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Igreja Católica

13/10/2014

às 16:10

A Igreja Católica e os gays: um documento correto e bem-vindo

“Os homossexuais têm dons e qualidades a oferecer à comunidade cristã? Seremos capazes de acolher essas pessoas, garantindo a elas um espaço maior em nossas comunidades? Muitas vezes, elas desejam encontrar uma igreja que ofereça um lar acolhedor. Serão nossas comunidades capazes de proporcionar isso, aceitando e valorizando sua orientação sexual, sem fazer concessões na doutrina católica sobre família e matrimônio?”

Essas indagações — que trazem em si a resposta — estão no documento que reflete os debates da primeira semana da assembleia extraordinária do Sínodo sobre a Família, que reúne 200 bispos no Vaticano e que tem como relator o cardeal húngaro Péter Erdo, de 62 anos, que frequentou a lista dos papáveis.

À diferença do que se diz por aí, não se trata ainda de um documento oficial do Vaticano, mas é evidente que se prenuncia uma mudança de tom muito bem-vinda da Igreja em relação aos homossexuais. É claro que eles têm dons e qualidades a oferecer à comunidade cristã. A Igreja pode continuar com suas posições doutrinárias sobre a organização da família — idealmente formada por heterossexuais casados — sem que, por isso, segregue os gays e, por exemplo, os heterossexuais que constituíram uma nova união.

Vocês conhecem muito bem a minha opinião a respeito. Ninguém é gay por escolha ou opção. Também não se trata de doença original ou de comportamento. Uma parcela de indivíduos de quase todas as espécies complexas conhecidas se sente atraída por outros  do mesmo sexo. E ponto. Não há nada a fazer a respeito. Igrejas são organizações sociais, compostas por seus membros, e fazem suas escolhas. Prefiro que o catolicismo inclua em vez de excluir; abrace em vez de rejeitar, sem que, para isso, precise abrir mão de sua doutrina.

Na esfera puramente civil, defendo o casamento gay e a adoção de crianças por pares homossexuais, desde que tenham condições psicológicas e financeiras para isso — mas faço a mesma exigência aos casais heterossexuais. Isso não me alinha com o que chamo “sindicalismo gay”, cuja pauta militante contempla kits nas escolas com proselitismo sobre orientação sexual, a aprovação da chamada lei anti-homofobia — essencialmente um equívoco — e patrulha meio fascistoide de combate à chamada “heteronormatividade”, uma bobajada que supõe, no fundo, que a prevalência da heterossexualidade no mundo é só uma questão cultural. Obviamente, não é.

Sei que é uma opinião sujeita a patrulhas as mais diversas. A linha de frente da militância gay acusa de “homofóbico” qualquer um que não adote a sua pauta. Para piorar, seres politicamente primitivos como uma Luciana Genro, por exemplo, pegam carona na luta dos gays e confundem o autoritarismo esquerdopata com a causa dos homossexuais. Alguém já viu esta senhora criticar a tirania cubana, onde gays são encarcerados só por serem gays? É claro que não! Se tiverem alguma curiosidade, procurem saber o que se deu com o bom escritor Reinado Arenas, narrada no filme “Antes do Anoitecer”, dirigido por Julian Schnabel. Gente como Luciana se alinha com a causa homossexual apenas porque considera que ela se opõe “à direita”. Querem outro exemplo? Sabem qual foi a principal acusação que o delinquente Nicolás Maduro, o ditador venezuelano, fez a seu opositor, Henrique Capriles? A de que ele é gay. As esquerdas ficaram caladas.

Da mesma sorte, noto que a questão gay leva alguns ultraconservadores a babar de ódio, como se o mundo vivesse sob uma terrível ameaça. Isso é bobagem. A ameaça que há hoje nos países livres é contra a liberdade de opinião e expressão, isto sim. Cada minoria organizada tende a transformar seus valores particulares em imposições universais, tentando calar quem pensa de modo diverso. Reitero: tal ameaça só existe no mundo livre. Nas tiranias, por óbvio, não. Afinal, tiranias são. De novo, lembro a tal Luciana. Segundo ela, Levy Fidelix deveria ter saído algemado de um debate eleitoral só porque se disse contrário ao casamento gay. Ela gosta é de ditadura, não de homossexuais.

Não acho que a comunidade cristã — e comunidade nenhuma — tenha algo a ganhar segregando os homossexuais porque homossexuais. E será dispensável lembrar aqui a contribuição de indivíduos nessa condição ao campo da ciência e das artes — inclusive cristãs. E sabem por que é dispensável? Porque não deixa de ser também uma forma de preconceito. Os gays têm o direito à felicidade ainda que não tenham nenhum talento especial, como não tem, aliás, a maioria dos heterossexuais. Os gays têm, em suma, o direito à normalidade.

Por enquanto, o que se tem é um documento prévio do Sínodo. Espero que se torne um documento abrigado por toda a Igreja Católica.

Por Reinaldo Azevedo

27/05/2014

às 13:54

Celibato na Igreja Católica tem se mostrado um desastre; chegou a hora de revê-lo

O papa Francisco afirmou o óbvio (leia post): o celibato não é um dogma da Igreja. Não é novidade. A questão pode ser debatida sem que se abalem as estruturas da igreja. Já escrevi bastante a respeito. Os dias em curso e suas circunstâncias indicam que o celibato é uma escolha desastrada. Vamos lá, arrumar mais um pouco de confusão…

Boa parte do que se chama “escândalo de pedofilia” na Igreja, vamos deixar claro, pedofilia não é porque faltam aos eventos as características próprias a esse tipo de perversão: misturam-se questões de natureza puramente legal com o que, creio, seja uma patologia. Sem querer ser abusado, noto: quando um padre se enrosca com um rapaz de 15, 16 anos na sacristia, isso não é pedofilia, mas só homossexualidade.

Os casos da chamada “pedofilia” na Igreja — seja a dita-cuja propriamente, seja a homossexualidade — são muito menos frequentes do que se alardeia. Deve haver algo em torno de 450 mil sacerdotes católicos espalhados pelo mundo. Se 1% sair por aí fazendo besteira, são 4.500. Imaginem o efeito que isso tem. Toma-se a parte mínima pelo todo. Não tenho dados, mas suponho que, separadas por categorias profissionais, não é improvável que haja 1% de pedófilos — da fato! — até entre os… especialistas em pedofilia…

A Igreja Católica não pode ser um armário. A imposição do celibato leva para o sacerdócio, infelizmente, pessoas que tentam esconder sua sexualidade — que, não obstante, aflora em razão de circunstâncias particulares da vida religiosa. Certamente, a esmagadora maioria dos padres é fiel a uma escolha. Mas basta uma minoria para fazer um estrago danado. Acabar — e vai demorar — com o celibato corresponde a cercar as possibilidades de erro.

Decisão humana
O celibato sacerdotal na Igreja Católica foi instituído no ano 390 — portanto, a Igreja viveu quase quatro séculos sem ele. Sei que estou entrando numa pinima danada. Já me bastaria o ódio dos que chamo partidários da “escatologia da libertação” (que, de teologia, não tem nada). Talvez vire alvo, também, dos conservadores. Ok. Como diria Padre Vieira, “pelo costume, quase se não sente”. Adiante: o celibato é matéria apenas de interpretação, nada mais. Torná-lo uma questão de princípio, como é a defesa da vida — e, pois, a rejeição ao aborto —, é superestimar uma (o celibato) e rebaixar outra (a defesa da vida).

Na minha Bíblia — e na sua também, leitor amigo —, São Pedro tem sogra. Sei que sou aborrecidamente lógico às vezes, mas é de supor que tinha ou teve uma mulher: “E Jesus, entrando em casa de Pedro, viu a sogra deste acamada, e com febre. E tocou-lhe na mäo, e a febre a deixou; e levantou-se, e serviu-os”. Está em Mateus, 8:14-15.

Na Primeira Epístola a Timóteo, ninguém menos que São Paulo recomenda:

“Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar. Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento” (I Tim, 3:1-3).

Os defensores radicais do celibato pretendem dar a estas palavras um sentido diverso. Desculpem. Trata-se de forçar a barra. Na sequência, São Paulo não deixa a menor dúvida: “Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia. Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?)” (I Tim, 3:4-5). Não quero ser ligeiro. Sei bem que há outras passagens que endossam o celibato. Mas fica claro que se trata de uma questão de escolha, sim, não de fundamento; trata-se de uma questão puramente histórica, não de revelação.

O celibato pode ter sido útil em tempos bem mais difíceis da Igreja. A dedicação exclusiva à vida eclesiástica pode ter feito um grande bem à instituição. Mas é evidente que se tornou um malefício, um perigo mesmo, fonte permanente de desmoralização. A razão é mais do que óbvia. A maioria dos padres, é possível, vive o celibato e leva a sério o seu compromisso. Mas é claro que o sacerdócio também se tornou abrigo de sexualidades alternativas, que não têm a mesma aceitação social do padrão heterossexual. E que se note: também existem desvios de conduta de padres heterossexuais.

Poderá perguntar alguém: pudesse o padre casar, a Igreja estaria absolutamente protegida de um adúltero, por exemplo? É claro que não. Mas não tenho dúvida de que estaria muito menos cercada de escândalos. Talvez demore mais um século até que isso venha a ser debatido, sempre no tempo da Igreja Católica, que não é este nosso, da vida civil. Mas é importante que os católicos, em especial aqueles que não aderiram a heresias marxistas, comecem a pensar que o celibato não compõe o núcleo da doutrina cristã ou um fundamento do catolicismo. Foi, num dado momento, a escolha de uma forma de organização. Que, hoje, traz mais malefícios do que benefícios.

Sou o primeiro a considerar que a Igreja não tem de ceder a todos os apelos da, vá lá, modernidade, abrindo mão de seus princípios. Só que falta provar que o celibato é um princípio. Não é.

De fato, a obrigação de um sacerdote deveria ser outra, como queria São Paulo: “Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar”. A obrigação deveria ser o casamento, não o contrário.

Por Reinaldo Azevedo

27/05/2014

às 13:35

Papa deixa “porta aberta” para discutir celibato na Igreja

Na VEJA.com. Volto no próximo post.
O papa Francisco sinalizou uma possibilidade de discussão sobre o celibato dentro da Igreja Católica, em entrevista concedida durante o voo de volta a Roma depois da primeira visita do pontífice à Terra Santa. “A Igreja Católica tem padres casados, católicos ??gregos, católicos coptas e no rito oriental. Não é um debate sobre um dogma, mas sobre uma regra de vida que eu aprecio muito e que é um dom para a Igreja. Por não ser um dogma de fé, a porta sempre está aberta”, disse o papa, em declaração reproduzida pelo jornal espanhol El País.

Ao deixar claro seu apreço pelo celibato, o pontífice reafirma uma posição pessoal já presente nos diálogos com o rabino Abraham Skorka, ao longo de 2010, que deram origem ao livro Sobre o Céu e a Terra. Em um trecho que trata do celibato, Jorge Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires, diz: “No catolicismo ocidental, o tema é discutido impulsionado por algumas organizações. Por enquanto, a disciplina do celibato se mantém firme. Há quem diga, com certo pragmatismo, que estamos perdendo mão de obra. Se, hipoteticamente, o catolicismo ocidental revisasse o tema do celibato, acredito que o faria por razões culturais (como no Oriente), não tanto como opção universal. Por ora, sou a favor de que se mantenha o celibato, com seus prós e contras, porque são dez séculos de boas experiências, mais que de falhas”.

A manifestação de Francisco no retorno a Roma ocorre alguns dias após um grupo de 26 mulheres italianas enviarem uma carta ao sumo pontífice pedindo para ele repensar o veto ao casamento mantido para os padres. “Caro papa Francisco, nós somos um grupo de mulheres de todas as regiões da Itália que escrevemos para romper a parede de silêncio e de indiferença que nos cerca todos os dias. Cada uma de nós vive, viveu ou gostaria de viver uma relação de amor com um membro do corpo eclesiástico, por quem somos apaixonadas”, afirmam as signatárias. As mulheres não revelaram suas identidades nem os nomes dos seus companheiros padres, mas deixaram um número de telefone na correspondência e pediram “com humildade, que alguma coisa mude, não apenas por nós, mas também pelo bem de toda a Igreja”.

Em março, o papa defendeu o celibato dos padres ao falar para bispos africanos. Na ocasião, disse que os futuros padres devem ser bem formados desde o seminário “para viver de verdade as exigências do celibato eclesiástico, assim como ter uma relação justa com os bens materiais”. Em setembro do ano passado, Pietro Parolin, às vésperas de assumir a Secretaria de Estado e tornar-se o número dois do Vaticano, afirmou que o celibato “não é um dogma da Igreja e pode ser discutido, porque é uma tradição eclesiástica”. Especialistas logo alertaram que não havia nada de novo no discurso do futuro secretário. Em 1997, o cardeal e teólogo Joseph Ratzinger, que se tornaria o papa Bento XVI, escreveu um livro, O Sal da Terra, afirmando que o celibato “com certeza não é um dogma”. Na época, o alemão Ratzinger era o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé.

O livro João Paulo II – Estou nas Mãos de Deus, que reúne anotações pessoais do papa, também traz reflexões sobre o tema: “O celibato sacerdotal é um mistério sobrenatural e, ao mesmo tempo, um dom de Deus, um carisma, para dedicar-se às coisas do Reino com coração indiviso”. Em seguida, o papa lança a pergunta: “Penso eu assim sobre esse tema? Como vivo meu celibato? O sacerdócio não é o celibato, mas o celibato fortalece o sacerdócio. O celibato é comprometer-se para sempre, aqui está a grandeza do homem”.

