Blogs e Colunistas

Igreja Universal

25/10/2009

às 5:45

Igreja Universal fez remessa clandestina de dólares, diz relatório

Por Rubens Valente, na Folha:
O Ministério Público Federal tem em seu poder documentos que indicam o uso de uma casa de câmbio chamada Diskline para fazer remessas de pelo menos R$ 17,9 milhões, em valores atualizados, para uma conta bancária em Nova York cuja beneficiária era a Igreja Universal do Reino de Deus.
As remessas ocorreram, segundo as investigações, por meio de dólar-cabo, um sistema clandestino de transações internacionais que foge do controle do Banco Central. Por esse sistema, combatido pela Polícia Federal desde que foi descoberto, em meados dos anos 90, doleiros do país abastecem contas de brasileiros no exterior sem que o BC tenha conhecimento das operações.
É uma espécie de compensação paralela entre contas bancárias abertas no exterior em nome de empresas “offshore” sediadas em paraísos fiscais. O dinheiro é entregue pelo cliente ao doleiro, no Brasil, em espécie. Simultaneamente, o mesmo valor, excluída a “taxa de administração” cobrada pelo doleiro, é transferido de uma conta aberta fora do Brasil em nome de empresa de fachada controlada pelo doleiro. Operações desse tipo são consideradas, nos EUA, retransmissões ilegais de fundos.
Os documentos que revelam as operações foram produzidos pela Assessoria de Análise e Pesquisa da Procuradoria-Geral da República, em Brasília, tendo como base os achados das ações da PF e da CPI do Banestado. Num disquete apreendido na sede da Diskline e periciado pela PF, foi achada uma tabela que descreve 24 remessas feitas entre agosto de 1995 e fevereiro de 1996 no total de R$ 7,5 milhões, ou R$ 17,9 milhões atualizados pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor).
O dinheiro era entregue por uma pessoa identificada pelo código “Ildinha/Fé” e tinha como destino final a conta nº 365.1.007852 do antigo Chase Manhattan Bank de Nova York (EUA), adquirido no ano 2000 pelo JP Morgan, dando origem ao JPMorgan Chase & Co.
“Conforme documentos constantes do CD-Rom, as operações envolvendo o nome de “Ildinha/Fé” são operações em que a diretora do Banco de Crédito Metropolitano e de empresas do grupo da Igreja Universal, sra. Alba Maria Silva da Costa, fazia com a mesa de operação da empresa Diskline de São Paulo, sendo o nome “Ildinha/Fé” uma referência à funcionária da igreja de nome Ilda, que, inicialmente, era encarregada de levar as malas de dinheiro para a empresa Diskline”, apontou o relatório.
Alba Maria, referida no relatório, é uma das pessoas denunciadas pelo Ministério Público de São Paulo, ao lado do líder da Iurd, Edir Macedo, por supostos crimes de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ela foi executiva de empresas controladas pela igreja. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

11/10/2009

às 6:41

ONG ligada à Universal é alvo de ação da AGU

Por Elvira Lobato e Rubens Valente, na Folha:
A AGU (Advocacia-Geral da União) pediu à Justiça Federal de São Paulo o bloqueio dos bens da Sociedade Pestalozzi de São Paulo para garantir a devolução, ao Fundo Nacional de Saúde, de R$ 800 mil gastos na compra de ambulâncias por meio de licitações sob suspeita de fraude e de superfaturamento. O processo é um desdobramento da máfia dos sanguessugas, descoberta em 2006 pela Polícia Federal.
A Pestalozzi de SP, que presta atendimento a crianças e jovens com deficiência mental, é dirigida por integrantes da Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus) e tem como parceira a Rede Record de Televisão.
A ação da AGU foi proposta em novembro de 2008. O juiz da 24ª Vara Cível Federal, Victorio Giuzio Neto, como prevê a lei, está notificando os responsáveis pela ONG, empresários e servidores da saúde a apresentarem suas defesas preliminares, para então decidir se acolhe ou não o pedido.
A AGU moveu a ação civil pública, por suposta improbidade administrativa, baseada em três auditorias da Controladoria-Geral da União e do Ministério da Saúde que apontaram irregularidades em três convênios destinados à compra de seis ambulâncias. Ao todo, a entidade recebeu R$ 960 mil de seis emendas parlamentares propostas entre 2002 e 2004 por ex-deputados federais integrantes da Universal.
Os advogados da União cobram a devolução do dinheiro de três emendas -uma, de R$ 300 mil, do ex-deputado Bispo Wanderval; outra de R$ 60 mil, da ex-deputada Edna Macedo, irmã do bispo Edir Macedo, líder da igreja; e a terceira, de R$ 120 mil, proposta pelo ex-deputado Marcos Abramo.
A Procuradoria da República de São Paulo investiga os outros três convênios: dois de R$ 60 mil de emendas do ex-deputado bispo João Batista Ramos da Silva, e outro de R$ 120 mil de emenda de Edna Macedo. A prestação de contas das emendas de Ramos da Silva foi rejeitada pelo Ministério da Saúde, que quer o dinheiro de volta.

Bispos no comando
Com mais de 50 anos de atividade, a filantrópica está sob o comando da Universal desde 1993. Todos os seus dirigentes são ligados à igreja -que, no entanto, negou, em e-mail enviado à Folha, qualquer ingerência sobre a ONG.
As acusações da AGU recaem sobre as gestões de Graciene Conceição Pereira, mulher do bispo Ademar Gonçalves, e de Marilene da Silva e Silva, mulher do bispo e ex-deputado Ramos da Silva -com quem a Polícia Federal apreendeu, em 2005, R$ 10,2 milhões atribuídos a dízimos de fiéis. Graciene presidiu a filantrópica de 2003 a 2005, e Marilene ocupou o cargo de 1995 a 2002.
Oficialmente, a Pestalozzi de São Paulo é uma instituição independente, mas os vínculos efetivos com a Universal são de tal ordem que as assembleias para eleição de diretoria e aprovação das contas acontecem em um prédio administrativo da igreja.
A atual presidente da entidade, Márcia Aparecida Rocha, é mulher do bispo José Rocha. Ela já prestou depoimento no inquérito do Ministério Público Federal. A primeira vice-presidente, Ana Cláudia Raposo, é casada com o presidente da TV Record, Alexandre Raposo. A primeira secretária, Rosana Gonçalves de Oliveira, é mulher do bispo Honorilton Gonçalves, vice-presidente da Rede Record, e braço direito de Edir Macedo. A tesoureira da Iurd, Denise Justo Dias, é também tesoureira da filantrópica.
No dia 8 de agosto deste ano, o Ministério Público do Estado de São Paulo abriu ação criminal contra Edir Macedo e outros nove integrantes da Igreja Universal sob a acusação de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Dois dos réus daquele processo integram a atual administração da Pestalozzi de São Paulo: Alba Maria Alves da Costa, do conselho fiscal, e Maurício Albuquerque e Silva, do conselho consultivo.
Os ex-deputados da igreja já são réus em outras ações, na Justiça Federal de Mato Grosso, por suposto envolvimento com a máfia das sanguessugas. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

