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estradas federais

17/09/2013

às 18:46

As estradas de Dilma continuam no buraco. Cadê, afinal de contas, o seu “novo modelo”?

Às vezes, este ou aquele reclamam: “Que mania essa sua de ficar lembrando o que já escreveu… Isso não é necessário!”. Com a devida vênia aos que divergem, afirmo: É NECESSÁRIO, SIM! Os analistas políticos não se beneficiam menos da falta de memória que grassa entre nós do que os políticos. Contam-se talvez nos dedos de uma só mão os que ousaram chamar a então ministra Dilma Rousseff de incompetente. Fui um deles — e, obviamente, paga-se um preço por isso. Um deles é virar alvo da rede delinquente financiada por estatais e por gestões petistas. Enquanto se exaltava em quase toda parte o temperamento da “gerentona”, que fazia e acontecia, as vozes minoritárias estavam lá, como estive aqui: “Cuidado! Dilma é muito competente em criar a fama de que é competente”. Como diria Caetano Veloso antes de virar um gagá black bloc, ela não “era proveito, mas pura fama”. Poucos enxergavam o “eclipse oculto”.

Ao contrário. Ela era tratada como a rainha solar de uma nova aurora. Em outubro de 2007, a então ministra lançou o seu “novo modelo de privatização de estradas”. Ele viria para combater o “velho modelo”, o do PSDB, aquele que vigorou em São Paulo — que tem nove das dez melhores estradas do país. Na campanha de 2010, os pedágios no estado foram demonizados tanto por Dilma como pelo candidato do PT ao governo, Aloizio Mercadante. Pois bem! No mês que vem, o “novo modelo” de Dilma completa sete anos. É um fiasco retumbante. Este governo está concedendo ao setor privado vantagens de financiamento jamais propostas por tucano nenhum. E, no entanto, a coisa não desempaca.

Por que não? Porque a cultura petista satanizou o sistema de cobrança de pedágios. Criou a impressão de que tanto o almoço como a boa estrada podem sair a custo zero. Oferece, sim, financiamento, mas pretende ser a tutora de um negócio privado. As tolices vão se sucedendo ao longo do tempo. No começo, o governo achou que poderia até tabelar a taxa de retorno dos investidores, exigência que nem Lênin incluiu no NEP (pesquisar a respeito) para tirar a União Soviética do colapso. O fato é que o fantástico modelo dilmista ainda não saiu do papel.

Sim, eu vou lembrar o que escrevi e o que outros escreveram. Com a devida licença de quem não gosta do procedimento. No dia 5 de fevereiro deste ano, quando o governo sofreu um dos muitos reveses na área de privatização de estradas, publiquei o post que segue abaixo, depois do asterisco. Ele próprio, por sua vez, remete a novos posts. Este blog investe também na memória e no didatismo. Também tem, em suma, uma função educativa. Aquele cantor de MPB deve achar que faço essas coisas porque, como é mesmo?, comando um “famoso blog de direita”. Prefiro achar que se trata apenas de colocar os fatos no seu devido lugar, como devem fazer as pessoas direitas.

*

O governo (ver post abaixo) anunciou nesta terça novas condições para a privatização de rodovias federais. Está nesse buraco — literalmente — há quase seis anos. E não consegue sair. O capital privado não comparece. Vamos lá, recuperando um pouco da história e chegando às medidas anunciadas hoje por Guido Mantega

Os leitores mais antigos do blog certamente se lembram do que eu chamaria “O Choque das Previsões”. Corria o ano da graça de 2007, mais precisamente outubro, e a então superministra, supermulher, supercompetente, supersuper (sabem como são aqueles setores da imprensa criadores de mitos…) anunciou um sistema de privatização de estradas que foi considerado, antes mesmo de sair do papel, uma revolução. Os petistas são assim: a coisa nem aconteceu, mas já é um sucesso de crítica. O de público vem depois, na esteira do marketing.

