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Oposições

07/05/2014

às 4:15

Oposição pede que Procuradoria-Geral abra inquérito para apurar improbidade administrativa de Dilma

Escrevi neste blog que o pronunciamento da presidente Dilma de 30 de abril feria a Lei Eleitoral e a Lei da Improbidade Administrativa. Será que a oposição leu o post e resolveu recorrer ao Ministério Público?

Pode ser que tenha lido, mas não apelou à Procuradoria-Geral da República por isso. Ela só o fez porque é o que diz a lei. Explico: os partidos de oposição decidiram recorrer nesta terça ao Ministério Público solicitando a abertura de inquérito para apurar se Dilma Rousseff e Thomas Traumann, ministro da Comunicação Social, cometeram crime de improbidade administrativa em razão do pronunciamento da presidente por ocasião do Dia do Trabalho.

Entendo, e escrevi isso aqui ontem, que, além de crime eleitoral, aquela patuscada também constitui uma agressão explícita à Lei 8.429, que é justamente a da improbidade. Por quê? Lá está escrito:
Art. 10. Constitui ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa, que enseje perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres das entidades referidas no art. 1º desta lei, e notadamente:
(…)
II – permitir ou concorrer para que pessoa física ou jurídica privada utilize bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas no art. 1º desta lei, sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie.

Ora, é mais do que evidente que a rede nacional de rádio e televisão é um bem público, que foi usado em benefício de um partido e de uma candidatura. Os partidos de oposição apontam, e com correção, entendo eu, que a presidente “ultrapassou os limites” da Constituição porque “individualizou e personificou as ações de governo, que devem atentar para o principio da impessoalidade”.

Na mosca! Tanto isso é verdade que a presidente não se vexou em classificar seus críticos de defensores “do quanto pior, melhor”. Logo, entende-se, o melhor para o povo é… Dilma! Mais: deixou claro que falava de uma suposta parceria de longo prazo, que se estenderia muito além de dezembro.

Sim, a máquina pública foi usada em benefício de interesses e de anseios privados, dela própria e de seu partido. E isso constitui, diz a lei, não o Reinaldo, improbidade administrativa. Eu só tratei disso um pouquinho antes.

Por Reinaldo Azevedo

15/04/2014

às 20:00

Senadores de oposição se encontram com Rosa Weber. Ou: A Constituição, o Regimento Interno e o habeas corpus

A ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, decide na semana que vem, depois do feriado, se acata ou não pedido de liminar da oposição em favor da CPI exclusiva da Petrobras. Como se sabe, a base governista decidiu combater esse requerimento com outro, que investiga, além da Petrobras, supostas irregularidade no Metrô de São Paulo e no porto de Suape, em Pernambuco — não por acaso, dois estados governados por oposicionistas. A má-fé dessa segunda iniciativa é tal que o próprio Cade investiga formação de cartel nos metrôs de Belo Horizonte e Porto Alegre, tocados por estatais federais. Não constam do requerimento governista. Estiveram com a ministra os senadores tucanos Aécio Neves (SP) e Aloysio Nunes (SP) e o Agripino Maia (DEM-RN).

Faz sentido uma questão como essa ir parar no Supremo? Faz! A CPI tem prescrição Constitucional. Está prevista no Parágrafo 3º do Artigo 58 da Carta, a saber:
§ 3º – As comissões parlamentares de inquérito, que terão poderes de investigação próprios das autoridades judiciais, além de outros previstos nos regimentos das respectivas Casas, serão criadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, em conjunto ou separadamente, mediante requerimento de um terço de seus membros, para a apuração de fato determinado e por prazo certo, sendo suas conclusões, se for o caso, encaminhadas ao Ministério Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores.

Em nenhum lugar está escrito que o presidente de cada uma das Casas Legislativas tem autoridade para decidir que CPI será ou não instalada, uma vez cumprida a disposição constitucional. O Capítulo XIV do Regimento Interno  do Senado também disciplina a matéria. Do mesmo modo, em nenhum lugar está escrito que, cumpridas as exigências de um terço de assinaturas e do fato determinado, cabe ao presidente da Mesa, discricionariamente, decidir que CPI será ou não instalada. E olhem que há nove artigos tratando do assunto: do 145 ao 153. Não há previsão ali para o exercício do autoritarismo criativo de Renan.

Se tudo isso fosse pouco, a natureza e a extensão da CPI já foram objetos da atenção do Supremo, no habeas corpus nº 71.039, de que foi relator, em 1994, o então ministro Paulo Brossard. Ali se evidencia que uma CPI tem de ter foco determinado. Não pode ser o samba-do-governo-doido. Uma vez instalada, a comissão pode até investigar fatos inicialmente não previstos, desde que relacionados com o objeto de investigação. O texto é explícito sobre a impossibilidade de uma comissão investigar toda e qualquer coisa. O que o caso da Petrobras tem a ver com o metrô de São Paulo e com o porto de Suape? Diz o governo: “é tudo obra tocada com dinheiro público!”. Bem, a ser assim, que se incluam na CPI todas as obras do país. Relembro o texto de Brossard:

 Acórdão sobre CPI 1

Acórdão sobre CPI2

Como se sabe, ao encaminhar os dois requerimentos à CCJ para que fizesse a sua escolha — como se isso constitucional e regimental –, Renan distorceu o sentido do habeas corpus, como se vê, de novo, abaixo.

documento Renan

Ao sair da audiência com Rosa Weber, afirmou o senador Aécio Neves: “Mostramos que se trata de um direito líquido e certo da minoria; um direito garantido no Regimento e na Constituição e que não pode ser violentado por uma ação da maioria. Não cabe ao presidente do Senado fazer juízo de valor, estabelecer mérito dessa ou daquela CPI, menos ou mais abrangente”.

É o que está na Constituição.

É o que está no Regimento Interno do Senado.

É o que está no habeas corpus.

Rosa não tem como não conceder essa liminar a menos que recorra ao exercício do direito criativo para endossar o autoritarismo criativo do presidente do Senado.

 

Por Reinaldo Azevedo

01/03/2013

às 18:05

Aécio critica estagnação econômica e diz que País está ‘no rumo errado’

No Estadão:
O senador Aécio Neves (MG), provável candidato do PSDB à Presidência da República em 2014, criticou o resultado do Produto Interno Bruto (PIB), que ficou em 0,9% em 2012. Em nota, o tucano afirmou que o governo Dilma Rousseff poderia ter tomado medidas no ano passado para evitar a estagnação, mas escolheu o “irrealismo”. Em sua avaliação, o Brasil segue “no rumo errado”.

“Se o governo Dilma não optasse pelo irrealismo e pela auto enganação, o País talvez tivesse se livrado do mau resultado do PIB anunciado hoje pelo IBGE”, inicia a nota do senador. “Tivesse o governo do PT tomado melhor pé da situação já no decorrer de 2012, é possível que nossa economia não tivesse tido desempenho tão negativo quanto o crescimento de 0,9% conhecido nesta manhã. Tempo perdido não se recupera”, afirma.

O tucano aponta que o Brasil cresceu “muito menos que o resto do mundo”, que setores como a indústria “vão de mal a pior” e a expectativa para os próximos meses na área de investimentos “não é das melhores”. “São diagnósticos que vimos apresentando ao longo dos últimos meses, mas aos quais a gestão da presidente Dilma Rousseff contrapôs-se com previsões tão otimistas quanto irrealistas. O resultado oficial do IBGE mostra que estávamos certos, infelizmente”, acrescenta.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

22/02/2013

às 19:36

Uma simples blogueira cubana, os fascistas, as oposições e o risco da irrelevância. Ou: 2014 agora??? Viva a Batalha de Itararé!

Há dois dias, talvez um tanto amuada pela chatice do noticiário de Brasília, a imprensa brasileira decidiu antecipar para 2012 a disputa de 2014, fazendo, querendo ou não, o jogo do PT, em especial de Lula. Os petistas decidiram escolher “o” adversário com dois anos de antecedência — o PSDB — e o candidato desse adversário; no caso, Aécio Neves (nem ele próprio se atribui ainda tal condição, que eu saiba). Trata-se de uma tentativa de criar desde já aquele que se lhes afigura o melhor cenário. O pior é outro, que contasse com as candidaturas de Dilma, Eduardo Campos, Marina, Aécio e, como o mundo é dinâmico, J. Pinto Fernandes, “o que não havia entrado na história”, como no poema de Drummond. Quem é ele? Sei lá eu! Pode acontecer, não pode? Lula e Dilma querem o Fla x Flu,  a melhor garantia para que tudo fique como está. Quanto mais candidatos, maiores as chances de um segundo turno e, por óbvio, maiores os riscos. O jornalismo fez aborrecidamente o esperado: relatou a Batalha de Itararé.

O repertório do lulo-petismo não parece esgotado, no sentido de não ter novidades, só na economia — se ainda funciona eleitoralmente, esse é o outro departamento. Também se esgotou o repertório político. A carta que os petistas têm na manga é a mesma de 2002, de 2006 e 2010: demonizar FHC. O livreto lançado pelo partido traz de novo aquela cascata do “nós” contra “eles”. O “nós” deles sempre faz tudo certo; o “eles”, tudo errado. Os tucanos reagiram com mais adjetivos e exclamações do que com números — A INCAPACIDADE DESSE PARTIDO DE PRODUZIR DADOS OBJETIVOS E DIVULGÁ-LOS É UM ESPANTO!

“E a blogueira cubana, Reinaldo?”

Pois é… Há dez anos, tenho perguntado às oposições — e não só eu!: “Onde estão os valores?”. Há dez anos tenho escrito, e não só eu, que não se enfrentam eleições só com administrativismo. Uma gestão desastrada certamente cria embaraços a quem disputa, mas uma gestão virtuosa pode ser derrotada nas urnas se não produz o que há anos chamo de uma “narrativa” — ou, como diria Padre Vieira, uma “história do futuro”. E, claro!, é preciso ter a devida história do passado.

Sim, o PSDB deveria ter respondido aos ataques feitos pelo PT, é evidente — com mais ênfase nos dados objetivos, reitero. Mas, enquanto se ficava fazendo a disputa sobre o passado, o presente estava vivo e ardendo. Uma simples blogueira cubana, que está longe de ser um furacão político, até bastante cordata e lhana, estava sendo xingada, ameaçada, intimidada… Fascistoides organizados pela embaixada cubana, com o beneplácito da Secretaria-Geral da Presidência da República, elevavam a intolerância a níveis inéditos depois da redemocratização.

As oposições convidaram Yoani para ir ao Congresso, é verdade. Mas só! Imediatamente após a sua chegada ao Brasil, sendo alvo de ataques já no aeroporto de Recife, uma comissão de parlamentares deveria ter sido criada para acompanhá-la. Isso teria excitado ainda mais a fúria de seus algozes morais? É possível! Mas as oposições estariam explicitando o seu repúdio à violência, à brutalidade, à agressão aos fundamentos básicos do regime democrático.

Essa era a batalha desses dois ou três dias, não aquela disputa sobre o passado. Reitero: era importante, sim, responder, mas sem cair no truque armado pelo petismo. “Olhem o Reinaldo… O povão nem sabe quem é essa tal Yoani…” É verdade! E também não tem a menor ideia do que sejam Taxa Selic, taxa de investimentos, Lei de Responsabilidade Fiscal etc. Entende, sim, aquela conversa mole de Dilma sobre o fim da miséria, outra armadilha meramente retórica da qual as oposições até agora não souberam sair. A linguagem com que respondem às agressões do petismo é, literalmente, incompreensível para as massas.

Há uma dificuldade enorme de falar diretamente com as pessoas e com os eleitores, sejam maiorias ou minorias. Em vez de ficar batendo boca com os petistas de gabinete e palanque, os oposicionistas deveriam é estar batendo boca, sim, com os fascistas nas ruas. Não para arrebanhar e arrebatar multidões, que isso não aconteceria. Mas para deixar claro que há no país forças organizadas que repudiam aquele comportamento miserável.

Não, meus caros! Eu não estou sugerindo ou inferindo que isso conquistaria votos. Eu nem mesmo pensei nisso. O ponto é outro: estou constatando que uma oposição, para existir, TEM DE EXISTIR POLITICAMENTE. Vai esperar para fazer isso só em 2014? Aqui e ali, ouço intervenções mais ou menos assim: “Nós não vamos nos comportar como eles porque somos diferentes dele…”. Ok, o fundamento está correto. “Não se comportar como eles”, no entanto, não pode significar deixar de enfrentá-los.

Temos uma oposição que parece destituída de um centro nervoso. Ora, é preciso que se tenha um núcleo de valores capaz de reagir quando agredido: “Não! Isso é inaceitável”. Parece-me que os ataques a Yoani passaram do limite do aceitável, não é?, em qualquer regime democrático — e isso inclui o nosso. Se o governismo nada faz porque, de modo objetivo, integra as forças do linchamento, quem há de fazê-lo? O senador Eduardo Suplicy, que vive cobrando, na prática, que Yoani prove não ser agente da CIA?

Caramba! Há, se não me engano, 80 deputados da oposição. No Senado, salvo engano, há 17 — um deles é do PSOL e não sairia em defesa de Yoani. Agem segundo a sua própria cabeça ao menos três da base governista. Assim, há um grupo aí de 99 políticos que, no papel ao menos, se opõem a governo. Essa gente, com uma exceção ou outra, não se deu conta da gravidade do caso. Nem mesmo era necessário aplaudir Yoani. Bastaria evidenciar que os fascistas não queriam deixá-la falar. Os parlamentares de oposição deveriam estar lá, entre outras coisas, para cobrar a presença ativa da Polícia Federal, especialmente depois que ficamos sabendo que agentes cubanos estão no seu encalço aqui no Brasil.