21/09/2009

às 4:37

Polícia liga Universal a doleiros do Banestado

Por Rubens Valente, na Folha:
Uma empresa sediada nas Ilhas Cayman e ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, a Cableinvest, recebeu no exterior recursos de doleiros envolvidos no escândalo da Beacon Hill. Segundo a Polícia Federal, eles utilizaram um sistema clandestino de remessa de recursos (dólar-cabo) que foge ao controle do Banco Central.
A BHSC (Beacon Hill Service Corporation) encerrou suas atividades em 2003 por pressão do governo dos EUA, sob acusação de retransmissão ilegal de fundos superiores a US$ 3,2 bilhões. De acordo com a investigação americana, ao gerenciar contas abertas em nome de empresas offshore, a BHSC ocultava os donos do dinheiro e dava margem a sonegação fiscal e evasão de divisas.
Segundo registros da empresa, ao menos US$ 1,8 milhão saíram, entre 1997 e 1998, da conta “Titia” -gerida por doleiros brasileiros como uma subconta da BHSC no banco Chase Manhattan- para uma conta aberta em nome da Cableinvest Limited no Royal Bank of Scotland (Nova York).
Boa parte desses recursos voltou, dias depois, para o Brasil. A Cableinvest realizou empréstimos para a Unimetro Empreendimentos na forma de operações de câmbio para aumento de capital. O dinheiro que circulava por doleiros retornava, assim, com origem “limpa” para o Brasil.
A Cableinvest e a Unimetro são algumas das empresas apontadas pelo Ministério Público de São Paulo como peças da suposta engenharia pela qual a igreja “desvia recursos arrecadados junto aos fiéis”.
Segundo os promotores que protocolaram a denúncia, “para justificar a origem do dinheiro utilizado na compra de empresas de comunicação, os denunciados [da igreja] simulam empréstimos das empresas Investholding Limited e Cableinvest Limited”. A Cableinvest foi fundada por líderes da igreja, incluindo o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ). O senador se desligou da empresa em 1999, um ano após as transações terem sido detectadas. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

17/08/2009

às 21:42

MP do RS investiga se fiéis são coagidos a fazer doações para Igreja Universal

Do Portal G1:
O Ministério Público do Rio Grande do Sul anunciou nesta segunda-feira (17) que vai investigar se houve conduta criminosa por parte de pastores da Igreja Universal durante campanhas de arrecadação de doações. A Promotoria também quer analisar o destino dado às doações. 

“Essa conduta, aparentemente, ela se insere como um crime de estelionato, ou seja, que é a obtenção de uma vantagem ilícita prometendo alguma coisa que não pode ser entregue. Não se confunde liberdade de culto com a prática diuturna de um crime. Não há de se confundir você escolher a fé que você professa com alguém estar praticando estelionato contra os seus fiéis. Isso que nós vamos analisar”, afirmou o promotor Ricardo Herbstrith.

Na semana passada, a Justiça de São Paulo abriu ação penal contra Edir Macedo,líder e fundador da Igreja Universal, e mais nove pessoas ligadas a ele por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Eles são acusados de desviar dinheiro de doações de fiéis para fins particulares e comerciais.

Doações a qualquer igreja não são consideradas ilegais. O MP de SP apontou na denúncia, no entanto, que alguns líderes da Igreja Universal se beneficiaram da imunidade tributária para desviar o dinheiro. Segundo a Constituição, é proibida a cobrança de impostos a “tempos de qualquer culto”. 

O MP do Rio Grande do Sul quer investigar imagens divulgadas sobre o ritual chamado “Fogueira Santa”, cerimônia que acontece duas vezes por ano. Em gravações feitas há três anos com uma câmera escondida, os fiéis são chamados a doar tudo o que têm.

“Você vai apresentar o teu sacrifício que é de R$ 100 mil, que é de R$ 50 mil, de 30, de 20 ou de R$ 10 mil. Consciente”, diz um pastor.
“Vou vender o meu apartamento, e eu vou vender o meu carro que eu tenho e vou colocar no altar. Se o senhor perguntar pra mim o que vai sobrar, eu não sei, porque não vai sobrar mais nada. De bens, eu não vou ter mais nada. E nem valores, porque o meu salário, tudo, eu vou colocar no altar”, diz um pastor nas gravações.

No altar, há até documento de transferência de bens. “Sobe aqui no altar, já preenche o documento do seu carro, do seu automóvel, já deixa preenchido, em nome de Jesus”, diz um pastor. 

Um comerciante diz que foi induzido a fazer doações e entrou na Justiça para reaver R$ 11 mil que havia entregue à Igreja Universal. Os julgadores entenderam que houve coação moral no pedido do pastor.De acordo com o desembargador Romeu Marques Ribeiro, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, há “coação velada”. “De certa forma há uma coação velada, porque aquele que não doa, que não presta o dízimo, se sente numa situação de inferioridade. A pessoa que está ao meu lado doando vai receber em dobro, eu não vou doar, não vou receber nada. Então é uma coação indireta.”

Processo de SP
A Igreja Universal do Reino de Deus divulgou nota na noite dessa segunda-feira em que afirma ter entrado com pedido de abertura de sindicância contra os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do estado de São Paulo, responsáveis pela denúncia contra dez de seus representantes, encaminhada à Justiça 

Segundo a igreja, o pedido se baseia em denúncias sobre a conduta de alguns promotores.

A Procuradoria Geral da Justiça de São Paulo também divulgou nota em que acusa a TV Record de distorcer informações relativas ao processo criminal contra Edir Macedo e outros nove integrantes da igreja. A emissora acusou os promotores de falta de isenção.

A nota da procuradoria diz que a distribuição da denúncia recebida pelo juiz Glaucio Roberto Brittes, da nona Vara Criminal de São Paulo, foi feita de acordo com os trâmites legais.

A Procuradoria reafirma que deposita irrestrita confiança no trabalho do grupo e que o Ministério Público estadual continuará exercendo o seu papel constitucional.

O Tribunal de Justiça de São Paulo também divulgou nota de esclarecimento, em que declara que não houve irregularidades na distribuição do processo.

Por Reinaldo Azevedo

16/08/2009

às 7:33

A UNIVERSAL É O PT DA RELIGIÃO, E O PT E A UNIVERSAL DA POLÍTICA

Uma gente do mundo das trevas mentais — na melhor das hipóteses — resolveu, o que é inútil, estender ao meu blog a corrente de “defesa” da Igreja Universal do Reino de Deus, que estaria sendo vítima de uma campanha movida pela TV Globo. Campanha? Enviam-me um texto que foi lido na TV Record e em “vigílias” da seita. Também foi publicado no blog de Edir Macedo. Trata-se de uma suposta mensagem enviada ao “bispo” por um suposto fiel.

Tudo o que se noticia sobre a Record seria, pasmem!, uma conspiração envolvendo a TV Globo e o governador José Serra porque “os barões da imprensa temem mais um mandato presidencial do PT”. O que eu tenho a dizer? Peço que leiam o que segue.

*

Deu-se no dia 27 de setembro de 2007 um fato emblemático. O autoproclamado “bispo” Edir Macedo inaugurou a Record News, um canal de jornalismo 24 horas, só que em TV aberta. No dia anterior, a TV Pública começara a sair do papel, com a indicação da jornalista Tereza Cruvinel para presidir a empresa. À sua maneira, trata-se da convergência histórica de dois neopentecostalismos. Um se finge de laico para ocultar a sua religião. O outro se finge de religioso para ocultar seus interesses laicos. Antes que volte a este ponto, algumas informações adicionais.

A solenidade, como é comum quando empresas de comunicação expandem seus negócios, contou com a presença de autoridades. Estiveram lá o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab; o governador do estado, José Serra, e, não poderia faltar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Aquele que se diz “bispo” não titubeou e afirmou, numa referência velada à Rede Globo: “Fomos injustiçados por muitos anos nas mãos de um grupo de comunicação que mantinha e mantém, por enquanto, o monopólio da notícia do Brasil. Daí surgiu o nosso desejo de levar ao fim esse monopólio, de dar às pessoas o direito de se informar por outro canal de notícias, de formar opinião por si mesmas. Daí surgiu nosso desejo em democratizar a informação“. Lula também discursou: “A estréia do canal Record News representa um grande momento para a história da televisão brasileira e contribui para que os cidadãos exerçam aquele que é um dos mais sagrados direitos democráticos: o acesso à informação“. E, sabe-se lá por quê, encerrou sua fala com um “Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós”, lembrando o Hino da República.

