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Marco Feliciano

21/01/2014

às 22:21

O “Porta dos Fundos” e Marco Feliciano – Um aperitivo

Leitores vêm me cobrando há tempos que escreva sobre o humor do “Porta dos Fundos”. Acho que, até hoje, só escrevi sobre humoristas para elogiar — e eu já elogiei a turma. Já vi sacadas realmente brilhantes. Mais: há lá atores excelentes. O grupo conseguiu desenvolver uma linguagem para a Internet. Parece coisa simples, mas não é.

Quando, no entanto, me vi prestes a criticar seus vídeos ou pela falta de graça ou por um viés que, às vezes, põe a ignorância a serviço de preconceitos — ideológicos ou religiosos (sobretudo esses) —, preferi parar de assistir aos vídeos do grupo. A graça também tem de ser informada em certos casos para ter… graça. E nada escrevi a respeito. Humor, mesmo quando desastrado, mereceria ser respondido com humor. Não é a minha. Convenham: há no país urgências maiores.

Mas agora apareceu uma questão que me parece relevante. Agora a coisa chegou à praia que eu frequento: liberdade de expressão. Este blog é fruto dela. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), pouco importa se por convicção ou por um raro faro para a polêmica — que lhe acaba sendo útil —, resolveu recorrer à Justiça contra o grupo.

Agora, sim, eu vou entrar no caso, Na madrugada, volto ao assunto. Talvez os religiosos não gostem tanto assim. Talvez alguns humoristas não gostem tanto assim. Eu, certamente, vou me divertir lembrando alguns fundamentos da democracia.

Tanto os, como direi?, bem como os mal pensantes, no Brasil, têm um viés curioso: dizem adorar o regime democrático. Mas basta que tenham de arcar com as consequências dele decorrentes, fazem como o coelho do Bambi e saem gritando: “Fogo, fogo na floresta!”

Fogo nada! Fica para mais tarde.

Por Reinaldo Azevedo

28/11/2013

às 6:35

Feliciano agora será o defensor das cotas raciais no serviço público. Palmas pra ele!

O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), tido, até outro dia, como a besta-fera de plantão dos politicamente corretos, agora já pode ser aplaudido. Leio na Folha Online que o presidente da Comissão de Direitos Humanos decidiu relatar no colegiado a proposta que reserva 20% das vagas do serviço público para negros. Trata-se de um projeto de lei apresentado pela presidente Dilma. Feliciano já avisou: “Se houver mudança, é para ampliar o percentual”.

Ah, assim, sim! Agora é o caso de a turma sair por aí cantando: “Feliciano é um bom companheiro; Feliciano é um companheiro…”. E cota para gays no serviço público? Quando chegam? E para os anões, os míopes, os torcedores da Portuguesa, em São Paulo, e do América, no Rio?

Ironizo? Já escrevi a respeito. É claro que me oponho a qualquer cota, mas a que existe para estudantes, vá lá, ainda tem um argumento de uma solidez ao menos gelatinosa: seria preciso, pela educação, igualar os desiguais e coisa e tal. No serviço público, no entanto, há de se selecionarem os melhores, independentemente de sua cor, porque eles estarão oferendo sua sabedoria — não se trata de uma fase de formação — ao conjunto dos brasileiros. Qualquer outro critério que não seja a escolha do mais competente é um absurdo em si.

Feliciano, claro!, poderia ter ficado fora dessa, limitando-se a votar a favor. Mas ele, que é, segundo os critérios racialistas, um “negro” — foi bastante ironizado por fazer chapinha —, não perderia a chance de ser também aplaudido, certo?

De resto, Feliciano poderia perfeitamente defender que 7,61% das vagas fossem reservadas aos realmente negros, 43,13% aos pardos, 1,09% aos amarelos e 0,43% aos vermelhos (refiro-me aos índios; a de esquerdistas deve passar de 80%…). É a distribuição dos brasileiros segundo a cor da pele, informa o IBGE. Quem haveria de contestá-lo. Seria surrealista, claro!, mas um surrealismo com critério.

composição racial Brasil 2010 ibge

Por que, afinal, o número mágico de 20% e não 23,7% ou 25,9%? Qualquer escolha diferente dos dados do IBGE não passa de arbítrio.

“Não dê a ideia, Reinaldo Azevedo! Vai que…” Sabe o que é, gente? Tenho a obsessão da objetividade.

Texto publicado originalmente às 22h18 desta quarta
Por Reinaldo Azevedo

10/08/2013

às 15:54

Militantes gays hostilizam Feliciano dentro de avião. Onde está mesmo a intolerância? Ou: Se deputado tivesse reagido, como eles queriam, seria homofobia?

É o fim da picada! O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), e o produtor musical Roberto Marinho foram hostilizados dentro do avião, que partiu de Brasília, por um grupo de gays. Dois deles se levantaram, foram ao lado das poltronas de Feliciano e Marinho, começaram a dançar — um se esfregava em Marinho, e o outro passou a mão na cabeça do deputado. Vejam.

O mote do protesto — um dos envolvidos chega a “entrevistar” uma passageira sobre o tema — é uma ficção: o tal do projeto da cura gay, que nunca existiu. Trata-se de uma invenção da imprensa e dos militantes.

Muito bem! Estou entre aqueles que acreditam que as pessoas não podem e não devem ser assediadas em razão de sua condição sexual, física ou de suas opiniões — desde que estejam jogando o jogo democrático. E Feliciano está, ainda que se possa discordar dele, ora!

Isso que se viu é aceitável?

Transcrevo trecho de reportagem da Folha:

No microblog, Feliciano agradece aos passageiras e a companhia aérea. “Agradeço aos passageiros do voo AD5019 BSB x GRU bem como a equipe da @azulinhasaereas e o apoio da Polícia Federal do Aerop de Guarulhos.” O deputado ainda afirmou: “Não sou contra gays, sou defensor da família natural!”

Em uma troca de conversa pelo Twitter com Karen, uma das filhas de Feliciano, Marinho disse que não sabe como não reagiu e chama um dos rapazes de idiota. “Voltamos da vigília agora e vi o vídeo. Nem sei como não reagi, só Deus mesmo. Mas a vitória será grande. Por isso filmaram, pra ver se teria reação. O idiota ainda pediu o povo pra cantar, ninguém deu moral. kkkkk. Pena q o covarde não filmou a Polícia Federal que esperava em solo.” Marinho disse ainda que Feliciano “não quis prestar queixa” à polícia.

Encerro
Essa gente que assediou Feliciano, estou certo, quer a aprovação do PL 122, aquele que manda para a cadeia os acusados de “homofobia”. Pois é… Com a lei aprovada, se um dos dois assediados tivesse dado um murro na cara — E RECOMENDO EXPLICITAMENTE QUE NÃO SE FAÇA ISSO — dos agressores, estaríamos diante de um caso de “homofobia”?

O que essa gente quer? Igualdade perante a lei ou privilégios, acompanhados da impunidade? O vídeo que eles mesmos postaram — e, pois, orgulham-se disso — dá a resposta.

Por Reinaldo Azevedo

08/05/2013

às 22:28

Não existe projeto de “cura gay”. É pilantragem jornalístico-militante

Perguntam-me por que não comentei nada sobre o adiamento da votação, na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, do “projeto que permite a cura gay”. Porque isso não existe! Esse projeto é uma invenção de setores da imprensa e dos militantes da causa gay. Já escrevi longamente a respeito. O que existe é um Projeto de Decreto Legislativo que torna sem efeito parte do Arrigo 3º e o Artigo 4ª da Resolução nº 1 do Conselho Federal de Psicologia, que, com efeito, invadem de forma indevida a relação psicólogo-paciente e violam o Artigo V da Constituição. No texto cujo link vai acima, explico por quê. Lá estão todos os links para o conteúdo que interessa: a resolução do Conselho e a íntegra do texto a ser votado. Afirmar que se trata de “projeto de cura gay” é estupidez, má-fé ou as duas coisas. Ou ainda: “Ah, já que diz respeito ao Feliciano mesmo, tudo nos é permitido”. É militância, não é jornalismo.

E pouco me importa se há 99% da imprensa dizendo o contrário. Essa maioria esmagadora é incapaz de mudar o sentido das palavras. A parte da resolução do conselho, diga-se, que deixa claro que homossexualidade não é patologia é preservada, o que também demonstro. O Projeto de Decreto Legislativo seria discutido na comissão nesta quarta. O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), pediu que fosse adiado porque se prevê tumulto na Casa etc.e tal. Parece que ficou para a semana que vem.

Pronto. Aí está a notícia sobre a não notícia. Aí está a não votação do projeto que não autoriza a cura gay e só corrige um arroubo autoritário do Conselho Federal de Psicologia, que não costuma abraçar causas muito boas, diga-se. O Conselho foi um dos apoiadores daquele seminário em favor da descriminação das drogas ocorrido em Brasília entre sexta e domingo passados. Também meteu as digitais em propostas que pretendem cercear a propaganda de alimentos considerados pouco saudáveis ou que levem ao consumismo — mais uma estrovenga notavelmente autoritária. Voltarei ao tema nesta madrugada.

É isso.

Por Reinaldo Azevedo

02/05/2013

às 7:11

Lá vem mais barulho na comissão presidida por Feliciano; agora, imprensa inventa que projeto autoriza “cura gay” e trata homossexualidade como doença. É mais uma mentira influente. Ou: Trecho de resolução tem mesmo de cair!

Xiii…

Lá vem confusão pela frente. E mais gritaria está garantida por uns bons dias. Até porque a imprensa, pautada pelo sindicalismo gay, já nem mais lê o que é e o que não é votado na Câmara. Reproduz o que dizem os militantes. Ademais, se os evangélicos estão de um lado, então cumpre ficar do outro. É um jeito burraldo de pensar. Não é jornalismo, mas militância. Assim, no entanto, são os dias. Até o verão passado, era proibido questionar a turma do aquecimento global. Mas aí o mundo não acabou e até esfriou… Vamos lá. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, decidiu votar na semana que vem o Projeto de Decreto Legislativo 234/11, de autoria do deputado João Campos (PSDB-GO), que torna sem efeito o trecho do Artigo 3º e todo o Artigo 4º da Resolução 1/99 do Conselho Federal de Psicologia. Já explico o que dizem tanto a resolução como o Projeto de Decreto Legislativo. Cumpre, antes, notar como a coisa está sendo noticiada.

Diz-se por aí: “Feliciano vai votar proposta que trata homossexualidade como doença”; “Feliciano vai votar projeto sobre cura gay”. Reportagem da Folha chega a atribuir à proposta de Campos o que nela não está. Explico daqui a pouco.

Então vamos aos documentos. A íntegra do Projeto de Decreto Legislativo está aqui, com a justificativa. Reproduzo a parte propositiva em azul.
Art. 1º Este Decreto Legislativo susta o parágrafo único do Art. 3º e o Art. 4º, da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99 de 23 de Março de 1999.
Art. 2º Fica sustada a aplicação do Parágrafo único do Art. 3º e o Art. 4º, da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99 de 23 de Março de 1999, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual.
Art. 3º Este decreto legislativo entra em vigor na data de sua publicação.

Então é preciso fazer o que virou raridade nas redações quando os lobbies “do bem” ditam a pauta; saber, afinal, que diabo dizem os trechos que seriam sustados.
“Art. 3° – os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.”
Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.
Art. 4° – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.

Comento
Atenção! A proposta de Decreto Legislativo não toca no caput do Artigo 3º. Ele seria mantido intocado. Como deixa claro o projeto do deputado, seriam suprimidos apenas o Parágrafo Único do Artigo 3º e o Artigo 4º. Ora, afirma a reportagem da Folha (em vermelho): “O projeto de Campos quer sustar dois artigos instituídos em 1999 pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). O primeiro impede os psicólogos de exercer ações que favoreçam ‘a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas’. O segundo afirma que os profissionais não podem emitir opiniões que reforcem ‘preconceitos sociais’ contra os homossexuais ‘como portadores de qualquer desordem psíquica’”. Como se vê, o trecho em destaque da reportagem do jornal está errado porque se refere ao caput do Artigo 3º, que permaneceria intacto.

Mistificações
Como se nota, ao suprimir esses dois trechos da Resolução 1/99, o Projeto de Decreto Legislativo não passa a tratar a homossexualidade como uma doença. É mentira! Também não autoriza a “cura gay”. É outra mentira! São distorções absurdas! Quando essa mesma proposta foi discutida na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara, já foi uma baixaria infernal. Escrevi então a respeito. E algumas das considerações deste texto são daquele post.

Fato, não militância
Procederei a algumas considerações prévias, até que chegue ao cerne da questão. Avalio que a homossexualidade não tem cura pela simples razão de que não a considero uma doença. E nisso concordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde) e com o Conselho Federal de Psicologia. Assim, não acredito em terapias que possam converter héteros em gays ou gays em héteros (não se tem notícia de que alguém tenha buscado tal conversão). Mais: sexualidade não é uma opção — se fosse, a esmagadora maioria escolheria o caminho da maior aceitação social, e, nessa hipótese, as escolhas poderiam até ir mudando ao longo do tempo, à medida que determinadas práticas passassem a ser mais aceitas ou menos.

Há quem só goste de um brinquedo; há quem só goste do outro; e há quem goste dos dois. Essa minha opinião não é nova — o arquivo está aí. Os espadachins da reputação alheia, como escreveu Balzac, fazem questão de ignorá-la porque gostam de inventar inimigos imaginários para posar de mártires. Muito bem. Até aqui, não haveria por que os gays — ou o que chamo “sindicalismo gay” — estrilar. Mas é evidente que não pensamos a mesma coisa. Entre outras divergências, está o tal PLC 122 que criminaliza a chamada “homofobia”. Trata-se de um delírio autoritário. Já escrevi muito a respeito e não entrarei em detalhes agora para não desviar o foco.

