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Elio Gaspari

01/04/2013

às 5:29

Gaspari e Feliciano: a coisa certa e “as patrulhas de desordeiros”

Todo mundo sabe que Elio Gaspari e eu rezamos em igrejas diferentes. Neste domingo mesmo, ele mistura no saco de gatos da demofobia críticas sensatas aos governos petistas com outras que são, com efeito, improcedentes. Daria muito pano pra manga. Mas ocorre de, às vezes, haver uma coincidência de pontos de vista.

Na sua coluna deste domingo, publicada no Globo e na Folha, escreveu o que segue:

Feliciano e as patrulhas de desordeiros

Quem viu os constrangimentos a que foi submetida a blogueira cubana Yoani Sánchez em sua passagem pelo Brasil deve um cumprimento ao pastor Marco Feliciano. Ele deu voz de prisão a dois manifestantes que integravam uma patrulha de desordeiros se manifestando dentro da sala em que presidia uma reunião da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
Yoani Sánchez foi hostilizada em cinco cidades. Em Salvador, precisou de escolta policial e as patrulhas impediram a exibição de um documentário. Em São Paulo, foi obrigada a cancelar uma noite de autógrafos. Calar os outros no grito é falta de civilidade, mas tumultuar uma sessão de trabalho na Câmara dos Deputados é violação do regimento da Casa.
Admita-se que a presença de Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos é um contrassenso, mas ele não chegou à cadeira no grito. Está lá porque foi eleito com 211 mil votos e preside a comissão pelo voto de seus pares.

Voltei
Pois é… Alguns notórios puxa-sacos de Gaspari, vejam vocês, estão me hostilizando na rede porque escrevi algo muito semelhante, como sabe toda gente. E não é de hoje.

Vai ver eu critico as “patrulhas de desordeiros” porque sou “reacionário”, e Gaspari, porque é “progressista”, né?

Como não tenho preconceitos, aponto também os acertos daqueles de quem discordo regularmente.

Por Reinaldo Azevedo

31/10/2012

às 7:15

Mais um desafio a Elio Gaspari. Ou: Em quem batem os corajosos e os covardes. Ou ainda: Quem é mesmo a elite reacionária?

Elio Gaspari não se cansa de transformar seus preconceitos em verdades universais? Também não me canso de apontar suas tolices e mistificações. Sim, ele escreve a favor do fluxo do poder, que parece dar como eterno. Escrevo no contrafluxo. Não ligo.  Não é de hoje. Não é a primeira vez que ele está com os que mandam, com ou sem farda. Não é a primeira que faço a crítica aos  poderosos, com ou sem farda. No meu caso, valeu também para o governo FHC, como sabe quem acompanhava a revista Primeira Leitura. Adiante.

Gaspari escreve hoje na Folha um daqueles artigos que podem entrar para a galeria das suas grandes tolices, para dizer pouco. O que tem me fascinado nesses tempos é que certos articulistas ou contam com o preconceito ou com a ignorância dos seus respectivos leitores. No artigo em questão, o objetivo do autor é demonstrar a relevância que teve no resultado das urnas  o Bilhete Único Mensal, proposto por Haddad — o prefeito eleito já inventou uma desculpa para empurrar a medida para 2014. Vale a pena ler o texto inteiro. Dou destaque a alguns trechos. Comento em seguida.
*
EM AGOSTO, quando o candidato Fernando Haddad prometeu a criação de um Bilhete Único Mensal, pelo qual o cidadão poderia comprar um passe livre para os ônibus municipais, a marquetagem tucana acusou-o de propor uma taxa, um “bilhete mensaleiro”.
Dividia-se o eleitorado em dois grupos. Um, que já foi a Londres, Nova York ou Paris e sabia que esse tipo de bilhete com desconto não é uma taxa, pois ninguém é obrigado a comprá-lo. Noutro grupo estava a população que usa os ônibus. Para ela, bastava fazer a conta: se o novo bilhete custar R$ 150 e o cidadão fizer duas viagens por dia, a tarifa de R$ 3 cai para R$ 2,50.
Com o início da propaganda eleitoral gratuita Haddad tinha 16% nas pesquisas, bem atrás dos 35% de Celso Russomanno, que sobrevivia ao raquitismo de seu tempo de exposição e de uma ofensiva de parte da hierarquia católica. Uma semana antes da eleição, o “fenômeno Russomanno” começou a evaporar. Na véspera, tinha 27% das preferências. Abertas as urnas, ficou com 22%, fora do segundo turno. O que houve? No final de setembro Russomanno prometera a cobrança de tarifas diferenciadas nas viagens de ônibus. Simples assim: quem anda muito pagaria mais, como quem viaja muito é o trabalhador, lá vinha tunga. Até hoje a explicação mais convincente para a implosão de Russomanno está na migração dos eleitores mais pobres. Perceberam o perigo e saltaram.
O tucanato, que condenara o Bilhete Único Mensal acordou e, no segundo turno, correu atrás, propondo a extensão da sua validade. Desde 2004, quando a prefeita Marta Suplicy foi a primeira a instituir essa modalidade de tarifa numa grande cidade brasileira, governantes e candidatos do PSDB olham para a iniciativa com cara feia. Primeiro porque criticavam-na nos seus aspectos técnicos. Depois, porque ela parecia coisa do adversário. Acordaram com oito anos de atraso.
É uma exagerada temeridade atribuir o resultado eleitoral de São Paulo ao item do Bilhete Único, mas certamente ele foi um dos ingredientes do naufrágio, pela percepção oferecida ao eleitorado. No primeiro turno uma parte dele saltou de Russomanno porque o doutor queria cobrar mais caro pelas tarifas de quem fica duas horas no ônibus para chegar ao trabalho. Não se deve esquecer que os transportecas da prefeitura defenderam a instituição do pedágio urbano para veículos sobre pneus numa cidade em que a municipalidade nada cobra pelos pousos de helicópteros. Com uma cabeça dessas, um candidato tucano poderá ganhar a eleição em Fort Worth, no Texas, pois lá está a fábrica das aeronaves Bell.
A renovação de que o PSDB precisa e que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vocalizou é de nomes mas, sobretudo, de ideias. Não só de propostas novas, mas sobretudo de uma faxina nas velhas, demofóbicas. Os candidatos do PSDB deveriam ser obrigados a usar a rede de ônibus todos os dias, durante pelo menos uma semana. A experiência valeria mais que sete seminários com ex-ministros tucanos reapresentando ideias de um governo que acabou em 2002. Algo como barões do Império amaldiçoando a República em 1899, durante o governo Campos Salles.