Nada! Estavam todos cumprindo a agenda estabelecida por Lula: “Olhem aqui: nós vamos atacar o FHC e vocês tratem de defender. Queremos disputar 2014 com essa plataforma de novo. E nós os escolhemos como ‘os’ adversários”. Não, não! Assim, só a irrelevância os espreita.

“Ah, esse papo de Yoani já encheu!”  Errado! Esse “papo de Yoani” é uma amostra do que acontece quando uma força política se hipertrofia no regime democrático sem, no entanto, acatar os valores da democracia.

Por Reinaldo Azevedo

20/02/2013

às 19:38

Aécio: “Quem governa o Brasil é a lógica da reeleição”

Por Gabriel Castro e Marcela Mattos, na VEJA.com:
“Setores do PT estimulam a intolerância como instrumento de ação política, tratam adversários como inimigos a ser batidos, tentam cercear a liberdade de imprensa, atacam e desqualificam os críticos, numa prática eminentemente autoritária”. Provável candidato à Presidência da República em 2014, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) fez nesta quarta-feira um discurso em que apresentou o que chamou de “treze fracassos” do PT –  que comemora 33 anos de fundação.

O tucano, que é pouco afeito a discursos agressivos em plenário, resolveu ser enfático e fez críticas diretas à presidente Dilma Rousseff, sua provável adversária na eleição. “Não é mais a presidente quem governa. Hoje, quem governa o Brasil é a lógica da reeleição”, disse ele.

Os treze pontos destacados por Aécio incluíram muitas críticas à gestão da petista. Ele citou maus resultados da economia, o fracasso da Petrobras, a lentidão nas obras do governo e os dificuldades na saúde e na educação. O tucano também defendeu o legado do governo FHC: “A grande verdade é que, nesses dez anos, o PT está exaurindo a herança bendita do governo Fernando Henrique Cardoso”.

O parlamentar criticou o que chamou de “intolerância” de parte dos petistas. “Setores do PT estimulam a intolerância como instrumento de ação política, tratam adversários como inimigos a ser batidos, tentam cercear a liberdade de imprensa, atacam e desqualificam os críticos, numa prática eminentemente autoritária”.

Mensalão
Sem fazer referências diretas ao mensalão, Aécio também tratou da leniência petista com envolvidos em escândalos de corrupção: “Não falta quem chegue a defender em praça pública a prática de ilegalidades sob a ótica de que os fins justificam os meios”.

O discurso de Aécio foi criticado pelo senador Lindberg Farias (PT-RJ), que fez um aparte ao pronunciamento tucano. O parlamentar petista tratou o colega como pré-candidato à Presidência e disse que o tucano não poderia omitir as conquistas dos governos do PT. Em sua reposta, Aécio foi cauteloso sobre 2014: “Minha candidatura não está em pauta ainda. O partido é quem vai decidir”.

De forma oblíqua, o tucano também respondeu às críticas de que sua postura de oposicionista é pouco firme: “Agir como o PT agiu enquanto oposição faria com que fôssemos iguais a eles. E nós não somos. Não fazemos oposição ao Brasil e os brasileiros”.

Além de Lindberg, o senador Wellington Dias (PI), líder do PT no Senado, também respondeu a Aécio: apresentou uma lista com 45 pontos em que o PSDB falhou durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

Por Reinaldo Azevedo

14/02/2013

às 16:54

PT fará festa comemorando os 10 anos de poder. Ou: Oposição precisa mais de Chacrinha do que de Maquiavel: “Quem não se comunica se trumbica”

O PT vai realizar um ato em São Paulo, no próximo dia 20, para comemorar os 10 anos do partido no poder. A Folha informa que os convites já começaram a ser distribuídos. Os petistas devem contar com pelo menos mil convidados, numa festa que contará com as presenças da presidente Dilma Rousseff e, claro!, de Luiz Inácio Lula da Silva. Em seguida, o Apedeuta dará início a uma série de viagens Brasil afora para, como se diz por lá, “defender o seu legado”.

Prestem atenção a esta fala de Paulo Frateschi, secretário de Organização do partido: “O objetivo é construir uma narrativa própria do PT, juntamente com seus militantes, sobre a chegada à Presidência da República”. Vamos ver.

Exceção feita ao ano do mensalão (2005), que foi uma crise política gerada pelo banditismo, o partido enfrenta o seu momento mais difícil no poder. A economia brasileira cresce pouco e mal; o Ministério da Fazenda tem recorrido cada vez mais à contabilidade criativa para fechar as contas públicas; a inflação insiste em ficar fora da meta; a taxa de investimento está bem abaixo do desejável; está em curso — e constatá-lo não depende de ideologia, mas de reconhecimento dos números — um claro processo de desindustrialização; as interferências do governo na economia não têm surtido os efeitos esperados.

Essa é a narrativa, vamos dizer assim, ditada pelos fatos. Mas, atenção!, partidos e organizações políticas podem e devem “construir uma narrativa própria”, como diz Frateschi, para disputar a atenção e, eventualmente, o coração das pessoas.

Pois é… Não é que, nesse particular ao menos, Reinaldo Azevedo e Paulo Frateschi concordam? Explico-me. No dia 3 de setembro do ano passado, escrevi aqui um post em que criticava o alheamento das oposições em relação ao julgamento do mensalão. Leiam trecho (em azul):

O Supremo Tribunal Federal está dizendo com todas as letras o que foi aquele imbróglio a que se chamou “mensalão” — e o nome poderia ser qualquer outro; isso é irrelevante. Ainda que todos os réus, doravante, fossem considerados inocentes — o que é improvável —, o mensalão (ou “roubalheira”, se alguns preferirem) já está comprovado de maneira acachapante. ESSA É A REALIDADE JURÍDICA, do mundo das leis. MAS É PRECISO QUE O EPISÓDIO SE TORNE TAMBÉM UMA REALIDADE POLÍTICA. Para tanto, alguém precisa se apossar dessa narrativa. OU POR OUTRA: FORÇAS POLÍTICAS TÊM DE FAZER DA VERDADE DOS AUTOS, DA VERDADE DOS FATOS, UMA VERDADE ATIVA, COM FACE POLÍTICA. Mas quê… Ninguém se oferece!
Ora, se inexistem forças políticas relevantes que deem o devido tratamento à verdade que vai se tornando clara no tribunal, há o risco, por incrível que pareça, de a farsa petista deitar sua sombra sobre os fatos.

Voltei
Como se vê, eu e o dirigente petista empregamos até o mesmo vocabulário, embora com entendimentos certamente opostos do que foi o mensalão. Frateschi quer que o PT permaneça no poder eternidade afora; eu acho bom para a democracia que o partido seja derrotado já em 2014. O fato é que os petistas se organizam para, então, contar a sua versão da história, o que, no ambiente democrático, é legítimo. A DISPUTA POLÍTICA, NO FIM DAS CONTAS, É MESMO UMA DISPUTA ENTRE NARRATIVAS.

É nesse sentido mais profundo que as oposições, na esfera federal, não têm feito política, entenderam? Os petistas se tornaram, por incrível que pareça, os autores da própria história, mas também da história alheia.

Não duvidem: nesse encontro do dia 20, que vai acontecer num hotel em São Paulo, não se falará do mensalão a não ser para negá-lo — e ainda de  modo oblíquo. Os mensaleiros estarão lá, recebidos como heróis, e as forças da “reação” e da “direita” serão, uma vez mais, esconjuradas. A militância será conclamada a reagir àqueles que supostamente pretendem destruir o partido e coisa e tal, enquanto as “grandes conquistas” dos dez anos de governo serão exaltadas.

Assim se faz política. E é bom deixar claro: o PT não está no poder por causa da vocação para a delinquência de alguns de seus líderes. Isso é bobagem. A rigor, a sem-vergonhice seria desnecessária para tanto. Ocorre que eles não conseguem se livrar de certos atavismos. O partido chegou ao topo e lá se mantém porque, no que concerne à disputa (não é uma avaliação de conteúdo), faz a coisa certa — tanto quanto as oposições insistem nas erradas.

Na sexta que antecedeu o Carnaval, escrevi aqui sobre a atuação das oposições em Brasília. Elas tinham antecipado o feriadão, e não havia sobrado vivalma em Brasília que pudesse ao menos puxar a orelha do governo pela disparada da inflação em janeiro.

Convenham. Os que se opõem ao PT podem até se dispensar de ler Maquiavel. Mas não podem ignorar o Chacrinha: “Quem não se comunica se trumbica”.

Por Reinaldo Azevedo

08/02/2013

às 6:40

Governo Dilma acumula fiascos, mas o fiasco da oposição, em ritmo de ziriguidum, consegue ser maior. Alalaô, ô, ô, ô…

Preste bem atenção, leitor amigo!

No dia 3 de setembro do ano passado, escrevi um texto afirmando que a oposição estava em greve havia sete anos — agora, quase oito. Quando decidiu que não iria tentar o impeachment de Lula mesmo depois de Duda Mendonça ter confessado que a campanha eleitoral de 2002 fora paga em moeda estrangeira, no exterior, com “recursos não contabilizados” e já no curso do mandato do Apedeuta, renunciava a seu papel. No dia 2 deste mês, publiquei o post “Tucanos pra quê?”. No dia 4, “Onde está a oposição que vai dizer: ‘isso não’? Para dizer ‘isso sim’ já existe a situação!” Um leitor até afirmou que ouviu de um tucano, amigo seu, a informação de que eu, na verdade, seria um perigoso esquerdista cumprindo o papel de excitar a militância vermelha. Pois é… Pelo visto, se não sou eu a fazê-lo, em companhia de mais uns dois ou três, morreremos no Brasil mais de tédio do que de bala ou de vício…

Os números da inflação de janeiro demonstram que as coisas não vão bem. Houve um aumento generalizado de preços, o que é ruim. Os preços dos alimentos, em particular, dispararam, como sabe quem vai ao supermercado. Dilma está conseguindo conjugar inflação alta, baixo crescimento e investimentos medíocres. Sabe-se agora que a contabilidade criativa de Guido Mantega teve de recorrer a uma grana do FGTS para conseguir fechar as contas. A Petrobras, a cada dia, tem uma má notícia nova, herança maldita da dupla José Sérgio Gabrielli-Luiz Inácio Lula da Silva. E, no entanto, cadê a oposição?

Ontem, lembra reportagem de Maria Lima, no Globo, era dia de a oposição deitar e rolar no Congresso. É o que a minoria faria em qualquer democracia do mundo. O governo foi acumulando notícias ruins. Mas cadê oposição? Foi pular o Carnaval antes da hora, que ninguém é de ferro, pô! Era só o que faltava, né? O Brasil em ritmo de ziriguidum, de balacobado, de telecoteco, e os oposicionistas vão ficar debatendo assuntos aborrecidos como inflação, crescimento, investimento, contabilidade criativa? E olhem que Mantega já começa a fazer inveja a Cristina Kirchner em matéria de manipulação de números, mas nada se diz por aqui. Alguém se espanta que senadores da oposição tenham traído Pedro Taques (PDT-MT) na eleição para o Senado?

Leiam um trecho do texto do Globo. Volto depois.

Quinta-feira de anúncio de novos números negativos da inflação seria, como avaliou um líder governista, dia de a oposição ocupar as tribunas e “nadar de braçada” nas críticas ao governo. Mas, no Senado, nenhum senador ou líder do PSDB ou do DEM apareceu para faturar. Só os governistas ocuparam o espaço da tribuna, com transmissão ao vivo pela TV Senado. Além da criticada omissão em relação às eleições de Renan Calheiros (PMDB-AL) e Henrique Alves (PMDB-RN) para os comandos do Senado e da Câmara, esta quinta-feira foi só mais um exemplo de como, num período em que o governo da presidente Dilma Rousseff enfrenta dificuldades de gestão e na condução da política econômica, a oposição se encolhe e silencia, em vez de partir para o ataque.

Ausentes desde a quarta-feira — alguns desde terça — para uma folga carnavalesca de duas semanas, os líderes da oposição fazem um mea-culpa da desarticulação, mas prometem unificar a atuação depois do carnaval. “A constatação é: o processo eleitoral do ano passado provocou um distanciamento da oposição. Mas nós do DEM, o PPS e o PSDB já superamos essas dificuldades e nos entendemos, e o diálogo voltou a ficar lubrificado. Vamos nos reunir depois do Carnaval para retomar uma ação unificada. O governo está errando e surfando sozinho porque nos distanciamos”, admitiu ontem, por telefone, o líder do DEM, senador Agripino Maia (RN).

Em conversas esta semana com colegas da oposição, o ex-líder do PSDB no Senado Álvaro Dias (PR) admitiu que o partido se perdeu na eleição do Senado. E culpa a eterna briga entre as alas ligadas ao senador Aécio Neves (MG) e ao ex-governador José Serra (SP). Ele chegou a defender que o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) abrisse mão da 1ª Secretaria da Mesa para reduzir o estrago no partido. Sem sucesso.
(…)
O professor de Filosofia Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Roberto Romano lembra que, na História recente do país, a oposição quase sempre foi minoria no Congresso Nacional, mas considera que nunca foi tão dramática a sensação de sua inexistência como na atualidade. “Em troca de um cargo na Mesa do Senado Federal, eles traíram, em sigilo, a palavra de ordem oposicionista. Essa oposição não diz a que veio, ela não tem uma alternativa de curto, médio e longo prazos para a economia do Brasil. A oposição nunca foi tão insignificante do ponto de vista político e legal como neste momento”, afirmou.

