Vejam, leitores, como tentam enganá-los – Um caso descarado de manipulação da opinião pública que deveria virar tese acadêmica. Ou: como uma minoria pretende impor sua vontade à maioria

Caras e caros, O que vai abaixo é muito mais do que a contestação de uma pesquisa. Eu destrincharei para vocês um dos instrumentos a que se recorre para formar a opinião pública — na verdade, infelizmente, para manipulá-la. Em 25 anos na profissão, raramente vi coisa assim. Desde que os jornais noticiaram, no dia […]

Caras e caros,

O que vai abaixo é muito mais do que a contestação de uma pesquisa. Eu destrincharei para vocês um dos instrumentos a que se recorre para formar a opinião pública — na verdade, infelizmente, para manipulá-la. Em 25 anos na profissão, raramente vi coisa assim.

Desde que os jornais noticiaram, no dia 11, que 79% dos entrevistados eram contrários à “anistia aos desmatadores” e que 85% diziam que a legislação deve priorizar as florestas, eu tenho tentando botar os olhos na pesquisa. Finalmente, tive acesso aos dados na noite desta quarta-feira. É um troço chocante. Contam-me que, no programa Roda Viva de segunda-feira, Marina Silva (quase ex-PV) brandiu esses dados. A primeira motivação que tive para ver o levantamento foi essa história de “anistia”. COMO NÃO EXISTE ANISTIA NENHUMA NO RELATÓRIO DE ALDO REBELO, fiquei curioso para saber que diabo de pergunta havia sido feita aos entrevistados.

Vou expor e analisar algumas questões propostas pelo Datafolha, comentar o resultado, fazer considerações sobre a amostra. Vocês avaliam depois se o instituto deve ou não explicações de natureza técnica. Já discordei de critérios do Datafolha, mas sempre considerei seu trabalho responsável. A partir do que vai abaixo, não sei mais.

Pergunta 6 – A grande mentira
A pergunta nº 6 do Datafolha é esta:
Uma das propostas do novo Código Florestal é que todos os proprietários de terra que desmataram ilegalmente até junho de 2008 estariam isentos de multas e punições. Você é a favor ou contra que esses proprietários de terra sejam perdoados das multas?

Disseram-se contra 79%; a favor, 19%, e 3% disseram não saber. Muito bem, leitor! Estaria tudo certo se existisse mesmo essa proposta no texto do novo Código Florestal! Mas ela não existe! É uma farsa! A pesquisa foi encomendada pelas organizações Amigos daTerra-Amazônia Brasileira, IMAFLORA, IMAZON, Instituto Socioambiental, SOS Mata Atlântica e WWF-Brasil. Mas não é lícito que o Datafolha atribua ao texto o que lá não está para fazer a vontade do cliente.

Ora, feita essa pergunta, chego a estranhar que não tenham obtido 100%. Que tal o Datafolha perguntar se as pessoas são favoráveis à paralisia infantil, ao tétano e ao sarampo? As multas só não serão aplicadas se o proprietário cumprir uma série de exigências, conforme estabelecem os Artigos 33 e 34. A pergunta do Datafolha é mentirosa. Eu posso provar o que digo, e vocês podem verificar com seus próprios olhos. O texto está aqui.  Notem que, na suposição de que boa parte dos entrevistados não soubesse exatamente o sentido da palavra “anistia”, optou-se por “perdão”. É, sim, um sinônimo, mas de sentido bem mais forte e presente na sociedade. De todo modo, perdão e anistia, nesse caso, têm como sinônimo outra palavra: FARSA.

Pergunta 7 – A mentira sórdida
Não é possível que os técnicos do Datafolha tenham lido o texto de Aldo Rebelo. A pergunta nº 7 chega à sordidez. Leiam:
Outra proposta é que todos os proprietários de terra que desmataram ilegalmente até junho de 2008 estariam isentos de recuperar as áreas desmatadas. Você é a favor ou contra que esses proprietários de terra sejam isentos de recuperar as áreas desmatadas?