Vamos lá. Desde 22 de março de 1999, está em vigência a tal Resolução 1 (íntegra aqui), que cria óbices à atuação de psicólogos na relação com pacientes gays. Traz uma porção de “considerandos”, com os quais concordo (em azul), e depois as resoluções propriamente. Listo os ditos-cujos:
CONSIDERANDO que o psicólogo é um profissional da saúde;
CONSIDERANDO que na prática profissional, independentemente da área em que esteja atuando, o psicólogo é frequentemente interpelado por questões ligadas à sexualidade;
CONSIDERANDO que a forma como cada um vive sua sexualidade faz parte da identidade do sujeito, a qual deve ser compreendida na sua totalidade;
CONSIDERANDO que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão;
CONSIDERANDO que há, na sociedade, uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente;
CONSIDERANDO que a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações

Aí vem o conteúdo da resolução. O caput do Artigo 3º, com o qual ninguém mexe (à diferença do que diz a Folha), é correto. Reproduzo de novo:
“Art. 3° – os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.”
Está claro, então, que os psicólogos não atuarão para favorecer a patologização da homossexualidade nem efetuarão tratamentos coercitivos. E a parte que cairia? Pois é…Transcrevo outra vez (em vermelho e em destaque):

Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

Art. 4° – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.

Têm de cair mesmo!

Qual é o principal problema desses óbices? Cria-se um “padrão” não definido na relação entre o psicólogo e a homossexualidade. Esses dois trechos são tão estupidamente subjetivos que se torna possível enquadrar um profissional — e puni-lo — com base no simples achismo, na mera opinião de um eventual adversário. Abrem-se as portas para a caça às bruxas. Digam-me cá: um psicólogo que resolvesse, sei lá, recomendar a abstinência sexual a um compulsivo (homo ou hétero) como forma de livrá-lo da infelicidade — já que as compulsões, segundo sei, tornam infelizes as pessoas —, poderia ou não ser enquadrado nesse texto? Um adversário intelectual não poderia acusá-lo de estar propondo “a cura”? Podemos ir mais longe: não se conhecem — ou o Conselho Federal já descobriu e não contou pra ninguém? — as causas da homossexualidade. Se um profissional chega a uma determinada terapia que homossexuais, voluntariamente, queiram experimentar, será o conselho a impedir? Com base em que evidência científica?

Há uma diferença entre “verdade” e “consenso da maioria influente”. Ademais, parece-me evidente que proibir um profissional de emitir uma opinião valorativa constitui uma óbvia infração constitucional. Questões ligadas a comportamento não são um teorema de Pitágoras. Quem é que tem o “a²= b²+c²” da homossexualidade? A resolução é obviamente autoritária e própria de um tempo em que se impõe a censura em nome do bem.

Ora, imaginem se um conselho de “físicos” ousaria impedir os cientistas de tentar contestar a relatividade. O que vai ali não é postura científica, mas ideologia. Se conceitos com sólida reputação de verdade, testados empiricamente, podem ser submetidos a um teste de estresse intelectual, por que não considerações que dizem respeito a valores humanos? Tenham paciência! O fato de eu não endossar determinadas hipóteses ou especulações não me dá o direito de proibir quem queira fazê-lo.

Fiz uma pesquisa antes de escrever esse texto. Não encontrei evidências de resolução parecida em nenhum lugar do mundo. O governo da Califórnia, nos EUA, proibiu a terapia forçada de “cura” da homossexualidade em adolescentes. É coisa muito diferente do que fez o conselho no Brasil. Países que prezam a liberdade de expressão e que não querem usar o discurso da liberdade para solapar a própria liberdade não se dão a desfrutes dessa natureza.

Então vamos lá. Eu não estou defendendo terapias de cura da homossexualidade. Eu não acredito que haja cura para o que não vejo como doença. Também não acho que estamos no universo das escolhas. Dito isso, parece-me uma suma arrogância que um conselho profissional interfira nessa medida na atividade clínica dos profissionais e, atenção!, dos pacientes também! Assim, no mérito, não vejo nada de despropositado na proposta do deputado João Campos. Ao contrário: acho que ela derruba o que há de obviamente autoritário e, entendo, inconstitucional na resolução porque decidiu invadir também o território da liberdade de expressão, garantido pelo Artigo V da Constituição.

É preciso saber ler.

Proponho aqui um exercício aos meus colegas jornalistas. Imaginem um Conselho Federal de Jornalismo que emitisse a seguinte resolução, com poder para cassar o seu registro profissional:

“Os jornalistas não colaborarão com eventos e serviços que proponham qualquer forma de discriminação social”.

“Os jornalistas não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos contra pobres, negros, homossexuais, índios, mulheres, portadores de necessidades especiais, idosos, movimentos sociais e trabalhadores”

O idiota profissional diria: “Ah, está muito bem para mim! Eu não faria nada disso mesmo!”. Não, bobalhão, está tudo errado! Você se entregaria a uma “corte” de juízes que definiria, por sua própria conta, o que seria e o que não seria preconceito. Entendeu ou preciso pegar na mãozinha para ajudar a fazer o desenho? O problema daquele Parágrafo Único do Artigo 3º e do Artigo 4º é o subjetivismo. Ninguém pode ser obrigado, não numa democracia, a se submeter a um tribunal que pode dar a sentença máxima com base nos… próprios preconceitos.

Nem nos seus delírios mais autoritários ocorreria a um conselho profissional nos EUA, por exemplo, interferir dessa maneira na relação do psicólogo com o seu paciente. Uma coisa é afirmar, e está correto, que a homossexualidade não é doença; outra, distinta, é querer impedir que o profissional e quem o procura estabeleçam uma relação terapêutica que pode, sei lá, disciplinar um comportamento sexual sem que isso seja, necessariamente, uma “cura”.

Os tais trechos da resolução, entendo, são mesmo autoritários e inconstitucionais. E têm de cair. E o que parece, isto sim, não ter cura é a vocação de amplos setores da imprensa para a distorção. Cada vez mais, a notícia se transforma num instrumento para privilegiar “os bons” e satanizar “os maus”. Isso é militância política, não jornalismo.

Por Reinaldo Azevedo

18/04/2013

às 17:11

O vídeo em que Feliciano ataca a Igreja Católica e ainda a liberdade de expressão

Mais um vídeo com uma performance do Pastor Marco Feliciano  num culto está causando rebuliço. Antes que entre no mérito, algumas considerações prévias.

O Brasil, a começar da própria imprensa, o que é espantoso, lida mal com a liberdade de expressão e com a liberdade religiosa. Estepaiz,  como diz o Apedeuta, precisa fazer um estágio na democracia americana e refletir profundamente sobre o sentido da Primeira Emenda, aquela que garante a liberdade de imprensa, a liberdade religiosa, a liberdade de expressão, o direito de apresentar petições contra o Estado e de livre associação para fins pacíficos. O Congresso está impedido de criar legislação que restrinja esses direitos. No original: “Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press; or the right of the people peaceably to assemble, and to petition the Government for a redress of grievances.” É a mais sintética e abrangente definição que conheço do que é um regime democrático. Adiante.

O vídeo abaixo está circulando na rede. O pastor — não o deputado — Marco Feliciano, num culto, diz uma porção de asneiras sobre a Igreja Católica. Depois de afirmar que conhece “o Deus de Paulo” — numa referência ao apóstolo —, chama o catolicismo de “religião morta e fajuta”. Supõe-se, claro, que a “sua” igreja — que não é sinônimo de toda a Assembleia de Deus, seja “viva e verdadeira”… Então tá. O vídeo circula freneticamente por aí e provoca indignação.

É claro que ele diz um monte de absurdos, embora seja exagero afirmar que esteja acusando os católicos de cultores de satanás ou de prostituição, como está circulando por aí. E noto: ele não entendeu Paulo, como se atrapalhou também com a geografia da Bíblia…

Marcha dos idiotas
Alguns idiotas resolveram torrar a minha paciência. Um dos mais agressivos pergunta: “E agora, papa-hóstia (o “papa-hóstia” sou eu…), vai continuar a defender o pastor Feliciano?” Resposta: Não! Porque, de fato, NUNCA defendi Feliciano politicamente, teologicamente, moralmente — escolham aí o advérbio. Meus textos estão em arquivo. No primeiro que escrevi a respeito deste senhor, afirmei que:

– discordava dele em tudo;
– jamais votaria em alguém com seu perfil (poderia votar em evangélico, sim; nele, não!);
– jamais votaria nele para presidir comissão nenhuma;
– ele, como político e com essa projeção, era uma criação do PT, que abandonou a Comissão de Direitos Humanos em favor de outras mais, como dizer?, rentáveis.

E tenho dito também, desde o primeiro dia, que as opiniões políticas ou religiosas de Feliciano, enquanto estiverem protegidas pelos direitos garantidos pela Constituição, não autorizam ninguém a ir lá meter o pé na porta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias para arrancá-lo à força. Aliás, noto: ainda que houvesse motivos para tanto, não caberia a hordas fazê-lo. O Brasil tem leis.

Sou católico, sim, e daí?
Sou católico, sim! É evidente que essas opiniões estúpidas de Feliciano, tomadas isoladamente, me ofendem. Mas reconheço o direito que ele tem de considerar a minha religião “morta e fajuta”, tanto quanto asseguro que o entendimento que ele tem de Deus é primitivo, desinformado, cretino, oportunista, circense. Pessoas como Feliciano, entre os evangélicos, são a absoluta minoria. Não vou usar a sua pregação irresponsável para generalizar: “Vejam como eles são!” Isso é mentira! Quando a marcha do orgulho gay fez chacota dos santos da Igreja Católica, foi o pastor Silas Malafaia o primeiro a reagir em defesa da instituição. E o fez com mais energia do que boa parte dos católicos que conheço.

Aliás, eis aí um caso interessante. A Constituição assegura a liberdade religiosa, como todos sabem. Será que os católicos, que são a maioria no Brasil, devem agora lutar por um PLC que puna particularmente as opiniões desairosas sobre os… católicos? Quantas leis teremos de fazer para, em tese, coibir a opinião dos idiotas? Ao escolher esse caminho, também estaremos colocando em risco a liberdade dos sensatos, uma vez que se vão criar tribunais para arbitrar sobre a palavra.

Acho as opiniões de Feliciano detestáveis também nesse particular. E daí? Se me fosse dado fazer uma sugestão, creio que as próprias lideranças evangélicas deveriam lhe recomendar que contivesse a logolatria e a egolatria. Mas isso é problema deles, não meu.

Reproduzo, uma vez mais, as palavras do economista Walter Williams em entrevista à VEJA:
“É fácil defender a liberdade de expressão quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas”.

É nisso que acredito. “E se o sujeito sair por aí pregando a violência?” Aí não pode! Tem de ser severamente punido pela lei — e já existem leis para tanto.

Assim, os bobinhos podem tirar o cavalo da chuva. Não mudei uma vírgula do que penso sobre o caso Feliciano, agora que veio à luz esse novo vídeo e que ele considera a minha religião “morta e fajuta”. Não! Eu não acho que líderes religiosos devam se manifestar dessa forma. Acho ética e moralmente detestável. Não! Eu não acho que católicos, agora, devam devolver na mesma moeda.

Eu não vou entrar nessa brincadeira perigosa de promover guerra de gays contra evangélicos, de evangélicos contra católicos, de católicos contra muçulmanos… E considero irresponsável a imprensa que compra essa pauta.

Por Reinaldo Azevedo

10/04/2013

às 8:06

Petista quer censurar 80% dos programas de TV e rádio. Vão lá, coleguinhas jornalistas, deem a mão para ele em apoio ao delito de opinião!

Posso ser acusado de tudo, menos de não compreender a alma dos petistas, não é mesmo? Sou, assim, uma espécie de narrador onisciente de suas peripécias. Escrevi ontem aqui um post em que lembrava um anúncio pago que o pastor Silas Malafaia fez publicar em 2009 nos principias jornais do país. Ali, ele fazia a defesa irrestrita da liberdade de imprensa, mesmo destacando que costuma ser um de seus alvos permanentes, recusando toda forma de controle da imprensa. Respondia a um ataque bucéfalo que Lula havia feito ao jornalismo livre. Contrastei, então, em meu texto a opinião correta do pastor com o clamor vagabundo que há na grande imprensa em favor de formas entre veladas e escancaradas de censura.

OS NOSSOS JORNALISTAS E OS NOSSOS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO SE APETRALHARAM! Acham que a censura, desde que aplicada a quem detestam, é correta. Escrevi aqui, mais de uma vez, e vocês são testemunhas, que a investida contra o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, Marco Feliciano (PSC-SP), era só uma etapa de um processo. E será, caso os comandantes continuem a conduzir seus respectivos barcos para o abismo, em busca do aplauso das milícias politicamente corretas. A censura é uma tara, um desvio de caráter. Quem pratica não consegue parar. É diante daquilo que execramos que o nosso compromisso com a liberdade de expressão se revela ou não.

Pois bem. Tarso Genro é governador do Rio Grande do Sul. Petista da gema! Quer-se mais ideológico e mais puro do que muitos de seus companheiros. No período do mensalão, até ensaiou um discurso mais duro contra os desmandos. Mas logo parou. Cedeu aos imperativos do partido. Nada a estranhar. Lembro sempre que ele é autor de um livro intitulado “Lênin, Coração e Mente”. Foi o único a ter achado um coração naquele senhor. Tarso chegou aonde Krupskaia nunca esteve.