Sem dúvida, Lula e Macedo são “homens livres” — inclusive do senso de limites.

O “bispo”, que sempre se negou a ser tratado como “dono” da Rede Record, desta feita, é apresentado como “proprietário” da Record News, sem subterfúgios. A nova emissora demandou investimentos da ordem de US$ 7 milhões. No mercado, há quem diga que é muito mais. Se não era o dono da Record e se o dinheiro da sua seita não pode ser transferido para empresas comerciais — na lei, não pode —, de onde vêm os recursos? Qual a origem de sua fortuna?

Em 1992, o valente foi preso sob a acusação de charlatanismo, curandeirismo e estelionato. A “perseguição” a que ele se refere tem a ver com a reportagem apresentada pelo Jornal Nacional sobre os métodos a que ele recorria e recorre — basta ver a transmissão dos cultos na Record — para arrecadar dinheiro dos fiéis. Revela-se ali a origem da fortuna de Edir Macedo e a moralidade daquele que diz querer democratizar a comunicação no Brasil.

Neopentecostalismos
Há incrível similaridade entre o petismo e o a Universal. Os dois são derivações deformadas de uma tradição
. O petismo açambarcou os chamados movimentos populares e acenou para os pobres com um outro mundo possível, fazendo tabula rasa das dificuldades que outros governantes enfrentaram, atribuindo-as à falta de competência ou de vontade — acreditem: Lula disse isso naquele dia na entrevista à nova emissora quando se referiu a FHC. Ele se considera o marco inaugural de uma política, embora, como se sabe, na macroeconomia, recorra ao estoque de medidas de seu antecessor. As melhores “conquistas” de seu governo decorrem de ações decididas pelo governo que ele demoniza.

O que é a Universal? Edir Macedo nada mais fez do que se apropriar das vertentes populares do catolicismo, dando visibilidade à sua dimensão, vamos dizer, mágica, coisa que a Igreja Católica Apostólica Romana, ao longo do tempo, mais combateu do que incentivou. Não custa lembrar que o santo mais popular do Nordeste, Padre Cícero, não é… santo! Até hoje, os pastores da Universal incentivam seus fiéis eletrônicos a pôr um copo d’água perto da televisão para que ela seja “ungida”. Em Dois Córregos, ouvíamos a bênção do Padre Donizetti, uma gravação transmitida pelo rádio - em latim! Estimulados por um sujeito que, depois, virou vereador (Pedro Geraldo Costa), púnhamos um copo d’água sobre o rádio. Também pertence ao catolicismo popular a tradição das benzedeiras - jamais reconhecidas pela Igreja. Os pastores de Macedo “benzem” seus fiéis. Mais do que isso: até outro dia, em programas de televisão, realizavam exorcismos às pencas - mas não aquele regulamentado pelo Vaticano. O de Macedo incorporou, para expulsá-las, as entidades das religiões de origem africana. A Universal (não custa lembrar que “católica”, em grego, quer dizer “universal”) criou uma indústria da fé com os elementos que a Igreja rejeitou. Não estou fazendo juízo de valor. Trata-se apenas de uma constatação.

Qual foi a “novidade” trazida por esse ex-funcionário público pobretão, hoje um dos homens mais ricos do país? A idéia do “desafio” feito a Deus, algo que ele importou de algumas seitas americanas. Isso a que se chama “Teologia da Prosperidade” nada mais é do que o estabelecimento de uma relação mercantil com a fé. Assistam ao vídeo. Ele explica muito bem como a coisa funciona. É preciso que o crente veja o seu pastor como um homem destemido, intermediário entre o mundo celestial e o terreno. Ao fiel cabe fazer a sua parte, com a doação de dinheiro. Os amanhãs sorridentes estão garantidos. Nesta madrugada, enquanto a Record News reapresentava um jornal e depois reprisava as entrevistas de Renan Calheiros e de Lula, a outra Record garantia que, se tudo vai mal da vida do telespectador, basta que ele vá a uma Igreja Universal para participar de uma tal cerimônia dos 318 pastores. Mais tarde, enquanto Serra discutia o Orçamento do Estado e os problemas do Brasil na emissora chique, na outra, uma “empregada” ia fazer macumba no cemitério para ferrar a vida da patroa que a demitira. Por telefone, “amigas” davam testemunhos ao pastor dos males de que foram vítimas: coisa do capeta, do chifrudo, do coisa ruim. Tudo isso tem cura? Tem. Basta ir à Igreja Universal do Reino de Deus.

PT e Universal são duas máquinas de explorar a ignorância, a crendice, a miséria material e a pobreza espiritual. Também o partido, a exemplo da seita, exige uma disciplina de seus militantes - ambos, não custa dizer, cobram dízimo. Macedo põe os seus fiéis para lutar contra os demônios e as entidades malignas, responsáveis diretos por uma vida malsucedida. No PT, esse espírito mau são as “elites”. Tenho cá minhas dúvidas do que pode acontecer com a Universal sem Edir Macedo: é grande a chance de degringolar; tenho certeza do que vai acontecer com o petismo no dia em que não mais tiver Lula: vai se esfacelar em várias correntes.

O petismo está para a renovação da política como a Universal está para a renovação do cristianismo. Trata-se, cada uma no seu campo, de forças regressivas. Uma empurra o país para trás - e acreditem: empurra; o tempo dirá. A outra confere à vida espiritual uma dimensão meramente instrumental: pague, que Deus devolve. Sabem que sou católico e poderão dizer: “Não é assim na sua Igreja?” É claro que não é - ou, quem sabe?, ela estaria ganhando fiéis em vez de perder. Esta crítica, ademais, passa longe das denominações protestantes tradicionais, que levam a sério o seu ministério. Está claro a que “igrejas” estou me referindo. Costumo dizer que não respeito nenhuma mais nova do que o uísque que bebo.

E não me venham dizer que estou atacando a liberdade religiosa. Se um vagabundo ocupa uma concessão pública de TV para dizer que faz milagres, ou ele prova o milagre - quero ver um - ou tem de ir em cana. Acusação: charlatanismo, curandeirismo, estelionato. Afirmo e dou fé: os pastores e “bispos” de Macedo, incluindo ele próprio, não fazem nem operam milagres. Tampouco são intermediários de uma intercessão divina e milagrosa. E aceito a prova dos noves. Em seus templos, que os demônios apareçam à vontade. Vai lá quem quer. Numa concessão pública, não dá. Isso só se faz e se fez porque o Ministério Público e a Justiça têm sido historicamente lenientes com os neopentecostalismos. Assim como a democracia brasileira e as instituições são lenientes com o petismo.

Macedo e Lula tinham o que comemorar, não é? Um lançava a Record News, e o outro, a Lula News. Ambos estão crentes de que, desta feita, derrotam os inimigos. Mas eles têm também uma fragilidade: os aparelhos que criaram dependem de suas respectivas intervenções pessoais. Sem herdeiros, tendem a se esfacelar. E é o que vai acontecer. Para o bem da democracia. E do cristianismo.
*
Sabem de quando é este texto? Do dia 28 de setembro de 2007!!! Está lá: Record News, Lula News e os dois neopentecostalismos.

Por Reinaldo Azevedo

16/08/2009

às 7:31

TENTATIVA RIDÍCULA

(leia primeiro o post acima)
A tentativa da Universal de acusar uma conspiração é ridícula. Ela tem é de responder à denúncia feita pelo Ministério Público.