Não dá! É mentira! O texto está aí para consulta do Datafolha, da direção das Organizações Folha, dos diretores de jornais, revistas e portais, dos blogueiros etc. Se alguém achar essa “proposta” no Código, mudo de profissão, paro de escrever. É claro que 77% se disseram contrários —  21% a favor, e 2% não sabem. Na forma como vem a questão, o que se esperava?

Pergunta 2 – A trapaça
Vejam que trapaça intelectual aparentemente singela. Marina exibe esse número pra lá e pra cá:
Na sua opinião, as mudanças no novo Código Florestal deveriam:
Olhem o que responderam os entrevistados:
Priorizar a proteção das florestas e rios mesmo que, em alguns casos, isso prejudique a produção agropecuária – 85%
– Priorizar a produção agropecuária mesmo que, em alguns casos, isso prejudique a proteção das florestas e rios – 10%
– Não sabe -5%

Viram? Não é bonitinho? Há de positivo nisso ao menos a constatação de que os ongueiros querem prejudicar a agropecuária. Eu proponho uma outra questão a ser feita pelo Datafolha:
Na sua opinião:
– O reflorestamento tem de ser feito mesmo que a comida passe a custar mais caro por causa da diminuição da área plantada;
– Deve-se preservar o que se tem hoje sem diminuir a área plantada;
– Deve-se desmatar ainda mais para plantar mais e baixar o preço da comida.

Eu adoraria saber o resultado…

ESCONDENDO OS DADOS
Mesmo uma pesquisa direcionada, feita para chegar ao resultado encomendado, não ao que pensa efetivamente a população, revela dados interessantes. Marina Silva os escondeu no programa Roda Viva.  A imprensa, que, no mais das vezes, faz sua assessoria, também. Prestem atenção à pergunta 3 e à resposta.

Na sua opinião, os proprietários de terra que praticaram desmatamento ilegal para utilizar a terra para agricultura e pecuária deveriam :
A resposta é esta:
– ser perdoados apenas se concordarem em repor essa vegetação – 45%:
– ser todos perdoados, sem a necessidade de repor a vegetação, pois desmataram para produzir – 5%;
– ser punidos de qualquer forma para dar o exemplo para gerações futuras;
– não sabe – 2%

Como se vê, 50%, mesmo nos termos errados do Datafolha, se dizem favoráveis ao perdão — e 5% nem acham necessário repor coisa nenhuma. A pergunta, de todo modo, traz o erro essencial: inexiste perdão! E estariam isentos de repor a vegetação original apenas os pequenos proprietários (até quatro módulos).  Agora vem a pergunta 4, a mais interessante de todas.

Pergunta 4 – O bom senso
Algumas áreas de risco como encostas, topos de morro, áreas ao longo dos rios e várzeas que deveriam ser preservadas hoje estão ocupadas por pastagens e plantações. O que seria melhor:
Atenção para as respostas, leitor!
– Manter apenas atividades agropecuárias nessas áreas que segurem o solo e não representem riscos de acidente – 66%
– Manter as atividades agropecuárias nessas áreas para não prejudicar a produção, mesmo com o risco de acidentes – 7%
– Remover todas essas atividades para evitar qualquer risco de acidentes, mesmo prejudicando a produção – 25%

Esconderam este número: só 25% concordam com Marina Silva e com as ONGs; só 25% querem remover as plantações.  Isso nos diz que 66% concordam justamente com o Código, especialmente com o seu Artigo 35.

Outras mistificações
Sempre querendo saber se o brasileiro e contrário à paralisia infantil e a favor da bondade, indaga o Datafolha:
Pergunta 9 A presidente Dilma já disse ser contra a proposta de perdão por desmatamento ilegal e que a vetará caso seja aprovada pelos senadores. Você concorda ou discorda da posição da presidente Dilma?
Ora, 79% disseram concordar.