Os líderes governistas comemoram a ausência de ação do campo adversário. No plenário quase vazio do Senado, ontem, o líder do PMDB, Eunício Oliveira (CE), subiu à tribuna para defender o governo Dilma. “Hoje seria um prato cheio para a oposição, com esses números da inflação, que é uma preocupação nossa. Mas é a cabeça de cada um, né?”, comentou Eunício.
(…)

Voltei
Viram só a que ponto chegamos! O próprio líder do PMDB no Senado admite que a oposição tinha motivos para botar a boca no trombone. Mas já estava no “esquenta”, preparando-se para o alalaô… Uma oposição ausente, que não dialoga com os eleitores e que não politiza os temas que têm de ser politizados vai ser considerada alternativa de poder por quê?

Ora, se a oposição não constrói uma narrativa, não consegue contar nem a própria história. O Chile teve no ano passado uma inflação de 1,5% e cresceu quase 6% (5,4%). O Brasil cresceu 1% com uma inflação de 6,15%. Naquele país, o mandato é de quatro anos, sem reeleição. É grande a chance de Sebastián Piñera não fazer seu sucessor na eleição de dezembro. A oposição não lhe deu trégua — e isso com um baita terremoto em 2010, do qual o país se levantou de maneira notável. “Ah, mas é que lá não há os programas sociais, e os pobres estão descontentes…” Escolham o indicador social que vocês quiserem, e o dos chilenos é bem melhor. Acontece que, no Chile ou nos EUA, oposição se comporta como… oposição. Exótico, não? Podemos ir longe? A da Tunísia ou a do Egito são bem mais presentes do que a nossa, num cenário bem mais adverso…

Por Reinaldo Azevedo

07/02/2013

às 5:51

Oposições emitem nota de repúdio à presença de embaixador da Venezuela em ato contra o Poder Judiciário do Brasil. Ou: Uma imprensa escandalosamente omissa!

Com alguma frequência, lê-se na imprensa brasileira que as oposições não dão combate, que evitam o confronto com o governo, que não enfrentam o petismo. Tem sido verdade. Mas o que dizer dessa mesma imprensa?

A Caravana do Delírio de José Dirceu, que percorre o país, estacionou nesta terça em Brasília. O chefão petista vociferou à vontade contra a imprensa e o Judiciário. Estava presente ao ato ninguém menos do que Maximilien Sánchez Averláiz, embaixador da Venezuela no Brasil. É um escracho e um acinte. Escrevi a respeito. O texto ficou como submanchete da VEJA.com durante parte da noite desta terça e manhã desta quarta.

Por incrível que pareça, foi o único veículo de comunicação que atentou para a gravidade do caso. O embaixador de um país estrangeiro se metia numa questão interna, mais precisamente num ato de protesto contra decisão tomada pela instância máxima do Poder Judiciário. Quando menos, é o caso de a presidente Dilma Rousseff cobrar explicações da Venezuela, por intermédio do Itamaraty. No limite, Avarláiz deveria ser expulso do Brasil.

Os três partidos de oposição — PSDB, DEM e PPS — emitiram uma nota conjunta de repúdio à interferência de Avarláiz em assuntos internos e anuncia que vai cobrar explicações de Antônio Patriota, ministro das Relações Exteriores. Até agora, vergonhosamente, o Itamaraty está mudo.

Faz sentido, né? Samuel Pinheiro Guimarães, que foi secretário-geral das Relações Exteriores do Itamaraty entre 2003 e 2009, estava lá. Ele ainda é a eminência pardo-vermelha da política externa brasileira. É quem procura dar alcance teórico aos delírios. Segue íntegra da nota.

NOTA DE REPÚDIO À INTERFERÊNCIA DO EMBAIXADOR DA VENEZUELA EM ASSUNTOS INTERNOS DO BRASIL

O PSDB, PPS e Democratas manifestam de forma conjunta seu protesto e indignação diante da interferência indevida do embaixador da Venezuela, senhor Maximilien Sánchez Averláiz, em assuntos internos do Brasil.

A presença do embaixador venezuelano em ato organizado ontem pelo petista José Dirceu, ex-ministro do governo Lula condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha, para tentar desqualificar o resultado final do julgamento do mensalão, definido pelo Supremo Tribunal Federal, afronta a soberania do Brasil e mereceria o repúdio imediato das autoridades brasileiras, a começar pelo Ministério das Relações Exteriores.

Diante disso, exigiremos, no âmbito do Congresso Nacional, explicações do chanceler brasileiro, Antônio Patriota, sobre a omissão do governo da presidente Dilma Rousseff diante de um episódio de tamanha gravidade.

Brasília, 06 de fevereiro de 2012
Deputado Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB
Deputado Roberto Freire, presidente nacional do PPS
Senador José Agripino, presidente nacional do Democratas

Texto publicado originalmente às 20h29 desta quarta
Por Reinaldo Azevedo

04/02/2013

às 7:09

Onde está a oposição que vai dizer: “isso não”? Para dizer “isso sim” já existe a situação!

Duas palavras servem para definir a democracia: “Isso não!”. Alguém poderia, “caetaneando o que há de bom”, como naquela música, indagar: “Ora, Reinaldo, coragem grande é poder dizer ‘sim’ mesmo quando se é oposição.” Pode ser. O “isso sim” só não define a democracia porque, nas ditaduras, também é permitido concordar, entenderam? O regime democrático só é mesmo testado e aprovado quando se pode dizer “não” sem que, por isso, aquele que resiste seja privado de direitos, de opinião, de voz. Refiro-me, é óbvio, ao direito de discordar sobre o andamento das questões de natureza pública, não à transgressão das leis democraticamente pactuadas.

Volto ao tema de que tratei aqui anteontem: se, no limite, não temos uma oposição para dizer “isso não”, então temos oposição para quê? Para dizer “isso sim” já existem as forças do oficialismo. E noto: no que concerne à independência entre os Poderes da República e ao brio das instituições, mesmo legendas governistas — ou parte de seus membros — podem resistir à orientação do Executivo. Volto ao caso dos EUA: não é verdade que só os republicanos deram combate ao programa original de Barack Obama para o sistema de saúde. Uma boa parcela de democratas também se opôs.

É preciso, este é o meu ponto, entender quando se está diante de uma situação-limite. Ora, é tal a penúria das oposições na esfera federal — e não porque tenham apostado no “quanto pior, melhor” e sido derrotadas; isso não aconteceu — que lhes caberia, insisto, na eleição das respectivas Mesas do Senado e da Câmara, enviar uma mensagem clara e firme à sociedade: “Isso não!”. Ou, para aplicar o conceito à espécie: “Esses não!”.

Não é aceitável que as duas Casas do Congresso Nacional sejam presididas por lideranças que são, quando menos, controversas. Não, senhores! Não quero prejulgar ninguém e defendo o fundamento de que ninguém pode ser considerado culpado a menos que seja essa a decisão irrecorrível da Justiça. Não estava, ou não estou, querendo cassar de Renan ou de Alves um direito em exercício: presidir o Senado e a Câmara, respectivamente. Sendo quem são, tal função era apenas uma possibilidade. O que eu estava e estou a dizer é que eles não reúnem condições políticas para tanto. Não quando um é investigado por enriquecimento ilícito, e o outro pode ser réu a qualquer momento.

O exercício da política, isto é sabido, é mais amplo do que o terreno da legalidade — o que não quer dizer que eu aprove ações políticas que transgridam as leis. O que estou a afirmar é que a política lida com valores, com conceitos, com sentimentos, com aspirações que vão além do que podem prever os códigos legais. Ora, fiquemos num exemplo de apelo quase circense, embora a coisa não tenha graça nenhuma: não há lei brasileira que impeça hoje Paulo Maluf de ser deputado — e isso indica que devemos, é evidente, rever os nossos códigos, e há leis que disciplinam essa revisão. Esse mesmo Maluf, no entanto, não pode pisar em vários países porque a Interpol o trancafiaria. O fato de a legalidade permitir que seja deputado não altera a sua biografia. Continuará a ser quem é.

E é, então, de valores que estou a falar aqui. Em que terreno vai operar a oposição? “Vale a pena, Reinaldo, correr o risco de ficar fora da Mesa da Câmara só para expressar um protesto?” O Congresso tem segredos arcanos para a esmagadora maioria dos brasileiros. Ainda que milhões votem em deputados e senadores a cada quatro anos, a atividade, infelizmente, não é bem-vista. O escândalo do mensalão, por exemplo, embora tivesse como chefe da quadrilha um ministro do Estado e tenha sido operado, agora já se sabe, de dentro do Palácio do Planalto, recaiu sobre as costas do Parlamento. A imagem de Lula quase não sofreu arranhões.

Ocupar esse lugar na Mesa (ainda que ocorresse a retaliação) é mais importante do que dizer com clareza “esses não”??? Bem, não sou político. Não me obrigo, assim, a fazer escolhas que eventualmente não sejam do meu gosto em nome do realismo; não preciso fazer isso. Em muitos aspectos, reconheço, sou mais livre do que um deputado ou senador, governistas ou oposicionistas. É necessário, no entanto, que se reconheça que esse realismo bem pouco criativo das oposições não tem rendido nada de grandioso ou de útil.

Querem ver? Eu estou entre aqueles que não acreditam — e tomara que esteja errado! — que o governador Eduardo Campos (PSB), de Pernambuco, se aventure a disputar a Presidência em 2014. Ainda que não dispute, o fato é que ele está, quando menos, testando o terreno. O fato de haver um candidato do PSB à Presidência da Câmara — Júlio Delgado, de Minas — acena com algum inconformismo.

As oposições, o PSDB em particular, não poderiam, sob nenhuma hipótese, estar a reboque nesse processo. Menos, insisto neste aspecto, pelo fato de Henrique Eduardo Alves ser o candidato de Dilma do que por ser… Henrique Eduardo Alves. Tomo essa incapacidade de exercitar uma voz reconhecível como, lamento dizer, uma incapacidade de ler as aspirações de milhões de brasileiros. Esse é um dos momentos que deveriam servir para que se começasse a plasmar uma identidade não só reativa, mas também afirmativa.

É preciso dar ao eleitorado motivos para desembarcar do governismo, ora! Esses “motivos”, nas democracias, não são oferecidos apenas pela árvore dos acontecimentos. A mediocridade militante tende a reduzir tudo aos resultados disso ou daquilo: “Se a economia estiver bem, se os programas sociais funcionarem…”. Fosse assim, governos bem-sucedidos ou que exibissem bons resultados jamais perderiam eleições. A história é rica em exemplos contrários.

Ao longo desses dez anos de governo petista, as oposições, os tucanos em particular, não têm conseguido criar uma pauta que mobilize minimamente a sociedade. É difícil, dadas as circunstâncias? É, sim! Mas também se verifica que, mesmo quando há a oportunidade, o que se tem é silêncio.

Na última edição da VEJA de 2010, escrevi um longo artigo sobre o que eu entendia serem os erros da oposição e tratava de uma agenda que me parecia pertinente. Assinaria aquele texto ainda hoje. Não é um programa porque esse não é meu papel nem tenho competência pra isso. Espantava-me então, e me espanta ainda hoje, reitero, a dificuldade que têm as oposições, os tucanos em particular, de ouvir os anseios de milhões de brasileiros — anseios que, e isto é espantoso, não coincidem com os do petismo em muitos quesitos.

Se o que eu escrevo agora tiver algum sotaque populista, será por incompetência do redator, que não terá sabido se expressar. Mas lá vou eu: os tucanos precisam ser menos burocráticos, menos congressuais, menos palacianos e ouvir mais as ruas. Não! Não se trata de aderir ao palanquismo desenfreado e à retórica tola das soluções fáceis e erradas para problemas difíceis. Trata-se de entender — e se deixar mover um pouco por eles — certos anseios que estão na praça. E um deles é, sim, por mais ética na política — bandeira que o petismo, quem diria?, já empunhou.

Não será silenciando diante da ascensão de Renan e Alves ao comando do Congresso que se vai chegar a algum lugar. Um tucano mais cético, que pode me achar meio bobo por escrever essas coisas, até poderia dizer: “Ah, quem liga para isso? A maioria do povão nem sabe o que está acontecendo…”. Digamos que assim seja: ocorre que há, então, uma minoria importante que sabe. E essa minoria está levando uma banana das oposições, sem que, em razão disso, elas tenham descoberto um modo de chegar àquele tal povão…

Por Reinaldo Azevedo

04/02/2013

às 7:03

Alves, investigado por enriquecimento ilícito, pode se eleger hoje presidente da Câmara; é o 2º na linha sucessória, depois de Temer; o 3º é Renan… O resto é silêncio

Corre na Justiça Federal de Brasília, em sigilo, uma investigação contra o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) por enriquecimento ilícito. Ele concorre hoje à Presidência da Câmara. É o favorito. Seus adversários são Rose de Freitas (ES), também uma peemedebista, e Júlio Delgado, do PSB de Minas. Pipocou um monte de denúncias contra Alves nos últimos tempos, o que ele atribui à manobra de adversários e coisa e tal. Mas sua maior antípoda, nessa área, é Mônica Infante de Azambuja, sua ex-mulher. Numa ação que pedia aumento da pensão alimentícia, ela o acusou, em 2002, de manter UR$ 15 milhões em contas no exterior, dinheiro que, se existente, ele jamais declarou. “Tudo ressentimento de ex…”, dirão alguns. Pode ser.  Os casos recentes, vejam no arquivo, evidenciam que o deputado não é, assim, um exemplo de ortodoxia.

