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Arquivo de 7 de agosto de 2012

07/08/2012

às 18:00 \ Tema Livre

A Telefônica testa, na Espanha, fios de cobre com DNA para rastrear ladrões. Quando chegará a vez do Brasil?

O Túnel Jânio Quadros, que passa por baixo do Rio Pinheiros, em São Paulo, de quase 2 quilômetros de extensão, em uma das várias vezes em que foi interditado por estar sem luz devido ao roubo de cabos de cobre (Foto: O Globo)

Amigos do blog, sempre fui um defensor ferrenho de investimentos públicos em tecnologia para combater o crime.

É espantoso como as autoridades de segurança pública da maioria dos Estados gasta na compra de veículos, armas e outros itens naturalmente indispensáveis às políciais, mas, com exceção de São Paulo e alguns outros, investe pouquíssimo, quando nada, em tecnologia.

A tecnologia contra o crime pode muitas vezes ser usada pela iniciativa privada. Veja o caso da multinacional espanhola Telefonica, que no Brasil atua em São Paulo e tem a maior rede brasileira de telefonia fixa (além de sociedade em empresas de telefonia celular).

Neste momento, na Catalunha, na Espanha, a Telefonica está começando a utilizar tecnologia britânica para combater um problema crônico na região – e mais do que crônico no Brasil: o roubo de fios de cobre, que no nosso país inferniza empresas de telefonia, empresas de metrô, linhas de trem e outros setores. Dá prejuízo às empresas, públicas e privadas, e dor de cabeça aos consumidores, já que em certas cidades, bairros inteiros ficam com telefones mudos ou sofrem problemas de gravidade semelhante por causa dos ladrões de cobre.

Montanhas de fios de cobre roubados na Catalunha, Espanha: em futuro próximo, será possível identificar os ladrões e a origem do produto (Foto: 20minutos.es)

A Telefonica está começando a revestir toda a sua rede na Catalunha com uma espécie de DNA eletrônico, como se fosse uma pintura, invisível a olho nu e que só pode ser detectado por raios ultravioletas. O produto tem um tal grau de sofisticação que pode permitir à polícia, nas constantes apreensões de material que promove, saber se os fios são roubados e até a identidade dos ladrões, se forem presos suspeitos, já que a substância tem a capacidade de se impregnar na pele durante várias semanas, e, na roupa, durante vários meses.

A empresa britânica que fabrica o produto, a Selecta DNA, se orgulha de ser “temida por criminosos no mundo inteiro” e garante que o DNA eletrônico, se incluído na matéria prima do produto a ser fabricado já no momento da produção – o que inclui até motores e peças de veículos – pode sair para o mercado com todos os principais dados da companhia fabricante codificados: nome, logotipo e, no caso dos fios de cobre, até informação sobre a área onde os cabos foram colocados.

O cobre sempre atraiu ladrões (não só no Brasil), e mais ainda com a atual crise econômica internacional, com o fato adicional que seu preço triplicou nos últimos três anos. A tonelada do metal vale, hoje, algo como 8 mil reais.

Quando será que a Telefonica vai começar a usar o DNA eletrônico – “micropontos circulares de tamanho mínimo, praticamente invisíveis a olho nu”, segundo a empresa britânica – no Brasil?

07/08/2012

às 17:05 \ Política & Cia

FHC sobre o mensalão: “Calo sobre quem deva ser punido e em que grau, mas não se deve obscurecer o essencial: houve crime”

Fernando Henrique Cardoso (Foto: André Porto / Bravo!)

FHC: "Ao voltar de férias, percorri os jornais: só dá mensalão e Olimpíada" (Foto: André Porto / Bravo!)

 

Artigo publicado em O Estado de S.Paulo em 5 de agosto de 2012

O INESCAPÁVEL

Ao voltar de férias, percorri os jornais: só dá mensalão e Olimpíada. Não é para menos, mas é pouco. Consolou-me haver lido uma matéria de David Brooks sobre a campanha eleitoral em seu país. Basta ler o título, A campanha mais tediosa, para que o leitor se dê conta do baixo-astral que envolveu o comentarista ao seguir os embates entre Barack Obama e Mitt Romney.