O esforço bisonho para envolver Serra na história busca politização do debate, o que, vejam que curioso, acaba sendo útil à Universal e ao próprio PT. À seita interessa associar a imprensa a um projeto político porque, então, no esforço de provar que isso é falso, o jornalismo a deixaria de lado. Ao PT, a acusação é útil porque as empresas de comunicação, tentando provar que a conspiração não existe, seriam especialmente rigorosas com o tucano.

Aponto no post acima o que é estruturalmente idêntico entre Universal e PT. Também se igualam nos métodos. Assim como a denúncia do mensalão, segundo Lula e o partido, era só uma conspiração para derrubar o governo, a investigação de agora, segundo Edir Macedo e a seita, buscam privilegiar um candidato da oposição e a Rede Globo. Tudo é sempre obra do inimigo ou do capeta.

Aí um tal Fernando me escreve, naquela língua que precisa urgentemente ser exorcizada:
No auge da polêmica, as igrejas da Universal nunca estiveram mais lotadas. Engraçado que as supostas “vítimas” estão infinitamente menos preocupadas com o seu dinheiro do que aquelas que opinam a respeito do que não conhece. Se os membros da Igreja, que fazem a doação , não estão preocupados, pq quem nunca deu um centavo fica tão irritado? Cuidem das próprias vidas!!!! E não sejam ingênuos de pensar que só tem gente ignorante e iletrada na IURD. Existem médicos, advogados, desembargadores, juízes, engenheiros, pessoas com título de mestrado, doutorado, etc…. Se as pessoas continuam frequentanto a IURD é pq veem o resultado da fé que possuem em sua vida.

Comento
Ah, Fernando, mas eu realmente não dou a menor pelota. Cada um no seu quadrado. O sujeito quer doar as cuecas à igreja? Ele que se vire. Mas é preciso seguir as leis do país. Dinheiro que não é tributado não pode comprar emissora de televisão. Não foi da Universal que veio? Ok. Deve ter vindo de algum lugar. Não consta que Deus faça esse tipo de milagre.

Quanto a haver tanta gente instruída na Universal, lastimo o seu preconceito. Quer dizer que esse tipo de formação qualifica os fiéis e, pois, não tê-la os desqualifica? Se os homens não exigem diploma para ser presidente da República, por que Deus exigiria um diploma de uma ovelha do seu rebanho, não é mesmo?

Por Reinaldo Azevedo

15/08/2009

às 5:53

VEJA 1 - O PREÇO DA FÉ I - O dízimo do tráfico

“Carlos Magno de Miranda era um dos líderes da Igreja Universal. Ele relatou os detalhes de sua ida a Medellín, para receber dinheiro dos narcotraficantes colombianos. Um mensageiro entregou-lhes 450 000 dólares. As mulheres dos pastores esconderam o dinheiro nas calcinhas”

Por Diogo Mainardi:
O pastor Carlos Magno de Miranda, em 1991, acusou a Igreja Universal de ter comprado a Rede Record com dinheiro de narcotraficantes colombianos. Agora, com duas décadas de atraso, o episódio finalmente poderá ser esclarecido. Os mesmos promotores que, na semana passada, denunciaram criminalmente Edir Macedo e outros integrantes da Igreja Universal indagam também a suspeita de que a segunda parcela da compra da Rede Record possa ter sido saldada com recursos do Cartel de Cali. Carlos Magno de Miranda é uma das testemunhas arroladas pelo Ministério Público, e os promotores cogitam pedir a abertura de mais um processo contra os donos da Rede Record.

Carlos Magno de Miranda era um dos líderes da Igreja Universal. Em 1990, ele se desentendeu com Edir Macedo e passou a atacá-lo publicamente. Num dos documentos obtidos pelo Ministério Público, ele relatou os detalhes de sua ida a Medellín, para receber o dinheiro dos narcotraficantes colombianos. Ele teria viajado com os pastores Honorilton Gonçalves e Ricardo Cis, todos acompanhados de suas mulheres. Permaneceram dois dias na cidade. No primeiro dia, aguardaram no hotel. No segundo dia, um mensageiro entregou-lhes uma pasta contendo 450.000 dólares. As mulheres dos pastores esconderam o dinheiro nas calcinhas e, de madrugada, retornaram ao Rio de Janeiro num jato fretado. Segundo Carlos Magno de Miranda, os fatos teriam ocorrido entre 12 e 14 de dezembro de 1989. Os promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) analisaram os registros aeroportuários da Polícia Federal e - epa! - documentaram que, naqueles dias, os pastores da Igreja Universal realmente foram a Medellín, com escala em Manaus. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

15/08/2009

às 5:51

VEJA 2 - O PREÇO DA FÉ II - Cheque ao bispo

O Ministério Público de São Paulo acusa Edir Macedo e mais nove integrantes da Igreja Universal de usar o dinheiro de doações de fiéis para fazer negócios e engordar o próprio patrimônio


Laura Diniz

Jose Patricio/AE
AGORA, RÉU
Fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo
é acusado de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro

Há 32 anos, os templos da Igreja Universal do Reino de Deus recebem ricos e pobres, crédulos e descrentes, doentes, despossuídos e desesperados. A todos a igreja oferece consolo e, muitas vezes, também uma porta de saída para escapar do vício, do crime e da solidão. Mas cobra caro por isso. Baseada numa particular Teologia da Prosperidade, a Universal, fundada e chefiada pelo bispo Edir Macedo, prega que a maior expressão da fé são as oferendas de dinheiro à igreja (e também de carros, casas e cheques pré-datados). A ideia de que, “quanto mais se doa, mais Deus dá de volta”, levada ao paroxismo pela eloquência dos bem treinados pastores da Universal, já fez com que almas crédulas arruinassem suas finanças, seu casamento, sua vida. O Código Penal, contudo, não alcança práticas religiosas. Em linhas gerais, se um brasileiro quiser doar tudo o que tem a qualquer igreja, estará livre para isso. E quem receber a doação também não encontrará empecilhos na legislação. O que não se pode é tapear a lei - e é precisamente isso o que vêm fazendo Macedo e outros nove integrantes da cúpula da Universal, segundo uma peça de acusação elaborada por promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo. A partir da denúncia oferecida pelo Gaeco, e aceita pela Justiça na última segunda-feira, Macedo e seu grupo tornaram-se réus em um processo criminal sob as pesadas suspeitas de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

15/08/2009

às 5:49

VEJA 3 - O PREÇO DA FÉ III - O GOLPE DA UNIVERSAL

o-golpe-da-universal2Clique na imagem para ampliá-la

Por Reinaldo Azevedo

15/08/2009

às 5:47

VEJA 4 - O PREÇO DA FÉ IV - Por que os fiéis doam tanto

Para ganhar a bênção divina, curar-se de doenças, conseguir emprego ou pôr fim a outras aflições. É uma prática antiga, que está no cerne de todas as religiões, mas que a Igreja Universal do Reino de Deus elevou a um patamar inédito

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O REBANHO E O PASTOR
À esquerda, milhares de fiéis lotam um templo da Igreja Universal, no Rio de Janeiro, prontos a fazer doações. À direita, o bispo Edir Macedo, em 1995, não esconde sua satisfação ao pôr a mão em um bolo de dólares durante culto realizado no Madison Square Garden, em Nova York

Por Adriana Dias Lopes e Fábio Portela:

A Igreja Universal do Reino de Deus é uma potência tanto do ponto de vista religioso quanto do econômico - e uma coisa tem tudo a ver com a outra. Os bispos liderados por Edir Macedo arrastam multidões a seus cultos e conseguem fazer com que elas doem verdadeiras fortunas à igreja. A Universal ocupa o terceiro lugar no ranking das maiores instituições religiosas do país, atrás apenas da Igreja Católica e da Assembleia de Deus, também pentecostal. O bispo Macedo controla um império da fé que conta com 4 700 templos, espalhados por mais de 1 500 cidades, em 172 países. Segundo as estimativas mais recentes, seu rebanho já chega a 8 milhões de pessoas. Essa massa de fiéis é a responsável pelos exuberantes resultados financeiros ostentados pela igreja. A cada ano, a organização do bispo Macedo recebe 1,4 bilhão de reais em doações. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

15/08/2009

às 5:45

VEJA 5 - O PREÇO DA FÉ V - FALA QUE EU TE ESCUTO

Ex-fiéis contam como a Igreja Universal tirou tudo o que tinham. Abaixo, um dos vários relatos que estão na revista.