Voltei
Gaspari apenas está aderindo a uma onda asquerosa de certo articulismo que pretende linchar a reputação do tucano José Serra, que ele tem hoje na conta de um desafeto, sabe-se lá por quê. No geral, aquele que é derrotado nas urnas desaparece por algum tempo do noticiário. Com Serra, dá-se o contrário. Parece haver certa disposição para esquartejar, salgar o corpo e distribuir pelas terras da Coroa. Raramente vi tamanho exercício de covardia. Quem está precisando de renovação, parece, é o colunismo impresso…

Que os petistas digam em campanha eleitoral — porque, a sério, nem eles são capazes de sustentar isso — que Serra seja demofóbico e só faça obras para ricos, eis algo detestável, sim, mero exercício de baixa política, mas compreensível no contexto, já que são quem são. Mas Gaspari??? Um jornalista? Marta instituiu o bilhete único, mas perdeu a eleição justamente para Serra, o que evidencia que os “pobres” têm algumas outras necessidades além de transporte. A gestão petista não conseguiu construir um único leito de hospital; fez os CEUs para a propaganda eleitoral, mas largou milhares de estudantes em escolas de lata — que acabaram na gestão Serra-Kassab.

Quando o tucano chegou à Prefeitura, havia 60 mil vagas em creches — e uma fila de credores. Haddad encontrará a Prefeitura com 210 mil e com dinheiro em caixa. A obra de Serra na Saúde — nas esferas federal, municipal e estadual — é reconhecida até por adversários. No debate da Globo, o próprio Haddad afirmou que daria continuidade ao programa Mãe Paulistana e Remédio em Casa, por exemplo. Fez-se em São Paulo, nos últimos oito anos, o maior programa de reurbanização de favelas da história. Isso não é conversa de marqueteiro.

Afirmar que o tucano — e é de Serra, sim, que ele está falando — é demofóbico porque tem crítica a uma determinada medida na área de transporte seria desonestidade intelectual num jornalista de 20 e poucos anos, formado já nas universidades petistas. Num de 68… Quando a Prefeitura de São Paulo investiu R$ 1 bilhão no metrô, era por demofobia que o fazia, senhor Gaspari? Quando os tucanos estenderam o bilhete único ao metrô, era por demofobia que o faziam, senhor Gaspari? A Rede Lucy Montoro de reabilitação serve só aos ricos, senhor Gaspari? E o Instituto do Câncer de São Paulo? E as AMAs e AMEs? Atendem aos milionários?

Que grande mal José Serra fez a essa gente toda? Qual é a folha de serviços prestados ao povo por Gaspari — mesmo sem mandato eletivo, cidadãos podem se dedicar a obras em benefício de terceiros, não? — que lhe confere autoridade moral para acusar Serra de demofobia? Desafio-o — ele nunca topa porque julga ter a superioridade que finge ter — a listar as obras “demofóbicas” do ex-governador e ex-prefeito. Eu me proponho a listar as obras “demofílicas”.

Não pode haver covardia maior do que esta:  Gaspari sabe que o objeto de seu ataque bucéfalo não tem, no momento, condições de se defender. Ao jornalista, não basta tentar provar que o outro não tem futuro político. É preciso aderir à torcida que zurra e tenta destruir também o seu passado, recorrendo a uma linguagem que consegue ser tão rasteira quanto a campanha de Fernando Haddad.

Por uma questão de caráter, desde que escrevo textos opinativos, analíticos, eu prefiro bater — quando discordo, é claro! Até faço elogios de vez em quando — em quem está no poder. Também por uma questão de caráter, há os que preferem chutar quem foi derrotado. Um caso requer um tanto de coragem e ousadia. O outro só pede uma dose adicional de covardia.

Fiz um desafio. Como Gaspari não vai aceitar, deveria usar a sua coluna na Folha e no Globo para listar as obras que Serra fez contra o povo. Seus leitores certamente gostariam de vê-lo provar uma tese. Os meus gostam quando provo as minhas.  Gaspari, como todo mundo, tem o direito de detestar quem quiser. Já a mentira é outro departamento. 

Finalmente
Associar o  nome de Serra a uma elite passadista, incapaz de entender a mudança, a exemplo do que faz no parágrafo final, é indigno. Alto lá! Serra tem biografia. Isso me obriga a lembrar que Gaspari, em 1970, na comemoração dos seis anos do regime militar de 64, escreveu a quatro mãos um texto que explicava por que o Ato Institucional nº 1, que cassava direitos políticos por dez anos, não tinha de ser enviado ao Congresso porcaria nenhuma! Afinal, na formulação de Francisco Campos, a que aderem os autores, era “a revolução que legitimava o Parlamento, e não o Parlamento, a revolução”. Gaspari chamava o golpe de “revolução” até se tornar historiador amador. Um pensamento lindamente totalitário! Enquanto ele escrevia aquilo, Serra estava exilado no Chile. Três anos depois, fugiria do Estádio Nacional por ocasião do outro golpe, o de Pinochet. De volta ao Brasil, não pediu indenização. Em matéria de convescote com a elite reacionária, Gaspari, definitivamente, não tem lições de moral a dar a Serra.

Taí. Gritei “truco!”.  Se Gaspari quiser chamar “seis!”, a gente pode ter um jogo bom. Mas ele vai correr de novo e me dar só um pontinho…

PS – É isso aí! Como sou bobo, defendo quem não tem poder. Os mais inteligentes do que eu preferem fazer o contrário. Nunca lhes faltou coragem para tanto!

Texto publicado originalmente às 5h51
Por Reinaldo Azevedo

19/08/2012

às 5:57

Cotas – Flagrado no erro, Gaspari faz o quê? Ora, sai ofendendo quem acertou! Faz sentido!

Elio Gaspari deve ter escrito o texto mais, como posso dizer?, oco de sua carreira. O curioso é que lhe deu o seguinte título: “Uma ideia para as cotas nas universidades”. Eu o reproduzo abaixo. Se vocês encontrarem “a ideia”, tenham a bondade de alertar os demais leitores.

O colunista, como se sabe, é um defensor entusiasmado das cotas. Como não consegue debatê-las no mérito porque não dispõe de argumentos razoáveis, então opta pela categorização dos adversários: quem é contra é “demofóbico”. É o truque mais baixo — até me ocorreu adjetivo mais sujo, mas serei moderado — a que pode recorrer um debatedor: acuse aquele que diverge de não ser tão bom e humanista quanto você! Pronto! Por esse critério, até a matemática pode ser chamada de “fascista”, né?