Isso a despeito de os americanos ainda estarem sufocados pela crise e de haver muito que debater sobre como sair dela e sobre o papel dos Estados Unidos num mundo cheio de incertezas. Mas o cotidiano não se alimenta de decisões históricas…

Como seria bom se pudéssemos apenas nos deliciar com a sensibilidade e a inteligência da crônica de Roberto DaMatta sobre os elos humanos que aparecem na novela Avenida Brasil, não tão diferentes dos que relacionam o antropólogo com seus objetos de estudo. Ela nos dá um banho de vida.

Infelizmente, nesta semana não dá para falar apenas das estrelas. A dura realidade é que começou na quinta-feira um julgamento histórico sobre o qual não faltaram palavras sensatas. Uns, como José Nêumanne, mostraram as falácias e enganos acerca do mensalão de maneira crua e direta.

Outros, como Dora Kramer, desvendaram a falsa dicotomia entre julgamento técnico e julgamento político. Outros ainda, como Elio Gaspari, sem negar que torcer faz parte da alma humana, insistem em que o importante é que os magistrados julguem de maneira compreensível para o povo.

O julgamento do século (Foto: Fernando Bezerra Jr. / EFE)

O julgamento do século: "é inegável a sensação de que talvez estejamos no começo de uma nova fase de consolidação das instituições democráticas. Existe também o temor de que ela se perca" (Foto: Fernando Bezerra Jr. / EFE)

Que não nos confundam com o jargão da toga. E há os que abrem o jogo, mostram suas apostas, como o Zuenir Ventura, para logo dizer que tudo é mero palpite, pois não se pode saber o que passa na cabeça dos julgadores.

Por mais que se deseje ser objetivo, tenho tentado, e por mais prudente que se deva ser na antevéspera do julgamento (no momento em que escrevo este artigo), é inegável a sensação de que talvez estejamos no começo de uma nova fase de consolidação das instituições democráticas. Existe também o temor de que ela se perca.

É isso que produz ansiedade e faz com que os comentaristas mais perspicazes – incluo neles Merval Pereira -, ao falarem sobre o tema, acabem por deixar transparecer o que gostariam que acontecesse. De minha parte, torço para que não haja impunidade. Calo sobre quem deva ser punido e em que grau, mas não se deve obscurecer o essencial: houve crime.

Embora, portanto, esteja engrossando o número dos obcecados com o mensalão, não posso esconder certa perplexidade diante da despreocupação com que recebemos as notícias sobre a crise internacional, como se, de fato, a teoria da marolinha tivesse substituído o bom senso na economia. Não dá para ignorar que com toda a inundação de dólares a baixo custo feita pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), a economia do país não reage.

Na Europa, por mais que seu Banco Central se diga disposto a cobrir qualquer parada dos especuladores, os mecanismos para tornar efetiva a gabolice estão longe da vista. Resultado: mal-estar social e desemprego crescente.

A própria China, bastião da grandeza capitalista mundial, parece mergulhar em taxas decrescentes de crescimento, as quais, se bem que nos deem água na boca (entre 6% e 7%), são insuficientes para atender aos reclamos dos chineses e, mais ainda, para sustentar a maré dos preços elevados das matérias-primas, principalmente minerais.

Tudo indica, portanto, que os efeitos da crise mundial, somados à inércia nas transformações de fundo da economia que marcou o governo Lula, acabaram por levar nossa economia, se não às cordas, ao canto do ringue. O governo atual, não querendo beijar a cruz, embora já ajoelhado diante da realidade, despejou uma série de paliativos de todos conhecida: redução setorial de impostos, créditos de mão beijada para alguns setores beneficiados, expansão dos gastos públicos correntes e, até, desvalorizações da moeda e redução das taxas de juros.

Em situações “normais” de crise, o receituário funcionaria. Um pouco de sustentação da demanda, jogando-se nos ombros de Keynes a responsabilidade pela ligeireza de certas medidas, animaria o consumo e daria aos empresários o apetite para investir.