Abuso sexual
Durante o voo, o papa voltou a condenar a pedofilia dentro da igreja e revelou que “dentro de poucos dias” celebrará uma missa na residência de Santa Marta para um pequeno grupo de vítimas de abuso. “Há seis ou oito pessoas da Alemanha, Inglaterra e Irlanda. E, em seguida, vou me reunir com o cardeal [Sean Patrick] O’Malley, o presidente da comissão contra os abusos. Mas é isso, temos de seguir em frente. Tolerância zero!”, disse.

“Não haverá tratamento preferencial quando se tratar de abuso de crianças. Esse é um problema muito sério. Quando um padre comete abuso, ele trai o corpo do Senhor. Um padre deve guiar as crianças pelo caminho da santidade. E a criança confia nele. Se em vez disso, ele abusa dele ou dela, é algo muito sério”, acrescentou, revelando ainda que o Vaticano está investigando três bispos por crimes relacionados a abuso de menor

Por Reinaldo Azevedo

14/01/2014

às 5:49

O papa, o aborto e as coisas estúpidas que se escreveram e se escrevem a respeito

papa francisco acena

A  imprensa mundial, a brasileira também, pôs na cabeça que Jorge Bergoglio se transformou no papa Francisco com o objetivo de destruir os valores da Igreja Católica e transformá-la, quem sabe?, numa dessas ONGs consideradas “progressistas”. E, como todos sabemos, as pessoas só são progressistas hoje em dia se defenderem o casamento gay, a descriminação das drogas e, acima de todas essas causas, o aborto. Por que é tão importante para as esquerdas de hoje transformar o feto num dente que se pode arrancar quando incomoda (para lembrar uma imagem a que recorreu Dilma Rousseff ainda antes de ser candidata)? Não sei. Essa obsessão desafia a minha capacidade de entendimento dos desvãos da alma humana. Só certo feminismo — que pretende que o feto seja uma mera extensão do corpo da mulher — parece-me insuficiente para explicar a determinação com que se faz a defesa desabrida da morte. Adiante.

Nesta segunda, na mensagem tradicional de início de ano aos embaixadores de seus respectivos países junto ao Vaticano, Francisco fez uma dura condenação do aborto, que chamou de parte da “cultura do descarte”. Afirmou ainda: “Causa horror o simples pensamento de que existam crianças que jamais poderão ver a luz do dia, vítimas do aborto”.

E, acreditem, a declaração está gerando barulho. Estão entendendo a sua fala como uma concessão aos “conservadores da Igreja Católica”, o que é, para dizer pouco, uma leitura boçal. O surpreendente, aí sim, seria se Francisco tivesse condescendido com o aborto. Nessa matéria, não existe “igreja progressista” e “igreja tradicionalista”. Existem o compromisso com a morte e o compromisso com a vida.

Por que essa leitura cretina da fala do papa? Porque, infelizmente, essa mesma imprensa, em matéria religiosa, tem mais compromisso com os seus erros e com os seus preconceitos do que com os fatos.

Em setembro, o papa concedeu uma longa entrevista à revista jesuíta “Civiltà Cattolica”. Trechos de sua fala, retirados do contexto, levaram alguns intérpretes mundo afora à suposição de que o papa estava condescendendo com o aborto e admitindo a possibilidade de a Igreja vir a flertar com tal prática. Escrevi a respeito Apontei a distorção, sem deixar de apontar o que me desagradava na sua resposta. Chamei a atenção dos leitores para a distorção estúpida. Fui acusado de tentar negar o óbvio. Transcrevo, em português, a afirmação do Sumo Pontífice a respeito (em azul).
(…)
“Esta é também a grandeza da confissão: o facto de avaliar caso a caso e de poder discernir qual é a melhor coisa a fazer por uma pessoa que procura Deus e a sua graça. O confessionário não é uma sala de tortura, mas lugar de misericórdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. Penso também na situação de uma mulher que carregou consigo um matrimónio fracassado, no qual chegou a abortar. Depois esta mulher voltou a casar e agora está serena, com cinco filhos. O aborto pesa-lhe muito e está sinceramente arrependida. Gostaria de avançar na vida cristã. O que faz o confessor?”

“Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente”.
(…)

Volto
Reproduzo aqui a crítica que fiz (em azul) e volto em seguida.
Acho, sim, que a fala do papa está transitando por terrenos perigosos, e minha crítica está mantida, mas considerar que o que vai acima significa condescender com o aborto é de uma falsidade escandalosa. A matéria de que se cuida acima é outra. O papa está a falar de arrependimento e de perdão. E, a rigor, não há novidade nenhuma nisso.

“Mas por que você mantém a crítica?” Porque ele não deve ignorar o ambiente em que faz considerações dessa natureza e porque as palavras não são duras o bastante em relação à questão em si. Espera-se do pastor por excelência da Igreja que seja mais preciso ao acolher a mulher que abortou e ao repudiar o aborto em si.

Assim, é fato que Francisco, em alguma medida, criou condições favoráveis à distorção intelectualmente dolosa do que disse. O lobby em favor da legalização do aborto é um dos mais organizados do mundo. E demonstra, uma vez mais, a sua força. Entender por que alguém se dedica a essa causa com tanto afinco, como se estivesse a propugnar por um novo iluminismo, é um dos grandes enigmas morais do nosso tempo.

Retomo
Ao deixar clara, de forma inequívoca, a condenação ao aborto, o papa não presta satisfações aos “conservadores”. Apenas põe nos justos termos o pensamento da Igreja Católica a respeito. Não se trata de uma guinada conservadora, mas da exposição daquele que é o pensamento da Igreja a respeito da inviolabilidade da vida.

Li em algum lugar que, assim, Francisco reafirmava também um ponto de vista “conservador” sobre as questões sexuais. Então o “aborto”, agora, passou a ser parte da “liberdade sexual”? Em nome do exercício dessa liberdade, fetos devem passar a ser coisas, que se descartam, assim, como um contratempo, mera consequência indesejada de uma imprudência qualquer?

Insisto: o mundo só teria o direito de se surpreender se o papa dissesse o contrário.  Alguns tolos dispensam a Francisco o mesmo tratamento que dispensavam a Barack Obama quando se elegeu presidente dos EUA. Parecia que, finalmente, chegaria o presidente, escolhido pelo povo, para destruir o país. Ainda que eu não tenha simpatia nenhuma por Obama, o fato é que não aconteceu o que esperavam os inimigos dos EUA. Sim, ainda que de um modo que eu não gosto, ele é um homem do establishment. Nota: parte da gritaria em favor do vigarista Edward Snowden é promovida por aqueles que queriam que Obama fosse o Gorbatchev do sistema americano.

Esses mesmos esperam que Francisco seja o Gorbatchev da Igreja Católica. Como sabem, já recorri aqui a essa imagem. Talvez o papa tenha se dado conta de que sua imagem, mundo afora, estava começando a assumir os traços de uma caricatura: “aquele que veio para desmontar a Igreja”… Não! Ele veio para preservá-la.

Acolher as mulheres que abortaram é parte da doutrina do perdão. Não significou, de modo nenhum, condescender com o aborto. Uma coisa é a Igreja abraçar aqueles que sofrem, ser inclusiva, abrir-se para o mundo; outra, distinta, é renegar seus próprios valores. O papa não havia feito isso na entrevista à revista católica. E, agora, faz o óbvio e reafirma seu compromisso com a doutrina que o fez o sumo sacerdote.

O que há de novo ou de especial nisso?

Texto publicado originalmente às 21h46 desta segunda
Por Reinaldo Azevedo

26/11/2013

às 18:41

Exortação Apostólica não é carta de reforma coisa nenhuma; crítica da Igreja ao materialismo é antiga; papa deixa claro repúdio ao aborto. Ou: Lembrando outro jesuíta: Padre Vieira

Veio a público a primeira Exortação Apostólica do papa Francisco. Chama-se “Evangelii Gaudium” (A Alegria do Evangelho). Comecemos por corrigir uma distorção importante que circula por aí: NÃO É UM DOCUMENTO DE REFORMA DA IGREJA OU DO VATICANO. Como toda exortação dessa natureza, é um texto que trata de valores — e que, sim, fala da necessidade de mudanças. A Igreja é regida pela Constituição Apostólica “Pastor Bonus”, de 1988. Há uma comissão que cuida de sua reforma. Quando as propostas vierem a público, aí, sim, se cuida então de uma mudança. Por enquanto, Francisco está a cuidar dos valores. A íntegra do documento, em português, está aqui.

Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, não é um teólogo, como Josef Ratzinger. Não é um intelectual. Não tem a tendência de transformar as questões humanas num conceito para submetê-lo a uma ratio, de onde sairia, então, uma orientação de natureza moral e atemporal. Imprime à sua fala um tom de urgência, de caráter, sim, reformista, para a Igreja de agora — ainda que, como é de esperar, seus valores sejam os do catolicismo.

Além de não ser um teólogo, Bergoglio é um jesuíta, o primeiro a se tornar papa na história. E isso faz diferença. A ordem nasceu com o propósito da evangelização, o que a levou, ao longo da história, a entrar em conflito, mais de uma vez, com a própria hierarquia católica. Não por acaso, a autoridade máxima dos jesuítas é chamada de “o papa negro” (referência à batina), numa sugestão de que os jesuítas têm suas próprias prioridades, que nem sempre são as da Igreja oficial.

O mais notável jesuíta que atuou e pregou no Brasil, Padre Vieira, distinguia os “pregadores do paço” (dos palácios) dos pregadores do “passo” (os evangelizadores), que estão entre os homens. A própria Igreja era alvo constante de sua gloriosa fúria retórica.

Recado à Igreja
Nós parágrafos 81, 82 e 83, o papa aponta a “acédia” — prefiro a grafia “acídia” — que toma conta dos católicos. É o enfraquecimento da vontade, a inação, a prostração. Transcrevo trecho de seu texto e depois retomo Padre Vieira. Vocês verão que interessante.
“Esta acédia pastoral pode ter origens diversas: alguns caem nela (…) por terem perdido o contato real com o povo, numa despersonalização da pastoral que leva a prestar mais atenção à organização do que às pessoas (…) Assim se gera a maior ameaça, que ‘é o pragmatismo cinzento da vida quotidiana da Igreja, no qual aparentemente tudo procede dentro da normalidade, mas na realidade a fé vai-se deteriorando e degenerando na mesquinhez’. Desenvolve-se a psicologia do túmulo, que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu. Desiludidos com a realidade, com a Igreja ou consigo mesmos, vivem constantemente tentados a apegar-se a uma tristeza melosa, sem esperança, que se apodera do coração como ‘o mais precioso elixir do demónio’. (…) Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização!”

Confesso que algumas imagens a que recorre Francisco não são exatamente do meu agrado, mas ele parece mesmo empenhado em fazer a Igreja falar uma língua mais crua. No belíssimo “Sermão da Sexagésima”, Vieira indaga por que faz pouco fruto a palavra de Deus no mundo. Transcrevo trechos:
“Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há de concorrer Deus com a graça, alumiando.”

Vieira examina, em seguida, cada um desses fatores para saber se o problema está com Deus, com a doutrina ou com os pregadores. E conclui:
“Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa nossa.”

E é justamente nesse Sermão que o padre distingue os pregadores do “paço” dos do “passo”, referindo-se explicitamente aos jesuítas, que enfrentavam a oposição de outras ordens religiosas e da alta hierarquia católica. Leiam o que ele diz:
“Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hão lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos”.

Visões de mundo
Não estou comparando discursos, obras etc. Estou tratando de uma visão de mundo: a jesuítica, segundo a qual a pregação do Evangelho, em meio ao povo, é o “sal da terra”. Vieira e Bergoglio entendem que não há nada de errado com Deus ou com a doutrina. O problema está com os pregadores; o problema está com a Igreja. Cumpre notar, em todo caso, que, da segunda metade do século 17 a esta data, a Igreja não acabou, não é?

A Igreja, na sua doutrina essencial, e antimaterialista e, vá lá, anticapitalista, mas não, obviamente, socialista. Faço essa observação porque outra linha condutora da exortação de Francisco é, sim, a crítica ao capitalismo — especialmente nos parágrafos 55 a 60. Leiam este trecho:
“56. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.”

Mais uma vez, se quiserem, podemos voltar a Vieira e a alguns de seus escritos sobre a escravidão. Que tal isto?
“Os Israelitas atravessaram o mar Vermelho e passaram da África à Ásia, fugindo do cativeiro; estes atravessam o mar Oceano na sua maior largura, e passam da mesma África à América para viver e morrer cativos (…). Os outros nascem para viver, estes para servir. Nas outras terras, do que aram os homens, e do que fiam e tecem as mulheres, se fazem os comércios; naquela, o que geram os pais e o que criam a seus peitos as mães, é o que se vende e se compra. Oh trato desumano, em que a mercancia são homens! Oh mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas alheias, e os riscos das próprias!
Já se, depois de chegados, olharmos para estes miseráveis e para os que se chamam seus senhores, o que se viu nos dois estados de Jó é o que aqui representa a fortuna, pondo juntas a felicidade e a miséria no mesmo teatro. Os senhores poucos, e os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferro; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os senhores em pé, apontando para o açoite, como estátuas da soberba e da tirania, os escravos prostrados com as mãos atadas atrás como imagens vilíssimas da servidão e espetáculos de extrema miséria. Oh Deus! Quantas graças devemos à fé, que nos destes, porque ela só nos cativa o entendimento, para que, à vista destas desigualdades, reconheçamos, contudo, vossa justiça e providência! Estes homens não foram resgatados com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem como os nossos? Não respiram com o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os aquenta o mesmo Sol? Que estrela é logo aquela que os domina, tão triste, tão inimiga, tão cruel?”.

É um trecho do Sermão Vigésimo Sétimo, de 1688, um daqueles que o padre dirigiu à Comunidade Nossa Senhora do Rosário, composta de negros.

