Blogs e Colunistas

protestos no Irã

28/06/2009

às 8:11

“Blogs são imprensa livre que não temos”, diz blogueiro do Irã

Exilado em Nova York, Roozbeh Mirebrahimi diz que é seu papel ajudar internautas iranianos a driblar censura do país

Jornalista diz, porém, que é impossível mudar regime somente por meio da internet; “o povo precisa estar na rua”, afirma ele

Por Raul Juste Lores, na Folha:
Em fevereiro, o jornalista e blogueiro iraniano Roozbeh Mirebrahimi, 30, foi condenado pela Justiça iraniana a dois anos de prisão e 84 chicotadas, por “propaganda contra o sistema”, por “difamação do Supremo Líder” e por “perturbar a ordem pública”.
A sentença saiu quando Mirebrahimi já estava em Nova York -ele fugiu há dois anos do Irã, depois de ficar desempregado nos primeiros dois anos do governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad, cuja reeleição no último dia 12 provocou uma inédita onda de protestos contra o regime islâmico.
“Fiquei em uma lista negra”, diz o jornalista.
Mirebrahimi estava no grupo dos quatro primeiros blogueiros que foram presos no Irã, no final de 2004, depois de revelar detalhes de uma investigação sobre a morte de uma jornalista no país.
Ele apanhou, foi torturado e abusado sexualmente nos 60 dias em que ficou preso. “Envelheci trinta anos na prisão” é o máximo que ele diz hoje sobre o período.
Formado em ciência política pela Universidade de Teerã, a melhor do país, ele nasceu em 1979, ano da vitória da Revolução Islâmica, em um vilarejo às margens do mar Cáspio. Filho de um taxista com uma costureira, Mirebrahimi morava em uma pequena casa na zona sul de Teerã, a mais pobre da capital, com a mulher, também jornalista e blogueira.
Tratado como herói na blogosfera iraniana, hoje ele edita um jornal sobre o Irã no exterior e colabora com a “resistência-cyber”, enviando programas que ajudam a driblar a censura iraniana para seus amigos que ainda estão no país.
Ele conversou com a Folha por telefone sobre as manifestações que perdem fôlego no Irã sob a repressão do regime. Mirebrahni diz que internet sozinha não faz revolução. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

27/06/2009

às 6:05

VEJA 4 - Mirem-se naquelas mulheres de Teerã

Fartas da opressão imposta pelos aiatolás, que as tratam como cidadãs de segunda classe, as iranianas fazem ouvir suas vozes à frente dos protestos


Thomaz Favaro

Ben Curtis/AP
A revolta do xador
Manifestantes iranianas vestem verde, a cor da oposição: a luta é também pela igualdade de direitos para as mulheres

 Os protestos no Irã ganharam um rosto: o de Neda Agha Soltan, a bela iraniana assassinada por um bassiji, membro da milícia islâmica ligada ao presidente Mahmoud Ahmadinejad. Vestida de jeans e com os cabelos cobertos, como manda a lei da república islâmica, a jovem estudante de filosofia de 26 anos levou um tiro no peito, disparado à queima-roupa. Em poucos segundos, seu rosto estava coberto pelo sangue que jorrou da boca e do nariz. “Pressionei a ferida para tentar estancar o sangramento, mas não consegui. Ela morreu em menos de um minuto”, disse o médico que tentou socorrê-la no local. A morte de Neda foi registrada em vídeo por celular. Colocadas na internet, as imagens circularam no globo, expondo o horror nas ruas de Teerã. “Qualquer um que tenha assistido a esse vídeo percebe que há algo fundamentalmente injusto ali”, disse o presidente americano, Barack Obama. Para evitar que o funeral se tornasse o epicentro de uma rebelião, o governo iraniano providenciou o enterro de Neda às pressas e proibiu sua família de falar com a imprensa. Foi em vão. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

27/06/2009

às 6:01

VEJA 5 - Os tiranos da Internet

Como o povo iraniano tem conseguido burlar o arsenal tecnológico dos aiatolás para blloquear o seu acesso à rede - e ao mundo


Camila Pereira e Renata Betti

A história mostra que qualquer ditadorzinho de aldeia sabe que sua permanência no poder exige censurar opositores. Os jornais são asfixiados economicamente ou simplesmente empastelados. As emissoras de televisão passam para as mãos do estado e vivem de cobrir eventos oficiais e de elogiar os mandatários. Mas como censurar a internet, essa rede caótica sem comando central formada por computadores que podem se ligar por cabos, satélites, retransmissores sem fio e cujos usuários têm meios de esconder facilmente sua identidade? A ditadura chinesa já censura a internet com um grau de sucesso apenas relativo. Mais recentemente, esse desafio foi colocado aos ditadores teocratas do Irã. Desde que o povo começou a se manifestar nas ruas contra o resultado fraudado das eleições presidenciais, os aiatolás passam dias e noites tentando cortar as ligações via internet dos iranianos com o exterior. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

26/06/2009

às 5:11

Líder opositor do Irã está sob prisão domiciliar, diz site

Da AP e Reuters, no Estadão:
O site de notícias iraniano Gooya.com, que opera fora do Irã, informou ontem que fontes em Teerã dizem que o líder reformista Mir Hossein Mousavi está sob prisão domiciliar. O opositor não é visto em público desde terça-feira. Como o trabalho da imprensa continua restrito, as únicas informações sobre a situação política do país são os relatos de testemunhas postados em blogs, sites e no Twitter.
Em seu site oficial, Mousavi prometeu não desistir de contestar a vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Apesar de não ter dito que está sob prisão domiciliar, o líder opositor disse que está sendo pressionado para retirar o pedido de anulação das eleições e denunciou tentativas de isolá-lo.
“Não estou pronto para desistir de exigir os direitos da população iraniana”, afirmou. “Estou determinado a provar que houve fraude.” Os protestos no Irã, os maiores desde a Revolução Islâmica de 1979, começaram depois de anunciada a vitória folgada de Ahmadinejad nas eleições do dia 12.
Mousavi e a oposição acusam o governo de fraude e exigem nova votação. O Conselho dos Guardiães, que supervisiona o processo eleitoral, reconheceu que houve irregularidade em 3 milhões de votos e em mais de 50 cidades do país, mas confirmou o resultado das urnas. A mídia estatal informou ontem que 8 milicianos basiji foram mortos nos protestos, além das 17 pessoas cujas mortes já haviam sido confirmadas.
Na terça-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama, se disse “assustado e indignado” com a repressão dos protestos no Irã. Ontem, Ahmadinejad exigiu que Obama não se meta em assuntos iranianos, acusando-o de ser igual ao ex-presidente George W. Bush. “O senhor Obama cometeu um erro. A pergunta é por que ele caiu nessa armadilha e disse coisas que Bush costumava dizer?”, disse Ahmadinejad. “Espero que não interfira nas questões iranianas e expresse arrependimento.”
O governo dos EUA negou as acusações. “Eu colocaria o presidente Ahmadinejad na lista de pessoas que estão tentando colocar os EUA no centro desse problema”, declarou Robert Gibbs, porta-voz da Casa Branca. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