Diante, entretanto, da duração e da profundidade da crise atual, é pouco. Serão necessárias medidas verdadeiramente keynesianas que dizem respeito à sustentabilidade dos investimentos, públicos e privados, e ao incremento da produtividade. Desafio duro de roer e que não se pode levar adiante somente com os recursos públicos nas mãos de uma burocracia politizada.

É esse o desafio que o governo Dilma Rousseff tem pela frente. Quem sabe, premido pelas circunstâncias, ele finalmente reconheça, na prática, o que o lulopetismo sempre negou: que as reformas que meu governo iniciou precisam ser apoiadas e retomadas com maior vigor.

PAC da Privatização, com que nome virá?

Para o ex-presidente, privatizações ou concessões "terão de vir se quisermos de fato crescer mais aceleradamente"

Nem as estradas, nem os aeroportos e muito menos as fontes de energia darão o salto necessário sem alguma forma de privatização ou de concessão. Elas terão de vir se quisermos de fato crescer mais aceleradamente.

Só com estabilidade jurídica, aceleração dos investimentos em infraestrutura e educação, melhor balanceamento energético será possível despertar não apenas, como está na moda dizer-se, o “espírito animal” dos empresários, mas a crença de todos nós no futuro do Brasil.

Ao contribuir para a consolidação da Justiça como um valor, parte essencial da modernização do nosso país, o julgamento do mensalão poderá ser um marco histórico. Basta que seja sereno e justo para injetar mais ânimo em nossa política e para que esta volte a olhar o Brasil com a clareza de que somos um país capaz de andar com as próprias pernas graças à nossa seriedade e aos conhecimentos que desenvolvemos. Só assim deixaremos de flutuar ao sabor das ondas favoráveis às economias primário-exportadoras para podermos dar rumo próprio ao nosso futuro.

07/08/2012

às 16:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: sobre mensalão, Olimpíada, Bolívia, Gore Vidal etc

Brasileiro subiu ao lugar mais alto do pódio nas argolas, superando ginastas da China e da Itália

Um brasileiro subiu ao lugar mais alto do pódio nas argolas, superando ginastas da China e da Itália - com nossos atletas, as Olimpíadas é que engrandecem o Hino Nacional

(Publicado em VEJA de 8 de agosto de 2012)

 

OLIMPÍADA, BOLÍVIA, GORE VIDAL ETC.

Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo

O Hino Nacional vive seu grande momento em Olimpíadas. Não há ocasião em que venha mais a propósito. Talvez isso não seja tão evidente para americanos, chineses, russos ou ingleses, acostumados a ouvir seus hinos muitas vezes, na competição.

Para os brasileiros, que pouco ouvem o seu, a raridade ressalta a especificidade do momento. Não é que o Hino Nacional engrandeça as Olimpíadas. Ao contrário, as Olimpíadas é que engrandecem o Hino Nacional. Naquele momento, ele recupera seu significado e justifica sua razão de ser.

O pior momento do Hino Nacional é quando é tocado antes dos jogos dos campeonatos disputados rotineiramente no Brasil. Por efeito de estúpida lei estadual que, salvo engano, primeiro foi baixada em São Paulo, e em seguida copiada em outros estados, o hino tem de ser executado antes de qualquer competição esportiva.

Não se tinha inventado ainda maneira mais segura de torná-lo banal e inoportuno. Hino Nacional é ferramenta para ser utilizada com parcimônia. As Olimpíadas oferecem um momento adequado e justo para que ele provoque os efeitos de que é capaz.

O mensalão não é o primeiro escândalo a envolver pessoas situadas no coração do poder, no Brasil, mas é o primeiro cujo julgamento transcorre sem que se anteveja o abalo das instituições. Ao atentado da Rua Tonelero, em 1954, em que morreu o major Vaz e foi ferido o jornalista Carlos Lacerda, por obra de agentes subalternos do governo Getúlio Vargas, seguiram-se um inquérito ilegalmente conduzido por militares e uma gritaria da oposição que preparavam o golpe.

