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prova de redação

08/05/2013

às 20:08

Enem: Os principais problemas da prova de redação vão continuar

Mais ou menos com a dedicação com que o entomologista disseca e estuda um inseto, sou um dissecador do estilo petista de governar, entendem? Por certo, aquele especialista não tem gosto por aquelas coisas. Mas alguém precisa fazê-lo, e a ciência como um todo se beneficia com sua dedicação. Esse é mais ou menos o caminho que me leva a dissecar o jeito petista de governar. Vejam, por exemplo, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Ele veio a público para anunciar maior seriedade na na correção das redações do Enem. Então tá. Basta, no entanto, que a gente reflita cinco minutos a respeito para se espantar um tanto.

Já chego lá. Um dos principais absurdos do Enem segue e seguirá intocado: é o fato de a prova de redação valer 50% do exame como um todo. Trata-se de uma grave distorção porque submete o conhecimento objetivo ao juízo de valor. Ainda que as questões do Enem, nas áreas de humanidades e língua portuguesa (eles usam uns nomes modernosos…), sejam ruins de doer (e me dizem que a situação não é muito melhor no que antes se chamava “Ciências Exatas”), ainda assim, persiste um núcleo objetivo de saber. Pois bem. Um único texto redigido pelo candidato (chamo assim porque estamos falando de um megavestibular!) tem o mesmo peso do resto da prova, que abrange as demais disciplinas. Escrever bem é mais importante do que saber matemática, física e química? Eu não acho! Isso é resquício de país que passou pelo beletrismo cretino. Lá vou eu comprar, de novo, uma briga dos diabos, mas não dou a mínima: o Brasil precisa mais de engenheiros que eventualmente troquem o “s” pelo “z” do que de exímios prosélitos que não sabem quanto é 7 vezes 9. E isso quer dizer que, sim, faltam-nos os engenheiros, com ou sem domínio pleno da ortografia. E abundam os prosélitos que não sabem nem a tabuada. Esse peso excessivo da redação é resquício da militância supostamente “humanista” na nossa educação. De resto, os temas propostos são também testes ideológicos. Mil vezes prefiro a companhia dos que sabem matemática à dos idiotas bem-intencionados. Sigamos.

Mercadante, com aquele seu estilão murro na mesa, vem a público para anunciar que, nas redações, não mais serão permitidas inserções estranhas ao tema. Ficaram famosos os casos de candidatos que, no corpo do texto, reproduziram receita de miojo e o hino do Palmeiras. Pergunta de um ser lógico: quer dizer que, antes, elas eram permitidas? O que Mercadante está tentando esconder é outra coisa: é evidente que as redações nem mesmo foram… lidas! E há a hipótese pior: se foram, o avaliador achou que eram inserções aceitáveis! Mas ai do aluno que “desrespeitar os direitos humanos”! Isso pode zerar a prova. O critério permanece. O que é “desrespeito aos direitos humanos”? Ora, é aquilo que o examinador achar que é. No ano passado, o Enem inventou um certo fluxo imigratório para o Brasil “no século 21” (só se haviam consumido 12% do século!!!) e cobrava que os candidatos perorassem a respeito. Pobre daquele que eventualmente defendeu que o país combata a imigração ilegal… Certamente se deu mal por suspeita de xenofobia. Escolas afora, os professores já têm instruído os estudantes a se alinhar sempre à esquerda…

Fui um pouco para a margem. Volto para o leito. Mercadante também afirmou que, a partir de agora, a nota 1.000 só vai para textos que exibam domínio perfeito também do idioma. Ufa! Finalmente, em 2013, o país descobre o que é nota máxima e para que serve. Que bom! No ano passado, redações que traziam coisas como “rasoavel”, “enchergar” e “trousse” mereceram nota máxima. O MEC, então, explicou por quê: “Um texto pode apresentar eventuais erros de grafia, mas pode ser rico em sua organização sintática, revelando um excelente domínio das estruturas da língua portuguesa”. Entendi! Até acho que sim. Mas por que não, então, atribuir, sei lá, 800 pontos, 900 que sejam? Afinal, o domínio da ortografia é uma das “competências” que se exigem, certo? Mas quê! Mereceram foi mil mesmo. Agora Mercadante nos diz que nota máxima é para quem atinge o… máximo! Ufa! Espero que ele não acabe revogando o irrevogável…

“Ué, mas não foi você mesmo que disse preferir o engenheiro com erro de ortografia ao idiota bem-intencionado?” Eu mesmo! Mas quem disse que eu daria nota máxima à redação do tal engenheiro?