Falei em “Choque de Previsões”? Falei e documento. Elio Gaspari anunciou que o modelo de privatização de Dilma deixava no chinelo o dos tucanos, que só sabem fazer “privataria”. Dilma ainda não tinha atraído um centavo com a sua revolução, mas o jornalista já decretava a sua vitória técnica, intelectual e moral. E eu fiz o contrário e expliquei as diferenças entre o modelo de privatização em São Paulo — muito bem-sucedido — e o do PT. O texto está aqui. Para que vocês não tenham de se chatear visitando links, transcrevo em azul o que escrevi no dia 14 de outubro de 2007.

O PT e a ministra Dilma Rousseff não precisam fazer campanha política – quiçá eleitoral – com a privatização das estradas federais. Elio Gaspari faz por eles com muito mais competência e estilo, pondo a serviço dos companheiros o seu estoque de metáforas. Como sabemos, Gaspari resume a política a um conflito entre o andar de cima e o andar de baixo. É assim um Romeu Chap Chap da ideologia. Andou incomodando os petistas aqui e ali, é verdade, mas só o fez porque julgou que, no andar de baixo, estavam fazendo a política do andar de cima. Escreve na Folha e no Globo deste domingo um texto deplorável porque não vai além da propaganda. E, pior, desinforma o leitor. Segue em itálico um trecho. Volto depois.

Na tarde de terça-feira concluiu-se no salão da Bolsa de São Paulo um bonito episódio de competência administrativa e de triunfo das regras do capitalismo sobre os interesses da privataria e contubérnios incestuosos de burocratas. Depois de dez anos de idas e vindas, o governo federal leiloou as concessões de sete estradas (2,6 mil km). Para se ter uma medida do tamanho do êxito, um percurso que custaria R$ 10 de acordo com as planilhas dos anos 90, saiu por R$ 2,70. No ano que vem, quando a empresa espanhola OHL começar a cobrar pedágio na Fernão Dias, que liga Belo Horizonte a São Paulo, cada 100 quilômetros rodados custarão R$ 1,42. Se o cidadão quiser viajar em direção ao passado, tomará a Dutra, pagando R$ 7,58 pelos mesmos 100 quilômetros. Caso vá para Santos, serão R$ 13,10. Não haverá no mundo disparidade semelhante.Se essa não foi a maior demonstração de competência do governo de Nosso Guia, certamente será lembrada como uma das maiores. Sua história mostra que o Estado brasileiro tem meios para defender a patuléia, desde que esteja interessado nisso. Mostra também que se deve tomar enorme cuidado com o discurso da modernidade de um bom pedaço do empresariado. Nele, não se vende gato por lebre. É gato por gato mesmo.
(…)

Voltei
Gaspari sabe, mas finge ignorar (prefere falar, como ele costuma dizer, à choldra que também ignora) que o modelo de privatização das estradas paulistas difere do modelo federal. Em São Paulo, elas tiveram de pagar luvas ao estado. As federais saíram de graça. No preço do pedágio está embutido esse pagamento inicial.

O que é um preço abusivo de pedágio? Trafeguei neste sábado pelas exemplares Bandeirantes, Anhanguera, Washington Luiz e SP-225, duplicada e talvez a estrada mais bem-sinalizada do Brasil. Mesmo num sábado pós-feriado, estavam cheias. É caro andar nessas rodovias? Eu, por exemplo, não acho: avalio o que elas me oferecem em segurança; levo em conta as obras de duplicação – ou o novo trecho da Bandeirantes; considero a infraestrutura que está à disposição dos usuários.

No ano que vem, informa Gaspari, cada 100 quilômetros da Fernão Dias custará R$ 1,42. É verdade. Para o usuário andar no buraco, interrompido, às vezes, pelo asfalto. Quem disse que o modelo de Dilma já deu certo? Há, quando muito, uma expectativa gerada pela propaganda e pelos marqueteiros de ocasião. O consórcio vencedor vai tocar as obras de que a rodovia precisa? Em que velocidade? Não me lembro de nada parecido. Demoniza-se um modelo que, efetivamente, deu certo e se exaltam as glórias de uma escolha cujos resultados podem demorar ainda uma década. Como de hábito nos tempos de Lula, setores da imprensa acabam sendo os maiores aliados da empulhação e da vigarice.