"O mensalão não é o primeiro escândalo a envolver pessoas situadas no coração do poder, no Brasil, mas é o primeiro cujo julgamento transcorre sem que se anteveja o abalo das instituições"

"O mensalão não é o primeiro escândalo a envolver pessoas situadas no coração do poder, no Brasil, mas é o primeiro cujo julgamento transcorre sem que se anteveja o abalo das instituições"

No processo de impeachment de Fernando Collor, em 1992, pairavam desconfianças de que o caso pudesse desandar em ameaça às recém-conquistadas liberdades. O fato de não se preverem catástrofes semelhantes para o atual julgamento representa uma coisa boa, a contrastar com as tantas ruins que o episódio evoca

Uma frase do ministro das Relações Exteriores da Bolívia, David Choquehuanca, causou confusão na semana passada. Ele fez votos para que o dia 21 de dezembro, o último do calendário maia, marque o fim da Coca-Cola na Bolívia e o início do mono-cochinche, uma bebida popular no país.

O ministro tomava carona nos augúrios do calendário maia para profetizar “o fim do egoísmo, do individualismo e da divisão do país”, simbolizados na troca da Coca-Cola pela bebida nacional. Era uma alegoria, mas foi interpretada como notícia de que o governo iria proibir a Coca-Cola na Bolívia, e como tal circulou em sites brasileiros.

O.k., houve engano. Mas as palavras do ministro indicam que a Coca-Cola continua no centro das fantasias bolivarianas do governo Evo Morales.

É curioso que a declaração do boliviano venha à luz na mesma quadra em que o novo presidente da Coreia do Norte, o jovem Kim Jong-un, surpreendeu o mundo com uma festa em que dividia as atenções com Mickey Mouse, Branca de Neve e o ursinho Puff.

O fim do calendário maia pode estar indicando que os dois países se preparam para permutar posições. Enquanto a Bolívia imbica no rumo de tornar-se uma Coreia do Norte dos Andes, a Coreia do Norte apresta-se para tomar-se, pelo menos, uma Bolívia do mar da China.

Grande Gore Vidal. O escritor americano falecido na semana passada tinha a veia dos grandes provocadores. “O grande e nunca mencionado mal no centro da nossa cultura é o monoteísmo”, defendeu, numa palestra de 1992, em Harvard.

gore-vidal

"Os grandes provocadores assacam com espantosa sem-cerimônia contra as verdades estabelecidas, e nisso Gore Vidal era um campeão"

Um “Deus do céu” está no centro das grandes religiões monoteístas. “Elas (essas religiões) são literalmente patriarcais —Deus é o pai onipotente —, daí o desprezo pela mulher por 2000 anos nos países afetados pelo Deus do céu e seus delegados machos na terra. O Deus do céu é ciumento, claro. Requer total obediência. (…) Em última análise, o totalitarismo é a única política que serve aos propósitos do Deus do céu. Qualquer movimento de natureza liberal ameaça sua autoridade e a de seus delegados na teira. Um Deus, um rei, um papa, um chefe na fábrica, um pai-líder na casa da família.”

Os grandes provocadores assacam com espantosa sem-cerimônia contra as verdades estabelecidas, e nisso Gore Vidal era um campeão. (O colunista agradece ao amigo José Roberto Whitaker Penteado por lhe ter revelado a palestra de Gore).

07/08/2012

às 16:00 \ Política & Cia

Caso Cachoeira: uma bela de uma farsa que pretendeu atingir VEJA

Andressa Mendonca, mulher Cachoeira

Andressa Mendonca, mulher do malfeitor Carlinhos Cachoeira: tentativa de chantagem que não deu certo

 

(Reportagem publicada na edição de VEJA que está nas bancas)

 

UMA BELA DE UMA FARSA

O contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, está preso desde 29 de fevereiro, acusado de liderar uma quadrilha que explorava o jogo do bicho e máquinas de caça-níquel no estado de Goiás. Seus advogados já ingressaram na Justiça com nada menos que doze pedidos para libertá-lo. Todos foram negados pelos tribunais.

A última tentativa de tirá-lo da cadeia foi uma manobra desesperada da mulher, Andressa Mendonça. Segundo o juiz Alderico Rocha Santos, responsável pelo caso, Andressa procurou-o em seu gabinete em 26 de julho. Foi atendida na presença de testemunhas até que, a certa altura, sob o pretexto de tratar-se de “assuntos íntimos”, pediu uma conversa a sós com o juiz.