Fernando Cavalcanti
CONSELHO DA IGREJA
“Em 2007, eu estava em dificuldades financeiras e pedi aconselhamento a um pastor da Universal. Ele disse que minha vida só melhoraria se eu doasse dinheiro à igreja. Contei a ele que meu marido estava com 2 800 reais guardados em casa, pois havia vendido um carro. O pastor disse que era pouco e perguntou se eu não conseguiria mais. Respondi que havia também 400 reais separados para o aluguel. Ele pediu que eu inteirasse 3 000 reais e levasse à igreja na mesma hora. Fiz o que ele mandou. Quando meu marido descobriu, ficou muito bravo. No dia seguinte, fomos ao templo pedir ao pastor para devolver o dinheiro. Ele disse que era impossível, falou que eu estava com um encosto e ainda mandou meu marido fazer um BO contra mim por furto. Hoje, me arrependo de ter caído naquela conversa.”
Simone Vitório, 31 anos, cabeleireira (ao lado do marido, Aparecido)
Por Reinaldo Azevedo

15/08/2009

às 5:43

VEJA 6 - O PREÇO DA FÉ VI - UM CORPO DE DUAS CABEÇAS

Nem por milagre é possível dissociar a Record da Igreja Universal. Até o presidente da emissora mora em uma casa pertencente à Cremo, empresa acusada de lavar dinheiro para os bispos

universal-bolso-amigo


Por Marcelo Marthe:
Na semana passada, o profano e o religioso se confundiam na programação da Rede Record. No horário nobre, o Jornal da Record reagiu às denúncias contra Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, por meio de reportagens que atacavam o Ministério Público e a concorrente Globo. De madrugada, um programa da própria igreja veiculado na emissora, o Fala que Eu Te Escuto, repetia as mesmas reportagens à exaustão. É mais uma evidência de que, a despeito das afirmações de independência da emissora, Universal e Record são metades inseparáveis de um só organismo. Pessoas ligadas à igreja ocupam a maioria dos cargos de direção da emissora. A Universal repassa anualmente à Record montantes crescentes de recursos - foram 240 milhões de reais em 2006, 320 milhões em 2007 e 400 milhões em 2008. Pertencem a ela, ainda, alguns dos principais imóveis onde a Record está sediada. Boa parte das regalias de seus executivos não sai do caixa da própria emissora: na semana passada, VEJA constatou que um deles mora num imóvel pertencente à Cremo, uma das empresas do esquema de lavagem de dinheiro denunciado pelo Ministério Público. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

15/08/2009

às 5:41

VEJA 7 - O PREÇO DA FÉ VII - O culto à prosperidade

Os evangélicos, e em especial os da vertente pentecostal, ajudaram a criar na América Latina um ambiente social favorável à ética do trabalho e da conquista pessoal


Por Diogo Schelp

Victor Rojas/Archivolatino

FERVOR Culto evangélico em Santiago do Chile: na América Latina,
40 milhões são pentecostais

Os escândalos envolvendo a Igreja Universal do Reino de Deus são apenas uma face feia de um movimento religioso que, em pouco mais de 100 anos, construiu na América Latina uma história inspiradora, estendendo a mão àqueles que buscavam conforto espiritual em uma nova fé. Os evangélicos são herdeiros de uma tradição protestante que encontrou solo fértil nos Estados Unidos, baseada no comprometimento pessoal com Cristo e na adesão estrita à Bíblia. A vertente evangélica mais bem-sucedida no subcontinente é a pentecostal, que une a ortodoxia bíblica à ênfase na salvação por meio de milagres. Dois em cada três evangélicos latino-americanos são pentecostais ou neopentecostais - subcorrente que inclui a Igreja Universal. Na América Latina, aonde chegaram por meio de missionários americanos e europeus, as igrejas evangélicas difundiram a ética do trabalho e da realização pessoal e deram um senso de comunidade aos migrantes rurais que vinham para as cidades. A flexibilidade na hierarquia religiosa - qualquer um pode ser pastor, mesmo sem estudos - também ajudou a conquistar adeptos, principalmente entre as massas iletradas. Nos últimos quarenta anos, a população evangélica na América Latina pulou de 15 milhões para mais de 60 milhões de fiéis. Elas seguem uma grande variedade de denominações, algumas autóctones, outras filiais de igrejas brasileiras e americanas. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

14/08/2009

às 19:41

AINDA A LÓGICA: A FALSA DISPUTA GLOBO x RECORD

Abaixo, escrevi sobre a falácia lógica que consiste em transformar conseqüência em causa e em tomar a resposta à pergunta “Cui Bono?” (”A quem interessa?”) como prova de autoria. O que falei em relação a política vale para qualquer outro assunto. Vamos a um exemplo do momento?

Certa delinqüência subjornalística pretende que o escândalo envolvendo a Igreja Universal do Reino de Deus e a Rede Record não passa de uma trama urdida pela Folha de S. Paulo e pela Rede Globo, em particular por esta, já que teria interesse em prejudicar os interesses comerciais da concorrente. Pouca gente se dá conta de que já aqui há algo bastante especioso: a possibilidade de o noticiário sobre uma igreja prejudicar os interesses de uma empresa de comunicação só nos informa que uma das duas está fora do lugar. Mas sigamos.

Ora, ainda que fosse verdade que a Globo pudesse se beneficiar de um noticiário negativo envolvendo a Record, isso não a coloca na origem dos dissabores da outra: conseqüência não é causa; o fato de algo ter vindo “depois disso” não o torna a “causa disso”.

Pilantras a soldo inventam as teorias mais disparatadas e a oferecem aos incautos, feito esses bandidos que vendem bilhete de loteria premiados para velhinhos aposentados. Isto: os que acreditam nessas bobagem são os velhinhos aposentados de espertalhões.

Há uma outra vertente que se pretende mais honesta e sofisticada. Muitos gritam de mãozinha na cintura: “Precisamos ser isentos nessa disputa!” Qual disputa, caras pálidas? E qual é a forma dessa isenção? Procurar desesperadamente notícias contra a Globo quando a Record está na berlinda e contra a Record quando acontece o contrário. Ora, quem faz essa escolha não é isento coisa nenhuma. É apenas um idiota a serviço ora de um lado, ora de outro. O mesmo vale para a política: compensar as notícias contra o PT com notícias contra o PSDB e vice-versa não caracteriza isenção de ninguém. Isso só torna o jornalismo refém dos atores em disputa.

A única referência da isenção é a verdade, não o juízo que A faz de B e que B faz de A. “Ah, mas o que é a verdade?” Ora, não estou me referindo às grandes e irrespondíveis questões individuais ou existenciais. A única preocupação de um repórter tem de ser o fato. Aquele que é verdadeiramente isento não indaga a quem isso ou aquilo interessam. Existe a possibilidade de a Globo se beneficiar com o noticiário negativo sobre a Record (acho isso bobagem, mas vá lá…)? Paciência! Jornalista  e jornalismo não são administradores da realidade. Não lhes cabe interferir na cena, dosando as informações de acordo com as conveniências e os interesses de um ou de outro.