25/06/2009

às 5:27

Irã despeja família de Neda e proíbe funeral

Do The Guardian, no Estadão:
Autoridades iranianas despejaram a família de Neda Agha Soltan, a estudante de 26 anos que teve sua morte registrada em vídeo - sucesso imediato no YouTube e atualmente um dos principais símbolos dos manifestantes. Pouco depois do assassinato a tiros da jovem, no sábado, parentes teriam sido forçados a deixar a casa onde Neda morava, uma residência de classe média alta no leste de Teerã.
Vizinhos disseram ao jornal The Guardian que o corpo da jovem não foi devolvido à família e autoridades teriam proibido a realização de um velório ou de cerimônias em mesquitas para Neda. Ela já teria sido enterrada sem o consentimento da família. “Eles (os parentes de Neda) foram forçados a deixar sua casa”, disse um vizinho que pediu anonimato.[THE FAMILY]
O governo iraniano acusa os manifestantes de terem arquitetado a morte de Neda para incitar novos protestos. O jornal pró-governo Javan chegou a afirmar que o correspondente da BBC expulso do Irã, Jon Leyne, contratou “bandidos” para atirar em Neda com o objetivo de transformar a tragédia em um documentário.
Segundo a Irna, a principal agência estatal de notícias, Neda foi morta por “grupos que querem criar uma divisão no país”. O objetivo, afirma a Irna, seria demonstrar a “crueldade” da República Islâmica.
Pouco após a morte de Neda, vizinhos iniciaram protestos na rua onde a estudante de filosofia morava. Mas policiais conseguiram abafar as manifestações rapidamente. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

25/06/2009

às 5:25

Antes de eleição, Obama escreveu carta a aiatolá

Iraniano citou correspondência em discurso; após repressão, acenos foram congelados

EUA decidem reenviar um embaixador à Síria, após hiato de quatro anos, dando seguimento à política de reaproximação com região

Por Sérgio Dávila, na Folha. Comento depois.
Antes das eleições presidenciais do último dia 12 no Irã, o presidente Barack Obama escreveu uma carta ao aiatolá Ali Khamenei, autoridade máxima daquele país. A menção à comunicação aparece no discurso que o líder supremo fez na última sexta-feira e passou despercebida pela mídia ocidental, embora pelo menos um site árabe a tenha citado.
“O presidente americano disse: “Nós estávamos esperando por um dia como esse para ver as pessoas nas ruas’”, disse Khamenei, na sexta. “Algumas pessoas atribuíram esses comentários a Obama, e então eles [o governo americano] escrevem cartas para dizer “nós estamos prontos para ter conexões [com o Irã]“, “nós respeitamos a República Islâmica” e, por outro lado, fazem esses comentários. Em quem nós devemos acreditar?”
Obama negou em sua entrevista coletiva de anteontem que tenha feito tais comentários celebrando a revolta de parte da população com os resultados das eleições iranianas. “Eles traduziram errado no Irã alguns comentários que eu fiz, sugerindo que eu estou dizendo aos manifestantes que saiam e protestem mais.”
O democrata não mencionou a carta, mas sua revelação mostra que os dois líderes estão usando aparições públicas para mandar recados um ao outro. Já durante a campanha, às críticas do republicano John McCain de que Obama aceitava sentar-se para conversar com o iraniano Mahmoud Ahmadinejad sem precondições, o então candidato democrata respondia que o verdadeiro poder no Irã estava com os clérigos, e não com o presidente.
A existência da comunicação não foi negada nem confirmada pela Casa Branca. “Esse governo tem mostrado um desejo de falar com a liderança do Irã e tem procurado se comunicar com o povo iraniano de várias maneiras”, disse o porta-voz, Robert Gibbs, que se recusou a dar mais detalhes além desse: “Não houve nenhuma comunicação com funcionários do governo iraniano depois das eleições” no Irã. Aqui

Comento
Cartinha? Do presidente dos EUA para o aiatolá? Obama não me surpreende. Só isso.

Por Reinaldo Azevedo

24/06/2009

às 18:59

Irã culpa terroristas por morte de jovem em protesto no sábado

 Neda virou símbolo da oposição no Irã

Foto AP - Neda virou símbolo da oposição no Irã

No Estadão On line. Volto depois:
O governo iraniano disse nesta quarta-feira, 24, que o atirador que matou a manifestante Neda Agha-Soltan durante um protesto contra o resultado das eleições presidenciais pode ter confundido a jovem com a irmã de “um terrorista”, informou a agência oficial Irna. Teerã culpou ainda ”grupos que querem criar divisão na nação” pelo assassinato - cujo vídeo circulou na internet - e disse que esses militantes a mataram “para acusar a República Islâmica de diálogo cruel com a oposição”, segundo a rede CNN. 
Na terça-feira, o noivo da garota de 16 anos morta no sábado afirmou que as autoridades do país proibiram sua família de realizar um funeral público, de acordo com a BBC Brasil. Uma foto do rosto de Neda ensanguentado foi usada em protestos realizados na capital iraniana e em várias cidades do mundo.
A jovem foi enterrada no domingo, no cemitério Behesht-e-Zahra, na zona sul de Teerã. “Eles nos pediram para sepultá-la numa parte do cemitério que, aparentemente, tinha sido separada pelas autoridades para fazer as covas para as pessoas mortas durante os protestos da semana passada”, afirmou Caspian Makan.
Segundo ele, Neda não estava participando diretamente dos protestos. “Ela estava em um carro, com seu professor de música, a alguns quarteirões de distância, presa no congestionamento. Ela estava cansada e com muito calor, então saiu do carro por alguns minutos”, disse o noivo. 
“Foi aí que aconteceu. As testemunhas disseram e o vídeo mostra claramente que prováveis paramilitares Basiji à paisana atiraram nela deliberadamente. Ela foi atingida no peito”, acrescentou. “Ela perdeu os sentidos poucos minutos depois. As pessoas ainda tentaram levá-la para o hospital mais próximo, mas já era tarde mais.”

Comento
Nada de novo no front das ditaduras e tiranias: as evidências de seus malfeitos são sempre obra de adversários e inimigos do regime.