A sala foi esvaziada. O juiz diz que naquele momento Andressa tentou intimidá-lo, falando da existência de um dossiê que comprometeria sua reputação. Em troca da liberdade do marido, ela impediria que o dossiê viesse a público. Pela ameaça ao juiz, Andressa foi detida e levada à Polícia Federal em Goiânia. Ela nada disse aos policiais. Pagou 100 mil reais de fiança e foi libertada.

A atitude desesperada e ilegal de Andressa foi decisiva para que o advogado Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça, abandonasse a defesa de Cachoeira. ”A relação entre cliente e advogado já não estava boa. O episódio da chantagem foi a gotad’água”, disse Bastos.

O juiz Alderico Rocha poderia ter prendido a mulher do contraventor em flagrante, mas não o fez por ter ficado em dúvida “se a conduta caracterizava crime ou não, tendo em vista que não houve oferta de pagamento”. O pedido de prisão partiu de outro juiz federal, a quem Rocha narrou o episódio.

Segundo Rocha, Andressa disse que o dossiê comprometedor seria publicado por VEJA. Trata-se de óbvia e claudicante calúnia. VEJA não faz e não publica dossiês. O departamento jurídico da Editora Abril, que edita VEJA, busca esclarecimentos sobre a farsa com vistas a processar seus responsáveis.

É a segunda vez nos últimos meses que a revista é vítima de ataques desse tipo. Obscuros parlamentares ligados aos réus do mensalão (veja matéria na pág. 74 da edição desta semana) tentaram criminalizar o trabalho de um jornalista da revista que teve Carlos Cachoeira como fonte de informação.

Os policiais federais e os procuradores que investigaram Cachoeira, porém, foram unânimes em descrever as conversas do jornalista com o contraventor como contatos legítimos entre “jornalista e fonte”.

07/08/2012

às 15:00 \ Política & Cia

Mensalão: será que os advogados que não querem depoimentos da CPI dos Correios como prova leram mesmo a Constituição?

Os ministros Luiz Fux, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e Celso de Mello durante o julgamento do mensalão (Foto: José Cruz / Agência Brasil)

Amigos do blog, como cidadão e como jornalista, estou mais do que convencido da culpabilidade dos réus do mensalão…

* por tudo que foi vi, ouvi, li e pesquisei,

* pela avalanche de informações, depoimentos e provas outras produzidas pela Comissão Parlamentar de Inquérito Mista dos Correios, em 2005, presidida pelo senador Delcídio Amaral (PT-MS) e que teve como relator o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR),
* pelo famoso discurso de Lula pedindo desculpas,
* pelo conteúdo da denúncia apresentada em 2006 pelo então procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza,
* pelo conteúdo da pesada peça acusatória levada ao Supremo Tribunal pelo atual procurador-geral, Roberto Gurgel.

Mas, claro, não sou juiz. Sou um simples cidadão, e um simples jornalista que procura expor seus pontos de vista com base em convicções pessoais.

Gostaria de ver os mensaleiros na cadeia, mas não atropelando normas do Estado de Direito. Não estamos no Irã, nem no Sudão, nem em Cuba

Gostaria, sim, que houvesse condenações – mas não sou um “torcedor” a ponto de querer que se atropelem normas do Estado de Direito para colocar pessoas que considero culpadas na cadeia, que é onde acho que deveriam estar.

O advogado Arnaldo Malheiros Filho (à esq.), defensor de Delúbio Teixeira, e o colega José Luis de Oliveira Lima, advogado de José Dirceu, no plenário do Supremo: não se pode confundir o advogado com o réu (Foto: José Cruz / Agência Brasil)

Assim sendo, estou seguindo o julgamento do mensalão tentando ser equilibrado e objetivo. Como parte disso, procuro enxergar com naturalidade o comportamento dos advogados. Eles, os advogados, cumprem um papel importantíssimo numa democracia. Sem o sagrado direito de defesa, a cargo deles, não existe democracia de verdade. Pode existir um Irã, um Sudão, uma Cuba, uma Arábia Saudita. Mas não um Estado de Direito, grande legado da civilização ocidental.