Com o apoio do governo, é o franco favorito. Mas não é só. Ele conta também com a simpatia de uma boa parcela de parlamentares da oposição. Em tempos em que se fala em renovação, vejam que graça!, Alves é o mais antigo deputado da Câmara: está lá desde 1971. Como se de diz por aí, o diabo é diabo porque é velho, mas porque é sábio. É bem verdade que ele é bastante sabido nas artes em que se especializou o PMDB.

O Congresso brasileiro, assim, será mesmo papa-fina. Se eleito presidente da Câmara, Alves, investigado por enriquecimento ilícito, passa a ser o segundo homem na linha sucessória — só atrás do vice, Michel Temer. O terceiro é o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que pode se tornar réu no STF. Sim, eu me lembro: o relator é o ministro Ricardo Lewandowski, que já avisou, em outras palavras, que ele pode demorar a decidir.

Num país em que o Executivo é hipertrofiado por tradição e, não há como negar, por causa da Constituição de 1988, um Congresso com esse comando é o sonho de consumo de qualquer chefe do Executivo. Quanto a presidente é uma Dilma Rousseff, então, é o caso de soltar rojões.

Não é segredo para ninguém que uma das razões do prestígio popular de Dilma, que é inegável, é sua fama de durona com a corrupção — sim, ela apoia Alves. Num eventual embate entre o Executivo e o Legislativo, será a “incorruptível” de um lado contra tipos como Renan e Alves do outro. Adivinhem com quem ficará a opinião pública, ainda que o Congresso possa estar certo…

Oposições
Também nesse caso, insisto, as oposições, se unidas e atentas ao que se passa em parcelas importantes do Brasil, deveriam propor um nome alternativo, ainda que certa da derrota. “Ah, mas e os cargos na Mesa?” Bem, aí é preciso saber com quem os oposicionistas querem e precisam falar. Em tempo de Ficha Limpa (a lei é torta, mas a intenção é louvável) e de condenação de mensaleiros no STF, também essa eleição não poderia se dar no ambiente que o senador Pedro Taques (PDT-MT) classificou de silêncio cúmplice.

Insisto neste aspecto: as oposições teriam de perceber que não se vive um tempo qualquer e que Renan e Alves não são homens quaisquer.

Por Reinaldo Azevedo

01/02/2013

às 7:29

Taques vai perder para Renan daqui a pouco. Vejam por que há nisso algumas vitórias. Ou: 300 mil contra Renan daqui a pouquinho

É claro que o senador Pedro Taques (PDT-MT) vai perder a disputa pela Presidência do Senado para Renan Calheiros (PMDB-AL). Mas isso está longe de ser o mais importante. A vitória já está dada: haver, ao menos disputa. O fato de uma parcela dos senadores se rebelar contra o candidato oficial é a boa notícia — muito especialmente quando ele tem a ficha de Renan.

PSDB (11), PDT (5), DEM (4) e PSOL (1) anunciaram o voto em Taques. Espera-se que os peemedebistas Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE) também recusem o nome de Renan. O PSB decidiu que seus quatro representantes não votarão no peemedebista, mas não anunciou apoio a Taques. Se todos esses se juntarem, o senador por Mato Grosso pode chegar a 27 votos — um terço do total de 81.

Os entusiastas de Renan falam em até 70 votos porque apostam nas traições. O PMDB tem 20 senadores — 18 devem estar garantidos para o parlamentar de Alagoas. O PT conta com 12. Só essas duas legendas já garantem 30 votos para o candidato peemedebista.

Haverá traições na oposição? Possível é. Vamos ver. Renan, já informei aqui, é figura influente no Senado, e seus amigos se distribuem por todas as bancadas. Há corações tucanos e democratas que batem por ele. No próprio PDT, que está na base do governo, havia quem preferisse que o colega de partido ficasse fora dessa.

Nos seus vitupérios contra a imprensa, Rui Falcão deixou claro que os partidos de oposição não incomodam o governo. Ele não gosta é da imprensa e do Ministério Público porque, disse, são as verdadeiras oposições no Brasil. Na essência, é uma tolice e uma mentira. Mas entendo o que ele quis dizer. Com as exceções de hábito, os adversários do petismo oferecem pouco combate.

Desta vez, mesmo para perder e correndo o risco de ficar fora da Mesa Diretora, as oposições decidiram dar sinal de vida. Foi uma imposição da ética, cedendo ao convite ao brio de milhões de brasileiros. Milhares, Brasil afora, mesmo sabendo que vão perder, aderiram à petição de repúdio a Renan. Neste momento, os signatários já chegam a 285 mil. As oposições precisam aprender a perder com os bons se querem, um dia, vencer. Não é só frase de efeito. Perder com os bons significa dizer o que tem de ser dito e fazer o que tem de ser feito. Ela também foi eleita pelo povo. E eleita para se opor. O Senado que cassou, por bons motivos, o mandato de Demóstenes Torres não pode eleger Renan presidente da Casa sob silêncio.

Para assinar a petição, clique aqui.

Por Reinaldo Azevedo

14/01/2013

às 6:55

Dilma tem dois anos para fazer o que o PT não fez em 10! E a oposição também!!!

A presidente Dilma Rousseff chega à metade do mandato. Já dá para saber se vai ou não cumprir as suas principais promessas. Não vai! A diferença entre a meta e a realidade é gritante. Em alguns casos, escandalosa. Pegue-se o caso das creches prometidas pela soberana: dado o atual ritmo, a presidente entregará as 6 mil prometidas na campanha de 2010 só daqui a… 600 anos.

Dilma não cumprirá o prometido nos setores de energia, rodovias, habitação, aeroportos, creches, saúde e saneamento, entre outros. Reportagem de Robson Bonin, Ana Luíza Daltro e Bianca Alvarenga, publicada na VEJA desta semana, faz um retrato das realizações do governo. Leiam trechos. Volto em seguida.
*
Pibinho, inflação e risco de apagão. O saldo dos dois primeiros anos de Dilma Rousseff ficou a quilômetros de distância das metas estabelecidas pelo próprio governo. O crescimento anual médio no biênio não passou de 2%, o pior início de mandato desde Fernando Collor. A inflação, medida pelo IPCA, encerrou 2012 em 5,84%. Pelo terceiro ano seguido, houve reajuste nos preços acima do centro da meta oficial, de 4.5%. O desempenho econômico, nos dois últimos anos, foi inferior ao de países como o Chile, a Colômbia e o Peru, onde a inflação não é nem metade da brasileira e o crescimento é o dobro do nosso. No setor de energia elétrica, a combinação de poucas chuvas e investimentos atrasados deixou o país mais uma vez sob a ameaça de um racionamento. Balanços do próprio governo mostram que mais da metade das obras em usinas de geração energética possui algum tipo de atraso, duas dezenas de termelétricas que deveriam estar prontas não saíram do papel e 75% dos projetos de novas linhas de transmissão não avançam dentro do prazo. Os contratempos não se limitam a esse setor. Duplicações de rodovias federais cuja inauguração estava prevista para o ano passado ainda nem começaram a ser executadas, e extensões em linhas de trem estão com dois anos de atraso.
(…)
Entregar obras, obviamente, é mais complicado do que estabelecer metas, sobretudo no universo da gestão pública, indissociável da burocracia e da ineficiência. Um bom exemplo são os aeroportos das cidades-sede da Copa de 2014. O objetivo de privatizar os aeroportos do Galeão e de Confins ainda neste ano é bastante ambicioso, segundo Claudio Fríschtak, fundador da consultoria Inter-B e um dos maiores especialistas do país em infraestrutura. O processo de concessões exige uma série de estudos prévios que devem ficar prontos em abril, na melhor das hipóteses. Uma vez encerrados, existe a fase de consulta pública. Por fim, as obras deverão atrair interessados. “Não somos mais a bola da vez, e o cenário hoje é menos atrativo do que há alguns anos”, afirma Frischtak. “A percepção entre os investidores é que houve uma piora no ambiente regulatório”. Mais imponderáveis são as obras tocadas pelo setor público nos aeroportos que não serão privatizados. A lnfraero não é famosa por cumprir cronogramas. Os vícios são comuns a outras áreas da administração. diz Frischtak: “O planejamento é falho, as licitações são problemáticas e resultam muitas vezes em corrupção”.

O saneamento básico é um caso emblemático de como os recursos públicos acabam, muitas vezes, indo para o ralo. O governo federal ampliou as verbas para a área, mas as obras ficam, normalmente, a cargo das prefeituras. Como a fiscalização é falha, os recursos nem sempre são aplicados da maneira prevista. Assim, de acordo com o presidente do Instituto Trata Brasil. Édison Carlos, não será possível atingir a meta de universalizar a coleta de esgoto até 2030. Hoje, metade das residências ainda não está ligada à rede. Diz Carlos: “Para alcançar o objetivo, deveriam ser investidos em tomo de 15 bilhões de reais por ano, mas os gastos têm sido inferiores a 10 bilhões. Então, esse prazo de 2030 deve ir para 2040, ou até 2050″.
(…)

Voltei
Pesquisas recentes indicam que o governo é aprovado por uma expressiva maioria dos brasileiros. Isso leva os governistas mais entusiasmados a confundir essa aprovação com o cumprimento das metas. Trata-se, obviamente, de coisas distintas.

Em parte, essa popularidade decorre da fraqueza das oposições, incapazes de converter as irresoluções e a incompetência do governo num discurso político alternativo, que é o que se faz em todas as democracias do mundo.

Em Banânia, inventou-se uma espécie de moto-contínuo do “bom-governisno”: os opositores não o criticam porque ele é popular, e ele é popular porque, afinal, ninguém o confronta — a não ser, claro!, a imprensa independente. Ocorre que esta não disputa, felizmente!, o poder. Não é esse o seu papel.

Com alguma frequência, quando se avalia que um governo é “bom”, também se está considerando se existe uma alternativa e se algum outro partido — ou liderança — seria capaz de fazer algo melhor. Como não se vê uma força disposta a arrostar com o discurso oficial, os incompetentes falam sozinhos, exaltando, não raro, as virtudes que não têm.

Querem um bom exemplo? Pegue-se o caso do programa “Minha Casa Minha Vida”. Em 2009, Lula anunciou a construção de um milhão de casas até 2010. Na campanha, Dilma prometeu mais dois milhões até 2014. Ampliou, depois, a meta para 2,4 milhões — ou seja, 3,4 milhões até o fim do seu mandato.

O governo anunciou no mês passado a entrega de um milhão de casas. Duvido que seja verdade, mas vá lá… Ainda que seja, foram necessários, para tanto, três anos e meio. Façam aí uma regrinha de três: os outros 2,4 milhões tomarão mais oito anos, quatro meses e oito dias. O que Dilma prometeu para o fim de 2014 só se realizará em… abril de 2021!

Em todo o mundo, governos deixam de cumprir promessas. Só que pagam um preço por isso. O que é praticamente inédito — obra de nossa democracia-jabuticaba — é a oposição não saber o que fazer com isso.

Por Reinaldo Azevedo

07/01/2013

às 5:05

As cavernas da Capadócia, a posse de Genoino, a I Epístola aos Coríntios e as oposições. Voltei!

Num longo texto, este escriba lamenta não ter passado alguns dias de descanso num buraco da Capadócia, fala sobre a posse do deputado condenado José Genoino, demonstra por que a questão legal, nesse caso, tem menos importância do que a questão política, lembra a Primeira Epístola aos Coríntios e dirige algumas questões às oposições

Vamos lá. Consta que, na novela “Salve, Jorge”, de Glória Perez, há Internet com conexão sem fio nas cavernas do interior da Turquia. Que bom! Vai ver a Anatel deles funciona. As nossas agências reguladores viraram cabides de emprego do PT e da base aliada. Se você quer conexão rápida e móvel, amigo, vá para os buracos nas rochas da Capadócia que o pariu. No litoral de São Paulo, nada de conexão 3G! “De qual operadora, Reinaldo?” De qualquer uma. Empresas e Anatel parecem estar pouco se lixando para os usuários de um serviço que é concessão pública. Agora que boa parte da massa já subiu a serra, tudo volta ao “normal”. Temos um serviço 3G que funciona desde que não haja muita gente querendo a mesma coisa ao mesmo tempo, entenderam? É o caso dos aeroportos. Resta-me concluir que o 4G, em breve, estará “não funcionando” também.

Alguns tontos dirão: “Taí… Não é você que gosta de privatizações e de estado enxuto?.” Sou eu mesmo! Tivéssemos um eficiente estado regulador, em vez de um ineficiente estado interventor, lotado de larápios que usam seu poder para fazer “negócios” com o setor privado, os cidadãos, os consumidores e usuários de serviços públicos seriam respeitados. Ocorre que o vagabundismo tomou conta do debate — e não há força política que contra ele se alevante, para usar um verbo do tempo de Camões. Reclame da bagunça nos aeroportos brasileiros em períodos de férias, e sempre aparecerá um desses escroques do regime, financiado por alguma estatal, a acusá-lo de estar infeliz porque, agora, o povo anda de avião… O corolário do subdesenvolvimento intelectual e político é o subdesenvolvimento ele-mesmo: só daremos telefone a todos se o serviço for uma porcaria; só daremos aviões a todos se o serviço for uma porcaria; só daremos educação a todos se o serviço for uma porcaria; só daremos saúde a todos se o serviço for uma porcaria. A qualidade vem depois… Só isso me impediu de comentar antes a posse de José Genoino (PT-SP) como deputado federal. Não me faltavam disposição e dedos — até tempo eu tinha. Faltava uma conexão.

