvisar para corresponder ao que os cavalos estavam trazendo para a encenação.

Há apenas três tomadas em todo o filme que foram produzidas digitalmente, e elas estão lá só porque nesses casos era necessário preservar a segurança dos animais.

 

Há várias cenas em Cavalo de Guerra em que o espectador sofre de maneira genuína junto com o cavalo – quando Joey está quase desabando na tentativa de puxar um arado, por exemplo, ou quando se enrosca no arame farpado da trincheira. Esse é um dom pelo qual o senhor é célebre: o de provocar a emoção da plateia. Como se faz isso?

Não é uma ciência; é a confluência de várias pessoas fazendo o trabalho que lhes cabe naquela cena com um compromisso de alma.

Se a emoção que se pretende é genuína e sincera, é fácil instigá-la em todos os membros da equipe, dos atores ao iluminador – e, se todos estiverem imbuídos dessa emoção, ela ficará impressa no negativo. Não se trata de manipulação, mas de sentimento verdadeiro.

Meu sentimento, aliás: se a cena não o provoca em mim, considero que ela não é o que deveria ser. Em quase todos os casos, quando isso acontece, é porque não entreguei os personagens aos atores certos para eles.

 

O senhor já mexeu no elenco de um filme por constatar que havia selecionado mal?

Já, e essa é uma decisão terrivelmente traumática para o ator e também para o diretor, pois repercute em toda a equipe que se reuniu.

Sempre que possível, procuro deslocar o ator de um papel para outro. É bem melhor, no geral, do que demitir. Não deixa de ser humilhante, mas não desintegra o time.

 

cavalo-de-guerra

"Os cavalos prestavam atenção no que estava ocorrendo em cena" (Foto: Divulgação)

Quando foi assistir a Cavalo de Guerra no teatro, o senhor chorou?

Chorei – no primeiro ato, e no segundo, e também no terceiro.

Mas, no set de filmagem, não choro. Supõe-se que, como diretor, eu não deva sucumbir aos meus sentimentos na frente de todo mundo. Às vezes, choro na sala de edição, com os montadores.

Isso de chorar é uma coisa meio íntima para mim.

 

Qual o valor de fazer a plateia chorar?

Fazer a plateia chorar num drama e rir numa comédia significa a mesma coisa: que se cravou a emoção certa para o momento, que se contou a história como ela devia ser contada.

Com a ressalva de que a comédia requer muito mais ciência e manipulação. Uma gargalhada tem de ser unânime, ou é um fiasco.

O choro, não. Cada um pode chorar no momento que lhe convém. Que em geral é aquele em que o sujeito ao lado não está olhando.

(Reportagem publicada na edição impressa de VEJA)

Deixe o seu comentário

Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.

» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados