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Arquivo de 5 de maio de 2012

05/05/2012

às 19:20 \ Vasto Mundo

A forte Alemanha x a Grécia aos pedaços: os dois lados (muito diferentes) da mesma moeda — o euro

Revista VejaEconomia na Europa. Athens, Greece.Repórter: Giuliano Guandalini

AS MARCAS DA CRISE GREGA -- Estima-se que 68000 lojas e pequenas empresas tenham fechado as portas na Grécia. As placas de "enoikiazetai" (aluga-se, em grego) estão por toda a parte. Mas alugar para quem? (Foto: Gilberto Tadday)

 

(Reportagem de Giuliano Guandalini, desde Atenas e Frankfurt, na edição impressa de VEJA)

Euro

DOIS LADOS DA MESMA MOEDA

 

Tanto a Grécia como a Alemanha usam o euro. Mas a diferença na capacidade competitiva explica por que um país vive uma depressão econômica e o outro prospera

Sob a perspectiva de um alemão, é difícil enxergar a crise econômica europeia.

A Alemanha, dona do maior PIB da Europa e do quarto do mundo, superou rapidamente a recessão de 2009. Em três anos, o número de pessoas sem trabalho foi reduzido em 600 000. A taxa de desemprego, de apenas 5,7% da população economicamente ativa, nunca foi tão baixa desde a reunificação, em 1990. As fábricas trabalham em três turnos para suprir a demanda mundial, acima de tudo asiática, pelos seus carros luxuosos e máquinas sem similares.

Na Grécia, o quinto ano seguido de contração do PIB

Para um grego, a crise é real, evidente, diária. Depois de catorze anos ininterruptos de economia em ascensão, bonança catapultada pela adesão ao euro, em 2001, a Grécia entrou em recessão em 2008 – e dela não saiu mais. As últimas estimativas apontam para uma queda de 5% no PIB em 2012, o quinto ano seguido de contração.

Desde 2008, o total de desempregados aumentou em 500 000 pessoas. A taxa de desemprego, de 21%, é a segunda maior da Europa, atrás apenas da taxa da Espanha. Metade dos jovens não possui trabalho (em comparação, apenas 8% dos alemães com menos de 25 anos estão desempregados, o menor porcentual da Europa). Estima-se que 68 000 pequenas e médias empresas tenham fechado as portas na Grécia. Em Atenas, as placas de enoikiazetai (aluga-se, em grego) fazem parte da paisagem urbana.

Revista VejaEconomia na Europa. Athens, Greece.Repórter: Giuliano Guandalini

Para um cidadão grego, a crise é real, evidente, diária. (Foto: Gilberto Tadday)

A Grécia e a Alemanha são os dois extremos da desigualdade crescente entre os dezessete países que utilizam o euro como moeda, a chamada zona do euro.

As economias da Áustria e da Holanda, além da alemã, sentiram um leve impacto com a desaceleração mundial. Portugueses, espanhóis e gregos, no entanto, sofrem na pele com a recessão mais profunda em pelo menos uma geração.

Falta funcionar como região econômica coesa

Como pode coexistir tamanho contraste entre países que fazem parte de um único bloco econômico e compartilham a mesma moeda?

A crise desencadeada em 2008 expôs uma realidade que havia sido encoberta durante os anos de crescimento. A zona do euro não funciona, pelo menos ainda, como uma região econômica coesa. “Precisamos de uma união fiscal que complemente a união monetária”, afirmou a VEJA o economista alemão Joerg Asmussen, diretor do Banco Central Europeu (BCE), em Frankfurt.

Mas Asmussen enfatiza o comprometimento europeu com o futuro da moeda única: “O euro nunca esteve em crise. Existe na verdade uma crise da dívida e de confiança em alguns dos países da região”.