Os protestos continuaram nesta quarta-feira, embora o mundo só saiba deles por meio de Informações fornecidas por manifestantes. A imprensa local está sob severa censura — só trata do caso para demonizar os manifestantes —, e os jornalistas estrangeiros foram expulsos do país.

Segundo o New York Times, a imprensa oficial admite a prisão, até agora, de 645 pessoas, mas organizações ligadas à defesa dos direitos humanos dizem que os detidos passam de 2 mil. Entre os presos, estariam 102 lideranças  políticas, 23 jornalistas, 79 estudantes e sete professores universitários.

E o mundo, nesta sua “Nova Primavera”, diz àquele gente: “Danem-se vocês; cada país com os seus problemas”. E Lula, “o cara”, emendaria: “Os vascaínos (ou flamenguistas) precisam respeitar o resultado do jogo”.

Estamos cegos de tanto iluminismo, blindados, se me permitem o trocadilho interlingüístico, por tanta luz.

Por Reinaldo Azevedo

24/06/2009

às 5:45

BEM-VINDOS A UMA NOVA ERA!!!

(texto atualizado às 5h47)
Muita gente se pergunta por quê. Outros tantos reagem com uma espécie de indignação paralisante e mal crêem nas palavras de Lula sobre o Irã. Há quem infira que só pode haver algum “negócio secreto” — já que tem petista no meio — entre os governos brasileiro e iraniano… Em suma: por que o nosso Schopenhauer é tão tenaz na defesa da legitimidade da eleição de Ahmadinejad se os próprios aiatolás do país admitem fraude? E eles a admitem num montante possível, dizem, de 3 milhões de votos. Uma enormidade!

O argumento aparentemente verossímil de Lula é primário. Ele poderia ser sintetizado assim: fraude existe quando a diferença não é tão grande. Saddam Hussein ganhava todos os pleitos com mais de 90%. Na Chechênia conflagrada e esmagada, Putin venceu uma disputa com… 99%. Ou seja: as tiranias e as ditaduras — e o Irã é uma ditadura onde há eleições —, quando fraudam as disputas, o fazem justamente de modo “convincente”. O argumento do Schopenhauer de Garanhuns concorre contra a sua própria tese. Já estamos acostumados ao padrão de argumentação de nosso maior pensador.

Sabe-se lá que tipo de negociação bilateral, eventualmente desconhecida, pode haver entre Brasil e Irã. Compreendo que muita gente suspeite de coisas. Amorim de um lado, aiatolás do outro, a chance de haver dejetos morais no meio é gigantesca. Acredito, no entanto, que não haja nada de especial. É só mais uma manifestação da contínua estupidez da política externa brasileira, alinhada com ditadores, antiimperialistas e vigaristas terceiro-mundistas e antiaamericanos desde o primeiro dia, desde a primeira hora.

Os gigantes do mundo emergente, Rússia e China, já reconheceram a reeleição de Ahmadinejad e o cumprimentaram de pronto. Estão pouco se lixando para o povo do Irã, apóie ele um candidato ou outro. A questão relevante, para eles, são os Estados Unidos: a Rússia porque, afinal, é a Rússia, a herdeira do império soviético e do grande conflito do século passado; a China porque se coloca com a candidata a ser a grande rival dos americanos neste século. Assim, se o Irã tem nos EUA o grande satã e se Obama não pode dar de ombros para a violência no país — ELE BEM QUE GOSTARIA; PREFERE FICAR MATANDO MOSCAS PARA AS CÂMERAS —, Rússia e China se apressam em caminhar na contramão.

E o Brasil quer estar nesse meio aí. Celso Amorim, o Colosso de Rhodes da diplomacia, atribuiu a suposta pouca expressão do Brasil no mundo — é conversa mole, claro; estou apenas reproduzindo o que se diz por lá — ao também suposto (porque a afirmação é mentirosa) alinhamento automático do Brasil com os EUA nas questões externas. Assim, o país só teria ganhado voz e importância no mundo quando passou a ser “independente”. E tal independência se expressaria deste modo: apoiando facínoras mundo afora em nome da autodeterminação dos povos.

E, como se nota, o governo nem mesmo opta por um silêncio prudente. Ao contrário: é falastrão. Numa entrevista concedida ontem a um programa de TV, Amorim ainda tentou arrumar um pouco a fala de Lula, sustentando que ele não teria exatamente defendido a legitimidade da eleição etc e tal. O próprio Schopenhauer, hoje, se encarregou de restabelecer o conteúdo original do que dissera. Acha a eleição legítima, sim. E a oposição é a responsável pelos conflitos. Sua posição reflete as escolhas que têm sido feitas pelo Itamaraty. Sem contar que Lula tem tal horror a oposição, que é contra até aquela do Irã…

Obama
Se já há uma disposição do mundo de afrontar os EUA quando este país é muito claro em seus pontos de vista, imaginem, então, quando eles têm a marca da ambigüidade obamista. Ninguém espera que Obama ameace Teerã com bombas, Mas suas declarações a respeito do que acontece naquele país beiram o patético.

De tal maneira se alimentou a picaretagem intelectual de que os EUA optariam sempre pelo diálogo — em oposição a Jorjibúxi, o demônio aposentado —, que agora se toma cuidado até mesmo com o repúdio à ação de uma milícia que atira a esmo contra a população na rua.

Cheguei a ser chamado de “cínico” quando, no dia da posse de Obama, escrevi aqui algo como: “Nossa! O mundo, sem Bush, ficou tão mais seguro. Agora, sim!”. Junto com Arnaldo Jabor, saudei a entrada da civilizãção ocidental no século21, uma era realmente nova!!! Ai, ai…

O mundo com Jorjibúxi era mesmo uma porcaria. Nada como esse novo humanismo que nasce sob os auspícios de Obama, Lula e Hu Jintao… Nunca mais se ouvirá falar daquela tara neocon de “impor democracia” a povos estrangeiros. Na nova era, estaremos todos felizes com as tiranias autóctones. Todo governo tem o direito de esmagar o seu próprio povo e de mandar a democracia às favas sem que outros o repreendam por isso.

Bando de vigaristas morais!

Acrescento
Na entrevista coletiva de ontem, indagado sobre sua moderação com o Irã, Obama exercitou o que chamo de “Paradigma Daladier-Chamberlain Para Lidar com Facínoras”, a saber: um confronto mais duro poderia ser pior ao próprio povo do Irã etc e tal. Vocês conhecem: é aquele raciocínio que prova por B mais B (sim, ele não tem “A”) que é preferível ser compreensivo com ditadores… E disse uma coisa realmente formidável: observou que, apesar de sua moderação, o Irã acusa o Departamento de Estado dos EUA de interferência indevida no país.