Adiante. Voltemos ao princípio. Antes de a sentença ter transitado em julgado, há algo que impeça Genoino, condenado a 6 anos e 11 meses de cadeia por corrupção ativa e formação de quadrilha, de assumir a vaga aberta com a renúncia de Carlinhos Almeida (PT), que assumiu a prefeitura de São José dos Campos? A resposta é “não”. Por esse caminho, o debate cai no vazio. O que mais me interessa nesse caso é a questão política — que vai bater, meus caros, lá na sucessão de 2014 —, não a jurídica, embora eu não me furte a fazer, antes de voltar ao principal, algumas considerações a respeito, apontando o grotesco espetáculo da hipocrisia petista, muito especialmente a de Genoino. Mais uma vez, os petistas demonstram que seguem firme um lema: “Aos amigos, tudo, menos a lei; aos inimigos, nada; nem a lei”. Explico-me.

A questão legal
Li as declarações de Genoino e de alguns petistas graúdos e me inteirei do que os petralhas, especialmente os financiados por estatais, andaram espalhando no ventilador das redes sociais. A argumentação, ora vejam!, é legalista! Quem diria?! De súbito, os valentes passaram a falar como porta-vozes do estado de direito. E propuseram a questão que eu mesmo propus no parágrafo anterior: “Há empecilho legal à posse de Genoino?”. Como não há, estampam, então, o sorriso de vitória. Muito bem! Atenção para isto: o mesmo arcabouço legal — erigido sobre o mesmo alicerce e valores e que estrutura as mesmas garantias — que julgou e condenou o ex-presidente do PT assegura agora o seu mandato de deputado federal. Podemos e até devemos debater se há, no Brasil, recursos em excesso; podemos e até devemos debater se a aplicação da pena deveria ou não ser imediata etc. Uma coisa, no entanto, não se pode nem se deve debater: se a lei tem ou não de ser cumprida.

A última edição de VEJA do ano passado traz um artigo deste escriba intitulado “Ladrões de cofres e de instituições” (ver na home). Demonstro, no texto, que a condenação dos mensaleiros obedeceu a todos os rigores do estado de direito. Não houve nem mesmo a tão propalada “nova jurisprudência”. Todo o chororô, encabeçado por Márcio Thomaz Bastos, não passou de um esforço canhestro para carimbar no processo a pecha de “julgamento de exceção”, num esforço deliberado de transformar corruptos, corruptores, peculadores e quadrilheiros em condenados por crimes de consciência e em futuros presos políticos. O mensalão foi, sim, uma tentativa de golpear as instituições democráticas e tomar o estado. Apesar do alcance político da ação, seus protagonistas são bandidos comuns, embora reivindiquem o berço dos heróis.

Ora, eu estou entre aqueles que cobram, então, respeito à lei nas duas circunstâncias: quando os mensaleiros são condenados e quando um deles, em virtude das leis que temos, assume uma vaga na Câmara — embora eu possa achar, como acho, que o fato escarnece do bom senso, do decoro, da  vergonha na cara. Os petistas e petralhas, como vocês têm visto, pensam de modo bem diferente: mandam às favas a legalidade no caso da condenação, promovendo “plenárias” para demonizar o Supremo e prometendo até uma espécie de vingança contra o tribunal, mas viram defensores de primeira hora da ordem quando Genoino assume o mandato. Estes são eles: para si e para seus amigos, querem tudo, menos a lei; para os inimigos, nada — nem a lei. Por que teriam algum compromisso com a coerência?

A questão ética
Genoino podia tomar posse? Podia, sim. Fosse outro o seu partido e não fosse ele próprio quem é, então nos arriscaríamos a afirmar: “Podia, mas não deveria”. Ocorre que o Genoino que, por prurido, deferisse agora da posse desse bem não teria cometido antes os crimes pelos quais foi condenado, certo? Isso nos leva a concluir, logicamente, que, à diferença do que andam dizendo alguns equivocados, muito especialmente da oposição, o Genoino de agora não mancha o de antes: apenas torna mais nítido o seu perfil.

Por mais que nos dediquemos ao estudo da moral e da ética, duvido que possamos chegar a uma formulação mais precisa e enxuta do que a de São Paulo na I Epístola aos Coríntios: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (ICor 6,12). É dessas frases-emblema cuja compreensão distingue a civilização da barbárie. A essência da formulação kantiana está aí embutida: só posso praticar atos que, se generalizados, concorreriam para o bem. Adiante.

Há uma diferença de qualidade entre o homem que não mata porque acha que isso é essencialmente errado e o que não mata por medo de ser preso. O primeiro domínio é o da moral e da ética; o segundo é o da lei e da ordem. Ainda que ambos estejam imbricados na vida em sociedade, trata-se de esferas distintas da experiência. Ora, com a certeza da impunidade, o segundo homem vai delinquir… Voltem a São Paulo. Imunes ao estado repressor — e ele não pode nem deve vigiar todos os nossos passos —, tudo nos “é permitido”. É a convicção de que “nem tudo nos convém” que torna possível a vida em sociedade. Educar uma criança é prepará-la para viver sem vigilância, não para obedecer às ordens de um bedel. NOTA À MARGEM: há também uma grande diferença entre aquele que diz “sou inocente” (especialmente quando o é…) e aquele que sustenta: “Não há provas contra mim”…

O PT, é evidente, não inventou os desmandos. Nunca ninguém fez tal acusação ao partido. Ao contrário! Com o apoio entusiasmado do jornalismo, a legenda cresceu fortemente ancorada no discurso que agora chama de “udenista”: o combate à corrupção! Ainda me lembro de uma entrevista concedida ao Globo, em 2006, por Marco Aurélio Garcia, durante a campanha de Lula à reeleição. Perguntaram a ele se o então presidente não se sentia constrangido de fazer campanha ao lado dos mensaleiros. A resposta foi esta: “Constrangimento nenhum! Constrangimento seria não ter voto”. O PT não inventou a corrupção. Ele a transformou, a depender da necessidade, numa categoria política, numa categoria de pensamento. O partido mandou Paulo plantar batatas: tudo lhe convém porque tudo lhe é permitido.

O ódio que o PT e seus acólitos passaram a devotar ao Supremo decorre do fato de que eles não aceitam leis — e instâncias do estado que as apliquem — contra o que consideram os “interesses do partido”, que se vê no papel de condutor da sociedade. Quando surgiu a possibilidade de Genoino tomar posse, cheguei a ouvir alguns comentários incrédulos aqui e ali: “Eles não vão ter topete de fazer isso…”. Objetei: “Vão, sim!”. Um dos segredos do partido sempre foi defender, em nome da legalidade, as leis que lhe são úteis e transgredir, em nome da legitimidade, as que não são — para o trabalho de confronto, recorrem a seus esbirros em movimentos sociais e ONGs.

A questão política
Chego, finalmente, à questão política. Haverá uma oposição — e oposicionistas — para fazer, no plenário da Câmara, o debate? Haverá vozes capazes de transformar em notícia a posse legal e indecorosa? Já li uma coisinha ou outra, sempre com os joelhos no milho. Há até quem veja, para escândalo da lógica e do bom senso, uma contradição entre o Genoino “guerrilheiro” e este que assume agora um mandato na Câmara com uma condenação nas costas, como se a vilania de agora contrastasse com a nobreza de antes; como se o escárnio que ora se vê manchasse os nobres propósitos daquele que queria instituir no país uma ditadura à moda cubana.

Ao longo do segundo semestre do ano passado, o Supremo ficou sob o chicote petista. Foi satanizado pelo partido de maneira implacável. As principais lideranças de oposição, com uma exceção ou outra, se comportaram como se o julgamento não existisse. Convenham: aquela penca de crimes foi cometida para consumar um projeto de poder que tinha, no ponto de chegada, o aniquilamento das forças adversárias. Oposicionistas deveriam ter se revezado na galeria do Supremo para demonstrar seu apreço ao estado de direito e seu repúdio ao que foi, restou evidente, uma tentativa de golpe nas instituições. Mas quê…

Não existe uma política que seja a negação da… política! É tautológico? Eu sei. Mas precisa ser dito e repetido mesmo assim. Não estou aqui a sugerir que as oposições façam da posse de Genoino um cavalo de batalha. Estou afirmando, isto sim, que elas não podem deixar de chamar as coisas pelo nome que têm — essa e outras tantas. Porque, numa democracia, são muitos os cavalos. Já escrevi a respeito das muitas omissões das forças que se opõem, ao menos nominalmente, ao petismo. Parecem estar sempre à espera da hora certa…

Não! Aquela história do “quem sabe faz a hora” é só bobagem do voluntarismo e do leninismo de marchinha da MPB. Em política, não existe “a” hora. Existe um conjunto de valores, defendido por partidos e por forças organizadas da sociedade. Quem se opõe ao governo do PT e ao petismo se apresenta com que discurso? Fala em nome de quê? Fala para quem?

“Ah, o governo é tão bom, e o Brasil vai tão bem que as oposições nem conseguem se estruturar…” Pois é… Não vai, não! Ainda que a popularidade de Dilma atinja a marca dos 100% (no Iraque, Saddam Hussein tinha apenas 98% de aceitação…), a afirmação continuará a ser falsa. Ocorre que os dados que estão na ordem dos fatos ainda não se converteram num discurso político. O ano de 2014, com suas vistosas inaugurações, não parece especialmente hospitaleiro a um súbito discurso de oposição.

Toda hora é hora da política, em cada tema e em cada coisa. Até agora, não fosse a base aliada criar algumas dificuldades para Dilma — e não fosse a grande imprensa colaborar ativamente com ela, apontando o dedo para alguns larápios incrustados na máquina do governo —, a governanta morreria de tédio. Às vezes, tenho a impressão de que já há, nas oposições, quem dê a reeleição de Dilma de barato, adiando o jogo para 2018, quando, então, aí, sim… “Aí, sim, o quê?” Essa hipótese me parece parente bem próxima daquela que via um Lula sangrando no poder em 2006… Deu no que deu.

Concluindo
A posse de Genoino é politicamente acintosa, ainda que legal? Sim! E é também a evidência de que o PT, por maior que seja a dificuldade, vai para o confronto. Se alguém notou aqui alguma sombra de admiração, é impressão falsa. Ao contrário! Esse relativismo, essa visão de mundo que transforma crimes em virtudes, é o que mais repudio nas esquerdas — e jamais sugeriria a seus adversários que adotassem prática semelhante, adulando seus próprios malfeitores e criminosos.

O ponto é outro. Eu e milhões de eleitores — e de leitores — queremos saber o que pensam as oposições. E nem se trata aqui de cobrar utopias e prefigurações. Basta que se enfrente um governo atolado em irresoluções e um partido que terá alguns de seus protagonistas na cadeia. E que se note: se o petismo reunisse apenas anjos tocando harpa, ainda assim, numa democracia (e não no céu), teria de ser contraditado.

E não! Eu não vou me enfiar num buraco na Capadócia, onde há Internet sem fio — segundo a Glória Perez ao menos. Vou ficar por aqui mesmo, reclamando e exigindo que os contratos feitos com os consumidores sejam cumpridos.

Voltei. 

Por Reinaldo Azevedo

17/12/2012

às 7:23

Se oposição cometer agora o mesmo erro de 2005, estará se condenando à extinção

Na sexta, o Ibope divulgou dados da pesquisa trimestral que faz para a CNI (Confederação Nacional da Indústria). O governo Dilma é considerado ótimo ou bom por 62% dos brasileiros, e o jeito de a presidente governar seria aprovado por 78%. Se verdadeiros, números estupendos pra ela! Neste domingo, foi a vez de o Datafolha publicar dados de seu levantamento: tanto Dilma como Lula, se disputassem a Presidência agora, seriam eleitos no primeiro turno. Ela teria de 53% a 57% dos votos a depender do cenário; ele, 56% no único em que teve o nome testado. Marina Silva, sem partido, aparece em seguida, com índices que vão de 13% a 18%, e Aécio Neves (PSDB), de 9% a 14%. Na pesquisa espontânea, a presidente bate o antecessor por mais do dobro: 26% a 12%. Aécio vem em seguida, com 3%.

Muito bem! Como fazer oposição num cenário como esse? É difícil! Talvez seja o caso de perguntar ao Partido Republicano como conseguiu se opor a Santo Obama, mesmo sendo visto como um demiurgo e tendo sido eleito depois do odiado, especialmente pela imprensa, George W. Bush. A economia tinha ido para lona, e se criou o falso consenso de que era tudo culpa do ex-presidente republicano. Qualquer pessoa que estude um pouquinho constatará que Bush fez besteiras, sim, mas não respondia pela bancarrota, como sabe a Europa. O que importava, no entanto, era o falso consenso. “Reinaldo usa os derrotados republicanos como exemplo…” Claro que sim! Tiveram 48% dos votos e mantiveram o controle da Câmara — de resto, um presidente se reeleger naquele país é a regra, não a exceção.

Oposição que se preza não teme a popularidade do governo adversário e chama as coisas pelo nome que elas têm, coisa que a nossa se negou a fazer por um largo tempo e se nega ainda.

É simplesmente falso — e aceito que se tente provar o contrário — que as oposições tenham combatido sistematicamente o governo Lula; menos ainda o de Dilma. Essa é uma das invenções do Apedeuta. Ele, sim, passou oito anos demonizando o passado, fazendo, o que é curioso, OPOSIÇÃO SISTEMÁTICA A FHC, QUE NÃO ERA MAIS GOVERNO, tentando destruir a reputação e a herança do outro. As evidências de colaboração da oposição foram muitas, especialmente com a gestão Antonio Palocci, quando alas mais à esquerda do PT se negavam a endossar ações do governo. Isso é história, não juízo de valor. Mas retomo o fio.