O homem se animou com o clima e fez a mais contundente defesa da censura jamais feita por um petista. Sente que o campo está propício para a sua pregação. Se milícias podem tomar a Câmara de assalto, sob o aplauso unânime de jornais, TVs, sites e revistas, então é chegada a hora de voltar àquela velha agenda; então é chegada a hora de voltar a falar, e com ênfase, no controle da imprensa. E ele fez isso. Já chego lá. Alguns “progressistas” não gostam de Malafaia e de suas opiniões sobre o casamento gay — preferem ignorar a sua defesa da imprensa livre. Mas gostam do PT, cujo Diretório Nacional aprovou uma resolução defendendo abertamente controle de conteúdo da imprensa — nada menos! E de qualquer uma, não só da radiodifusão, que é uma concessão pública (sou contra esse também, só para deixar claro!).

Assim, alguns bananas disfarçados de jornalistas são fascinados por aquilo que, no limite, poderia cassar o seu registro profissional e mesmo mandá-los para a cadeia, mas hostilizam quem defende a plena liberdade de opinião. E hostilizam por quê? Ora, porque não gostam de sua opinião!!! Essa profissão já foi um pouco mais robusta intelectualmente, quando se assentava num número um pouco maior de livros e de textos de referência; quando os profissionais sabiam quem era Krupskaia e não tinham ideia de quem era Lady Gaga (a Lady Gaga da época, claro…).

Tarso participou anteontem de um evento com sindicatos e movimentos sociais em Porto Alegre. E vociferou, referindo-se ao Artigo 221 da Constituição, segundo informa a Folha:
“Se esses artigos fossem aplicados de maneira séria, provavelmente mais de 80% dos programas que estão nas rádios e principalmente nas televisões teriam de sair do ar. (…) São programas que ou transformam a mercadoria em notícia ideologizada ou promovem a violência, o sexismo e a discriminação”.

É o que querem
É o que eles querem: censurar 80% dos programas de televisão e rádio. E notem ali a mistura de anticapitalismo rombudo — como se petistas não se entendessem muito bem com o capital; parece que cobram mais caro… — com a agenda politicamente correta. Quando fala em “violência, sexismo e discriminação”, aqueles fascitoides travestidos de democratas que vão promover bagunça na Câmara se arrepiam de prazer.

Eis aí um bom recado para alguns humoristas bestalhões, que deveriam ser objetos das próprias piadas, que resolveram engrossar o coro da censura, ainda que à sua maneira. Eis aí um bom recado para os “artistas”, que sempre sabem tudo sobre hidrelétricas e Constituição e saem se beijando por aí (sempre sem língua; ainda escreverei a respeito) “contra Feliciano”…

Não! Não quero aproveitar a fala de Tarso para abonar as tolices ditas pelo deputado. Não se trata disso. Desde o começo dessa jornada, tenho alertado aqui que me interessa é a questão de princípio. Eu não preciso concordar com o outro para reconhecer seu direito de dizer o que pensa — ainda que essa coisa pareça estúpida.

Mesmo espírito
Atenção! O espirito que anima as milícias da Câmara e, por incrível que pareça, da imprensa é o mesmo que inspira Tarso Genro. E ele evoca, vejam só, a Constituição para defender a censura, esquecendo-se que os Artigos 5º e 220 impedem qualquer forma de cerceamento da liberdade de expressão.Tarso não é peixe pequeno no PT. Já presidiu o partido. Já foi ministro da Educação e da Justiça. É agora governador do Rio Grande do Sul. É visto por parte do jornalismo adesista como a ala boa do PT — dá para imaginar como é a podre. Bem, a gente sabe como é.

Na reunião com movimentos sindicais e sociais, todos ali salivando para dar cacete em jornalista (e há jornalistas que não veem a hora de tomar porrada, desde que por uma boa causa…), ele também defendeu o governo nos casos de corrupção e provou — afinal, ele é Tarso Genro — a inocência dos corruptos: “Quem leva para dentro do Estado o vírus da corrupção é a iniciativa privada.” Entenderam. Na verdade, Dirceu e aquela gente toda era pura. Mas aí chegou a inciativa privada para corrompê-los, coitados! É asqueroso!

O atual governador do Rio Grande do Sul já se aventurou pela poesia, como sabem. É mesmo um poeta de mão cheia. Cometeu versos assim:
“Quanto te esperei e quanto sêmen
inútil derramei até o momento”.
Pode parecer incrível, mas sua poesia consegue ser mais limpa do que seu pensamento…

Vão lá, vão…
É isso aí. Vão lá, vão, coleguinhas, ajoelhar-se no altar do politicamente correto. Entreguem a cachola ao cutelo. Engrossem as milícias e as patrulhas que querem restituir no Brasil o crime de opinião. Criem corvos para ver o que lhes acontece com os olhos.

Era sobre isso que eu falava desde o começo. E, para quem ainda não se convenceu, segue mais um poema de Tarso Genro (sim, esse é o poema inteiro):
“Em Cuba planta-se cana”

Por Reinaldo Azevedo

09/04/2013

às 15:19

O PT impede a renúncia de Marco Feliciano porque não abre mão de seus criminosos na CCJ

Se a imprensa, boa parte dela ao menos, que cobre o caso Marco Feliciano (PSC-SP) estivesse empenhada em reportar os fatos aos que estão do outro lado da tela, em vez de tentar convertê-los ao progressismo, só um título — ou variantes com tal conteúdo — seria possível para deixar claro o que se deu nesta terça na reunião de líderes com o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara: é o que está aí no alto. Sim, foi isto mesmo: o PT impediu a renúncia de Feliciano à presidência da comissão. Ou, se quiserem, o PT mantém Feliciano.

Por quê? O deputado aceitou renunciar à presidência da comissão. Ele só impôs uma condição: que os petistas José Genoino e João Paulo Cunha renunciassem à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). É claro que acho uma boa proposta, até porque ela surgiu primeiro neste blog. E olhem, observei então e observo agora, que Feliciano não é oficialmente um criminoso; os outros dois são.  O que é um criminoso? O Houaiss explica: “que ou aquele que infringiu por ação ou omissão o código penal, cometendo crime; delinquente, réu”.

Vamos ver como a imprensa vai noticiar a coisa. Nos sites dos grandes jornais, já vi que a informação foi parar no pé. As TVs, pelo cheiro da brilhantina, tendem a omitir a condição que ele impôs, rejeitada pelo PT. Assim, os nobres coleguinhas vão esconder dos telespectadores pela segunda vez que os petistas são os responsáveis pela manutenção de Feliciano na comissão:
a) quando a recusaram para pegar postos mais importantes, deixando-a para O PSC;
b) quando recusaram a renúncia de dois deputados criminosos.

E por que vão esconder? Ah, porque não é “progressista”. Como estão em campanha em favor do casamento gay — e podem estar, tudo certo! —, todas as notícias passarão por esse filtro. Eu sempre defendi que os veículos de comunicação tenham agenda. Só os tiranos querem impedir que tenham. Mas distorcer os fatos não é parte do jogo.

Proposta excelente
A proposta de Feliciano era excelente porque se aumentava a moralidade média da CCJ, ainda que muito pudesse ser feito por ali. Notem que Feliciano não exigiu, por exemplo, a renúncia de José Guimarães (PT-CE), irmão de Genoino, líder do PT na Câmara e chefe daquele pobre coitado encontrado com a cueca recheada de reais e dólares. Até os semoventes sabem que o dinheiro não era dele. O sujeito mal falava; tartamudeava. E olhem que Feliciano não pediu a renúncia de Ricardo Berzoini (PT), presidente do PT quando estourou o caso dos aloprados. Que ele conhecesse parte da operação ao menos, isso está comprovado pelos fatos. E olhem que Feliciano não pediu, atenção!, a renúncia de Paulo Maluf (PP-SP). Sim, ele mesmo: Maluf, acreditem, é titular de uma comissão chamada de “Constituição e Justiça”.

Que eu saiba, só mesmo os líderes do PT, PSOL, PDT, PCdoB e PPS insistiram na renúncia. Os demais acabaram concordando com a permanência.  O PSDB nem mesmo participou da reunião porque considerou que não havia dispositivo regimental que a justificasse. E não há mesmo. Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), presidente da Câmara — imaginem se Feliciano tivesse proposto a renúncia de todo mundo que está enrolado com a Justiça… — cobrou que as reuniões da comissão voltem a ser abertas. Voltarão. Quero saber se o homem que responde pela segurança dos trabalhos na Casa Legislativa garantirá também as condições necessárias para a sua realização.

Se não garantir, Feliciano pode recorrer ao Artigo 272 do Regimento Interno e fechar de novo. E o artigo diz o seguinte:
Art. 272. Será permitido a qualquer pessoa, convenientemente trajada e portando crachá de identificação, ingressar e permanecer no edifício principal da Câmara e seus anexos durante o expediente e assistir das galerias às sessões do Plenário e às reuniões das Comissões.
Parágrafo único. Os espectadores ou visitantes que se comportarem de forma inconveniente, a juízo do Presidente da Câmara ou de Comissão, bem como qualquer pessoa que perturbar a ordem em recinto da Casa, serão compelidos a sair, imediatamente, dos edifícios da Câmara.

Para encerrar
Feliciano, certamente, não representa um monte de gente. Também diz tolices e inconveniências sobre a morte de Jesus Cristo. Ooops, errei, ele falou besteira sobre a morte daquele outro mais famoso, né?, o tal John Lennon, acho… Mas representa outros tantos, como se vê na foto abaixo, de André Borges, da Folhapress. Aqueles dois que estão ali não devem ter entendido, inclusive, que o deputado seja racista.

Aos inconformados, inclusive os do jornalismo, coma liberdade de expressão, resta-me repetir a fala do economista Walter Williams:
“É fácil defender a liberdade de expressão quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas”.

Por Reinaldo Azevedo

09/04/2013

às 6:27

Quando um pastor defende a plena liberdade de imprensa e o jornalismo flerta abertamente com a censura e o delito de opinião, há algo de errado… com o jornalismo!

No dia 18 de setembro de 2010, durante um comício em Campinas, com as presenças de Dilma Rousseff e Aloizio Mercadante — candidatos, respectivamente, à Presidência da República e ao governo de São Paulo —, o então supremo mandatário da nação, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou o seguinte: “Tem dias em que alguns setores da imprensa são uma vergonha. Os donos de jornais deviam ter vergonha. Nós vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como partidos políticos. Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública”. Lula vinha numa impressionante escalada retórica contra a imprensa livre. Quando as notícias eram favoráveis a seu governo, ele as considerava apenas justas; se negativas, ele acusava sabotagem. Lula e o PT nunca desistiram do tal controle da mídia. Em sua última resolução, há poucos dias, o Diretório Nacional do PT pregou abertamente o controle de conteúdo do jornalismo. Pois bem: seis dias depois de mais uma investida contra a liberdade de imprensa, um líder evangélico fez publicar nos principais jornais do país um anúncio pago em que rechaçava qualquer forma de censura promovida pelo estado ou de controle da mídia. Lia-se naquela peça: “Nem o presidente da República, partidos políticos, líderes religiosos, qualquer segmento da sociedade ou mesmo a imprensa são, isoladamente, os donos da opinião pública”. Já voltarei a este anúncio — até porque publicarei a imagem aqui. Antes, algumas considerações.

Crítico da imprensa
Outro dia um desses bobalhões que confundem alhos com bugalhos e joio com trigo enviou um comentário para este blog mais ou menos assim: “Pô, ultimamente, você critica tanto a imprensa que até parece Fulano de Tal…”. E citou um anão moral que anda a soldo por aí, a pedir o “controle da mídia”. Pois é. Dentre tantas outras, uma diferença fundamental se destaca entre mim e aquela coisa triste que foi citada: ele quer uma imprensa controlada pelo estado; eu quero uma imprensa livre, que não se deixe controlar nem pelo estado nem por corporações, qualquer que seja a sua natureza: ofício, crença, ideologia, valores. Aquele bobo do oficialismo sonha em censurar o que os outros escrevem; eu aposto numa imprensa que não tem receio da censura — nem a das vozes eventualmente influentes e das maiorias de ocasião. Aquele cretino critica a imprensa porque a quer com ainda menos liberdade; eu a critico porque a quero mais livre. Aquele governista convicto, pouco importa o governo de turno, quer o jornalismo a serviço do poder; eu quero o jornalismo vigiando o poder.

Assim, sou crítico, sim, da imprensa, especialmente nestes tempos em que ela é tão cegamente liberticida; em que põe, voluntariamente, a cabeça no cutelo. A Constituição nos garante a liberdade, e o estado (não o governo!) a tem assegurado — ainda que não seja pequeno o risco de censura pela via judicial. Mas atenção! Só é verdadeiramente livre o que exerce a liberdade. Uma imprensa que ou se deixa assombrar pela patrulha ou a ela adere, em nome da legitimidade, atropelando as garantias fundamentais da Constituição, está SE DEGRADANDO.

É evidente que uma imprensa que estivesse submetida a isso que chamam “controle social” já não seria livre, especialmente no tempo em que uma força política assegura ser ela mesma “a opinião pública”. Mas o controle do estado não é o único que pode tolher a liberdade. Se admitirmos que policiais informais do pensamento — por mais que tentem falar em nome do bem — imponham a sua vontade na base do berro, da intimidação e da satanização, expomo-nos nós mesmos à hordas do amanhã. Quais serão elas? Falarão em nome de quais valores?

Trata-se, então, de saber em nome de qual ideal de sociedade agimos; trata-se, então, de saber que modelo abstrato perseguimos com nossas práticas e escolhas cotidianas. Ainda que eu repudie as ideias do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, cumpre indagar se uma sociedade em que um parlamentar eleito, escolhido para uma função segundo as regras do Regimento Interno, fosse deposto por delito de opinião seria mais saudável do que outra em que o protesto é, sim, livre — porque a praça é do povo, como o céu é do condor —, mas sem agressão aos fundamentos de um regime democrático e de direito. Feliciano não é um usurpador. O surrealismo alcança tal dimensão que o deputado Jean Schopenhauer Wyllys, numa passeata, chega a INDICAR o nome do PSC que ele quer presidindo a comissão. Sim, o deputado do PSOL se considera no direito de escolher o nome do outro partido que gostaria de ver no cargo. E o jornalismo o trata como a voz da ponderação e do bom senso.

