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Greve na USP

30/06/2010

às 17:44

FIM DA NÃO-GREVE NA USP. E GENTE QUE PROÍBE CRIANÇA DE FAZER XIXI NÃO VAI LEVAR BORRACHADA… QUE PENA!

Leiam o que informa o Estadão online. Volto em seguida:
Funcionários da Universidade de São Paulo (USP) acabam de decidir pelo fim da greve que já durava 57 dias. O Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) aceitou acordo proposto no fim desta manhã pela reitoria da universidade.

O fim da paralisação foi decidido em assembléia em frente ao prédio da reitoria, ocupado desde começo de junho. Segundo os grevistas, a greve não tem mais força e os funcionários não agüentariam novo corte de ponto dos salários.

A reitoria propôs ao Sintusp pagar, em quatro dias úteis, os salários cortados dos servidores, caso a greve fosse suspensa. As condições foram comunicadas em reunião entre as entidades, na sede do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), que durou toda a manhã.

Além de estipular uma data para o pagamento dos salários suspensos, a direção da universidade, representada na reunião por um conselho de greve, se comprometeu a reabrir as negociações para discutir o reajuste de 5% pedido pelos funcionários no dia 5 de julho. Também foi prometido, durante a reunião, que não haverá punição ao movimento da greve.

Comento
Se foi mesmo assim, como informa o Estadão online, então os revolucionários trotskistas da LER-QI (ver que bicho é esse num post da madrugada) acabaram saindo vitoriosos. Isso quer dizer que, em breve, repetirão a dose.

Nunca houve uma greve de funcionários, mas uma greve da turma ligada ao tal “movimento revolucionário”, que se impunha aos  demais servidores por meio da violência. Como se considera uma crise contra a humanidade a atuação da polícia para garantir direitos, então a bandidagem disfarçada de sindicalismo fica livre para agir. Atua na universidade segundo os métodos a que recorre o narcotráfico para se impor no morro.

É isto: a USP é o Morro do Alemão da extrema esquerda. Se ela decreta toque de recolher, então não tem creche, não tem restaurante, não tem nada… Vão receber os dias parados? Não trabalham, mas vão levar a bufunfa. Que bom! Espero que, no período, tenham usado o tempo livre  para fazer alguns bicos, levando uns trocados a mais para a Esmeralda…

Mais uma vez, o meu método de resolução de conflito — a borrachada constitucional, desferida pela democracia de farda — não foi posta em prática. No ano que vem, ou antes, eles estarão de volta. E a USP continuará refém desses caras. E eles continuarão a proibir as criancinhas de fazer xixi porque estão firmes no propósito de pôr fim ao capitalismo.

Por Reinaldo Azevedo

30/06/2010

às 6:25

ENQUANTO FUNCIONÁRIOS DA USP NÃO DÃO O GOLPE FINAL NO CAPITALISMO, IMPEDEM CRIANÇAS DE FAZER XIXI. DO QUE ELES PRECISAM? DE BORRACHADA DEMOCRÁTICA!

A Universidade de São Paulo é verdadeiramente assombrada por um bando de arruaceiros que comanda o Sintusp, o sindicato dos servidores da USP. Vocês sabem o tratamento que dispenso aqui a esse tipo de gente. Já postei vídeos exibindo os seus métodos. Muito bem: ao longo desses quatro anos (tempo do blog), tenho sido voz quase isolada ao condenar a prática criminosa desses caras. Alguns nomões do colunismo fizeram o contrário. Tentaram atribuir ao governo de São Paulo a responsabilidade última pela ação dos “companheiros revolucionários”. Como esquecer a inesquecível reportagem de Laura Capriglione em que ela classificava de “reacionária” uma manifestação de estudantes da USP contra a ação de um minoria de alunos e funcionários piqueteiros que tentavam impedir a maioria de estudar?

Mais uma vez, uma extrema minoria dos funcionários está em greve. Ontem, informava a Folha:
Funcionários grevistas da USP bloquearam ontem as portas da creche central da universidade, onde estudam 180 filhos de servidores, de professores e de estudantes.
O acesso ao prédio foi negado até para uma menina de quatro anos que queria usar o banheiro. Os funcionários, em greve desde 5 de maio, decidiram fechar as entradas da creche porque, segundo eles, a USP continua registrando faltas para os grevistas -o que a reitoria não confirma.
No inicio do mês, eles invadiram a reitoria, também em protesto contra o corte de salários.
O piquete começou por volta das 6h, quando cerca de 20 funcionários grevistas bloquearam as portas do prédio com bancos e faixas. Alguns estudantes também participaram da ação.
Por volta das 7h, funcionários da creche que não estão em greve começaram a chegar, mas foram impedidos de entrar. Logo depois, foi a vez dos pais. Com as crianças no colo, tentavam convencer os grevistas a deixá-los passar.
“Em vez de fazerem isso em prédios grandes, que causam impacto, eles atingem as crianças, que são as mais frágeis”, dizia Teresa Mansur, mulher de um professor da Faculdade de Química. Segurando as mãos da filha de quatro anos, ela tentava entrar para que a menina usasse o banheiro. Os manifestantes disseram para ela levar a filha a outro prédio.
Gerardo Kuntschik, professor da ECA (Escola de Comunicações e Artes), também discutiu com os piqueteiros. “Disseram que eu sou covarde, que estou me escondendo atrás do meu filho”, diz.

É isso aí!
Todas as vezes — sem uma miserável exceção — em que o governo tentou coibir ações como essa, que se confundem com o crime, recebeu paulada da imprensa politicamente correta. E aquela gente foi ficando viciada. Há alguns dias, o portal Terra trazia uma reportagem: “Cassetetes da polícia doem menos que fome do filho”. A fala é de Claudionor Brandão, diretor do sindicato, figura notória por sua truculência. Já foi demitido da universidade e “reempossado” pela Justiça.

Não pensem que o Sintusp se dedica apenas à greve na USP. Não!!! Eles também têm uma teoria revolucionária — isso mesmo!!! — que revelei aqui para vocês no dia 12 de junho do ano passado.Vale a pena reler o texto. Esses patriotas chegaram a contar com o apoio às vezes explícito de setores da imprensa paulista. Enquanto eles não dão o golpe final no capitalismo, impedem crianças de fazer xixi. Ao texto do ano passado. Vale a pena revisitá-lo. Volto para encerrar.
*
Prepare-se para entrar no Parque dos Dinossauros. Você já ouviu falar de LER-QI? Não se trata de nenhuma doença, como o nome pode sugerir. Não é a famosa Lesão de Esforço Repetitivo, embora a coisa remeta, vamos dizer, a gente seqüelada – seqüela ideológica. A LER-QI é a poderosa (???) Liga Estratégia Revolucionária – Quarta Internacional. Para quem nunca foi do ramo: os partidos socialistas e comunistas formaram organizações mundiais (já que são “internacionalistas”): já houve três “Internacionais”. A terceira foi a Internacional Comunista, que ficou refém do ditador soviético Josef Stálin. Em 1938, Leon Trotsky, banido por Stálin da URSS, tentou criar a Quarta Internacional. Seu objetivo era combater tanto o capitalismo quanto o stalinismo, recuperando, dizia, as verdadeiras raízes do socialismo. Bem, a Quarta Internacional nunca chegou a existir. O socialismo acabou, e ainda há gente tentando criar a… Quarta Internacional!!! É mais ou menos como você criar um grupo, leitor, que defenda que é Sol que gira em torno da Terra. Identificam-se com a Quarta Internacional grupos trotskistas ultra-radicais, minoritários, que vivem às turras com outros esquerdistas. Mergulhar nas suas querelas corresponde a penetrar num universo paralelo de extremismo e irrelevância.

Por que isso? Porque, acreditem, o Sintusp, o sindicato dos funcionários da USP, é comandado pela… LER-QI. Na verdade, é a único braço da turma no Brasil. Sim, Claudionor Brandão – o tal funcionário demitido e que lidera as ações do grupelho que hoje assombra a universidade, infernizando a vida de alunos, professores e funcionários – é a estrela do grupo. A página dos valentes está na Internet, cantando, como não poderia deixar de ser, as glórias de… Brandão. Se quiser visitar, clique aqui. Se vocês tiverem alguma paciência, verão que eles se dizem presentes no Chile, Argentina, México, Venezuela, Costa Rica, Bolívia… Na Venezuela, colocam-se à esquerda do Beiçola de Caracas… No Brasil, um de seus adversários, calculem, é o PSOL… Sim, o PSOL é muito moderado pra eles.

Sabem o que isso significa? Que aqueles 300 baderneiros que comandam a bagunça na USP estão numa espécie de concorrência interna para saber quem é mais radical: a LER-QI disputa com o PSOL e com o PSTU o privilégio de comandar a loucura minoritária. Até o PT achou que era um pouco demais – ou de menos -, e resolveu ficar na moita. Dalmo de Abreu Dallari apoiando a intervenção da Polícia, na forma da lei, é sinal de que “O Partido” avalia que a coisa caminha para a loucura isolacionista.

Assim, continuam sob a influência da LER-QI os baderneiros, claro!, alguns professores do radicalismo-chique (ver próximo post) e a imprensa paulista. Isto mesmo: os cadernos de Cidades dos dois grandes jornais de São Paulo estão hoje sendo pautados pela LER-QI, o grupo de Brandão. A imprensa que eles chamam “burguesa” come hoje na mão da Liga Estratégica Revolucionária. No Brasil, eles devem ter, sei lá, meia-dúzia de adeptos. No jornalismo, um monte (embora os jornalistas possam não saber disso).

Laura Capriglione para musa da LER-QI!!!

Voltei e encerro
Se eu tenho um jeito para tirá-los de lá? Ah, sim: com borrachada! A borrachada desferida pela democracia de farda — a polícia — é um dos instrumentos de persuasão da democracia. É que os governantes ficam com receio da reação do jornalismo progressista. Escrevo assim porque sou muito reacionário, claro! Os progressistas querem negociar  o fim do capitalismo com os utopistas da LER-QI.

Por Reinaldo Azevedo

28/06/2009

às 8:27

USP: A greve que foi sem nunca ter sido

Leia editorial no Estadão de hoje:
*
O fim do semestre e início das férias escolares, na próxima semana, deram à minoria de professores, servidores e alunos que está por trás da greve da Universidade de São Paulo (USP) o pretexto de que precisavam para justificar o fracasso de seu movimento. Os grevistas alegam que o recesso de julho esvaziará o protesto. Na realidade, a greve esteve desde o começo esvaziada, como ficou evidenciado mais uma vez pelo número de pessoas que atenderam à convocação das lideranças sindicais para comparecer a um ato programado na última quinta-feira, em frente à Assembleia Legislativa.

Do total de 5 mil professores, 15 mil funcionários e 86 mil alunos da instituição, só 20 compareceram ao comício. Algo semelhante ocorreu no campus da Cidade Universitária, onde faltam grevistas até para fazer os tradicionais piquetes em frente ao prédio da Reitoria. O maior dos atos de protesto marcados pelo Diretório Central dos Estudantes e pelos sindicatos de docentes e funcionários – uma passeata entre os prédios da Faculdade de Economia e Administração (FEA) e da Escola Politécnica – só reuniu 200 pessoas.