Gritaria para intimidar
A oposição, até agora muda como força institucional — há políticos que têm a clareza de chamar as coisas pelo nome, como o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) —, vinha ensaiando alguma crítica. Ainda tímida. Ainda de forma desorganizada. Ainda sem eixo. O “Rosegate” e o depoimento de Valério (que nada tiveram a ver com os adversários do petismo) apimentaram um tanto as críticas, mas elas são ainda bastante leves.

O PT saiu gritando “Fogo na floresta!”. Anuncia, nos jornais, uma verdadeira guerra contra a oposição — por que “contra a oposição”??? —, contra o STF e contra a Procuradoria-Geral da República. Trata-se de uma iniciativa clara para intimidar a Justiça, o Ministério Público e, obviamente, os adversários, a quem ameaçam coma “CPI da privataria” — mera delinquência política. Ou será que o PT chegou ao poder, constatou as “privatarias”, mas deixou tudo como estava? Tenham paciência! Sim, a imprensa independente, como sempre, está entre os alvos.

O que fazer?
Eu não tenho receita para ninguém. Mas uma coisa é certa porque é histórica: deixar de fazer o que tem de ser feito — é atribuição de qualquer oposição do mundo apontar os malfeitos dos respectivos governos e cobrar o cumprimento das leis — com receio da popularidade de Lula ou de Dilma conduz ao raquitismo político.

Os petistas são craques em promover essas operações preventivas, que buscam intimidar o outro. Em 2006, inventaram a “Teoria do Golpe” (que está sendo atualizada agora). Em 2010, para enfrentar a resistência dos cristãos à defesa que Dilma tinha feito do aborto em mais de uma entrevista, acusaram a existência de uma suposta campanha suja dos tucanos. Era mentira!  Neste ano, na disputa pela Prefeitura de São Paulo,  começaram a falar sobre o kit gay de Haddad em abril, afirmando, uma vez mais, que os adversários tentariam explorar tal questão, que isso era coisa de reacionários etc. É um jeito esperto de fazer as coisas: o partido transforma o que sabe ser verdade numa farsa saída da mente maligna dos adversários. O pior é que os tucanos costumam cair nessa. Em entrevistas recentes, tanto FHC como Aécio censuraram, estimulados por seus respectivos entrevistadores, a suposta guinada moralista tucana na área dos costumes… Guinada que nunca aconteceu e que era apenas parte dos ataques preventivos dos petistas.

Agora, eis um novo ataque preventivo: para que não se investigue Lula de jeito nenhum, inventa-se, então, uma suposta tentativa de destruí-lo. É grande o risco de que os tucanos tentem provar que isso é falso, que Lula é mesmo um grande homem, que o Brasil o ama etc. Pior: de posse dos dados das pesquisas, sempre podem aparecer os especialistas para dizer: “Vamos disputar a eleição, sim, mas sem criticar o Lula e a Dilma…”.

Até os petralhas vão concordar comigo, né? Se é para não criticar, disputar eleição com eles pra quê?

Se a oposição repetir em 2012 o erro de 2005, estará se condenando à extinção. Não fosse ruim para a democracia, não seria eu a lamentar…

Texto publicado originalmente às 5h56
Por Reinaldo Azevedo

09/10/2012

às 23:30

“Lula sabia e participou do esquema”, diz senador Álvaro Dias

Por Rosa Costa, no Estadão Online:
A condenação do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo do mensalão, apontado como o “chefe da quadrilha” pelo Ministério Público, reforçou nesta terça a proposta do PSDB de entrar com representação na Procuradoria-Geral da República contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O líder tucano no Senado, Alvaro Dias (PR), entende que Dirceu e Lula agiam em conjunto e que não há argumento capaz de isolar as ações de ambos. “É uma heresia dar tratamento diferenciado ao ex-ministro e ao ex-presidente”, alega. “Lula não só sabia do esquema como participou de toda a farsa. No mínimo ele cometeu crime de responsabilidade”. O líder lembrou que os presidentes do DEM e do PPS já se manifestaram favoráveis à representação contra o ex-presidente logo que terminar a fase atual do julgamento do mensalão.
(…)
O líder do PPS, deputado Rubens Bueno (PR), destacou igualmente como repercussão da condenação de José Dirceu o envolvimento de Lula na prática de usar dinheiro público para “comprar” deputados. “A condenação do Supremo pelo crime de corrupção ativa carimba o governo Lula como o mais corrupto da história do País”, constata.

No entender do líder, a provável prisão de “homens fortes do PT” marca uma nova etapa no País no que se refere ao combate à corrupção. “O que assistimos até hoje eram políticos corruptos sendo acusados, algumas vezes até presos, mas na Justiça eles eram beneficiados pela prescrição dos crimes, pela demora no julgamento ou mesmo inocentados”, lembra. “Ao condenar a quadrilha do mensalão, o Supremo dá ao País o recado de que os poderosos não estão acima da lei”.

Para o presidente do DEM, senador José Agripino (RN), a condenação de Dirceu “complementa” o processo entre os mandantes do esquema e aqueles que cumpriam as ordens. “Morre a história da farsa e do mensalão que diziam não ter existido”, afirma. “O esquema existiu com seus mandantes e seus mandados”.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

03/09/2012

às 6:03

A oposição está em greve no Brasil há sete anos! Ela, sim, tem potencial para levar o país à breca!

Nenhuma greve faz tão mal ao Brasil como a greve da oposição. Esta, sim, compromete o nosso futuro e pode pôr em risco as instituições à medida que o país se torna refém de uma única força política, que, sem freios e sem limites, decide submeter as leis à sua vontade e não mais sua vontade às leis. A greve da oposição foi decretada no dia em que o publicitário Duda Mendonça declarou que o PT pagou parte da campanha presidencial de 2002 em moeda estrangeira, no exterior, já no curso do primeiro mandato de Lula, com dinheiro ilegal. Ali, naquele ponto, deveria ter-se iniciado um movimento para denunciar o presidente por crime de responsabilidade. Mais: segundo a lei eleitoral, um candidato é o responsável último pelas finanças de sua campanha. Tomou-se, no entanto, a decisão de deixar Lula encerrar seu mandato tranquilamente — alguém teria recorrido à metáfora “sangrar no poder”… Deu no que deu. Os leitores deste blog que migraram do extinto site “Primeira Leitura” (e da revista) sabem o que escrevi à época: “A oposição está cometendo suicídio”. O resto é história. E, como se nota com o julgamento do mensalão, a greve continua.

O Supremo Tribunal Federal está dizendo com todas as letras o que foi aquele imbróglio a que se chamou “mensalão” — e o nome poderia ser qualquer outro; isso é irrelevante. Ainda que todos os réus, doravante, fossem considerados inocentes — o que é improvável —, o mensalão (ou “roubalheira”, se alguns preferirem) já está comprovado de maneira acachapante. ESSA É A REALIDADE JURÍDICA, do mundo das leis. MAS É PRECISO QUE O EPISÓDIO SE TORNE TAMBÉM UMA REALIDADE POLÍTICA. Para tanto, alguém precisa se apossar dessa narrativa. OU POR OUTRA: FORÇAS POLÍTICAS TÊM DE FAZER DA VERDADE DOS AUTOS, DA VERDADE DOS FATOS, UMA VERDADE ATIVA, COM FACE POLÍTICA. Mas quê… Ninguém se oferece!

Ora, se inexistem forças políticas relevantes que deem o devido tratamento à verdade que vai se tornando clara no tribunal, há o risco, por incrível que pareça, de a farsa petista deitar sua sombra sobre os fatos. Luiz Inácio Lula da Silva fez um comício na sexta em Belo Horizonte e, como é de seu costume, exaltou a impoluta moral petista. Nas redes sociais, a Al Qaeda eletrônica continua a repetir seus mantras. Os petistas certamente se surpreendem com o fato de que os candidatos e líderes da oposição simplesmente ignoram o julgamento. Surpreendem-se porque sabem o que eles próprios fariam no lugar dos adversários — como, aliás, fizeram. Lembrem-se do que custou às oposições o escândalo envolvendo o nome do ex-governador José Roberto Arruda.

É espantoso, observava dia desses o professor Marco Antonio Villa — um dos debatedores dos programas que temos feito na VEJA.com (hoje é dia, logo depois do fim da sessão do STF) —, que deputados e senadores da oposição jamais tenham assistido a uma miserável sessão do STF, nada! O seu lugar político, é evidente, seria o tribunal, acompanhando o julgamento. Nada! As campanhas eleitorais simplesmente ignoram o tema. Pior do que isso: anuncia-se mesmo a disposição de não tocar no assunto.

No Congresso, os piores descalabros são aprovados sem qualquer sinal de resistência. Tome-se o caso, por exemplo, da lei das cotas nas universidades federais. O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) lutou praticamente sozinho. Sim, há vozes esparsas e valorosas entre os oposicionistas. Aponto é a inexistência de uma força organizada, com pensamento estruturado. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) só se manifesta quando considera que Minas está sendo agredida, incapaz, até agora, de se fazer ouvir além das montanhas. Lula foi a Belo Horizonte, disse lá suas grosserias de hábito, acusou o estado de estar quebrado, e o senador tucano reagiu — muito lhano, como sempre. Onde estava durante a aprovação da lei das cotas, por exemplo? Ou daquela PEC ridícula que pretende meter na Constituição a obrigatoriedade do diploma de jornalista? Atenção! Ainda que seja para defender os dois absurdos, que se pronuncie. Não é ele agora o líder político máximo do PSDB? Não é o futuro candidato do partido à Presidência? Onde está o deputado Sérgio Guerra (PE), presidente da sigla?

A economia brasileira cresce ao ritmo das economias europeias em crise, muito abaixo dos chamados países emergentes. As sucessivas medidas adotadas por Guido Mantega para estimular a economia têm-se mostrado, quando menos, ineficazes. Imaginem onde poderíamos estar sem os pacotes de renúncia e estímulo fiscais. Não há nada – NADICA MESMO! — a dizer a respeito? Não há crítica possível, alternativas, nada? Nem mesmo se vai dizer à população — agora, e não em 2014! — que o país está sofrendo as consequências de decisões equivocadas em passado recente, que travaram os investimentos? Não se jogarão nas costas do governo a sua óbvia responsabilidade no atraso das privatizações, por exemplo, e sua incapacidade de ordenar os investimentos públicos? Não!

Oposição na situação
Nas democracias, o lugar da oposição, afinal de contas, existe. Se os partidos a tanto destinados não o ocupam, alguém o fará. Quem passou a ser visto como uma alternativa de poder — embora pouco se conheça do seu pensamento, e o que se conhece não é necessariamente bom! — é Eduardo Campos (PSB), governador de Pernambuco. Tudo indica que seu candidato à Prefeitura do Recife, por exemplo, dará uma surra no de Lula. Ao marcar posição em seu próprio território — e no estado natal do Babalorixá —, o governador quer exibir musculatura, buscando o seu lugar num país pós-Lula.

Mas, afinal, o que quer Campos? O que ele pensa? Que Brasil tem na cabeça? Quais são seus valores? No que difere do PT, por exemplo? O que o seu PSB faria de diferente no confronto com o petismo? Ninguém sabe. Como não é um oposicionista nato, não tem de fazer confronto de valores. Tem apenas de se dizer o melhor para gerir o modelo de gestão que, de fato, integra. Lula é um líder em decadência. Dilma tem, hoje, uma reeleição assegurada, mas não é uma organizadora de partido. Campos percebe um vácuo óbvio de liderança na oposição e vislumbra a possibilidade de declínio do próprio petismo. Daí ter encontrado este estranho lugar: o da “oposição” na situação.

Não se trata, como é óbvio, de “oposição” programática. Por enquanto, ele se esmera em demonstrar que é um sujeito hábil, que sabe fazer as articulações de bastidores, dotado de senso de estratégia, com trânsito no establishment. Acho pouco provável que se apresente já em 2014 para enfrentar Dilma Rousseff. É jovem e pode esperar por 2018, ganhando musculatura até lá. Terá de tomar algum cuidado com o petismo, que já está determinado a destruí-lo. Mas não há dúvida de que se prepara para tentar ser o líder das ditas “forças progressistas”. A greve da oposição lhe permite hoje ocupar, sem dúvida, um lugar privilegiado na política: consegue ser poder e se apresentar como possível alternativa de poder.

Na política, de fato, “quem não faz leva”. No futebol, afinal, a partida pode terminar empatada em zero a zero. No jogo do poder, isso não existe. Não fazer gol é o mesmo que tomar gol.  

Texto originalmente publicado às 4h43

 

Por Reinaldo Azevedo

20/07/2012

às 6:17

Partidos de oposição têm apenas 18% dos candidatos

Por Paulo Gama, na Folha:
Os três principais partidos que fazem oposição ao governo federal lançaram o menor número de candidatos a prefeito desde que o PT chegou ao Planalto, em 2003. Dos cerca de 15 mil candidatos que concorrem a uma prefeitura no país, 2.807 são do PSDB, do DEM ou do PPS. Isso equivale a 18% do total de candidaturas. Na primeira eleição municipal com Lula na Presidência, em 2004, os três partidos tinham 30% dos postulantes. Em todo o país, 55% das cidades não têm nem sequer um candidato de uma dessas três siglas. Em 2008, era 40%.

O percentual de candidatos oposicionistas neste ano é parecido com o de 1996, ano da primeira eleição municipal após a posse do tucano Fernando Henrique Cardoso na Presidência. Naquela época, os partidos que faziam oposição eram PT, PDT, PSB e PC do B. Juntos, eles lançaram também 18% dos nomes. A redução atual coincide com a derrocada dos oposicionistas no Congresso. A presidente Dilma Rousseff enfrenta na Câmara a menor oposição desde 1988. O principal responsável pela queda nas candidaturas é o DEM, com 533 nomes a menos do que em 2008 (os totais ainda podem sofrer pequenas alterações, segundo a Justiça Eleitoral). “O partido foi alvo de um ataque que nos tirou muitos quadros”, diz o presidente da sigla, senador José Agripino Maia (RN).
(…)

Por Reinaldo Azevedo

16/07/2012

às 7:03

Esta terra ainda vai cumprir seu ideal: ainda vai se tornar um imenso Butão! E será uma obra conjunta do PT e da oposição!