Depois que a aliada de Gaspari na causa, a deputada Eunice Lobão (PSD-MA), mulher do marido Lobão, conseguiu aprovar a lei que reserva 50% das vagas das universidades federais para alunos das escolas públicas, distribuídas segundo a cor da pele dos estudantes, este “amigo do povo” estava calado. Aí decidiu dizer o que segue em vermelho. Eu comento em azul.

Passada uma década de debate, a demofobia mobilizada contra a instituição de cotas nas universidades públicas foi derrotada. Primeiro no Supremo Tribunal Federal, que, por unanimidade, julgou-as constitucionais. Recentemente, pelo Senado, que ampliou a política de cotas com apenas uma voz contra.
Truque: diz que o Senado “ampliou a política de cotas”, mas omite o que se aprovou lá. Entende-se que a única voz que resistiu ao absurdo, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), foi, então, demofóbico. Por óbvio, o senhor Elio Gaspari está a dizer que já temos um Senado Federal com 80 “demofílicos” (amigos do povo). Que bom! O Brasil está salvo! Se, segundo os critérios de Gaspari, Aloysio é um mau senador diante de 80 respeitáveis, isso diz muito de… Gaspari! 

Enquanto durou o debate, as cotas eram apresentadas como prenúncio do fim do mundo. As pesquisas indicam que os cotistas tiveram desempenhos iguais ou até superiores aos dos demais.
Gaspari pode escrever o que bem entender (Artigos 5º e 220 da Constituição). Ele só não consegue mudar os fatos. As pesquisas a que se refere são capengas. Mas isso ainda é o de menos. As vagas que estavam sendo ocupadas por cotistas, e isto é apenas um fato, estavam concentradas em cursos das chamadas “humanidades”, aqueles movidos a opinião, cuspe e giz. Se Dilma sancionar, como parece que o fará, a lei aprovada pelos “amigos do povo”, 50% das vagas de Medicina da Unifesp (Faculdade Paulista de Medicina), por exemplo, terão de ser ocupadas, obrigatoriamente, por alunos da escola pública — metade delas (25% do total) por estudantes oriundos de famílias cuja renda per capita seja de, no máximo, 1,5 mínimo (e segundo a cor da pele, registre-se sempre). Onde está esse aluno? Como a universidade vai asseverar a verdade da informação? Onde o estudante da escola pública adquiriu os conhecimentos necessários de biologia e química, por exemplo, para acompanhar as aulas? Há as exceções? Há! Mas  a lei manda a regra pra dentro das universidades. E a regra do ensino médio no Brasil foi retratada no resultado recente do Ideb.

A expansão da política de cotas poderia abrir um debate: qual a distância razoável entre a nota do aluno beneficiado e a daquele que perderá a vaga que ganharia pelo seu desempenho no vestibular. É bom que se diga: na sua essência, as cotas dão a um estudante que tirou nota mais baixa o lugar que iria para outro, que teve nota melhor. Alguma diferença tem que haver, senão a política seria inócua.
Huuuummm… Gaspari acusa os outros de “demofóbicos” porque se considera um “demofílico”, um amigo do povo. “O Amigo do Povo” era justamente o nome do jornalzinho de um tarado cortador de cabeças da Revolução Francesa, Marat. Era capaz de dizer as maiores barbaridades em nome do que entendia ser a justiça. Um dia foi vítima dos próprios métodos — e a vingança chegou pelas mãos de uma mocinha… Vejam com que sem-cerimônia escreve Gaspari: “É bom que se diga: na sua essência, as cotas dão a um estudante que tirou nota mais baixa o lugar que iria para outro, que teve nota melhor. Alguma diferença tem que haver, senão a política seria inócua.” Entenderam? O estudante que teve “nota melhor” se torna, então, o responsável pela parte prática da suposta justiça social. A exemplo de Marat, ele não gosta de detalhes: teria de explicar, por exemplo, por que o branco pobre que teve uma nota melhor há de ser preterido pelo negro ou mestiço pobres que tiveram nota pior. A resposta é uma só: “porque é branco, não porque é pobre, já que pobres todos são”. O racismo sai da pele e vai para a veia!

Há poucas pesquisas acerca desse tema. De uma maneira geral, acredita-se que a maior distância entre a nota do não cotista barrado e a do cotista beneficiado chega a ser 1,5 ponto ou 2 pontos. Pode acontecer que um estudante tirou oito e perdeu a vaga para outro que tirou seis.
Lamento! Isso é chute! Quero saber quais são as fontes. Registro, desde sempre, que, ainda que a diferença fosse de 0,1, haveria aí uma injustiça estúpida. Gaspari deve saber que entre Zero e 0,1 existem infinitos números, não é mesmo? Esse negócio de “de uma maneira geral, acredita-se” não é nem jornalismo de opinião. É só enrolação.

Quem acha que as cotas não devem existir pode permanecer nessa posição, mesmo sabendo que elas vieram para ficar.
Huuummm… Gaspari venceu!  Ao vencedor, os 38% de quase alfabetizados das universidades brasileiras e os 4% de quase analfabetos! Parabéns! Agora, um tanto preocupado, ele vai nos convidar a remediar o leite derramado. Prestem atenção!

Quem é a favor, pode se perguntar qual é a diferença razoável. Já houve caso em que ela foi de 3,4 pontos. É razoável que alguém que tirou 7,5 perca a vaga para quem tirou 4,1?
Uai! Responda aí, valente! Que tipo de opinião é essa que tenta se revelar por interrogações! Eu acho injusto! Quando alguém que tirou 7,1 perde par alguém que tirou 7, eu vejo injustiça. Curioso o percurso argumentativo deste senhor. “Demofóbico” é todo aquele que não aceita a cota. Entendi. Logo, quem aceita é “demofílico”. Mas parece que a demofilia de Gaspari tem número: até 2!!! Acima disso, ele aceita, então, ser um demofóbico também. Ou, na sua sede de categorização, passa a chamar quem discorda dele de “demagogo”. O homem que, ao pensar segundo o “andar de baixo e o andar de cima”, fundiu a luta de classes com a construção civil, quer agora dar um critério aritmético para a injustiça que faz justiça.

Partindo-se da premissa segundo a qual o objetivo das cotas é colocar nas universidades da Viúva alunos de escolas públicas, afrodescendentes e índios, dispensa-se o renascimento da demofobia, disfarçada na defesa de uma diferença que, ao final, barre aqueles a quem se pretende beneficiar. Com números na mesa, esse debate poderá evitar que uma política que busca a justiça social produza injustiças absurdas.
Flagrado com calças curtas, incapaz de defender a lei absurda aprovada no Senado, também não quer dar o braço a torcer. Daí esse texto nem-nem. Segundo se entende, ele acha que é preciso estabelecer, sim, uma diferença aceitável. Mas qual? Ele também não sabe. Como sempre, Marat está aí apenas para mandar cortar a cabeça daqueles que discordam dele. Ocorre que, às vezes, como é o caso, discordar de quê?