Apesar do espaço desproporcional que lhe foi dado pela imprensa, por causa da presença da Polícia Militar (PM) na Cidade Universitária, a greve em momento algum paralisou a USP. Até no dia e hora em que o professor Antonio Candido deu uma “aula” na qual propôs aos grevistas que “atuem e exagerem”, tanto na capital como no interior as dezenas de unidades da instituição funcionaram normalmente. Na biblioteca da Faculdade de Medicina, por exemplo, a lotação estava quase esgotada. Enquanto na frente da Reitoria o líder dos servidores classificava a greve como “arma histórica dos trabalhadores”, os alunos do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, do Instituto de Física, do Instituto de Matemática e Estatística, do Instituto de Química, do Instituto de Ciências Biomédicas, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas e da FEA assistiam às aulas e faziam provas – como mostrou reportagem do Estado publicada no dia seguinte.

Desde o início do movimento, fora do campus da Cidade Universitária, o calendário de defesas de dissertação de mestrado e tese de doutorado da Faculdade de Direito foi mantido. Nos campi de Ribeirão Preto, Pirassununga e Bauru, as atividades acadêmicas transcorreram normalmente. A rigor, só nos bandejões e creches, na Faculdade de Educação e em alguns departamentos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) é que alunos, professores e servidores cruzaram os braços.

Isso mostra a falta de legitimidade das entidades sindicais que, vinculadas a facções radicais, tentam se apresentar como porta-vozes da “comunidade uspiana” e defensores de teses libertárias. Além das reivindicações salariais, essa minoria exige a “democratização” da USP – uma proposta absurda, que diminuiria o poder dos professores titulares, permitindo a grupos sem representatividade influir nos destinos da maior instituição de ensino superior da América Latina. “Democratizar a Universidade” é apenas um pretexto para substituir o princípio do mérito pelo “participacionismo” e pelo corporativismo.

Basta ver, nesse sentido, as outras reivindicações dos grevistas. Eles querem a efetivação de servidores contratados sem concurso. E, sob a justificativa de defender o “ensino presencial”, opõem-se à aprovação do projeto de criação da Universidade Virtual do Estado de São Paulo, cuja finalidade é oferecer formação superior aos segmentos mais desfavorecidos da população, por meio de cursos a distância. Além disso, sem trabalhar há 50 dias, os grevistas já cogitam de incluir na pauta de “negociações” com a Reitoria o pagamento pelos dias não trabalhados, em troca das desmoralizadas “compensações”.

Ao analisar a greve em artigo publicado no Estado, um dos mais respeitados professores da USP, José Arthur Giannotti, depois de criticar as “arruaças intimidatórias” da minoria grevista, lembrou uma lição que não pode ser esquecida. A “voz libertária dos porta-bandeiras” que pedem a democratização da Universidade e criticam a presença da PM para assegurar a ordem pública na Cidade Universitária “está associada à violência dos protofascistas”, afirmou.

Por Reinaldo Azevedo

25/06/2009

às 16:09

Mais sobre o “Paradoxo da Praça”

Estudantes protestam contra grevismo na USP

Estudantes protestam contra grevismo na USP

O protesto contra o grevismo na USP reuniu cerca de 200 estudantes. Está de bom tamanho. O tempo também não ajudou: chuva, frio etc. “Ah, os filhinhos de papai não querem enfrentar as intempéries,  né?”  Bobagem! Não há diferença de classe social entre os que querem estudar e os que não querem. A diferença é só, digamos assim, de horizonte utópico. Um grupo, o dos não-grevistas, pertencente à esmagadora maioria dos 78 mil alunos que seguem estudando, entende que uma boa maneira de mudar o Brasil é cumprindo a sua tarefa — estudar —, lutando, eventualmente, para reformar a universidade. O outro grupo é formado pelos extremistas que usam a USP como mero pretexto.  O que eles querem? Bem, suas lideranças se dizem “marxista-revolucionárias”. O que posso informar é o que gente dessa espécie quis e fez quando lhe foi dado o poder: 70 milhões de mortos na China, 35 milhões na URSS, 3 milhões no Camboja, 100 mil em Cuba. No Brasil, a contrapelo da história, esses dinossauros podem não matar uma mosca. Mas atrapalham a vida de quem estuda e trabalha.

Não esperava, como escrevi aqui, mais do que isso. Estamos diante, como já expliquei, do chamado “Paradoxo da Praça”. Os baderneiros, que também marcaram manifestação para hoje, certamente reunirão mais gente, o que dará a falsa impressão de que são maioria. Ocorre que a minoria costuma ir quase toda à rua porque julga ter uma “causa”. A maioria tende a se acomodar porque, de fato, não sente o statu quo ameaçado. É assim no mundo inteiro. Também nas manifestações que não são especialmente políticas.

Marque uma marcha do “Orgulho Heterossexual”, e é provável que se reúnam menos do que os 200 da USP. Além de haver uma ponta — ou muito — de ridículo da coisa, tal condição não é, de modo nenhum, ameaçada pela, sei lá eu, “homossexualização” da cultura. Embora exista esse esforço, não passa de espuma. Ademais, creio que a maioria dos heterossexuais considere justo que não haja discriminação civil contra homossexuais. E pronto: ou ficam em casa ou vão espiar a marcha gay. Se os católicos, mais de 70% dos brasileiros, decidirem “marchar com Jesus”, talvez não reúnam nem metade do que reúnem os evangélicos — pouco mais de 20%, dizem, divididos em dezenas de denominações. Também nesse caso, o fato de ser “minoria” açula o desejo de ocupar a praça, de se fazer visível.

Notem: estou apenas dando exemplos outros, não-virulentos, do “Paradoxo da Praça”. Evidentemente, gays ou evangélicos nas ruas não ameaçam os direitos de heterossexuais ou de católicos. Não se trata, pois, de uma comparação com o que acontece na USP, onde uma minoria se impõe de modo ditatorial e ilegal à esmagadora maioria.

Finalmente, descaracterizo aqui uma tolice, em que os greveiros reiteram em comentários boçais enviados, e jamais publicados, ao blog: “Quem não vai a uma reunião de condomínio não pode reclamar depois das decisões tomadas”. Opa! Claro que pode! Se os presentes tomarem decisões contrárias ao estatuto, podem, sim. Se os presentes decidirem mudar o estatuto, tornando-o incompatível com a Constituição e com as leis que regem a sociedade, podem, sim.

Uma banana, macaco! Mesmo os 78 mil se negando a participar das pantomimas que alguns chamam “assembléias”, eles têm todo o direito de rechaçar a ação dos extremistas.  Porque essa gente não viola só o estatuto da USP. Viola também as leis. Viola a Constituição. E o Ministério Público, creio, só não agiu até agora porque, nesse caso, parece mais próximo da minoria do que da maioria; mais próximo de quem transgride a lei do que de quem a respeita,

Por Reinaldo Azevedo

25/06/2009

às 5:45

MAIORIAS E MINORIAS: O PARADOXO DA PRAÇA

Quando eu recomeçar o trabalho nesta quinta, já terá havido na USP a manifestação de estudantes contrários à greve, marcada para hoje, às 12h30, em frente à FEA. Quantos terão participado? Não tenho a menor idéia. O importante é que aqueles que se opõem à barbárie em curso na universidade comecem a se manifestar, seja participando de protestos — fora do horário normal de aula, claro! —, seja recorrendo, sim, aos meios virtuais para expressar a sua indignação, tão legítimos quanto quaisquer outros.

Movimentos contrários à baderna são raros e costumam, mesmo, mobilizar pouca gente, expressando o que chamo de “Paradoxo da Praça”. A minoria extremista, com sua violência particularista, costuma juntar mais gente na praça do que a maioria moderada. De sorte que mais aparecem os que menos representam — e a minoria fala como se maioria fosse. Por que é assim?

Porque essas minorias extremistas são, por assim dizer, profissionalizadas. O termo é adequado: são profissionais da causa política vestindo a fantasia de estudante, de professor, de funcionário da USP. Sua agenda, como sabemos, não é melhorar a universidade coisa nenhuma. Isto, eles próprios já confessaram: uns deliram com a revolução; outros estão apenas fazendo o joguinho político-eleitoral vagabundo de sempre. A maioria ordeira não se sente representada pelos canais sindicais de mobilização.

Mais ainda: entendem, NO QUE ESTÃO ABSOLUTAMENTE CORRETAS, que as autoridades — o Estado, por intermédio de suas instituições e de seus Poderes — devem tomar providências quando seus direitos estão sendo agravados. E é uma violação de direitos o que se vê na USP. Pergunto:
- até quando o restaurante universitário permanecerá fechado, prejudicando a vida de milhares de estudantes?;
- até quando o serviço de transporte continuará suspenso, criando dificuldades desnecessárias aos alunos e funcionários?;
- até quando os estudantes das faculdades impedidas de ministrar seus cursos continuarão a ter prejudicado o seu desempenho acadêmico?

Não é possível que a universidade, o governo do estado, a Justiça e o Ministério Público, cada uma dessas instâncias com uma franja de atuação que os compromete com a USP, continuem inermes, assistindo, dia após dia, a imposição da vontade de uma minoria extremista à maioria da comunidade uspiana, que não concorda com os métodos dos baderneiros.

Não é possível que um movimento sindical imponha indefinidamente prejuízo aos estudantes e à própria instituição sem que tenha de arcar com o custo de suas escolhas. Isso não é democracia, mas ditadura de minorias.

Volto ao ponto
Quantos estudantes terão participado? Não sei. Pouco importa a quantidade, o importante é começar a exigir providências do Poder Público e se preparar para enfrentar as tentativas de desqualificação, a que certos setores da imprensa darão guarida. Ontem, chegaram-me ecos da ação de sabotadores, que prometiam participar do protesto com palavras de ordem que o caracterizassem como “coisa de fascistas”. Mandaram-me trechos um tanto assustadores de páginas na Internet de apoio aos baderneiros.

Inexiste movimento organizado a favor da normalidade, como todos sabemos. Aqui e em qualquer país do mundo. Reitero: as pessoas esperam que o estado tributador, que tem o monopólio do uso legítimo da força, garanta o império da lei. Mas, como estamos vendo, as coisas nem sempre funcionam como deveriam. O Brasil nos obriga a lutar por aquilo que já temos garantido.

10? 20? 30? 50? 100? Pouco importa! São mais de 78 mil a favor da universidade. Que o Poder Público acorde para isso.

Por Reinaldo Azevedo

24/06/2009

às 19:11

USP – A baderna e a esclerose do sistema

Deveria ter publicado antes trecho deste excelente artigo de José Arhtur Giannotti, professor emérito de filosofia da FFLCH. Saiu no Estadão de segunda. Leiam:

*

Estou aposentado há mais de 20 anos e, de vez em quando, volto a dar aulas, quando possível para o primeiro ano. É o que fiz neste semestre. Como de costume, no mês de maio começou a greve. Na primeira semana, meu curso foi interrompido por outros alunos, mas, com a anuência dos presentes, metade da aula foi dedicada à análise das reivindicações do movimento. Na segunda semana, depois do conflito com a polícia e da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp) ter decretado a greve, deixei de dar aula, o tempo sendo aproveitado para que os estudantes fizessem uma análise política da nova situação. Na terceira semana, contrariando a decisão do sindicado dos professores, do qual estou desligado há muito tempo, fui dar minha aula. Logo no início a sala foi invadida por grevistas para, como eles mesmos disseram, inviabilizar nossos trabalhos. Em 1969, foram os militares que me caçaram a palavra. Em 2009, um bando de alunos exaltados.

