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Marcelo Rubens Paiva

20/10/2013

às 5:33

Ainda a censura: não seja intelectualmente desonesto, Marcelo Rubens Paiva!

Marcelo Rubens Paiva, colunista do Estadão, escreveu um artigo no sábado contra a censura às biografias. No mérito, está certo. Na argumentação, nem tanto. As alusões que faz a Freud e Sófocles, por exemplo, evidenciam, e não há mal nenhum nisto desde que o sujeito não cite, que não leu nem um nem outro. Ouviu falar. Se leu, não entendeu. Mas eu ficaria, por princípio, com a parte boa. Marcelo, como Reinaldo, também se opõe à censura. Se eu tivesse apenas isso a dizer — isto é, se achasse que o artigo só é um pouco ignorante nas referências —, não escreveria nada. Se Marcelo tem importância, é para seus leitores. No debate que considero relevante, ele não conta. Deixaria pra lá. Ocorre que há em seu texto um parágrafo que me diz respeito, de uma impressionante desonestidade intelectual. Mais: o autor é de uma covardia exemplar ao omitir os nomes dos líderes da luta em favor da censura. Por incrível que possa parecer, ele prefere, e não é a primeira vez, dar bordoada em mim. Vamos lá.

Marcelo é contra a censura e demonstra, ainda que de um modo um tanto malandro se confrontado com os fatos, que tudo o que se disse contra Lula e FHC, por exemplo, não impediu que ambos fossem eleitos e reeleitos. A observação seria até sagaz se estivéssemos mesmo diante de coisas equivalentes. Os tucanos nunca tentaram censurar a imprensa. Os petistas ainda tentam. Onde Paiva vê um empate nos fins, há uma grande diferença nos meios. Os tucanos não montaram uma rede suja na Internet, financiada por estatais, para proteger amigos e atacar inimigos.

O autor critica a tese da censura, mas não toca nos nomes de Chico Buarque e Caetano Veloso, Sabem como é… Os “progressistas” não brigam entre si. Não! Preferiu atacar Reinaldo Azevedo que, nesse caso, e talvez só nesse caso, está do mesmo lado. Mais do que isso. O texto contra a censura que que mais circulou nas redes sociais, goste Marcelo ou não, foi escrito por mim. Mas o que disse ele? Referindo-se a boatos e a falsas notícias, escreve:

“Homossexual? Muitos escondem. Raí se mudou para a casa do apresentador Zeca Camargo. Logo logo, assumirão a relação. Adotarão um filho? Aids? Milton Nascimento e Ney Matogrosso têm, segundo uma revista extinta da maior editora do País. Que já afirmou que fui “meio” viciado em cocaína, quando eu apresentava um programa para adolescentes, cujo blogueiro tem certeza de que pertenço à facção criminosa dos Petralhas, apesar de muitos tuiteiros me acusarem de vendido, já que me filiei ao PIG, Partido da Imprensa Governista, para quem trabalho há décadas, o que envergonharia meu pai. Leitores do mesmo blogueiro dizem que na verdade sou um coitado maconheiro que bateu a cabeça numa pedra e, além de paraplégico, fiquei xarope.”

A maior editora do país é a Abril. O termo “petralha”, já dicionarizado, foi cunhado por mim. Como explico até em livro, “petralha” não é sinônimo de “petista”, mas de petista que justifica o roubo em nome do povo. Nunca afirmei que Marcelo é um deles, embora, admito, ele leve jeito. Vamos lá.

Em sete anos de blog, escrevi breves passagens de que ele era personagem secundária  três vezes apenas:
1 – No dia 28 de maio de 2011, ele aparece num trecho de reportagem da Folha, que transcrevo no post, que trata da marcha da maconha. Ele estava presente ao evento.

