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Arquivo de 7 de março de 2012

07/03/2012

às 18:41 \ Tema Livre

Vídeo: órfão e vítima da guerra do Iraque emociona com sua história e voz em reality show

Emmanuel Kelly, com seu irmão e a mãe adotiva

Emmanuel Kelly (centro), com seu irmão Ahmad e a mãe adotiva, Moira

Preparem-se, porque o vídeo é realmente comovedor: jovem iraquiano naturalizado cidadão australiano, vítima da guerra — que o deixou mutilado — participa de reality show (X Factor, uma espécie de American Idol) na Austrália, e encanta com sua voz e sua história.

E cantando Imagine, de John Lennon.

O novo fenômeno de popularidade, Emmanuel Kelly, nasceu no Iraque e, ainda bebê, sem documento algum, foi encontrado por freiras ocidentais junto com o irmão, Ahmed Mustafa, em uma zona de guerra após a invasão anglo-americana do país, em 2002.

Ambos apresentavam graves deficiências físicas — Ahmed Mustafa sofreu amputação em parte dos quatro membros, Emmanuel perdeu parte dos dois braços e uma perna,  — e foram criados numa instituição católica durante parte da sua infância até serem adotados por Moira Kelly, professora australiana militante de causas humanitárias e dirigente da fundação de apoio a crianças órfãs Children First (crianças, primeiro).

Apesar de ter sido eliminado do reality show por ter-se esquecido de parte da canção que apresentava, Emmanuel tornou-se popular na Austrália e um fenômeno na internet em todo o mundo, tendo um de seus vídeos mais de 9 milhões de acessos.

Assista ao vídeo, está legendado em português.

07/03/2012

às 17:50 \ Política & Cia

Perguntar não ofende: Gabriel Chalita e o aborto

Gabriel Chalita, pré-candidato a prefeito de São Paulo: "Reduzir a eleição a uma discussão sobre o aborto é muito pobre", diz -- depois de dissertar, justamente, sobre aborto (Foto: VEJA)

Perguntar não ofende: prefeito tem algum poder de decisão sobre liberalizar ou não liberalizar a prática do aborto?

Não, é claro.

Prefeito, sobretudo de uma cidade gigantesca como São Paulo, precisa se preocupar com transporte coletivo, com escolas, com o trânsito, com a manutenção e o cuidado das vias e praças públicas, com a questão ambiental, com mil outros assuntos complexos e já difíceis o suficiente.

Por que raios, então, o pré-candidato a prefeito da capital paulista pelo PMDB, o deputado federal, professor e autor de açucarados livros de autoajuda Gabriel Chalita insiste em falar no assunto?

Chalita, católico praticante, na campanha presidencial de 2010, quando fazia parte do PSB — partido pelo qual deixara o PSDB, e que também já abandonou –, deu uma forcinha à candidata de Lula para ajudar na “blindagem” da atual presidente contra ataques em razão de declarações anteriores que fizera sobre o aborto no contexto dos direitos da mulher.

Vá lá, na campanha presidencial, sobretudo para políticos ambiciosos, vale praticamente tudo.

Mas para que diabos trazer o tema aborto para a disputa pela… Prefeitura de São Paulo?

E não é que Chalita tenha sido provocado para isso. Falou no assunto espontaneamente, em aula magna proferida na Faculdade de Direito do Instituto Presbiteriano Mackenzie, onde é professor.

Curiosamente, depois de tocar no tema porque quis, o deputado declarou: “Reduzir a eleição presidencial à discussão sobre aborto é muito pobre. A mesma coisa vale para a Prefeitura”.

07/03/2012

às 16:47 \ Vasto Mundo

Luiz Cláudio Cunha: Uruguai reabre na Justiça caso do sequestro de Lilian e Universindo

Oswaldo Pires e Manoel Bezerra, advogados, com Pedro Seelig, Jo„o Augusto Rosa e Orandir Lucas, policiais de participaram do sequestro dos exilados uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Dias

Amigos, compartilho com vocês matéria do excelente jornalista e querido amigo Luiz Cláudio Cunha, publicada no site Sul 21.