Explicara que retomava o curso em protesto contra uma greve que se tornou selvagem, prejudicando sobretudo os alunos. Sou favorável a greves, considero natural que sejam decretadas quando negociações chegam a um impasse. Mas, quando elas se tornam selvagens, quando os representantes perdem o contato com os representados, quando a minoria oprime a maioria, elas devem ser postas em causa. Esta greve por tempo indeterminado, que contraria os ideais e os interesses da maior parte dos universitários, precisa ser denunciada. Uma declaração de greve é sempre uma aposta das lideranças. Quando o movimento chega a um impasse e elas não têm a capacidade de recuar, perdem legitimidade.

É preciso considerar que as greves nos setores públicos se processam quase sem ônus para os grevistas. Professores e funcionários estão seguros de que seus salários serão recebidos, farão de conta que vão repor as tarefas adiadas, por isso as férias forçadas do primeiro semestre costumam se prolongar indefinidamente. Por sua vez, as lideranças estudantis têm se mostrado indiferentes à sua formação intelectual; basta ler seus documentos para constatar sua enorme ignorância, mistura de marxismo vulgar com palavras de ordem vazias.

Quando a greve se isola, aqueles que discordam de seu rumo têm o direito de voltar ao trabalho. Foi o que fiz. Por sua vez, os grevistas têm todo o direito de protestar, de pressionar, mas não têm o direito de usar a violência para impedir que outros não se comportem como projetam. Já que minha aula foi violentamente interrompida, só me resta encerrar o Curso de Introdução à Filosofia programado para este semestre.

Esta greve selvagem atinge apenas uma parte da universidade. Como de costume, os grevistas se encontram sobretudo nas faculdades de sempre – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Escola de Comunicações e Artes, (ECA) e a Faculdade de Educação – já que as outras unidades trabalham normalmente. Isso acontece porque essas faculdades estão na ponta do conhecimento, porque possuem uma visão mais ampla dos problemas atuais das universidades? Não é o que constato. Pelo contrário, as atuais lideranças grevistas continuam pensando e agindo em termos dos anos 60, como se a sociedade brasileira fosse a mesma, como se o sistema capitalista, em crise, não estivesse se reformulando, como se não estivéssemos sob um Estado de Direito, cujas mazelas reconhecemos, mas cuja vigência sustentamos.
Para ler íntegra, clique aqui

Por Reinaldo Azevedo

24/06/2009

às 15:56

Grevista bravinho

De um grevista da USP:
Se eles são a maioria [os não-grevistas], por que não foram às assembléias e votaram contra a greve?
Que estudo vc fez para dizer que quem apóia a greve não estuda, e quem não apóia estuda?

Respondo
- Não foram porque não reconhecem assembléias manipuladas por profissionais do grevismo como instância de representação da universidade. Gente que estuda e trabalha tem mais o que fazer. Mas você tem alguma dúvida de que 78 mil seja um número maior do que mil?

- Apresentem-me os nomes dos líderes da greve e sua ficha de desempenho escolar. Aí conversaremos. Mas eu quero os líderes reais, não os de fachada.

Por Reinaldo Azevedo

24/06/2009

às 13:05

USP – O PROTESTO DE ESTUDANTES QUE ESTUDAM

Amanhã, às 12h30, está marcado um ato de alunos da USP contrários à greve e aos métodos de intimidação empregados pela minoria de extremistas que inferniza a universidade, com a paralisação de serviços importantes para a vida do conjunto dos estudantes, como restaurante e transporte, e, claro, com a interrupção das aulas na FFLCH, Educação, ECA e Arquitetura. Os alunos devem se encontrar em frente à FEA e caminhar até a Praça do Relógio.

Não se deve esperar um movimento com milhares de estudantes — infelizmente. As razões são muitas. Gente que entra na universidade para estudar não tem muita prática nesse negócio de “se mobilizar”. Fosse assim, imaginem se os tontons-maCUTs conseguiriam se impor pela força, como fazem. Seria, assim, um placar de mais de 78 mil contra mil, se tanto…

Quem não é profissional da baderna tem dificuldade até de arranjar a infraestrutura para esse tipo de evento, como aparelho de som, palanquinho etc. E, se posso dar uma dica, lembro: não descuidem, pouco importa o número de manifestantes, da segurança. Lembrem-se de que aqueles que não têm razão contam com um único aliado: a intimidação. O negócio é não ceder às provocações dos tontons-maCUTs.

Havendo imprensa presente, basta uma declaração: “Somos a maioria e respeitamos o direito da minoria; só queremos que a minoria respeite o nosso”. Também nesse caso, é preciso tomar cuidado com o agente provocador, gente que vai lá com a matéria já escrita, só esperando uma fala ou outra mais duras para caracterizar os não-grevistas como “reacionários”, protegendo, assim, aqueles que, de fato, se comportam como fascistas.

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2009

às 14:55

O ATO ANTIGREVE NA USP. OU: “COTIDIANO”, DA FOLHA, VIRA PORTA-VOZ DA LER-QI E DA LBI

Alunos contrários à greve da USP, que marcaram uma manifestação para a próxima quinta-feira, ao meio-dia, já estão sendo hostilizados na imprensa, em especial no caderno Cotidiano, da Folha. Ele se tornou uma espécie de porta-voz da LER-QI (Liga Estratégica Revolucionária) e da LBI (Liga Bolchevique Revolucionária). No domingo, Laura Capriglione demonstrou, por vias um tanto oblíquas, como eles pretendem melhorar a USP… É uma piada! Já volto ao ponto. Agora, é preciso deixar claro:

ATO CONTRA A GREVE DA USP
QUANDO – Quinta, dia 25
HORA – 12h30
ONDE – Em frente à FEA, com caminhada até a Praça do Relógio
RECOMENDAÇÃO – Ser firme, mas não ceder à provocação dos baderneiros

Destrinchando a notícia
Os inúteis cursos de jornalismo, com as exceções de sempre, costumam infernizar a vida dos estudantes com a acusação de que a grande imprensa, como é mesmo?, é “burguesa” e só “reflete a vontade da classe dominante”. Sei que a formulação fede a cocô dos dinossauros. Bem, é o que são; é o que produzem — e as duas coisas explicam o odor que exalam. Adiante.

Tio Rei dá aqui uma destrinchada numa notícia que está hoje no caderno Cotidiano, da Folha, evidencia a infiltração do discurso grevista na editoria, prova por que se trata de um fato, não de um juízo de valor, e demonstra, então, que aquele papo das escolas é furado. Ao contrário: a imprensa brasileira costuma vender como consenso as teses da esquerda. Aos detalhes. Matéria do Cotidiano em vermelho; eu em azul.

Nos últimos dias, um movimento antigreve na USP deixou de ser virtual (na internet) e passou a promover atos na Cidade Universitária. Já foram feitos dois protestos e outro está marcado para quinta.
É o trecho, digamos, não-intencional da pregação grevista. Vale dizer: até o que há de inocente é comprometido. O “movimento antigreve” jamais foi só virtual — existindo apenas na rede. Ele é real. Perto de 78 mil alunos assistem normalmente às aulas. E a maioria dos que estão parados em três ou quatro unidades é só vítima da intimidação.

Entre estudantes descontentes com sucessivas greves, há também dois grupos virtuais organizados, que participam ou organizam a mobilização.
Aqui se registra apenas um erro de lógica formal. Se o lead diz que o movimento “deixou de ser virtual”, não faz sentido o parágrafo seguinte informar que “há também” dois grupos virtuais. Agora vem a preparação para a distorção consciente, organizada, determinada.

O maior, denominado CDIE (Comissão para Defesa dos Interesses Estudantis da USP), existe desde abril deste ano e conta com 665 membros na comunidade do Orkut. Ele é responsável por um abaixo-assinado contra a greve, que já reúne 3.000 assinaturas, segundo os organizadores.
Observem que nada se diz sobre esse grupo maior: o que pensa?, o que quer?, quais são seus valores? Nada! Ele apenas é um aperitivo para o que vem a seguir.

O mais recente, denominado Flacusp (Forças de Libertação Anticomunistas da USP), foi criado no Orkut no dia 8 e tem 107 membros virtuais “selecionados”, afirma Leandro, 23, um dos participantes (ele não quis dar o sobrenome nem dizer a qual curso pertence).
Leandro classifica os atos do movimento grevista como “balbúrdia” e diz preferir a ditadura. “A ditadura impõe a ordem, não deixa essa zona acontecer.”
Notaram? Nem mesmo é possível saber se o tal Leandro é mesmo aluno da USP. Mas digamos que seja… Será ele um aluno típico? Mais ainda: o tal Flacusp representa os que se opõem à greve? A narrativa jornalística têm em comum com a narrativa literária — E ISTO NÃO SE COSTUMA ENSINAR EM CURSOS DE JORNALISMO, NÃO COM ESTA CLAREZA — a escolha de personagens típicas, que representam um grupo social, um certo padrão de comportamento, uma visão de mundo. E aqui há algo curioso.

No caso da literatura, que é ficção (e, portanto, uma mentira), recorre-se aos tipos para conseguir expressar, muitas vezes, verdades sociais ocultas. No caso de certo jornalismo, pode-se recorrer à verdade — uma personagem que, de fato, existe — para contar uma mentira. É o que faz este texto do caderno Cotidiano.

Ora, está na cara a intenção de caracterizar os críticos da greve como golpistas, que preferem uma ditadura militar à democracia.
- Será Leandro, uspiano ou não, representativo dos que se opõem à greve? Se não é, por que está ali; se está ali, isso quer dizer o quê?;
- Caracterizado como alguém favorável à truculência, ele é representativo de tal grupo?;
- Quem é que tem optado por ações violentas na USP? Sigamos.

O jovem era um dos participantes de um protesto antigreve que ocorreu na última sexta de manhã na USP e reuniu 80 estudantes. Na mesma noite, outra manifestação contra a paralisação reuniu cerca de 300 pessoas. Nos dois protestos, houve confrontos com grevistas, xingamentos e discussão. Antigrevistas afirmam ter sido vítimas de chutes e socos.
Viram só? O “anticomunista”, que prefere a ditadura, participou de um dos atos contra a greve. Nem vou perguntar se a reportagem, de fato, constatou tal participação. Quanto às agressões, é incorreto dizer que os “antigrevistas afirmam ter sido vítimas de chutes e socos”. Eles FORAM vítimas de chutes e socos. Publiquei aqui o testemunho de alunos agredidos. E alunos com nome, sobrenome e curso especificados.

Nos protestos, estudantes contra a greve pediam a volta do “bandejão” e do “ônibus circular”. Os grevistas chamavam o grupo de “fascista”. O próximo ato antigreve será quinta, às 12h30, em frente à FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade).
E, acima, vai a chave de ouro do texto: “Os grevistas chamam o grupo de fascista”. É… De fato, o texto busca caracterizar como “fascistas” os que se opõem à greve à medida que, ao selecionar uma fala para representá-los, escolhe justamente quem se diz favorável a uma ditadura militar.