 

Revista VejaEconomia na Europa. Frankfurt.Repórter: Giuliano Guandalini

RIQUEZA ALEMÃ -- Em Frankfurt, o centro financeiro alemão, não se vê sinal de crise e o desemprego nunca foi tão baixo: recompensa pelas reformas (Foto: Gilberto Tadday)

Nos primeiros anos do euro, houve a sensação de que todas as nações operavam como uma única economia. Uma mostra disso é a taxa de juros paga pelos países para financiar suas dívidas. Há duas décadas, quando existiam a peseta, o escudo e a dracma, os governos da Espanha, de Portugal e da Grécia pagavam juros internacionais que chegavam a ser o triplo dos desembolsados pela Alemanha.

Com o euro, praticamente da noite para o dia, espanhóis, portugueses e gregos passaram a dispor de taxas baixíssimas, idênticas às dos alemães. Se todos possuíam a mesma moeda, o risco implícito era igual, e por isso os juros deveriam ser os mesmos, dizia a lógica dos investidores.

Revista VejaEconomia na Europa. Athens, Greece.Repórter: Giuliano Guandalini

Desde 2008, o total de desempregados na Grécia foi acrescido de 500 000 pessoas (Foto: Gilberto Tadday)

Existia, no entanto, uma diferença de competitividade subjacente. O crédito farto e barato impulsionou o consumo e os investimentos, formando bolhas que mais tarde estourariam. Ao mesmo tempo, os gastos públicos também avançaram rapidamente.

Ainda que o total das despesas com políticas de bem-estar social nesses países seja inferior ao de nações mais ricas do bloco, os gastos cresceram rápido demais num curto espaço de tempo. O superaquecimento elevou o custo da mão de obra. Produzir em Portugal ou na Grécia ficou tão ou mais caro do que na Alemanha ou na Áustria, países mais produtivos.

Combinação letal

Num mundo de estabilidade, todos esses desequilíbrios passavam incólumes. Mas eles foram se avolumando. Então veio a crise. O crédito desapareceu, e os investidores começaram a ser mais restritivos. Os juros dispararam para a Grécia, Portugal e também para a Irlanda, um dos primeiros países a ir à lona.

A combinação letal de queda no crescimento e elevação no custo do financiamento tornou as dívidas públicas dessas nações impagáveis. A crise se arrasta há quatro anos.

A Espanha, depois de uma leve retomada no ano passado, entrou de novo em recessão. A Grécia, na melhor das hipóteses, só voltará a ter algum crescimento em 2013.

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A PLENO VAPOR -- "As reformas trabalhistas aumentaram a competitividade", diz Peter Schwarzenbauer, vice-presidente de vendas e marketing da Audi (Foto: Divulgação)

Vinte anos atrás, era a Alemanha a economia doente da Europa. O país lidava com o custo da reunificação, uma conta anual que oscilava, em valores atuais, entre 30 bilhões e 50 bilhões de euros. Havia 5 milhões de pessoas sem trabalho. “Os desafios posteriores à reunificação estimularam discussões sobre a necessidade de reformas estruturais para aumentar a produtividade”, diz Joachim Nagel, um dos diretores do Bundesbank, o banco central alemão.

A partir de 2003 reformasEssas reformas tiveram como objetivo, em resumo, conter o aprofundamento dos gastos no sistema de seguridade social e também dar maior flexibilidade às leis trabalhistas.

Em 2003, no governo do chanceler social-democrata Gerhard Schroeder, foi lançado um pacote chamado Agenda 2010. Os pacientes do sistema público de saúde começaram a pagar por parte de alguns serviços. As negociações salariais passaram a ser feitas diretamente entre funcionários e empregadores, e os sindicatos perderam poder.

Criou-se a possibilidade de redução dos salários, mediante diminuição das horas trabalhadas. Os impostos sobre os lucros das empresas caíram.