Ademais, quem se preocupa muito em não ser inocente útil de um acaba inocente útil do outro. A referência do jornalista isento, repito, é a verdade. A conversa de que certo está quem desagrada a todos é uma grande besteira. Entre o crime organizado e a polícia, por exemplo, onde está a isenção? Temos de ser é rigorosos, segundo a lei, com o crime e com a polícia.

“Ah, Reinaldo, mas a gente pode gostar ou não da verdade, sem que isso tenha qualquer implicação legal.” É verdade! Nesse caso, entramos num outro terreno: aquele das escolhas, dos valores, que é justamente onde atuo. E isso será matéria para outro texto.

Por Reinaldo Azevedo

14/08/2009

às 16:42

Justiça manda prosseguir denúncia de crime contra Edir Macedo

Leiam com atenção o que vai na Folha Online. Volto em seguida:
A Sétima Turma do TRF da 4ª Região acatou, por unanimidade, um recurso do Ministério Público Federal e determinou que a Justiça Federal em Santa Catarina volte a analisar uma denúncia do órgão contra o bispo Edir Macedo.

O Ministério Público denunciou o bispo e outras duas pessoas à Justiça em 2008 por falsidade ideológica e uso de documento falso. Na análise do processo, o juiz federal substituto Marcelo Adriano Micheloti negou o recebimento da denúncia.

O juiz entendeu que a pena máxima a que os réus seriam submetidos caso fossem condenados seria de dois anos. Para esta pena, o prazo para processar os responsáveis pelos delitos é de até quatro anos. Como a denúncia foi apresentada sete anos após o fato, o crime estaria prescrito.

Para o procurador da República em Florianópolis, Marcelo da Mota, o juiz fez um “exercício de futurologia”. Segundo ele, a pena para o crime de falsidade ideológica varia entre um a cinco anos de prisão e o juiz não poderia ter previsto a pena que seria imputada aos réus em caso de condenação para considerar o crime prescrito. “Se levar em conta a pena máxima, que é de cinco anos, você leva a prescrição para 12 anos”, disse.

Com a decisão, o processo deve retornar agora ao juiz federal, para que ele decida se receberá ou não a denúncia. Na nova análise, o juiz levará em consideração os indícios de crimes presentes no processo. Segundo o TRF-4, ele não poderá voltar a alegar a prescrição do crime para recusar a ação.

Entenda o caso
Segundo a denúncia do Ministério Público, Edir Macedo teria utilizado em 2002 uma procuração assinada seis anos antes pelo ex-colaborador da Igreja Universal Marcelo Nascente Pires, para transferir sem a autorização dele a Televisão Vale do Itajaí para o nome de outro colaborador.

De acordo com Marcelo da Mota, Pires assinou o documento dando ao bispo plenos poderes para transferir ações em 1996, mas o espaço relativo ao nome da empresa que seria transferida foi deixado em branco.

Segundo a investigação, a procuração foi completada pelo bispo em 2002, com o nome das empresas Rede Fênix, TV Vale do Itajaí e Televisão Xanxerê. O documento foi utilizado na transferência da TV Vale do Itajaí para Honorilton Gonçalves da Costa, também colaborador da Igreja Universal.

A procuração também foi apresentada para a alteração da composição societária da empresa junto ao Ministério das Comunicações. “A investigação demonstrou que esse tipo de documento era comum no grupo”, explicou o procurador.

Segundo ele, as empresas eram registradas em nome de terceiros, mas pertenciam de fato ao bispo Edir Macedo.

O procurador disse ainda que, de acordo com a investigação, para se proteger, o bispo mantinha em seu poder procurações em branco autorizando a transferência das empresas, para que ele pudesse, a qualquer momento, transferir a empresa para outro colaborador.

De acordo com Mota, a transferência da TV Itajaí foi um desses casos. “Marcelo Pires nega que tenha dado autorização para o preenchimento posterior da procuração e afirma que não autorizou a transferência. O preenchimento de dados sem autorização do outorgante configura falsidade ideológica”, disse.

Ainda de acordo com o procurador, um dos indícios que comprovam o preenchimento posterior da procuração seria a inclusão no documento da Televisão Xanxerê, que só foi criada em 1998. “Em 1996, a empresa não existia com esse nome, o que comprova que o documento foi preenchido depois”, disse.

O procurador afirma que a alteração posterior do texto foi comprovada também por uma perícia da Polícia Federal.

Também foram denunciados à Justiça Honorilton Gonçalves da Costa e Júlio César Ribeiro, por terem contribuído para a fraude. Segundo Mota, eles fizeram diversas transferências da propriedade da empresa entre eles para mascarar o uso da procuração.

Outro lado
De acordo com o advogado de defesa de Edir Macedo, Arthur Lavigne, a “decisão [do TRF-4] é uma perda de tempo.

O advogado disse que irá estudar um recurso ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) e acredita que o tribunal decidirá pela prescrição do crime. “O tribunal não aceitou a prescrição por mera formalidade”, afirmou.

Ainda segundo Lavigne, o uso da procuração em data posterior não configurou nenhum delito. Ele argumenta que o preenchimento posterior só seria crime se tivesse sido feito com o propósito de usurpar a televisão.

“Não houve delito. A procuração já foi feita para que a TV ficasse realmente com o bispo Macedo”, argumentou.

Comento
O que realmente impressiona é o número de fiéis da Universal que, sabe-se lá como, conseguiam concessões de canais de TV, depois repassados, por generosidade, por amor, a Edir  Macedo ou a alguns de seus homens de confiança. Vejam ali. O próprio advogado do “bispo” diz: “Não houve delito. A procuração já foi feita para que a TV ficasse realmente com o bispo Macedo”. Acho até que o advogado tem razão, que fala a verdade. E esse é o problema.

Por Reinaldo Azevedo

14/08/2009

às 5:45

Fisco aponta desvio de dinheiro da Universal

Por Marcio Aith, na Folha:
Réus num processo que investiga lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, os líderes da Igreja Universal do Reino de Deus têm dito, por meio de advogados, que suas contas já foram fiscalizadas e aprovadas pela Receita Federal.
No entanto, a investigação mais ampla já feita pelo fisco nas finanças da igreja e de seus líderes indica o contrário.
Concluída em 1997 por um grupo de elite de fiscais, a investigação estabeleceu que o dinheiro da igreja foi desviado para o patrimônio particular de seus líderes e para empresas que, por terem o lucro como finalidade, não deveriam se beneficiar da imunidade tributária conferida pela Constituição a entidades religiosas.
Segundo a Receita, a Universal “demonstrou ser mera geradora de recursos para a montagem de um grupo econômico que nada fica a dever aos demais existentes na economia brasileira, até com alguma complexidade atingindo inclusive a área financeira”.
O relatório da Receita foi assinado pelos auditores José César Agostinho Costa, Jorge Kano, Pericles de Moraes Filho e Roberto Medeiros Correia.
O documento foi anexado ontem ao processo criminal aberto na segunda-feira pelo juiz Glaucio Roberto Brittes, da 9ª Vara Criminal de São Paulo.
A ação decorre de denúncia movida contra o bispo Edir Macedo, líder da Universal, e mais nove pessoas ligadas à igreja.