Há ainda outro viés hostil, porém mais sutil, aos que se opõem à greve: suas reivindicações seriam coisas banais, bestas (restaurante, ônibus), em contraste com a nobreza do discurso político dos grevistas. Como se o colapso de parte da infra-estrutura da universidade não afetasse, de fato, a vida acadêmica.

Torço para que a esmagadora maioria dos mais dos 78 mil que estão estudando normalmente se faça representar no ato de quinta-feira. Torço para que os presentes não cedam à provocação da — ela, sim — minoria fascista que impõe a desordem e, às vezes, o terror na universidade.

E dou um conselho aos presentes: evitem conceder entrevistas à imprensa greveira. Tudo indica que não há a menor chance de sua fala ser registrada num contexto virtuoso. Vai que Laura Capriglione decida prestar atenção ao que você diz…  Fujam, pois, dos também provocadores do “jornalismo”.

Por Reinaldo Azevedo

22/06/2009

às 12:01

USP – MANIFESTAÇÃO PACÍFICA CONTRA A BARBÁRIE

Alunos contrários à barbárie na USP, chamada por alguns de “greve”, pretendem fazer uma manifestação na próxima quinta-feira, dia 25.

A concentração está marcada para as 12h30, em frente ao prédio da FEA. Depois haverá a caminhada até a Praça do Relógio e a dispersão.

Lembrem-se os que defendem a universidade: considerem a máxima de que a omissão dos bons acaba sendo pior do que a ação dos canalhas.

Então que os bons se manifestem. São, como todos sabemos e como sempre, a esmagadora maioria da USP. Mas é preciso começar a mostrar a cara. Ou, um dia, o pior deles ainda vai lhe dizer o que pensar.

Não cedam a provocações, mas não se deixem intimidar pela truculência.

Por Reinaldo Azevedo

21/06/2009

às 9:32

CLAUDIONOR, O OXIGENADOR!

A Folha publica hoje uma reportagem assinada por Fábio Takahashi e Laura Capriglione que começa errada desde o título: “Centralização de poder alimenta crise na USP”. O texto é um primor de adesão ao grevismo doidivanas disfarçado de rigor técnico. Vamos ver.

Pelo menos em um ponto, professores titulares (o mais alto grau da carreira docente) e o sindicato “vermelho” dos funcionários estão de acordo: o poder na USP precisa de oxigênio.
Dois erros estúpidos. O primeiro foi colocar “vermelhos” entre aspas para o sindicato dos funcionários: ou Laura considera que a Liga Estratégica Revolucionária e a Liga Bolchevique Internacionalista, que dão as cartas no sindicato, não são vermelhas o bastante para a sua sede de sangue? Falo metaforicamente, é claro. Acho que Laura só precisa de um Lexotan.

O segundo é dizer que Claudionor Brandão, vejam que coisa!, quer “oxigênio” no poder da USP. Pouco oxigenada parece ser a avaliação da jornalista. Claudionor já disse o que ele quer em vídeos aqui postados. O fato de A e B considerarem que C não é legal não indica que A e B estejam de acordo. Acho que Laura entende um conceito, mas exemplifico. O aiatolá Khamenei e eu não gostamos de Musavi. Eu porque desprezo teocratas — e ele é um, em trajes civis. E Kamenei porque não acredita em teocratas em trajes civis. Entendeu, minha senhora? O fato de professores titulares e o Sintup terem críticas aos mecanismos de poder da USP não indica identidades. Tampouco faz do Sintusp um apologista do oxigênio.

Se a crítica à rigidez dos órgãos de poder da universidade sempre fez parte das reivindicações das entidades sindicais, a diferença do momento atual é que, pela primeira vez desde 1988, gente de dentro da própria direção da USP admite que, do jeito que as coisas estão, a universidade não consegue refletir a diversidade da instituição, promover o diálogo e o entendimento.
Cascata! O Sintusop se mobilizou pela readmissão de um sujeito obviamente incompatível com a função que exercia. Os estudantes grevistas são contrários ao ensino à distância (reacionários!!!). E alguns professores estão mobilizados por salários. As reuniões da Adusp não chegam, muitas vezes, a reunir 20 pessoas — não exagero: é isso mesmo. Numa delas, havia apenas 12 — os docentes são mais de 5.500. Os estudantes em greve são uma minoria extrema. E não são ainda menos porque os grevistas impõem o regime do terror. E, mesmo entre os funcionários, a adesão à greve é pequena.

Não estou entre aqueles que consideram a reitora da USP um exemplo de eficiência e iluminação — tratou-se de uma escolha errada, escrevi aqui em 2007. Mas o “Fora Suely” é coisa de delinqüentes morais e intelectuais. Quem está em crise são os sindicatos uspianos — de professores, de servidores e de alunos. Laura capriglione tenta correr em seu socorro, mas é inútil. A esmagadora maioria da USP não quer saber deles.

Agora, vejam só, pretendem mudar a pauta. A palavra de ordem é “democratização da USP”. É nada! Oportunistas aproveitam a iminente sucessão da USP para disputar poder. Querem ver se emplacam a tal eleição direta para reitor, uma tese imbecil por definição. Universidade é meritocrática. E acabou.

Até o Conselho Universitário, apontado como uma espécie de “órgão senatorial”, quartel-general da velha guarda uspiana, já admitiu que é preciso mudar a forma de eleição para reitor. Para isso, designou uma comissão encarregada de propor modificações no estatuto da universidade. Essa mesma comissão já propôs e conseguiu aprovar mudanças na carreira docente e na organização das prefeituras dos campi.
Alhos e bugalhos misturados por uma mente tumultuada. “Propor mudanças” não quer dizer que a pauta do Sintusp está sendo acolhida. As mudanças havidas na Prefeitura nada têm a ver com a estrutura de poder na universidade. São coisa de grandezas absolutamente distintas. Capriglione tenta fazer Claudionor Brandão se parecer com um reformista que quer melhorar a universidade.

O entendimento é que o sistema atual de eleição favorece em demasia a representação dos professores titulares em detrimento das categorias inferiores de docentes, e das representações de funcionários e estudantes. No segundo turno da eleição de reitor, por exemplo, que decide a lista tríplice a ser encaminhada para decisão final do governador, votam cerca de 300 pessoas. Destas, a categoria com mais votos é a dos titulares, que tem um quinto de todos os docentes da USP. No total, a comunidade uspiana conta com cem mil estudantes, funcionários e professores.
É assim? Então não deveria mudar mesmo — ainda que, creio, a universidade vá se abrir um pouco mais à demagogia. Como se nota, a boçalidade ganha adeptos na imprensa, não é? Numa estrutura meritocrática, parece razoável que os titulares acabem tendo mesmo maior peso.

Uma hipótese levantada é ampliar o número de pessoas com poder de voto no colégio eleitoral. Também se estuda a alteração na distribuição dos votantes entre as unidades.
Hoje, as unidades têm praticamente o mesmo peso na votação, apesar de seus tamanhos serem muito diferentes. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Escola Politécnica, por exemplo, possuem cada uma, cerca de 460 docentes, enquanto há unidades como o Instituto de Química de São Carlos, com 70.
E o que isso tem a ver com o Sintusp, para voltar ao início dessa conversa? No dia em que essa estrutura for mais “democrática”, o Sintusp deixará de lado suas ações delinqüentes? Respondo: não!

A insatisfação com a atual estrutura de poder da USP já se estendeu até mesmo a apoiadores de primeira hora da reitora Suely Vilela.
É exemplo disso o diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Sylvio Sawaya. Em 2007, durante a greve com invasão da reitoria, ele pessoalmente organizou e animou um protesto pelo fim do movimento e pela volta à normalidade.
Agora, Sawaya trabalha com um grupo de professores para desenvolver uma plataforma que, entre outros itens, prevê um Conselho Universitário com “representação mais equânime das categorias docentes e representações proporcionais ao número de alunos”.
A universidade pode e deve rever as suas estruturas de poder. Isso é parte da reforma virtuosa de qualquer sistema. Sugerir que Claudionor Brandão e Sylvio Sawaya possam estar imbuídos de um mesmo propósito desmerece o professor e dá ao “marxista-revolucionário” uma grandeza que ele não tem. O que se vende como reportagem é pura matéria interpretativa, de opinião. O movimento que há na USP para melhorar o processo que resulta da lista tríplice de nomes para dirigir a universidade nada tem a ver com os militantes da Liga Estratégica Revolucionária e da Liga Bolchevique Internacionalista. Que são vermelhos, sim. Sem aspas.

“A universidade está em uma grande crise. Há muita insatisfação, que esse movimento [grevista] ecoa. Não é revolta por reajuste salarial, fim do ensino a distância, mudança na carreira [reivindicações dos grevistas]. É por mais debate na universidade. E uma mudança importante seria alteração na forma de escolha para reitor. Já na última eleição foi um ponto destacado por todos os candidatos, mas não andou”, disse o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade Hélio Nogueira da Cruz, ex-vice-reitor da USP.
Busca-se uma opinião idiota de um professor a FEA — que está entre aquelas que não costumam aderir a essas pantomimas vermelhas (sem aspas) — para tentar fazer de conta que a insatisfação atinge todas as faculdades, não se limita à Fefeléchi.

Quem é ele para dizer que a pauta “do movimento” não é a pauta do movimento? Crise? Qual crise? A própria Capriglione escreve em outro texto:
“Junte-se uma greve por salários com piquetes, assembléias e muito, muito bate-boca. O diagnóstico quase sempre sai no piloto automático: ‘A USP está falida’. Errado. A USP está, isso sim, na fase das vacas gordas. Entre 2005 e 2008 o orçamento da universidade deu um salto de 37,7%. Foi de R$ 1,858 bilhão para R$ 2,560 bilhões. A previsão para o ano de 2009 é que entrem na universidade R$ 2,816 bilhões -um quarto de bilhão de reais a mais do que no ano passado. Só para comparar: trata-se de cifra comparável à receita orçamentária de Estados inteiros, como o Piauí (R$ 2,6 bi) ou Alagoas (R$ 2,8 bi). Ou de quase duas vezes a receita de Tocantins (R$ 1,4 bi), ou ainda de 4,4 vezes o Acre (R$ 640 milhões).”

É mesmo? Eis aí. Adivinhem, no entanto, qual reportagem foi tratada como a principal no caderno Cotidiano da Folha e oi parar na capa do jornal… A que informa a dinheirama dada à Universidade ou essa que destrincho acima, com a tese energúmena de que o Sintusp e os titulares querem democratizar a USP? As escolhas ideológicas, não os fatos, fizeram com que se desse destaque à bobagem.

A imprensa paulista é o principal apoio dos baderneiros da USP. Alinha-se com os atos violentos de mil pessoas contra os interesses de outros 99 mil, que querem estudar e trabalhar.    

Sim, alguns professores e alguns funcionários querem a mesma coisa: Claudionor Brandão e Marilena Chaui, por exemplo, não se distinguem. Nem na cinturinha. A diferença entre ambos é que ele, um dia, já soube consertar aparelhos de ar-condicionado.