 

Audi Produktion Ingolstadt ? Montage A3 /Bei der Triebwerksmontage werden die Hauptbestandteile Motor, Getriebe, Antriebswelle und Radaufhaengung zusammengefuegt.Bei der Triebwerksmontage haengen die Werkzeuge griffbereit von der Decke - fuer eine schnell

Em Ingolstadt, Baviera, a fábrica da Audi trabalha em três turnos para atender à demanda internacional, principalmente dos russos e chineses. (Foto: Audi AG))

O programa de reformas reduziu os gastos das companhias. Caiu sobretudo o custo final da mão de obra, em um período em que a despesa com funcionários aumentava continuamente na maior parte da Europa. A Alemanha, mais competitiva, passou a amealhar bilhões e bilhões de euros em superávits comerciais. Isso, mesmo lidando com uma moeda forte como o euro. “Foram ajustes difíceis de fazer, houve forte reação”, afirma Nagel. Schroeder, inclusive, perdeu o cargo em 2005, dando espaço a Angela Merkel. “Mas estamos nos beneficiando hoje das reformas estruturais feitas há dez anos.

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ADAPTAÇÃO À RECESSÃO -- "Contamos agora com o aumento das exportações para manter os nossos funcionários", afirma Athanase Lavidas, presidente do laboratório farmacêutico grego Lavipharm (Foto: Gilberto Tadday)

É surpreendente, até mesmo para nós, como a economia alemã tem se comportado bem”, conclui Nagel. O país dispõe ainda de vantagens históricas, entre elas a sua liderança na engenharia de máquinas e a sua infraestrutura logística, com poucos paralelos no mundo.

O modelo alemão, contudo, reconhecem os próprios alemães, está longe de ser perfeito. Há regulações excessivas em diversas atividades. As novas leis trabalhistas, de acordo com alguns economistas, ampliaram as desigualdades salariais. Por fim, a austeridade e o excesso de poupança fazem com que os alemães desfrutem um padrão de vida inferior ao de outras nações ricas.

Não resta dúvida, porém, sobre seu poder econômico, mesmo em meio à crise continental.

 

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Os cortes dos gastos na saúde pública derrubaram as vendas internas do laboratório Lavipharm. (Foto: Gilberto Tadday)

Grécia: desperdício e descontrole

As dificuldades gregas, em contraponto, resultam da completa falta de austeridade e competitividade. “Tivemos uma bolha no setor público”, resume Constantine Papadopoulos, secretário grego para Relações Econômicas Internacionais. “Existia muito desperdício nos gastos do governo.”

Uma amostra desse descontrole ficou evidenciada na semana passada. O governo anunciou os resultados de uma auditoria no sistema previdenciário e descobriu que 200 000 pessoas não deveriam estar recebendo benefícios – ou porque não tinham direito a eles ou porque estavam mortas fazia algum tempo.

O PESO DO ARROCHO O professor de economia social Savas Robolis, da Universidade Panteion, em Atenas, é um exemplo típico de funcionário público atingido pelas medidas de austeridade. Seu salário foi reduzido em 22%. "Não há dúvida de que precisamos fazer reformas para permanecer no euro. Mas não vejo como conseguiremos pagar a dívida pública apenas com medidas de austeridade e sem incentivos ao crescimento", afirma Robolis (Foto: Giuliano Guandalini)

O PESO DO ARROCHO -- O professor de economia social Savas Robolis, da Universidade Panteion, em Atenas, é um exemplo típico de funcionário público atingido pelas medidas de austeridade. Seu salário foi reduzido em 22%. "Não há dúvida de que precisamos fazer reformas para permanecer no euro. Mas não vejo como conseguiremos pagar a dívida pública apenas com medidas de austeridade e sem incentivos ao crescimento", afirma (Foto: Gilberto Tadday)

Milhares de funcionários públicos foram dispensados, e os salários dos servidores, reduzidos em mais de 20%, assim como as aposentadorias. São ajustes tidos como inevitáveis, mas de impacto recessivo a curto prazo.

Driblando o Fisco

O país possui também um problema histórico de sonegação.

Nas lojas e restaurantes, é comum os vendedores e garçons dizerem que a máquina de cartão de crédito não está funcionando. Trata-se de uma desculpa para receber em dinheiro vivo, e assim driblar o Fisco.