Trata-se de uma avaliação primitiva, quase colegial. Fosse um confronto puramente psicológico, Obama teria acabado de incorporar a lógica do adversário, vendo-se a si mesmo como o outro o vê; deixando-se seqüestrar pela opinião do inimigo. Como este jogo é pra valer, ficou claro que está mais preocupado com o que possam pensar dos EUA do que com o que os EUA efetivamente fazem e pensam de si mesmos.

Ora, convenham: os EUA sempre serão acusados de tudo e de qualquer coisa. É mesmo uma pena que os problemas do mundo não se resolvam na base da marquetagem. Bastaria dar o “pá” na mosca e sorrir satisfeito com os aplausos por tamanha ousadia.

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2009

às 18:04

Sobre cadáveres - Lula volta a defender legitimidade da eleição de Ahmadinejad e a atacar a oposição daquele país

Na Folha Online. Comento no post seguinte:
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou nesta terça-feira as mortes provocadas no Irã pela repressão aos manifestantes que protestam contra uma suposta fraude na eleição que reelegeu o presidente Mahmoud Ahmadinejad no último dia 12. O presidente brasileiro, que anteriormente havia dito que não acreditava que o resultado da eleição iraniana tivesse sido adulterado, afirmou que o povo iraniano não pode se transformar em vítima da irresponsabilidade de agentes políticos.
“Há uma oposição que não se conforma [com o resultado das eleições]. O resultado desse conflito são inocentes morrendo, o que é lamentável e inaceitável por parte de qualquer democrata do mundo”, afirmou o governante em declarações a jornalistas no Rio de Janeiro.
“Agora, ou a Justiça iraniana [intervém], ou o governo e a oposição se sentam e param o conflito, ou há novas eleições, ou se deixa como está, mas o povo não pode continuar sendo vítima da irresponsabilidade dos agentes políticos do Irã”, acrescentou.
Até agora, os protestos e confrontos no Irã deixaram pelo menos 20 mortos, segundo os números oficiais.
Lula recebeu críticas de setores da oposição no Brasil devido à rapidez com que, na semana passada, saiu em defesa da vitória eleitoral de Ahmadinejad e atribuiu as manifestações contra os resultados a “protestos de quem perdeu”, fazendo uma comparação com torcidas de futebol, assim como fizera o presidente iraniano.
Diante das críticas, o governo brasileiro tentou reinterpretar as declarações do presidente, afirmando que o país não tem uma posição definida sobre a eleição iraniana
Nesta terça-feira, Lula reiterou as declarações que tinha concedido na semana passada.
“Nas eleições brasileiras, as suspeitas de fraude geralmente ocorrem quando a diferença de votos entre os candidatos é de 1% ou 2%, e não quando há uma diferença tão expressiva”, afirmou.
“Existem coisas quase inexplicáveis no Irã. Há uma eleição na qual um cidadão obteve 62% dos votos. É muito difícil que alguém com 62% dos votos…”, acrescentou o presidente, ao dar a entender que, em sua opinião, a possibilidade de fraude é pequena.
O argumento é semelhante ao utilizado pelo líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, que disse em sermão na última sexta-feira que as eleições haviam sido justas e questionou: “Como alguém pode fraudar 11 milhões de votos?”.
Posteriormente, o Conselho dos Guardiães — misto de Senado e tribunal superior, responsável por ratificar a eleição — reconheceu que houve mais votos que eleitores em 50 cidades. Apesar de admitir erro em cerca de três milhões de votos, a instituição endossou a vitória do presidente, e descartou anular a eleição.

Obama
A reação internacional tem variado. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tem se manifestado em favor do diálogo e do direito de manifestação, com cautela para não ser acusado de interferência pelo governo do Irã, país com o qual os EUA não têm relações diplomáticas há três décadas. Obama tenta não romper o discurso de diálogo que adotou desde o início do governo com um país a quem os EUA acusam de desenvolver um programa nuclear para o desenvolvimento de armas atômicas –o Irã afirma que busca apenas produzir energia.
Mas a oposição republicana reclama um apoio mais firme aos protestos. Nesta terça-feira, Obama disse estar “escandalizado” com a violência no Irã. Além da questão nuclear, o histórico de intervenção americana alimenta a desconfiança do Irã: em 1953, os EUA participaram de um golpe contra o primeiro-ministro nacionalista Mohamed Mossadegh, e nos anos seguintes apoiaram o regime ditatorial do xá Reza Pahlevi.
Mesmo com as palavras medidas de Obama, o governo iraniano disse que os EUA têm se intrometido em seus assuntos internos, assim como estaria fazendo o Reino Unido — dois diplomatas britânicos foram expulsos do país. França e Alemanha fizeram manifestações mais firmes sobre as possíveis fraudes, enquanto Rússia e China afirmaram que se trata de um “assunto interno” do Irã.

Rússia e China
Os presidentes da Rússia, Dmitri Medvedev, da China, Hu Jintao, e dos demais membros da Organização de Cooperação de Xangai cumprimentaram Ahmadinejad pela vitória em uma cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, realizada na Rússia na semana passada.
Nesta segunda-feira, o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon apelou para que houvesse uma interrupção imediata das “detenções, ameaças e do uso da força” contra civis no Irã.

Venezuela
Grande aliado do Irã na América Latina, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, parabenizou Ahmadinejad por telefone no dia seguinte à eleição e neste domingo apelou para que o resultado da votação fosse aceito: “Pedimos respeito ao mundo. O triunfo de Ahmadinejad foi o triunfo de toda uma linha. Estão tentando manchar o triunfo de Ahmadinejad e, com isso, debilitar o governo e a revolução islâmica. Eu sei que não vão conseguir isso”.

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2009

às 5:39

Vídeo de morte de jovem iraniana vira símbolo de protestos


O vídeo acima é chocante. É um pouco mais do que um confronto entre times adversários, conforme definiram os pensadores Ahmadinejad e Luiz Inácio Lula da Silva