Por quê?
Faço essas observações para destacar que a proximidade da Igreja com os pobres, com os desvalidos, não é uma “modernidade” surgida com a Teologia da Libertação. O que essa corrente fez, isto sim, foi emprestar à tradição humanista da Igreja o viés marxista, como se a luta de classes fosse o único caminho de combate à desigualdade. Evidencio que o compromisso da instituição — ou de fatias importantes dela — com o combate às injustiças é antigo. Na verdade, está na origem do cristianismo. Ainda hoje, apesar de tudo, a Igreja Católica coordena a maior rede de assistência social do mundo.

Francisco não é, como, às vezes, se tenta vender aqui e ali, um papa contra a Igreja. Parece é que o jesuíta pretende uma Igreja menos apegada ao “paço” e mais apegada “ao passo”; uma Igreja que busque menos as culpas dos fiéis relapsos do que dos pregadores relapsos. Outras manifestações suas me desagradaram um tantinho. Esta não. Até porque valores que me parecem essenciais estão devida e inequivocamente explicitados.

Aborto
Certas declarações do papa sobre o aborto, por exemplo, andaram criando certa confusão. Esta exortação não deixa a menor dúvida sobre o posicionamento do Sumo Pontífice (e como poderia ser diferente?) sobre o tema. Transcrevo os parágrafos 213 e 214:
213. Entre estes seres frágeis, de que a Igreja quer cuidar com predileção, estão também os nascituros, os mais inermes e inocentes de todos, a quem hoje se quer negar a dignidade humana para poder fazer deles o que apetece, tirando-lhes a vida e promovendo legislações para que ninguém o possa impedir. Muitas vezes, para ridiculizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica, obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano. Supõe a convicção de que um ser humano é sempre sagrado e inviolável, em qualquer situação e em cada etapa do seu desenvolvimento. É fim em si mesmo, e nunca um meio para resolver outras dificuldades. Se cai esta convicção, não restam fundamentos sólidos e permanentes para a defesa dos direitos humanos, que ficariam sempre sujeitos às conveniências contingentes dos poderosos de turno. Por si só a razão é suficiente para se reconhecer o valor inviolável de qualquer vida humana, mas, se a olhamos também a partir da fé, «toda a violação da dignidade pessoal do ser humano clama por vingança junto de Deus e torna-se ofensa ao Criador do homem».
214. E precisamente porque é uma questão que mexe com a coerência interna da nossa mensagem sobre o valor da pessoa humana, não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana. Mas é verdade também que temos feito pouco para acompanhar adequadamente as mulheres que estão em situações muito duras, nas quais o aborto lhes aparece como uma solução rápida para as suas profundas angústias, particularmente quando a vida que cresce nelas surgiu como resultado duma violência ou num contexto de extrema pobreza. Quem pode deixar de compreender estas situações de tamanho sofrimento?”

Meio ambiente
Francisco é um papa de 2013, do século 21, e o meio ambiente assume também uma dimensão apostólica. Leiam:
215. Há outros seres frágeis e indefesos, que muitas vezes ficam à mercê dos interesses económicos ou dum uso indiscriminado. Refiro-me ao conjunto da criação. Nós, os seres humanos, não somos meramente beneficiários, mas guardiões das outras criaturas. Pela nossa realidade corpórea, Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação. Não deixemos que, à nossa passagem, fiquem sinais de destruição e de morte que afectem a nossa vida e a das gerações futuras. Neste sentido, faço meu o expressivo e profético lamento que, já há vários anos, formularam os Bispos das Filipinas: «Uma incrível variedade de insectos vivia no bosque; e estavam ocupados com todo o tipo de tarefas. (…) Os pássaros voavam pelo ar, as suas penas brilhantes e os seus variados gorjeios acrescentavam cor e melodia ao verde dos bosques. (…) Deus quis que esta terra fosse para nós, suas criaturas especiais, mas não para a podermos destruir ou transformar num baldio. (…) Depois de uma única noite de chuva, observa os rios de castanho-chocolate da tua localidade e lembra-te que estão a arrastar o sangue vivo da terra para o mar. (…) Como poderão os peixes nadar em esgotos como o rio Pasig e muitos outros rios que poluímos? Quem transformou o maravilhoso mundo marinho em cemitérios subaquáticos despojados de vida e de cor?»
216. Pequenos mas fortes no amor de Deus, como São Francisco de Assis, todos nós, cristãos, somos chamados a cuidar da fragilidade do povo e do mundo em que vivemos.

Encerro
O texto é imenso, e há muitos outros aspectos a destacar, mas fica para outros posts. Que se marque: Bergoglio é um jesuíta, e Francisco é o chefe religioso de todos os católicos. 

A condenação ao aborto vai aí explicitada. É inequívoca. O que Francisco faz é não demonizar a mulher que, premida por esta ou por aquela circunstâncias, acabou optando pelo aborto. O papa, no entanto, é muito direto: “Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou ‘modernizações’. Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana”. A Igreja não mudará o seu ponto de vista sobre o aborto. Não com Francisco. Pode não demonizar a mulher que abortou porque abraça e perdoa o pecador, mas não condescende com o pecado.

Convém não confundir o papa da Igreja Católica com um “teólogo da libertação”. Ele não é. Graças a Deus!

Por Reinaldo Azevedo

26/11/2013

às 17:12

Daqui a pouco…

… um texto sobre a Exortação Apostólica do papa Francisco e as bobagens que já se escreveram por aí.

Por Reinaldo Azevedo

03/10/2013

às 16:22

“Oh, ele se atreve a criticar até o papa!” Ou: As imposturas de alguns supostos admiradores de Francisco que, na verdade, são “odiadores” da Igreja

Ai, ai… Xiii, lá vem! Escrevi nesta manhã, com um pouco ao menos da tinta da galhofa e da pena da melancolia, como disse aquele, um texto sobre as declarações estrepitosas de Francisco, o papa. Afirmei que ele precisa tomar cuidado para não ser o Gorbachev da Igreja Católica, de quem fui fã incondicional porque tinha a certeza de que ele seria um fator decisivo para fazer aquele troço desmoronar. Ou por outra: todos os que se entusiasmaram com o homem tinham a certeza absoluta de que ninguém poderia fazer mais contra o comunismo do que ele próprio. Sim, escrevi um texto crítico ao papa.

Alguns católicos não gostaram — e compreendo seus motivos. Acham que estou sendo precipitado e que Francisco está num esforço para resgatar a verdadeira vocação pastoral da Igreja, que teria sido esmaecida pela burocracia vaticana etc. O debate é longo e assume contornos propriamente religiosos. Não vou enveredar por aí. Espantosa — ou nem tanto, vá lá — é a reação dos idiotas, que espalham por aí: “O Reinaldo agora acha que pode criticar até o papa!”.

Eu acho? Por quê? Bento 16, por acaso, era tratado como o “magister dixit” quando se pronunciava sobre este ou aquele assuntos? Então o agora papa emérito nunca foi contestado pela imprensa, por jornalistas, por colunistas, por grupos militantes? Dada a sua origem, chegou a ser chamado de “pastor alemão”, num óbvio trocadilho canalha com a raça de um cachorro, conhecido, quando treinado para tanto, por sua efetividade repressiva. As coisas não pararam por aí: sem provas, com base em ilações, Bento 16 chegou a ser acusado de cumplicidade com religiosos pedófilos. Para destruí-lo, valia, então, qualquer coisa.

De fato, Bento 16 nunca se mostrou especialmente inclinado às críticas públicas à própria Igreja, como tem feito Francisco nestes sete meses de papado. Também jamais foi ambíguo em matéria de doutrina ou demonstrou flexibilidade em algumas questões tratadas em certos meios, hoje em dia, como definidoras do futuro da humanidade — aborto ou casamento gay, por exemplo. Tampouco flertou com práticas religiosas que usam o Cristo como mero pretexto da militância ideológica. E apanhou muito, muito mesmo!, por isso. Quando julgou que não tinha mais energia física para dar as respostas que a instituição pedia, ele — permanentemente acusado de apego ao poder — teve a coragem de renunciar.

Então vamos ao centro da questão: questionar Bento 16, acusá-lo de atos criminosos, chamá-lo de “pastor alemão”, ridicularizá-lo — como se houvesse na imprensa, nossa ou de outros, alguém com competência intelectual para tanto… —, tudo isso era justificável, aceitável, matéria até, apelaram alguns, de “liberdade de expressão” — até parecia que alguma ameaça pairava sobre os críticos. Convenham: só os que se atrevem a defender a Igreja Católica correm alguns riscos hoje em dia… O cristianismo ainda é a religião mais perseguida do mundo sem que se diga um pio. Os nossos “progressistas” estão dedicados ao combate à suposta “islamofobia”…

Mas basta que alguém não demonstre, como não demonstrei, simpatia por parte das ações de Francisco — refiro-me ao aspecto falastrão e logólotra de sua atuação — para que alguns decidam, então, sair relinchando por aí: “Olhem lá, ele acha que pode criticar até o papa!”. Ora, mas outros não achavam, até anteontem, que atacar (e não simplesmente divergir dele) o papa era um dever?

Notem, então, que não é a crítica ao papa que incomoda, mas sim a crítica a “este papa”. Não se trata, então, de achar que só atrevidos e pretensiosos discordam do Sumo Pontífice — ou essa mesma ousadia teria sofrido reparos antes, quando o chefe máximo da Igreja Católica era Bento 16. E não que as circunstâncias sejam as mesmas, não é? Eu, ao menos, exerço a divergência do ponto de vista de quem defende uma Igreja Católica mais forte e mais presente. Os que se opunham a Bento 16 e agora consideram um absurdo que se possa discordar de Francisco querem mais é que a instituição se dane e nem mesmo enxergam um lugar, no mundo moderno, para a religião — desde que essa religião seja o cristianismo, em qualquer uma de suas expressões. Se contarem a esses valentes que, ali adiante, há tribos enterrando crianças vivas, logo dirão que não se deve mexer com a crença e os costumes de “povos tradicionais”.

Esses tontos que fingem se escandalizar com a minha crítica — não incluo no grupo, obviamente, os católicos que acham que estou errado; tomara que sim!, digo eu — não estão nem aí para Francisco como não estavam para Bento 16. São hipócritas. Estão contentes com o novo papa não porque achem que ele está fortalecendo a Igreja. Se achassem, eles o atacariam impiedosamente. Veem na nova autoridade máxima do catolicismo, e volto a meu texto anterior, o mesmo que eu via, com acerto então, em Gorbachev: o começo do fim de algo que deveria ser destruído para o bem da humanidade. Não acho, deixo claro, que Francisco vai cumprir as expectativas dessas almas bondosas e tolerantes, mas considero ser um dever apontar a má consciência.

Por Reinaldo Azevedo

03/10/2013

às 5:14

Papa Francisco precisa tomar cuidado para não ser o Gorbachev da Igreja e para não competir com a imaginação de Dan Brown

O nome é Jorge Mario Bergoglio, conhecido como papa Francisco desde 13 de março de 2013, mas podem começar a chamá-lo de Mikhail Gorbachev… É uma ironia? Claro que é. Alguns entenderam de primeira. Outros terão de refletir um pouco. Um liderava uma construção humana, de vocação maligna. O outro comanda o que os crentes consideram uma construção divina, de vocação benigna. O meu gracejo, por óbvio, não nasce da diferença, mas do risco da semelhança.

Repararam, leitores? Há muito tempo um papa não chamava tanto a atenção da imprensa mundial e não recebia tantos elogios, muito especialmente daqueles, vejam que curioso!, que odeiam a Igreja Católica — e, de maneira mais genérica, o cristianismo. “Se até o papa está dizendo que a Igreja é essa porcaria, então deve ser mesmo verdade; eu sempre soube!”

Ai daquele que alimentar a vaidade de despertar a simpatia de quem o detesta!

Não gosto, e já deixei isso claro aqui, dos primeiros passos de Francisco. Fazer o quê? Chega a hora em que é preciso discordar até do papa. Então que seja. Considerei, e não mudei de ideia, um tanto atrapalhada a sua entrevista à revista jesuíta La Civiltà Cattolica. Ainda que não tenha dito a barbaridade que lhe atribuíram sobre o aborto (escrevi um post sobre a mentira), a fala não foi clara o bastante. Do pastor máximo da Igreja Católica, espera-se, como queria Paulo, que flauta soe como flauta, e cítara, como cítara.

Ao jornal “La Repubblica”, chamou a Igreja de “introspectiva e vaticanocêntrica”, além de classificar a Cúria romana de “lepra do papado”. Nesta quarta, em audiência da Praça São Pedro, lembrou o óbvio, mas num contexto, a esta altura, já contaminado pela tentação do falastrão: “Somos uma igreja de pecadores, e nós, pecadores, somos chamados para nos renovar, santificar por Deus”. E criticou: “Existiu na história a tentação daqueles que afirmavam que a Igreja é apenas dos puros, daqueles que são totalmente crentes, e os outros são afastados. [A Igreja] não é a casa de poucos, mas de todos”.

Por certo é a “casa de todos”, mas de todos que estejam dispostos a aceitar os fundamentos que fazem da Igreja a Igreja. Afinal, o que é realmente de todo mundo é a República, não é isso? É o estado democrático. E, ainda assim, que cabe notar: é de todos até mesmo para punir aqueles que violam as suas regras.

Alguns amigos católicos estão um tanto descontentes com a minha pressa em censurar a fala do papa. Acham que eu deveria esperar um pouco mais para ver para onde caminham as coisas. Talvez eu pudesse fazê-lo se fosse apenas católico. Como sou também jornalista, não posso deixar de analisar essa questão com os olhos e, vá lá, algum método com que vejo todo o resto.