“Se a nossa arrecadação fosse similar à dos demais países europeus, o déficit público deixaria de ser problema”, diz Loukas Tsoukalis, presidente da Fundação Helênica para Políticas Europeias.

 

DEFESA DA AUSTERIDADE Joachim Nagel, diretor do Bundesbank, o banco central alemão, respalda a política de austeridade monetária: "A Alemanha vive sob a influência da experiência de hiperinflação, na década de 20 e no pós-II Guerra. A inflação baixa estimula os investimentos (Foto: Giuliano Guandalini)

DEFESA DA AUSTERIDADE -- Joachim Nagel, diretor do Bundesbank, o banco central alemão, respalda a política de austeridade monetária: "A Alemanha vive sob a influência da experiência de hiperinflação, na década de 20 e no pós-II Guerra. A inflação baixa estimula os investimentos" (Foto: Gilberto Tadday)

Apesar das dificuldades, os gregos permanecem comprometidos com as reformas. Essa disposição terá de ser mantida pelo governo a ser eleito nas próximas eleições, amanhã, 6 de maio.

“Optamos pelo caminho mais difícil que, no fim, será mais produtivo”

O problema é que as reformas demoram a surtir efeito. Além disso, mesmo depois da renegociação da dívida (o maior calote da história, de 206 bilhões de euros), o endividamento público permanece acima de 160% do PIB, o triplo do considerado saudável.

Na prática, a dívida não mudou de tamanho. Os gregos deixaram de dever aos investidores privados e passaram a dever ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e aos outros países europeus, ainda que em termos mais favoráveis. Mas a maioria absoluta da população (70% dos eleitores) apoia a permanência na zona do euro. ”

É ilusório imaginar que uma desvalorização cambial aumentaria a nossa competitividade, como afirmam alguns”, diz Constantine Papadopoulos. “A desvalorização cambial não passaria de um truque. Não haveria incentivo para fazermos as reformas necessárias. Optamos pelo caminho mais difícil. Acredito que, no fim, será mais produtivo.”

(LEIA NA CONTINUAÇÃO ENTREVISTA COM DIRETOR DO BANCO CENTRAL EUROPEU)

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05/05/2012

às 19:03 \ Livros & Filmes

Livro terrível, mas indispensável: a não-vida do norte-coreano que nasceu num campo de concentração e, até os 23 anos, nem sabia que existia um mundo lá fora

SOFRIMENTO E CULPA um de seus desenhos sobre a vida do Campo 14: passados seis anos, a vergonha de tudo o que fez para sobreviver persiste de forma debilitante

SOFRIMENTO E CULPA -- Um dos desenhos de Shin sobre a vida no campo de concentração: passados seis anos, a vergonha de tudo o que fez para sobreviver persiste de forma debilitante

Fuga do Campo 14

A NÃO VIDA

 

A história do norte-coreano que aos 23 anos conseguiu fugir do tenebroso campo de concentração onde nascera

 

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"Fuga do Campo 14"

Shin Dong-hyuk tinha 23 anos quando transpôs pela primeira vez os limites do Campo 14. Nascera lá, no “campo de categoria controle total”. Comera, em quase todas as refeições da vida – as que não lhe foram suprimidas -, mingau ralo de milho e sopa de repolho.

A única carne que conhecia era a de rato: tornou-se exímio caçador dos roedores que infestavam o local, onde nem latrinas havia. Como as outras crianças, às vezes procurava grãos de milho dentro das fezes de animais. Vestiu sempre trapos.

Obedecia em tudo aos guardas. Delatou não apenas colegas de escola e, mais tarde, de trabalho, pelas mais insignificantes transgressões, como também denunciou, aos 13 anos, a mãe e o irmão mais velho, que entreouviu planejando uma fuga.

Ele próprio foi torturado – pendurado sobre uma fogueira e queimado – e ficou meses numa cela subterrânea. A mãe e o irmão foram executados. Shin teve de assistir da primeira fila. Nunca ocorreu a ele que esse não era o curso normal de uma vida.

