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1995: Ranço escravocrata explica assédio sexual no Brasil

Psiquiatra contou em fevereiro de 1995 que patrões acham natural cobrar trabalho e prazer das funcionárias; edição traz casos e guias para homens e mulheres

Em 15 de fevereiro de 1995, muito antes das denúncias contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein e os atores Kevin Spacey e Dustin Hoffman, nos Estados Unidos, o assédio sexual foi capa de VEJA, mas com foco para o tema no Brasil. Na edição 1.379, a reportagem de comportamento “Assédio sexual com jeitinho bem brasileiro” mostrava que as denúncias estavam aumentando no país e determinando “novas formas de conduta no trabalho”.

A matéria inicialmente faz uma contextualização do tema, que ganhou força nos Estados Unidos até virar assunto de discussão (e punição) em outros países. “Expressão incorporada só recentemente ao vernáculo nacional, o ‘assédio’ parecia mais uma ideia fora do lugar, um subproduto do colonialismo americano. Agora mesmo, como exemplo da aceitação acrítica, está em cartaz Asésdio Sexual, uma tolice em que Michael Douglas (…) nega fogo a Demi Moore. O filme defende a tese de que a coerção sexual não é exercida apenas por homens em relação às mulheres. Se a mulher tem mais poder que o homem (…), ela também pode constrangê-lo sexualmente.”

 

E segue o texto, agora focando a nossa realidade: “No Brasil, país latino e machista, as reclamações contra assédio sexual pareciam não ter futuro. Só pareciam, pois empresas têm codigos em relação ao tema (…) Duas CPIs, no Rio de Janeiro e em São Paulo, foram feitas para tratar da violência contra a mulher, assédio incluído. E os processos crescem na Justiça. No anteprojeto do novo Código Penal, o artigo 195 transforma o assédio sexual  em caso de cadeia. “Assediar alguém com propostas de caráter sexual, prevalecendo-se de relações de autoridade, empregatícias, domésticas ou da confiança da vítima, propõe-se, deve ser criminalizado. A punição: um a dois anos de detenção.”

Edição de 1995 mostrou que casos de assédio só aumentavam no país

Edição de 1995 mostrou que casos de assédio só aumentavam no país (Reprodução//1995: Ranço escravocrata explica assédio sexual no Brasil/VEJA)

A discussão daquela época ganhou força e hoje é lei. O artigo 216 do Código Penal define que o assédio sexual caracteriza-se por constrangimentos e ameaças com a finalidade de obter favores sexuais feita por alguém normalmente de posição superior à vítima. A pena é de detenção e varia entre um e dois anos, caso o crime seja comprovado.

A reportagem de VEJA trouxe vários relatos e casos que viraram notícia na década de 90 por crimes de assédio em diversos ambientes de trabalho – em um departamento da Universidade de São Paulo (USP), em lojas, no PT do Rio Grande do Sul. E curiosidades como uma publicação da universidade americana de Antioch, no estado de Ohio, que chegou ao ponto de redigir um código para regulamentar os relacionamentos amorosos de seus alunos, professores e funcionários e evitar acusações de molestamento sexual. “Se o garoto pretende tirar a blusa da namorada, ele terá de pedir. Se quiser encostar nos seios dela, também. Se desejar tocar nos genitais, idem. Para cada passo, um pedido. E a condição para passar ao  próximo é que haja o consentimento, articulado e em bom som.”

A reportagem entrevista ainda o psicanalista Renato Mezan, que afirma que o ranço escravocrata na cultura brasileira autoriza comportamentos machistas. “Eu sou o chefe e você não só me deve trabalho como prazer”. Ele prossegue dizendo que um dos traços dessa herança se observa quando “os filhos de família cantam as empregadas. Tinham sua iniciação sexual com elas. Não podiam com meninas da classe social? Sobrava para a serviçal.”

A edição trazia também um curioso guia aos que pretendiam iniciar um relacionamento no trabalho. Vale dizer que a reportagem é de 22 anos atrás, numa época em que o tema era novo e permitia dizer coisas que hoje parecem óbvias demais. Leia:

“Como paquerar sem assediar

  • Seja educado. Ao iniciar a abordagem, evite beijos
  • Tenha bom senso. Jamais insista se um convite ou dois já tiverem sido recusados
  • Não faça elogios sexuais ou comentários inconvenientes do tipo “Esse perfume me deixa louco!” Seja sutil
  • Evite a proximidade física exagerada. Um aperto de mão muito demorado pode ser mal interpretado
  • Não devore ninguém com os olhos. Também não tente enxergar o que se esconde por baixo das roupas dela. Super-Homem não existe, nem visão de raios-X. Qualquer adulto entende um olhar diferente
  • Presente para colegas de trabalho, fora as datas especiais, pode gerar constrangimentos”

Se quiser ler a reportagem na íntegra, clique aqui.

 

 

 

 

 

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