Isto mesmo: declarar que o modelo de concessão das federais é superior àquele das concessões das rodovias paulistas é empulhação eleitoreira e vigarice intelectual. E a razão é simples: ninguém conhece o modelo federal na prática. Ademais, ainda que o leilão de Dilma venha a se mostrar uma revolução, as circunstâncias das concessões hoje são muito diferentes daquelas do passado.

Ora, bastava a Lula declarar bem-sucedida a sua escolha – ainda que ele não saiba no que vai dar – e pronto. Não! Ele e seu partido resolveram se dedicar a seu esporte predileto: demonizar quem veio antes. E, como se vê, com a ajuda de uma parte da imprensa.

Retorno a 2013. Ou: Fiasco
Gaspari errou, e eu acertei. Não porque eu seja melhor do que ele no papel de Mãe Dinah ou porque seja mais inteligente. É que operei com a lógica, e ele com a torcida. Também não dei a esperança no futuro como fato consumado. O modelo maravilhoso de Dilma revelou-se uma fraude. No dia 14 de abril de 2010, escrevi um post intitulado O MODELO DILMA DE PRIVATIZAÇÃO DAS ESTRADAS VAI PARA O BREJO, O BURACO, O DESMORONAMENTO… RÉGIS BITTENCOURT CONTINUA A SER “A ESTRADA DA MORTE”. MATA, SIM, GENTE, MAS O PEDÁGIO PARA O CÉU É BARATINHO.

Sabem o que é mais impressionante? Em 2010, Aloizio Mercadante concorreu ao governo de São Paulo descendo o sarrafo nos pedágios. Amplos setores da imprensa compraram a sua pauta, ainda que o modelo Dilma não tivesse conseguido duplicar 100 metros de estrada. Os petistas ofereciam os seus buracos com pedágio baratinho como alternativa ao modelo que conseguiu ter 9 das 10 melhores estradas do país. Quem cruza a fronteira do estado indo ou voltando sabe quando está entrando ou saindo de São Paulo por causa das… estradas! Isso é apenas um fato.

Em agosto de 2012, cinco anos depois daquele milagre, o governo RELANÇOU o seu modelo de concessão de estradas. Escrevi então post com este título: O megapacote de Dilma. Ou: Gaspari e eu nas estradas esburacadas, porém baratinhas, da governanta!.

Só prazer de pegar no pé? Amor pela picuinha? Não! É que estou com o saco cheio desse método petista de anunciar o grande sucesso do que ainda não aconteceu; de tratar o mero desejo e a mera conversa mole como era inaugural. É claro que não se faz isso sem a conivência de amplos setores da imprensa.

O modelo de 2013
Quase seis anos depois daquele milagre de 2007 e seis meses depois do “megapacote de infraestrutura”, Mantega anuncia novas medidas para tentar privatizar as estradas, já que o capital privado não apareceu. As medidas incluem:

– alteração no prazo das concessões: de 25 para 30 anos;

ampliação no prazo de financiamento dos empréstimos de dinheiro público para as concessionárias: de 20 para 25 anos;
– o patrimônio líquido das emprestas que contraírem os empréstimos não mais precisará corresponder a, no mínimo, 1,3 vez o valor emprestado; basta 1;
– o governo baixou a previsão de elevação do tráfego de 5% ao ano para 4%. Por que isso é importante? Porque interfere no valor do pedágio.

Segundo o ministro Guido Mantega — aquele que prevê o crescimento da economia brasileira com margem de erro de 3,5 pontos para mais —, a taxa de retorno desses empreendimentos é excelente, da ordem 10% ao ano. É mesmo? E por que os interessados não aparecem? Será que os empresários brasileiros não gostam de ganhar dinheiro?

As reportagens que tratam da privatização das estradas ignoram a questão do pedágio, que é central nessa história. Serviu ao proselitismo vagabundo do PT nas eleições de 2010. Muito bem: o governo federal não cobra pela concessão, como fez o governo paulista durante um bom tempo (o modelo já sofreu alterações), e estimula as empresas a competir pelo pedágio mais barato. Como isso não atrai ninguém, cria facilidades para conceder empréstimo de dinheiro público e é menos rigoroso nas garantias e na exigência das obras de reparação e duplicação… Entendam: a variável do ajuste do suposto “pedágio socialmente justo” é a deficiência de infraestrutura. Nessa marcha, sabem quando uma rodovia federal vai se equiparar às melhores estaduais de São Paulo? Nunca!