Esses que agora estão em marcha se consideram, a exemplo de Lula, “a” opinião pública. E se preparam, podem escrever aí, para um embate que virá: e ele versará justamente sobre o controle dos meios de comunicação. Alguns estrategistas mancos — espero não ser processado pela Associação da Inclusão dos Claudicantes Ofendidos — escolheram um caminho estupidamente errado. Imaginam que, se cederem às patrulhas politicamente corretas, estarão a salvo da sanha dos censores. Não estarão porque já fizeram uma opção cujo dano é maior do que o perigo, como escreveu Camões. O perigo que se corre — e existe, sim! — é haver formas oblíquas de controle estatal da imprensa. Mas o dano, que já é visível, é esse controle nem ser assim tão necessário porque já exercido na base da sujeição voluntária.

Aposta na liberdade de imprensa
Seis dias depois de Lula ter regurgitado impropérios contra a imprensa livre num palanque, num ambiente, então, de franca hostilidade à liberdade de opinião, um líder evangélico fez publicar este anúncio pago nos maiores jornais brasileiros. Trata-se de uma resposta clara a Lula.

A assinatura está ali. Trata-se do “polêmico”, como querem alguns, Silas Malafaia. Temos, e ambos sabemos disso, enormes discordâncias, inclusive religiosas. Jamais estivemos juntos, mas ele sabe o que penso e sei o que ele pensa. E daí? Eu estou preparado para enfrentar a divergência. O que não aceito, e não aceito, é que tentem me calar — ou calar a outros — ao arrepio dos fundamentos constitucionais; o que rechaço é a tentativa de criar leis que criem categorias superiores de homens, infensos à crítica.

Quantos partidos de esquerda assinariam esse anúncio posto nos jornais por Malafaia? O PT? O PCdoB? O PSOL de Jean Wyllys, Chico Alencar e Marcelo Freixo? Nunca!!! E olhem que, como ele próprio lembra, não se trata de uma pessoa exatamente paparicada pela imprensa cuja liberdade defende. Ao contrário: costuma ser alvo das piores vilanias; preferem transformar o que ele diz numa caricatura para que fique fácil, então, combatê-lo. Eu preferiria estar aqui a discordar do pastor, num ambiente de civilidade democrática, a ter de defender uma questão de princípio: o direito à liberdade de opinião e de expressão.

“Ah, mesmo na democracia, nem tudo pode ser dito, não é, Reinaldo?” É, nem tudo — sempre destacando que, ainda assim, existe uma diferença importante entre dizer e fazer. Mas admito, como princípio, que a democracia não aceita todo e qualquer desaforo, mesmo se apenas falado. Mas fiquemos, então, no caso em espécie, com o que deu à luz o inimigo público nº 1 do Brasil: será mesmo que Feliciano foi além do que pode tolerar o regime democrático? A resposta, obviamente, é “não”. E nem por isso preciso concordar com ele.

Malafaia, ele próprio nota, não fala em nome de todos os evangélicos. Mas professa um valor que, creio, expressa o pensamento da maioria: a aposta na liberdade de imprensa, a aposta na liberdade de opinião, o repúdio a qualquer forma de controle estatal da informação.

Infelizmente — e já digo a razão desse advérbio —, o credo que Malafaia anuncia está muito acima, em termos qualitativos, do entendimento médio hoje vigente nas redações sobre liberdade de imprensa e liberdade de opinião. Já houve coleguinha pregando, abertamente, que eu fosse censurado, por exemplo. Por quê? Ora, porque discorda de mim. Não se dá conta de que, ao fazê-lo, expõe-se ele próprio a uma eventual censura.

No país em que um líder evangélico consegue ser mais desassombrado na defesa da liberdade de expressão do que boa parte dos jornalistas, ousaria dizer que esse pastor agregou a seus valores religiosos os valores inegociáveis da democracia e do estado de direito. Mas também é preciso dizer que os jornalistas renunciaram à sua missão para se comportar como membros de uma seita de fanáticos e linchadores.

Texto publicado originalmente às 2h24
Por Reinaldo Azevedo

09/04/2013

às 6:23

A era dos boçais – Quem matou John Lennon? Eu acho que foi Mark Chapman. Quem matou o bom senso? Ah, aí já foi uma legião!

Ontem à tarde e à noite, infelizmente, tive alguns problemas relacionados à saúde de familiares (não creio que tenha sido castigo divino) e acabei escrevendo menos do que o habitual — é bem verdade que há quem reclame que o meu “menos” já é muito, hehe… Quando tive de me ausentar, a grande questão que mobilizava as consciências mais atiladas do Brasil não era o risco de uma eventual guerra na península coreana; se acontecesse, o mundo estaria em perigo. Que nada! Isso é pouco para nós. Em Banânia, temos assuntos mais graves, mais sérios, mais urgentes. Por exemplo: será verdade que Deus é o verdadeiro assassino de John Lennon, não o perturbado Mark Chapman?

Segundo o PASTOR — não o deputado — Marco Feliciano, as três balas disparadas pelo assassino tinham o dedo de Deus. Seria uma punição pela ousadia do ex-Beatle, que declarara certa feita que o grupo era “mais famoso do que Jesus Cristo”. O Senhor, então, zangado por ter perdido a capa da revista “Caras” do Universo Celeste, teria dado um jeitinho. Num vídeo que circula na Internet, diz Feliciano:
“A minha Bíblia diz que Deus não recebe uma afronta e fica impune. Passou um tempo dessas declarações, alguém chama (John Lennon) pelo nome, ele vira e é alvejado com três tiros no peito. Eu queria está lá no dia em que descobriram o corpo, eu ia tirar o pano de cima e ia dizer: “Me perdoe, mas esse primeiro tiro foi em nome do Pai, esse é em nome do Filho, e esse é em nome do Espírito Santo. Ninguém afronta Deus e sobrevive para debochar”.

Também o acidente aéreo que vitimou a banda Mamonas Assassinas, em 1996, teria sido uma vingança divina. Diz Feliciano:
“O avião estava no céu, região do ministro do juízo de Deus, lá na serra da Cantareira. Ao invés de virar para um lado, o manche tocou para o outro. O anjo pôs o dedo no manche, e Deus fulminou aqueles que tentaram colocar palavras torpes na boca das nossas crianças (…) Quem era o Dinho? Era da igreja Assembleia de Deus em Guarulhos. Vendeu a comunhão dele (…). Se vendeu ao Diabo pelo vil dinheiro”.

Boçalidades!
É claro que se trata de duas boçalidades. Ainda bem que Feliciano advertiu: “Na minha Bíblia…”. Essa Bíblia que escolhe um delinquente para anjo vingador ou que faz o piloto errar um comando do avião não poderia ser mais pessoal. É a “bíblia feliciana”, mais do que minúscula. Se Deus operasse as coisas desse modo, o pastor poderia explicar por que o Altíssimo se incomodaria com um cantor e com uma banda de Guarulhos, mas permite que o ditador do Sudão continue a matar livremente seus adversários. Ou por que não pune os assassinos da Síria. Ou não se vinga dos que põem drogas na mão de crianças. Essa noção da intervenção punitiva de Deus, do modo como vai acima, se realmente convicta, é só estúpida. Mas tenho cá pra mim que ele próprio não se leva a sério quando diz essas porcarias.

A “bíblia de Feliciano” pode até conceder com assassinos fazendo a vontade de Deus. Lamento pelos que acreditam nas suas palavras. Mas nada pode ser feito a respeito. Muito pior seria um país com uma legislação que estabelecesse o que pode e o que não pode ser falado nas igrejas. Os chineses criaram até um catolicismo à moda da casa…

O aspecto mais difícil da democracia
Eis o aspecto mais difícil da democracia. Ela existe também para os tolos, para os que dizem cretinismos, para os idiotas. Todas as formas até agora tentadas para reduzir o regime democrático à esfera dos bons resultaram em ditaduras asquerosas, de esquerda e de direita.

Agora a parte ainda mais chocante. “Um sujeito que diz essas coisas sobre John Lennon ou sobre os Mamonas Assassinas pode presidir uma comissão da Câmara, ainda mais de Direitos Humanos e Minorias?” Pois é. Pode! Até porque ele falou essa bobajada num culto religioso, numa ambiente apenas relativamente público — já que privado dos fiéis que lá estavam.

Se e quando o deputado Feliciano afirmar, na Câmara, que Deus escolhe assassinos para fazer justiça, eu mesmo me encarregarei de redigir uma petição pedindo a sua cassação. Porque, aí sim, teremos um homem público atribuindo a um homicídio a intervenção divina.

Eu já escrevi aqui umas 300 vezes que jamais votaria em Feliciano — para deputado ou para presidir a Comissão de Festinhas de Aniversário da Câmara; imaginem, então, para a de Direitos Humanos. Ele só está lá em razão da cupidez do PT e do PMDB, que preferiram ficar com o filé mignon das comissões, largando a carne de pescoço para os partidos menores.

O fato de as declarações do “Feliciano pastor” revirarem o meu estômago — e reviram! — não me autoriza a meter o pé na porta de uma comissão da Câmara. Imaginem se filmarem as reuniões de petistas e botarem no YouTube. Pensemos em nós mesmos: tudo o que falamos privadamente, mesmo tomando um chope com os amigos, pode ir para a rede? Quem não se lembra deste vídeo, por exemplo?

“Ah, Lula estava brincando!” Claro que sim! Mas e essa fala na boca de Jair Bolsonaro ou do próprio Feliciano?

O economista americano Walter Williams, que é negro, sintetizou muito bem a questão numa entrevista à VEJA:
“É fácil defender a liberdade de expressão quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas”.

Bingo!

Texto publicado originalmente às 3h33
Por Reinaldo Azevedo

09/04/2013

às 6:19

Agência Câmara na campanha contra Feliciano, que se reúne com líderes nesta terça

Os líderes da Câmara se reúnem hoje com o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) para discutir a situação da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. A pressão é de tal sorte que um texto publicado nesta segunda pela Agência Câmara — que tem a obrigação de relatar fatos, porque faz jornalismo, e de não privilegiar nem perseguir parlamentar nenhum — é um exemplo de como as coisas andam fora do lugar. Reproduzo (em vermelho) trecho, com alguns destaques, e comento em seguida.

*
A polêmica manutenção do deputado Pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara será discutida na reunião dos líderes partidários, nesta terça-feira. A reunião está prevista para as 11h, no gabinete da presidência da Câmara. A assessoria de Feliciano confirma a presença do deputado no encontro e descarta a possibilidade de renúncia.

A princípio, o PSC mantém o apoio ao presidente da Comissão de Direitos Humanos, eleito no início de março, mesmo sob o efeito de declarações polêmicas contra homossexuais e negros feitas no passado. Sua posterior decisão de proibir o acesso do público ao plenário de reuniões da comissão acirraram ainda mais os ânimos. Manifestações contra e a favor de Feliciano têm ocorrido em todo o país.

No domingo, houve protestos nas ruas do Rio de Janeiro e de Belém, pedindo que o deputado deixe o cargo. Nesta segunda, houve novo bate-boca, no Salão Verde da Câmara. Demilson Filho, que participava de uma sessão solene em homenagem à igreja evangélica Assembleia de Deus, saiu em defesa do pastor Marco Feliciano diante de um outro grupo de manifestantes contrários ao deputado.

“Pelo que eu conheço do pastor Marco Feliciano, ele está simplesmente sendo discriminado por ser pastor e evangélico, porque todo mundo, neste país, pode atacar um pastor. (“Racista!!!”). Isso é democracia? Democracia é onde alguém pode falar, ser ouvido e se defender. Se ele errou, o pastor Marco Feliciano teve a humildade de pedir desculpas. Ele teve ombridade, uma coisa que poucas vezes se vê neste país.”
(…)
O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil aprovou por unanimidade, nesta segunda-feira, um pedido formal para que todas as reuniões da Comissão de Direitos Humanos da Câmara voltem a ser abertas ao público. Para o presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB, Wadih Damous, as reuniões fechadas na Câmara representam a volta do “obscurantismo” e agridem a ordem jurídica nacional.

Comento
A visão de mundo do deputado Feliciano pode ser polêmica, mas não a sua “manutenção no cargo”, que é apenas legal. Mais: a menos que ele renuncie, não se vai discutir sua permanência. Fica parecendo que depende da vontade do colégio de líderes.

É uma simplificação e uma distorção, no ambiente da própria Câmara, que se atribuam a Feliciano “declarações contra homossexuais e negros”. Já demonstrei isso aqui muitas vezes.

Eu não sei o que é “um pedido formal” da OAB. Fechar a sessão é legal e regimental quando não se consegue realizá-la de outro modo. Uma OAB menos populista e mais apegada às leis teria protestado também quando as sessões foram inviabilizadas pela gritaria.

Resta saber se a OAB saiu em defesa da ordem jurídica e do estado de direito — seria o seu papel — ou se saiu em defesa de uma nova ordem em que o direito fica sujeito a quem grita mais alto.

Ah, sim: “hombridade” tem “h” mesmo na Câmara dos Deputados. O texto foi escrito às 13h51 de segunda; às 3h52 de quarta, lá estava a “ombridade” a desafiar a língua.

Texto publicado originalmente às 4h02
Por Reinaldo Azevedo

07/04/2013

às 6:23

A capa de VEJA, a patrulha dos idiotas, a intolerância do sindicalismo gay e o supremo valor da liberdade

Ô gente chata! Chata e, eventualmente, mau caráter — na hipótese de que não padeça de analfabetismo funcional. Foi a VEJA chegar às bancas e aos assinantes com Daniela Mercury e sua “esposa”, Malu Verçosa, na capa para que começasse a patrulha: “E agora? Você vai continuar a escrever seus textos em defesa de Feliciano?”. Ora… Em “defesa de Feliciano” uma ova! Em defesa da democracia, do estado de direito e contra a intolerância! Vamos começar do começo.