Estou de volta. Com saudade de vocês e, como sempre, disposto ao debate. Ainda não terminei o livro, mas consegui avançar bastante. Bem, vamos a um daqueles textos longos, né?, que é para deixar claro que nada mudou, hehe.
*
Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff ficou a um passo de propor ao Butão uma aliança estratégica para fazer do tal Índice de Felicidade o verdadeiro medidor da fortuna dos países. Há menos de dois meses, o ministro Guido Mantega (Fazenda) afirmava que o Brasil cresceria 4% — no começo do ano, falava-se em 4,7%, 4,5%. Tudo indica que ficará aí em torno de 2%; é consenso que será menos do que os 2,7% do ano passado. Num discurso para a juventude, a governanta não hesitou: esse negócio de PIB é muito relativo, entenderam? O importante é cuidar das pessoas.

Ah, bom!!! Tudo como no Butão, aquele reino famoso por ter criado o tal “Índice de Felicidade”, que andou seduzindo alguns trouxas dispostos a aderir a qualquer orientalismo exótico. Vocês sabem: ainda hoje, há ocidentais que vão aprender meditação da Índia, enquanto os indianos vão mesmo é estudar economia em Harvard… O Butão, se querem saber, é uma bela cerda, mas, se os butaneses estão felizes, eu também estou. Se eles têm motivos para isso, podemos viver em gozo permanente. O Índice de Desenvolvimento Humano (o IDH) deles é de 0,619 — o nosso, 0,718. A mortalidade infantil naquele paraíso é de 45 por mil nascimentos; por aqui, 15,6. A taxa de alfabetização por lá é de 47%; no Bananão, se ignorarmos os analfabetos funcionais, chega a 90,4%. Como dizem os cantores de axé e do breganejo, “quem tá feliz tira o pé do chãããooo!!!”

Antes que continue, uma observação à margem: não acho que caberia a Mantega fazer previsões pessimistas e deixar cabisbaixos os tais agentes econômicos. Mas também não precisaria ter se comportado como animador de auditório. Não podendo falar a verdade, resta o caminho do prudente silêncio. Há gente o bastante no governo para fazer proselitismo político. Pois bem! Ninguém tem dúvida de que acabou a fase da bonança para o Brasil, que havia pegado carona no crescimento da economia mundial. Reportagem de capa da VEJA desta semana, de Giuliano Guandalini, sintetiza o diagnóstico (em azul):

A economia brasileira é um para­doxo. O governo abre a mão e despeja recursos e incentivos em massa na eco­nomia, os juros nunca foram tão bai­xos, e o desemprego permanece em pa­tamares mínimos. Tem-se aqui a com­binação perfeita para injetar ânimo e insuflar o consumo e os investimentos. Mas o PIB não dá sinais de reação. Por quê? Uma primeira explicação estaria nos efeitos da crise do euro e do pálido crescimento dos países ricos. Mas só isso não explica a desaceleração. So­frendo as mesmas pressões externas negativas, as economias de Chile, Peru e Colômbia têm projeção de crescimento de 5% para este ano. O Brasil perdeu o gás por motivos mais profundos. Há dez anos o governo não faz nenhuma reforma significativa com impacto positivo no principal indutor da riqueza: a produtividade. A melhora na infraestrutura foi medíocre durante todo esse período, fazer negócios continua a ser um pesadelo burocrático e tributário, e a qualidade da mão de obra evoluiu, mas pouco. O crescimento econômico, enquanto durou, foi resultado de políticas de crédito barato que não podem ser mantidas indefinidamente e do empuxo das reformas feitas na década anterior. Tudo isso, claro, impulsionado pela valorização dos principais itens da exportação — a produção agrícola e os minérios. A balança comercial favorável trouxe bilhões de dólares e alimentou a expansão do crédito. Agora, sem o vento externo a favor, os antigos gargalos voltaram a estrangular o PIB”.

Questão política
Dada essa realidade, o normal seria que houvesse um intenso debate no país, a mobilizar as lideranças da oposição (quais, santo Deus!?), os sindicatos, os ditos movimentos sociais, os líderes empresariais… Mas quê!!! O que se ouve é um silêncio constrangedor — quando não se tem uma espécie de chacrinha adesista. Há comerciais de bancos, por exemplo, que não se distinguem da voz do oficialismo. Se as oposições — mais raquíticas do que nunca, é verdade — estão mudas, aquelas outras vozes da sociedade foram cooptadas pelo capilé oficial: numa ponta, compra-se a adesão com o Bolsa Família; na outra, com o Bolsa BNDES; durante um bom período, houve também o Bolsa Juros. O Butão de dimensões continentais ficou feliz enquanto durou a farra e enquanto o país era a Blanche Dubois da economia — vivendo da boa vontade de estranhos. Na hora de viver segundo os próprios méritos, a receita desandou. E notem: o silêncio não se resume à economia.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu uma entrevista a André Petry, nas Páginas Amarelas da VEJA desta semana. Destaco alguns trechos (em azul):
(…)
O BNDES pega dinheiro do Tesouro e empresta a empresas com juros subsidiados. Quem paga o subsídio? Nós, os contribuintes. (…) O Brasil hoje é o país da Bolsa Família e da Bolsa Empresa, o que resultou na felicidade geral. Daí o apoio ao governo.
(…) A classe média ficou de fora. Mas, com  a prosperidade das bolsas, as pessoas perderam a motivação para debater. Não há mais debate. O debate político-partidário perdeu sua centralidade. (…) O debate se deslocou para a mídia. É por isso que o governo acusa a mídia de ser oposição. Porque é a única instituição que fala, e o povo ouve.
(…)
[Os partidos] precisam tomar posição diante dos fatos correntes. Como têm medo de assumir posições, os partidos não falam nada. Legalização das drogas? Silêncio. Aborto? Silêncio. Relação do Estado com a religião? Silêncio. Qual é a melhor maneira de resolver a questão do transporte? Silêncio. São questões do cotidiano. Questões que levariam a população a se identificar com os partidos. A própria sociedade civil, antes vibrante e ativa, se encolheu. Sempre digo: se você não politiza, não acontece nada.
(…)

Voltei
Concordo com FHC, é evidente. Até porque expressei esse mesmo ponto de vista — EMBORA, MUITO PROVAVELMENTE, ESTIVESSE COM A CABEÇA VOLTADA PARA O OUTRO LADO (já explico o que quero dizer) — num
longo artigo publicado na VEJA, na última edição de 2010. Transcrevo trechos para que comparem (também em azul):

(…)
Temos já um Brasil de adultos contribuintes, com uma classe média que trabalha e estuda, que dá duro, que pretende subir na vida, que paga impostos escorchantes, diretos e indiretos, a um estado insaciável e ineficiente. Milhões de brasileiros serão mais autônomos, mais senhores de si e menos suscetíveis a respostas simples e erradas para problemas difíceis quando souberem que são eles a pagar a conta da vanglória dos governos. É inútil às oposições disputar a paternidade do maná estatal que ceva megacurrais eleitorais. Os órfãos da política, hoje em dia, não são os que recebem os benefícios — e nem entro no mérito, não agora, se acertados ou não -—, mas os que financiam a operação. Entre esses, encontram-se milhões de trabalhadores, todos pagadores de impostos, muitos deles também pobres!

Esse Brasil profundo também tem valores — e valores se transformam em política. O que pensa esse outro país? O debate sobre a descriminação do aborto, que marcou a reta final da disputa de 2010, alarmou a direção do PT e certa imprensa “progressista”. Descobriu-se, o que não deixou menos espantados setores da oposição, que amplas parcelas da sociedade brasileira, a provável maioria, cultivam valores que, mundo afora, são chamados “conservadores”, embora essas convicções, por aqui, não encontrem eco na política institucional — quando muito, oportunistas caricatos os vocalizam, prestando um desserviço ao conservadorismo.

Terão as oposições a coragem de defender seu próprio legado, de apelar ao cidadão que financia a farra do estado e de falar ao Brasil que desafia os manuais da “sociologia progressista”? Terão as oposições a clareza de deixar para seus adversários o discurso  do “redistributivismo”, enquanto elas se ocupam das virtudes do “produtivismo”? Terão as oposições a ousadia de não disputar com os seus adversários as glórias do mudancismo, preferindo falar aos que querem conservar conquistas da civilização? Lembro, a título de provocação, que o apoio maciço à ocupação do Complexo do Alemão pelas Forças Armadas demonstrou que quem tem medo de ordem é certo tipo de intelectual; povo gosta de soldado fazendo valer a lei. Ora, não pode haver equilíbrio democrático onde não há polaridade de idéias. Apontem-me uma só democracia moderna que não conte com um partido conservador forte, e eu me desminto.
(…)
Quais setores da sociedade as oposições pretendem ter como interlocutores? Continuarão órfãos de representação milhões de eleitores que não se reconhecem na ladainha pastosa do  “progressismo”? As oposições têm de perder o receio de falar abertamente ao povo que trabalha e estuda. Que estuda e trabalha. Em vez de tentar dividir os louros da caridade, tem de ser porta-voz do progresso.
(…)
Esse comportamento vexado, assustadiço, gerou outro fenômeno. Os setores da imprensa que não abrem mão de fazer o seu trabalho — e um deles é a crítica ao poder, a qualquer um — são, então, identificados pelos petistas como “o verdadeiro partido” a ser combatido e como o “real inimigo”. Por isso, os poderosos da hora se esforçam para criar mecanismos de censura e se declaram em guerra contra o que chamam “mídia”.
(…)

Retomando
É bem possível, meus caros, que eu e Fernando Henrique Cardoso tenhamos opiniões distintas sobre aquele elenco de temas. Ele integra o que muitos gostam de chamar “campo progressista”, e eu não. Mas, neste momento, interessa menos o conteúdo do que a postura. A verdade lastimável é que não se ouve a voz da oposição nem na economia nem nas questões que dizem respeito a valores, que são fundamentais para determinar as escolhas políticas.

Ao contrário: vive-se sob a égide da patrulha e do medo. Querem um exemplo? Em janeiro deste ano, Alberto Goldman, vice-presidente do PSDB, foi encarregado de escrever um balanço sobre o primeiro ano de governo Dilma (leia post a respeito). Mandou ver: classificou-o de “medíocre, amorfo e insípido”. Os adjetivos foram vetados por Sérgio Guerra, presidente do partido, e pela ala mineira. Goldman fez a lista de insucessos do governo, chamando-os de “constrangedora sucessão de fracassos”. De jeito nenhum! Depois de submetido à linguagem tucanamente correta, o texto identificou  apenas “sérios problemas em diversas áreas”. Entenderam? Ainda como membro do Conselho Político do PSDB — instância que nunca chegou a existir de fato —, José Serra, agora candidato à Prefeitura de São Paulo, antecipou com impressionante precisão alguns dos problemas que o país está enfrentando. Os artigos, publicados na imprensa, estão reunidos em seu site. Os tucanos leram? Parece que estavam pisando os astros distraídos — ou desastrados, como diria um cantor…

Começando a aterrissar
Não existe uma política que seja a negação da… política. Ela só se faz de modo ativo, com os agentes apresentando-se para o debate. A única voz de “oposição” que se ouve é aquela que os petistas fazem nos estados e cidades a governos rivais — especialmente quando tucanos. Tome-se o caso da greve que paralisou 56 das 58 universidades federais. Se não espero que tucanos se comportem como os urubus petistas ao menor sinal de problema da USP, a sua inação, nesse caso, chega a ser escandalosa. Não que eu, pessoalmente, endosse greves de servidores; todos sabem o que penso a respeito, pouco importa quem seja o governo de turno. O busílis é outro:
— como se deu a expansão dessas instituições de ensino?
— qual é a real situação da infraestrutura dessas entidades?
— em que condições acadêmicas operam essas universidades?

Houve uma ou outra manifestação, mas coisa pequena, sem relevância, muito abaixo da gravidade do problema. E olhem que o principal arquiteto desse modelo, Fernando Haddad, é o candidato ungido por Lula à Prefeitura de São Paulo, que os petistas passaram a considerar “estratégica”.

O ponto é o seguinte, meus caros: seria ruim ter um governo falando sozinho ainda que ele soubesse para onde vai; não sabendo, aí a coisa já é mesmo temerária. A pior coisa que pode acontecer ao país é o que eu chamo de “naturalização das escolhas políticas”, como se elas fossem soluções ditadas pela lógica do processo, que não comportassem alternativas. Ora, se não comportam, com que cara a oposição se apresenta em 2014 para tentar tomar o cetro das mãos de Dilma? Ainda que faça um governo medíocre, as únicas forças que Dilma tem a temer, dada a toada, são mesmo Lula e o PT…

Texto originalmente publicado às 5h52
Por Reinaldo Azevedo

02/05/2012

às 6:17

A CPI começa hoje! Pode estar em jogo não só a verdade dos fatos, mas também a qualidade da nossa democracia. Lula vê a oportunidade de liquidar todos os que considera adversários e não esconde isso de ninguém

Começam hoje os embates na CPI do Cachoeira. O PT está que não cabe em si de contentamento com o tsunami de imagens e vídeos que o ex-governador Anthony Garotinho fez chegar ao território encantado da Cabralândia. Quem já viu Sérgio Cabral (PMDB) borracho no Carnaval de 2010, tartamudeando um inglês de vendedor de mate na praia, ao lado da então candidata à Presidência, Dilma Rousseff (está no Youtube); quem já viu o governador aos prantos por causa da redivisão dos royalties do petróleo (de fato, uma injustiça); quem não viu este mesmo governador soltar um mísera lágrima pelos mais de mil soterrados em avalanches ou quem o viu chamar de “otário” o jovem de uma favela que criticava uma ação do governo, quem se lembra de tudo isso não se surpreendeu com a desenvoltura dos hooligans cabralinos na pátria de Tocqueville. Pouco importa quem estava pagando a farra: se o governo, péssimo; se Fernando Cavendish, péssimo também. Milton Friedman recorreu a uma metáfora para lembrar que ações de governo têm custos: “Não existe almoço grátis”. Conhecia pouco o Brasil. Aqui, a metáfora assume a dimensão de escândalo em linguagem nada figurada: “Não existe jantar de graça em Paris ou em Mônaco”.