É isso aí: entre a eficiência rigorosa e a ineficiência supostamente generosa, os petistas escolhem o segundo modelo. É por isso que a infraestrutura brasileira está na pindaíba em que está.

Por Reinaldo Azevedo

05/02/2013

às 16:46

Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento

O governo Dilma, no que concerne aos investimentos, à infraestrutura e ao planejamento poderia ser definido por um ditado popular muito empregado lá nas terras de onde venho — sim, a gloriosa Dois Córregos: “Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”. Na mensagem enviada nesta segunda ao Congresso, a presidente não se limitou a passar a mão na cabeça de malfeitores — os “vilipendiados” (ver texto desta manhã). Também exaltou as glórias do próprio governo e nos fez ver que tudo vai bem, de acordo o planejado.

Nesta terça, o governo reviu — de novo! — o seu plano de concessões para rodovias federais, uma das áreas de infraestrutura que não avançam “nem com coco”. O que quer dizer esse “nem com coco”? Quer dizer “de jeito nenhum!”, “por mais que o governo se esforce”.

O provável, então, é que exista algo de profundamente errado no modelo proposto. Trato do assunto no próximo post.

Por Reinaldo Azevedo

15/08/2012

às 6:08

O megapacote de Dilma. Ou: Gaspari e eu nas estradas esburacadas, porém baratinhas, da governanta!

A presidente Dilma Rousseff fará hoje uma pajelança para anunciar uma pacote de concessões para duplicar 6 mil quilômetros de estradas, um dos principais gargalos da infraestrutura no país. Huuummm… Eu espero que Elio Gaspari, desta vez, ligue o desconfiômetro. Por que digo isso?

No dia 9 de outubro de 2007, a então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, lançou o seu “modelo de privatização” de estradas federais. Gaspari ficou tão encantando que mandou brasa (em vermelho) no dia 14 daquele mês. Prestem bem atenção!

Na tarde de terça-feira concluiu-se no salão da Bolsa de São Paulo um bonito episódio de competência administrativa e de triunfo das regras do capitalismo sobre os interesses da privataria e contubérnios incestuosos de burocratas. Depois de dez anos de idas e vindas, o governo federal leiloou as concessões de sete estradas (2,6 mil km). Para se ter uma medida do tamanho do êxito, um percurso que custaria R$ 10 de acordo com as planilhas dos anos 90, saiu por R$ 2,70. No ano que vem, quando a empresa espanhola OHL começar a cobrar pedágio na Fernão Dias, que liga Belo Horizonte a São Paulo, cada 100 quilômetros rodados custarão R$ 1,42. Se o cidadão quiser viajar em direção ao passado, tomará a Dutra, pagando R$ 7,58 pelos mesmos 100 quilômetros. Caso vá para Santos, serão R$ 13,10. Não haverá no mundo disparidade semelhante.Se essa não foi a maior demonstração de competência do governo de Nosso Guia, certamente será lembrada como uma das maiores. Sua história mostra que o Estado brasileiro tem meios para defender a patuléia, desde que esteja interessado nisso. Mostra também que se deve tomar enorme cuidado com o discurso da modernidade de um bom pedaço do empresariado. Nele, não se vende gato por lebre. É gato por gato mesmo.


Voltei
Viram só? Não se havia jogado um tambor de piche ainda, mas ele viu ali o exemplo da “competência administrativa”.  O resto era privataria tucana, né? Não se esqueçam dessas suas palavras. Daqui a pouco, vem a realidade. Eu tinha um juízo um pouco diferente, sabem? Contestei o que ele escreveu, no mesmo dia, assim (em azul):