A ironia que fiz com Gorbachev faz sentido. Eu sempre o admirei muito porque tinha a certeza, desde o primeiro momento — e quem me conhece desde aqueles tempos sabe disto — que ele aceleraria o fim da URSS. Gorbachev atuava, vamos dizer assim, no mesmo sentido em que caminhavam os meus anseios naquele particular: o desmoronamento do império soviético. Mas eu me divertia me colocando, às vezes, na pele de um comuna pró-Moscou e concluía: é uma besta ao quadrado! “Mas ele não fez um bem imenso à humanidade, pondo fim àquele horror?” Claro que sim! Ocorre que ele tinha sido escolhido para manter o império. Vivo torcendo para que apareça um “reformador” chinês, entendem? Deng Xiaoping foi esperto e maligno. Pôs fim ao comunismo chinês sem pôr fim à tirania…

Ocorre que a Igreja Católica não é um império do mal, não é? E, desta feita, não vejo graça nos primeiros passos de um candidato a Gorbachev de mitra. Não acho que Francisco vá acabar com a Igreja. Ela é um pouco mais antiga e enraizada na cultura do que era o comunismo. Mas eu o vejo, por enquanto, produzindo falas bombásticas em excesso, a maioria voltada para o público externo, muito em particular para os que veem na instituição não mais do que um amontoado de obsolescências, com o que, obviamente, não concordo.

Daqui a pouco vai haver gente achando que, nos corredores do Vaticano e na Cúria (a tal “lepra”), circulam alguns daqueles celerados da imaginação de Dan Brown, o autor do delirante “O Código Da Vinci”. Seria melhor que primeiro conhecêssemos o papa por suas ações. As palavras bem que poderiam vir depois. Os jesuítas têm, é verdade, uma certa tradição falastrona, de confronto com a hierarquia, que já gerou maravilhas como Padre Vieira, por exemplo. Mas Bergoglio não é Vieira.

Eis um tipo de consideração, meus caros, que não terá como ser confrontada com os fatos amanhã, depois de amanhã, daqui a dois ou três meses, como acontece com frequência na política. É matéria de muitos anos. As primeiras afirmações de Francisco estão gerando mais calor do que luz. E, como não poderia deixar de ser, têm despertado a simpatia dos que o veem não como um reformador que vai fortalecer a Igreja Católica, mas como um crítico que, finalmente, pode desestruturá-la.

Boa parte dos não católicos que hoje aprovam Francisco o aplaude como eu aplaudia… Gorbachev: “Dessa vez aquele troço desaba!”. E, felizmente, desabou.

Por Reinaldo Azevedo

20/09/2013

às 14:48

“O papa Francisco é o mesmo Bergoglio que disse para defendermos o nascituro ainda que nos perseguissem e matassem”

Tenho um amigo, jornalista dos bons, que me envia uma mensagem pessoal — e só por isso não vou revelar o nome dele —  sobre a entrevista do papa, que foi, já escrevi aqui, miseravelmente distorcida num particular: a questão do aborto. Reproduzo abaixo o conteúdo de sua mensagem. Ele faz uma leitura da entrevista bem mais benigna do que a que fiz (ainda que eu reconheça a absurda distorção). É evidente que torço para ele estar certo. Esse meu amigo é um estudioso dos assuntos da Igreja; são palavras de quem conhece a doutrina. Vale a pena ler.
*
“Reinaldo, tudo bem?

Acompanhei todo o vendaval em cima da entrevista do Papa. Quando eu tinha lido, num site português, já imaginei que viria problema.

Eu estou com a impressão de que o papa está com um objetivo firme de que a Igreja deixe de ser pautada pela imprensa. Convenhamos, somos nós, os jornalistas, que ficamos o tempo inteiro perguntando a padres, bispos, ao papa, sobre aborto, casamento gay, contracepção (e eu acrescentaria o celibato sacerdotal), como se a Igreja fosse só isso. Quem tem obsessão por esse tema é a imprensa, não a Igreja, mas, muitas vezes, a Igreja acaba fazendo o jogo da imprensa. Acho que é isso que o Papa está tentando combater.

Esse trecho do aborto é a resposta a uma pergunta sobre o cuidado pastoral com as pessoas que vivem nessa situação, como gays católicos – digo os “que buscam a Deus com sinceridade”, como dizia o papa no avião, não os militantes que tentam enfiar sua convicção goela abaixo da Igreja – ou mulheres que abortaram (veja que o papa fala de uma mulher que um dia abortou “e está sinceramente arrependida”, e o que o confessor faz nesses casos?). Acho que a afirmação do papa tem de ser colocada nesse contexto: ele está falando muito mais do cuidado pastoral com os indivíduos, e não tanto da atuação pública da Igreja. E aí ele responde que, muito mais do que ficar martelando as questões do aborto e da homossexualidade em cima dessas pessoas, é preciso comunicar o amor de Cristo. Se a pessoa se arrepende sinceramente, a prioridade é que ela se sinta perdoada e amada, e não ficar remoendo o tamanho do erro que ela cometeu. Acho que a chave da questão está nesse trecho aqui:

“Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de carácter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho. A proposta evangélica deve ser mais simples, profunda, irradiante. É desta proposta que vêm depois as consequências morais.”

Ele está falando de pastoral missionária, então é claramente a questão do anúncio do Evangelho às pessoas, e o principal é anunciar o amor de Cristo pelo homem (“o anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa”, ele diz). A “plataforma moral” da Igreja, por assim dizer, é consequência disso. Só que essa plataforma precisa ser erguida em cima de uma base sólida que é criada justamente por essa convicção de que Deus existe, ama o homem, quer sua felicidade e enviou seu Filho para nos salvar. Sem isso, ela é um “castelo de cartas” sem fundamento e um mero conjunto de regras impopulares.

No começo do pontificado o papa criticou aqueles que queriam reduzir a Igreja a uma “ONG piedosa”, quando se retirava Jesus do centro. Agora, eu acho que ele está criticando aqueles que pretendem reduzir a Igreja a um “grupo de pressão moral”, como se a essência da Igreja fosse combater o aborto e o casamento gay, em vez de ser o canal pelo qual a graça de Deus se comunica ao mundo.

O papa Francisco é o mesmo Bergoglio que disse para defendermos o nascituro ainda que nos perseguissem e matassem. E, como papa, pouco antes de vir ao Brasil ele tinha mandado uma mensagem aos católicos irlandeses sobre a defesa da vida. Não acho que ele esteja pedindo para sermos omissos na arena pública, porque ele mesmo não o é. O que ele quer é que não percamos de vista que, na hora de lidar com as pessoas, elas precisam primeiro entender a bondade e a misericórdia de Deus, para serem capazes de compreender a gravidade deste ou daquele ato.

Um grande abraço”

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2013

às 15:57

O erro de Francisco: a Igreja não é ONG, e papa não é livre-pensador

Muitos me perguntaram por que escrevi tão pouco a respeito da vinda do papa ao Brasil. Preferi o silêncio e uma brincadeira que trazia uma realidade fática: “Enquanto ele estava aqui, eu estava em Roma”. É verdade. No dia do grande auê, aliás, eu me encontrava no Vaticano. Francisco concedeu uma entrevista à revista jesuíta La Civiltà Cattolica que, mais uma vez, está gerando barulho. Ele está se especializando, parece, em criar ruídos. Tentarei ler depois a íntegra com calma. Se o que se propaga mundo afora for mesmo verdade, a Igreja caminha para uma grande enrascada, da qual sairá ainda menor, por tentar atrair a simpatia daqueles que, no fundo, não entendem por que ela deva existir.

Extraio trecho de sua fala, publicada na VEJA.com:
“Não precisamos insistir nesses assuntos relacionados a aborto, casamento gay e o uso de contraceptivos. Eu não falei muito sobre essas coisas, e fui repreendido por isso. Não é necessário falar sobre isso todo o tempo (…) Os grandes líderes das pessoas de Deus, como Moisés, sempre deixaram a porta aberta para a dúvida. Você deve deixar a porta aberta para o Senhor.”

Como é que é, Santidade?

Parece-me que a Igreja “insiste” nesses assuntos porque há uma grande insistência, não é?, para que insista nesses assuntos! Está mais do que claro, a esta altura, que a instituição não rejeita, por exemplo, os fiéis homossexuais, reservando-se, aí sim, o direito de ter uma diretriz sobre o tipo de família que considera adequada à comunidade católica. Esse assunto é chato e transita na irracionalidade. Militantes gays reivindicam a igualdade e, ao mesmo tempo, leis especiais que reafirmem a sua diversidade. Não quero me estender sobre esse particular porque retira o foco de minha real restrição.

Ao misturar o aborto num balaio de temas que dizem respeito aos costumes, comete um erro monumental. No dia em que a vida humana deixar de ser, se deixar, uma questão de princípio para a instituição, então Igreja para quê? A sua essência consiste em proclamar a superioridade do humano que é divino. Sem isso, perde-se nas razões contingentes; renuncia a seu compromisso com a eternidade. A quem o papa espera atrair com essa fala?

Francisco diz ter sido repreendido. Não deve ter sido pela Guarda Suíça, não é? Num dos pouquíssimos textos que escrevi a respeito de sua visita ao Brasil, eu mesmo critiquei a sua, vamos dizer, “pegada” apenas sociológica. Acho que seu discurso está fora de foco.

A fala de Francisco atrai a atenção e a simpatia dos que acham que a Igreja Católica só passará a ser aceitável quando deixar de ser a Igreja Católica, transformando-se, quem sabe?, numa ONG. Ao contrário do que se diz, dadas as grandes religiões, o catolicismo é a que busca mais obsessivamente a “modernidade”, ajustando o seu discurso aos grupos influentes. A despeito disso, é alvo frequente da fúria antirreligiosa na imprensa ocidental, o que, é visível, não acontece com o islamismo, por exemplo. A ironia é que as vertentes que mais crescem no Islã são as de cunho fundamentalista — inclusive no Ocidente. Não obstante, os “analistas” são sempre muito cuidadosos em distinguir aquela que seria a “essência” da religião de suas supostas deformações extremistas.

Por mim, o papa estaria dedicado, nesse momento, a iniciar uma outra grande reforma: a do culto católico. Daria início agora a um esforço, que só faria fruto em décadas, para que as missas deixassem de ser uma ladainha aborrecida, levada a efeito, no mais das vezes, por sacerdotes transformados em burocratas da mesmice. E não que eu defenda que padre se confunda com treinador de ginástica ou com cantor de MPB. E isso pode ser feito — aliás, só assim pode ser feito — conservando-se a essência da doutrina.

De resto, se o papa acha que a Igreja é obcecada por esses temas, o chefe da Igreja poderia tê-los ignorado em entrevista concedida a uma revista católica. Com Francisco, por enquanto, antevejo uma Igreja tratada com mais simpatia por seus críticos habituais, mas ainda menor: não atrai os que a repudiam por princípio e corre o risco de perder os fieis que já tem. Igreja não é ONG, e papa não é um livre-pensador. Um amigo italiano me disse por que não via com simpatia o Sumo Pontífice: “Parece-me bom para cura de aldeia, não para comandar a Igreja”. No mês de julho, discordei. Em setembro, estou pensando na sua fala. 

“Esse Reinaldo Azevedo agora decidiu discordar até do papa…” Ah, mas não duvidem! Na entrevista, ele declarou uma coisa óbvia, mas que está gerando barulho: também é um pecador. Claro que é! Com isso, quer dizer que é humano e está sujeito ao erro. Respeito, como católico, a autoridade religiosa do papa. Mas não tenho respeito nenhum por seus erros.

Por Reinaldo Azevedo

11/09/2013

às 14:44

Homem que papa escolhe para nº 2 da Igreja lembra que celibato sacerdotal não é dogma. E não é mesmo!

Sei que vem uma confusão danada por aí e que vou apanhar de novo. Fazer o quê? Meu único compromisso aqui é dizer o que penso. E vou fazê-lo mais uma vez. Pietro Parolin, o novo secretário de Estado do Vaticano, que passa a ser o nª 2 da Igreja para muitos assuntos, concedeu uma entrevista ao jornal venezuelano “El Universal” no domingo e afirmou o que já sabemos e se repetiu dezenas de vezes neste blog: o celibato de padres e freiras é uma escolha que fez a Igreja, não um dogma. Como tal, pode ser revisto, sim. Ele é núncio apostólico no país até outubro, quando assume a sua função no Vaticano. Reproduzo um texto publicado aqui no dia 22 de março de 2010 sobre o tema.
*
Já escrevi duas levas de textos contra o celibato de padres da Igreja Católica. A primeira foi em outubro de 2007. Integram esse grupo posts como O desastre do celibato: São Pedro tinha sogra! e Igreja não é armário. Voltei com uma nova série em 2008, quando o padre Júlio Lancelotti foi acusado de molestamento por um rapaz com quem ele mantinha uma relação que se mostrou imprópria, ainda que fosse pia.

Vejo, agora, a Igreja sacudida por novas acusações de pedofilia na Europa e no Brasil: há um caso escabroso em Arapiraca, em Alagoas, noticiado na VEJA desta semana. Como o ódio à Igreja é grande mais por seus acertos do que por seus erros, procura-se magnificar o que já é criminoso e desastroso: tenta-se arrastar o próprio papa para o centro do furacão: seu irmão, também sacerdote, teria protegido um padre pedófilo. E isso não vai acabar tão cedo. Aproveita-se a fragilidade da Igreja para tentar pôr a igreja de joelhos — diante do laicismo, não de Deus.

A condição de casado ou celibatário, em si, não faz alguém ser mais ou menos fiel aos princípios que abraçou. Mas é inegável que a exigência do celibato acaba sendo, em muitos casos, uma solução socialmente aceitável para muitos rapazes que, de outro modo, teriam de se haver com explicações nem sempre fáceis perante a família e a comunidade. Que importa que a esmagadora maioria dos padres cumpra o seu compromisso? Bastam uns poucos para produzir o desastre.