Multa
A fiscalização da Receita resultou em uma multa de R$ 98 milhões à época -cerca de R$ 300 milhões, corrigidos pela Selic. Além disso, embasou um processo do Ministério Público Federal para cancelar a concessão da Rede Record, comprada em 1990 pelo bispo Edir Macedo por meio de empréstimos.
Apenas pessoas físicas podem deter concessões de televisão. A Receita concluiu que a maior parte dos US$ 45 milhões da compra da Record saiu da Universal. A igreja seria a dona “de fato” da rede. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

14/08/2009

às 5:43

Igreja pagava a empresas de bispos, diz relatório

Por Fernando Barros de Mello, na Folha:
Os principais beneficiários dos pagamentos realizados pela Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus), entre 2001 e 2003, foram empresas prestadoras de serviços controladas por membros da própria igreja, segundo relatório baseado em diretrizes do Banco Central sobre movimentações atípicas.
No período de março de 2001 a novembro de 2003, foram movimentados R$ 3,76 bilhões nas contas vinculadas à Iurd.
Até o fechamento desta edição, o advogado da Universal, Arthur Lavigne, não respondeu aos contatos da reportagem.
A Justiça recebeu na segunda-feira denúncia do Ministério Público de São Paulo e abriu ação criminal contra Edir Macedo, fundador da Iurd, e mais nove integrantes da igreja, sob acusação de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.
A investigação quebrou os sigilos bancário e fiscal da Universal e levantou o patrimônio acumulado por seus membros, segundo o Ministério Público, com dinheiro dos fiéis, entre 1999 e 2009.

Movimentações
As instituições financeiras enviaram informações listando como responsáveis pelas movimentações da Universal Denise Neves Justo (apontada no relatório como tesoureira da Iurd), Vandeval Lima dos Santos (citado como bispo do Conselho Episcopal) e Demerval Alves Silva (procurador ou representante legal da igreja).
Segundo o relatório, o dinheiro seria proveniente de depósitos em espécie e de transferências eletrônicas feitas por igrejas de todo o país. Os pagamentos seriam referentes a despesas do dia a dia da Iurd.
O relatório traz a lista das 51 maiores beneficiárias dos pagamentos. Segundo um levantamento feito pelo Ministério Público, a partir de informações no sistema da Secretaria da Receita Federal, as empresas têm como sócios membros da própria Universal.
É o caso da Rádio e Televisão Record, que tem como sócios listados pelo Ministério Público, entre outros, o bispo Honorilton Gonçalves da Costa, também denunciado. Ele aparece ainda no quadro societário da Televisão Record do Rio de Janeiro, que também recebeu recursos, segundo o documento. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

12/08/2009

às 6:05

Promotoria quer cooperação de países no caso Universal

Por Marcio Aith, na Folha:
O Ministério Público de São Paulo vai pedir a cooperação internacional para investigar os crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha supostamente praticados por líderes da Igreja Universal do Reino de Deus.
O pedido deverá compor a segunda fase da investigação dos promotores paulistas contra Edir Macedo, fundador da Igreja Universal, e outras nove pessoas ligadas à igreja, denunciadas na última segunda-feira à Justiça de São Paulo.
A denúncia, aceita pelo juiz Glaucio Roberto Brittes, da 9ª Vara Criminal, resulta de uma investigação que quebrou os sigilos bancário e fiscal da Universal e levantou o patrimônio acumulado por seus membros com dinheiro doado pelos fiéis, entre 1999 e 2009.
Segundo dados da Receita Federal, a Universal arrecada cerca de R$ 1,4 bilhão por ano em dízimos. Somando-se as transferências atípicas e os depósitos bancários em espécie feitos por pessoas ligadas à Universal, o volume financeiro da igreja entre 2001 e 2008 foi de cerca de R$ 8 bilhões, segundo informações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão do Ministério da Fazenda que combate a lavagem de dinheiro.
A igreja diz que sofre perseguição do Ministério Público e que as empresas apontadas pelos promotores como sendo de fachada já foram fiscalizadas pela Receita Federal e tiveram suas contas aprovadas.

Conselho
A suposição do Ministério Público é a de que a igreja exportou, para parte dos 172 países onde está presente, o mesmo mecanismo de financiamento e de desvio de dinheiro de fiéis constatado no Brasil.
Promotores brasileiros já informaram autoridades dos Estados Unidos de que parte da suposta lavagem de dinheiro da Universal teria ocorrido em território americano.
Remessas de dinheiro da Investholding, uma das empresas supostamente de fachada usadas pela Universal, foram feitas de agências do Banco Holandês Unido, em Miami e Nova York.
A igreja é controlada por um conselho formado por 30 bispos, dos quais 22 estão espalhados em países considerados estratégicos. Entre eles os Estados Unidos (onde foi fundada a primeira igreja da Universal no exterior, em 1980), Portugal, Itália, França, Argentina, Rússia, Angola e Moçambique. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

11/08/2009

às 19:58

UMA ESTRANHA TEOLOGIA

No dia 27 de agosto do ano passado, escrevi um post chamado O ABORTO E A TEOLOGIA ACHADA NA SARJETA. O Supremo tinha acabo de realizar um audiência pública ouvindo algumas pessoas sobre o aborto de fetos anencéfalos. Escrevi, então, o que segue. Acho que o texto tem de ser revisto. Ele trata, como prometi no post abaixo, de uma questão teológica. Vamos lá.
*
Já apanhei bastante, inclusive de fãs do blog, por causa da minha opinião a respeito. É do jogo. Tenho leitores altivos, donos do seu nariz. Nem sempre seguem “o mestre”, como me chamam em tom irônico os adversários do blog — para me esculhambar, claro. Fosse eu outro, iria perscrutando as opiniões da maioria para, então, liderá-la. Sou quem sou. Se tiver de ficar sozinho, lá vou eu para o deserto. Mas, claro, há muitos que concordam comigo. E, desta feita, não vou nem entrar no mérito da questão.

Fiquei, com efeito, encantado com alguns representantes ditos “religiosos” na audiência pública. Dois, em particular, ofendem a inteligência, havendo uma, de pessoas favoráveis ou contrárias ao aborto de anencéfalos. No caso, falaram a favor.

Comecemos pelas tais “Católicas pelo Direito de Decidir”. Estarem estas senhoras representadas numa audiência pública é um ofensa à lógica e à religião. Ofende a lógica porque elas são militantes pró-aborto sem qualquer locução adjetiva. As ditas católicas não são favoráveis ao aborto de anéncéfalos apenas. Não! Elas são favoráveis ao aborto, qualquer um. De fetos com cérebro também. Para elas, um miolinho a mais, um a menos, tanto faz. Que lógica explica o convite? Não falam em nome dos católicos. Falam em nome de sua entidade.

Mas ofendem também a religião. Como podem se dizer católicas se renegam um princípio básico da religião? Quem as reconhece nessa condição? A ser assim, vamos fundar o “Islamismo pelo Direito de Decidir”. Ou o “Judaísmo pelo Direito de Decidir”. Ou o “Hinduísmo pelo Direito de Decidir”. Basta que a gente se diga pertencente a tal religião, e teremos, então, o status de uma dissidência. Mas “decidir” o quê? Ah, sei lá: no caso do hinduísmo, por exemplo, poderia ser “Pelo Direito de Decidir Consumir Carne de Vaca”. E militaríamos pelo direito de comer carne de porco em todas elas…

Ora, falta a essas senhoras um mínimo, pequenino mesmo, senso de decoro. Por que não criam a sua ONG pró-aborto, tenha ela o nome que tiver, e não param de usurpar o nome do catolicismo para defender uma prática renegada por essa Igreja? Aliás, já passou da hora de a hierarquia católica brasileira declarar a excomunhão dessas senhoras — porque se auto-excomungaram. É um procedimento da religião que elas abraçaram. Ou sigam os preceitos ou caiam fora. Felizmente, existe o direito de decidir não ser católico.

Igreja Universal do Reino de Deus
Quanto a Igreja Universal do Reino de Deus, dizer o quê? Vejam o trecho que cita o pastor para dizer que a Bíblia admite o aborto: “Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele”.