Por Sérgio Dávila, na Folha:
As imagens de violência contra manifestantes descontentes com o resultado das eleições iranianas que dominaram TVs e a internet no fim de semana deixaram o presidente Barack Obama “comovido”, segundo seu porta-voz. Ainda assim, o democrata insiste no discurso de não ingerência dos EUA em assuntos internos do Irã.
“Ao longo de sexta, sábado e domingo, ele ficou comovido pelo que viu na televisão”, disse Robert Gibbs, em entrevista coletiva na manhã de ontem.
“Principalmente pelas imagens das mulheres iranianas que lutaram por seu direito de protestar, de falar, de ser ouvidas.” Mas o presidente está cada vez mais convencido da necessidade de não se envolver diretamente no conflito pós-eleitoral, disse o porta-voz.
Em entrevista coletiva pela manhã em Washington, Reza Pahlevi, filho do xá iraniano deposto em 1979 pela Revolução Islâmica que vive nos EUA, disse que a não ingerência de nações estrangeiras era “admirável”, mas que “ninguém vai se beneficiar ao fechar os olhos para as facas e cabos cortando os rostos e bocas de nossos jovens e velhos. Só os tiranos”.
Gibbs disse que Obama se surpreendeu com a intensidade dos protestos no fim de semana, mas não soube dizer se o presidente tinha visto o vídeo feito por um celular que mostra o suposto assassinato de uma jovem iraniana durante manifestações de sábado. Ela foi identificada como Neda Agha-Soltan, ex-estudante de filosofia de 26 anos, que trabalhava com turismo em Teerã.
Segundo o “Los Angeles Times”, que conversou com familiares da vítima, Neda foi morta no sábado, durante protesto em Teerã, pela milícia basij, responsável pelos principais atos de violência contra os manifestantes. Pessoas ligadas ao governo teriam proibido que a família fizesse do velório um evento público, cientes do símbolo que ela virou para o movimento, afirma o diário.
O vídeo mostra uma jovem caindo no chão, com um ferimento no peito que sangra e pessoas correndo para a ajudar, aos gritos de “Neda! Neda!”. O celular a filma no momento em que seus olhos viram para cima e para o lado direito, e ela parece perder a vida naquele momento. Logo, sua boca e nariz começam a sangrar. Um grupo de homens a cerca.
Um deles seria um médico, segundo o escritor Paulo Coelho. “Meu melhor amigo no Irã, o médico que me mostrou a maravilhosa cultura do país quando eu visitei Teerã em 2000, que lutou em nome da República Islâmica (contra o Iraque), que cuidou de soldados feridos no front, que sempre defendeu valores humanos”, escreveu o brasileiro em seu blog. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

22/06/2009

às 21:39

Amorim reflete pisando em cadáveres: “Não cabe ao Brasil julgar o que acontece no Irã”

Por Gabriel Pinheiro, no Estadão Online:
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, evitou nesta segunda-feira, 22, opinar sobre a crise política iraniana. Indagado sobre o impasse por jornalistas no programa Roda Viva, da TV Cultura, o chanceler afirmou que “não cabe ao Brasil dizer o que o Irã tem que fazer”. “O país tem o sistema dele. Bom ou mau, isso cabe ao povo iraniano julgar (…) não cabe ao Brasil tomar uma posição.”
Sobre a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação à crise, que qualificou na semana passada os protestos da oposição iraniana pela anulação do pleito presidencial como demonstrações “de quem perdeu”, Amorim descartou avaliar a opinião como precipitada. “Tudo indicava que naquele momento o resultado estava adequado”, disse. “Ele não tomou posição, deu uma análise com os dados que dispunha.”
Defendendo a avaliação de Lula, o chanceler destacou que “foi uma eleição em que houve muito debate, muita discussão. Não é muito lógico que em uma votação dessa natureza tenha havido irregularidades tão massivas que conduzissem a um resultado de 63%”, acrescentou, referindo-se aos números oficiais que deram a reeleição ao presidente Mahmoud Ahmadinejad. “Efetivamente, está havendo um reexame dos votos. Nos acompanhamos.”
Segundo Amorim, o convite para a visita de Ahmadinejad ao País - que cancelou uma viagem oficial em maio -, “nunca foi retirado”. “O Irã é um importante interlocutor para a cena do Oriente Médio e questão nuclear”, explicou. “Devemos ter uma relação de Estado para Estado, como temos com muitos outros.”
Na época, o governo israelense protestou contra a visita, assim como entidades homossexuais e de defesa de direitos humanos em São Paulo e Rio de Janeiro, pelas duras posições de Ahmadinejad, que já chegou a dizer que o Estado Judeu deveria deixar de existir. O chanceler rebateu as críticas sobre o diálogo entre Irã e Brasil. “Em quantos países ocorreram coisas que também não apreciávamos? Isso não impediu nosso diálogo com eles.”

OEA e Conselho de Segurança
Sobre o papel do País na reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, Amorim afirmou que o Brasil “não quer posar de intermediário”. “Quando há o desejo de um ou de outro [para a interlocução], nós fazemos. Mas o Brasil não toma iniciativas nesse campo”, disse, destacando que as relações de Havana com Washington foram tratadas no encontro de Lula com o presidente Barack Obama, em março.
A entrada do País no Conselho de Segurança da ONU também foi abordada pelos jornalistas que participavam da entrevista. O chanceler disse que “não há uma campanha” para a obtenção de uma vaga no órgão, mas uma “caminhada que o Brasil não faz isolado”. “O processo de reforma [no Conselho] terá que acontecer, porque há muitos outros países que hoje são importantes. É algo que tem avançado, mas longe de mim achar que é uma questão fácil”, opinou.

Governo Obama
Para o chanceler, Obama e Lula têm muito em comum. “O Brasil e os EUA têm um diálogo ótimo, já tinham também no governo Bush. Agora, o presidente Obama tem muito mais semelhança com o presidente Lula, de preocupação com o social”, afirmou. 
“Tivemos excelente relações no G-20 e na OEA. Obama compreende mais o que está em jogo nos países da América do Sul”, acrescentou Amorim. Ele descartou avaliar, entretanto, se o País terá prioridade na nova Casa Branca. De acordo com Amorim, a questão prioritária é “relativa”. “O Iraque teve prioridade, e eu não sei se isso foi bom”, concluiu.

Por Reinaldo Azevedo

22/06/2009

às 4:45

Não contem pra Lula: Conselho de Guardiães admite irregularidades na eleição

Da AP, Efe e AFP, no Estadão:
O Conselho de Guardiães, órgão encarregado de validar os resultados das eleições presidenciais do Irã, admitiu na noite de ontem que houve irregularidades na votação do dia 12, que gerou a maior onda de protestos no país desde a Revolução Islâmica de 1979. Em entrevista à emissora estatal de TV IRIB, um porta-voz do conselho disse que em 50 cidades foram contabilizados mais votos do que o número de eleitores, uma diferença de 3 milhões de votos.
É a primeira vez que um órgão do governo de Teerã admite a possibilidade fraude na votação, denunciada pela oposição. Oficialmente, o presidente Mahmoud Ahmadinejad teve 63% dos votos e o candidato da oposição Mir Hossein Mousavi, 34%. O conselho, que na semana passada concordou em reabrir 10% das urnas, disse que apurava uma reclamação do candidato conservador, Mohsen Rezaei.
“A denúncia de Rezaei, de que havia mais votos que eleitores em 170 cidades, não é correta; isso ocorreu em apenas 50 cidades”, disse o porta-voz do conselho, Abbas Alí Kadkhodaei, citado pela TV estatal. “E não sabemos se essa diferença vai alterar o resultado da eleição”, emendou.
Enquanto isso, as forças de segurança intensificaram ontem o ritmo das prisões e ameaças contra jornalistas, blogueiros e opositores que denunciaram fraude na votação do dia 12. Entre os que foram detidos estava Faezah Hashemi, filha mais velha do ex-presidente e aiatolá Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, um líder reformista que apoiou o oposicionista Mousavi. Ela foi detida na madrugada de ontem, por ter participado de manifestações contra o governo, e libertada no fim da noite. Durante o dia, não foram registrados protestos violentos.
No sábado, os choques entre manifestantes e a polícia nas ruas de Teerã deixaram pelo menos 10 mortos segundo dados oficiais divulgados ontem, o que eleva para 17 o número de baixas desde a eleição. O número de feridos passou de 100. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