Não sou da hierarquia católica, apenas um católico. Como tal, não só posso como devo debater o que não for matéria dogmática. Vejo com grande tristeza, melancolia, às vezes quase revolta, os ataques vis que sofre o patrimônio moral da Igreja Católica, que tenho como um dos esteios da civilização ocidental. Eu e qualquer pessoa de juízo. A reação da hierarquia às acusações tem sido frágil, quando não é pífia. Abriu as portas da Santa Madre para o marxismo, e o mal nela se insinuou e corrói seus valores — aí, sim, ferindo muitas vezes dogmas e princípios —, mas se aferra, como é o caso do celibato, a algumas escolhas que atenderam a conveniências de época e que hoje se mostram fonte de desgaste e de humilhação. O mal entrou na Igreja, e os fiéis estão saindo.

O celibato foi instituído no ano 390 — portanto, ela viveu quase quatro séculos sem ele. Sei que vou entrar numa pinima danada. Já me bastaria o ódio dos que chamo partidários da “escatologia da libertação” (que, de teologia, não tem nada). O celibato é matéria apenas de interpretação, nada mais. Torná-lo uma questão de princípio, como é a defesa da vida — e, pois, a rejeição ao aborto —, é superestimar uma (o celibato) e rebaixar outra (a defesa da vida).

Na minha Bíblia — e na sua também, leitor amigo —, São Pedro tem sogra. Sei que sou aborrecidamente lógico às vezes, mas é de se supor que tinha ou teve uma mulher:
E Jesus, entrando em casa de Pedro, viu a sogra deste acamada, e com febre. E tocou-lhe na mäo, e a febre a deixou; e levantou-se, e serviu-os”. Está em Mateus, 8:14-15.

Na Primeira Epístola a Timóteo, ninguém menos que São Paulo recomenda:
“Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar. Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento” (I Tim, 3:1-3).

Os defensores radicais do celibato pretendem dar a estas palavras um sentido diverso. Desculpem. Trata-se de forçar a barra. Na seqüência, São Paulo não deixa a menor dúvida:
Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia. Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?)” (I Tim, 3:4-5).

Não quero ser ligeiro. Sei bem que há outras passagens que endossam o celibato. Mas fica claro que se trata de uma questão de escolha, sim, não de fundamento; trata-se de uma questão puramente histórica, não de revelação.

O celibato pode ter sido útil em tempos bem mais difíceis da Igreja. A dedicação exclusiva à vida eclesiástica pode ter feito um grande bem à instituição. Mas é evidente que se tornou um malefício, um perigo mesmo, fonte permanente de desmoralização. A razão é mais do que óbvia. A maioria dos padres, é possível, vive o celibato e leva a sério o seu compromisso. Mas é claro que o sacerdócio também se tornou abrigo de sexualidades alternativas, que não têm a mesma aceitação social do padrão heterossexual. E que se note: também existem desvios de conduta de padres heterossexuais.

Poderá perguntar alguém: pudesse o padre casar, a Igreja estaria absolutamente protegida de um adúltero, por exemplo? É claro que não. Mas não tenho dúvida de que estaria muito menos cercada de escândalos. Talvez se demore mais um século até que isso venha a ser debatido, sempre no tempo da Igreja Católica, que não é este nosso, da vida civil. Mas é importante que os católicos, em especial aqueles que não aderiram a heresias marxistas, comecem a pensar que o celibato não compõe o núcleo da doutrina cristã ou um fundamento do catolicismo. Foi, num dado momento, a escolha de uma forma de organização. Que, hoje, traz mais malefícios do que benefícios.

Sou o primeiro a considerar que a Igreja não tem de ceder a todos os apelos da, vá lá, modernidade, abrindo mão de seus princípios. Só que falta provar que o celibato é um princípio. Não é.

De fato, a obrigação de um sacerdote deveria ser outra, como queria São Paulo: Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar.”
A obrigação deveria ser o casamento, não o contrário.

Compreendo — e tenho até certa atração intelectual por elas — algumas inteligências que, ao perceberem que determinado remédio resulta num malefício, decidem dobrar a dose para ver se não foi a falta de convicção que trouxe o resultado contraproducente. Há nisso um certo pessimismo místico e algum triunfalismo da derrota: “Perderemos, mas sem jamais ceder.” É, eu detesto perder. A mim me preocupa a crescente secularização da Igreja em matérias que são realmente de dogma, enquanto permanece aferrada a algumas práticas que constituem mais uma esfera de costumes.

Erro
É um erro supor que o debate sobre o fim do celibato integre o cardápio da esquerdização da Igreja. Aliás, é curioso notar que os expoentes da Teologia da Libertação no Brasil — com a provável exceção da audácia do Boff — passam longe do assunto. O celibato confere aos padres petralhas uma certa aura de santificação (e, acho eu, isso, sim, cheia a pecado) que melhor esconde a sua atuação política.

É evidente que o primeiro efeito positivo do fim do celibato seria atrair para a Igreja vocações que não estão dispostas a abrir mão da bênção que é ter uma família. E, ao longo do tempo, o sacerdócio deixaria de ser um refúgio — e os escândalos estão aí à farta — para os que pretendem usar a Igreja como resposta socialmente aceita a suas inapetências e gostos. A Igreja, aqui e no mundo, está a precisar menos de homens que imitem Cristo num particular e mais de homens que sigam as leis gerais do Cristo. Não é, infelizmente, o que se tem amiúde visto. Também essa escolha traria novos problemas para a Igreja? Sem dúvida. Acho, no entanto, que o ganho seria, ao longo do tempo, bem maior do que o prejuízo.

Disciplina
Sou o primeiro a afirmar — e, se vocês procurarem no Google, vão encontrar opiniões minhas anteriormente expressas a respeito — que ninguém é enganado ao escolher pertencer à hierarquia católica. O padre sabe que está obrigado à castidade e ao celibato. Portanto, a menos que peça desligamento, não pode fugir a essas duas práticas, entre muitas outras. Eu posso lastimar o que considero malefícios óbvios da castidade. Ele não pode. O que lhe está reservado é fazer de sua própria vida um testemunho exemplar a) de sua fé; b) de observância das leis da Igreja.

Infelizmente, as coisas não têm sido bem assim, não é mesmo? Para tristeza e estupefação dos católicos no Brasil e no mundo inteiro. Estou dizendo que, ao longo da história, o que foi uma seleção de homens para construir, com dedicação exclusiva, a Igreja de Cristo, tornou-se fonte de perturbação e de desmoralização. Para seguir “princípios”? Não! Trata-se de uma escolha feita, num dado momento e sob certas circunstâncias históricas, que hoje contamina o tecido da Igreja com um óbvio mal-estar.

Não fiz a contabilidade. Mas tendo a achar que existem na Bíblia mais recomendações em favor do casamento do que contra ele. Mas, ainda aqui, estaríamos só no terreno da literalidade. A minha pergunta é outra:o que há na mensagem espiritual de Cristo que recomende que o homem, sacerdote ou não, viva apartado da mulher? Olhe aqui: não importa a que corrente da Igreja você pertença — ou, mais amplamente, do cristianismo, e a resposta é uma só: NADA!!!

Uma Igreja que pudesse acolher um número muito maior de vocações — homens que pudessem formar família — constituiria, aí sim, a verdadeira comunidade eclesiástica. Não é preciso ser muito agudo para perceber que os padres vivem uma realidade que absolutamente os aparta da vida real. E para quê? Para que possam se dedicar mais a Deus e à Palavra? Lamento muito: isso é mentira! Boa parte deles, hoje, infelizmente, ignora até o texto bíblico. O que parece uma vida de renúncia se confunde mais com alienação. Além, claro, da permanente tentação demoníaca da “Escatologia da Libertação”.

O celibato tem de acabar não para revolucionar a Igreja. Trata-se de um movimento de “conservação”. De certo modo, corroída pela “revolução”, ela está hoje. Quantas forem as recomendações contra o casamento que os “literalistas” encontrarem, asseguro, outras poderão ser encontradas a favor dele. A Igreja deve ser um lugar onde se vive uma convicção, não onde se esconde uma condição. Igreja não é armário.

Por Reinaldo Azevedo

30/04/2013

às 18:37

Ainda Beto, o ex-padre e ex-católico – Ianomâmis praticam infanticídio, e isso parece aceitável para os politicamente corretos, mas eles acham um absurdo que a Igreja tenha seus valores. Ou: Onde estão mesmo os intolerantes?

Qual é a relação que existe entre o ex-católico e ex-padre Beto e as práticas cruéis de tribos indígenas? Já chego lá. Mas, primeiro, vamos passear um pouco.

Beto, aquele ex-padre de Bauru, também ex-católico, já que excomungado, está exercendo a sua verdadeira vocação, que como já identifiquei aqui: “Nasceu para brilhar. Nasceu para o palco, o picadeiro, o palanque, sei lá eu”. Ao comentar nesta terça a excomunhão, exagerando a própria importância, como parece ser o hábito do mau hábito, afirmou: “Eu me sinto honrado em pertencer à lista de muitas pessoas humanas que foram assassinadas e queimadas vivas por pensarem e buscarem o conhecimento. Agradeço à Diocese de Bauru”.

Ulalá! Beto é o Giordano Bruno do casamento aberto! Tempos inglórios aqueles, estes, em que um tipo como esse rapaz ganha destaque e é tratado como um pensador. Mas notem: está feliz. Já pode escrever livros, fazer programa de televisão, virar consultor sentimental, viver, na prática, a vida que acha justa em teoria. Se não estiver no Fantástico no domingo, corto os dois mindinhos e começo a falar com a língua mais presa do que o Lula. A Igreja também se livra, quando menos, de alguém, fica claro agora, que a detesta. Os que admiram as ideias de Beto continuarão a receber o pão espiritual, já que ele é assíduo das redes sociais e, segundo li na Folha, das cervejarias. O único que está apanhando mesmo é o jornalismo — na pena de alguns jornalistas e na editorialização do noticiário.

Este senhor não está sendo chamado pelo nome ou apelido. Virou “o padre que defende os homossexuais”. É uma batatada! É uma bobagem! É uma mentira! Se ele, até agora, efetivamente, fez alguma coisa em favor de homossexuais, se desconhece. A Igreja não o está excomungando porque, sei lá, ele declarou que todos são filhos de Deus, independentemente de sua sexualidade. Padres mundo afora declaram isso todos os dias. Nada disso! Foi excomungado porque recusa a concepção de família da instituição a que ele pertence e porque declarou o seu direito de questionar, mesmo pertencendo à hierarquia católica, qualquer dos dogmas em que se fundamenta a religião. Como já deixei claro aqui, até grupos de amigos têm códigos de conduta; até aquela turminha que se reúne para tomar chope nos botecos eventualmente frequentados por Beto quando era padre e católico estabelece limites. Os que destoam muito do aceitável são excluídos.

Escrevi num dos posts que a Igreja “não é um clube de livres-pensadores”, e alguns idiotas estrilaram. Ora, não é mesmo! A rigor, não existem clubes de livres-pensadores porque, se livres, já não podem formar um clube. A Igreja é uma reunião de pessoas em torno de uma doutrina. Por isso está aí há dois mil anos. Um jornal é uma reunião de pessoas em torno de uma linha editorial. Lá no jornal da CUT, por exemplo, não é permitido falar mal da CUT. Nos blogs sujos financiados por estatais, não é permitido falar bem da imprensa independente, que se financia no mercado. Na imprensa independente, que se financia no mercado, não é permitido defender a censura — ainda bem, né?, embora, convenhamos, não é raro aparecer alguém com ideias exóticas. NOTA À MARGEM — “Ah, então toda essa gente se iguala na defesa de pontos de vista particularistas, e a universalidade não está em nenhum lugar?” Nada disso! A imprensa que repudia a censura é moralmente superior à escumalha que a defende (com financiamento estatal) porque, num caso, busca-se vencer o adversário pela argumentação; no outro, pelo silêncio. À imprensa livre só é lícito interditar o pensamento que defende o fim da própria liberdade, e seu horizonte é a pluralidade. Já os que estão a serviço de um partido ou de um projeto de poder sabem que seu inimigo principal é a liberdade. Mas me desviei um tantinho. Volto ao ponto.

O tal Beto chega a ser folclórico, e é espantoso que mobilize a imprensa e atraia, é evidente, a simpatia de jornalistas. É um sintoma de rebaixamento intelectual. Que diabo andam ensinando nas faculdades por aí? Ora, o que conferia legitimidade e peso ao discurso de Beto? O fato de ele ser padre. O “ser padre” supõe a adesão a) a uma doutrina; b) a um conjunto de valores; c) a uma disciplina; d) a um comando; e) a textos de referência. Observem que é perfeitamente possível ser feliz e pensar sem ter de se subordinar a nada disso. Supõe-se que aquele que escolheu essas subordinações o fez em razão do “item f”: A FÉ.

Aí, então, se procede à pergunta óbvia: como é possível que alguém, cujo discurso é legitimado por essa cadeia de submissões ancoradas num princípio de fé, busque uma outra legitimidade que nasceria da denegação do que lhe confere identidade? De sorte que, no caso em espécie, Beto era, então, o “padre” que não aceita as regras da Igreja, o padre que não aceita a hierarquia, o padre que não aceita os dogmas? É como se um jornalista buscasse legitimar o seu trabalho por intermédio da negação de alguns dos fundamentos que definem a própria profissão. E olhem que a ética profissional lida com conceitos um pouco mais fluidos e elásticos do que a doutrina de uma religião.