Dentro do Campo 14, ignorava haver China, Estados Unidos e até Pyongyang, a capital norte-coreana, de onde um dos regimes mais brutais de que se tem notícia na história ordena o encarceramento de centenas de milhares de prisioneiros nesses campos de concentração pavorosos cuja existência nega.

Aos 23 anos, Shin passou quatro semanas trabalhando junto com Park, um prisioneiro mais velho e instruído, que viera “de fora”. Aí, tudo mudou: ele começou a desejar desesperadamente sair dali. Não para alcançar a liberdade, mas para provar carne de porco.

Numa aventura cujos detalhes nem a ficção mais melodramática seria capaz de conceber, conseguiu. É o único indivíduo de que se tem notícia a tê-lo feito. (Outros escaparam, mas de campos menos controlados, e mediante suborno.)

É essa a vida inacreditável que o jornalista americano Blaine Harden narra em Fuga do Campo 14 (tradução de Maria Luiza X. de A. Borges; Intrínseca; 232 páginas; 24,90 reais, ou 14,90 em e-book).

Shin Dong-hyuk

Shin Dong-hyuk

Que Shin tenha se maravilhado com o que julgou ser a fartura e a liberdade da província chinesa na qual primeiro se refugiou após cruzar a fronteira (na verdade, uma das mais pobres do país), dá uma pequena ideia das privações que suportou no campo.

Harden, que foi correspondente do jornal The Washington Post, coloca sempre em contexto essa penúria e essa opressão bárbara: em maior ou menor medida, todos os norte-coreanos as suportam.

Shin, hoje, vive entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos, mas continua sem se encontrar. Como a maioria esmagadora dos refugiados da Coreia do Norte, tem dificuldade em confiar nas pessoas, em achar um rumo e em entender um mundo que lhe parece situado em outra galáxia.

É ainda atormentado por uma culpa e uma vergonha debilitantes, pelo que fez para sobreviver e, talvez, por ter sobrevivido. Mais de duas décadas depois de o bloco comunista ter ruído, como pode a tirania norte-coreana persistir?

À custa de uma repressão e um medo que nem nos gulags soviéticos encontrariam paralelo, é o que demonstra Harden.

(Resenha de Isabela Boscov publicada na edição impressa de VEJA

05/05/2012

às 16:04 \ Livros & Filmes

Livro: filósofo ataca o politicamente correto e diz que “o mundo virou um grande churrasco na laje”

com ácido e rigor Pondé: dominado pelos pobres de espírito, o mundo hoje virou um grande churrasco na laje

COM ÁCIDO E RIGOR -- Pondé: crítica ferina a um mondo dominado pelos pobres de espírito, ainda que tenham dinheiro (Foto: Luiz Maximiano)

 E NÃO ADIANTA XINGAR

Podem-se prever vitupérios ressentidos contra a crítica devastadora que Luiz Felipe Pondé faz da cultura “politicamente correta”. Bem mais difícil será responder a ela

Capa: Guia Politicamente Incorreto da Filosofia

Capa: Guia Politicamente Incorreto da Filosofia

“O mundo virou um churrasco na laje.” A blague aparece como subtítulo do capítulo intitulado Viajar Jamais, diatribe contra a devastação cultural promovida pelas “hordas de turistas” que invadem catedrais com suas câmeras. A referência a um hábito festivo comum dos subúrbios brasileiros vai eriçar aquelas almas sensíveis que costumam oferecer sua abstrata solidariedade aos oprimidos.

Podem-se prever os xingamentos que se erguerão contra o autor: “elitista, conservador”. Professor da Faap e da PUC de São Paulo, filósofo com formação nas universidades de Paris e de Tel-Aviv, Luiz Felipe Pondé é talvez o mais sardônico crítico dos clichês da intelectualidade esquerdista contemporânea.