20/06/2009

às 7:19

VEJA 4 - Diogo Mainardi - Gafanhoto e a barbárie

“Lula apoiou Ahmadinejad, negando a possibilidade de que ele tenha recorrido a meios fraudulentos para  se eleger. Nesse ponto, foi mais rápido e categórico do que o próprio aiatolá Ali Khamenei, que encenou a pantomima de uma recontagem parcial dos votos”

Quando penso em Lula, penso em Kung Fu. O ator protagonista da série de TV Kung Fu morreu num hotel em Bangcoc. Ele foi encontrado dentro do armário, nu, com um cadarço de sapato enrolado no pescoço. Um de seus advogados declarou que ele pode ter sido assassinado por membros de uma seita secreta de artes marciais. Mas o legista que examinou o corpo, Khunying Pornthip Rojanasunand, concluiu que sua morte foi causada por uma “asfixia autoerótica”. Para tentar prolongar o prazer, o ator de Kung Fu teria se estrangulado acidentalmente.

Eu já chego em Mahmoud Ahmadinejad. E nos protestos dos iranianos na última semana. E nos manifestantes metralhados pelos paramilitares do regime dos aiatolás. Antes disso, tenho de esclarecer o paralelo estrambótico entre o ator de Kung Fu e Lula. O Mestre Kan, com sua imensa sabedoria shaolin, ensina: “Cada um deve encontrar sua trilha verdadeira e segui-la”. Eu, Gafanhoto, sigo minha trilha. O prazer de Lula é o poder. Para tentar prolongá-lo por mais quatro anos, ou por mais oito anos, ou por mais doze anos, ele decidiu antecipar a campanha presidencial. A manobra é arriscada. A candidatura de Dilma Rousseff, como um cadarço de sapato enrolado no pescoço de Lula, pode conduzi-lo ao êxtase em 2010. Mas pode também asfixiá-lo, privando-o de oxigênio nesse último período de seu mandato.

Lula apoiou Mahmoud Ahmadinejad, negando a possibilidade de que ele tenha recorrido a meios fraudulentos para se eleger. Nesse ponto, foi mais rápido e categórico do que o próprio aiatolá Ali Khamenei, que encenou a pantomima de uma recontagem parcial dos votos. Mas Lula fez algo muito pior do que isso: ele acusou as centenas de milhares de manifestantes iranianos que protestaram pacificamente nas ruas de desrespeitar o resultado das urnas. Ele as acusou de golpismo. No mesmo dia, sete pessoas foram mortas, repórteres estrangeiros foram proibidos de comparecer às passeatas e opositores do regime foram presos. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

20/06/2009

às 7:13

VEJA 7 - A revolta assusta os turbantes

Protestos contra fraude na reeleição de Ahmadinejad expõem o desejo de mudança de uma sociedade mais jovem, moderna e bem-educada que aquela que levou os aiatolás ao poder


Thomaz Favaro

Fotos Behrouz Mehri/AFP e Konstantin Chernichkin/Reuters
POR UM POUCO MAIS DE LIBERDADE
Mir Hossein Mousavi (de braços erguidos) lidera uma manifestação pela anulação das eleições. À direita, iranianas questionam: “Onde está meu voto?”

O mundo tornou-se mesmo pequeno. A ideia de liberdade individual chegou até o bastião da teocracia mais opressora do planeta. Os jovens iranianos que, desde a semana passada, saem às ruas para denunciar fraude nas eleições que reelegeram uma figura sinistra, o presidente Mahmoud Ahmadinejad, sinalizam algo inesperado no sufocante mundo criado pelos aiatolás. Eles querem igualdade entre homens e mulheres, mais acesso à internet, mais livros e liberdade de empreender. É sintomático que a primeira providência do regime na tentativa de esvaziar as manifestações tenha sido um ataque à internet. No sábado, o dia seguinte às eleições, as empresas estatais de telecomunicações simplesmente tiraram o plugue da tomada, suspendendo a comunicação de internet com o mundo exterior. O volume do tráfego de informações caiu de 5 gigabits por segundo (Gbps) para menos de 0,3 Gbps. A conexão foi sendo retomada paulatinamente ao longo dos dias subsequentes, mas ainda em volume reduzido. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

20/06/2009

às 7:01

Aiatolá exige o fim dos protestos e alerta para ”banho de sangue” no Irã

Do Guardian, Reuters e AP, no Estadão:
O aiatolá Ali Khamenei fez ontem uma dura advertência aos manifestantes que questionam o resultado da eleição presidencial no Irã. O líder supremo negou que tenha havido fraude, exigiu o fim dos protestos e disse que os líderes opositores são responsáveis por qualquer “derramamento de sangue”.
Falando a milhares de pessoas na Universidade de Teerã durante a tradicional prece de sexta-feira, Khamenei afirmou que “o povo escolheu quem queria” e responsabilizou o “extremismo” da oposição por qualquer ato de violência.
“As demonstrações de rua são inaceitáveis. Elas são uma afronta à democracia após as eleições”, disse Khamenei. “O resultado da eleição vem das urnas, não das ruas. Hoje, a nação iraniana precisa de calma.”
O líder supremo aproveitou também para atacar o que chamou de “interferência das potências estrangeiras”, que questionaram o resultado da eleição. O aiatolá disse que os “inimigos do Irã tentam minar a legitimidade do establishment islâmico”. Fazendo referência à invasão dos EUA ao Iraque e ao Afeganistão, ele criticou os americanos. “Não precisamos de conselhos deles sobre direitos humanos.”
Segundo o aiatolá, a eleição demonstrou a “confiança do povo no regime islâmico” com uma participação expressiva de 85% dos eleitores na votação do dia 12, quando o presidente iraniano, o conservador Mahmoud Ahmadinejad, obteve uma vitória fácil sobre o reformista Mir Hossein Mousavi (63% a 34%).
A oposição, que esperava uma disputa apertada, acusou o governo de fraude e saiu às ruas para exigir uma nova votação. Após seis dias de protestos, os mais intensos desde a Revolução Islâmica de 1979, ontem, pela primeira vez, não foram registrados protestos na capital.
O presidente Ahmadinejad, o prefeito de Teerã, Mohamed Baqer Qalibaf, e o presidente do Parlamento, Ali Larijani, compareceram ao discurso de Khamenei. Mas Mousavi e Mehdi Karroubi, outro candidato moderado derrotado nas eleições, não estiveram presentes. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

