03/05/2012
às 18:18A mudança da poupança e o paradoxo da irresponsabilidade bem-sucedida
A alteração da correção da poupança, como informa o post abaixo, será mais criteriosa do que se tentou fazer em 2009. Não deve mexer, por exemplo, com os depósitos que já estão lá. Naquele ano, Lula sentiu cheiro de carne queimada que emanava das urnas e recuou. Vamos ver.
A mudança é tecnicamente justificada? É claro que é. Esse negócio de investimento com rendimento tabelado em lei é piada — persistirá uma espécie de tabelamento, mas atrelado, ao menos, à Selic. Se a nova regra colhesse os depósitos que já estavam lá, feitos segundo regras anteriormente combinadas, seria uma tungada, sim, ainda que, reitero, do ponto de vista técnico, não fosse absurdo nenhum. Se for como se anuncia, ok.
Agora vamos falar um pouco de política. As oposições, com uma exceção ou outra, não devem criar grandes obstáculos nem satanizar o governo por isso. A imprensa, como já está claro, assente que o tabelamento da poupança, nas condições dadas, cria um limite para a queda da taxa de juros. Assim, o governo fica livre para fazer o correto. Mas vamos nos entregar aqui um exercício de imaginação.
Imaginem, então, um tucano do poder — FHC, Serra ou qualquer outro — vivendo a mesma situação, com uma oposição liderada por Luiz Inácio Lula da Silva. O que vocês acham que aconteceria numa situação como essa? O Apedeuta lideraria uma cruzada nacional contra o “roubo da poupança da classe trabalhadora”, não é? Acusaria o governo de estar seguindo o modelo Collor, afanando as economias dos brasileiros etc e tal.
Eis uma questão da política que até hoje não encontra uma resposta. Uma das vantagens comparativas dos petistas — vantagem assentada numa vigarice política — é sabotar toda e qualquer iniciativa de governos adversários, sejam elas boas ou más. Alguém aí cita alguma medida positiva do governo FHC, por exemplo, que tenha sido apoiada pelo PT? O partido recorreu ao Supremo até contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. O julgamento final se deu já com Lula já no poder, quando Palocci considerava a LRF imprescindível e inegociável. Vale dizer: a lei com a qual o PT tentou acabar havia se tornado essencial para o próprio governo do PT. No governo tucano, a LRF era um mal; no governo petista, um bem! São uns farsantes!
Já as oposições tendem a condescender com medidas que são, como essa da poupança, em essência, corretas. E ninguém sensato vai advogar que se escolha o pior só para dar uma resposta aos petistas. Ocorre que essas práticas têm desdobramentos: o PT, que sabota o país, se preciso, para atingir os adversários, só cresce; as oposições, que evitam esse tipo de jogo sujo, só encolhem. Donde se conclui que a técnica da sabotagem tem sido recompensada nas urnas.
Um leitor poderia observar com propriedade: “Calma lá, Reinaldo, ainda não conhecemos um PT de oposição, depois de passar pelo governo; afinal, os petitas estão no poder desde 2003. Talvez, no futuro, ajam de forma diferente”. Os meus leitores são racionais e bondosos. Por isso fariam certamente essa observação. Respondo assim: conhecemos o PT de oposição nos estados e municípios. Continuam a fazer o que sempre fizeram: sabotar iniciativas do governo, quaisquer que sejam elas, pouco importando que consequências isso terá para a população.
Não! Não vou aqui conclamar a oposição a sair com os pés no peito do governo Dilma por causa da poupança. Mas noto que persiste o paradoxo da irresponsabilidade bem-sucedida.



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