Cumpre não esquecer: Cabral é aquele que já convidou a sociedade brasileira a deixar de ser “hipócrita” no caso do aborto, das drogas, e do jogo. Cabral é assim: quem não concorda com ele é só um falso moralista! Quem concorda pode ser um amoralista sincero… Sim, o governador do Rio, que odeia a hipocrisia e ama Paris, já se manifestou a favor da legalização das três práticas. No dia 8 de setembro de 2009 escrevi aqui um post sobre a defesa que ele fez da legalização da jogatina, com o que Carlinhos Cachoeira, o parceiro da Delta, certamente concorda. Mas não pensem que é um homem que se descuida do social!

Cabral defende a legalização do jogo para gerar recursos para a… Saúde! Sérgio Côrtes, seu secretário da área e parceiro de farra em Paris, deve concordar. Afinal, à mesa de um dos jantares, um dos convivas espanca o inglês: “Let´s win some money in the casino.” Como observou o leitor Gonçalo Osório, a turma barbariza o decoro e a língua inglesa. “Let’s make” ou “let’s earn” seria o correto. Com “win”, fez-se um convite para “vencer” o dinheiro. E resta evidente que o dinheiro é que venceu… Carlinhos Waterfall seria mais singelo: “Vâmu ganhá uns trem aí ué…” Cabral pretendia ocupar um dia o lugar de inimputável da política, que seguirá com Lula enquanto ele estiver por aí. Mas voltemos ao ponto.

O PT deu graças a Deus com o tsunami que colheu o governador do Rio. O PMDB andava meio distante da CPI e fazendo cálculos frios. Havia mesmo quem apostasse que sua estratégia seria, como direi?, apresentar a conta ao governo Dilma para não deixar a CPI sair dos “trilhos”. Duvido, por exemplo, que o partido quebrasse lanças por Agnelo Queiroz, o enrolado governador petista do Distrito Federal. Agora, também tem uma tarefa: salvar a pele de Cabral.

No post anterior, há trecho de uma reportagem do Estadão em que fala o inefável Jilmar Tatto (PT-SP), líder do PT na Câmara. Já fui processado por dois ou três dos Irmãos Tatto, não lembro bem — acho que Jilmar era um deles. Eles não gostaram de uma reportagem que publiquei na revista Primeira Leitura, que eu dirigia, sobre a “Tattolândia”, uma região da cidade de São Paulo que é literalmente dominada pela família. Mas eu, vejam só, não deixo de ter certa admiração pelo líder petista. Outros, antes dele, sempre foram imaginosos o bastante para ser cínicos, que não deixa de ser uma forma de inteligência. Jilmar Tatto é diferente! Sua falta de imaginação o obriga a ser sincero, se é que vocês me entendem.

Ouvido pela reportagem, ele não esconde o objetivo do partido:
“Não quero fazer prejulgamentos, mas todas as conversas gravadas pela PF e que envolvem o governador Marconi Perillo apontam para uma séria relação dele com o bando do Cachoeira. É muito diferente do que ocorreu com o governador Agnelo, que é vítima da organização criminosa (…) É preciso examinar todos os elementos. Acho que é precipitado convocar o Sérgio Cabral agora.”

Entenderam? Tatto está dizendo que uma mão lava a outra e que as duas devem conspirar contra a investigação, protegendo-se. Já o governador Marconi Perillo, que é da oposição, bem…, esse o líder petista quer convocar. Ora, o que recomenda o óbvio e o bom senso? Que os três governadores que aparecem nas gravações compareçam à CPI. Ou é assim, ou não se tem uma Comissão Parlamentar de Inquérito, mas um tribunal do governo para esmagar a oposição. CPÌs, repetimos todos, têm sua própria dinâmica, fogem ao controle desse e daquele etc e tal. Huuummm… Mais ou menos. Quem acompanhou as chicanas do PT na CPI do Mensalão, lideradas pela agora ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), sabe que o partido é capaz de tudo — até de fazer a dancinha da impunidade, lembram-se?

Fator Lula e chavismo verde-amarelo
Ou se apura tudo, ou resta à oposição cair fora e deixar que a CPI se transforme naquilo que Lula quer que ela seja: um tribunal de exceção para tentar esmagar a oposição e intimidar a imprensa independente, que não regula suas opiniões segundo a verba publicitária do governo federal e das estatais. Que avance por esse caminho, mas sem a participação das oposições, que teriam, então, pela frente um outro trabalho: apontar, Brasil e mundo afora, o caminho verde-amarelo da chavização ou da kirchnização do país.

É o que quer Lula. É o que quer José Dirceu. Esta CPI, para ambos e para aqueles que os acompanham em sua loucura, é mero pretexto. Ambos estão empenhados na tarefa de demonstrar a tese estupidamente mentirosa de que o mensalão — COM TODOS OS CRIMES QUE OS PRÓPRIOS ACUSADOS JÁ CONFESSARAM — não passou de uma armação de Carlinhos Cachoeira, em parceria com “a mídia”. E defendem abertamente, a quem queira ouvi-los, que a base aliada faça valer a sua maioria para esmagar adversários.

Consideram estar com a faca e o queijo nas mãos. É claro que o grande arquivo dessa história toda se chama Carlinhos Cachoeira. Seu advogado é o petista de carteirinha Márcio Thomaz Bastos, ainda hoje uma espécie de conselheiro de Lula e homem que tirou do colete a tese de que o mensalão era só caixa dois de campanha — um crime menor… O contraventor certamente o contratou para ser mais do que apenas um hábil criminalista. Cachoeira tem  sentenças de morte política e pode selecionar seus alvos.

Lula nunca lidou direito com a democracia, eis a verdade. Quem não está com ele passa a ser visto como um sabotador de seus intentos. É intolerante! Vê nessa CPI a grande cartada para aniquilar os que não rezam segundo a sua cartilha. Na CPI, não há como a oposição vencer a base aliada se esta atuar como ordem unida, deixando de lado a investigação e se dedicando apenas à chicana política. A depender do andamento, é mais do que a simples investigação que estará em jogo. Também estará em questão a ordem democrática. E a oposição terá de ter a devida sensibilidade para, se necessário, botar a boca no trombone.

O líder do PT, na sua sinceridade crua, já disse o que pretende. E agora julga ter argumentos para atrair o PMDB para a sua conspiração contra a oposição, contra a investigação, contra os fatos, contra a verdade. É o que quer Lula. Mesmo  PT sendo inegavelmente bem-sucedido nas urnas, a eleição ainda não é o caminho preferido por muitos petistas para tomar o poder. A razão é simples: eleições nunca dão o poder total.

Por Reinaldo Azevedo

17/03/2012

às 5:09

Chegou a hora de a oposição dar um chute no próprio traseiro. A tradução é ruim, mas o conselho é bom!

Não adianta a oposição insistir! Ela não vai conseguir me matar de tédio. Assunto é o que não falta — os temas estão aí, dados pela sociedade. E lamento não haver tempo para cuidar de todos eles.

Assim, a oposição pode continuar nesse seu eloquente mutismo que nós vamos cuidar de outras coisas, certo? Onde anda Sérgio Guerra? Cadê Aécio Neves, que é agora “o homem”?

Eu nunca vi — e ninguém nunca viu porque isso não existe — uma política que se caracteriza pela… negação da política! Naquela que foi, sem dúvida, a pior semana vivida pelo governo Dilma — superando em muito as Tensões Pré-Demissão (TPDs) dos ministros acusados de corrupção —, ficamos todos com a impressão de que este é um país onde só há governo. O outro lado sumiu do noticiário. E não venham dizer que é só má vontade da imprensa. Um partido de oposição tem de render ao menos um lead.

Que nada! Se você quiser encontrar descontentes com o governo, procure-os na base aliada. Há ali peemedebistas em penca que são “um pote até aqui de mágoa”. Mais surpreendente: não são raros os magoados também entre os petistas. O nome de Ideli Slavatti foi parar na boca do sapo. Ontem, num ato de quase desespero, o novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), correu para tirar uma foto ao lado de Lula. Afrouxem os cintos, o governo sumiu (às vezes, acho que é melhor sem ele…). Essa algaravia toda, esse ritmo buliçoso no Congresso, esse ranger de dentes nos bastidores… Tudo coisa da base aliada!

Há tempos não se via em Brasília uma patetice como a da Lei Geral da Copa! Quer dizer que o governo não havia definido ainda uma linha de ação em algo tão simples: liberar ou não bebida nos estádios? Isso dá uma medida de como anda o resto. A cúpula do Planalto se mobilizou para passar uma orientação e teve de recuar menos de 24 horas depois! E se ouvem muitos resmungos e até ameaças de resistência vindos da… base aliada! “São todos chantagistas!”, gritará alguém. São? Fazer o quê? Eis os parceiros de caminhada de Lula e da Soberana.

Não estou aqui afirmando que a oposição deveria necessariamente fechar questão contra esta ou aquela propostas só para “pegar no pé” do governo. Mas é evidente que há nisso tudo uma questão que é de natureza institucional. O país tem leis. Não pode ficar fabricando outras, ad hoc, a cada vez que decidir sediar um evento. Se a base aliada não vai dar bola pra isso porque entende que seu papel é dizer “sim” ao Planalto, que as oposicionistas se encarreguem, então, dessa defesa institucional.

Não há nada de surpreendente nisso que digo! É assim em todo o mundo. As forças que estão no governo tendem a fazer do pragmatismo seu único Deus. Se seus adversários não reagem, elas caminham para o despotismo até na Dinamarca! É por isso que lembro sempre que é a existência da oposição a prova da democracia — afinal, também existe governo nas tiranias. Mas os nossos oposicionistas — como voz institucional, reitero, não como vozes isoladas deste ou daquele — não querem saber de nada. Ausentam-se do debate.

Na semana passada, Dilma Rousseff mandou para o lixo, por exemplo, uma de suas principais promessas de campanha: a criação de UPPs Brasil afora! No 15º mês de governo, ela descobriu que não bastaria construir prédios (não que o governo seja bom nisso ao menos; não é!). Seria preciso também treinar milhares de homens para a tarefa. Para que o serviço funcionasse, teria de ser operado em conjunto com os estados. Seria um trabalho gigantesco. Tratar a violência como questão federal é uma obrigação, sim. Afinal, há mais de 50 mil homicídios por ano no país. Acreditar, no entanto, que o governo federal pudesse tocar esse megaprograma de instalação de unidades de polícia era uma tolice formidável. Mas parecia divertido prometer que o modelo do Rio se espalharia — como se ele tivesse sido massificado lá, o que é mentira. Indiretamente, fazia-se um ataque a São Paulo. Não tem mais UPPs financiadas pelo governo federal, não!  Também não saíram do papel as creches, as quadras, as UPA… E sabem o que disse a oposição? Se souberem, me contem!

Hoje, como se vê, a principal fonte de críticas ao governo é o próprio governismo. Faltassem os temas administrativo-institucionais — e não faltam! —, há os outros, que mobilizam e dividem a sociedade, alguns ligados ao governo, outros nem tanto. Fico com a impressão de que os candidatos a líderes da oposição — e, por enquanto, não passam disso! — vivem a ilusão de que, caso não opinem sobre nada, caso jamais entrem numa bola dividida, conseguirão angariar a simpatia de todos. Engraçado… A minha impressão é outra: por omissos, acho que acontece o contrário: granjeiam é a antipatia de todos. Eleonora Menicucci voltou a disparar barbaridades sobre o aborto; valores importantes da sociedade brasileira — sim, os religiosos também — estão sofrendo o assédio do laicismo ignorante; pipocam manifestações de desrespeito ao estado de direito…

Não estou dizendo que as oposições deveriam, necessariamente, abraçar esses temas todos. Não faço agenda pra ninguém. Não me cabe. Só estou lembrando que a sociedade brasileira está muito mais viva do que essa oposição cartorial e burocrática. Sei que muita gente torce o nariz para a bancada evangélica, por exemplo, porque há mesmo aqui e ali manipuladores da fé, que criam dificuldades para vender facilidades. Mas há aqueles que levam a sério seus princípios. Cito o grupo só para lembrar que sua mobilização obrigou o governo a vir a público para se explicar sobre alguns temas.

Parlamentares que fazem um trabalho esforçado e decente — e existem! — não devem se zangar com a minha crítica. Reitero que estou aqui a cobrar o que chamei de “voz institucional” da oposição, que tenha a coragem de vir a público para afrontar, quando necessário, um governo popular, sim. Popular e ruim!

Chegou a hora de a oposição se donner un coup de pied aux fesses”!

Por Reinaldo Azevedo
 

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