Que vexame!

Por Reinaldo Azevedo

09/04/2012

às 6:51

Elio Gaspari decidiu escrever sobre uma fantasia. Pois eu lhe ofereço a realidade. Ou: Agressivo é tentar calar a voz da divergência. Aqui não vai!

Escrevi ontem um post sobre um texto de Elio Gaspari, publicado na Folha e no Globo, em que, recorrendo à ironia, o autor imagina um Brasil de 2015 governado pelo senador Demóstenes Torres. Em sua prefiguração — a não ser cumprida porque os fatos do presente, obviamente, a inviabilizam —, Demóstenes é a encarnação de uma suposta “agenda da direita”. Gaspari faz, então, uma caricatura de algumas críticas fundamentadas, sim, que poderiam e podem ser feitas aos governos petistas. O leitor deve entender que elas todas têm um vício de origem: estariam comprometidas pelo conservadorismo, que teria sido desmascarado. Logo, e a conclusão é inescapável, qualquer resistência ao petismo que nasça no campo conservador é, necessariamente, desonesta. Porque, no fundo, desonesto seria o próprio conservadorismo.

Eis os amantes da democracia que estão se criando no Brasil: aceita-se, sim, a divergência como apanágio do regime democrático, desde, é claro!, que sejam divergências de um lado só. Apenas os ditos “progressistas” teriam legitimidade para contestar… “progressistas”.

Aí está a essência do pensamento totalitário — de qualquer totalitarismo, seja de esquerda, seja de direita. Tanto o socialismo como os vários fascismos, no século passado, submeteram o direito de dissentir ao crivo judicioso das intenções. Num caso, era preciso verificar se o pensamento desviante não feria princípios do partido; no outro, se não transgredia regras do estado. Aferida a boa intenção do crítico, então ele poderia ser admitido no mundo dos vivos. No caso do stalinismo, também o passado era uma realidade criativa e móvel. Estrelas do regime, depois de anos, poderiam ter seu passado recontado à luz das necessidades — e da loucura — do chefe. Poderosos caíam em desgraça da noite para o dia. Notórios colaboradores de Stálin, que o ajudaram a eliminar os “inimigos” nos Processos de Moscou, foram executados mais tarde.

Não pensem que essa é uma realidade muito estranha ao nosso tempo. A China, a segunda economia do mundo, acaba de tirar de circulação — literalmente — Bo Xilai, ex-chefe do Partido Comunista de Chongqing. Era um dos candidatos mais fortes a integrar o “grupo dos nove” que, de fato, governa o país: o Comitê Permanente do Politiburo. A máquina de propaganda chinesa trabalhou bem. Há tempos ele vinha sendo caracterizado como excessivamente populista, com traços de regressão maoista. Estaria mesmo disposto a incentivar uma nova “Revolução Cultural” no país, numa sugestão de que era uma liderança mais hostil ao Ocidente.

A China é uma tirania.  Ninguém jamais  saberá se Bo Xilai era aquilo mesmo. Se não morrer, vai passar alguns anos na cadeia. Talvez algum dia saia de lá e seja reabilitado, como aconteceu com Deng Xiaoping. De todo modo, esse é um assunto que diz respeito ao grupo dirigente, àqueles que exercem divergências de um lado só — até certo ponto, como se nota. Inexistem oposição vigilante, crítica, debate, confronto de ideias. Há, sem dúvida, pessoas sonhando com uma “modelo chinês” no Brasil, certamente adaptado aos trópicos. Elio Gaspari poderia ser o seu teórico.

Acuse o adversário de agressivo e não debata
Sim, contestei o texto de Gaspari ponto por ponto. Algumas reações, que vêm numa corrente, chegam a ser engraçadas. Acusam-me, por exemplo, de ser “agressivo”. É só uma forma de pular fora do debate, de fugir, de sair correndo. Não há uma só agressão a Gaspari, nada. O gracejo “Aiatoelio”, como o chamo, é só uma alusão à sua vocação oracular. É dado a escrever como quem, assentado no promontório do mundo, olhasse a realidade mesquinha dos homens, livre de paixões, evocando, então, leis imemoriais da boa conduta. Escolhas comprometidas seriam sempre as alheias; as suas nunca! Pois é… O apelido também deriva — e isto não é necessariamente responsabilidade sua — de certo comportamento reverencial que lhe devota boa parte do colunismo político, como se ele fosse descendente direto do Profeta. E ele não é. No caso em questão, o seu texto nada mais faz do que estimular, incitando mesmo, a intolerância. Reclamam ainda que lembrei a sua antiga simpatia pelo regime militar. Fazer o quê? É verdade! Apenas isso.

Não! Não fui agressivo, não! Na verdade, raramente o sou. Essa acusação integra parte da mitologia da rede, geralmente evocada por covardes. Vejam o caso de José Eduardo Dutra, o petista diretor da Petrobras que recomendou à oposição o famoso “enfia o dedo e rasga”. Eu o critiquei duramente aqui. Ao reagir, ele me chamou de “blogueiro especialista em baixarias”. Basta cotejar a sua fala com a minha para verificar onde está a baixaria. Mas volto.

Retomando o caso Gaspari
O colunista da Folha e do Globo resolveu construir, então, uma distopia, e o país que estaria sendo governado por aquele hipotético Demóstenes estaria caminhando, entende-se, para o autoritarismo. Pois é… Ocorre, meus queridos, que Aiatoelio não precisa fantasiar para colher sinais de que há algo errado com a democracia que está aí. Ele não precisa lucubrar sobre o que não virá quando o que já veio lhe fornece elementos de sobra para questionar a qualidade das nossas instituições e da nossa cultura democrática. Vamos ver?

Pensem que futuro teria um país que, para realizar um torneio internacional de futebol, criasse uma legislação especial, paralela, para contratar obras que torram alguns bilhões de dinheiro público. Pensem com seria vexatório que esse país tivesse de criar leis ad hoc até para regular o álcool nos estádios. Pois esse país existe; é de verdade. E não é uma criação “da direita” — não, ao menos, do que Gaspari chama “direita”.

Pensem que futuro teria um país em que o presidente da República arbitrasse pessoalmente, contra a lei, a venda de uma operadora de telefonia à outra, mandando liberar recursos de um banco público de fomento. Efetivado o negócio, esse presidente, então, determinaria a adaptação da lei à transação feita. A empresa compradora seria a mesma que teria feito do filho desse presidente, um ex-monitor de jardim zoológico, um próspero empresário. Pois esse país existe; é de verdade. E não é uma criação “da direita” — não, ao menos, do que Gaspari chama “direita”.