Agora Beto e os índios
Não faz muito tempo, houve no Brasil um enfrentamento entre antropólogos e religiosos (se não me engano, batistas, a conferir) por causa de uma tribo ianomâmi. Esses índios telúricos, que tanto encantam o rei da Noruega, matam as crianças deficientes. Uma das práticas é enterrá-las vivas. Missionários batistas, diante do horror, houveram por bem salvar uma criança. Estabeleceu-se, então, um confronto de valores. E aí? Certa antropologia argumenta que, ora vejam, aquilo que nos parece cruel corresponde aos valores daquela cultura. Assim, a preservação daquela forma particular de civilização supõe a existência do infanticídio. Não, não é o que eu penso, mas não vou abrir aqui uma polêmica nova. Fica para outra hora.

Da mesma sorte, o pensamento politicamente correto já produziu milhares de textos sobre o suposto preconceito dos cristãos contra os islâmicos, que seriam vistos com olhos negativos no Ocidente porque, no fundo, insistiríamos em ver a sua fé segundo a nossa própria ótica. Isso revelaria uma incapacidade de ver o outro… Sempre que me deparo com coisas assim, a minha primeira resposta é esta: “Acho bom esse choque de valores; só é uma pena que não possamos levar os nossos para os países islâmicos porque, não raro, resultaria em pena de morte…”. Mas esse também é outro debate, para outra hora.

Lembro esses dois casos porque acho notável a facilidade com que o pensamento politicamente correto pode defender até o infanticídio ou a eliminação de deficientes físicos, quando é o caso de falar em nome da “preservação de uma cultura”, ou nos convida a olhar sem preconceitos o islamismo — e, por exemplo, a evidente discriminação da mulher (dos homossexuais, então…) —, mas acha inconcebível que a Igreja Católica defenda seus próprios valores não por meio da eliminação física (é evidente!) do elemento indesejado, não por meio da imposição de valores e costumes a quem, se pudesse, escolheria outro caminho. Nada disso! A Igreja Católica defende o seu credo falando àqueles que a ele aderiram por livre e espontânea vontade, no exercício da plena liberdade, na expressão mais pura do livre-arbítrio.

À diferença do que parece, os que estão atacando a Igreja Católica em razão desse episódio é que não suportam a diferença — ao menos esta diferença em particular: a dos valores católicos. Podem achar justificável o assassinato de criancinhas; podem achar justificável a imposição do véu; podem achar justificável qualquer “orientalismo” (como diria Fernando Pessoa) em nome da afirmação da identidade. Só não podem aceitar que católicos, em suma, se afirmem como… católicos, ou, não é menos verdadeiro, evangélicos como evangélicos.

A verdade está no oposto. Intolerante é Beto, que havia dado um ultimato (!?) à Igreja: ou ela mudava, ou ele não voltaria!!! Intolerantes são aqueles que acham absurdo que a Igreja Católica tenha os seus valores num mundo em que se é católico por opção. Noto, para encerrar, que nascer deficiente numa tribo ianomâmi não é uma escolha. Não ignoro que a valorização do poder de escolha também é expressão de uma cultura. É a minha. E eu a considero superior a todas as outras.

Por Reinaldo Azevedo

30/04/2013

às 6:47

Diocese de Bauru está de parabéns! Excomungou um provocador vulgar travestido de padre. Demorou demais! A Igreja precisa ser mais rápida nesses casos

A Diocese de Bauru decidiu excomungar um tipo que atendia pelo nome de “Padre Beto”. Escrevi um post sobre este senhor no sábado. Observei, então, que padre ele não era mais havia muito tempo. O senhor Roberto Francisco Daniel reivindicava o “direito” de ser sacerdote da Igreja Católica, mas cultivando uma fé privada, não aquela da instituição à qual decidiu se subordinar por livre e espontânea vontade.

A Igreja Católica não é um clube de livres-pensadores. Nenhuma religião é. Aliás, até clubes e associações recreativas têm os seus estatutos, não é? Quem decide transgredi-los de maneira contumaz, continuada, está fora. A estupidez militante de setores da imprensa o vê como alguém com coragem para contestar “os dogmas conservadores da Igreja”, o que é uma boçalidade em si. Dogmas são dogmas — nem conservadores nem progressistas. A sua existência compõe a mística de cada crença. No caso do catolicismo, como sabem, crê quem quer — e, às vezes, quem pode. Sim, conheço pessoas que adorariam ter fé, mas que não conseguem. A busca já é uma forma de oração. Quem sabe um dia…

No post que escrevi no sábado, demonstrei a tolice que é chamar uma religião de “conservadora” ou de “progressista”. Ora, o marco de referência, nesses casos, é sempre a moral laica. Mas a religião só é religião porque laicismo não é. Ainda assim, acho razoável que se confrontem valores. Tão logo assumiu o Pontificado, o agora papa emérito Joseph Ratzinger dialogou — na verdade, confrontou-se amigavelmente — com uma das coqueluches do Complexo Pucusp: o seu conterrâneo Jürgen Habermas. Vocês encontram os dois textos na Internet. Quando se anunciou o embate amistoso, muita gente preparou Coca-cola, pipoca e Confeti (POR QUE NÃO HÁ MAIS CONFETI NA REDE CINEMARK???) para ver o então papa ser esmagado. Ratzinger deu um banho no laicismo primitivo e boboca de Habermas. Volto ao ponto.

Sim, é aceitável que se confrontem valores — sempre tendo em mente o que torna Igreja a Igreja!!! Pode parecer tautológico, e é mesmo, mas precisa ser dito nestes dias. A imprensa faz as suas graças. Vamos ver: alguém pode ser, por exemplo, jornalista da Folha achando que seu Manual de Redação é uma bobagem, que as regras adotadas para o jornalismo da casa podem ser ignoradas, que o que importa mesmo é “a liberdade de expressão”, e o editor e o direitos de redação que vão se catar? E no Estadão? E na Globo? E no Globo? E na VEJA? E no seu condomínio, leitor amigo? E no seu grupo de amigos? Sim, há códigos de conduta também entre amigos. Podem não estar escritos, mas são mais poderosos do que as cânones da Igreja Católica, hehe. E no PT? Alguém pode ser petista sem acreditar na infalibilidade de Lula?

Por que a Santa Madre tem de aguentar um sujeito que acha que a instituição que o faz padre está equivocada e só fala besteira? Beto nasceu para ser estrela, como deixam claro seus vídeos no Youtube. Nasceu para brilhar. Nasceu para o palco, o picadeiro, o palanque, sei lá eu.

Reproduzo, abaixo, a íntegra do comunicado da Diocese de Bauru, que anuncia a sua excomunhão. O único defeito do texto é ter demorado mais do que devia. A Igreja tem de ser mais rápida nessas coisas. É preciso distinguir a eventual rebeldia de uma mente fervilhante, privilegiada, da pura sabotagem, especialmente quando as formulações, como é o caso, são de uma espantosa mediocridade.

E que se desfaça, desde logo, uma mentira. A estrela Beto não está sendo excomungada porque defende os gays, como se mente por aí. Está sendo excomungado porque deixou claro que não respeita a autoridade da Igreja. E ele tem todo o direito de não respeitar — só que fora da Igreja. Não terá dificuldade para se manter. Pode abrir um escritório de consulta sentimental, onde terá tempo de exercitar a sua teoria sobre os casamentos abertos, por exemplo.

Ah, sim: ele já havia pedido para se afastar da Igreja, impondo uma condição para voltar: que a Igreja mudasse. A Igreja preferiu que Beto se mudasse. Não é mais padre. Agora pode buscar o palco, o picadeiro, o palanque…

Encerro este meu texto, antes da nota da Diocese, com as mesmas palavras com que encerrei o outro, parecendo-me certa, então, a excomunhão: “Vá com Deus, Beto!”.

*

Comunicado ao povo de Deus da Diocese de Bauru

É de conhecimento público os pronunciamentos e atitudes do Reverendo Pe. Roberto Francisco Daniel que, em nome da “liberdade de expressão” traiu o compromisso de fidelidade à Igreja a qual ele jurou servir no dia de sua ordenação sacerdotal. Estes atos provocaram forte escândalo e feriram a comunhão eclesial. Sua atitude é incompatível com as obrigações do estado sacerdotal que ele deveria amar, pois foi ele quem solicitou da Igreja a Graça da Ordenação. O Bispo Diocesano com a paciência e caridade de pastor, vem tentando há muito tempo diálogo para superar e resolver de modo fraterno e cristão esta situação. Esgotadas todas as iniciativas e tendo em vista o bem do Povo de Deus, o Bispo Diocesano convocou um padre canonista perito em Direito Penal Canônico, nomeando-o como juiz instrutor para tratar essa questão e aplicar a “Lei da Igreja”, visto que o Pe. Roberto Francisco Daniel recusa qualquer diálogo e colaboração. Mesmo assim, o juiz tentou uma última vez um diálogo com o referido padre que reagiu agressivamente, na Cúria Diocesana, na qual ele recusou qualquer diálogo. Esta tentativa ocorreu na presença de 05 (cinco) membros do Conselho dos Presbíteros.

O referido padre feriu a Igreja com suas declarações consideradas graves contra os dogmas da Fé Católica, contra a moral e pela deliberada recusa de obediência ao seu pastor (obediência esta que prometera no dia de sua ordenação sacerdotal), incorrendo, portanto, no gravíssimo delito de heresia e cisma cuja pena prescrita no cânone 1364, parágrafo primeiro do Código de Direito Canônico é a excomunhão anexa a estes delitos. Nesta grave pena o referido sacerdote incorreu de livre vontade como consequência de seus atos.

A Igreja de Bauru se demonstrou Mãe Paciente quando, por diversas vezes, o chamou fraternalmente ao diálogo para a superação dessa situação por ele criada. Nenhum católico e muito menos um sacerdote pode-se valer do “direito de liberdade de expressão” para atacar a Fé, na qual foi batizado.

Uma das obrigações do Bispo Diocesano é defender a Fé, a Doutrina e a Disciplina da Igreja e, por isso, comunicamos que o padre Roberto Francisco Daniel não pode mais celebrar nenhum ato de culto divino (sacramentos e sacramentais, nem mais receber a Santíssima Eucaristia), pois está excomungado. A partir dessa decisão, o Juiz Instrutor iniciará os procedimentos para a “demissão do estado clerical, que será enviado no final para Roma, de onde deverá vir o Decreto .

Com esta declaração, a Diocese de Bauru entende colocar “um ponto final” nessa dolorosa história.

Rezemos para que o nosso Padroeiro Divino Espírito Santo, “que nos conduz”, ilumine o Pe. Roberto Francisco Daniel para que tenha a coragem da humildade em reconhecer que não é o dono da verdade e se reconcilie com a Igreja, que é “Mãe e Mestra”.

Bauru, 29 de abril de 2013.

Por especial mandado do Bispo Diocesano, assinam os representantes do Conselho Presbiteral Diocesano.

Texto publicado originalmente às 22h30 desta segunda
Por Reinaldo Azevedo

30/04/2013

às 6:45

Globo Online sugere que a Arábia Saudita caminha para a Luz, e a Igreja Católica, para as trevas. Desinforma, mas agrada à militância! Ou: Jornalistas das Organizações Globo podem fazer como “padre” Beto?

Vejam esta imagem do Globo Online da noite desta segunda:

É para lermos os dois títulos como um conjunto, embora remetam a textos distintos: “Arábia Saudita faz campanha contra violência machista; enquanto isso, Igreja excomunga em SP padre que defende amor entre bissexuais”. Vamos ver.

É uma peça de proselitismo político-ideológico. Como costuma acontecer nesses casos, busca-se a adesão, não o convencimento; trabalha-se com o choque, não com os fatos; apela-se à simplicidade máxima, não aos matizes. Em síntese: trata-se de propaganda, não de informação.

Vamos aos muitos erros. E começo pelo ex-padre. Alguém no Globo viu o que esse rapaz andou postando no YouTube quando ainda era padre? Sim, de fato, ele disse que não existe infidelidade quando marido e mulher mantêm relacionamentos extraconjugais abertos. Ele tem o direito de pensar isso, mas não como padre — porque, como padre, ele fala em nome da Igreja, e a visão da Igreja é outra. Beto também acha que maridos podem se apaixonar por outros homens, e mulheres, por outras mulheres. De novo: se todos souberem de tudo, não haveria o que reclamar. Sim, ele tem o direito de pensar isso, mas não como expressão — e um padre é isto! — da Igreja Católica. A razão é simples. Ela pensa outra coisa.

Vamos pegar o caso do Globo Online — que nem é uma Igreja, até onde se sabe. Por ali, algum jornalista pode escrever uma reportagem defendendo, deixem-me ver…, a luta armada? Isso mesmo: em nome da liberdade de expressão, um barbudinho recalcitrante qualquer mandaria ver: “A democracia já evidenciou ser uma falácia das elites para reproduzir a exclusão. Chegou a hora de tomarmos nas mãos o nosso destino. E terá de ser pela via armada”. Pode??? Ou, deixem-me ver, um jornalista da TV Globo poderia fazer, em um de seus programas, um editorial em favor do “controle social da mídia”? Que tal? Por que não?

Felizmente, e espero que nem o Globo nem a Globo mudem a orientação, nada disso é possível. Como o jornal é favorável à democracia representativa, salvo engano, jornalistas que defendam a luta armada não escrevem por ali — não em favor da luta armada ao menos. Como a Globo, felizmente, defende a liberdade de opinião —  dentro dos parâmetros do regime democrático —, não teremos de assistir, na emissora, a editoriais em favor da censura.

Mais: a Globo e o Globo têm manuais de redação e princípios de ética jornalística. Suponho que não possam ser transgredidos e ignorados por seus profissionais. Quem o fizer acabará, isto é metáfora, “excomungado”. E assim porque as Organizações Globo são reacionárias? Não! Porque são empresas privadas que se orientam segundo determinados fundamentos. Só pertence ao grupo quem quer e quem o grupo quer. Suponho que se admita por ali que a milenar Igreja Católica também tem o direito de fazer algumas exigências a quem pertence à sua hierarquia.

