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Vagner Love

16/03/2010

às 5:43

LOVE, OS FUZIS E A FALA ESTÚPIDA DE UM ADVOGADO

Ainda mais lamentáveis do que as declarações do jogador Vagner Love, flagrado num convescote com traficantes armados de fuzis na favela da Rocinha, foram as de Michel Asseff Filho, advogado do Flamengo. Para ele, haver armamento pesado no morro é um problema da polícia, e Love é livre para freqüentar a favela.

Claro que é. Ir à favela, especialmente se for para ajudar a população que lá vive  — Love diz que financia projetos sociais por lá; gostaria de saber quais , está longe de ser um problema. Ao contrário: seria uma ação realmente meritória.

Mas desfilar em companhia de bandidos na verdade, protegido por eles , doutor Michel, é, sim, um problema do jogador e, lamento dizer-lhe, do Flamengo. O atual artilheiro do time mais popular do Brasil carrega a força da representação e do exemplo. É um dos milhões de meninos pobres do Brasil que conseguiu vencer pelo talento, livrando-se, justamente, às imposições do tráfico.

Vínculo com a “comunidade” é uma coisa; convivência com a bandidagem é outra bem diferente. E esses termos são empregados, muitas vezes, como sinônimos. Quando Love, do Flamengo (sim, senhor!), desfila ao lado de traficantes armados, o que devem pensar o menino e o jovem da Rocinha? Que aqueles são mundos que podem conviver harmonicamente. E sabemos que isso é mentira.

É verdade, doutor! A segurança pública é mesmo um problema do governo do Estado, da polícia. Mas isso não exime os cidadãos de responsabilidades ou de imperativos éticos. Cada indivíduo tem de responder por suas escolhas. Lembram-se da revolta que o filme Tropa de Elite provocou num pedaço da outra elite, a do asfalto, fumadora e cheiradora? Capitão Nascimento dava uns tabefes nuns viciados mauriçolas e lhes indagava quem eram os culpados pela morte de alguns traficantes — os presuntos estavam ali do lado. Um dos rapazes responde: “A polícia”. Novo tabefe. Resposta errada.  Nova pergunta. E ele mesmo responde: “Você é o culpado” — o consumidor de droga. Nem era propriamente a moral do filme, mas do policial. Ocorre que ele caiu no gosto popular. E então começou a gritaria: “Filme fascista!!!”

“Fascismo”, por aqui, é lembrar que quem consome droga alimenta o tráfico e o crime!  Que absurdo, não? O cara quer fumar e cheirar, mas acha que a segurança pública é problema da polícia. Love diz que não fuma nem cheira. Mas prestigia a bandidagem. E o advogado do Flamengo emenda: a polícia que se vire.

E se Love começasse a aparecer ao lado de gente com livro na mão, ainda que ele não goste muito da coisa? Estou partindo do princípio de que ele também não aprecia fuzis. Quanto a seu “trabalho social”, digamos que seja verdade. As vidas que ele salva, o tráfico elimina. E com sobras. Uma sobra que se mede em cadáveres, senhor Vagner Love. Uma sobra que se mede em famílias destruídas, senhor Asseff.

E isso não é só um problema da polícia.

Por Reinaldo Azevedo

15/03/2010

às 5:51

O ESTRANHO AMOR DE VAGNER LOVE

Estarrecedora reportagem exibida ontem no Fantástico, que acabo de ver na Internet. Mostra o jogador Vagner Love participando de uma festa na Rocinha, patrocinada por traficantes. Voltarei a este assunto certamente. Leiam o texto da reportagem.
*
A festa em uma quadra na parte alta da favela da Rocinha invade a madrugada. Mais de mil pessoas se divertem ao som dos mais variados ritmos. No meio da multidão, traficantes desfilam com suas armas, dentro e fora da quadra, que fica em uma das principais ruas da Rocinha. Os bandidos circulam livremente e aparentam tranqüilidade. Exibem fuzis de vários calibres. Um deles, dourado. As imagens foram feitas com uma câmera escondida. Numa das noites, no mês passado, o carro importado preto chega ao baile famoso na favela. Quem está ao volante é o atacante Vagner Love, artilheiro do Flamengo no Campeonato Carioca.

Na entrada do baile, um traficante armado com um fuzil segue na frente, fazendo a escolta do jogador. Um outro bandido, também armado, vem logo atrás e o acompanha até a quadra. A festa aconteceu no último dia 27 de fevereiro. Naquele dia o Flamengo venceu o Macaé por 4X1, em Volta Redonda, com dois gols de Love. O atacante confirmou que foi ao baile da Rocinha comemorar a vitória.

“Eu sempre freqüentei, sempre fui e não vejo problema nenhum nisso. Eu costumo ir a alguns lugares, tenho alguns trabalhos sociais em alguns lugares desses e, por isso, eu freqüento, tenho afilhado, tenho amigo, então nunca vou deixar de freqüentar as minhas origens, minhas raízes”, diz o jogador.

Nós mostramos as imagens da festa ao subchefe da Policia Civil do Rio. Uma arma chamou a atenção: é um AT-4, uma arma de fabricação sueca usada pelo exército americano nas guerras do Iraque e do Afeganistão. “Essa é essencialmente uma arma que nós classificamos, definimos, como uma arma anticarro. Não é um armamento antipessoal, ele é usada pra ser aplicada contra veículos. Ela tem um alcance útil de 300 metros, esse é o alcance dessa arma”, diz Carlos Oliveira, subchefe operacional da Policia Civil do Rio.

Segundo a polícia, quem comanda o tráfico de drogas e de armas na Rocinha é o bandido Antônio Bonfim Lopes, o Nem. Esta semana policiais foram mais uma vez até a favela para tentar prender o traficante. Mas ele conseguiu escapar. Veja uma imagem do criminoso feita poucos dias antes da operação. Ele aparece em uma das ruas da favela cercado por seguranças armados.

Em um outro ponto da comunidade foram registradas imagens do traficante Marcelo Alves de Britto, que circula pela Rocinha com uma camisa falsa da Polícia Federal. Ele e outros seis bandidos foram mortos na operação desta semana. Segundo a polícia, Marcelo é um dos bandidos que aparecem fazendo a escolta de Vagner Love na chegada ao baile.

Repórter: Você chegou a ver naquele dia homens armados?
Love:
Isso aí é normal, qualquer favela que você for hoje no Rio de Janeiro você vai ver isso.

O jogador também não vê problema em participar de festas ao lado de alguns dos traficantes mais perigosos do Rio de Janeiro. “Eu vi muito isso quando era mais jovem, convivi com isso. Já perdi amigos na criminalidade, mas nunca me envolvi, nunca usei drogas, vou para me divertir, porque eu gosto”, diz ele.

A Secretaria de Segurança do Rio afirma que as imagens vão ajudar na identificação dos bandidos. “Parece que intenção deles é mostrar a vaidade e mostrar que a arma demonstra algum poder, demonstra poder, apresenta algum poder pra eles. Mas na verdade são criminosos que apresentam mais uma prova pra polícia dos crimes que eles praticam”, conclui o delegado.

Por Reinaldo Azevedo


 

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