E, no começo de tudo, cabe uma observação. Se eu discordasse da VEJA nesse caso — e é prudente que se leia a reportagem, que não faz proselitismo; muito pelo contrário —, não seria a primeira vez. Já escrevi isto e repito: os meus pontos de vista não podem ser atribuídos à revista, ainda que haja mais convergência do que divergência. Alguns tontos estão acostumados ou a um partido político de corte ainda leninista, em que só se pode pensar como ordem unida, ou às confrarias de bebuns de boteco, quando, na penúltima dose, todos concordam porque já não se lembra mais o tema em questão. A revista não é assim. As coisas que escrevi sobre aborto, aborto de anencéfalos ou pesquisas com embriões humanos, para citar alguns exemplos, são opiniões minhas, só minhas. A VEJA não tem nada com isso. Já observei isso aqui umas 300 vezes.

Ocorre que, no caso da união gay, não há discordância nenhuma em essência. Eu sou favorável ao casamento gay. Fui mais longe aqui em 18 de março de 2009 e defendi a adoção de crianças por homossexuais. E isso não quer dizer que eu concorde, porque não concordo, com o que chamo “sindicalismo gay”, seus métodos e sua campanha “evangelicofóbica” ou “cristofóbica”. Não escrevo para agradar, não! Aliás, quem escreve só para ser aplaudido pelos grupos de sempre é prosélito de causa política. Prefiro me dedicar a esse ofício para incomodar mesmo, para causar desconfortos. Considerando o número de visitas deste blog, acho que os leitores gostam do debate. Reproduzo alguns trechos do post a que me refiro acima — nem se falava, então, de Marco Feliciano, e Jean Wyllys ainda não era o Schopenhauer das redações (em azul). Volto em seguida.

(…)
Há o que não se pode escolher. Ninguém é gay porque quer. E também não pode deixar de ser gay ainda que queira. Hetero e homossexuais podem ser decentes e indecentes, morais ou imorais, promíscuos ou comportados, bons e maus pais e mães…
Como o segredo de aborrecer é dizer tudo, vamos lá: creio que casais heterossexuais, desde que ajustados (porque os há monstruosos, não é?) e com as devidas condições, devam ter a preferência na adoção. E a razão é simples: a criança terá certamente menos explicações a dar. Não vislumbro a possibilidade de que uma família de dois pais ou de duas mães venha a ser considerada coisa tão corriqueira quanto a do casal heterossexual.
Mas a possível estranheza de um casal gay, para a criança, é o menor dos problemas se a alternativa é permanecer em alguma instituição, sem afeto, sem atenção, sem cuidados. Homossexualidade “não pega”. E heterossexualidade também não — ou a esmagadora maioria dos gays não viria de lares heterossexuais.
“Então nisso você não está coma a Igreja?” É, não estou. Até já deixei de fazer certas coisas por fidelidade à Igreja. Mas jamais deixei de dizer o que penso. Não conheço uma interdição explícita à adoção, mas não ignoro que essa família a que não me oponho é reprovada pelo Vaticano. Exponho-me à reprovação. Só peço a delicadeza que não igualem uma questão como essa ao aborto, por exemplo.
Note-se: crianças abandonadas, no Brasil, são um verdadeiro flagelo social. Os orfanatos estão cheios. Parece que as famílias tradicionais não têm acorrido em seu socorro em número suficiente. Não posso crer que seja um ato de amor impedir que dois homens ou duas mulheres — dotados das devidas condições psicológicas, morais e financeiras — as adotem. Nesse caso, essa é minha escolha moral. E não me parece generoso, ademais, que uma pessoa impedida de escolher a sua sexualidade também seja impedida de ser feliz ao lado de quem ama.
Pronto! Lá vem a pancadaria!

Voltei
E veio pancadaria adoidado! Como acho o PLC 122 (a tal Lei Anti-Homofobia) uma aberração jurídica; como acho que o STF violou a Constituição ao igualar os casamentos hetero e homossexuais (ainda não tinha se pronunciado quando escrevi) e como estou apontando a campanha fascistoide de que o deputado Marco Feliciano é vítima, estou acostumado a levar porrada da militância gay e dos oportunistas que adoram pegar carona em “causas”. No caso do texto de 2009, levei pancada dos cristãos também. A minha tarefa é escrever o que penso, não o que os outros pensam. Sou pago pra isso — e me considero um homem de sorte.

Assim, voltando à questão da capa da VEJA, não só não há discordância como tratei de outro aspecto que reconheço delicado, espinhoso, que não está contemplado na reportagem — porque o foco era mesmo outro.

Estranhamento
O que causa certo estranhamento é que concilio essas minhas opiniões com outras aparentemente contraditórias. E poucos se dão conta de que, na minha concepção, a liberdade ocupa, na construção e na manutenção da democracia, um lugar superior ao da justiça. Com a primeira, pode-se conquistar a segunda. Nos regimes autoritários, com frequência, em nome da segunda, mata-se a primeira.

Os gays têm o direito de reivindicar que não haja distinções entre um casamento e outro, mas há quem seja contrário porque se trata de uma instituição social e de uma forma encontrada pela sociedade para organizar a família. Acho que ninguém duvida de que se trata de uniões distintas. É perfeitamente possível se opor à equiparação sem que, por isso, o crítico seja homofóbico. Um milhão de pessoas foram às ruas em Paris contra a legalização do casamento gay. Tudo aquilo era “homofobia”? Havia, acreditem, homossexuais contra a proposta. 

Demonizar um deputado, tentar arrancá-lo de uma função para a qual foi eleito democraticamente, falar mesmo em cassar o seu mandato, tudo isso porque ele se diz contrário ao casamento gay ou porque acha que o certo é homem fazer sexo com mulher? Aí não dá! Como não dá para impor às religiões uma pauta. Como não dá para impedir que religiosos se elejam para o Parlamento. “Ah, mas o estado é laico!” Sim, o estado é laico, mas não é oficialmente ateu nem reprime a expressão da religiosidade. Que é que há?

Movimento gay quer cuidar até da educação!
O sindicalismo gay tem de aprender a conviver com a maioria, assim como a maioria tem aprendido a conviver com os gays. Lembrem-se dos famigerados kits preparado para as escolas. Não é possível que o movimento gay reivindique também a condição de educador das crianças. Aquele material que foi produzido e vetado por Dilma era uma coleção de despropósitos, de asneiras mesmo! No entanto, a tal militância insiste em levá-lo às salas de aula, como se o debate sobre a tolerância só pudesse ser feito a partir da ótica do que se quer, e eventualmente é, oprimido. Errado! Estupidamente errado! O debate sobre a tolerância tem justamente de transcender os particularismos. Educação não é proselitismo.

Há uma larga, uma gigantesca diferença, entre debater a igualdade, então, de direitos civis e pretender instituir uma nova moralidade a partir de um ponto de vista que é e será sempre minoritário.

Os tontos podem tirar seu cavalo da chuva. A reportagem de capa de VEJA não me constrange minimamente, como evidencia o arquivo deste blog. Em essência, concordo com o que está lá.
E continuarei a combater o PLC 122 e os kits gays nas escolas.
E continuarei a defender o direito que parlamentares e religiosos têm de expressar seu ponto de vista.
E continuarei a chamar de fascistoides as manifestações contra Feliciano na Câmara ou à porta das igrejas em que ele prega.
E continuarei a discordar de Feliciano.
E continuarei a chamar de linchamento o que boa parte da imprensa vem fazendo com ele.
E continuarei a sustentar que a causa gay está sendo manipulada por espertalhões interessados em transformar a democracia refém de grupos organizados.

Não devo satisfações a aiatolás e a aiatolulas!

Por Reinaldo Azevedo

06/04/2013

às 5:07

Dois flagrantes da imprensa: Feliciano, a “Geni” do Brasil, e Genoino, o pensador garboso. Quem é mesmo o condenado?

Dois textos publicados em sites de grandes jornais chamaram a minha atenção nesta sexta. Um, do Globo Online, foi ao ar às 17h35 e tinha como protagonista o deputado Marco Feliciano (PSC-SP); o outro, da Folha Online, das 19h56, dava destaque ao deputado José Genoino (PT-SP). Vejam as imagens. Volto em seguida.

Voltei
Um estrangeiro que não soubesse nada sobre o Brasil e não lesse português certamente ficaria com a impressão de que é Feliciano, não Genoino, o homem público condenado pela Justiça por corrupção ativa e formação de quadrilha.

Escrevi ontem um longo texto — mais um! — sobre a imprensa, o adernamento politicamente correto do noticiário, o desprezo a alguns valores fundamentais da democracia e do estado de direito em favor de grupos militantes, a adesão à agenda oficialista, a impressão, em suma, que passa esse noticiário de que não existem divergências na sociedade brasileira — a não ser alguns homens maus, que merecem ser linchados.

O Globo reproduzia texto assinado por Baggio Talento, da agência de notícias “A Tarde”, da Bahia. O tom é pra lá de militante. Segue, em vermelho, um trecho da reportagem, conforme o site a publicou, com todas as vírgulas a mais e a menos…
Ele [Feliciano] esteve na sede da Igreja Batista Avivamento Profético, no bairro da Ribeira para participar de um culto que integrou o 20° Congresso do Poder Impacto Espírito Santo. Enfrentou manifestações contra e a favor no lado de fora do templo. Mas, a imagem marcante foi de Feliciano tentando esconder a cabeça com seu paletó para não ser reconhecido, com o objetivo de escapar do assédio de manifestantes ligados a grupos homossexuais e da imprensa, que o aguardavam no local.

Retomo
“Enfrentar manifestação a favor” é coisa inédita no mundo, mas o jornalismo brasileiro avança por caminhos ignotos, e isso deve querer dizer alguma coisa. Será mesmo que Feliciano cobriu o resto para não ser reconhecido? Que sentido faria? Naquelas circunstâncias, proteger-se com um paletó teria mesmo o objetivo de “escapar do assédio”? O mais provável é que procurasse se defender de agressão física mesmo. Se vocês lerem o texto, perceberão que resta evidente o esforço para ridicularizar o deputado.

Agora Genoino
Com Genoino, é diferente. Vejam lá como ele aparece garboso na foto. O texto informa que ele participou de um programa de televisão e, vejam que coisa nova e surpreendente!, negou que tivesse havido mensalão. Criticou ainda o julgamento havido no Supremo, pautado, segundo ele, por “maniqueísmo fundamentalista”.

O condenado pela Justiça tem, portanto, lições de moral a dar. E não! Não se informa que o homem, cujo mandato já foi cassado pelo Supremo — agora só faltam as formalidades —, é membro da comissão mais importante da Câmara: a de Constituição e Justiça.

No programa, Genoino também negou que dinheiro público tenha alimentado o mensalão. O redator achou desnecessário observar que, só no Banco do Brasil, houve um desvio de R$ 73 milhões. Até Ricardo Lewandowski condenou Henrique Pizzolato, ex-diretor da instituição, por peculato.

Aonde Feliciano vai, os baderneiros vão atrás, com ampla cobertura da imprensa. Já José Genoino, o condenado que é membro da CCJ, é tratado como excelência e como pensador. O texto com o pensamento original de Genoino foi publicado no dia em que Lula se tornou, oficialmente, mais um investigado do mensalão.

Assim são os tempos.

Por Reinaldo Azevedo

05/04/2013

às 20:16

A imprensa promove uma verdadeira caça a Feliciano, que é presa fácil. Já Genoino e João Paulo são mais serelepes. Ou: Eu lhes conto uma historinha pessoal sobre um chefe rigoroso

Título de uma chamada na homepage da VEJA.com e também o da reportagem a que ele remete fazem um retrato preciso do momento: “Feliciano antecipa depoimento e escapa da imprensa”. O verbo “escapar”, no caso, é perfeito porque, de fato, se está diante de uma caçada. Amplos setores da imprensa, por razões que tenho debatido aqui, caçam Feliciano com o propósito de cassar o seu mandato. Leiam o que vai na VEJA.com. Volto em seguida.

O depoimento do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta sexta-feira foi antecipado em uma hora, sem que a imprensa soubesse. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, acusado de estelionato, falou por cerca de meia hora a um juiz que representava o ministro Ricardo Lewandowski, relator do processo.

Feliciano iniciou seu depoimento por volta de 13h30. A assessoria do parlamentar afirma que ele chegou mais cedo ao Supremo, antes das 13h, e que por acaso o promotor do caso e o juiz já estavam disponíveis, o que permitiu a antecipação do depoimento. Na véspera, o relator havia determinado que a audiência se daria a portas fechadas para evitar a presença de manifestantes e jornalistas.

O deputado é acusado de não comparecer a dois cultos após receber 13.300 reais de cachê. A denúncia foi feita em 2009 pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul. Ele nega as irregularidades. “Foi um desacordo comercial e o valor já foi devolvido. Confiamos no Supremo”, diz o advogado Rafael Novaes. Agora, o processo contra o deputado entrará em sua fase final.
(…)

Voltei
Escrevi nesta manhã um longo texto sobre a caça às bruxas promovida pela imprensa. Em muitos aspectos, Feliciano é uma presa fácil.  Já José Genoino e João Paulo Cunha, deputados do PT condenados pelo STF, são membros da Comissão de Constituição e Justiça. Para eles, nem beijo na boca nem escarro, para lembrar Augusto dos Anjos.