O PT e a ministra Dilma Rousseff não precisam fazer campanha política – quiçá eleitoral – com a privatização das estradas federais. Elio Gaspari faz por eles com muito mais competência e estilo, pondo a serviço dos companheiros o seu estoque de metáforas. Como sabemos, Gaspari resume a política a um conflito entre o andar de cima e o andar de baixo. É assim um Romeu Chap Chap da ideologia. Andou incomodando os petistas aqui e ali, é verdade, mas só o fez porque julgou que, no andar de baixo, estavam fazendo a política do andar de cima. Escreve na Folha e no Globo deste domingo um texto deplorável porque não vai além da propaganda. E, pior, desinforma o leitor.
(…)
Gaspari sabe, mas finge ignorar (prefere falar, como ele costuma dizer, à choldra que também ignora) que o modelo de privatização das estradas paulistas difere do modelo federal. Em São Paulo, elas tiveram de pagar luvas ao estado. As federais saíram de graça. No preço do pedágio está embutido esse pagamento inicial.
O que é um preço abusivo de pedágio? Trafeguei neste sábado pelas exemplares Bandeirantes, Anhangüera, Washington Luiz e SP-225, duplicada e talvez a estrada mais bem sinalizada do Brasil. Mesmo num sábado pós-feriado, estavam cheias. É caro andar nessas rodovias? Eu, por exemplo, não acho: avalio o que elas me oferecem em segurança; levo em conta as obras de duplicação – ou o novo trecho da Bandeirantes; considero a infraestrutura que está à disposição dos usuários.
No ano que vem, informa Gaspari, cada 100 quilômetros da Fernão Dias custará R$ 1,42. É verdade. Para o usuário andar no buraco, interrompido, às vezes, pelo asfalto. Quem disse que o modelo de Dilma já deu certo? Há, quando muito, uma expectativa gerada pela propaganda e pelos marqueteiros de ocasião. O consórcio vencedor vai tocar as obras de que a rodovia precisa? Em que velocidade? Não me lembro de nada parecido. Demoniza-se um modelo que, efetivamente, deu certo e se exaltam as glórias de uma escolha cujos resultados podem demorar ainda uma década. Como de hábito nos tempos de Lula, setores da imprensa acabam sendo os maiores aliados da empulhação e da vigarice.
Isto mesmo: declarar que o modelo de concessão das federais é superior àquele das concessões das rodovias paulistas é empulhação eleitoreira e vigarice intelectual. E a razão é simples: ninguém conhece o modelo federal na prática. Ademais, ainda que o leilão de Dilma venha a se mostrar uma revolução, as circunstâncias das concessões hoje são muito diferentes daquelas do passado.
Ora, bastava a Lula declarar bem-sucedida a sua escolha – ainda que ele não saiba no que vai dar – e pronto. Não! Ele e seu partido resolveram se dedicar a seu esporte predileto: demonizar quem veio antes. E, como se vê, com a ajuda de uma parte da imprensa.

De volta para o futuro
Eu sei que esse procedimento parece antipático. Mas, se a gente não lembra do que diz ao leitor, como é que ficam as coisas? Estaremos condenados a um presente eterno, né?  Sigamos.

Na Folha de hoje, Dimmi Amora resume o que aconteceu com o fabuloso programa de Dilma (no arquivo do blog, vocês encontram vários textos meus a respeito). Vamos ver quem, naquele longínquo 14 de outubro de 2007, tinha mais senso de realidade e quem fazia torcida.

(…)
O último grande pacote de concessões de rodovias foi licitado em 2007, com contratos assinados em 2008 que previam investimentos de R$ 945 milhões (R$ 1,2 bilhão em valores atualizados) em 270 km de obras de duplicação e construção de estradas. Essas obras deveriam estar concluídas até o início de 2013, mas nenhuma ficará pronta no prazo. Até fevereiro, apenas pouco mais de R$ 100 milhões haviam sido gastos nos projetos.

Entre as obras, está a duplicação do trecho da rodovia Régis Bittencourt (SP-PR) que passa pela serra do Cafezal. Dos cerca de 30 quilômetros previstos, pouco mais de 6 estão prontos e a previsão agora é que a obra só esteja concluída em 2015. Do total de investimentos programados, só foram executados cerca de 17%. Dos 8 grandes projetos, 5 nem começaram, como é o caso do contorno de Florianópolis na BR-101/SC.
(…)
Há avaliações diferentes para o motivo do atraso. No mercado, a informação é que as vencedoras dos leilões de 2007 ofereceram pedágios muito baixos e não têm dinheiro para realizar as obras. Vencedoras e governo alegam que os problemas foram licitações com projetos mal elaborados, que geraram mudanças e problemas com o licenciamento ambiental.