O ministro anunciou que haverá maior rigor para contratar corretores e avaliar seu desempenho. Vamos ver. As redações continuarão a ser avaliadas por duas pessoas. Uma discrepância superior a 100 pontos (não mais a 200) ensejará uma terceira correção. Pois é.. As redações que ganharam nota máxima, mesmo com aqueles descalabros, mereceram a mesma consideração de dois corretores…

“Ora, Reinaldo, as providências tomadas tornam a coisa melhor ou pior do que antes?” A resposta é óbvia: “melhor”. Mas também evidenciam a ruindade de antes. Insisto, ademais, que os principais problemas permanecem intocados: a) o peso excessivo que a prova de redação tem no Enem (o que, de resto, cria distorções que impedem uma correta avaliação da eficiência das escolas); b) a ideologização do exame, especialmente da prova de redação.

Por Reinaldo Azevedo

26/03/2013

às 16:20

Enem: MEC terá de explicar correção de redação de candidato do RS

Na VEJA.com:
A Justiça Federal do Rio Grande do Sul ordenou que o Instituto Nacional de Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), autarquia do Ministério da Educação (MEC) responsável pelo Enem, forneça explicações detalhadas sobre os critérios utilizados na correção da redação do candidato Tiago Zanoni Cardoso na edição 2012 da prova. A sentença, divulgada na segunda-feira, é assinada pelo juiz federal Roberto Ferreira, da Vara de Canoas. O Inep pode recorrer da sentença no Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

Cardoso, de 26 anos, que é formado em direito, alega que a nota recebida na redação o impossibilitou de obter uma vaga no curso de gastronomia por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) — que escolhe candidatos por meio da nota do Enem. Ele alcançou 560 pontos na dissertação — mesma nota recebida pelo aluno que colocou em seu texto uma receita de macarrão instantâneo.

No início de fevereiro, o Inep franqueou a todos os participantes do Enem acesso ao espelho da redação. Pelo documento, eles puderam verificar suas dissertações digitalizadas, além das notas recebidas em cada uma das cinco competências avaliadas pela prova: domínio da norma padrão, compreensão da proposta, seleção e organização de informações, argumentação e proposta de intervenção.

No caso de Cardoso, contudo, o juiz avaliou que a “vista pedagógica da redação” não é suficiente. “Não se pode nem sequer verificar se o Inep efetivamente cumpriu as próprias regras estabelecidas, entre as quais a submissão da prova a um terceiro avaliador na hipótese de discrepância em mais de 200 pontos entre as notas dos dois avaliadores inicialmente designados”, afirma o juiz em seu despacho.

O magistrado lembra que a importância do Enem não pode ser subestimada, ou seja, o exame não é apenas um instrumento de avaliação dos concluintes do ensino médio. “Trata-se, sabidamente, de critério de ingresso adotado por muitas instituições públicas de ensino superior, (…) servindo também como forma de obtenção de bolsas do Prouni”, escreveu. “Por isso, a negativa da autarquia em fornecer cópia do espelho da redação constitui grave ofensa aos princípios constitucionais.”

Por Reinaldo Azevedo

21/03/2013

às 17:12

Enem – Mercadante tenta um truque novo para enganar os incautos. Ou seria “incaltos”, Voça Inselensa?

O MEC, por intermédio do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), julga estar lidando com um bando de idiotas. Em muitos casos, é mesmo verdade. Afinal, o Enem, com todos os seus absurdos, a despeito de todas as suas barbaridades (e não só na prova de redação), é tratado como um sucesso, não é mesmo? No extremo da imbecilidade, há até quem saúde o “fim do vestibular”, como se o Enem fosse outra coisa… É o maior vestibular da Terra — só que mais incompetente do que a larga maioria.