São mais serelepes. Seus valores, digamos, mais gerais coincidem com os do jornalismo tornado militância. Assim, que importa que tenham sido condenados por corrupção ativa e formação de quadrilha (Genoino) e corrupção passiva, lavagem de dinheiro e peculato (João Paulo)? O que importa é que são, afinal, favoráveis ao casamento gay, certo?, e a mais alguns itens da pauta considerada “progressista”.

Feliciano vira presa fácil, sim. Ele mexe com os piores preconceitos de muitos jornalistas, que ainda vomitam a besteira de que a religião é o ópio do povo. Marx levou muita gente a acreditar que a história tem direção e sentido definidos, e isso a muitos pareceu razoável. Já acreditar em Deus lhes soa coisa de gente atrasada… Não é que as redações estejam lotadas de marxistas, o que suporia apego à teoria e algumas horas queimando as pestanas com livros — ainda que em versão eletrônica. Dispensam-se até mesmo os saberes acumulados pelas esquerdas ao longo dos anos. Tudo o que interessa é fazer justiça com o próprio teclado: “Quem é o bonzinho da história? Ah, é Fulano? Então tá”. E se parte para o esmagamento dos “maus”.

Nunca vi isso na história
Conto os fatos, os milagres, mas omitirei os respectivos nomes dos santos. Eu exercia um cargo de chefia numa redação. Um jornalista fez uma reportagem sobre um grupo religioso bastante sectário, extremista mesmo, que havia passado por um racha. Já lá se vão uns 20 anos.

Li o texto, pareceu-me ok, tudo devidamente ponderado, todos os lados ouvidos, nada de preconceito embutido contra esse ou aquele. A reportagem tinha, no entanto, um quadro ilustrativo com uma espécie de síntese do pensamento da tal organização. O meu assistente jogou na página. Eu não o tinha lido.

Ocorre que havia lá, com efeito, um erro de informação. Nem sei se eu teria percebido se tivesse lido com antecedência. A direção da tal organização acionou a chefia. Não era nada de grave, mas o grupo alegava que se tratava de preconceito. O comando da redação começou a pegar no meu pé, exigindo explicações: “Como isso veio parar aqui? Quero as justificativas do repórter”. Ocorre que o dito-cujo, um ótimo profissional, havia entrado em férias. Estava em algum lugar da… Capadócia! Vinte anos! Falamos da era pré-e-mail.

Lá vou eu acionar família, o diabo a quatro, para tentar achar o cara. Nada! Não houve dia em que o patrão não cobrasse: “Cadê a resposta?”. A impaciência já começava a se voltar contra mim, suspeito de incompetência por não conseguir achar o repórter. As pessoas envolvidas talvez se lembrem e sabem que falo a verdade. Como eu estava na chefia da editoria e como alguma resposta precisava ser dada, fiz o óbvio: “Eu estava no comando e publiquei; mereço a punição, e a gente resolve isso”. Não era heroísmo babaca, não! É que entendo assim as coisas. Não servia. O patrão queria a explicação do responsável.

Ainda hoje, acho que se tratou de um excesso, de um exagero, em razão de uma questão que era irrelevante. Mas prefiro mil vezes aquele rigor ao que vai hoje em dia: “Prendam os suspeitos de sempre”. Estava muito claro que estávamos lá para buscar a máxima objetividade possível nas matérias informativas, não “para fazer justiça”. Essa não é a tarefa de jornalista. Essa é uma tarefa da sociedade, por meio de seus canais de representação e dos Poderes constituídos.

Qualquer um tem o direito de achar Feliciano, Schopenhauer, Reinaldo Azevedo ou Machado de Assis um bando de idiotas. Quando se tem a tarefa de passar adiante uma informação, é preciso fazer um esforço brutal para se despir dos juízos de valor e se ater aos fatos. É assim que aprendi. É assim que deve ser.

“Olhem quem fala…”
“Olhem quem fala! É o cara que adora expelir regras (usam outro verbo por aí), que opina sobre tudo, que chama Lula de ‘apedeuta’.” Sim, sou eu mesmo! Faço uma página escancaradamente opinativa. Ninguém cai aqui por acidente. Não mais. Ou vem com a recomendação de quem gosta ou com a de quem odeia — raramente se chega aqui movido pela neutralidade nem-nem.

Milhares de leitores deste blog vem em busca de uma opinião, da minha — nem que seja para me desqualificar. É do jogo. Nunca precisei atribuir a alguém que reprovo o que ele não disse para combatê-lo. Gosto de fazer “vermelhos-e-azuis” para que o leitor tenha acesso àquilo que contesto. Raramente, só em coisas sem importância, recorro ao discurso indireto: “Fulano disse que…”. Prefiro pegar as aspas, a literalidade, com o devido contexto, para, então, dizer o que penso. Se gostam ou não, se acham a minha crítica justa ou não, aí é outro papo.

Já escrevi uma dezena de vezes que Feliciano não seria meu candidato a presidir comissão nenhuma. Ele chegou aonde chegou em razão das feitiçarias eleitoreiras do petismo. Vou encerrar este post com dois vídeos — um vocês já conhecem (eu o postei no primeiro texto que escrevi sobre esse caso), mas talvez jamais tenham visto o outro. Vejam lá quem está apoiando Feliciano — e olhem que fora de sua base eleitoral.

Assim, nada me liga a Feliciano. Mas tudo me liga à defesa do estado democrático e de direito. O que se tenta fazer ao arrancar o deputado da comissão é golpe contra o Parlamento. Lastimo que haja parlamentares empenhados em operar essa baixaria, inclusive do PPS, partido de oposição que se perdeu nessa história; que não está reconhecendo a natureza do jogo. Agora já se fala abertamente em resolver a questão cassando o mandato de Feliciano por quebra de decoro. O simples flerte com essa possibilidade é um escândalo.

Quero discordar de Feliciano com ele podendo exercer as prerrogativas que lhe foram conferidas pela Constituição e pelo Regimento da Câmara. Jornalista que defende a sua cassação por delito de opinião, por mais que despreze o seu ponto de vista (essa é outra história), está oferecendo a própria cabeça à guilhotina. Hoje, punir um jornalista por pensar isso e aquilo é difícil, embora não impossível. Mas pode ser mais fácil.

Na sociedade americana, a que levou mais longe a liberdade de expressão, esse debate não seria nem mesmo possível. É evidente que grupos se manifestam contra a opinião de políticos. Aconteceu não faz tempo, quando um cretino fez uma afirmação estúpida sobre estupro. Mas ninguém vai lá meter o pé no Capitólio, sapatear sobre a mesa de uma comissão ou tentar cassar um mandato parlamentar porque a opinião expressa foi considerada incorreta ou desinformada.

O jornalismo que flerta com esse tipo de coisa perdeu as referências e também a vergonha na cara. Seguem os dois vídeos, que falam por si.

Mais um:
 

 

Por Reinaldo Azevedo

05/04/2013

às 17:27

“O PT e Dilma abrem mão da comunidade evangélica nas próximas eleições”

O pastor Silas Malafaia, que se tornou também alvo da militância que pretende tirar o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, escreve na Folha de hoje um artigo sobre o tema. Encerra o texto com uma conclusão: “PT e Dilma Rousseff estão sinalizando que abrem mão da comunidade evangélica nas próximas eleições.”

Seguem trechos do texto.
Por que tanta pressão para que Marco Feliciano não continue na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados? Discordar é um direito, porém não podemos ser contra alguém em tudo só porque não gostamos dessa pessoa.

Eu mesmo tenho divergências com Feliciano, mas não permito que as diferenças se sobreponham ao meu senso de justiça e caráter. E, por trás dessa perseguição que mobilizou a opinião pública e a imprensa, sei que existe um sórdido jogo político para esconder questões sérias.
(…)
Toda essa mobilização [contra Feliciano] tinha um motivo maior: desviar os holofotes do PT. Afinal, enquanto se discutia a posse de Feliciano na CDHM, dois deputados condenados pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão, João Paulo Cunha (PT-SP) e José Genoino (PT-SP), tornaram-se membros da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, a mais importante comissão da Câmara.

No currículo desses parlamentares do PT constam condenações por corrupção. Mas, a imprensa se voltou apenas para o caso do deputado que fez declarações infelizes (…).

Independentemente de concordar ou não com as declarações de Feliciano, não posso esquecer que ele foi eleito pelo povo e que tem o direito de expressar a sua opinião, sendo resguardado pelo inciso IV, do artigo 5º da Constituição Federal. Mais do que isso, a Carta Magna lhe garante o direito à liberdade religiosa (incisos VI e VIII do mesmo artigo) (…)

Pergunto: se a oposição pode acusar os que discordam deles de homofóbicos e racistas, por que o povo evangélico não pode chamar essa perseguição de evangelicofobia? Dentro desse Estado democrático de direito, onde a maioria é cristã, a democracia só vale para a minoria? O fato é que os ativistas gays e seus defensores não suportam o debate. Pode-se falar mal do presidente da República, do Judiciário, dos católicos, dos evangélicos, mas, se criticarmos a prática homossexual, somos rotulados de homofóbicos.

O crime de opinião já foi extinto de nosso país com o fim da ditadura militar. (…) Diante dessas manifestações, só podemos chegar a uma conclusão: PT e Dilma Rousseff estão sinalizando que abrem mão da comunidade evangélica nas próximas eleições.

Por Reinaldo Azevedo

05/04/2013

às 17:04

Barbosa sobre caso Feliciano: “Isso é a democracia”

Caramba! Finalmente uma autoridade da República profere palavras de bom senso sobre o caso Marco Feliciano. Joaquim Barbosa disse o óbvio, que a militância transformada em tropa de choque, inclusive na imprensa, se nega a reconhecer: o deputado ocupa a presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara segundo as regras da democracia. E também é democrático que os que se opõem a isso se manifestem.

Tenho a certeza, no entanto, de que o ministro se referia a manifestações públicas de protesto, mas não ao constrangimento físico e ao achincalhe promovidos no ambiente da própria comissão. Isso, obviamente, não é democracia. Segue texto de Gabriel Castro, na VEJA.com:
*
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, disse nesta sexta-feira que a eleição do deputado Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara é legal, mas ressaltou que as manifestações contra o parlamentar também são legítimas. “Isso é a democracia”, disse Barbosa, que proferiu a aula magna de início de semestre na Universidade de Brasília.

Após sua palestra, o ministro respondeu a perguntas de estudantes. Uma jovem quis saber a opinião de Barbosa sobre o caso Feliciano. O presidente do STF disse que a pergunta era uma “saia justa”, mas afirmou que seu posicionamento é “muito simples”.

“O deputado Marco Feliciano foi eleito pelos seus pares para assumir um determinado cargo dentro do Congresso Nacional, na Câmara. Os deputados assim o fizeram porque está prevista regimentalmente essa possibilidade”, afirmou o ministro, antes de complementar: “A sociedade tem também o direito de se exprimir, como vem se exprimindo, contrariamente à presença dele neste cargo. Isso é democracia”.
(…)
Fazendo menção à universidade, o ministro disse que sua resposta sobre o caso Feliciano “é a resposta de quem viveu durante anos e anos nesse ambiente de liberdade”. O presidente do STF foi ovacionado assim que chegou ao centro comunitário da UnB, onde centenas de alunos o aguardavam. Ele foi aplaudido por diversas vezes durante seu discurso.

O ministro sugeriu aos alunos que “leiam tudo”, especialmente a Constituição. “Nós precisamos criar um sentimento constitucional nesse país”, afirmou. Barbosa foi homenageado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) com uma placa que concede o título de “estudante emérito” da UnB.

Mensalão
O presidente do STF e relator do processo do mensalão disse que o acórdão do julgamento deve sair em breve, mas não estabeleceu um prazo. “Deve sair nos próximos dias. Vai sair, tem que sair”, declarou Barbosa.

Apenas o ministro Celso de Mello não concluiu a revisão de seu voto do processo. É o que falta para a publicação do acórdão que permitirá aos réus a apresentação dos últimos recursos antes do cumprimento da sentença.

Por Reinaldo Azevedo

04/04/2013

às 21:59

Alves, agora um homem bom, resolve pressionar Feliciano, e quem paga o pato são os brasileiros ilegalmente presos na Bolívia

Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) cansou de aparecer do “lado errado” do noticiário. Agora ele também quer a simpatia de algumas almas militantes disfarçadas de repórteres e editores. Agora ele quer ser um homem bom. Decidiu que o seu passaporte para o mundo dos justos se chama Marco Feliciano (PSC-SP). Quanto mais ele malhar e pressionar o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, melhor. Há até a chance de que esqueçam os casos em que ele próprio, Alves, está enrolado. A questão do casamento gay agora é uma lavanderia de reputações.

Não é o caso de Alves, é certo, falo em tese: hoje, o pior salafrário, o pior bandido, o pior facínora que eventualmente se declararem a favor da “causa homoafetiva” estarão perdoados. Mas se descarte que possa haver homens pios, pessoas boas e honestas, porém contrárias ao casamento gay. Quando papa Francisco pisar em solo brasileiro, que a nossa imprensa militante tenha, afinal, a coragem que demonstra contra Feliciano: “Chega o homofóbico que comanda a Igreja Católica”.

Dias de burrice e de intolerância. Alguns estão se esquecendo de que a razão de ser do regime democrático é articular as divergências. Mas não tem essa, não! Agora Henrique Eduardo Alves é da turma.

Abaixo, informa Gabriel Castro, da VEJA.com, o presidente da Câmara cancelou a viagem que Feliciano faria à Bolívia para verificar a situação em que estão os 12 brasileiros ilegalmente detidos. Foram, como lembrou a professora Janaína Paschoal, “sequestrados”. Os dois conversaram por telefone. Consta que Alves não estava de muitos bons bofes. Eu entendo. Quando um notável progressista como ele se vê contrariado, sabem cumé… A sua longa trajetória de parlamentar dos pés descalços vem à mente. Alves quer a renúncia de Feliciano.

