Você aí! Antes de babar no Facebook e no Twitter em defesa dos bandidos que invadiram o laboratório, quero lhe falar dos bichos que sua saúde já matou

Aquelas pessoas que invadiram o Instituto Royal, depredaram o laboratório, destruíram pesquisa e roubaram os animais são criminosas. Apenas isso. A imprensa, mais uma vez, está fazendo outro-ladismo, como se, nesse caso, houvesse duas verdades, o bom senso no meio, equidistante das posições extremas. Trata-se de uma mentira, de uma falácia. Há apenas um lado […]

Aquelas pessoas que invadiram o Instituto Royal, depredaram o laboratório, destruíram pesquisa e roubaram os animais são criminosas. Apenas isso. A imprensa, mais uma vez, está fazendo outro-ladismo, como se, nesse caso, houvesse duas verdades, o bom senso no meio, equidistante das posições extremas. Trata-se de uma mentira, de uma falácia. Há apenas um lado sensato nisso tudo.

Houvesse evidências de maus-tratos dos animais, vá lá; houvesse indícios de que estavam sendo submetidos a procedimentos injustificados e injustificáveis, daria para compreender a mobilização — jamais a invasão e a depredação; isso é crime em qualquer hipótese. Mas não há nada disso. Ao contrário. O que se sabe até agora aponta que lá trabalham pessoas sérias, que fazem um serviço que é do interesse de todos nós, inclusive daqueles imbecis que protagonizaram a pantomima violenta, com a participação de uma subcelebridade, que se tornou notória, quando tinha um programa de televisão, pela parvoíce. Não conseguiu ficar nem na Rede TV… Se ninguém ainda tentou contratá-la, eis a hora.

Que tempos estes, em que os covardes permitem que prosperem os idiotas. O sujeito que eventualmente está lendo este texto pronto a verter a baba hidrófoba, responda para si mesmo, não para mim: a) vai abrir mão de tomar remédios quando ficar doente?; b) vai abrir mão de vacinar os filhos que tem ou que um dia terá; c) se e quando um ente querido cair vítima de algum mal, vai tentar convencê-lo a recusar o tratamento que lhe for dispensado?

Você aí, que está pronto a dizer cretinices no Facebook e no Twitter. Sim, você, moça saudável, com todos os dentes. Você, rapagão cheio de saúde, que logo mais vai pra balada. Sabem quantas drogas foram testadas em beagles, macacos, ratos, gatos, coelhos, porquinhos-da-índia e outras fofuras para que vocês pudessem exibir tanta saúde? Para que a mamãe de vocês — a mãe hipotética, a mãe simbólica — não morresse de câncer de mama ou de útero; para que o papai não morresse precocemente de câncer na próstata; para que a vovó pudesse chegar com saúde aos 80 anos?

Não sabem? Então parem de perder seu tempo e vão estudar! Essa ferramenta que você têm aí na mão não serve apenas para que expressem seus sentimentos, seus rá, rá, rá, seus kkkkk e outras glossolalias. Também serve ao estudo, à pesquisa, à reflexão. Há uma enorme diferença entre torturar os bichinhos e usá-los para testar medicamentos. Não há um só país do mundo que não recorra a esse expediente.

Vi ontem uma senhora na TV. Parece ser uma das organizadoras do ato criminoso. Com a convicção de que só os ignorantes são capazes, dizia que já há maneiras de testar medicamentos sem recorrer aos animais. É mesmo? Quais? A lei que temos, que protege os bichos, já beira o temerário. Criminaliza o uso dos bichos nos testes científicos caso exista um meio alternativo. A questão é saber quem define isso. O militante? O delegado de polícia? O promotor? Por que diabos, afinal, cientistas, professores, profissionais gabaritados submeteriam os bichos a eventuais sofrimentos inúteis. Seria porque eles são pessoas más, à diferença dos invasores do laboratório, que seriam, então, pessoas boas?

E o Ministério Público?

Não é possível que profissionais sérios e que empresas que fazem um trabalho honesto vivam sob o signo da suspeição porque alguns malucos decidiram que não aceitam mais que animais sejam usados pela ciência. O promotor Wilson Velasco Júnior, atenção!, abriu inquérito em dezembro de 2012 — há quase um ano — para apurar as denúncias de maus-tratos no Instituto Royal. Até agora, ele não chegou a nenhuma conclusão? O MP tem competência legal e recursos para recorrer a especialistas, que podem tirar as dúvidas dos promotores. Uma perícia no laboratório teria bastado para demonstrar que tudo estava nos conformes. Mas quê…

Coisas assim acabam acontecendo porque, enquanto dura um procedimento como esse, é evidente que a empresa fica sob suspeição e se transforma em alvo potencial de trogloditas. Agora diz o doutor que eventuais provas foram danificadas pelos terroristas. É patético! Anos de pesquisa podem ter se perdido ali. Se alguma droga foi ministrada aos cães para testar reação, sem o cuidado dos especialistas para minimizar eventuais efeitos adversos, podem é ficar doentes. Vale dizer: esses caras não prestam nem para proteger gente nem para proteger cachorro.

A condescendência de vários setores ditos formadores de opinião com o baguncismo que chegou às ruas em junho está dando nisso aí. Ninguém mais quer conversa. Se acha que está certo, vai e invade, ocupa, quebra, põe fogo. Em junho, havia gente com tocha acesa na mão, a sapatear no teto do Congresso. Outros depredavam o Itamaraty. Jornalistas de TV chamavam aquilo de “manifestação pacífica”, embora perturbada por alguns “infiltrados”. Sei…

Os canalhas que hoje partem para o pau, para a ação direta, para a depredação têm a certeza absoluta — e não sem razão — de que encontrarão pela frente uma imprensa compreensiva, cordata, amiga, que se pela de medo das redes sociais. Vai que alguém fale mal da emissora no Facebook e no Twitter… Boa parte do jornalismo se tornou refém de delinquentes. 

Com o laboratório destruído, com anos de pesquisa jogados no lixo, tendo de enfrentar trogloditas reacionários, fascistoides, apesar de tudo isso, os representantes do laboratório é que estavam, de algum modo, na defensiva.

Mais uma vez, os bandidos foram transformados em heróis, e as vítimas é que tiveram de se explicar. Isso está virando uma rotina. Podem apostar: não vai acontecer nada com eles. Ninguém será condenado nem preso. Estamos indo de uma barbárie a outra sem passar pelo estágio da civilização.

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