Seja com quem estiver a razão, o governo não apresentou uma solução para os entraves antes de lançar hoje o pacote batizado provisoriamente de Programa de Investimentos em Infraestrutura.

O plano, que pode atingir, em cinco anos, entre R$ 120 bilhões e R$ 130 bilhões, prevê a concessão de quase 8.000 quilômetros de rodovias — 5.700 a serem duplicados — e mais de 8.000 quilômetros de ferrovias.

Nenhuma das estradas previstas no plano tem projeto executivo pronto, e o governo manterá o menor pedágio para escolher o vencedor. A Agência Nacional de Transportes Terrestres informou que aumentou o prazo inicial de obras em suas novas concessões.
(…)

Encerro
Eu não sou pessimista. Sou apenas realista. O critério continua a ser o do pedágio mais baixo, e se dispensam os projetos executivos. Então eu prevejo, sem chance de errar: tudo continuará no papel. Dilma movimenta os tanques, passa os próximos dois anos falando dos tais R$ 120 bilhões como se já fosse realidade, e tudo vai ficando como está. Na campanha de 2014, ela soma mais 6 mil aos 6 mil não realizados —  exemplo do que fez com o Minha Casa Minha Vida. Lula prometeu um milhão de casas. Ela prometeu mais dois milhões. Dos três milhões, não se atingiu ainda a marca de 500 mil…

Se tiverem curiosidade, procurem a expressão “Serra do Cafezal” no arquivo do blog e verão desde quando trato desse assunto. Assim como a dita “privataria” nunca passou de um fantasia ideológica, o dito modelo alternativo petista nunca existiu. A propósito: há trechos de estradas federais em que os pedágios estão sendo cobrados, e as obras não estão sendo feitas.

É o modelo alternativo a essa coisa terrível que há em São Paulo, estado em que se costuma cobrar (“é caro!”, grita o PT) pelo serviço que se oferece. Os petistas são mais inteligentes: eles cobram bem baratinho por aquilo que não entregam.

E isso não é chamado de “privataria”, claro! Faz sentido! O nome disso é pilantragem!

Que Dilma tenha mais sucesso desta vez! Quando essas obras estavam subordinadas à sua pasta, não aconteceu, como se vê, quase nada. O mesmo nada dos seus dois primeiros anos de governo. “Ah, mas 62% acham seu governo ótimo ou bom!” Eu sei, ué! Se a voz do povo fosse a voz de Deus, é possível que cobra tivesse asas… O governo é popular e legítimo. Só que é ruim. Ponto.

Por Reinaldo Azevedo

03/10/2011

às 17:25

O “capitalismo de Gaspari” ou o “contubérnio incestuoso da burocracia”?

Quando Dilma lançou o seu “novo modelo” de privatização das estradas, Elio Gaspari vibrou na cadeira, com uma retórica condoreiro-administrativa: “Na tarde de terça-feira concluiu-se no salão da Bolsa de São Paulo um bonito episódio de competência administrativa e de triunfo das regras do capitalismo sobre os interesses da privataria e contubérnios incestuosos de burocratas.”

E aproveitou para dar um pau no modelo paulista.

Tio Rei fez cara de tédio na cadeira:
“Demoniza-se um modelo que, efetivamente, deu certo e se exaltam as glórias de uma escolha cujos resultados podem demorar ainda uma década” E elogiei o modelo paulista.

Gaspari pra lá, eu pra cá (escrevi ontem a respeito).

Já sabemos faz tempo que o modelo Dilma deu errado. Ocorre que deu tão errado que há duplicação de estrada que ficou para 2035!!!

É.. Acho que São Paulo não pode esperar tanto, né? Sei lá… Será que devo exaltar os “contubérnios incestuosos da burocracia”, então?

Por Reinaldo Azevedo

02/10/2011

às 6:33

Gaspari errou ao elogiar o modelo Dilma de privatização de estradas; eu acertei ao criticá-lo no mesmo dia. Quatro anos depois, a própria Dilma diz: “Reinaldão estava certo!” Ora, claro que sim!