Não confundir os advogados com os réus

Não devemos, nunca, confundir o advogado com seu cliente, no caso, o réu. Não podemos transferir nossa indignação em relação aos réus para quem os defende. Trata-se de profissionais que atuam dentro da Constituição e das leis e procuram fazer o melhor para seus clientes – e alguns dos advogados dos réus do mensalão ora objeto de olhares enviezados por defenderem o que o Ministério Público Federal chamou de quadrilheiros já estiveram a serviço de pessoas perseguidas injustamente, já atuaram em incontáveis processos “bons”.

Se, no caso do mensalão, um advogado sair da linha traçada pela Constituição e pelas leis, está aí mesmo o Supremo para tomar a atitude que se requeira.

Mas, naturalmente, pode-se criticar o trabalho deles

Feitas todas as ressalvas que escrevi acima, posso, porém, criticar o trabalho dos defensores dos mensaleiros. Alguns deles já estão, por exemplo, esboçando que tratarão de mostrar que, no processo todo, não haveria prova de “atos de ofício” praticados pelos políticos envolvidos em troca do dinheiro (que supostamente se destinava a cobrir gastos de campanha). Portanto, não haveria crime de corrupção ativa, um dos mais graves de que são acusados os principais implicados.

Não concordo com isso – e, para tanto, basta ler o artigo 317 do Código Penal e seus parágrafos. Não vou explicar tudo aqui porque meu colega Reinaldo Azevedo tratou disso com enorme clareza, e recomendo a leitura de seu post a respeito.

O deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPI dos Correios: se depoimentos a uma CPI não servem para a Justiça, de que servem as CPIs? (Foto: O Globo)

Ao longo do julgamento, pelo visto, não vou concordar com muita coisa – e, sem atacar os advogados pelo que estão fazendo, porque é parte do jogo num Estado de Direito, quando isso ocorrer, estarei aqui para criticar.

Se depoimentos da CPI não valem como prova, para que serve a CPI?

Como vou criticar agora a postura de advogados do mensalão defendendo a tese de que não se podem usar os depoimentos colhidos na CPI dos Correios — a CPI onde veio à tona o mensalão — como provas. (Leiam a nota publicada no Radar On-line).

Ora, meu Deus do céu, se não se podem usar depoimentos e outras provas colhidas numa CPI do Congresso, para que serve, então, uma CPI? Para fazer barulho? Para aparecer na imprensa? Para fingir que está havendo uma investigação?

Não entendo como advogados experientes podem tentar empurrar a tese para o Supremo, diante do que diz, com absoluta clareza, a Constituição sobre o poder de investigação das CPIs e sobre o encaminhamento de suas conclusões para o Ministério Público – como ocorreu com o mensalão – para que promova a responsabilidade criminal dos infratores.

Basta reler a Constituição, na Seção VII, “Das Comissões”, do Capítulo I (“Do Congresso Nacional”), capítulo este que integra o título “Da Organização dos Poderes”. Está direitinho lá, no artigo 58, parágrafo 3º:

“§ 3º – As comissões parlamentares de inquérito, que terão poderes de investigação próprios das autoridades judiciais, além de outros previstos nos regimentos das respectivas Casas, serão criadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, em conjunto ou separadamente, mediante requerimento de um terço de seus membros, para a apuração de fato determinado e por prazo certo, sendo suas conclusões, se for o caso, encaminhadas ao Ministério Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores.

Os grifos são meus.

Se o Supremo não aceitar depoimentos da CPI como prova, será um espanto.

07/08/2012

às 13:09 \ Tema Livre

Lya Luft: Quando morre alguém que amamos

revoada

"Hoje quero falar da morte dos nossos afetos"

(Texto publicado na edição impressa de VEJA)

 

QUANDO MORRE ALGUÉM QUE AMAMOS

 

Lya Luft

Lya Luft

Hoje não vou me alongar sobre o espantoso analfabetismo brasileiro que inclui universitários, o que para mim nem foi choque nem novidade: há anos sabemos disso. E, quanto mais baixamos o nível do ensino pensando agradar aos mais simples e incluir os mais despossuídos, em lugar de lhes prestar um favor, apenas lhes oferecemos coisas piores.