2 – No dia 14 de setembro de 2011, falei sobre ele porque, na verdade, ele é que havia se referido a mim. Numa entrevista à revista TPM, afirmara sobre sua página na Internet: “Sou militante. No blog, sou o Reinaldo Azevedo de esquerda”. No meu post, com humor, afirmei que eu era o seu John Malkovich. Nessa entrevista, diz: “Hoje, as mulheres tomam mais a iniciativa, mas parece que elas levam a sério, se apaixonam. Antes, você transava com a amiga, a namorada de amigo, era uma coisa mais solta”. Observei em meu texto: “Transar com namorada de amigo como expressão de uma ‘coisa mais solta’? Acho que nunca fui Marcelo Rubens Paiva, nem quando era de esquerda”.

3 – No dia 5 de abril deste ano, eu o critiquei por exigir que Geraldo Alckmin se retratasse porque um auxiliar seu teria negado a prática de tortura durante a ditadura militar. Em primeiro lugar, não negou. Em segundo: ainda que tivesse negado, indaguei se Marcelo pediu que Lula se desculpasse por ter Delfim Netto, que assinou o AI-5, entre seus conselheiros.

De volta a seu parágrafo desonesto
Tenho, admito, uma grave falha de formação: nunca li nada de Marcelo — nem “Feliz Ano Velho”, lançado em 1981. Eu tinha 20 anos à época, e as minhas preocupações passavam a quilômetros da literatura confessional, por mais qualidade que eventualmente tivesse. Não conheço as circunstâncias do acidente que deixou o autor paraplégico. Também não vou parar para pesquisar. Se tinha fumado maconha ou não, ignoro. Lembro-me que o livro virou uma febre até entre meus alunos — eu dava aula em cursinho pré-vestibular. Por tudo o que eu ouvi, dados os comentários, pareceu-me então, e talvez eu estivesse errado, uma bobajada meio alienada. Eu era trotskista. Via com maus olhos o que me parecia um destampatório trágico-sentimental. Isso, reitero, é memória de época, não juízo sobre um livro que não li e, creio, não lerei.

Não posso responder por aquilo que pensam todos os leitores. Na quinta-feira, por exemplo, este blog teve quase 353 mil páginas visitadas; na sexta, quase 218 mil. Não tenho como saber — ele ainda tem blog? — o que pensam a meu respeito os leitores de Marcelo. Depois de o autor escrever um parágrafo malandro como aquele, posso imaginar.

Não preciso que meus leitores achem Marcelo um “xarope”. Isso, afirmo eu mesmo, mas não porque ele tenha batido a cabeça numa pedra. Na edição comemorativa dos 45 anos da “VEJA”, da “maior editora do país”, ele assina um texto. Acho que a revista fez bem em convidá-lo. Por que não? Não li seu artigo, mas aposto na pertinência do convite. O meu blog está hospedado no site dessa revista, não de outra.

Paiva é um xarope, sim, mas um xarope ideológico. Não fosse assim, teria ao menos lembrado em seu texto o nome dos defensores entusiasmados da censura. Em vez disso, me ataca de modo sorrateiro, pretendendo, adicionalmente, ligar leitores desta página ao preconceito contra pessoas com deficiência física (ou “necessidades especiais”, como é preciso dizer hoje em dia).

Tiro n’água, Marcelo! Este é um blog que defende a vida humana na sua plenitude. E o faz com desassombro. E em todas as etapas dessa humanidade. Nesta página, rapaz, não se pergunta se o coração já bate, se a espinha dorsal já está formada, se já é possível sentir dor… Nada disso. Aqui se respeita a vida do homem sem transigir, Marcelo. Isso, claro, também compõe o perfil de um “reacionário”, não é mesmo? Progressista, hoje em dia, é ficar arbitrando sobre a morte…

São aliados ideológicos seus, Marcelo, que pretendem manter a lei que censura livros. Eu sou apenas o autor do libelo CONTRA a censura que foi lido por mais gente. Admito que, nesse caso, sou mais livre do que você, não é? Posso escrever sem o receio de ferir meus companheiros.