Pensem que futuro teria um país em que criminosos confessassem que a campanha eleitoral do presidente da República foi financiada com dinheiro ilegal e paga, em dólares, no exterior, numa conta secreta. Descobrir-se-ia, depois, que essa operação seria parte da mais formidável tramoia política do período republicano. Nesse país, o chefe da quadrilha continuaria muito influente, mandando e desmandando na República, e alguns dos vigaristas que se envolveram na sujeira estariam eleitos. Um deles conseguiria até presidir o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Pois esse país existe; é de verdade. E não é uma criação “da direita” — não, ao menos, do que Gaspari chama “direita”.

Pensem que futuro teria um país em que a “presidenta” da República se vê obrigada a demitir seis ministros sob suspeita de corrupção em cinco meses — nomes que ela própria teria escolhido. Agora pensem num pais em que a evidência, pois, de desmandos se tornasse um ativo da governanta, uma prova de que ela realmente não condescende com o “malfeito” — um eufemismo arranjado por vigaristas para nomear a corrupção. Pois esse país existe; é de verdade. E não é uma criação “da direita” — não, ao menos, do que Gaspari chama “direita”.

Pensem, numa outra esfera, esta mais simbólica, que futuro teria um país em que a mãe de um presidente da República se tornasse nome de um parque público apenas porque… mãe do presidente. Esta teria sido a sua grande glória e seu grande feito para a humanidade: dar à luz o líder. Nesse país, como ridicularia pouca seria bobagem, também a sogra do Grande Líder seria nome de prédio público, batizando uma escola. Pois esse país existe; é de verdade. E não é uma criação “da direita” — não, ao menos, do que Gaspari chama “direita”.

Caminhando para o encerramento
Vocês sabem que daria para passar a noite escrevendo a respeito desse país. Fosse Elio Gaspari só um bobalhão, um sem-leitura, uma dessas tristes figuras que hoje escrevem sobre política sem jamais ter lido nem sequer uma obra de referência, vá lá… Puxam o saco por necessidade, ainda que não fosse por gosto. Mas ele não é! Sabe muito bem o que está escrevendo. Não acuso a sua ignorância, mas o seu cinismo; não aponto o seu desconhecimento da realidade, mas justamente o contrário!

Não! O Brasil não tem conservadores demais, não! Tem é conservadores de menos. Precisamos é de mais gente para vigiar o poder, não de menos. Não havia nada de errado com os valores que Demóstenes Torres traiu ao operar junto com Carlinhos Cachoeira — e não só o senador, é bom que fique claro. O bicheiro, definitivamente, é tão ecumênico quanto a corrupção.

Eis aí. Tanto essa como a outra são refutações educadas a uma baixaria — a dele, sim! — de Elio Gaspari. Tentou fazer de milhões de pessoas que acreditam nos fundamentos de que ele faz blague copartícipes de lambanças. E elas não são, não! Já disse e repito: os eleitores de Demóstenes vão abandona-lo porque acreditam nos valores que ele vocalizava. E os eleitores de José Dirceu estão doidos para votar nele porque também acreditam nos valores que ele encarna. Entenderam a diferença?

Baixaria é tentar reduzir ao banditismo pensamentos, convicções e crenças de gente decente, que vive uma vida honesta, que não aceita o cabresto, enquanto se faz silêncio sobre a obra de notórios… bandidos! Baixaria é tentar cassar a voz e a vontade de quem diverge.

Aqui não vai.

Por Reinaldo Azevedo

08/04/2012

às 7:11

Aiatoelio Gaspari assina a ficha de filiação ao PT. Ou: Uma caricatura da história que faz inveja ao pior stalinismo

Aiatoelio Gaspari, o Ali Khamenei de alguns colunistas do jornalismo, escreveu aquele que deve ser o pior texto de sua carreira. E não que fosse tarefa fácil, dada a produção dos últimos anos. Obrigo-me a apontar isso aqui porque já escrevi sobre uma forma de patrulha ideológica que está em curso, que consiste em associar alguns valores em nome dos quais falava o senador Demóstenes Torres (GO) às suas peripécias com Carlinhos Cachoeira, como se houvesse entre uma coisa e outra uma relação de causa e efeito ou, ao menos uma linha de coerência. Seria, em suma, tudo “coisa da direita moralista”. A verdade está justamente no avesso, já demonstrei aqui. A carreira política de Demóstenes, pouco importa o que aconteça com o seu mandato, acabou. Seu eleitorado não o perdoa. Já os mensaleiros petistas, a exemplo do “chefe de quadrilha” (segundo a PGR) José Dirceu, estão mais poderosos do que nunca. João Paulo Cunha (PT-SP) é, para escárnio da moral e do bom senso, nada menos que presidente do Conselho de Ética da Câmara. Dirceu, além de “consultor de empresas privadas”, está montando a equipe de campanha de Fernando Haddad. Aiatoelio deve achar normal, já que não escreve a respeito.

Quem conhece a história do jornalismo brasileiro sabe que Gaspari entende de “direita moralista”. É mais um que o regime democrático encontra hoje junto com a esquerda, como direi?, de exultação. Eu sempre me comovo muito com aqueles que se tornam esquerdistas quando pode. Como eu fui de esquerda quando não podia, não me obrigo a reverenciar esses corajosos. Acho que foi Ferreira Gullar que escreveu algo assim (a procurar os termos exatos): “Fui de esquerda quando dava cadeia; hoje, ser de esquerda dá emprego”.

Reproduzo, abaixo, em vermelho o texto de Aiatoelio publicado neste domingo e comento em azul. Ele imagina uma situação no futuro em que Demóstenes fosse presidente da República.

Setembro de 2015: eleito presidente da República, em novembro do ano passado, Demóstenes Torres chegou ontem a Nova York para abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. Reuniu-se com o presidente Barack Obama, de quem cobrou uma política mais agressiva contra os governos da Bolívia, Equador e Venezuela, “controlados por aparelhos partidários que sonham em transformar a América Latina numa nova Cuba”. Antes de embarcar, Demóstenes abriu uma crise diplomática com o Paraguai, anunciando sua intenção de rever o tratado da hidrelétrica de Itaipu.
Vamos ver. Aiatoelio transforma numa caricatura as críticas sensatas e justas que qualquer amante da democracia faz aos governos da Bolívia, Equador e Venezuela. De fato, e isso não é conversa, inexiste, por exemplo, imprensa livre nesses três países. As forças políticas que estão no poder integram o Fórum de São Paulo — onde tinham assento, até outro dia, as Farc (oficialmente, e só oficialmente!, estão fora da organização). Para maiores informações, procurem os relatos da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) sobre a situação do jornalismo nos países citados — filiam-se à SIP, diga-se, os dois jornais que publicam a coluna de Gaspari: O Globo e a Folha. Quanto ao Paraguai, a caricatura de Gaspari é não só deformada (como todas), mas mentirosa também, invertendo os fatos. Foi o Paraguai que rasgou o tratado de Itaipu, como é público e notório.