Erro específico
O tal Beto não foi excomungado da Igreja por defender o amor entre bissexuais. É mentira! Em reiteradas entrevistas, ele deixou claro só cumprir as orientações com as quais concorda. Aquelas de que discordava, ele ignorava — anunciando isso. Mais: o dito-cujo usava o púlpito para fazer suas pregações. Fico cá a imaginar um âncora de um dos programas da Globo a esculhambar, no ar, os princípios que orientam a empresa. Tudo em nome da “liberdade de expressão”! Seria aceitável?

Arábia Saudita
Em poucos países do mundo a desigualdade de direitos entre homens e mulheres é tão grande como na Arábia Saudita. Atenção! Isso não quer dizer que as condições de vida da mulher saudita estejam  entre as piores do mundo! O wahabismo, variante do islamismo sunita vigente no país, faz com que as mulheres sejam, por lei, tuteladas por homens: pais, maridos, irmãos. Não faz tempo, ficamos sabendo que uma mulher foi punida por dirigir um automóvel. Elas não podem sair às ruas sem a companhia de um responsável.

Muito bem. Um grupo de sauditas deu início a uma campanha — ATENÇÃO!!! — não em favor da igualdade entre homens e mulheres (isso é impensável!), mas CONTRA O ESPANCAMENTO das pobres-coitadas! Faz sentido?

Por mais que haja um esforço mundial para esconder o que está no Al Corão e mais ainda para provar que o Profeta era mais generoso com as mulheres do que o judaísmo ou o cristianismo, o fato inequívoco é que a Sura 4:34 autoriza que o marido bata na sua mulher. Se ela não for obediente, ele deve, primeiro, admoesta-la; na segunda vez, abandonar o leito; na terceira, bater.Verifique você mesmo, se quiser, numa página islâmica.

Um líder religioso sunita do Baherin, ali pertinho da Arábia Saudita, explicou que isso tem de ser feito com método, tá pessoal? Pode bater, sim, mas sob certas condições. Assim. Volto depois.

Volto ao texto do Globo
Atenção! A palavra “machista” é algo que faz sentido no mundo ocidental, na nossa cultura. Na Arábia Saudita, há não mais do que um grupo que resolveu se manifestar contra a agressão física às mulheres. Uma campanha antimachista, convenham, teria como horizonte a igualdade entre os sexos. Ou por outra: não teve inicio uma “Primavera Feminista” na Arábia Saudita. Lembro que havia punição no Brasil para senhores que exageravam no castigo físico aos escravos. E eles não eram abolicionistas.

O que a peça editorial do Globo Online sugere é que a Arábia Saudita passaria por um momento iluminista, enquanto a Igreja Católica, por uma fase obscurantista. O iluminismo, então, no país árabe estaria numa inédita campanha contra o “machismo” (ISSO É FALSO!!!), e as trevas católicas se revelariam da excomunhão de um padre favorável ao bissexualismo (FALSO TAMBÉM).

Assim, duas distorções — sobre a Igreja e sobre a Arábia Saudita — produziram um terceira: uma suposta Arábia Saudita a caminho das Luzes e uma suposta Igreja a caminho das trevas.

Texto publicado originalmente às 3h35
Por Reinaldo Azevedo

27/04/2013

às 19:03

Um padre tonto é tratado pela imprensa como se fosse um misto de Voltaire com Santo Agostinho. Ou: O sacerdote que decidiu dar um ultimato à Igreja: ou ela muda, ou ele não volta!

Ai, ai… É tanta bobagem que a gente mal sabe por onde começar. Em Bauru, há um padre chamado Roberto Francisco Daniel. Tem programa de rádio, costuma postar vídeos na Internet, usa piercing e anéis, exibe camisetas com estampas que remetem ao rock ou com a imagem de Che Guevara (o porco fedorento e assassino) e frequenta choperias. Fiquei sabendo de tudo isso lendo uma reportagem na Folha. O padre tem ideias muito próprias sobre uma porção de coisas:

- defende o amor entre pessoas do mesmo sexo;
– acha que maridos podem se apaixonar por homens, e as mulheres casadas, por mulheres. E podem viver esse amor sem problemas desde que não haja traição. Todo mundo tem de saber de tudo. A reportagem não diz, mas suponho que ele admita até a possibilidade de homens casados se apaixonarem por outras mulheres, e vice-versa… Não sei se entendem a sutileza.
– a reportagem informa que ele tem uma “legião” de seguidores. Descontraído, claro!, é conhecido como “Padre Beto”.

Se você quiser vê-lo e ouvi-lo a articular as suas, vá lá, ideias, há o vídeo abaixo. Volto em seguida.

Voltei
O primeiro parágrafo da reportagem da Folha é, como posso dizer?, teologicamente impagável. Reproduzo e comento.

“Conhecido por contestar os princípios morais conservadores da Igreja Católica, um padre de Bauru (329 km de SP) que havia sido formalmente repreendido pelo bispo local anunciou neste sábado que irá se afastar de suas funções religiosas.”

Comento
Veja vem, leitor: os “princípios morais” da Igreja Católica só podem ser considerados “conservadores” ou “progressistas” no cotejo com os princípios morais de outros grupos, certo? Caso sejam comparados com o islamismo xiita, por exemplo, serão considerados, não tenho dúvida, progressistas. Caso os dos xiitas sejam confrontados com os dos wahabitas, aí o xiismo é que vai parecer avançadinho… Imaginem só: no Irã, uma mulher pode dirigir, dar aula em universidade, participar do Parlamento. Na Arábia Saudita, nem pensar.

Assim, seria o caso de indagar: o que quer dizer “princípios morais conservadores da Igreja Católica”? Conservadores em relação a quê? Certamente a repórter tem como valor de referência a moral laica, não religiosa, agnóstica quem sabe, ateia no limite. E todos esses valores, obviamente, são legítimos para quem os cultiva.

Muito bem! O chato do Irã ou da Arábia Saudista é que não sobra espaço para ser cristão, ateu ou macumbeiro. Não é raro que a acusação de apostasia renda pena de morte. No Ocidente, não! No catolicismo, não! As pessoas são livres para escolher o que as faz felizes. E ponto final.

Quando o tal padre Beto decidiu pertencer à Igreja Católica, ser seu sacerdote, ele não ignorava os princípios que orientam a instituição. Poderia ter dito: “Ah, não, isso é conservador demais pra mim”. E que fosse fazer outra coisa, que tivesse encontrado outra religião, ora essa! Se eu convidá-lo, leitor, para tomar um café em casa e disser que só entra lá quem estiver com uma camiseta do Corinthians, você tem duas opções, e a terceira é inimaginável: a) aceitar o meu convite e comparecer com a camiseta do Corinthians; b) recusar o meu convite. Não existe a alternativa c: negar-se a envergar a camiseta do timão e ficar fazendo comício na porta da minha casa, exigindo o seu “direito” de entrar em nome da “liberdade de expressão” ou da “liberdade de camiseta”.

A Igreja é “Católica” — e isso quer dizer “universal” —, pretende ser de todos os homens, mas é evidente que é uma religião de uma parcela da humanidade apenas — algo em torno de 18%. Já há muito tempo, só se impõe e se espalha pelo convencimento, pela caridade, pelo trabalho social, tudo isso ancorado nos Evangelhos. No mundo livre, as pessoas escolhem ser católicas ou qualquer outra coisa; em muitas ditaduras, essa escolha pode resultar em punição e morte.

O tal “padre Beto”, tratado pela reportagem da Folha como um pensador iluminista — para ser Voltaire, visivelmente, faltam-lhe nariz e muita filosofia —, não é um pensador desassombrado. É só um tolo, que decidiu usar o púlpito para pregar uma religião que católica não é. E, por isso, foi repreendido pelo bispo. Como não aceitou a admoestação, decidiu se afastar.

Que bom! Melhor para a Igreja e certamente melhor para si mesmo. Ele tem o direito de pensar o que bem entender. Mas não tem o direito, não como padre, de dizer coisas como esta:

“Se refletir é um pecado, sempre fui e sempre serei um pecador. Quem disse que um dogma não pode ser discutido? Não consigo ser padre numa instituição que no momento não respeita a liberdade de expressão e reflexão”.

É um apanhado de tolices, que parece limonada gelada em dia quente e seco para a ignorância filosófica e teológica que grassa na imprensa. Quem disse que “refletir é pecado”? A Igreja? Perguntem a Santo Agostinho ou a Santo Tomás de Aquino. Beto é estúpido! Lida mal com as palavras. Se um dogma, como ele diz, pode ser discutido, então se deve admitir no seio da Igreja Católica quem não acredita na própria Igreja como obra do Cristo ou quem despreza o sacrifício da Cruz. Como? Ele não consegue ser padre de uma “instituição que não respeita a liberdade de expressão e reflexão”? Deixem-me ver se entendi: padre Beto gostaria de ser padre renegando alguns dos fundamentos que tornam Beto… um padre!

É de um cretinismo fabuloso! Isso não é padre já há muito! Tudo indica, pelo cheiro da brilhantina, que a Diocese sabe há muito tempo que ele “ora por fora”. É de se lamentar que tenha chegado tão longe se dizendo um “padre”. Outro trecho da reportagem seria de rolar de rir não fosse a expressão cruel desses dias:

“O padre não descarta a possibilidade de voltar, desde que a Igreja fique mais progressista. Afirmou que vai manter o celibato e poderá encontrar seus seguidores para reuniões de orações, sem que isso signifique a criação de uma nova religião.”

Heeeinnn? Quer dizer que ele até pode voltar desde que a Igreja Católica mude? Entenderam quem é Beto? Ele jamais mudaria, está claro, para se adequar aos valores da Igreja da qual decidiu ser sacerdote. Mas espera que a instituição mude para se adequar a ele.

Vai manter o celibato, é? Então tá… Vá com Deus, Beto! 

Por Reinaldo Azevedo

18/04/2013

às 17:11

O vídeo em que Feliciano ataca a Igreja Católica e ainda a liberdade de expressão

Mais um vídeo com uma performance do Pastor Marco Feliciano  num culto está causando rebuliço. Antes que entre no mérito, algumas considerações prévias.

O Brasil, a começar da própria imprensa, o que é espantoso, lida mal com a liberdade de expressão e com a liberdade religiosa. Estepaiz,  como diz o Apedeuta, precisa fazer um estágio na democracia americana e refletir profundamente sobre o sentido da Primeira Emenda, aquela que garante a liberdade de imprensa, a liberdade religiosa, a liberdade de expressão, o direito de apresentar petições contra o Estado e de livre associação para fins pacíficos. O Congresso está impedido de criar legislação que restrinja esses direitos. No original: “Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press; or the right of the people peaceably to assemble, and to petition the Government for a redress of grievances.” É a mais sintética e abrangente definição que conheço do que é um regime democrático. Adiante.

O vídeo abaixo está circulando na rede. O pastor — não o deputado — Marco Feliciano, num culto, diz uma porção de asneiras sobre a Igreja Católica. Depois de afirmar que conhece “o Deus de Paulo” — numa referência ao apóstolo —, chama o catolicismo de “religião morta e fajuta”. Supõe-se, claro, que a “sua” igreja — que não é sinônimo de toda a Assembleia de Deus, seja “viva e verdadeira”… Então tá. O vídeo circula freneticamente por aí e provoca indignação.

É claro que ele diz um monte de absurdos, embora seja exagero afirmar que esteja acusando os católicos de cultores de satanás ou de prostituição, como está circulando por aí. E noto: ele não entendeu Paulo, como se atrapalhou também com a geografia da Bíblia…

Marcha dos idiotas
Alguns idiotas resolveram torrar a minha paciência. Um dos mais agressivos pergunta: “E agora, papa-hóstia (o “papa-hóstia” sou eu…), vai continuar a defender o pastor Feliciano?” Resposta: Não! Porque, de fato, NUNCA defendi Feliciano politicamente, teologicamente, moralmente — escolham aí o advérbio. Meus textos estão em arquivo. No primeiro que escrevi a respeito deste senhor, afirmei que:

– discordava dele em tudo;
– jamais votaria em alguém com seu perfil (poderia votar em evangélico, sim; nele, não!);
– jamais votaria nele para presidir comissão nenhuma;
– ele, como político e com essa projeção, era uma criação do PT, que abandonou a Comissão de Direitos Humanos em favor de outras mais, como dizer?, rentáveis.

E tenho dito também, desde o primeiro dia, que as opiniões políticas ou religiosas de Feliciano, enquanto estiverem protegidas pelos direitos garantidos pela Constituição, não autorizam ninguém a ir lá meter o pé na porta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias para arrancá-lo à força. Aliás, noto: ainda que houvesse motivos para tanto, não caberia a hordas fazê-lo. O Brasil tem leis.

Sou católico, sim, e daí?
Sou católico, sim! É evidente que essas opiniões estúpidas de Feliciano, tomadas isoladamente, me ofendem. Mas reconheço o direito que ele tem de considerar a minha religião “morta e fajuta”, tanto quanto asseguro que o entendimento que ele tem de Deus é primitivo, desinformado, cretino, oportunista, circense. Pessoas como Feliciano, entre os evangélicos, são a absoluta minoria. Não vou usar a sua pregação irresponsável para generalizar: “Vejam como eles são!” Isso é mentira! Quando a marcha do orgulho gay fez chacota dos santos da Igreja Católica, foi o pastor Silas Malafaia o primeiro a reagir em defesa da instituição. E o fez com mais energia do que boa parte dos católicos que conheço.

Aliás, eis aí um caso interessante. A Constituição assegura a liberdade religiosa, como todos sabem. Será que os católicos, que são a maioria no Brasil, devem agora lutar por um PLC que puna particularmente as opiniões desairosas sobre os… católicos? Quantas leis teremos de fazer para, em tese, coibir a opinião dos idiotas? Ao escolher esse caminho, também estaremos colocando em risco a liberdade dos sensatos, uma vez que se vão criar tribunais para arbitrar sobre a palavra.