Por Reinaldo Azevedo

19/06/2009

às 16:46

OS FASCISTÓIDES ATACAM ESTUDANTES CONTRÁRIOS À GREVE

httpv://www.youtube.com/watch?v=5Mai4S36a4g

Vocês sabem que, ultimamente, é preciso ler o que diz a notícia, como antigamente, e também “ler a notícia”, vale dizer: a forma como a coisa é noticiada. Leiam o que vai abaixo. Volto em seguida:

Ato de alunos contra greve na USP gera confusão em assembléia de funcionários
O gramado em frente ao Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP) foi palco nesta sexta-feira de uma confusão envolvendo alunos contrários à greve e servidores da universidade. Houve bate-boca, e um grupo de estudantes acabou expulso do local.
O atrito ocorreu porque os estudantes foram ao local para fazer um piquenique e demonstrar que nem todos apóiam a paralisação. No exato momento, no entanto, era realizada uma assembléia dos servidores para avaliar o movimento de greve e a proposta para a retomada das negociações.
Os dois grupos começaram um bate-boca até que cerca de dez estudantes foram expulsos do local pelos grevistas. O piquenique, no entanto, foi mantido por cerca de 80 alunos, no gramado localizado nos fundos do prédio do Sintusp.
Murilo Lacerda, 19, estudante do terceiro ano de geofísica, afirma que o grupo não pretendia afrontar os funcionários. Segundo ele, a convocação foi feita no decorrer da semana por e-mail e pelo site de relacionamentos Orkut e que os estudantes não sabiam da assembléia, marcada ontem.
Yuri Duarte, aluno do último ano de engenharia da Poli, afirma que a manifestação dos estudantes é pacífica. “Não tínhamos intenção de confrontar ninguém. Queríamos fazer um piquenique no gramado em frente ao Sintusp para manifestar e mostrar que não são todos os alunos que concordam com a greve e com as reivindicações”, afirmou.
A assembléia de hoje deveria começar às 11h na faculdade de história. De acordo com Magno de Carvalho, diretor do Sintusp, o local foi alterado depois que funcionários tiveram a informação que alunos invadiriam o sindicato.

Comento
Nada disso, leitor! Você leu muito depressa e acabou entendendo, já desde o título, que os alunos são uns provocadores e foram tumultuar a assembléia dos funcionários.

Volte lá. Leia de novo:
- o piquenique já estava marcado havia dias no jardim do Sintusp. O Sintusp tem um jardim, com as únicas flores que se cheiram por ali;
- a assembléia daqueles democratas estava marcada na faculdade de história — ambiente dos alunos tomado pelos funcionários. O prédio onde estão a história e a geografia é usado como base de operações desses que se dizem “marxistas-revolucionários”;
- quando ficaram sabendo do piquenique nos jardins do Sintusp, as lideranças declararam que o sindicato estava sendo “invadido” e rumaram para lá em busca de confronto. Devem ter pensado: “Invasão é com a gente!”;
- houve confronto, e alunos acabaram sendo expulsos do local.

Ora, uma universidade existe para atender aos interesses de quem? Dos funcionários, é claro!!! A produção de conhecimento — e, portanto, o foco no aluno, no estudante — é coisa de universidade reacionária.

Marcelo Coelho escreveu outro dia na Folha que aqueles contrários ao movimento deveriam se expor mais. É até prudente que seu conselho não seja seguido. Imaginem se os 79.500 estudantes decidem deixar claro o que pensam usando os mesmos métodos daqueles 500…

Eis aí como esses democratas tratam a divergência… Querem privatizar a USP, torná-la mero palco de operações do “movimento”. Eis a democracia de Antonio Candido. Eis a democracia de Marilena Chaui. Eis a democracia de Fábio Konder Comparato.

Ah, sim: gostei de ler no texto da Folha Online que “NEM TODOS APÓIAM A GREVE”. É verdade. Nem todos. 79.500 não a apóiam, contra 500. É, definitivamente, a melhor tradução para a expressão “NEM TODOS”.

Faz tempo que o Sintusp considera que a prioridade da USP não são os alunos, mas o Sintusp. Aquele já famoso vídeo feito por studantes da Poli, em 2005, que republico acima, prova isso. Ali, o famoso Claudionor Brandão exercita a sua melhor vocação democrática. Parece que, quando não está consertando aparelhos de ar-condicionado quebrados (acredito que há tempos não cuide disso), está prestes a quebrar cabeças.

Por Reinaldo Azevedo

17/06/2009

às 16:31

Imagens 2 – Candido é o aiatolá Khamenei da USP, e Chaui, seu Ahmadinejad

folha-antonio-candido

Na primeira página da Folha, temos também uma velharia: Antonio Candido. E não! O que afirmo nada tem a ver com a idade do professor: 90 anos — e nem os seus 90 anos lhe conferem licença especial para dizer bobagens. Até porque as suas beiram a infantilidade perto das tolices do centenário Niemeyer. Velhas, em ambos, são as idéias. Em companhia de Marilena Chaui, a filósofa que se especializou em Spinoza para terminar defendendo Delúbio Soares, Candido participou ontem de um “ato” na USP que reuniu 450 gatos pingados. É isto: de uma comunidade de mais de 100 mil pessoas entre alunos, estudantes e funcionários, 450 querem a universidade parada. Até aí, tudo bem. O problema é que eles tentam fazer com que os outros 99.500 parem na marra.

Escrevi aqui outro dia que Candido é bom para quem gosta. “Por quê? Você não gosta?”, indignou-se um. Depende. Ele faz uma boa sociologia da literatura brasileira, o que, entendo, é coisa diferente da crítica literária. Mas trato disso outra hora, em texto específico, se houver oportunidade. De todo modo, é, sim, um estudioso, um intelectual. E eis o problema: como costuma acontecer com as esquerdas, a autoridade intelectual conquistada numa área acaba servindo como uma espécie de álibi ou de justificativa moral para defender as teses mais absurdas. Candido, por exemplo, ainda está convicto de que a saída para o Brasil é o… “socialismo democrático”. Este oximoro tem um sinônimo: ditadura virtuosa. Existe? Não há Formação da Literatura Brasileira que justifique essa tolice.

Mas vá lá. Talvez seja tarde demais para mudar. O “socialismo democrático” não deixa de ser um lugar confortável. Quem se diz partidário dessa impossibilidade rejeita, claro!, a ditadura (ainda que não possa se espelhar em nenhuma experiência histórica) e anuncia ao mundo que é uma pessoa boa, a favor da igualdade. As pessoas, não importa a idade, têm direito a seus delírios,a suas utopias, à sua Terra do Nunca — especialmente alguém como Candido, que, a despeito dos 90 anos, se nega a amadurecer, daí a paixão por idéias velhas…   

O problema é quando uma autoridade como essa comparece a um ato promovido por militantes violentos, que, está posto, aceitam o seu “socialismo”, mas rejeitam a sua “democracia”, para protestar conta a PM no campus, como se, dadas a forma como ela chegou lá e sua atuação, não cumprisse o mais rigoroso ritual democrático.

Candido é o aiatolá Ali Khamenei do esquerdismo bocó que tenta assombrar a USP, e Marilena Chaui e seu Ahmadinejad. A professora lançou uma nova palavra de ordem: não se trata mais, disse ela, de propor eleições diretas para reitor — lembro que não existem eleições diretas nem para escolher o presidente da UNE, função que, está claro, não pede, assim, apuro intelectual —, mas de “pensar a maneira pela qual vamos desestruturar essa estrutura vertical e centralizada que a USP se tornou”. Reparem que não se fala em desestruturar nada nas universidades federais, controladas pelo “Partido”.

Assim, a partir da presença de Ali Khamenei e de Ahmadinejad no ato minoritário da USP, a pauta já está em seu terceiro estágio: no começo, pedia-se a readmissão de um funcionário legalmente demitido; em seguida, pediu-se a renúncia da reitora, legalmente instituída e a saída da PM do campus; agora, trata-se de “desestruturar” a universidade…

Os extremistas contam com o apoio de um ou outro jornalistas, o que lhes garante visibilidade “na mídia”, que é como eles chamam a imprensa, e agora de aiatolá Candido, chefe espiritual do Conselho da Revolução Petista (para assuntos universitários), e de Ahmadinejad. Isso dá sobrevida ao movimento. Agora prometem uma passeata na cidade — certamente farão um esforço danado para violar a Constituição e atrair a atenção da polícia. E, creio, a polícia tem de atuar se optarem pela violência.

Ah, sim: depois da aula de “socialismo democrático” de Candido e Chaui, os valentes saíram dali e tentaram parar o único restaurante que ainda funciona na USP: o da Faculdade de Química. Num gesto tipicamente socialista, mas nada democrático, expropriaram a comida e liberaram as catracas.

E isto: as utopias de Candido e Chaui servem hoje para a LER-QI invadir restaurante universitário. É o socialismo possível.

Gente ridícula!

Por Reinaldo Azevedo

17/06/2009

às 5:51

EU SEMPRE LHES PROMETO ARTIGOS PARCIAIS. E CUMPRO! OU: “AGORA, MARCELO COELHO”

A não-greve da USP não tem, em si, importância nenhuma. No “mundo real”, como diria Clovis Rossi, distante dos delírios da Liga Estratégica Revolucionária (dissidência radical do PSTU!!!)  ou da Liga Bolchevique Internacionalista (dissidência radical do PCO!!!), mais de 69 mil uspianos continuam estudando, tocando a vida, tentando fazer alguma coisa melhor do que fizeram deles. Esta deveria ser a nossa principal missão: tentar melhorar o que nos foi legado. Se falo dela aqui, é porque o evento mobiliza paixões, que, por seu turno, expõem ilusões, escolhas intelectuais, adesão a determinados princípios. É besteira reducionista considerar que sou contra qualquer greve — mas certamente me oponho a uma com a pauta que tem a dos extremistas da USP. Mais ainda: oponho-me a seus métodos.

Já escrevi alguns textos a respeito, fiz os meus vermelhos-e-azuis, que Marcelo Coelho acusou de ser, se não me engano, policialesco — ou algo assim.  Eu considero que é respeito à divergência. Nada mais vigarista do que distorcer, por meio de perífrases, o que o outro disse ou escreveu. Uma palavra pode fazer toda a diferença. Falei de Coelho? Pois é… Já o contestei aqui algumas vezes. Também já fui contestado por ele. Num artigo, ele me incluiu num grupo de articulistas que considera “pessimistas e sombrios”.  Serei? Acho isso curioso. Meu pessimismo não é maior do que a desconfiança que costumo ter dos grandes gestos de nobreza. Se pudesse me livrar da minha propensão ao cinismo, talvez o fizesse. Mas não estou entre aqueles que alimentam angústia antecipatória sobre os destinos da humanidade. Até acho que o mundo melhora sempre, não canso de repetir. Sombrio? Bem, isso eu não sou. Os meus poucos amigos — e também não preciso de muitos — sabem que sou até bem divertido.  Como debato idéias — embora com dureza —, até me esqueço às vezes de que “briguei” com este ou com aquele. Eu não tenho importância. As pessoas com quem debato — ou que contesto em texto — não têm importância. As divergências, bem…, estas são importantes.

Já me alonguei. Ao ponto. Marcelo Coelho escreve sobre a greve da USP na Folha desta quarta. Embora eu não concorde com quase nada do que ele pensa, acho que, no geral, escreve bem, argumenta direito. Ocorre que, às vezes, as teses são de tal ordem descasadas da realidade, que aí até o bom argumentador naufraga.