Poderíamos, em lugar disso, oferecer excelentes cursos técnicos, de onde sairiam para profissões extremamente necessárias ao país, e que eventualmente pagam melhor do que muitas profissões liberais.

Hoje quero esquecer educação, deseducação, abandono, desinteresse, incompetência, mediocridade: quero falar da morte dos nossos afetos, de mais um amigo perdido. Figura inesquecível, de quem não darei o nome, pois tantos mereceriam estar aqui citados.

Quem o conheceu sabe de quem falo. Quero nele homenagear os bons afetos que nos ajudam a viver, e a crescer, especialmente aqueles que foram originais, inimitáveis como este, e que nos fazem sentir quanto nos dedicamos a bobagens, sofremos por tolices, nos desperdiçamos em futilidades (não que futilidades não sejam necessárias, ou seríamos uma manada de bois obtusos ruminando o nada).

Mas devíamos lhes reservar um espaço um pouco menor, e quem sabe o choque da morte, da doença, do drama humano, em qualquer idade e lugar, nos fizesse rever alguns conceitos, elaborar alguns valores – ainda que por poucas horas ou semanas.

Quando morre alguém que a gente ama, seja amigo, amado, alguém da família, todo o resto diminui, fica encoberto por um nevoeiro, tudo para. O mundo é pura sombra, o planeta não gira, e se gira não interessa. Estamos petrificados no choque, na dor, na inconformidade, às vezes na autocompaixão.

Conheci um viúvo que diante da mulher morta gritava: “Como é que isso foi me acontecer?”. Ele tinha sofrido esse último tipo de traição: a amante Morte sempre vence. Tanto mais quanto mais não aceitarmos, com o tempo, que aqueles que morrem apenas se transformam; enveredam por outra dimensão; vão crescer e se aperfeiçoar mais; ou se escondem, fingem-se de mortos e nos espiam lá do seu enigma, e nos cuidam, conforme a crença de cada um.

Quando foi bom o amor, os mortos pedem que a gente não os perturbe, e que viva sem muito desgosto e sem mórbido luto. Pedem que abaixemos o ruído das nossas aflições, e que, porque os amamos, seja agora com um amor que não os algeme. Se a onda natural de culpa for excessiva e tiver algum real fundamento, vamos nos agarrar desesperadamente aos mortos – não para que nos ensinem a viver de novo, mas como bandeiras escuras de isolamento e rancor.

Quando estavam de bom humor, os deuses abriram as mãos e soltaram neste mundo os oceanos e as sereias, os campos onde corre o vento, as árvores com mil vozes, as manadas, as revoadas – e, para atrapalhar, as pessoas. Que passaram a correr meio desnorteadas atrás de coisas que nem sabem direito: a mulher mais sedutora, o homem mais poderoso, ou coisa nenhuma. Tudo menos parar e pensar. Enquanto isso a Morte revira seus grandes olhos de gato, termina de palitar os dentes e prepara o bote: nós nunca estamos preparados.

Quando de bom humor, os deuses fizeram as manadas, bem como as revoadas

"Quando de bom humor, os deuses abriram as mãos e soltaram neste mundo os oceanos e as sereias, os campos onde correm os ventos (...), as manadas, as revoadas"

Nem eu que, como todos, perdi muitos afetos. Mas isso me ensinou a não acreditar demais na morte nem desistir da esperança, que rebrilha entre o cascalho bruto. A gente tem de aprender a enxergar, tem de crescer como, dizem as lendas, crescem ainda nos silenciosos túmulos os cabelos de quem se foi (mas hoje a gente é cremada, nem vermes nem longas cabeleiras).

A Morte, amiga indesejada, vai colhendo alguns dos que mais amamos, e os esconde nas suas largas mangas. Quando trabalhamos ou nos divertimos, ela passeia pelas praças, sobe nos telhados mais altos, e aponta aqui e ali seu dedo ossudo: este, este, esta, aquela. Às vezes vários num só golpe.

Ela é natural, dizem; é inevitável, sabemos. Mas a gente não entende, não aprende, não se conforma. Porque não se decifra esse enigma. Porque não somos bons alunos nessa dura escola.

 

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