Quanto a você ser ou não um petralha, pergunto: você acha que, a depender das circunstâncias, é compreensível que os companheiros roubem dinheiro público? Se for para o alegado bem do Brasil, você considera que isso é desculpável? Acredita que foi a direita que forçou os petistas a fazer o mensalão e que, de outra forma, o país seria ingovernável? Em suma: você acha que, de vez em quando, é mesmo preciso enfiar a mão na merda, como disse o filósofo Paulo Betti?

Se a resposta for “sim”, você, Marcelo, não apenas parece um petralha, mas é um petralha.

Em sete anos, este é o quarto texto em que me refiro a Marcelo Rubens Paiva. Para ser um “Reinaldo Azevedo da esquerda”, é preciso um pouco mais de coragem e de apego aos fatos.

Por Reinaldo Azevedo

14/09/2011

às 15:09

Eu sou o John Malkovich de Marcelo Rubens Paiva

Um amigo me dá a dica e compro a revista TPM. É uma edição de aniversário, de 10 anos. Traz na capa a apresentadora Angélica, que, agora “tem a vida mais na mão”, anuncia-se.  Não sei se a publicação mudou de perfil. Quando eu tinha revista segmentada e acompanhava mais de perto esse mercado, ela era uma espécie de versão feminina da Trip, que também ignoro se continua a mesma. Esta trazia fotos sensuais de algumas bonitonas para o enleio de braços dos rapazes pós-adolescentes; aquela fazia o mesmo com bonitões para as moças. Talvez não tenha funcionado, sei lá. Quem gosta de ver homem pelado ou quase é gay. Parece, pelas chamadas de capa, que a revista optou por um tom modernamente feminista, mas sem militância. Uma coisa, assim, da mulher enquanto “ser no mundo”, embora, também na capa, Grazi Massafera conte “qual creme deixa seus cabelos perfeitos”, reportagem que vem acompanhada de “+ 8 produtos de beleza indispensáveis”.

O entrevistado da edição é Marcelo Rubens Paiva, que anuncia estar cada vez mais esquerdista. E faz uma revelação até certo ponto surpreendente — ou nem tanto. Ele é meu leitor. E também virei o seu John Malkovich. Na página 24, ele revela: “Sou militante. No blog, sou o Reinaldo Azevedo de esquerda”. Na abertura do texto, para situar o leitor, Nina Lemos, a entrevistadora, me define como “colunista polemista da VEJA”. Indo à raiz da palavra, o “polemista” me cai bem. No uso vulgar da palavra, as coisas se complicam. O “polemista” virou sinônimo de esquisito, de gente que gosta de defender o indefensável.  Nina talvez tenha razão nos dois usos da palavra: A COISA MAIS EXÓTICA QUE FAÇO NO BRASIL É DEFENDER A CONSTITUIÇÃO E AS LEIS.

Boa sorte para Marcelo — parece que ele já andou me esculhambando por aí. Eu nunca havia falado sobre ele, acho. “Reinaldo Azevedo de esquerda”? É um oximoro! E não por causa da ideologia. Para ser um “Reinaldo Azevedo”, é preciso fazer, por exemplo, o que faço com o debate sobre o Código Florestal (post desta manhã): contestar a mentira tornada influente pela maioria de esquerda que toma conta do jornalismo e se ocupar do que diz o texto. Para ser Reinaldo Azevedo, é preciso reconhecer que a verdade não é uma questão de ponto de vista. Ela existe, sim. O que varia, e é legítimo que varie, é o que se pensa sobre ela. Não se pode ser Reinaldo Azevedo, Marcelo, indo a favor da correnteza. É por isso, por exemplo, que eu não poderia ser um Marcelo Rubens Paiva de direita.

Marcelo tem 52 anos; tenho 50. Num dado momento da entrevista, ele afirma: “Hoje, as mulheres tomam mais a iniciativa, mas parece que elas levam a sério, se apaixonam. Antes, você transava com a amiga, a namorada de amigo, era uma coisa mais solta”.

Transar com namorada de amigo como expressão de uma “coisa mais solta”? Acho que nunca fui Marcelo Rubens Paiva, nem quando era de esquerda.

Por Reinaldo Azevedo

 

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