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Uruguai reabre na Justiça caso do sequestro de Lilian e Universindo

 

Testemunha brasileira vai depor em Montevidéu

 

No crepúsculo de fevereiro, alvorecer de 2012, a Justiça uruguaia aceitou enfim reabrir o caso dos uruguaios Universindo Rodríguez Díaz e Lílian Celiberti, sequestrados em novembro de 1978 em Porto Alegre, numa ação combinada de policiais do DOPS gaúcho e militares do Exército de Montevidéu. Agiam clandestinamente em território brasileiro no âmbito da ‘Operação Condor’, que caçava opositores das ditaduras do Cone Sul nos turbulentos anos 70 do século passado.

Universindo e Lilian, detida com seus dois filhos – Camilo (8 anos) e Francesca (3) -, foram torturados na sede do DOPS em Porto Alegre e nos quartéis de Montevidéu. Ficaram cinco anos presos, sob a falsa acusação de “invadir o país com armas e material subversivo”. Libertados em 1983, dois anos antes da queda da ditadura uruguaia, foram os primeiros presos políticos a denunciar na Justiça o regime de força, já em 1984, quando os militares ainda mantinham o poder.

Nenhum dos militares citados compareceu na época ao tribunal do Juzgado Penal de 7º Turno.

O chefe do comando uruguaio em solo gaúcho, capitão Eduardo Ferro, teve a sua intimação judicial jogada no fundo do cofre do então comandante do Exército da ditadura, general Hugo Medina. E o caso morreu ali.

Até que, em julho passado, o presidente José Mujica, um ex-guerrilheiro Tupamaro preso e torturado pelo regime militar à época, mandou um decreto à Suprema Corte revogando todos os atos administrativos que impediam o julgamento de violações aos direitos humanos pela caduca ‘Ley de Caducidad’, que os militares se concederam como garantia de impunidade. Mais de 80 casos de lesa-humanidade foram então ressuscitados, entre eles o dos sequestrados em Porto Alegre.

Durante meses, realizou-se uma garimpagem nos arquivos da Justiça para resgatar o processo ‘desaparecido’ pelo regime militar.

Reencontrado, enfim, Lilian Celiberti compareceu na terça-feira, 28 de fevereiro, ao Juizado da calle Misiones, na Ciudad Vieja de Montevidéu, onde se concentram os casos contra a ditadura, e formalizou a denúncia, aceita pela juíza Mariana Motta.

Foi ela a dura magistrada que, em fevereiro de 2011, condenou o ex-presidente Juan María Bordaberry a 30 anos de prisão por liderar o golpe de Estado de 1973 que dissolveu o Parlamento e a centenária democracia do país, também responsabilizado diretamente por 14 assassinatos e desaparecimentos forçados durante a ditadura. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

07/03/2012

às 16:00 \ Política & Cia

Ótima notícia: Senado está acabando com a farra dos suplentes-parentes. E Sarney é co-responsável pela mudança

Senadores Luiz Henrique (ao microfone) e Francisco Dornelles (à esquerda) na sessão de hoje da Comissão de Justiça: fim da imoralidade dos suplentes é parte da reforma política. Na foto, aparece também a senadora Marta Suplicy (Foto: Agência Senado)

Amigos, tanto se fala mal do Congresso que, quando lá se tomam medidas positivas, é obrigação do jornalista apontá-las.

Idem em relação aos políticos, o que inclui, naturalmente, o presidente do Congresso e do Senado, senador José Sarney (PMDB-AP), tantas vezes criticado neste blog.

Pois bem, por iniciativa dele mesmo, Sarney, e do senador Francisco Dornelles (PP-RJ), a que se juntaram em seguida duas dezenas de senadores, está em andamento no Senado um projeto de emenda constitucional, a PEC 37/2011, de alto interesse, e que deverá acabar com a atual imoral farra dos suplentes de senador.