A pergunta 10 busca fazer terrorismo com os parlamentares:
Você votaria ou não em um deputado federal ou Senador que votou a favor da isenção de multas e punições aos proprietários de terra que desmataram áreas ilegais até junho de 2008?
Obviamente, 84% disseram que não votariam. Ocorre que esses parlamentares não existem. São uma invenção de Marina Silva e dos ongueiros que pagaram por essa pesquisa. Acredito até que as perguntas foram elaboradas por ele. O diabo é que o relatório final é, sim, do Datafolha.

A pergunta 7, na sua aparente singeleza, é um primor da manipulação:
Alguns acham que antes devotar o Senado deveria ouvir a opinião dos cientistas sobre o novo Código Florestal. Outros acreditam que a votação é urgente, pois há muitas multas pendentes. Como que você concorda mais?
Viram? Num extremo, os cientistas, com toda a sua sabedoria; no outro, a suposta isenção de multas. O Datafolha não se vexa nem um pouquinho? A maioria dos brasileiros defenderia que se ouvisse um cientista até antes de apostar na mega-sena! O resultado não poderia ser outro:
– O Senado deveria parar para ouvir os cientistas antes de votar o novo Código Florestal – 77%;
– O Senado deveria votar o novo código imediatamente pois é mais urgente resolver o problema das multas – 20%
– Não sabe – 2%

A amostra do Datafolha
Há, de fato, uma única pergunta razoável acima: a de nº 4. Não! Os brasileiros não querem destruir plantações para deixar crescer no lugar o mato. Só 25% escolhem essa estupidez. E esse resultado foi obtido mesmo numa pesquisa com uma amostragem cujos critérios são, para dizer pouco, complicados. Vamos ver.

O Sudeste tem 42,3% da população, mas compõe 59% da amostra do Datafolha. Já o Nordeste tem 27,8%, mas, na pesquisa, apenas 14%; com 14,3% da população, o Sul ficou com 17% dos pesquisados; as regiões Centro-Oeste/Norte, com 15,6% dos brasileiros, são apenas 10% no Datafolha. São dados do IBGE referentes a 2010. Mais: a população urbana do país representa 84,35% do total, e a rural, 15,65%. Sei lá por quê, apenas 7% das pessoas que responderam a pesquisa são da área rural, e 93%, da urbana.

E a distorção pode ser ainda maior. Nestes 93% de brasileiros em áreas urbanas, estão os moradores das cidades pequenas e médias, que dependem visceralmente da atividade agropecuária. O Datafolha teve o cuidado de fazer a devida ponderação?

Finalmente
Fiquei tomado, assim, por certa vergonha alheia ao ler o relatório do Datafolha, que é, como diria Michel Temer sobre Palocci, “muito leal a seu cliente”.
O instituto quis saber:
Você tomou conhecimento sobre a votação no Congresso Nacional do novo Código Florestal, que é um conjunto de leis que estabelece regras para conservação de florestas nativas e limites para a atividade agropecuária?(SE SIM) Você diria que está bem informado, mais ou menos informado ou mal informado sobre esse assunto?

A resposta foi esta:
Tomou conhecimento e está bem informado – 6%:
Tomou conhecimento e está mais ou menos informado – 41%;
Tomou conhecimento e está mal informado – 15%;
Não tomou conhecimento – 38%

Isso levou o Datafolha a afirmar que o assunto “é conhecido pela maioria: 62%”. Ai, ai… Pois eu diria que 53% dos que responderam a pesquisa não sabiam do que estavam falando — e, pois, foram facilmente induzidos pelas “perguntas isentas” do instituto. O grupo dos mal informados e desinformados soma 94%!

É com essa pesquisa que Marina Silva, os manineiros, as ONGs, os ongueiros e boa parte da imprensa pretendem fazer terrorismo no Congresso! É desse modo que se pretendem formar os consensos e que uma minoria de sectários passa por maioria.

A propósito, leitor, o Datafolha pergunta:
“Você prefere um Chicabon ou um discurso da Ideli Salvatti citando Ivan Lins?”
“Você prefere uma injeção no olho ou um Chicabon?”
“Você prefere um Chicabon ou dois Chicabons?”

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