Para esclarecer que sua referência nada lisonjeira a hábitos suburbanos não se deve confundir com discriminação social, ele atiça ainda mais os ânimos: diz que se refere apenas aos “pobres de espírito”, porque “você pode ter dinheiro e ainda assim ter espírito de churrasco na laje” (já se ouve a grita: “preconceituoso, direitista”).

Um dos prazeres de seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Leya; 224 páginas; 39,90 reais) está nesta verve ácida, despida do jargão que se costuma ouvir dos filósofos, digamos, profissionais.

Mas não se confunda estilo claro e direto com leviandade. Enquanto seus inimigos vociferam adjetivos cada vez mais esvaziados de sentido (“reacionário, fascista”), Pondé constrói seus argumentos com rigor.

O título pode sugerir uma revisão da história da filosofia pautada pela “incorreção”. Mas, na verdade, este é um devastador exame filosófico do próprio politicamente correto, de suas origens e vícios. Pondé recorre a um eclético elenco de filósofos — Maquiavel, Burke, Hume, Nietzsche — para desmontar as ilusões queridas da tribo PC.

Também busca instrumentos fora da tradição filosófica, em escritores como Nelson Rodrigues e Philip Roth e até na teoria evolucionista de Charles Darwin (o que desconcertará os inimigos que tentam grudar em Pondé, conhecedor profundo do pensamento religioso, a pecha de carola).

O Guia denuncia a vacuidade conceitual do receituário PC, contestando, por exemplo, a noção romântica de que índios são moralmente superiores aos civilizados, ou o contrassenso segundo o qual as diferenças entre homens e mulheres são “construções sociais” sem base biológica.

Mas, sobretudo, este é um ataque moral à santimônia hipócrita da correção política, à falsidade de todos que se julgam paladinos da justiça social. Poderia ser um convite à autocrítica, se esta fosse possível ao politicamente correto. Seus cultores preferem sempre vituperar contra a inteligência.

(Publicado em VEJA de 25 de abril de 2012, por Jerônimo Teixeira)

05/05/2012

às 15:05 \ Disseram

O que vem primeiro, o público ou o privado?

“Cabral afundou-se numa dupla contradição. Se a viagem era oficial, o que fazia o empreiteiro na farra? Se as relações eram pessoais, o que faziam secretários na farra?”

César Maia, ex-prefeito do Rio a respeito das festivas e muito, muito animadas fotos do governador Sérgio Cabral e seus secretários com Fernando Cavendish, da Delta Construções, em Paris

05/05/2012

às 14:02 \ Tema Livre

Fotos: ousados, geniais, loucos, feios ou bonitos. Confira 18 projetos incríveis bolados por arquitetos — e que se tornaram realidade

Projetos arquitetônicos traduzem necessidades dos espaços urbanos e refletem, ou devem refletir, a cultura e os anseios da sociedade onde se materializam. Geralmente integram-se à paisagem urbana, criando harmonia e não raro passando despercebidos pelos transeuntes.

Contudo, é grande pelo mundo afora o número de obras que se destacam por sua ousadia e design – muitas vezes pela complexidade, em outras pela genialidade de ser simples.

Vejam as fotos:

 

museu-niemeyer-curitiba

O Museu Oscar Niemeyer, ou popularmente Museu do Olho, em Curitiba, é uma das belas obras do grande arquiteto. Inaugurado em 2002, é um dos maiores complexos de exposição do Brasil. Os dois prédios interligados abrigam diversos ambientes, incluindo auditório, café, loja e espaços de lazer e eventos.