A proposta foi apresentada em junho do ano passado e já aprovada pela principal comissão da Casa, a de Constituição, Justiça e Cidadania.

Acaba com a pouca vergonha do suplente-parente — e mais

Ela prevê providências interessantes, saneadoras e moralizadoras:

1. Acaba com a existência de dois suplentes.

2. Proíbe que o suplente — a partir da aprovação da lei, o único — “seja cônjuge, parente consanguíneo ou afim, até o segundo grau ou por adoção do titular”.

3. Em caso de morte do titular, o suplente assumirá temporariamente, sendo a vaga preenchida na eleição seguinte — seja ela municipal, estadual ou federal.

Como se vê, é um projeto que resolve um dos problemas sérios de legitimidade dos eleitos — e é um pedaço a mais de reforma política que está se realizando.

Acaba a pouca vergonha de pais, irmãos, filhos, esposas e tios de senadores serem seus próprios suplentes. Acaba com a bionicidade inconcebível do segundo suplente — que em vários casos em passado recente assumiu o cargo do titular sem que fosse conhecido por um único e escasso eleitor. Acaba com a eternização do senador sem votos — há casos, como o de ex-senador Gilberto Miranda, do Amazonas, que , com a eleição do então senador Amazonino Mendes para a Prefeitura de Manaus antes de completar dois anos de mandato, assumiu o cargo em 1993 e permaneceu no Senado até 1999.

A proposta foi reexaminada hoje pela Comissão de Justiça porque recebeu duas emendas do plenário, rejeitadas pelo relator, senador Luiz Henrique (PMDB-SC).

O plenário deve votar a emenda, e possivelmente aprová-la, na sessão do próximo dia 21. O passo seguinte é seu envio para a Câmara dos Deputados, onde não existe resistência às mudanças propostas.

 

07/03/2012

às 14:53 \ Política & Cia

Demóstenes Torres sobre sua amizade com Carlinhos Cachoeira, revelada por gravações telefônicas: “Isso não vai me intimidar, não! Não fiz nada errado, entro no Senado de cabeça erguida e continuarei a dizer o que acho que tem que ser dito”

Demóstenes: "Se alguém acha que vai me intimidar, pode tirar o cavalo da chuva" (Foto: Pedro França / Agência Senado)

Amigos do blog, publiquei no blog reportagem de VEJA mostrando que, no curso de investigações sobre jogos de azar em Goiás, escutas com autorização judicial revelaram contatos de envolvidos com autoridades e políticos. O lote inclui centenas de telefonemas trocados entre o empresário Carlos Augusto Ramos — que acaba de ser condenado a dez anos de cadeia pela Justiça do Rio por corrupção ativa e fraude em licitação — e um dos principais políticos da oposição, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), líder de seu partido no Senado.

(Leia texto “O senador Demóstenes Torres e uma amizade potencialmente explosiva”).

Meu colega blogueiro e amigo Reinaldo Azevedo entrevistou Demóstenes a respeito, e, até por uma questão de equidade para com o senador, tomo a liberdade de republicar aqui o resultado.

A íntegra do post do Reinaldo você pode ler aqui.

A entrevista, propriamente dita, é a seguinte:

O senhor é um dos mais severos críticos dos desmandos do petismo. Não pega mal para alguém com esse perfil ser flagrado conversando com Carlinhos Cachoeira?

A sua pergunta demonstra que estão querendo politizar essa história pra me atingir.

Fui, sou e serei crítico enquanto a linha deles for a que está aí.

Se alguém está achando que vai me intimidar com isso, pode tirar o cavalo da chuva. Em segundo lugar, Reinaldo, eu não fui flagrado coisa nenhuma! Flagrado é aquele que é pego fazendo coisa errada. O que é que eles têm? Telefonemas entre mim e Cachoeira? Eles provam o quê?