O “direitista quando jovem” empresta seu pensamento à esquerda, agora que sua inteligência experimenta o climatério. Esse tipo de ironia grotesca, rombuda, ecoa algumas das piores práticas do stalinismo, que consistia justamente em transformar em caricatura as críticas que lhe eram feitas. Seu artigo ainda vai piorar muito. Acompanhem.

O presidente brasileiro assumiu prometendo fazer “a faxina ética que o país precisa”.
Eu, por exemplo, nunca gostei da expressão “faxina ética”. Não porque não a considere necessária, mas porque a considero falsa. Escrevi aqui há dias que setores da imprensa estavam prestes a satanizar a própria ética. Eis aí.

Para isso, criou um ministério com superpoderes, entregue ao ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.
Trata-se de um ataque covarde, numa tentativa — mais uma! — de agredir a reputação de um ministro do Supremo que nem sempre atua segundo a vontade de Aiatoelio e seus novos amigos.

Numa reviravolta em relação a suas posições anteriores, o presidente apoiou um projeto que legaliza o jogo no país.
É a única referência do texto que traz uma ironia pertinente.

Ele reestruturou o programa Bolsa Família, reduzindo-lhe as verbas e criando obstáculos para o acesso aos seus benefícios.
Não me consta que Demóstenes — ou “a direita” — tenha ameaçado o Bolsa Família alguma vez. De todo modo, associar a parceria de Demóstenes com Cachoeira a críticas ao Bolsa Família é vigarice intelectual. O que uma coisa tem a ver com a outra? Só é possível ser crítico desse programa sendo um falso moralista, um pilantra? Por quê?

Patrocinou projetos reduzindo a maioridade penal para 16 anos, e autorizando a internação compulsória de drogados.
Começo pela internação compulsória de drogados. Em alguns casos, daqueles que estão nas ruas, sem ter quem deles tome conta, tratados como lixo, ela é só matéria de bom senso. Aliás, é o que pensa o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, de quem Gaspari não fez caricatura.

Quanto à maioridade penal, o autor junta seu ódio a Demóstenes — muito anterior a qualquer informação sobre Carlinhos Cachoeira — à desinformação. Faz crer a seus leitores, com a sua fama de sabido e rigoroso, que só “direitistas tomados pelo falso moralismo” defendem a redução. Já tratei deste assunto aqui faz tempo. Então vamos ver.

Nas “ditaduras fascistas” na Nova Zelândia e Grã-Bretanha, a idade mínima é 10 anos — em Luxemburgo, inexiste idade mínima! Os bárbaros australianos e irlandeses fizeram por menos: 7. Já as ditaduras da Suécia, da Finlândia e da Noruega escolheram 15. Os regimes discricionários de pocilgas como Canadá, Espanha ou Holanda optaram por 12 — no Canadá, em casos excepcionais, pode descer a 10. A Alemanha e o Japão, notórios por submeter seus jovens a um regime de contínua violência e degradação, preferiram 14. Junto com o Brasil, 18 anos, estão Colômbia, Equador, Guiné e Venezuela, exemplos de bem-estar social todos eles, não é mesmo? Ah, sim: o paraíso cubano, que foi objeto da “caricatura a favor” de Aiatoelio, estabeleceu 16. O regime sandinista da Nicarágua, 13. Vai uma tabela para Gaspari guardar em arquivo e como incentivo à responsabilidade.
Sem idade mínima
- Luxemburgo
7 anos
- Austrália
- Irlanda
10 anos
- Nova Zelândia
- Grã-Bretanha
12 anos
- Canadá
- Espanha
- Israel
- Holanda
14 anos
- Alemanha
- Japão
15 anos
- Finlândia
- Suécia
- Dinamarca
16 anos
- Bélgica
- Chile
- Portugal

Determinou que uma comissão especial expurgue o catálogo de livros didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação.
Há livros didáticos, e não são poucos, que são mesmo vergonhosos, pautados pelo proselitismo mais descarado. Ao tratar da questão num texto em que aborda a moral como discurso da mentira, este senhor está endossado os crimes de lesa educação cometidos por uma canalha (e os bons autores não se sintam ofendidos) que, de resto, não precisa nem disputar mercado. Basta puxar o saco do petismo para estar com a vida ganha e ter sua obra “adotada” pelo MEC.

Atualmente, percorre o país pedindo a convocação de uma Assembleia Constituinte.
Sabem que chegou a defender uma Assembleia Constituinte? Lula!!! Aiatoelio se calou.

A oposição do Partido dos Trabalhadores denuncia a existência de uma aliança entre o presidente e quase todos os grandes meios de comunicação do país.
ATENÇÃO AGORA! Bem, meus caros, como o Demóstenes da fábula gaspariana é o falso bem que é mal, o PT, como seu contraponto, é, então o bem ele mesmo! Se tudo o que Demóstenes faz deve ser lido pelo avesso, sendo o PT seu avesso, tudo o que os companheiros dizem é mesmo sensato. Ou seja: o colunista do Globo e da Folha está afirmando que os meios de comunicação estariam — porque, então, assim já seria hoje — alinhados com “a direita”. É… Gaspari escreve com uma mentalidade de Carta Capital, mas prefere ganhar salário de Globo e Folha… Os fiéis de Mino Carta têm de ter aula de esperteza com Gaspari…

Ao desembarcar no aeroporto Kennedy, Demóstenes ironizou as críticas à presença de uma jovem assessora na sua comitiva: “Lamentavelmente, ela não é minha amante, porque é linda”. À noite o presidente compareceu a um jantar no restaurante Four Seasons, organizado pelo empresário Claudio Abreu, que até março de 2012 dirigia um escritório regional de relações corporativas da empreiteira Delta. Abreu é o atual secretário-executivo da Comissão de Revisão dos Contratos de Grande Obras, presidida pelo ex-procurador geral Roberto Gurgel. Chamou a atenção na comitiva do presidente o fato de alguns integrantes carregarem celulares habilitados numa loja da rua 46. Eles são chamados de “Clube do Nextel”.
Bem, nesse trecho, ele faz algumas ironias óbvias, que não mereceriam maiores considerações não fosse por um particular: a Delta é a maior tocadora de obras do governo federal. Seu proprietário, Fernando Cavendish, é amigo dos petistas — de um em particular: José Dirceu, que já prestou consultoria à empresa. Por coincidência, depois disso, a expansão do grupo é notável. Ainda voltarei a este tema. O Rio de Sérgio Cabral é um grande canteiro de obras da Delta, boa parte delas sem licitação.