Acho as opiniões de Feliciano detestáveis também nesse particular. E daí? Se me fosse dado fazer uma sugestão, creio que as próprias lideranças evangélicas deveriam lhe recomendar que contivesse a logolatria e a egolatria. Mas isso é problema deles, não meu.

Reproduzo, uma vez mais, as palavras do economista Walter Williams em entrevista à VEJA:
“É fácil defender a liberdade de expressão quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas”.

É nisso que acredito. “E se o sujeito sair por aí pregando a violência?” Aí não pode! Tem de ser severamente punido pela lei — e já existem leis para tanto.

Assim, os bobinhos podem tirar o cavalo da chuva. Não mudei uma vírgula do que penso sobre o caso Feliciano, agora que veio à luz esse novo vídeo e que ele considera a minha religião “morta e fajuta”. Não! Eu não acho que líderes religiosos devam se manifestar dessa forma. Acho ética e moralmente detestável. Não! Eu não acho que católicos, agora, devam devolver na mesma moeda.

Eu não vou entrar nessa brincadeira perigosa de promover guerra de gays contra evangélicos, de evangélicos contra católicos, de católicos contra muçulmanos… E considero irresponsável a imprensa que compra essa pauta.

Por Reinaldo Azevedo

20/03/2013

às 15:50

Dilma finalmente se refere ao papa e à Igreja sem impertinências

Na VEJA.com:
A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quarta-feira, 
após se reunir com o papa Francisco, que o pontífice está “entusiasmado” para viajar ao Brasil para participar da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que será realizada entre os dias 23 e 28 de julho, no Rio de Janeiro. “Ele espera uma presença grande dos jovens na Jornada”, disse ela.

Segundo Dilma, Francisco lembrou que a construção do futuro depende da juventude. “O papa falou sobre a importância dos jovens na construção do futuro da humanidade e destacou que a Igreja, como uma instituição secular, tem na juventude um foco muito grande”, disse. “Também conversamos sobre a questão das drogas e do crack, o reforço de valores, princípios e símbolos para a juventude.”

Ainda segundo a presidente, em sua visita ao Brasil, o papa também deve ir a Aparecida (SP), onde está a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, considerada uma das maiores do mundo, construída em homenagem à santa cuja imagem foi encontrada por pescadores no interior de São Paulo. ““Ele disse que vai a Aparecida, depois da Jornada”, afirmou a presidente, segundo a Agência Brasil. “O papa até me lembrou que, em 2007, esteve em Aparecida, e me deu um livro com o que os bispos latino-americanos fizeram nesse ano”, contou.

Dilma se reuniu durante cerca 30 minutos com o papa na biblioteca do Palácio Apostólico e se tornou, assim, a segunda chefe de estado a se reunir com o pontífice, após Francisco se encontrar com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, na segunda-feira. A presidente contou que o papa é uma pessoa “muito carismática” e destacou seu “grande compromisso com os pobres”. 

Na véspera, Dilma havia adiantado que desejava conversar sobre pobreza e fome, assuntos sobre os quais considerou que o líder da Igreja Católica se mostrou “especialmente sensível”. Em entrevista a jornalistas em Roma, Dilma disse acreditar que, além de se preocupar com a pobreza, a Igreja deve “começar a compreender as opções diferenciadas das pessoas”, em aparente referência ao casamento homossexual e outros assuntos rechaçados pelo Vaticano.

Dilma adiou seu retorno ao Brasil em um dia para poder se reunir com o papa. Ela está em Roma desde domingo e assistiu à missa inaugural do pontificado de Francisco na manhã desta terça-feira, na Praça São Pedro, ao lado de outras 131 delegações estrangeiras. Logo após a cerimônia, a mandatária pôde saudar o pontífice ao lado de outros chefes de estado.

Por Reinaldo Azevedo

20/03/2013

às 6:51

Dilma resolve dar uma colher de chá ao papa, mas não abre mão de dizer tolices sobre a Igreja. Não comungou ao menos. Foi o lado bom!

Certo!

Depois de ter dado uma aulinha ao papa, quase uma bronca, a presidente Dilma Rousseff, devota da “deusa” Nossa Senhora de Forma Geral, resolveu recuar um tantinho. Ficou apenas nos elogios. E teve o bom senso de não comungar. Vai ver o avião não balançou muito na ida a Roma. Não que ela tenha resistido inteiramente à tentação de dizer uma bobagem… Isso não! Leiam o que informa Jami Chade, no Estadão. Volto depois.

Um dia depois de contestar o papa Francisco, a presidente Dilma Rousseff mudou de discurso, recuou, fez amplos elogios ao pontífice e à sua estratégia de lidar com a pobreza no mundo. Ontem, Dilma não comungou na missa de inauguração do pontificado do argentino, mantendo-se sentada enquanto a hóstia era distribuída aos chefes de Estado. Mas o papa aceitou um pedido de Dilma para que fosse recebida, hoje, em uma audiência privada

Na segunda-feira, a presidente havia declarado que a atenção que o argentino daria ao combate à pobreza não seria suficiente e a Igreja também deveria “compreender as opções diferenciadas” de cada pessoa, numa alusão à homossexualidade, ao aborto e a outros temas polêmicos. O presidente da Conferência Nacional dos Bispos no Brasil (CNBB), d. Raymundo Damasceno, deixou claro que “respeitar não significaria aprovar”.

Ontem, às vésperas de seu encontro privado com o papa, Dilma mudou o tom. “Acho que ele fez um sermão bastante interessante, porque afirmou um grande compromisso com os pobres”, disse. “Se espera de um representante de uma grande religião, como a religião católica, esse compromisso com os mais frágeis.”

Dilma chegou a apontar que a insistência do papa com os pobres estaria influenciada pela nova realidade da América Latina e pelos avanços sociais na região. “Acho que o fato de ele ter essa opção preferencial pelos pobres tem a ver com o nosso continente, que está passando por um processo de superação da pobreza.”
(…)

Comento
Santo Deus! Quer dizer então que a Igreja dos papas europeus não dava a menor bola para os pobres, é isso? Ah, tenham paciência! Uma das razões da expansão do cristianismo no mundo helênico foi justamente a solidariedade. A Igreja, com efeito, não é ONG, mas foi a primeira instituição a atuar como uma organização não governamental, na base do puro voluntariado.

A Igreja Católica é a instituição que reúne o maior número de entidades benemerentes do mundo. Dilma conhece alguma coisa sobre o trabalho missionário na África, por exemplo?

Confesso que prefiro aquela Dilma que fala o tecnocratês meio destrambelhado e incompreensível, e nunca por culpa dos ouvintes, simulando saber mais do que diz, a esta outra que se expressa com relativa clareza, deixando evidente que fala mais do que sabe.

Por Reinaldo Azevedo

18/03/2013

às 7:29

“Deus não se cansa de perdoar; nós é que cansamos de pedir perdão”

Os pistoleiros de Cristina Kirchner, Horacio Verbitsky em particular, bem que tentaram, mas sem sucesso: o papa Francisco caiu no gosto popular. Em menos de uma semana, uma igreja que parecia acuada – e tem mesmo muita coisa a resolver – se mostra rejuvenescida e aberta ao povo. E sem fazer concessões em matéria de doutrina, porque não se ouviu ainda nenhuma palavra da boca do papa que possa sugerir algo diferente. Ao contrário: deixou claro que o poder que a Igreja exerce é espiritual, não político. Os ditos teólogos da libertação e aquela gente que se aboletou na sacristia para fazer proselitismo ideológico estão amuados. Os oportunistas que pretendiam responder às dificuldades transformando a instituição numa mera ONG piedosa quebraram a cara. O artífice do que pode ser, vamos ver se será, uma grande virada é Bento XVI. Demonstra, assim, que continua a ser mais efetivo atuando nos bastidores do que propriamente na ribalta. Foi o grande esteio de João Paulo II, mas não tinha um cardeal Joseph Ratizinger que pudesse fazer por ele o que fez pelo outro.

Neste domingo, num movimento que já se sabe estudado, Francisco foi ao encontro da multidão, quebrando o protocolo e deixando os seguranças um pouco aturdidos. Todos queriam tocar no Santo Padre, abraçá-lo, beijá-lo. Os testemunhos sobre o cotidiano do cardeal Jorge Bergoglio em Buenos Aires indicam ser ele essa pessoa austera, mas afável. Os tais pistoleiros de Cristina – alguns disfarçados de jornalistas; outro, de acadêmicos – apontam o suposto “populismo” do novo papa. Sempre que um pau-madado daquela senhora acusa alguém de populista, até a hipocrisia se escandaliza. “Populista” por quê? O que tem o papa a oferecer em troca da “fidelidade” do povo? Espera-se que a entronização de amanhã possa reunir até 1 milhão de pessoas nas ruas.

É claro que essa imagem positiva do papa pode se desfazer se escândalos continuarem a desafiar a Igreja sem que haja uma resposta exemplar e eficaz. Mas é justamente nesse caso que confio, se me permitem, mais no “jesuíta” do que no “papa” propriamente, mais no missionário do que na autoridade puramente espiritual. Eis uma ordem que há quase 500 anos não brinca em serviço e que sabe, mais do que nenhuma outra, que a disciplina liberta.

Perdão
Neste domingo, durante o Ângelus, papa Francisco sintetizou assim a importância no perdão na vida cristã: “Deus não se cansa de perdoar; nós é que cansamos de pedir perdão”. Pode ser uma divisa de seu pontificado. A Igreja ama o pecador, não o pecado; acolhe o transgressor, não a transgressão. Em tempos um tanto brutos, de um pragmatismo às vezes xucro, não é uma concepção muito fácil de assimilar. Os que já somos mães e pais, no entanto, talvez nos aproximemos mais dessa verdade. Os pais, desde que plenamente convencidos de sua tarefa, jamais desistem de seus filhos, não é assim? Não anuímos com as suas falhas, mas os abraçamos, porque, sem o perdão, não pode haver a disciplina do amor.

Francisco reforça uma Igreja não exclui ninguém, sem, no entanto, deixar de ser o que é.

Sim, temos papa!

Por Reinaldo Azevedo

14/03/2013

às 19:15

Esse blog fica satisfeito; papa Francisco diz: “A Igreja não é uma ONG”. Vocês já leram isso!

A minha maior conquista na área religiosa até hoje, talvez os novos leitores ignorem, foi ter levado o Vaticano a mudar a tradução oficial para o português da exortação Sacramentum Caritatis.

Em viagem ao Brasil, Bento XVI disse, em italiano, no dia 13 de março de 2007 (exatos seis anos ontem), que o divórcio era “una vera piaga”. Em italiano, “piaga” significa “praga” e “chaga”. Naquele mesmo dia, ainda brinquei: “Xiii, os jornais vão traduzir por ‘verdadeira praga’”. O post está aqui. Não deu outra! No dia seguinte, lá estava estampado em letras garrafais: “Papa diz que o divórcio é uma praga”. E, claro!, houve uma penca de protestos: “Papa reacionário, papa conservador, papa sem-noção, papa velho…”

E eu insistia: “Não disse, não! Ele disse que o divórcio é uma “chaga”. Podem ver o original e o contexto”. Em latim, a língua oficial da Igreja, o papa escrevera “plaga” — sim, “praga ou chaga”. Como, em seguida, ele citava o padecimento de Cristo, restava evidente que quisera dizer “chaga, ferida”. Ou alguém já ouvir falar das “pragas de Cristo” em razão do flagelo pelo qual passou? E foi esse o entendimento nas demais línguas. No dia 14 de março de 2007, fazendo aniversário hoje, publiquei o segundo post, destacando a tradução oficial em outras línguas. Em inglês, “plaga” virara “scourge”, no sentido de “flagelo” — que provoca a chaga. Em francês, “plaie”— que quer dizer “chaga, machucado, ferida”…

Mas quê… Virei alvo da ironia de alguns tontos: “Aquele lá quer corrigir até o papa”. No extremo da imbecilidade, pontificou alguém: “Que diferença faz? O papa está errado dos dois jeitos…” Ou seja: para esse cretino, era irrelevante se o papa estava expedindo uma condenação moral ou admitindo um sofrimento no corpo da Igreja. Depois de eu apanhar um bocado, a Igreja admitiu que a tradução em português estava errada. Foi corrigida: o divórcio, também na nossa língua, passou a ser uma “chaga”. Pois bem.

Procurem no arquivo ou no Google o número de vezes que escrevi que a Igreja não é uma ONG ou um partido político. No primeiro caso, ainda destaquei, se fosse, seria a maior do mundo, assim como poderia ser a maior rede hospitalar do mundo, a maior rede educacional do mundo… Só que a Igreja, sendo tudo isso, não e nada disso.

Na homilia desta quinta, afirmou o papa Francisco: “ (…) não adianta nada sermos bispos, cardeais ou papa se não formos discípulos do Senhor (…). Se nós não professarmos Jesus Cristo, nos converteremos em uma ONG piedosa, não em uma esposa do Senhor”. É isso aí. O papa está a dizer que a igreja não é uma… ONG, coisa que os ditos “teólogos da libertação” jamais entenderam — ou fingem não entender.

Acham-me alguns doido o bastante para sustentar que o papa andou me lendo. Embora este blog conte com muitos leitores na Argentina, não tenho essa pretensão. Não sou o Lula, que acredita ser copiado por Obama, nem sou o Chávez visto por Maduro, que influenciaria o próprio Jesus Cristo. Sou apenas uma pessoa lógica e pergunto desde sempre o que faz a Igreja Católica ser a Igreja Católica. Sem o Cristo como referência central, então pra quê?

Por Reinaldo Azevedo
 

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