 

Eles provam o quê, senador?

Provam que eu, como a esmagadora maioria dos políticos de cinco Estados, conforme a imprensa divulgou, conversava com ele. Pouca gente sabe fora de Goiás, mas ele é um empresário de sucesso na região, com trânsito na sociedade local, e numa atividade que nada tem a ver com caça-níqueis. Ele é dono de um laboratório de remédios bem-sucedido. Circula na sociedade. Todo mundo — de todos os partidos — fala com ele e com os demais empresários.

 

O senhor já foi secretário de Segurança de Goiás, entre 1999 e 2002. Não é impróprio alguém nessa posição ter amizade com um contraventor?

Uma lei votada na década de 1990 em Goiás legalizou esse tipo de atividade no estado. E foi legal até 2007, quando o Supremo Tribunal Federal decretou a inconstitucionalidade das leis estaduais que cuidavam do assunto, por entender que essa atribuição é de competência da União.

Então, no tempo em que fui secretário de Segurança, também as Leis Zico e Pelé autorizavam a exploração de alguns jogos no Brasil, inclusive de caça-níqueis e bingos. Portanto, a lei estadual goiana, feita com base nas Leis Zico e Pelé, foi aprovada bem antes de eu assumir a secretaria e declarada inconstitucional depois do escândalo Waldomiro, quando eu já era senador, como todos sabem.

 

O senhor acha que a imprensa erra ao noticiar?

Eu não! Quem quer censurar são setores da esquerda, não eu. A imprensa que faça o seu trabalho. Se vazaram pra ela, tem de noticiar. Vai fazer com a informação o quê? Estou falando outra coisa. Estou falando sobre vazamento seletivo. É um estranho vazamento. Cadê o conteúdo das conversas?

 

O senhor recebeu de Cachoeira uma cozinha de presente de casamento, não?

A mulher dele, que é amiga da minha esposa, nos deu uma geladeira e um fogão como presentes de casamento. Essa é a grande acusação? Acho bom lembrar o que já fizeram com Alceni Guerra [deputado pelo Paraná, ministro da Saúde do presidente Fernando Collor entre 1990 e 1992 e acusado de envolvimento num escândalo de superfaturamento na compra de bicicletas para agentes de saúde em todo o país, do qual se revelou inocente], que foi esmagado por causa das tais bicicletas, e era tudo uma grande farsa.

 

Mas que tanto o senhor tinha para falar com Cachoeira?

Nós nos conhecemos, sim. Nossas respectivas mulheres, como eu já disse, são amigas. É normal amigos conversarem, sobre assuntos pessoais, e não há problema algum em conversar ao telefone.

E quem me grampeou sabe que converso ao telefone o dia inteiro e atendo a todos que me ligam, das mais altas autoridades às pessoas mais simples. Há muita coisa da vida pessoal de um círculo de pessoas, intimidades, conversa do dia-a-dia.

Nada escabroso, não! Mas também não são coisas que digam respeito nem à vida pública nem ao dinheiro público.

 

Mas existe uma acusação?

É claro que não! E, se existisse, eu seria o primeiro a exigir a completa apuração. Minha biografia não permite a ninguém levantar qualquer dúvida sobre a minha conduta.

Agora fiquei sabendo que essa investigação esteve no Ministério Público de Goiás, chefiado pelo meu irmão, que a encaminhou à Justiça Federal em meados do ano passado, pois havia indício de envolvimento de servidor público federal.

 

Seu irmão então poderia, se quisesse, ter limpado a sua barra?

Primeiro que não havia, nem há, nenhuma barra para se limpar. Mas, ainda que tivesse barra para limpar, ele não teria feito qualquer coisa que não estivesse de acordo com o seu cargo.

Não havia nada! Foi meu irmão que levou isso adiante. Preferem esquecer esse dado da questão.