VOCÊS PODEM NÃO ACREDITAR, MAS SINTO ALGO PRÓXIMO DA MELANCOLIA QUANDO UM ADVERSÁRIO (no que respeita à visão de mundo) SE FRAGILIZA COMO MARCELO COELHO NO TEXTO DESTA QUARTA. NÃO FORÇA A EMULAÇÃO, NÃO ME EMPURRA PARA DESCOBRIR O QUE, AFINAL, ME INCOMODA TANTO EM SEU PENSAMENTO. É assim que os adversários nos melhoram, refinam a nossa capacidade de análise e de argumentação. Coelho, no artigo de hoje, fez apenas uma escolha cega, para marcar posição, deixando claro que nem ele próprio saberia como sustentar seu ponto de vista. Vocês verão. Ele em vermelho, eu em azul.

UM GRUPO de provocadores ameaça a ordem e o Estado de Direito. Impossível negociar com extremistas desse tipo, dado o irrealismo de suas reivindicações. Para preservar a paz da comunidade e o império da Lei, a saída é a intervenção de uma força militar.
Esse raciocínio pode ser aplicado, sem grande irrealismo, à crise vivida na Universidade de São Paulo. De fato, há minorias radicais. Tudo indica que é impossível negociar com elas. De fato, a ordem deve ser preservada. Tudo indica que o patrimônio público precisava ser defendido de invasões e quebra-quebras.
Só que a fraseologia não difere muito da que justificou o golpe militar de 1964.
Há dois truques retóricos neste trecho. O primeiro está na conclusão do primeiro parágrafo:  “intervenção de uma força militar”. A “força militar” não é um deus ex machina que vem para resolver as questões humanamente insolúveis, oferecendo a solução maravilhosa No caso em questão, ela é um recurso ao alcance do estado de direito, mobilizado por ele nas mais sólidas democracias do mundo, quando, com efeito, como reconhece Coelho, é impossível negociar, o patrimônio está sendo agredido e, SOBRETUDO — e isto ele esqueceu de citar —, direitos estão sendo agravados.

O segundo truque é ruim de doer e constitui um estratagema clássico quando se quer ganhar um debate mesmo sem ter razão: encontre similaridades estruturais com algo que seja universalmente odiado — ou, ao menos, odiado o bastante. Use, então, o senso comum como seu aliado e, assim, mesmo sem provar a sua tese, conquiste adesões. No bloco seguinte, exponho por que Coelho está comparando alhos com bugalhos.

Aquela época tinha seus extremistas, dispostos, por exemplo, a fazer a reforma agrária “na lei ou na marra”. Eram, certamente, minoritários na população. Havia uma ordem a ser preservada, e uma legalidade para a qual os movimentos de massa não conferiam grande importância. Só uma intervenção militar daria conta da “baderna”.
Trata-se, lamento dizer, de uma bobagem histórica e conceitual. Na comparação de Coelho, a USP de 2009 é o Brasil de 1964. Pois bem: a importância que a esquerda tem hoje, na universidade, FFLCH à parte,  é infinitamente inferior àquela que tinha em 1964. Espero que tenha lido ao menos os livros sobre a ditadura escritos por seu colega Elio Gaspari. Mais: há 45 anos, o embate ideológico que se travava no Brasil, na América Latina e, a rigor, no mundo era manifestação ou fração da Guerra Fria. Sabe-se hoje que aquela esquerda não teria condições de dar um “golpe popular” — mas ninguém tinha essa clareza então; nem os próprios esquerdistas, o que Coelho poderá conferir com alguns deles, que estão por aí, ainda fazendo política. Se aquela esquerda, à sua maneira, refletia um conflito de ponta que havia no mundo — independentemente do que pudesse pensar —, esta de hoje, que inferniza a USP, não reflete mais nada, não mais divide opiniões, não mais conquista adesões, não diz mais nada à inteligência e às emoções da esmagadora maioria dos estudantes. Assim, a comparação é historicamente fraudulenta.

Mas também se trata de uma monumental tolice conceitual. E isso é o que mais me espanta. Em 1964, aqueles militares rasgaram a Constituição e deram um golpe — pode-se, sim, discutir, se tinham ou não alternativa. Eu acho que tinham e nunca simpatizei nem intelectualmente com o golpe (não poderia haver outra simpatia porque eu era um bebê…). Em 2009, a PM entrou na USP obedecendo a uma ordem judicial. Entenderam? Em 1964, os militares rasgaram a Constituição; em 2009, a PM entrou na USP para assegurá-la — já que falharam todas as outras tentativas de assegurar os direitos fundamentais. Coelho sabe disso? O pior é que sabe. Vejam:

É triste ver pessoas de belo currículo democrático, notoriamente perseguidas pelo regime militar, apoiando a ocupação da USP pela PM. Sem dúvida, a polícia age agora com autorização judicial e o golpe de 1964 foi, afinal, um golpe.
Ele se refere, claro, a Dalmo Dallari, que defendeu a presença da PM no campus. Esquerdista, sim, mas professor de direito. E Coelho reconhece que a polícia age com ordem judicial — e que, pois, não é um golpe. Até perdeu a chance de observar que um estado de direito — isto é, baseado na lei — não quer dizer estado democrático. Ocorre que, no Brasil, há as duas coisas. E, assim, Coelho é obrigado a recuar da comparação que ele próprio fez. Mas, inconformado, tenta avançar de novo.

Do ponto de vista político, entretanto, as situações se assemelham. Como em 1964, muitos “democratas” agora acham que é preciso reprimir pela força as “minorias radicais”, contando com o aparato militar para defender a ordem, contra a “baderna”.
Pois é, Marcelo.. Este trecho do seu texto revela aquele momento em que o escrevinhador, se fumante e um tantinho desonesto intelectualmente, acende um cigarro: “Como é que eu vou sair da sinuca que eu mesmo criei? Como é que vou sustentar o insustentável?” E então surge essa expressão-gaveta, onde se pode enfiar qualquer coisa: “Do ponto de vista político…” Ora, é justamente do ponto de vista político que as diferenças são abismais. Eu detesto fazer isso, mas sou obrigado: na Alemanha da década de 30, “muitos democratas achavam que era preciso reprimir pela força as minorias radicais, contando com o aparato militar para defendera  ordem, contra a baderna.” Ou ainda: durante o governo de Kerensky, na Rússia, “muitos democratas achavam que era preciso reprimir pela força as minorias radicais, contando com o aparato militar para defendera  ordem, contra a baderna.” Sabem o que quer dizer a comparação de Coelho? Nada! Ele tentou emprestar argumentos à falta de argumentos de Clovis Rossi, que sempre foi um homem mais singelo: “Sou do tempo em que estudantes estavam sempre certos”. E pronto! Estamos conversados. MAS AGORA VEM A ENORMIDADE DE COELHO. E  REALMENTE FIQUEI TRISTE. OU ELE GOZA DA CARA DO LEITOR OU, COM EFEITO, SUAS ESCOLHAS POLÍTICAS LHE TIRARAM TAMBÉM O SENSO DE RIDÍCULO (sei, voltei a ficar virulento…)

Este artigo -prometo- será imparcial.
Por que o verbo está no futuro? Por que o artigo “será”? Seu texto tem 4.139 toques. Até aqui, ele escreveu 1.481 — quase 36% do total. Não é ainda o artigo? Coelho inventou a categoria do “pré-artigo jornalístico”? E vejam, então, que bizarro. No que ainda NÃO É O ARTIGO, ele já comparou os argumentos que justificam a polícia na USP à retórica golpista, e a PM aos militares de 1964. Mais: lastimou que pessoas perseguidas pela ditadura justifiquem a ação policial, vendo nisso uma contradição, o que reforça o descabido paralelo. Mas, agora, nos 64% restantes do texto, ele promete imparcialidade. Não vai conseguir, mas digamos que fizesse, a partir deste ponto, uma divisão salomônica entre as partes em conflito. Numa conta de base 100, a “imparcialidade” de Coelho fica assim: 32% de argumentos para um lado e 68% para outro. É… Eis a imparcialidade que costumo acusar em certos setores da imprensa…

Ainda bem que Coelho não vai apitar Corinthians X Internacional nesta quarta. Quer dizer: se ele fosse imparcial do lado corintiano, vá lá… O problema seria ser imparcial do lado contrário…

Pare com essa bobagem, Coelho. Não há mal nenhum em ser parcial. Pagar mico, como esse, é que é feio.

Não vejo valor em alguns argumentos do lado contrário.

É muita abstração condenar a presença da PM porque a universidade é um local “de pensamento, não de violência”, “de idéias, não de barbárie”.
A USP é isso, mas não é um jardim peripatético: é também um lugar de trabalho, onde pessoas ganham salário, reclamam, fazem greves, piquetes e invasões.
Veja como a gente é mesmo diferente. Desse argumento “do lado contrário” (do meu lado contrário, bem entendido), eu até gosto. Coelho não precisa tentar os seus 32% de imparcialidade atacando justamente a melhor tese do seu lado, embora, claro, insustentável. Eu concordo que um ambiente dado à pesquisa, à reflexão, ao convívio com diferentes visões de mundo, é um tanto avesso à polícia. A razão é simplíssima: a polícia é aquela parte do estado que detém o monopólio do uso legal da força, que tem competência para impedir que uma pessoa exerça a sua vontade se essa vontade for contrária à lei. Em tese ao menos, onde a racionalidade dá as cartas, pode-se dispensar o argumento da força para usar a força do argumento (huuummm, que clichezaço, hein? Mas é real). Infelizmente, no entanto, não pôde ser assim. E não pôde porque uma fração mínima de funcionários, professores e estudantes resolveu se impor pela violência — que vem a ser, com efeito, o oposto do espírito universalista de uma… universidade.

Piquetes e invasões não são atos isentos de violência, e palavras de ordem não costumam ser obras-primas de reflexão e de pesquisa. De resto, há uma diferença óbvia entre intervenções armadas que se dedicam a sufocar o pensamento e a liberdade de cátedra, e as que se encarregam de reprimir militantes sindicais.
Entendi. Coelho está dizendo que concorda com a gente; que houve mesmo violência; que, então, a polícia de agora nada tem a ver com os militares de 64, embora Coelho também tenha dito que não concorda com a gente e que os argumentos de agora repetiram 64…  Na boa, sem querer ser virulento: acho que o autor confunde imparcialidade com esquizofrenia.

Convocar a PM foi um erro. Só serviu para acirrar, e não pacificar, os ânimos na USP. A retirada da PM é o primeiro passo para a superação da crise.
Vai, Reinaldo, paciência! Não, Coelho! Você pode achar o que quiser, mas não deseduque o seu leitor. A PM não nasceu na USP. Os estudantes não se mobilizaram porque havia uma PM lá, entendeu? Se a PM sai, volta-se ao estágio anterior: das barricadas, das agressões físicas, da depredação do patrimônio… Por mais esdrúxula que seja a pauta do movimento, e é, o problema central está no método escolhido. De resto, eis uma tática típica desses movimentos radicais: primeiro atraem o que chamam de “repressão” e depois transformam o “fim da repressão” no primeiro item da pauta — para que possam, então, voltar à prática que atraiu a… “repressão”…

“Ah, então não vamos dar o que eles querem; sem polícia!”. A invasão da reitoria, em 2007, evidenciou que isso não funciona. E, em 2007, Marcelo Coelho também estava com os invasores.