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Diz a lenda que WonderWorks foi construída no Triângulo das Bermudas, sendo originalmente um laboratório ultrassecreto, mas uma experiência mal-sucedida lançou o edifício, com todas as suas invenções maravilhosas, até Pigeon Forge, no Tennessee, EUA. Tudo por lá está de cabeça para baixo, e oferece aos seus visitantes mais de 100 atrações maluco-científicas

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teatro-nacional-china

O Centro Nacional de Artes Cênicas de Pequim, na China, é todo em titânio e vidro. A obra do arquiteto Paul Andreu tem três imensas salas em quase 12 mil metros quadrados, cercados por um lago artificial

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O Shopping Center Bull Ring - ou Praça de Touros -, em Birmingham, Inglaterra, é um importante complexo comercial, que recebe cerca de 36,5 milhões de visitantes por ano. A arquitetura é assinada pela Benoy, empresa de arquitetura originalmente de Londres e hoje espalhada por vários países

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predio-apartamento-espanha

O Edifício Mirador, em Madri, Espanha, obra do escritório MVRDV e do arquiteto Blanca Lleó, possui mais de 23.000 metros quadrados construídos, com sua forma de peças de brinquedo Lego encaixadas, abriga 165 apartamentos

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predio-apartamento-canada

O Conjunto Habitat 67, do arquiteto Moshe Safdie, foi construído para o Expo 67, uma feira internacional com o tema "O Homem e seu Mundo" em Montreal, Canadá. A construção, formada de blocos em concreto pré-moldado, empilhados uns sobre os outros até uma altura de 12 andares, conta com 158 apartamentos, cada um com seu próprio jardim privativo, que durante o evento, em 1967, abrigou funcionários e visitantes

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museu-na-austria

O Kunsthaus Graz, ou Museu de Arte Contemporânea, atração moderna na milenar cidade de Graz, na Áustria, é um projeto do arquiteto inglês Peter Cook

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O Museu de Arte de Denver, no Estado norte-americano do Colorado, é um colosso em aço, concreto e titânio em formas angulosas. Custou 75 milhões de dólares. Neste projeto do arquiteto Daniel Libeskind foram usados 11.086 metros cúbicos de de cimento e 2.700 toneladas de aço, além de 3.100 feixes de titânio. Seu pé direito mede 11,2 metros.

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Demolida em 2009, essa chegou a ser a maior casa de madeira do mundo, com 13 andares e 44 metros de altura. Ficava em Arkhangelsk, na Rússia

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jardim-botanico-cornualia-inglaterra

O Projeto Eden, jardim botânico localizado na Cornuália, Inglaterra, possui a maior estufa do mundo, e recebe sementes e mudas de todos os cantos do planeta. O complexo arquitetônico é assinado por Tim Smit e Nicholas Grimshaw

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Obra do arquiteto Guðjón Samuelsson, a Igreja Luterana de Hallgrimskirkja, em Reykjavik, na Islândia, levou 38 anos para ser construída (1945-1986). Com 74,5 metros, é o edifício mais alto do país

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Sede da Universidade de Música na província An Hui, na China, a Piano House foi construída em forma de piano e violino. O violino de vidro abriga uma escada para o prédio-piano.O edifício foi projetado por alunos de arquitetura da Universidade de Tecnologia Hefei, capital da província, e pela empresa Huainan Fangkai Decoration Project Co.

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Casa de pedra localizada na Serra da Fé, em Portugal, constituída da a união de duas enormes rochas por meio de tijolos, massa e pedregulhos. São dois andares, com 6 cômodos pequenos.

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A Casa Batlló, uma peça-chave na arquitetura da Barcelona modernista, foi construída entre 1904 e 1906 sob as ordens do genial arquiteto Antoni Gaudí por encomenda do industrial têxtil Josep Batlló. Hoje uma casa-museu, sua espetacular fachada é um ícone de referência da cidade

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bibiliobeta-publica-kansas-city-eua

O prédio da Biblioteca Pública de Kansas City, no Estado norte-americano de Missouri, foi inaugurado em 2004 e custou 50 milhões de dólares. A fachada é composta por uma imitação de 22 lombadas gigantes de livros, que medem 7,5m de altura por 2,70m de largura, representando títulos significativos de diferentes áreas da literatura