Também teria ficado descontente com a decisão tomada pela comissão, que resolveu impedir a entrada de baderneiros nas sessões. Na sua estratégia, quanto mais inviáveis forem as sessões, melhor. Tenta, por esse caminho, forçar a renúncia de Feliciano. Leia texto da VEJA.com.

Pressionado, Feliciano cancela viagem à Bolívia

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Marco Feliciano (PSC-SP), cancelou a viagem que faria à Bolívia na próxima semana. O parlamentar havia agendado uma visita aos doze corintianos presos há 42 dias na cidade de Oruro após a morte do garoto Kevin Espada, em fevereiro. Mas, depois de mais uma conversa com o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), Feliciano desistiu da viagem.

Henrique Alves, a quem cabe regimentalmente o dever de autorizar as viagens em missão oficial, não estava muito disposto a permitir a saída de Feliciano; alegava que outros parlamentares já haviam tomado a iniciativa de visitar os torcedores. O presidente da Câmara tem feito críticas públicas à postura de Feliciano à frente da comissão.

A assessoria de Feliciano nega que a desistência tenha relação com a pressão de Alves pela sua renúncia ao cargo e diz que o próprio deputado resolveu adiar a viagem porque um outro grupo de parlamentares embarcou nesta sexta-feira para a Bolívia com o mesmo objetivo. A assessoria não descarta que o deputado visite os prisioneiros em outra ocasião.

O requerimento que trata da viagem à Bolívia foi sugerido por Feliciano e havia sido aprovado na última quarta-feira, em reunião da Comissão de Direitos Humanos. O deputado embarcaria provavelmente na noite da próxima terça-feira, acompanhado de Antônia Lúcia (PSC-AC), primeira vice-presidente da comissão, e Anderson Ferreira (PR-PE), terceiro vice-presidente.

STF
Feliciano tem depoimento marcado para esta sexta-feira no Supremo Tribunal Federal (STF). O deputado é acusado de estelionato por não ter comparecido a dois cultos no Rio Grande do Sul após ter recebido 13 300 reais para participar dos eventos. O ministro Ricardo Lewandowski, relator do caso, determinou que o depoimento deverá ocorrer a portas fechadas. A defesa de Feliciano afirma que o deputado se ausentou por razões de saúde, e diz que ele já devolveu o dinheiro.

Por Reinaldo Azevedo

04/04/2013

às 5:58

Gays estão sendo usados como massa de manobra para projeto que busca solapar a democracia representativa; esta é apenas uma etapa da “luta”; no fim do túnel, está o “controle da mídia”. Então vamos ver

Preparados para um texto longo, que tenta colocar no seu devido lugar essa história da Comissão de Direitos Humanos e Minorias? Cansei da conversa mole sobre esse assunto. É hora de botar os pontos nos is.

*
Se o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) renunciar à presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara ou se for destituído por um golpe, como querem alguns, as comissões do Congresso, doravante, ficarão à mercê dos grupos que conseguirem fazer mais barulho. E o objetivo é mesmo esse, como deixarei claro neste texto. É só de se lamentar que um partido como o PPS esteja fazendo o jogo do golpismo militante e não perceba o que está em curso. De certo modo, isso explica a pobreza do debate político no Brasil e a penúria em que vive a oposição: política, intelectual e ideológica. Tenho insistido aqui, desde que começou essa pantomima, que as declarações de Feliciano — nem homofóbicas nem racistas, apenas infelizes — estão sendo usadas como mero pretexto para que “a luta” das esquerdas contra a democracia representativa alcance um novo patamar, passe para um novo estágio. Não! Nem elas estão conspirando nas sombras nem eu estou desenvolvendo uma teoria da conspiração para capturar o momento.

A ação é clara, explícita e já conta até com uma confissão, como se verá adiante. O mais inocente nessa narrativa bufa, se querem saber, é o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), uma celebridade mais ou menos articulada, que descobriu as vantagens, desde o BBB, de ser um gay profissional, uma vítima triunfante, ora convertida em deputado temático. Viu um mar de votos e resolveu se jogar de cabeça. É inteligente o suficiente para perceber que o espírito do tempo lhe é favorável. Mas lhe faltam profundidade teórica e formação política para entender que também ele está sendo instrumentalizado.

Neste exato momento, a causa dos gays é usada como instrumento para tentar solapar a democracia representativa. Wyllys, no seu mergulho cego em busca de eleitores, torna-se, assim, uma espécie de inocente útil dos golpistas. É bem verdade que ele próprio, ressalte-se, não é um exemplo de amor à democracia e de tolerância. Basta ler o que escreve, ouvir o que diz e ver como reage quando contraditado — se preciso, tacha um adversário intelectual de bicha velha sem pestanejar, mas não porque seja homofóbico, claro! — para constatar que qualquer que seja o regime ideal que tenha em mente, democrático não é. Nesse particular, está no lugar certo, o PSOL. E nem preciso lembrar que esse partido tem entre seus criadores um terrorista homicida. Wyllys nem devia saber disso direito. Agora que sabe, deve considerar irrelevante.

O que está em jogo é coisa bem maior do que ser contra o casamento gay ou a favor — até porque isso é causa vencida. A minoria ganhou. O que está em jogo é bem maior do que saber se Feliciano, filho de mãe negra, foi ou não racista ao mal citar uma passagem bíblica. Até porque não foi. O que está em jogo é a preservação ou o solapamento de regras institucionais. E isso tem um propósito.

Paranoico
Em momentos assim, os adesistas, os preguiçosos e os oportunistas, para evitar o debate — e também porque lhes faltam argumentos —, tendem a tachar de paranoicos os que se atrevem a denunciar a natureza do jogo. Isso vale especialmente para o jornalismo nacional, que faz, nesse particular, com as exceções de rigor, um dos trabalhos mais porcos de sua história. Quando o controle da mídia for a bola da vez — e, cedo ou tarde, será —, então esses estrategistas do arreglo vão se dar conta da besteira que fizeram ao tentar cair nas graças da turba. Terão perdido os aliados de antes sem ganhar aqueles que jamais terão. Farão jornalismo patrulhados pela Polícia dos Bons Costumes Ideológicos… Em muitos aspectos, já é assim hoje. De resto, quem condescende com o ataque à pluralidade e com a agressão institucional se torna alvo potencial dessas práticas. Paranoico? Não! Apenas objetivo.

Um pensador
A estratégia a que me refiro aqui já tem um texto de referência. Seu autor é Vladimir Safatle, professor do Departamento de Filosofia da USP, candidato a sósia de Lênin (não é ironia, não), articulista da Folha e, como direi?, um verdadeiro quebrador de paradigmas. Num artigo publicado na terça-feira, ele não resistiu e entregou o serviço. Safatle é um velho conhecido deste blog. Já escrevi alguns posts sobre o seu pensamento e sua prática política. Refiro-me a seu ineditismo porque se deve a este senhor, até onde sei, a autoria do primeiro texto publicado na grande imprensa brasileira que faz a defesa e a justificativa teórica do terrorismo. O artigo saiu no Estadão no dia 11 de janeiro de 2009. No Estadão!!! No dia 13 daquele mês, comentei aqui as barbaridades que ele escreveu. Não faz tempo, ao defender a legalização do aborto, este pensador refinado chamou os fetos humanos de “parasitas”. Isso quer dizer que ele jamais tomaria uma lombriga por um nascituro, mas que certamente tomaria um nascituro por uma lombriga…

Ele não vai muito com a minha cara, e posso compreender os motivos. Naqueles tempos da febre de “occupy” isso e aquilo, Safatle saiu por aí a defender ocupações ilegais, inclusive na USP. Atacou grotescamente a Reitoria da universidade porque pedira na Justiça a reintegração de posse da área invadida. Gostava de ficar filosofando em praça pública contra os interesses dos reacionários e do capital e coisa e tal… Um esquerdista nato! Pois é. Escrevi aqui um post informando que a fazenda de sua família, em Catalão, em Goiás, tinha sido invadida por sem-terra. E o que fez o seu papai? Recorreu à Justiça e à Polícia. E olhem que as terras estavam enroladas com o Banco do Brasil. Alguns ensaiaram um protesto: “Ah, a fazenda era do pai, não dele”. Bem, em primeiro lugar, um dia será. Em segundo lugar, em ritmo de “occupy”, cabia a pergunta: por que não a fazenda do papai? Porque não foi lá defender a permanência dos sem-terra na área invadida? Safatle ficou bravo comigo e escreveu um artigo a respeito. Eu respondi. Está tudo aqui para quem se interessar.

Ao texto!
Na terça, o homem que poderia tratar feto humano como Ascaris lumbricoides resolveu deitar suas luzes, em artigo publicado na Folha, sobre os embates que opõem a militância gay ao comando da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Seu artigo segue em vermelho. Comento em azul.

O primeiro embate
O título já é revelador. Safatle está anunciando que se trata de uma guerra de duração mais longa, e que as escaramuças de agora são apenas o “primeiro embate”. Nesse particular, está certo.

Os embates em torno da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara talvez sejam o primeiro capítulo de um novo eixo na política brasileira.
Aqui ele anuncia “um novo eixo”. Para o autor, a confusão a que se assiste cotidianamente tem um alcance maior do que parece à primeira vista. Faz sentido.

A maneira aguerrida com que o deputado Marco Feliciano e seus correligionários ocupam espaço em uma comissão criada exatamente para nos defender de pessoas como eles mostra a importância que dão para a possibilidade de bloquear os debates a respeito da modernização dos costumes na sociedade brasileira. Pois, tal como seus congêneres norte-americanos, apoiados pelo mesmo círculo de igrejas pentecostais, eles apostam na transformação dos conflitos sobre costumes na pauta política central. Uma aposta assumida como missão.
Pela ordem:
1) é mentira que haja essa “ocupação deliberada de espaço”. PT e PMDB, como primeiro e segundo partidos da Câmara, respectivamente, fazem o que bem entendem e tomam a comissão que lhes der na telha. Preferiram, desta feita, as que lidam, vamos dizer, com mais riquezas. A Comissão de Direitos Humanos foi a que restou para o PSC, um partido da base de apoio de Dilma.
2) Safatle se coloca — “nos” — entre aqueles que seriam defendidos pela comissão? A que minoria ele pertence? Nem mesmo à dos que falam besteira, que isso o faz maioria. Mas notem que, para ele, existe mesmo uma guerra:  de um lado, o “mal”; de outro, o “bem”; de um lado, os que atacam; do outro, os que se defendem. Mas fundamentalista é… Feliciano.
3) Com a devida vênia, só vigaristas intelectuais e tiranos falam em “modernização de costumes”. A Revolução Cultural chinesa, por exemplo, queria “modernizar os costumes tradicionais”, considerados hostis ao comunismo (além de eliminar qualquer desvio burguês, claro). Para Satafle, quem não defende os valores que ele defende não é o “outro”, com direito a ser o “outro”. É alguém atrasado. É por isso que a esquerda matou tanto, e mata ainda, quando no poder. Quem não está com elas é um sabotador do futuro.
4) O “inteliquitual” Safatle conta uma mentira quando diz que há um esforço deliberado do PSC em transformar os costumes numa pauta central e coisa e tal. Trata-se de um bobajol sem sentido. Começa que o partido é pequeno e não tem força pra isso. Nas eleições presidenciais, aliou-se à presidente Dilma Rousseff e teve papel importante para diminuir as resistências que ela enfrentava entre evangélicos. O PT foi buscar o PSC. Quem lê a tolice que escreve fica com a impressão que essa legenda minúscula tem um projeto próprio de poder.
5) A referência encoberta que faz ao Partido Republicano nos EUA é notavelmente falsa, além de ignorante. A religião teve peso pequeno nas duas eleições de Bush e nas duas eleições de Obama. Partidos, não obstante, têm valores também para a área de costumes. Ou não os terão também os democratas? Safatle não deixa de tocar na coisa certa, mas pelo avesso (como de hábito): forças políticas que não estiverem ancoradas também em valores não chegarão a lugar nenhum, como sabem as oposições no Brasil.

Durante os últimos anos, o conservadorismo nacional organizou-se politicamente sob a égide do consórcio PSDB-DEM. Havia, no entanto, um problema de base. O eleitor tucano orgânico é alguém conservador na economia, conservador na política, mas que gosta de se ver como liberal nos costumes. Quando o consórcio tentou absorver a pauta do conservadorismo dos costumes (por meio das campanhas de José Serra), a quantidade de curtos-circuitos foi tão grande que o projeto foi abortado. Mesmo lideranças como FHC se mostraram desconfortáveis nesse cenário.
Também pela ordem:
1) A única verdade contida aí é que os tucanos gostam de se ver como liberais nos costumes. Aliás, em muitos aspectos, mais do que o próprio Lula, que faz a linha família-conservador — ao menos para o consumo dos ingleses, né, Rosemary? Safatle poderia dizer quais são as evidências do conservadorismo tucano em economia e política… Quais são os grandes avanços “progressistas” do PT nessas duas áreas que o PSDB não aprovaria? Ora, os tucanos andam meio sem rumo porque os petistas lhes roubaram a agenda, eis a verdade. O PT se juntou a “conservadores” em economia e política que jamais perfilaram com o PSDB.
2) Afirmar que a campanha de Serra tentou absolver a pauta do conservadorismo de costumes é evidência de desonestidade intelectual. Por que Safatle não aponta os exemplos? Porque não existem. Talvez a campanha de Serra devesse, sim, tê-lo feito para valer, mas não o fez. E, de novo, em 2014, os tucanos não o farão. Associar Serra, talvez o tucano mais à esquerda de quantos há por aí, ao conservadorismo é delinquência intelectual e teórica. Esse cara tem alunos. Deveria respeitar um pouco mais a inteligência da moçada. Mas o professor de filosofia já perdeu faz tempo para o doutrinador. Sim, se os tucanos insistirem na mesma “pauta de costumes” — eu chamo de “valores” — das esquerdas, ficarão onde têm estado nos últimos 10 anos.