Agora o Inep anuncia que vai mudar a regra e passará a zerar redações que apelem a brincadeiras no corpo do texto. Trata-se de uma medida trapaceira, que pode até mesmo provocar novas injustiças. A turma de Aloizio Mercadante, o ministro da tese-miojo, está tentando enganar a plateia. Esse critério já existe. Há cinco razões que podem zerar uma redação. Prestem atenção à primeira:
Razão 1 – Não atender à proposta solicitada ou apresentar outra estrutura textual que não seja a do tipo dissertativo-argumentativo.
Razão 2 – Deixar a folha de redação em branco.
Razão 3 – Escrever menos de sete linhas na folha de redação, o que configura “texto insuficiente”. Linhas com cópias do texto de apoio fornecido no caderno de questões não são consideradas na contagem do número mínimo de linhas.
Razão 4 –  Escrever impropérios, fazer desenhos e outras formas propositais de anulação.
Razão 5 – Desrespeitar os direitos humanos.

Do modo como a correção é xucra, dada a forma como é selecionada a mão de obra, essa “nova orientação” poderia até mesmo acabar punindo o aluno que faz uma citação pertinente, ainda que engraçada.

O MEC está fazendo de conta que não entendeu o problema — mas entendeu e não tem resposta para ele. E o nome do problema é “qualidade da correção”. Está na cara que as redações com a receita de miojo e o Hino do Palmeiras não foram nem mesmo lidas. Bateram o olho do primeiro e no último parágrafos e pimba! Tascaram a nota do candidato.

Que resposta terá o Inep para as redações que obtiveram a pontuação máxima, mesmo a apelando a delicadezas como “enchergar”, “trousse” e “rasoavel”? Nesse caso, há uma hipótese ainda mais grave do que ler apenas o primeiro e o último parágrafos: o próprio corretor não conhecer a norma culta.

É plausível? É mais do que plausível! É muito possível. Vejam post há pouco publicado com o testemunho de um professora gaúcha, contratada para fazer a correção. Ela informa que não houve processo nenhum de seleção, nada! Tudo funciona na base do “QI”, do “Quem Indica”. Depois, há um treinamento mixuruca feito pela Internet. Na única reunião “presencial” (como eu detesto essa palavra, hoje empregada por 11 entre 10 pilantras que lidam com educação!; não nem todo mundo que a emprega é pilantra), os corretores foram orientados a pegar leve, incitados, claramente, a mascarar os resultados.

É com esse rigor científico que o ministro da tese-miojo pretende promover uma revolução no currículo do ensino médio. Não que o sistema não deva passar por correções de rumo e coisa e tal. Ocorre que há questões relevante não-respondidas:
a: é essa a prioridade?;
b: o governo federal dispõe de massa crítica para tanto?;
c: o saber gerado pelo Enem serve de norte?

Já nem digo que os desastres na educação estão sendo produzidos sob o silêncio cúmplice da maioria dos especialistas porque, nessa área, a maioria dos especialistas está orientada por critérios exclusivamente ideológicos. O Brasil deve ser o único país do mundo em que a educação ainda é vista como campo principal da luta de classes. Em vez de se criarem as condições, então, para que os pobres ascendam intelectualmente, por intermédio de políticas de qualificação, busca-se a aplicação de mecanismos de “justiça social”. Nem na Cuba comunista é assim… E, sim, há alguns poucos que têm alertado para os desatinos. Estão certos, mas não encontram eco político para a sua crítica.

O resultado é esse que estamos vendo, ano após ano. São inúmeros os países que saíram do atraso — não da linha da miséria dos R$ 70… — tendo a educação como um dos instrumentos da grande virada. Não foi o único, é certo. Na atual batida, é evidente que isso não acontecerá com o Brasil. Há dez anos no poder, o PT se ocupa em produzir números vistosos para sair exibindo por aí. São monumentalidades ocas.

Pior: estão sendo criadas amarras que nos roubam também o futuro. 

Por Reinaldo Azevedo

05/11/2012

às 16:51

Eis a tal prova…

Abaixo, transcrevo a prova de redação do Enem. Algumas pessoas estão se esforçando para fazer uma leitura benigna do que vai abaixo. Ok. Cada um ache o que quiser. Daqui a pouco, vou postar mais uma fala deste incrível Aloizio Mercadante, e vocês verão como o tema da prova não deixa de ser uma espécie de desdobramento de sua, digamos, “tese de doutorado”, defendida na Unicamp, na última hora, sob escárnio de Delfim Netto, um dos neoaliados do petismo. A prova segue em vermelho.