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Obra do arquiteto Peter Vetsch, a Earth House, na Suiça, se compõe de residências construídas dentro da terra. Totalmente ecológica, seus banheiros recebem luz natural e o telhado possui uma camada protetora de terra, que pode ser aproveitada para o cultivo de ervas ou plantas

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Le Palais Idéal (o Palácio Ideal), em Hauterives, no sudeste da França, demorou 20 anos para ser construído. É uma mistura de diversos estilos, obra do arquiteto Ferdinand Cheval, que se inspirou em uma pedra no caminho. As pedras foram ligadas com cimento, cal e areia

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O MAC, Museu de Arte Contemporânea, localizado em Niterói, Rio de Janeiro, é assinado por Niemeyer. Ocupa uma área de 2.500 metros quadrados, com seus 10 pavimentos, que consumiram 3,2 milhões de metros cúbicos de concreto

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05/05/2012

às 12:02 \ Música no Blog

Maceo Parker, Fred Wesley e Pee Wee Ellis, que vêm ao Brasil em junho: o naipe de metais mais concorrido do planeta

Maceo-Fred-Pee-Wee

A partir da esquerda: Fred Wesley, Maceo Parker e Pee Wee Ellis (Foto: Chester Higgins Jr - New York Times)

 

Por Daniel Setti

Mesmo que os nomes do saxofonista alto Maceo Parker, 69, o trombonista Fred Wesley, 68, e o saxofonista tenor Alfred “Pee Wee” Ellis, 72, não lhe resultem familiares, você provavelmente já dançou alguma canção gravada por eles.

Ativos desde os anos 1960, os três músicos americanos atuaram, juntos ou separadamente, em centenas de compactos e álbuns de incontáveis artistas, com destaque para os pertencentes à fina flor do soul e do funk.

Ganharam fama, porém, quando se tornaram frequentes colaboradores do maior ícone funqueiro, James Brown (1933-2006), ajudando-lhe a moldar o peculiaríssimo estilo do mítico cantor e coincidindo em alguns de seus registros históricos, como o álbum Sex Machine (1970), e lançaram discos individuais.

Pois a versão mais concorrida dos J.B. Horns, como ficou conhecido o grupo de músicos de sopro que acompanhou Brown em seus melhores anos (segunda metade dos anos 1960 até começo da década seguinte), será uma das atrações do festival BMW Jazz, que ocorre entre 8 e 10 de junho no Via Funchal e no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e entre 11 e 13 do mesmo mês no Teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro.

O show paulista de Parker, Wesley e Ellis ocorre no sábado, dia 9, às 20h30 no Parque do Ibirapuera, enquanto os cariocas assistem ao trio no Teatro Oi Casa Grande na terça-feira a partir das 21 horas. Imperdível, como mostra o vídeo abaixo, extraído de concerto dos três realizado em 1993 em Lugano, Itália, com o trio tocando a clássica “Cold Sweat”, de Pee Wee Ellis e James Brown. Os solos são de Maceo e Fred.

(Mais sobre música neste link)

05/05/2012

às 11:13 \ Disseram

‘Orlando, brasileiro não gosta de índios’

“Como estamos ainda sob o impacto da aprovação deste Código Florestal vergonhoso ou do desastre que é Belo Monte, achei que, por falar sobre este modelo de desenvolvimento, o filme tocaria a sociedade como um todo. Eu me enganei. Talvez a frase do Jânio para o Orlando Villas Bôas, no filme, explique isso. Ele diz: ‘Orlando, brasileiro não gosta de índios’.”

Fernando Meirelles, produtor de Xingu, desgostoso com o fracasso de bilheteria do filme dirigido por Cao Hamburger

05/05/2012

às 10:05 \ Disseram

Nathalia Dill: reprovada no sexo oral

“Fazer é muito diferente de ver. A gente, quando está fazendo, está pensando em outras questões. Quando você vê, é muito mais impactante. Ver é mais difícil.”

Nathalia Dill, atriz do filme Paraísos Artificiais, tentando explicar por que o sexo feito é diferente do sexo visto

 

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