18/06/2009

às 5:37

Irã é hoje mais ditadura militar do que teocracia

Por Danielle Pletka e Ali Alfoneh, no New York Times (texto publicado no Estadão:

Logo após saírem os resultados da eleição fraudada no Irã, centenas de milhares de manifestantes saíram às ruas e era como se uma nova revolução fosse iminente. Mas, cinco dias depois, a revolta tornou-se pouco mais do que um protesto simbólico esmagado pela Guarda Revolucionária. Mas a verdadeira revolução ocorreu sem que se percebesse: a Guarda Revolucionária realizou um golpe de Estado silencioso.
As sementes desse golpe foram plantadas há quatro anos com a eleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. E embora ele tenha decepcionado a sociedade desde sua posse, não adotando as prometidas reformas políticas e econômicas, seus aliados hoje controlam o Irã. Na mais dramática reviravolta desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã passou de Estado teocrático para uma ditadura militar.
A desilusão com o governo clerical cresce há anos. Para os jovens das cidades, que formam a classe política mais atuante do Irã, os mulás simbolizam a rigidez primitiva da lei islâmica. Para os pobres das zonas rurais, encarnam a corrupção, indicada pelas escolas não construídas, estradas sem pavimentação e promessas de desenvolvimento não atendidas.
A hostilidade veio à tona durante a disputa presidencial em 2005, com a derrota do ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, considerado um clérigo corrupto, por Ahmadinejad.
A população via em Ahmadinejad uma pessoa que repudiava o desregramento da classe clerical, um asceta humilde e devoto. E ele tirou proveito dessa imagem para consolidar-se no poder e promover seus camaradas de armas. Quatorze dos 21 ministros de gabinete nomeados por ele são ex-membros da Guarda Revolucionária ou seus associados paramilitares, os basij. Alguns deles, incluindo o ministro da Defesa, Mustafa Mohammad Najjar, são veteranos de unidades famosas que apoiaram operações terroristas na década de 80.
Essa militarização paulatina e sub-reptícia não se restringiu ao governo central; cada vez mais, funções de governadores de províncias, comissários de imprensa, diretores de cinema, oficiais da inteligência e líderes empresariais são preenchidas por antigos membros da Guarda Revolucionária. Hoje a força de elite controla grande parte da economia, diretamente - por exemplo, os basij têm direito à extração de petróleo - ou por meio de empresas de representação como a Khatam al-Anbiya, que domina o setor de construção em todo o país. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

18/06/2009

às 5:35

Irã - Os fascistóides de Khamenei e Ahmadinejad nas ruas

Por Bill Keller, do New York Times, na Folha:
Os iranianos, de modo geral, veem a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad como um milagre.
Alguns acreditam em um milagre no sentido literal que o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, pareceu indicar quando declarou que a “mão milagrosa de Deus” estivera em ação. Outros acreditam em milagre porque não enxergam qualquer explicação terrena para o fato de um governante que presidiu sobre o agravamento da inflação, o aumento do desemprego e do isolamento do país ter atraído quase 8 milhões de votos a mais do que em sua primeira vitória nas urnas.
Os iranianos cosmopolitas aventam muitas teorias para explicar por que tantos de seus compatriotas toleram o paternalismo desta quase teocracia.
Um engenheiro: “Os iranianos são monarquistas”. A Revolução Islâmica de 1979 não expulsou o xá, diz. Só o substituiu por um líder supremo cuja palavra é literalmente lei.
Uma escritora: “Somos como crianças sexualmente abusadas”. Violados por aqueles de quem esperam proteção, disse ela, os iranianos acham que são abusados porque merecem isso. Não falam sobre o assunto porque sentem vergonha.
As teorias conspiratórias parecem vicejar em governos autoritários, possivelmente porque esses sistemas são, em essência, conspirações, eles próprios. No Irã, isso se aplica ao público em geral -basta ver quantas pessoas levaram canetas próprias às urnas por temer que as canetas fornecidas pelo governo tivessem tinta que poderia desaparecer.
E se aplica fartamente a seus governantes. A lista traçada por Ahmadinejad daqueles que querem acabar com o Irã inclui a maioria dos atores do pós-Segunda Guerra Mundial, mas no momento está focada sobretudo na imprensa ocidental, sem cuja ingerência, sugere, a população iraniana estaria feliz, unida e obediente.
Para ter uma ideia do que pode aguardar os insatisfeitos quando não houver ninguém para fazer o relato dos acontecimentos, vale notar o que aconteceu na noite de segunda em Isfahan, a terceira maior cidade do Irã, situada a cinco horas de carro da câmera de TV estrangeira mais próxima.
Como em Teerã, partes importantes da cidade exibiam cenas com fumaça e chamas, pedras estilhaçando janelas, cabeças ensanguentadas.
Em Isfahan, porém, a reação da polícia pareceu ser muito mais dura. Em um momento, um utilitário esportivo branco perseguiu um grupinho de manifestantes, em alta velocidade, e arremeteu contra eles, atropelando um deles.
Bandos de milicianos à paisana foram soltos às centenas para semear o medo longe dos protestos de fato. Muitos usavam as faixas de cabeça verdes da oposição como camuflagem.
Um grupo de pessoas que assistiam à confusão foi encurralado na antiga ponte Si-o-Seh e se viu diante de uma escolha: ter suas cabeças quebradas ou cair seis metros, até o leito seco do rio Zayandeh. No último instante, os agressores se desviaram, vendo outras presas que poderiam espancar.
Às 22h, como em Teerã, uma forma mais lírica de protesto começou, com manifestantes gritando em ondas desde os telhados de suas casas: “Deus é grande! Morte ao ditador!”. Em algumas partes de Isfahan, contaram moradores, agressores à paisana foram de porta em porta, quebrando janelas e às vezes atirando bombas de gás.