Atenção! No manual, a exemplo do que se vê abaixo, não há qualquer marca deixando claro que o segundo parágrafo já integra um dos três “textos motivadores”. Fica tudo misturado. Nas instruções, brilha a quinta: “A redação que apresentar proposta de intervenção que desrespeite os direitos humanos receberá nota zero”. Leiam. Volto neste mesmo post para encerrar e no seguinte para analisar a fala de Mercadante.

PROPOSTA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em norma padrão da língua portuguesa sobre o tema O MOVIMENTO IMIGRATÓRIO PARA O BRASIL NO SÉCULO XXI, apresentando proposta de intervenção, que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

Ao desembarcar no Brasil, os imigrantes trouxeram muito mais do que o anseio de refazer suas vidas trabalhando nas lavouras de café e no início da indústria paulista. Nos séculos XIX e XX, os representantes de mais de 70 nacionalidades e etnias chegaram com o sonho de “fazer a América” e acabaram por contribuir expressivamente para a história do país e para a cultura brasileira.
Deles, o Brasil herdou sobrenomes, sotaques, costumes, comidas e vestimentas. A história da migração humana não deve ser encarada como uma questão relacionada exclusivamente ao passado; há a necessidade de tratar sobre deslocamentos mais recentes.
Disponível em: http://www.museudaimigracao.org.br. Acesso em: 19 jul. 2012 (adaptado).

Acre sofre com invasão de imigrantes do Haiti


Nos últimos três dias de 2011, uma leva de 500 haitianos entrou ilegalmente no Brasil pelo Acre, elevando para 1400 a quantidade de imigrantes daquele país no município de Brasileia (AC). Segundo o secretário-adjunto de Justiça e Direitos Humanos do Acre, José Henrique Corinto, os haitianos ocuparam a praça da cidade. A Defesa Civil do estado enviou galões de água potável e alimentos, mas ainda não providenciou abrigo.

A imigração ocorre porque o Haiti ainda não se recuperou dos estragos causados pelo terremoto de janeiro de 2010. O primeiro grande grupo de haitianos chegou a Brasileia no dia 14 de janeiro de 2011. Deste então, a entrada ilegal continua, mas eles não são expulsos: obtêm visto humanitário e conseguem tirar carteira de trabalho e CPF para morar e trabalhar no Brasil.
Segundo Corinto, ao contrário do que se imagina, não são haitianos miseráveis que buscas o Brasil para viver, mas pessoas da classe média do Haiti e profissionais qualificados, como engenheiros, professores, advogados, pedreiros, mestres de obras e carpinteiros.  Porém, a maioria chega sem dinheiro.
Os brasileiros sempre criticaram a forma como os países europeus tratavam imigrantes. Agora, chegou a nossa vez – afirma Corinto.
Disponível em : http://www.dpf.gov.br

Trilha da Costura
Os imigrantes bolivianos, pelo último censo, são mais de 3 milhões, com população de aproximadamente 9,119 milhões de pessoas. A Bolívia em termos de IDH ocupa a posição de 114º de acordo com os parâmetros estabelecidos pela ONU. O país está no centro da  América do Sul e é o mais pobre, sendo 70% da população considerada miserável. Os principais países para onde os bolivianos imigrantes dirigem-se  são: Argentina, Brasil, Espanha e Estados Unidos.

Assim sendo, este é o quadro social em que se encontra a maioria da população Boliviana, estes dados já demonstraram que as motivações do fluxo de imigração não são políticas, mas econômicas. Como a maioria da população tem baixa qualificação, os trabalhos artesanais, culturais, de campo e de costura são os de mais fácil acesso.
OLIVEIRA, R.T. Disponível em: http://www.ipea.gov.b

Encerro
Quem decide o que é e o que não é “respeito aos direitos humanos”? É o examinador, por intermédio de seu braço operacional: os corretores. Um estudante que defendesse, por exemplo, o repatriamento de imigrantes ilegais em defesa da mão de obra brasileira estaria respeitando ou desrespeitando os tais “direitos humanos”? No próximo post, Mercadante entrega o serviço.

Por Reinaldo Azevedo

 

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