Porém ficava claro, desde então, que havia espaço para uma agremiação triplamente conservadora na política brasileira. Ela teria como alicerce os setores mais reacionários das igrejas, com suas bases populares, podendo se aliar aos interesses do agronegócio, contrariados pelo discurso ecológico das “elites liberais”. Tal agremiação irá se formar, cedo ou tarde.
Huuummm… Safatle parece ter nojinho das igrejas e dos “interesses do agronegócio” (e os sem-terra do papai, hein?). Eu até diria que, para os não esquerdistas, a possibilidade de surgir um partido com essas características soaria animadora, mas não está no horizonte. Os parlamentares evangélicos estão nas mais diversas agremiações, incluindo o PT. O mesmo se dá com aqueles ligados à produção agropecuária. Infelizmente, não será assim.

Safatle já demonstrou ser um mau pensador. Como historiador, coitado!, falta-lhe uma biblioteca. Essa nova clivagem não acontecerá porque o tamanho que tem o Estado no Brasil não o permite. O governo tem tal força que as convicções mais arraigadas acabam sendo cooptadas. As principais lideranças evangélicas do Congresso pertencem à base de apoio de Dilma. Não fosse a gritaria de Jean Wyllys, com o apoio da imprensa, Feliciano estaria lá cumprindo a pauta do oficialismo.

Nesse sentido, o conflito em torno dos direitos dos homossexuais deixou, há muito, de ser algo de interesse restrito. Ele se tornou a ponta de lança de uma profunda discussão a respeito do modelo de sociedade que queremos.
Huuummm… Quem é esse sujeito oculto, este “nós” do “queremos”? Quem quer o quê? Essa “discussão profunda”, suspeito, supõe ao menos a existência de dois lados. Por que, então, o esforço para banir os evangélicos, para destituir Feliciano, para lhe cassar o mandato? Certo! Safatle está com os que “querem” alguma coisa. Mas e os outros quereres? Eles não contam? Não! Agora vem a melhor pior parte do artigo. Agora vem a confissão.

A luta dos homossexuais por respeito e reconhecimento institucional pleno é, atualmente, o setor mais avançado da defesa por uma sociedade radicalmente igualitária e livre da colonização teológica de suas estruturas sociais. Por isso, ela tem a capacidade de recolocar em cena as clivagens que sempre foram o motor dos embates políticos.
“Colonização teológica de suas estruturas sociais” é uma dessas bobagens pomposas que não querem dizer absolutamente nada, mas que nos fazem suspeitar que aí existe um pensador. Quando foi, senhor Safatle, que as sociedades se organizaram sem a religião, sem “a colonização teológica”? O homem que toma um feto por uma tênia acredita que o pressuposto da “sociedade radicalmente igualitária” é, então, o fim da religião. No reino da liberdade de Safatle, todos são livres para pensar a mesma coisa — é a “igualdade radical”. Ele é Vladimir Safatle, mas até se veste como Vlaldimir Lênin… Notem bem: ele deixa claro que a balbúrdia de agora é parte de uma luta maior e que o objetivo é limpar as “estruturas sociais” da tal “colonização teológica”. Trata-se, ele escancara, de uma luta contra as religiões e os valores religiosos.

A história tem um peculiar jogo por meio do qual ela encarna os processos de transformação global em lutas que, aparentemente, visam apenas a defesa de interesses particulares.
Ao exigir respeito e reconhecimento, os homossexuais fazem mais do que defender seus interesses. Eles confrontam a sociedade com seu núcleo duro de desigualdade e exclusão. Por isso, sua luta pode ter um forte poder indutor de transformações globais.
Eis aí. A luta dos homossexuais — na verdade, ele se refere aos militantes do sindicalismo gay; são grupos distintos — é uma espécie de ponta de lança de um movimento, de um jeito de fazer política, que passa pelo assalto ao Congresso. Ela não vale pela coisa em si, mas por aquilo que representa. Se conseguirem tirar Feliciano, um novo marco, sem trocadilho, se terá estabelecido para as demandas no Parlamento. Todas as comissões ficarão sujeitas à mesma abordagem. Um grupo de 20 ou 30 pessoas se imporá pelo berro. Os parlamentares eleitos pelo povo se tornarão reféns de militantes de dois ou três partidos políticos.

Cedo ou tarde, chegará a hora de “regulamentar a mídia”. O assunto terá de passar pelo Congresso. Os assaltantes da legalidade e da institucionalidade aparecerão para gritar, espernear, apitar. Falarão, como falam hoje, em nome da liberdade, mas estarão mesmo é fazendo a defesa da censura, que chamam “controle social”. Por que um deputado não pode ter a liberdade de pensar, ainda que coisas erradas, mas a imprensa haveria de ser livre?

Ninguém tem mais o direito de se enganar. A confissão está feita.

Por Reinaldo Azevedo

03/04/2013

às 19:32

Comissão veta a entrada de baderneiros. É isso! Democracia se faz com tolerância e respeito à lei. Ou: O baguncismo permitido por Henrique Eduardo Alves

A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara tomou a decisão correta: seguindo a lei, impediu a entrada dos baderneiros na sala.  A única coisa errada com a medida é que deveria ter sido adotada mais cedo. “Ah, olhem o Reinaldo querendo impedir a entrada do povo…” Povo uma pinoia!!!. Até porque, na tarde de uma quarta-feira gorda, o povo está trabalhando. Quem tem tempo para rasgar a Constituição e o Regimento da Câmara não é povo, mas baderna organizada. Alguém paga as contas dessa gente? Qual é a fonte pagadora?

É bom que as pessoas se interessem pelo trabalho dos parlamentares. A democracia deve lhes franquear o acesso. Mas a democracia que permite que seus próprios fundamentos sejam solapados democracia não é.

Reportagem da  VEJA.com já provou que funcionários lotados em gabinetes da Câmara, especialmente do PT e do PSOL, participam das manifestações. Vale dizer: o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), presidente da Casa, tolera o baguncismo; permite que o trabalho de pessoas legitimamente eleitas por milhares de brasileiros seja obstado por funcionários pagos com dinheiro público. Para impedir uma comissão de funcionar, bastam 10 pessoas berrando. Alves quer ser visto como um “progressista”; está interessado em lavar a sua reputação na lavanderia das patrulhas ideológicas, de minorias e do jornalismo. Se, amanhã, os bacanas decidirem promover o sacrifício de virgens, ele vai aderir à prática de maneira entusiasmada.

Tiago Oliveira, assessor da liderança do PV, e Rodrigo Cademartori, assessor de Érica Kokay, em protesto contra o deputado Marco Feliciano (Fotos: Gabriel Castro)

Leiam o que informam Gabriel Castro e Marcela Mattos, na VEJA.com:

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira um requerimento para que os manifestantes continuem impedidos de entrar no local das próximas reuniões. O acesso será restrito a funcionários da Casa e jornalistas. Como contrapartida, as sessões serão transmitidas em telões em outros pontos da Câmara. Além disso, os manifestantes serão procurados para decidir se aceitam enviar ao menos um representante às reuniões.

A decisão foi tomada por iniciativa do presidente da comissão, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), e teve o consentimento de todos os presentes. “Não há ninguém que lamente mais do que eu. Falo isso com o coração sangrando. Mas eu preciso trabalhar. A Casa tem cobrado dessa comissão trabalho”, disse Feliciano, que tem sido alvo de protestos por declarações consideradas discriminatórias contra homossexuais e negros.

O deputado João Campos (PSDB-GO), presidente da Frente Parlamentar Evangélica, classificou os manifestantes de “baderneiros, anarquistas, desrespeitosos, intolerantes e preconceituosos”. Ele também pediu que a Comissão solicitasse à Polícia Legislativa a identificação dos manifestantes, por causa da informação de que muitos funcionários da Câmara participam dos atos quando deveriam estar trabalhando.

Marco Feliciano disse que o levantamento já foi requerido e que alguns assessores já foram identificados. Na semana passada, VEJA mostrou como funcionários ligados ao PT, ao PSOL e ao PV fazem parte das manifestações.

Nas semanas anteriores, quando a presença dos militantes foi tolerada no plenário, a fala de parlamentares acabou interrompida diversas vezes pelos protestos. Nesta quarta-feira, pela primeira vez, os manifestantes foram barrados desde o início da sessão. Eles permaneceram do lado de fora, gritando palavras de ordem. Alguns evangélicos também compareceram, e o clima entre os dois grupos se acirrou por diversas vezes. Um apoiador de Feliciano chegou a ser detido pela Polícia Legislativa após tentar agredir um militante contrário ao deputado.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

03/04/2013

às 19:01

Deputado evangélico consegue aprovar moção de repúdio a ditador da Venezuela por homofobia. Ou? Cadê Jean Wyllys? Cadê os outros esquerdistas da comissão? Por que nunca protestaram contra os homofóbicos islâmicos ou de esquerda?

O deputado João Campos (PSDB-GO), que é evangélico, propôs uma moção de repúdio, informa Gabriel Castro na VEJA.com, ao ditador da Venezuela, Nicolás Maduro (sim, ele é um ditador!) por conta de declarações escancaradamente homofóbicas. Maduro passou a espalhar que seu adversário na eleição presidencial, Henrique Caprilles, é gay. Num de seus comícios, ao lado da mulher, mandou bala: “Eu, sim, tenho mulher, escutaram? Eu gosto de mulheres”.

Alguém se opor ao casamento gay é mero exercício de opinião, especialmente quando, como é o caso do deputado Marco Feliciano (PSC-S), nada pode fazer a respeito. O Supremo já tomou uma decisão. O casamento é um jeito que a sociedade encontrou de organizar a família. Há quem entenda — é a maioria da sociedade brasileira — que deva ser constituído de homem e mulher. Há os que divergem. Mesmo sendo minoria, os divergentes venceram o embate. Agora, o que resta é só intolerância com quem não concorda com eles.

Muito bem! Os direitos essenciais da cidadania política têm um status superior. Afirmar que alguém não pode disputar um cargo público porque é gay caracteriza, sim, homofobia. Há mais: as leis, também as venezuelanas, não preveem essa restrição. Quando Maduro afirma que Caprilles não pode ser presidente porque não tem mulher — sugerindo que o adversário é homossexual —, está alimentando uma forma odienta de discriminação.

E o que as nossas valorosas esquerdas fizeram a respeito? Nada! Toda aquela gente que passou a promover baderna na Câmara — muitos deles funcionários de deputados do PT e do PSOL, pagos com dinheiro público — não deu a menor pelota para o assunto. Ao contrário: está com o chavismo e não abre! Se é para combater “a direita”, os nossos “progressistas” podem se juntar, eventualmente, a homofóbicos. O marqueteiro de Maduro é João Santana, homem do PT. Em 2008, na disputa de Marta Suplicy com Gilberto Kassab, ele levou ao ar a pergunta: “Kassab é casado? Tem filhos?” Sabem o que fez o sindicalismo gay? Ficou de boca fechada.

“Ah, a moção proposta por um deputado evangélico é apenas uma provocação”, poderia dizer alguém. Ainda que fosse. Por que ela não foi proposta por petistas e psolistas? Sim, meus caros, há sete petistas lá: Érika Kokay, Domingos Dutra, Nilmário Miranda, Padre Ton, Janete Rocha Pietá, Luiz Couto e Vicentinho. Há ainda dois representantes do PSOL: além de Jean Wyllys, Chico Alencar.

Uau! Nove “progressistas” reunidos não tiveram o bom senso, já que tão amantes da causa, de propor ao menos uma moção de repúdio? Não! Por que não? Porque são todos filobolivarianos, ora essa!  Nenhum país latino-americano, diga-se, perseguiu tanto os gays como Cuba. Vejam, a título de ilustração, o bom filme “Antes que Anoiteça”, de Julian Schnabel, que conta a história do escritor Reinaldo Arenas, implacavelmente perseguido na ilha porque era… gay! Ainda hoje os homossexuais são tratados como lixo em Cuba.

Quando é que se ouviu uma palavra desses “progressistas” que querem rasgar a Constituição e o Regimento da Câmara para tirar de lá, n o grito, o deputado Feliciano? Nunca! Entrei no site Jean Wyllys para ver se ele havia se manifestado sobre as declarações de Maduro. Nada! Não há uma vírgula.

“Os brasileiros não têm de se meter em assuntos externos; basta que tratem dos assuntos internos”, poder-se-ia objetar. Uma ova! Os petistas que estão na comissão — e, por meio do silêncio, também os psolistas — assistiram inermes aos abraços calorosos de Lula com Mahmoud Ahmadinejad, aquele que já declarou que não há homossexuais no Irã porque isso é coisa da decadência ocidental. Talvez pudesse mesmo haver mais sem o regime dos aiatolás: muitos gays foram condenados à morte, pendurados em guindastes, em praças públicas.

Há uma gigantesca diferença entre se opor ao casamento gay porque se tem uma concepção de família incompatível com essa conformação ou combater o tal PLC 122 (eivado de absurdos) e promover a perseguição aberta, escancarada, metódica aos gays. Os esquerdistas que estão na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara são coniventes, por seu aplauso ou por seu silêncio, com regimes que perseguem e matam homossexuais — ou que anunciam, em palanque, que eles não podem exercer cargos públicos em razão de sua condição.

É convicção?
Então resta a pergunta? É a convicção que move a gritaria e o linchamento no Brasil? Não! É o oportunismo. Na madrugada, escreverei um texto demonstrando que algo mais está em jogo nesse embate — e até esquerdistas admitem que a questão de gênero é, no fundo, mero pretexto para uma outra batalha.

Por Reinaldo Azevedo
 

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