 

E agora, senador? O que o senhor vai fazer?

Vou enfrentar com a mesma coragem demonstrada em todos os momentos da minha vida. Nunca fugi de luta.

Continuarei levando a minha vida pessoal e o meu mandato do mesmo modo, mesmo dada certa realidade surrealista que existe no Brasil.

Eu mesmo já tomei as providências. Exijo saber exatamente o que o Ministério Público Federal está dizendo contra mim, se é que está dizendo, porque, até agora, o que sei foi dito pela imprensa.

Pedi ao Ministério Público Federal que me permita o acesso ao conteúdo dessa investigação que, repito, não feita contra mim. Vão tentar colar uma pecha em mim para me intimidar, mas não vão, não!

Não vão porque não há nada contra mim, e nada fiz de que possa me envergonhar.

Em primeiro lugar, fazem celeuma sobre um presente de casamento porque não houve troca de favor.

Em segundo lugar, pelo que foi noticiado, eu e vários políticos, de diferentes partidos, falamos com Cachoeira, mas isso não vazou.

 

O senhor acha que há uma conspiração contra o senhor?

Não lido com teorias conspiratórias. O que sei objetivamente é que o vazamento das conversas, ainda sem conteúdo, buscou me atingir. E eu sou um político inequivocamente oposicionista. De acordo com a imprensa, não é a primeira vez que tenho conversa grampeada.

Podem grampear à vontade, não vão encontrar nada.

Isso não vai me intimidar, não! Eu continuarei a dizer o que acho que tem de ser dito. Não fiz nada, entro no Senado de cabeça erguida e continuarei a fazer o meu trabalho.

07/03/2012

às 12:00 \ Política & Cia

Tentativa de censurar o dicionário “Houaiss” é delírio do politicamente correto

Patrulha do politicamente correto quer retalhar dicionário (Ilustração: Negreiros)

Patrulha do politicamente correto quer retalhar dicionário (Ilustração: Negreiros)

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Onde está o verbete “bom-senso”?

O dicionário Houaiss, o maior do país, está na mira da patrulha politicamente correta, que acredita lutar contra o preconceito apagando palavras e definições

Dicionário, diz o Aurélio, é o “conjunto de vocábulos duma língua ou de termos próprios duma ciência ou arte, dispostos, em geral, alfabeticamente, e com o respectivo significado”. Dicionário é o celeiro do idioma, o banco central da linguagem formado por palavras compiladas segundo um único critério, o de estarem em uso ou terem sido usadas no passado.

Censurar ou podar palavras dos dicionários é uma estupidez que se equipara à loucura de rasgar dinheiro por ser contra o capitalismo ou ao desatino de queimar florestas nativas para matar serpentes venenosas.

Pois foi exatamente isso que o procurador da República Cleber Eustáquio Neves, do Ministério Público Federal de Uberlândia, em Minas Gerais, tentou ao ajuizar uma ação civil pública pedindo a remoção das livrarias do dicionário Houaiss, o mais completo do país, com 228 500 verbetes, publicado pela editora Objetiva.

Procurador acolheu um pedido bizarro

Neves deu guarida a um pedido bizarro feito em 2009 por uma pessoa que sustentava que duas definições da palavra “cigano”, mesmo que devidamente registradas no dicionário como sendo de uso pejorativo, são ofensivas à etnia e devem ser banidas.

Enquanto isso não fosse feito e novas edições devidamente “higienizadas” do dicionário não fossem produzidas, o Houaiss deveria ser retirado das livrarias, e sua venda, proibida. O Houaiss registra que, pejorativamente, cigano é “aquele que trapaceia; velhaco, burlador” e “aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina”.

Pode incorrer em preconceito quem utiliza a palavra cigano nas acepções acima, mas incorre em um desvio muito pior quem propõe censurar esses registros por seu potencial ofensivo.

Empobrecer o idioma é um dos instintos automáticos das mentes totalitárias.