Em 2012 a carreira do atual presidente foi ameaçada por uma investigação que o associava ao empresário Carlos Augusto Ramos, também conhecido como “Carlinhos Cachoeira”, marido da ex-mulher do atual senador Wilder Pedro de Morais, que era suplente de Demóstenes. O trabalho da Polícia Federal foi desqualificado pela Justiça. O assunto foi esquecido quando surgiram as denúncias do BolaGate contra o governo da presidente Dilma Rousseff envolvendo contratos de serviços e engenharia de estádios para a Copa do Mundo, cancelada em 2013.
Ora
, se Demóstenes é o falso moralista e se sua pregação deve ser vista sempre pelo avesso, Gaspari está sendo preventivo; está aplicando uma vacina contra as críticas às óbvias lambanças nas obras da Copa do Mundo. O que quer que se diga a respeito ecoa apenas coisa dessa direita moralista, entenderam? A Delta é a empresa que toca, por exemplo, a reforma do Aeroporto de Cumbica, em São Paulo. Sem licitação! Surgir um “Bolagate” é uma questão de tempo, senhor Aiastoelio, não de conspiração da direita.

A eleição de campeões da moralidade é um fenômeno comum no Brasil. Em 1959 Jânio Quadros elegeu-se montando uma vassoura. Em 1989, triunfou Fernando Collor de Mello. O primeiro renunciou numa tentativa de golpe de Estado e terminou seus dias apoquentado por pressões familiares para que revelasse os números de suas contas bancárias no exterior. O segundo deixou o poder acusado de corrupção e viveu por algum tempo em Miami, elegeu-se senador e apoiou a candidatura de Demóstenes. O tesoureiro de sua campanha foi assassinado.
Não é verdade! Dois presidentes com essas características apontadas por Gaspari não evidenciam a existência de um “fenômeno comum”. Se bem notaram, Aiatoelio fez uma leitura irônica daquela que seria uma agenda “de direita”. Assim, qualquer um que ouse fazer propostas ou críticas fora da agenda da esquerda seria só um “falso moralista”, um “Janio”, um “Collor”, um “Demóstenes”.

Presente ao jantar do Four Seasons, o empresário Carlos Augusto Ramos não quis falar à imprensa. Ele hoje lidera o setor da indústria farmacêutica brasileira beneficiado pelos incentivos concedidos no governo anterior. Ramos chegou acompanhado pelo ministro dos Transportes, Marconi Perillo, que governou o Estado do presidente e foi o principal articulador do apoio do PSDB à sua candidatura. Uma dissidência do PT, liderada pelo deputado Rubens Otoni, também apoiou a candidatura de Demóstenes. O presidente anunciou que a BingoBrás será presidida por um ex-petista.
Abril de 2012: quem conhece o tamanho do conto do vigário moralista de Fernando Collor e Jânio Quadros sabe que tudo o que está escrito aí em cima poderia ter acontecido.
Essa crítica leve ao PT é só a homenagem que o vício presta à virtude, coisa muito comum em certo tipo de “jornalismo isento”. A agenda petista de Gaspari está no conjunto do texto. Quisesse mesmo ser duro com o partido — como é com seus adversários —, lembraria que os petistas jogaram no lixo a Lei de Licitações para tocar as obras da Copa. Quisesse mesmo ser duro com os companheiros, teria analisado o verdadeiro espetáculo de “privataria” que foi a privatização dos aeropostos — não há um só especialista que não anteveja problemas. Quisesse mesmo ser duro com os patriotas, já teria desconstruído o “modelo Dilma” de privatização de estradas — que ele elogiou com tanto entusiasmo e cujo fiasco jamais reconheceu. Pergunta: por que Gaspari não nomeou Agnelo Queiroz ministro da Licitação e da Concorrência?

Notem que, na sua fábula, só “ex-petistas” estariam junto com Demóstenes, que ele considera o mal. Os petistas puros, os petistas genuínos, os petistas dirceus, os petistas lulas, os petistas dilmas, ah, esses se encontrariam na oposição, denunciando a grande conspiração que uniria Demóstenes à mídia. Porque, está dado, petista mesmo, petista autêntico, não faz sacanagem, não faz lambança, nunca é falso moralista!

Esse texto de Elio Gaspari é sua ficha de filiação ao PT. Faz sentido. Na ditadura, ele era uma espécie de general sem uniforme. E como os admirava!!!

PS - Os liberais autênticos, os que se opõem ao lulo-petismo — e a qualquer outra vigarice  — e os que lastimam a política tomada por ladrões devem saber: estão com os bons valores! Por isso não perdoarão Demóstenes. O que ele fez não é, ao contrário do que sugere Gaspari, a parte secreta de uma agenda de que o “moralismo” seria apenas a parte visível. Já, insisto, os admiradores de Dirceu e os eleitores de todos os outros mensaleiros endossaram suas respectivas práticas.

O texto de Gaspari é uma dessas coisas que provocam vergonha alheia. Há, admito, pessoas que fazem coisa assim porque precisam. Não é o caso de Aiatoelio. Ele faz porque quer. Porque gosta.

Por Reinaldo Azevedo

03/10/2011

às 17:25

O “capitalismo de Gaspari” ou o “contubérnio incestuoso da burocracia”?

Quando Dilma lançou o seu “novo modelo” de privatização das estradas, Elio Gaspari vibrou na cadeira, com uma retórica condoreiro-administrativa: “Na tarde de terça-feira concluiu-se no salão da Bolsa de São Paulo um bonito episódio de competência administrativa e de triunfo das regras do capitalismo sobre os interesses da privataria e contubérnios incestuosos de burocratas.”

E aproveitou para dar um pau no modelo paulista.

Tio Rei fez cara de tédio na cadeira:
“Demoniza-se um modelo que, efetivamente, deu certo e se exaltam as glórias de uma escolha cujos resultados podem demorar ainda uma década” E elogiei o modelo paulista.

Gaspari pra lá, eu pra cá (escrevi ontem a respeito).

Já sabemos faz tempo que o modelo Dilma deu errado. Ocorre que deu tão errado que há duplicação de estrada que ficou para 2035!!!

É.. Acho que São Paulo não pode esperar tanto, né? Sei lá… Será que devo exaltar os “contubérnios incestuosos da burocracia”, então?