O problema é saber por que se chegou a esse ponto -em que pessoas respeitáveis acabam achando que “só a PM resolve essa baderna”. Quando acontece isso, um sistema de representação e de poder se revela disfuncional. A política deixa de funcionar e a força prevalece.
Bobagem da mais elementar. Fosse assim, estados democráticos não teriam aparatos repressivos. O sr. Claudionor Brandão, a LER e LBI já deixaram claro o que querem. Nada tem a ver com a democratização da USP, seu sistema de representação etc — por  mais fraca que seja a atual gestão da universidade. Eles querem, Coelho, já disseram isto, combater o imperialismo.

Se “minorias radicais” conduzem o processo, cabe perguntar onde estão as maiorias moderadas. Deveriam estar presentes nas assembléias (e piquetes) que decidem mobilizações em nome de todos.
Nada mais alienado do que condenar o fato de uma assembléia “de gatos pingados” ter decidido uma greve quando não se participa dela.
Coelho, como vêem, não entrega nem os 32%, hehe… Se a sociedade fosse assim, como ele quier, viveria em permanente mobilização. Ocorre que há quem não reconheça esses instrumentos como canais competentes para equacionar demandas. Ponto final. Eu acho um absurdo que o voto seja obrigatório, por exemplo. Será que se pode negar a lei a quem se nega a votar — seja anulando, seja arrumando alguma desculpa para não comparecer no dia da votação? Ele deixa, por isso, de ser cidadão?

Digamos que Coelho more num edifício. Digamos que os condôminos se reúnam e decidam uma coisa qualquer que fira direitos individuais e que ele tenha se ausentado da votação porque não tem paciência para essas coisas. Perderia, por isso, o direito de reclamar? A ilegalidade deixa de ser ilegalidade porque decidida numa assembléia? Ademais, que eu saiba, piquetes, agressões e depredações não são submetidos a escrutínio em assembléias.

Estivesse presente nas assembléias, a “maioria ordeira” da USP negaria legitimidade aos movimentos de reivindicação. Em última análise, prefere delegar a defesa da ordem à PM.
Está na cara que Coelho nunca fez política estudantil nem sabe como funciona. Eu ainda sei de cor e salteado o manual para manipular assembléias. Isso é bobagem. A maioria dos estudantes não reconhece aquele fórum como legítimo:
a – têm o direito de não reconhecer — ou não têm?:
b – não podem ser constrangidos a fazer o que a lei não os obriga a fazer.
O conceito de “democracia” de Coelho é bolchevique. Como nunca se viu bolchevique de braços dados com democracia, a equação resta impossível. Ademais, “companheiro”, na democracia, ainda que os grevistas fossem maioria, o que não são, teriam de respeitar os direitos da minoria. Sendo minoria, não podem se impor à maioria.

Diante de dezenas de ativistas enraivecidos, quatro policiais (que não são “a repressão”, mas têm nome, estado civil e endereço) foram cercados e humilhados moralmente. Quando chegou o reforço, professores, funcionários e estudantes (que têm nome, estado civil e endereço) foram atacados com gás e balas de borracha.
Parece um bom parágrafo do isentismo, mas é uma tolice. Nas duas situações acima, um grupo está fora da lei, e outro exerce a lei — democrática, segundo o estado de direito, reitero.

Tudo se desumaniza, porque está em jogo uma contradição estrutural. Temos uma máquina burocrática -a da reitoria e seus órgãos ossificados de decisão- contra uma máquina sindical -que segue a lógica da mobilização de massas.
De novo, parece um primor do “nem isso nem aquilo” e, com efeito, não é isso nem aquilo. A “máquina burocrática” da universidade, com todos os seus defeitos, garante a existência daquela estrutura gigantesca — e há caminhos e modos para interferir nela. A máquina sindical, diz Coelho, segue a “lógica da mobilização de massas”. Duas coisas:
1 – cadê as massas?;
2 – a mobilização de massas, no caso, segue confessadamente, o modelo revolucionário — da revolução socialista, imaginem… É uma gente doida e irrelevante? É! Mas a História e a Geografia estão sem aula, o restaurante universitário não funciona, o serviço de transportes foi paralisado… E tudo porque a LER-QI e a LBI decidiram pôr fim ao imperialismo americano. Pô! Deixem que Obama faz isso!!!

Acontece que as massas são imaginárias (reduzem-se a uma minoria) e que a estrutura de poder na USP, supostamente defensora da lei e da ordem, é tudo menos democrática. Quando ninguém representa ninguém, ou representa mal, não há negociação humana possível, e a violência prevalece.
Ah, não tem massa? Então o primeiro termo da equação se desmoraliza. Quanto à falta de democracia da estrutura da USP, trata-se de um argumento energúmeno. DESAFIO MARCELO COELHO, UM MOÇO LIDO, A ME DIZER UMA SÓ UNIVERSIDADE NO MUNDO  —VALE ATÉ A BOLIVARIANA, DE HUGO CHÁVEZ — QUE TENHA A “DEMOCRACIA” COBRADA PELOS RADICAIS DA USP. As melhores instituições do mundo são meritocráticas, não democráticas, e suas estruturas de poder não são porosas a movimentos de “massa”. As universidades brasileiras são é “democráticas” demais. Detesto pôr aspas para mudar o sentido das palavras, mas é um recurso reconhecido… Como democracia e universidade não combinam, elas conseguem ser, no máximo, populistas e demagógicas. E templos da ineficiência.

O mesmo dilema levou a crises violentas no sistema político brasileiro, tempos atrás. Minorias “extremistas” se iludem com a omissão da maioria “ordeira”, que não se dá ao trabalho de mobilizar-se pela “ordem” e pela “moderação”. Afinal, tem as tropas a seu dispor.
Bobagem

A USP nem é metáfora nem é metonímia de 1964. Qualquer associação de idéias é apenas descabida, como já demonstrei. Há 45 anos, a democracia brasileira morreu por falta de defensores. Em 2009, foi a democracia que pôs a PM na USP. Marcelo Coelho reconhece isso, ainda que de modo oblíquo.

E, como se viu, ele não entregou nem mesmo os 32% prometidos… Observem, no parágrafo final, que os verdadeiros culpados pelas ações tresloucadas dos radicais são os… moderados!!! Aqueles bananas não podem ser responsabilizados nem por seus atos violentos.

Dizem alguns: “Reinaldo é tão virulento às vezes!”. É, talvez seja… Mas jamais satanizei pessoas que cometem o crime de seguir as leis democraticamente instituídas e garantidas pelo estado de direito. E mais: jamais escrevi e jamais escreverei: “Este artigo será imparcial”. E não o faço porque a imparcialidade, hoje em dia, tem o aspecto deste texto de Marcelo Coelho.

Pois é, leitores. Eu sempre lhes prometo ARTIGOS PARCIAIS. E entrego.

Por Reinaldo Azevedo

16/06/2009

às 17:26

Placar na USP

usp-3030

Com 3030 votos válidos, eis a escolha dos uspianos sobre a tal “greve”.
- para votar, acesse este endereço: http://greveusp.dnsalias.com/
- para ver o resultado, este: http://greveuspresultado.dnsalias.com/

Por Reinaldo Azevedo

16/06/2009

às 7:47

BEM, ROSSI DE NOVO: AGORA JORNALISMO, BLOGS, SEXO…

Eu detesto, juro, ter de dar o curso Massinha I de imprensa e opinião pública para Clovis Rossi. Depois de ter dito as batatadas que disse sobre a greve na USP — no seu tempo, escreveu, estudantes estavam sempre certos… —, volta a atacar nesta terça. Agora, o alvo são os blogs. Há um setor do jornalismo que não aprende mesmo, feito o escorpião da fábula, que ferroa o sapo. Nunca ninguém me viu aqui a adotar a posição de certos delinqüentes e mãos-peludas, que anunciam o fim do jornalismo impresso. Eu não. Em primeiro lugar, acho a tese furada. Em segundo, não acho que seria bom. Haverá convivência dessas mídias — mas o jornalismo eletrônico, em contato mais próximo com o leitor, veio pra ficar.

Ele está, claro, de forma indireta, tentando desmerecer o blog que esculhambou seu texto — o meu. Bem, vou como gosto, brincando num vermelhinho e azul.

Os “bunkers” virtuais
SÃO PAULO – Carta do leitor Jorge Henrique Singh, aparentemente um estudante, publicada no domingo, ajuda a entender não apenas o quadro na USP como, mais amplamente, a catatonia da sociedade brasileira.
Diz Singh, em sua carta, que “os estudantes pesquisam, conversam e protestam em rede antes de se deixarem levar por pregadores ideológicos profissionais”.
Então tá, os estudantes retiraram-se para um “bunker” virtual em que “protestam em rede”. Enquanto isso, o que ele chama de “pregadores ideológicos profissionais” tomam conta da vida real (e da USP) -sem que os virtuais saiam um pouco de seu mundinho.
Tomam conta da vida real coisa nenhuma! Quando muito, tomam conta de certos setores do jornalismo. Na vida real, 79 mil dos 80 mil estudantes da USP estão… estudando! Esta é a vida real. Os “pregadores ideológicos profissionais” estão apenas tomando conta dos aparelhos. Onde é que o PSOL tem, proporcionalmente, mais adeptos? Na sociedade brasileira ou na USP? Onde é que um troço como a LER-QI poderia prosperar? Na sociedade brasileira ou na USP? Como pode o PC do B, eleitoralmente irrelevante no Brasil, mandar na UNE desde que ela foi refundada — com a diretoria sendo eleita em pleito indireto? Quem vive na irrealidade? Os alunos que hoje usam a rede para estudar, para se informar, para se comunicar, para se defender de embusteiros, ou a UNE aparelhada pelo PC do B? Assim, se há alguma irrealidade nessa história, é a da militância profissional e a dos jornalistas, como Rossi, que confundem uma Polícia submetida à Justiça com soldados ou milícias de uma ditadura. Os policiais na USP não são os milicianos de Ahmadinejad na Universidade de Teerã.

E que papo mais aborrecido esse de “catatonia” da sociedade brasileira! Que chatice! Que coisa mais démodé. Catatonia por quê? Eu sou um crítico acho que bastante severo do governo Lula — o que Rossi não é: ora está aqui, ora está ali, ora nem aqui nem ali… “Independente”, vocês sabem… Mas não acuso os brasileiros de “catatônicos” nem quando aprovam esmagadoramente o governo. Posso não concordar, posso lastimar os motivos, posso achar até burrice, mas “catatonia” por quê? Ao contrário até: há uma notável sintonia entre Lula e as massas. E isso diz muito de Lula. E diz muito das massas. É que Rossi é de um tempo em que o povo estava sempre certo, sabe? Sempre lutando… Ou então era catatônico. Não, Rossi. O povo, às vezes, é ativíssimo e ERRADO mesmo. Aliás, eu diria que ele costuma estar mais errado do que certo. Não é um tipinho de confiança.