No livro 1984, de George Orwell, um Ministério da Verdade se dedica justamente à supressão das palavras consideradas inadequadas pelos ditadores e à sua substituição por termos novos criados justamente para suprimir a verdade.

Houaiss, alvo de censura

O "Dicionário Houaiss", alvo de censura absurda

“Assassinando a cultura brasileira”

“Quem pede a suspensão de uma obra por ela conter um termo considerado discriminatório está assassinando a cultura brasileira, que a cada dia é torpedeada por novas empreitadas da patrulha do politicamente correto”, diz o imortal Evanildo Bechara, membro da comissão de lexicógrafos — como são chamados os fazedores de dicionários — da Academia Brasileira de Letras.

Dicionários de outras editoras, como a Melhoramentos e a Globo, há dez anos suprimiram a informação de que a palavra “cigano” foi usada no passado com sentido pejorativo. Diz Breno Lerner, superintendente da Melhoramentos, responsável pelo dicionário Michaelis, que é contra a intervenção do procurador: “À medida que a sociedade se torna mais politicamente correta, cabe ao dicionário retratar isso com o maior rigor possível. É como a fotografia de uma paisagem — se a paisagem muda, é nosso dever fazer um novo retrato, com a maior exatidão”.

Nos tempos da KGB, polícia política da ditadura soviética, quando um político ou uma celebridade caía em desgraça com a liderança do Partido Comunista, sua figura era simplesmente apagada das fotografias antigas, uma flagrante falsificação da história.

A hierarquia católica, em momentos de puritanismo exacerbado, mandou cobrir as partes pudendas dos anjos e de outras figuras mostradas em majestosa nudez por mestres da pintura. Entre os censurados pelos prelados em guerra com os pelados esteve o grande Michelangelo. É saudável, portanto, reprimir a tentação de servir ao gosto presente simplesmente suprimindo e escondendo imagens, palavras ou dados que foram aceitáveis no passado a ponto de serem registrados para o desfrute das gerações vindouras.

A resistente tentação de reescrever o passado

O diretor-geral da Objetiva, que edita o Houaiss, Roberto Feith, não concorda com a tese de que a maneira de se atualizar passe pela higienização do conteúdo dos dicionários e de outras obras literárias ou culturais.

Os dicionaristas do Houaiss pretendem refletir as mudanças na paisagem mencionadas por Breno Lerner, não suprimindo dados do passado, mas acrescentando informações relevantes para o presente. No caso de “cigano”, as próximas edições vão informar que as definições ofensivas “resultam de antiga tradição europeia, pejorativa e xenófoba”.

A tentação de reescrever o passado é resistente. Há mais de dez anos, outra ação contra o Houaiss tentou apagar a definição pejorativa de judeu como “pessoa usurária, avarenta”. Sem sucesso. Em 2010, o Conselho Nacional de Educação condenou a obra de Monteiro Lobato, o maior autor infantil brasileiro, por ela dar vazão ao racismo.

Concebido para facilitar a comunicação entre pessoas que falavam línguas diferentes, o primeiro dicionário de que se tem notícia é o Elya, do século III a.C., com 2 094 palavras.

No Brasil, o pioneiro foi o do carioca Antonio de Moraes Silva, em 1789, o Diccionario da Lingua Portugueza, baseado em uma obra publicada em Portugal pelo padre inglês Rafael Bluteau.

Os dicionários costumam ser revistos por equipes de lexicógrafos a cada cinco ou dez anos, quando se montam novas edições que incluem palavras incorporadas ao idioma (exemplos no novo Houaiss: “blogosfera”, “tubaína”, “blogar”, “pitaco”, “empoderamento”).

Resume o acadêmico Bechara: “O dicionário tem a função de ser o espelho vivo da língua, o repertório da memória cultural e histórica do idioma”.

(Reportagem de Luís Guilherme Barrucho publicada na edição impressa de VEJA que está nas bancas)

 

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