Trata-se de uma referência estúpida, bucéfala, ignorante, rasteira ao Eclesiastes (6,3). É o que dá ouvir, na condição de “religião”, uma teologia mais jovem do que o uísque que eu bebo. Afirmar que há, no trecho, endosso ao aborto é pura delinqüência teológica e bíblica. O aborto é empregado apenas como um extremo da fealdade. Não há endosso. É o exato oposto. E de onde o pastor tirou essa pérola de interpretação? Das iluminações do autoproclamado “bispo” Edir Macedo, dono da seita.

Reproduzo, abaixo, trecho de um post que escrevi sobre este senhor no dia 13 de outubro de 2007:
*
Há uma entrevista na Folha com Edir Macedo (…). Quem assina o texto é Daniel Castro, e quem responde pode ser uma “legião”, já que foi feita por e-mail e intermediada pela cúpula, digamos assim, religiosa da seita. Há alguns dias, postei aqui um texto dizendo que o petismo é a Universal da política, e a Universal, o petismo da religião. Quem me dá razão é Macedo. Leiam uma pergunta e uma resposta:

FOLHA - Alguns políticos então da base da Igreja Universal, como o bispo Rodrigues, foram atingidos em cheio pelos escândalos do primeiro mandato de Lula. A corrupção não é um pecado imperdoável?
MACEDO
- Jesus ensina que o único pecado imperdoável é a blasfêmia contra o Espírito Santo. Para os demais, há perdão se houver arrependimento.

É a “igreja” de que o PT precisa. Se Deus censura a safadeza, os petistas podem ficar tranqüilos: o “deus” de Macedo perdoa. A sua “teologia” é bastante elástica pra isso. Tão elástica, que ele encontra uma justificativa teológica para o aborto. Se havia desconfianças sobre a filiação da tal Universal ao cristianismo, não há mais. Leiam:

“Sou favorável à descriminalização do aborto por muitas razões. Porém, aí vão algumas das mais importantes:
1) Muitas mulheres têm perdido a vida em clínicas de fundo de quintal. Se o aborto fosse legalizado, elas não correriam risco de morte;
2) O que é menos doloroso: aborto ou ter crianças vivendo como camundongos nos lixões de nossas cidades, sem infância, sem saúde, sem escola, sem alimentação e sem qualquer perspectiva de um futuro melhor? E o que dizer das comissionadas pelos traficantes de drogas?
3) A quem interessa uma multidão de crianças sem pais, sem amor e sem ninguém?
4) O que os que são contra o aborto têm feito pelas crianças abandonadas?
5) Por que a resistência ao planejamento familiar? Acredito, sim, que o aborto diminuiria em muito a violência no Brasil, haja vista não haver uma política séria voltada para a criançada.”

Trata-se de uma formidável coleção de asneiras, talvez ditadas pelo diabo. Se Macedo acredita até mesmo na remissão do corrupto, por que não na das crianças que vivem nos lixões? Se opta pelo aborto como saída menos dolorosa, por que não por outras práticas igualmente homicidas que trariam mais controle social? A Igreja Católica é contra o aborto e conta com milhares de entidades espalhadas mundo afora para cuidar de crianças abandonadas. E o que Macedo tem feito? Se o aborto diminuiria em muito a violência no Brasil, há de se supor que diminuiria também em muito o número de seus fiéis, não é mesmo?, já que é evidente que boa parte da força de sua “igreja” se concentra entre os miseráveis. Existe também lixão religioso no mundo.

Santo Edir Macedo! Seu “deus” perdoa corruptos, mas não perdoa os fetos!

Se for para ouvir esse tipo de formação “teológica”, o Supremo poderia economizar tempo e dinheiro. Já sabemos qual será a decisão. O resto é só carnificina — também teórica.

Por Reinaldo Azevedo

11/08/2009

às 19:45

Ah, não! Burrice, não!

Ah, não! Burrice, não!

É uma bobagem, uma tolice, uma petralhice típica, indagar no caso da Igreja Universal: “E a Igreja Católica? A Igreja Católica também não tem bens?” Ah, sim, claro que tem. Mas é a Igreja que os têm, não seus padres e seus bispos. De todo modo, se houver evidências de que a instituição pega doações de fiéis, remete para paraísos fiscais e empresas fantasmas e depois os converte em emissoras de TV, rádio e afins, que ela seja denunciada, ora essa! Não tentem me arrastar para o pântano do, se me permitem a brincadeira gramatical, “ninguém prestamos”. Estou fora desse negócio. Quem gosta de ficar encontrando defeito no adversário para justificar os próprios são os petralhas. Eu acho que todos devem ser contidos, corrigidos e, se for o caso, punidos.

Outros bobalhões vêm com o que consideram o argumento definitivo: “E a Inquisição?” O que a Inquisição tem a ver com uso indevido de dinheiro, lavagem de grana, empresas fantasmas etc? Ademais, qual é? Não acho que ninguém deva construir um futuro imitando os defeitos passados do outro, não é? Ou alguém vai querer fazer uma fogueirinha para assar alguns hereges só porque, afinal, a Igreja fez isso um dia? Trata-se de um argumentação boçal.

Aí vem outro dizer que fiz pouco da Universal quando afirmei que há em seus templos, por dia, mais milagres do que Cristo fez ao longo da vida. E é mentira? Não só lá. As denominações neopentecostais, inclusive algumas de vertente católicas, são dadas a anunciar milagres e curas durante os cultos. Falam-se até línguas estranhas, a glossolalia, uma das manifestações do Espírito Santo. Cada um acredite no que quiser. Eu, particularmente, não entendo por que o Espírito Santo, na Bíblia, se manifesta, que eu me lembre, apenas duas vezes. Mas, nesses templos, a Pomba Sagrada dá pinta todo dia. É o líder religioso mandar, e lá está a pomba. Aliás, é uma festa de aparições. O que há de demônios que baixam nesses lugares também… E o curioso é que são demônios já filtrados pelas culturas locais, já miscigenados. Eles não têm nada do imaginário da antiga Galiléia, sabem? Quando vêm, um chama “Exu Caveira”; o outro, “Tranca Rua”… Já são demônios aquecidos pelo sol dos trópicos… Padre Anchieta, no século 16, já fazia coisa parecida. No Auto de São Lourenço, os capetinhas têm nome de índio… Mas era uma peça de teatro, era fingimento. Hoje em dia, certas correntes neopentecostais fazem de conta que a coisa é séria.

Essa gente consegue mesmo ser intercessora de milagres? Pois é… Então façam um pra eu ver. Quero acompanhar. Se acontecer, relato aqui. Mas ficamos assim: eu levo o entrevado cheio de fé para que ele saia do templo saltitante… Tenham paciência! Fé é fé. Não duvido da de ninguém. Cada um na sua. Acho que o assunto se torna de interesse público quando leis do país, eventualmente, deixam de ser cumpridas. Aí não se trata de fé, não. Aí estamos falando de uma questão que diz respeito ao Estado.

Quanto ao mais, cada um que acredite no que quiser. Se o sujeito está convicto de que seu pedido será atendido caso entregue ao religioso um bilhetinho junto com um cheque, ele que se dane. Por mim, se o cara quiser adorar um Chicabom, problema dele. Nos limites das leis democraticamente instituídas, reitero, cada um sabe e cuida de si.

A minha fé, evidentemente, é de outra natureza. Não estou dizendo que seja melhor ou pior. Estou apenas dizendo que é outra. Acho a, digamos, teologia de Edir Macedo risível? Acho. Ela pode ter lá a sua utilidade? Ora, depende das necessidades de cada um, não é? Seria um absurdo tentar impedi-lo de pregar. Mas é imperioso que ele administre os recursos da sua igreja segundo as exigências da lei. Ele e qualquer outro; isso vale para a Universal e para qualquer outra denominação.

E só pra encerrar: por que “teologia risível”? Trato disso no post seguinte.

Por Reinaldo Azevedo

 

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