Vale para a USP, vale para o conjunto da vida em sociedade. Basta ver a quantidade de “protestos em rede” que giram em torno dos escândalos políticos sem conseguir comover os autores, que preferem a vida real (e a bufunfa real).
É verdade. Antigamente, no tempo de Rossi, a televisão é que era acusada de — ai, meu Deus, lá vou eu para o vocabulário jurássico — ALIENAR a CRAÇE TRABAIADORA. Agora é a Internet. É… Não fosse ela, as massas estariam nas ruas, prontas a enforcar o último burguês com a tripa do último padre…

Faz pouco, o colunista do “New York Times” Nicholas D. Kristof produziu um belo texto mostrando que a esmagadora maioria dos blogs ou demais instrumentos em rede trava um diálogo de “nós com nós mesmos”, ou seja, com quem pensa da mesma maneira (no caso dos Estados Unidos, democratas com democratas, neocons com neocons e por aí vai).
Ih, que demora para chegar ao ponto, não? Tá descontente com os blogs, né? Com algum em particular? Pois é, jacaré… O mundo mudou. E, como diria o bardo caolho, não mudou como “soía”. Essa história de que blogs falam apenas para convertidos é uma besteira monumental. O que eles fazem é trazer o leitor para mais perto do autor. Descobrir que o leitor existe é um choque? Pois é…

Vejam o meu caso. Dizer que sou lido apenas por quem concorda comigo é uma mentira. Antes todos os meus leitores concordassem. Eu seria mais esperançoso, hehe. Mas os que odeiam também não saem daqui. E pouca gente sabe que a maior parte, o que é revelado pelo número de acessos na comparação com o número de comentários, é de gente que lê e não comenta nada — como, aliás, acontece com os jornais. Mais: a Internet é mesmo uma rede. O texto é publicado aqui e, minutos depois, já se espalhou em centenas de outros blogs.

Gente como Rossi adoraria que só houvesse vida inteligente no jornalismo impresso, onde ele pode posar de aiatolá. Mas é falso. Lamento pelos desgostosos: mas eu reuni num livro relativamente grande parte ínfima dos textos que publiquei na Internet. Só textos sobre política, com boa acolhida de público (foi um dos mais vendidos no ano passado) e de crítica. Daria para fazer mais um dez. Acho que os textos impressos de Rossi não suportam uma coletânea. E não que lhe falte a chance de ser profundo, não é mesmo?

Não há verdadeiramente diálogo se por este se entender um debate entre ideias diferentes. Há um monólogo em que se ouvem apenas vozes com a mesma entonação, uma espécie de onanismo virtual, sem contato com o sexo oposto (no caso, as ideias opostas).
Oba! Eu adoro essas metáforas sexuais para tentar desqualificar os adversários. Vamos ver. Rossi, este gigante do jornalismo impresso — ele é mesmo alto pra chuchu — acusa blogueiros de onanistas, e isso parecerá apenas, assim, severidade. Se eu escrevesse que o sexo solitário ainda é melhor do que a refugada de Baloubet du Rouet, alguns não entenderiam. E quem entendesse poderia achar uma grosseria…

De todo modo, a metáfora é a favor dos blogueiros — ao menos daqueles que têm leitores. Um blogueiro com leitores é um verdadeiro fauno!!! O que mais se parece com masturbação? Escrever e estar em contato permanente com quem lê, ouvindo todos os sussurros, todos os gemidos (huuummm…), todos os vivas de satisfação, todas as vaias de protesto, todos os “quero-mais”, ou acomodar o traseiro na cadeira, escrever a primeira ligeireza que vem à cabeça e ainda reagir com o fígado quando contraditado porque surpreendido pendurado na brocha? Escolhida a metáfora, sou obrigado a declarar: neste blog, a gente faz sexo o dia inteiro. É um escarcéu permanente.

Com isso, desperdiçam-se as possibilidades de democratização oferecidas pela internet. Há, sim, uma imensa cacofonia de vozes, mas, na outra ponta, os ouvidos se fecham para aquelas que não são agradáveis, por desafiarem certezas cultivadas nos “bunkers” virtuais.
Tolice! O diálogo é outro, “companheiro”. O diálogo — e, às vezes, coisa nem tão nobre (mas isso acontece também em jornais e revistas) — se dá entre os blogs. Buscar uma abordagem simpática à esquerda na minha página, por exemplo, é perda de tempo mesmo. Mas eu aviso que é. Não fico posando de pluralista de um lado só. “Direitista”, “conservador”, “neocon” ou sei lá o quê, este sou eu, esta é minha leitura. Que os navegantes confrontam com outras leituras. Há quem entre aqui apenas para saber o que não pensar, entendeu? “Vou lá ler o Reinaldo só para ser contra o que ele diz”. Mas e os jornais e revistas? Não têm também eles suas respectivas linhas editoriais? E têm todo o direito de tê-las. Mais do que isso: têm a obrigação.

Pena que os problemas se resolvam é na vida real.
É verdade, Rossi. Na vida real dos 79 mil que continuam estudando e que foram tratados como alienados e reacionários. Ou essa gente não merece crédito? Quanto à Internet — no caso, os blogs —, entendo os motivos que levam algumas pessoas a supor que os meios impressos são mais íntimos da profundidade. Mas primeiro apresentem a profundidade. Ou isso não passa (ver posts abaixo) de um daqueles pisões do Airton, o zagueiro do Flamengo. Não é jogo. Sexo, então, nem pensar…

Por Reinaldo Azevedo

16/06/2009

às 7:19

DataUSP – Maioria contra a greve. Uspianos, protejam a universidade da delinqüência

greve-usp-27331

 Neste endereço — http://greveusp.dnsalias.com/ —, alunos, professores e funcionários  da USP podem dizer se são favoráveis ou contrários à greve e se apóiam ou não a ação da PM no campus. E podem conferir o resultado aqui: http://greveuspresultado.dnsalias.com/. Acima, há o gráfico atualizado à 0h30 de hoje, com 2733 votos válidos.

greve-usp-policia-2733

Fiz uma simulação de voto — meu número USP não vale mais nada desde 1985 — e obtive o seguinte retorno:

SENDO A FAVOR OU CONTRA A GREVE, DIVULGUE ESTA PESQUISA.
FORMA DE VALIDAÇÃO E AUTENTICAÇÃO DOS VOTOS:
1. Voto sem nome, número usp ou email será considerado inválido.
2. Se houver divergência entre os dados informados (nome, número usp e email) o voto será considerado inválido.
3. Se houver mais de um voto com o mesmo número usp/email, caso os votos sejam iguais, somente um será contabilizado. Se os votos divergirem, será confirmado o voto correto por email.
4. Os votos serão autenticados através do email USP (que é único para cada pessoa) a partir da próxima semana. Portanto fique atento ao seu email. Caso você não autentique seu voto, ele será desconsiderado

Parece que a coisa é séria. Mas cuidado! “Eles podem” mobilizar seus tontons-maCUTs. Assim, é preciso que os bons protejam a universidade da ação delinqüente. Afinal, aprendemos, como é mesmo?, que a verdadeira luta travada pelo sr. Claudionor Brandão é contra o “imperialismo norte-americano”. A Geografia e a História não podem ter aula enquanto Claudionor não destruir o capitalismo…

Segue a opinião dos uspianos sobre a ação da polícia no campus. São 2733 votos até agora — muito mais gente do que eles conseguem reunir em assembléias desde a década de 1980…

Por Reinaldo Azevedo

16/06/2009

às 7:17

Diretores da USP lançam manifesto em apoio à reitora

Documento é assinado por 38 dirigentes de unidades da universidade e pede entendimento sobre direito de greve

Carta defende a livre expressão de ideias e refuta qualquer tipo de violência, seja por parte de grevistas ou por policiais militares

Na Folha:
Trinta e oito dirigentes de unidades da USP (de um total de 41 dedicadas ao ensino e à pesquisa) subscreveram ontem um manifesto em que reiteram “total apoio à reitora no desempenho de seu papel institucional”. No mesmo texto, conclamaram “toda a comunidade universitária ao entendimento em torno do respeito ao direito de greve e da livre expressão de ideias, refutando qualquer tipo de violência, seja por grevistas ou por policiais”. O manifesto foi divulgado seis dias depois dos violentos confrontos entre a PM -de um lado- e docentes, alunos e funcionários -de outro-, no dia 9, em pleno campus da USP no Butantã (zona oeste), e que deixaram dez feridos. No dia seguinte ao episódio, assembleia da Adusp (associação de docentes) aprovou por unanimidade a exigência de renúncia da reitora Suely Vilela, a quem responsabilizou pelo conflito. Mesma exigência das entidades de alunos e funcionários. Segundo Vilela, a presença da PM no campus objetivou “o equilíbrio entre o direito de greve e o direito de ir e vir das pessoas”. Ela pediu na Justiça a reintegração de posse de oito edifícios da USP, “cujos acessos estavam obstruídos”. O texto dos diretores percorre a mesma linha. Enfatiza que “as manifestações e atos de persuasão utilizados pelos grevistas devem preservar o acesso ao trabalho, sem causar ameaça ou dano às pessoas ou ao patrimônio público, como os que geraram (…) a necessidade das ações judiciais de reintegração de posse e a subsequente presença da polícia no campus”. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

16/06/2009

às 7:15

A ORANGOTANGOGRAFIA

A Márcia, tadinha, manda o que segue sobre a forma como abordo a “não-greve” da USP (poupo o IP da moça):

Seria melhor se voce divulgasse as coisas que realmente ocorrem na greve ao inves de uma espécie de ti-ti-ti do Brandão, não?
Não simpatizo em nada com ele, e se ele prega revolução armada, tem muitas pessoas que também fazem isso, mas esse não é o ponto da greve.
O ponto da greve é o sucateamento da universidade pública, é a crise em que ela vive, quando a discução e a humanização, características da universidade desde a academia de Platão, deixam de ser os métodos adotados. A questão é a crise em que nos encontramos quando a universidade de maior renome no país precisa que a polícia militar intervenha num problema interno à universidade. Os problemas são vários.

Comento
Eu realmente não sei se essa moça é da USP. É possível. O “desde Platão” é argumento que ela colou de Olgária Matos. Se for estudante, a crise é mais grave do que se supõe. Deixo de lado pecadilhos menores para chamar a atenção para a orangotangografia. “DISCUÇÃO”??? Isso está mais para briga de foice no escuro. “Ih, lá vai ele pegar no pé da moça só por causa de um errinho…” Bem, não é um; são cinco. E um deles é essa enormidade. O busílis não é o erro — acontece… —, mas o fato de ela querer debater “a crise na universidade” e seu sentido “desde Platão” com uma ortografia típica dos primeiros anos do ensino fundamental.

Márcia, só uma pergunta: você sabe arrumar aparelhos de ar-condicionado?

Por Reinaldo Azevedo

15/06/2009

às 22:19

Contra ou a favor da greve?

A comunidade uspiana vota sobre a greve conduzida pela minoria extremista. O resultado que publico abaixo reflete a apuração até 16h30. Os índices abaixo dizem respeito a 2.138 votos válidos.

As condições para votar são estas:
1. Voto sem nome, número usp ou email será considerado inválido;
2. Se houver divergência entre os dados informados (nome, número USP e e-mail), o voto será considerado inválido;
3. Se houver mais de um voto com o mesmo número usp/email, caso os votos sejam iguais, somente um será contabilizado. Se os votos divergirem, ele será confirmado por email;
4. Os votos serão autenticados através do e-mail USP (que é único para cada pessoa) a partir da próxima semana. Portanto fique atento ao seu e-mail. Caso você não autentique seu voto, ele será desconsiderado.

usp-posicao-sobre-greve1

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usp-fflch-sobre-greve1

usp-fflch-sobre-pm1

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usp-poli-sobre-pm

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Por Reinaldo Azevedo
 

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