Por Reinaldo Azevedo

17/06/2009

às 21:52

Opositor e ex-presidente pedem que Irã liberte manifestantes

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Milhares de iranianos voltam às ruas em protesto contra Ahmadinejad. Foto: Reuters

Agência Estado, AP e Dow Jones :

O candidato presidencial derrotado Mir Hossein Mousavi e o líder reformista iraniano Mohammed Khatami, ex-presidente do país, pediram nesta quarta-feira, 17, às autoridades do Irã que libertem todas as pessoas presas nos últimos dias, em meio aos protestos que questionam a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. “Nós pedimos a vocês que tomem todas as medidas necessárias para colocar um final na preocupante situação que vivemos hoje, que parem as ações violentas contra as pessoas e que libertem os que foram presos”, escreveram em um comunicado conjunto publicado no site de campanha de Mousavi.

Nesta quarta-feira, houve mais algumas dezenas de prisões de reformistas e seus partidários. Mohammad Atrianfar, um reformista ligado ao ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, foi preso na terça-feira, segundo o funcionário da campanha reformista Issa Saharkhiz. Entre os detidos desta quarta-feira está Saeed Laylaz, um analista político e econômico, informou um familiar dele.

Dezenas de milhares de partidários de Mousavi participaram de mais um protesto nesta quarta-feira na capital iraniana contra o resultado das eleições. Jovens e idosos, alguns com as famílias, marcharam da praça Haft-e Tir, no centro de Teerã, até a praça Vali Asr, em uma demonstração “silenciosa”. Mousavi convocou para quinta uma grande manifestação em Teerã.

Vestindo faixas verdes nos punhos e nas cabeças, com a cor da campanha de Mousavi, os manifestantes, entre os quais estavam trabalhadores de escritórios, carregaram cartazes acusandoAhmadinejad de ter “roubado” os votos na eleição da sexta-feira passada. Mousavi não participou do protesto, que foi definido como “ilegal” pelo governo iraniano.

“Eleição não é seleção”, dizia uma faixa de protesto, enquanto outros, aparentemente com mensagens à polícia, diziam: “Não carregue cassetetes em nome do islã e dos mártires” e “Ficamos em silêncio, assim o (barulho do) tiro será melhor escutado”. Desde que o resultado das eleições foi anunciado sábado, Teerã tem sido sacudida por protestos diários contra Ahmadinejad, a maioria conduzidos por partidários de Mousavi, que afirma serem os resultados do pleito uma ostensiva fraude.

Sete pessoas foram mortas e várias feridas durante os protestos. O Irã proibiu a mídia estrangeira de informar manifestações “não autorizadas” e reuniões envolvendo partidários de Mousavi, mas a televisão estatal tem mostrado breves resumos das manifestações.

Por Reinaldo Azevedo

17/06/2009

às 5:43

Recontagem não contém protestos no Irã

Conselho dos Guardiães aceita rever resultado, mas oposição queria nova eleição; sete pessoas já morreram em confrontos

Apesar de regime reforçar cerco a oposicionistas, Teerã é palco de novos atos pró-Mousavi; cidade também vê manifestação pró-governo

 

Saman Aghvami/Isna/Associated Press
 

Partidários do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, durante manifestação ontem em Teerã; alguns exibiam imagens do líder supremo do país, Ali Khamenei

Por Raul Juste Lores, na Folha:
Após o maior protesto contra o governo em 30 anos de regime dos aiatolás, que deixou sete mortos anteontem, o Conselho dos Guardiães, instância máxima jurídica do Irã, negou ontem o pedido da oposição de se convocar novas eleições.
Depois das acusações de fraude na reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o conselho decidiu que serão recontados os votos em algumas áreas do país.
“Recontar algumas urnas não muda quase nada o resultado”, reagiu o líder opositor Mir Hossein Mousavi, segundo seu comitê. “Convocar novas eleições é a única maneira de fazer as pessoas ainda acreditarem neste sistema”, afirmou.
Uma nova passeata da oposição, que aconteceria na praça Liderança às 17h, foi cancelada ontem, depois que partidários de Ahmadinejad marcaram uma contramanifestação no mesmo lugar, às 16h.
“Por favor, pela vida de todos, peço que não participem da marcha de hoje”, disse mensagem colocada pela manhã no site de Mousavi.
No dia anterior, sete pessoas foram mortas ao final de uma manifestação pró-Mousavi que reuniu pelo menos 1 milhão de pessoas, nos cinco quilômetros que separam as praças da Revolução e da Liberdade.
Depois de ignorar os protestos por três dias, o telejornal da TV estatal fez uma reportagem sobre o “vandalismo” da oposição e as mortes, e chamou os manifestantes de “criminosos”. Não houve transmissão das imagens do protesto.
Como mensagens de texto por celular e redes sociais da internet continuam bloqueadas, a oposição tem se valido de propaganda boca a boca para organizar novas marchas, como um funeral simbólico aos sete mortos de ontem.
Uma manifestação em frente à sede da TV estatal aconteceu ontem pela manhã e reuniu 20 mil pessoas. Parte dos manifestantes usavam máscaras, como aquelas para evitar a transmissão de gripes, para proteger sua identidade dos serviços de segurança iranianos. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

17/06/2009

às 5:41

Milícia voluntária está no centro de repressão

Do Financial Times, na Folha:
Quando uma manifestação contra o governo ocupou a praça Azadi, em Teerã, na segunda, os participantes vaiaram os homens postados diante do prédio da milícia islâmica, conhecida como basij.
Pouco depois, tiros foram disparados, e ao que parece diversas pessoas foram mortas.
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu. A TV estatal informou ontem que “arruaceiros” atacaram um posto militar, e sete pessoas morreram como resultado do choque. A oposição reformista diz que os basiji dispararam com munição letal contra os manifestantes.
A oposição também responsabilizou a milícia pelo ataque a um alojamento da Universidade de Teerã. Farhad Rahbar, administrador-geral da universidade, denunciou a “invasão” do alojamento e a “presença ilegal de pessoas que não tinham mandado para tanto e atacaram os estudantes”.
Desde que começaram os protestos em Teerã, a milícia islâmica, cujo efetivo é de 12,5 milhões de pessoas e funciona como ala teoricamente voluntária da Guarda Revolucionária iraniana, passou a ser vista como o órgão mais ameaçador entre as forças de segurança.
A Guarda Revolucionária é a organização militar de elite do Irã e dispõe de forças terrestres, navais e aéreas que vieram a superar em efetivos o Exército regular depois da Revolução Islâmica de 1979. Quando é necessário enfrentar a oposição política interna, a Guarda em geral recorre aos basiji.
Vistos por alguns iranianos como arruaceiros profissionais e por outros como guardiães do espírito da revolução, os basiji acreditam firmemente na ideologia islâmica e representam a força mais confiável com que o regime conta para reprimir o descontentamento popular. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

 

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