Pô, o Elio Gaspari vai ficar desolado! Em 2007, a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, lançou o seu próprio modelo de privatização de estradas federais.  Gaspari, que criou a palavra “PRIVATARIA” para designar irregularidades inexistentes na privatização de estatais no governo tucano, achou o modelo da petista uma maravilha. Na verdade, ele viu naquilo uma mudança histórica. Leiam o que ele escreveu, conforme registrei num post de 14 de outubro de 2007. Atenção para o entusiasmo:

“Na tarde de terça-feira concluiu-se no salão da Bolsa de São Paulo um bonito episódio de competência administrativa e de triunfo das regras do capitalismo sobre os interesses da privataria e contubérnios incestuosos de burocratas. Depois de dez anos de idas e vindas, o governo federal leiloou as concessões de sete estradas (2,6 mil km). Para se ter uma medida do tamanho do êxito, um percurso que custaria R$ 10 de acordo com as planilhas dos anos 90, saiu por R$ 2,70. No ano que vem, quando a empresa espanhola OHL começar a cobrar pedágio na Fernão Dias, que liga Belo Horizonte a São Paulo, cada 100 quilômetros rodados custarão R$ 1,42 (…)”

Que retórica!!! Tio Rei também escreveu a respeito, no mesmo dia. Assim:
“No ano que vem, informa Gaspari, cada 100 quilômetros da Fernão Dias custará R$ 1,42. É verdade. Para o usuário andar no buraco, interrompido, às vezes, pelo asfalto. Quem disse que o modelo de Dilma já deu certo? Há, quando muito, uma expectativa gerada pela propaganda e pelos marqueteiros de ocasião. O consórcio vencedor vai tocar as obras de que a rodovia precisa? Em que velocidade? Não me lembro de nada parecido. Demoniza-se um modelo que, efetivamente, deu certo e se exaltam as glórias de uma escolha cujos resultados podem demorar ainda uma década. Como de hábito nos tempos de Lula, setores da imprensa acabam sendo os maiores aliados da empulhação e da vigarice.”

Pois é… Todos sabem que eu acertei e que Gaspari errou. O “bonito episódio” de competência de Dilma resultou no que informam José Ernesto Credendio, Dimmi Amora e Renato Machado na Folha deste domingo. Leiam um trecho (mais aqui):

“O governo federal modificou o modelo de privatização de rodovias executado pela presidente Dilma Rousseff quando ela era ministra da Casa Civil, em 2007. A então ministra conduziu a privatização de sete lotes de estradas -a chamada 2ª fase da desestatização. O modelo Dilma, explorado fartamente na campanha eleitoral de 2010, conseguiu obter contratos com baixos preços de pedágio e cronogramas curtos na entrega de grandes obras. Mas a fórmula não deu certo e resultou em sucessivos atrasos nas obras obrigatórias, protestos de usuários e ações do Ministério Público Federal contra a demora na melhoria das estradas. A mudança veio neste mês, quando a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) lançou a concessão dos 475,9 km da BR-101 que cortam o Espírito Santo. Ao contrário dos editais anteriores, o da BR-101/ES elimina grandes obras nos primeiros anos de concessão. A concessionária terá até 23 anos para entregar a duplicação de 418 km da estrada. Até 2022, precisam ficar prontos somente 207 km de duplicação. Um trecho de 35 km só precisa estar concluído por volta de 2035.”

Voltei
Que “belo capítulo!” A própria Dilma anuncia que seu modelo, que encantou Gaspari, naufragou. E como ela corrige a coisa? Ora, dando um prazo à concessionária até… 2035! Parece piada, mas é verdade!

Por Reinaldo Azevedo

27/07/2011

às 6:45

Policiamento nas estradas: Dutra, BR-040 e Ponte têm apenas quatro policiais rodoviários em oito postos

Por Taís Mendes, no Globo:
A segurança em duas das principais rodovias do Rio, a Presidente Dutra e a Washington Luís, além da Ponte Rio-Niterói, está derrapando na falta de efetivo da Polícia Rodoviária Federal. Repórteres do GLOBO percorreram as três vias na segunda-feira, num total de 374 quilômetros (187 de ida mais 187 de volta), e constataram que, nos oito postos da corporação existentes nos trechos, havia apenas quatro agentes trabalhando — a conta não inclui as delegacias do órgão, que estão funcionando normalmente. A média foi de um policial a cada 46 quilômetros. Para piorar, não foram vistas patrulhas percorrendo as estradas e a Ponte. O cenário confirma o que muitos agentes vêm denunciando: o quadro de pessoal da Polícia Rodoviária está à míngua. Aposentadorias e afastamentos de servidores por causa de desvios de conduta, somados à falta de concurso público, reduziram o efetivo nos últimos anos.

No caso da Washington Luís (BR-040), foram percorridos os 70km que separam o Rio de Petrópolis, mais os 70 de volta. Nesse trajeto, há três postos (não incluindo a delegacia da Polícia Rodoviária Federal em Caxias), mas somente dois tinham policiais — e a pé. Nem mesmo o Posto Belvedere, em Petrópolis, inaugurado há cinco anos para coibir os muitos assaltos que ocorriam no trecho, funciona: está fechado há dois meses para reforma.

Posto não funciona a cada quatro dias
Antes da subida da serra, no posto localizado no Km 105 da rodovia, em Duque de Caxias, apenas um policial estava de plantão na segunda-feira. A unidade, segundo o agente, fecha a cada quatro dias, devido à escala reduzida de plantões. “Um dos policiais está de férias. Esta semana, o posto ficou fechado no domingo”, contou o servidor.Já no fim da viagem Rio-Petrópolis, no posto ao lado do Túnel Quitandinha, o cenário era o mesmo: apenas um policial, sem carro, estava de plantão. Segundo ele, um outro agente havia saído para atender uma ocorrência. Ainda de acordo com o servidor, no fim do ano passado, o posto chegou a ficar fechado por dois meses.

O policiamento precário deixa motoristas preocupados, como o professor Ary Braga, morador de Petrópolis:”Eu, que preciso usar diariamente a estrada, voltei a ficar com medo. Além da falta de policiamento na rodovia, temos enfrentado congestionamentos frequentes, causados pelo aumento do número de caminhões na estrada, o que facilita ainda mais a ação dos bandidos, principalmente à noite, quando os ataques dos assaltantes costumam acontecer.”

Unidade na Dutra nunca tem carro
No caso da Via Dutra, a principal porta de entrada do estado, O GLOBO percorreu 103 quilômetros entre o Rio e Piraí, mais o trajeto de volta. E a situação não foi diferente da encontrada na Washington Luís. Na pista sentido São Paulo, existe apenas o Posto Balança, no Km 217, em Paracambi, que estava vazio. Segundo operários de uma obra ao lado, de vez em quando aparece um policial no local. “Hoje (segunda-feira) mais cedo, o policial estava no posto. Deve ter saído para almoçar. Mas não é todo dia que aparece policial aí – disse o pedreiro Antônio Silva.

Na pista sentido Rio, sem contar a delegacia da Polícia Rodoviária na Pavuna, há dois postos: cada um estava com um policial, sem carro. Na unidade em Piraí, o agente argumentou que a patrulha estava com um colega, que saíra para uma ocorrência. Já no Posto Pedágio, no Km 163, no Rio, o policial contou que o efetivo de plantão depende da escala. Afirmou ainda que a unidade nunca dispõe de carro. “Quando ocorre uma emergência, aciono pelo telefone a patrulha mais próxima”, contou. A situação não é melhor na Ponte Rio-Niterói, onde os dois postos da Polícia Rodoviária Federal estão fechados. Apenas a delegacia da corporação, na praça do pedágio, está em operação.

Déficit de policiais chega a 30% do efetivo
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou na terça-feira que seu efetivo no Rio tem um déficit de 30%, mas não revelou quantos policiais hoje patrulham as estradas. Segundo o órgão, a quantidade de agentes não pode ser divulgada por “questões de segurança”. No entanto, a assessoria de imprensa disse que o ideal é que cada posto tenha três policiais. Repórteres do GLOBO encontraram locais na terça-feira com apenas um policial. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

 

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