Por Reinaldo Azevedo

20/04/2011

às 7:33

Pois é, Elio Gaspari… Alguém fez papel de bobo! Quem terá sido?

Elio Gaspari deveria me ser grato. No Natal, está obrigado a me mandar um panetone e uma garrafa de cidra. Pareço ser o único que presta atenção ao que ele escreve. No dia 6 de abril, exaltando as qualidades formidáveis de Dilma Rousseff, ele mandou ver no que segue em vermelho. Leiam com atenção. Volto em seguida:
Um bom exemplo da opção preferencial do governo pela paz deu-se no caso da revolta dos peões do PAC.
O Planalto chegou atrasado, mas, em poucos dias, enquadrou a agenda policial das empreiteiras e expôs a letargia das centrais sindicais. Para isso não precisou nem sequer do ministro do Trabalho, que estava em órbita.
(…)
Dilma manda a energia das crises para longe do Planalto. Lula transformaria cada uma dessas tristezas num tema de debate sem pé nem cabeça.
(…)
Dilma não precisa enfrentar velhas dificuldades. Essa era a hora em que se precisava de alguém que chegasse ao palácio para cuidar do expediente. Parece banal, mas é a paz.

Voltei
Eu, claro!, mostrei os seus erros num vermelho-e-azul (aqui).
Pois é… Tentou-se resolver a crise no Jirau, vocês leram diversas vezes aqui, com uma reunião entre governo, empreiteiras e a pelegada sindical. Decisão: demitir alguns milhares de trabalhadores. Como se não tivesse escrito há meros 14dias o que vai acima, Gaspari escreve hoje (íntegra aqui)
ALGUÉM FEZ PAPEL de bobo em Jirau. Na segunda-feira, milhares de trabalhadores aceitaram um acordo coletivo negociado pela empreiteira Camargo Corrêa com a CUT e o sindicato dos operários na construção civil de Rondônia. Horas depois, a empreiteira anunciou que demitirá 4.000 empregados. Fez papel de bobo quem achou que essas demissões não ocorreriam.
Na semana passada, o ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, antecipara a degola, argumentando que a construtora contratara gente demais. Aquilo que durante a campanha eleitoral era crescimento do emprego, virou “contratação desenfreada”.

Encerro
Pois é… Alguém fez papel de bobo em Jirau, não é mesmo, Elio Gaspari? Eu bem que avisei…

Por Reinaldo Azevedo

10/04/2011

às 7:29

O desentendido

Elio Gaspari não cansa de não me surpreender. Em seus textos, nunca emprega “eu” ou verbos na primeira pessoa.  A exceção é quando “recebe” e-mails do além, servindo de cavalo de personalidades já mortas. Deve achar que afetaria a sua objetividade. Essa é uma das razões que confere a seu texto aquele tom “magister dixit”, como se estivesse fazendo o download do Olimpo. Não deixa de ser divertido. Na sua coluna de hoje, escreve a seguinte nota:

CANIBALISMO
Entende-se que a doutora Dilma quisesse fritar o presidente da Vale, Roger Agnelli.
O que não se entende é que tenha permitido uma negociação que terminou na execução do executivo Tito Martins, que estava posto em sossego no seu serviço, foi abatido em voo e acabou satanizado, como se tivesse cometido um crime por ter boas relações com o presidente da empresa onde trabalha.

Voltei
Na nota acima, ele poderia ter escrito: “ENTENDO que a doutora Dilma quisesse fritar o presidente da Vale…” Mas preferiu aquele “se”, que torna coletivo o que é um entendimento seu.

“Entende-se por quê?” Eu não entendo! Gaspari está dizendo, na verdade, que Dilma se meteu numa empresa privada, derrubando o seu presidente, porque tinha motivos aceitáveis para fazê-lo. Quais? Já o veto a Tito Martins, ah, esse não!

Numa democracia, parece-me que só há um “entendimento” aceitável nos dois casos: é um absurdo um governo derrubar e nomear presidentes de empresa privada!

Por Reinaldo Azevedo

06/04/2011

às 16:59

Entre o silêncio e a contradição, Gaspari escolheu a segunda. Opção errada!

Elio Gaspari escreveu um texto estranhíssimo nesta quarta. Vai ver segue uma das máximas de Fernando Pessoa, mais ou menos assim: “Só duas falas são interessantes: o silêncio e a contradição”. Ele escolheu a contradição. Se pensasse melhor… Vai o vermelho-e-azul.

DILMA ROUSSEFF completará seus primeiros cem dias de governo com um notável e inédito desempenho. Ela trouxe uma sensação de paz ao país. Depois de uma campanha eleitoral tisnada pela ferocidade e de um tempo dominado pelas paixões em torno de Lula, veio a calma. Pela primeira vez em muitas décadas, tem-se a impressão de que o Brasil é governado por uma pessoa que chega cedo ao serviço, cuida do expediente e vai para casa sem que precise propagar evangelhos ou alimentar tensões.
Deixe-me ver por onde começo. Chamar a campanha eleitoral de “feroz” é coisa de quem acredita que a política deve ser pautada pelo decoro das normalistas sobre o que fazer com os cotovelos à mesa: “toujours, parfois, jamais…”  Se a campanha eleitoral no Brasil foi “feroz”, a dos EUA deve ter sido uma nova guerra civil. Gaspari foi um dos que reclamaram que faltou fazer oposição… Quanto à “paz” simbolizada por Dilma…
O que é a “paz”? A ausência de problemas ou a ausência de guerra? Diante dos mesmos desafios que Dilma enfrenta — e boa parte das dificuldades é herança do governo de que ela se tornou um símbolo —, um presidente eleito pela oposição teria os petistas na rua. Sob que pretexto? Sei lá eu! Eles arrumariam algum, como sempre fizeram nos governos anteriores. Quem declararia guerra a Dilma Rousseff hoje? As centrais sindicais pelegas, que dividem o poder? FHC, por acaso, não governou “em calma” ao menos no que dependeu de sua ação pessoal? Que característica do ex-presidente botava os tontons-maCUTs na rua? Gaspari tenta responder e escreve uma grande batatada.

Essa singularidade deve-se a algumas características pessoais de Dilma Rousseff, mas também às de seus antecessores. Antes dela, o Brasil teve na Presidência três dos maiores ególatras de sua história. Lula é um ególatra compulsivo, autoglorifica-se para ter sossego. A egolatria de Fernando Henrique Cardoso é um subproduto benigno de sua vaidade. No caso de Fernando Collor, tratou-se de puro delírio.
Santo Deus! Gaspari tem idade e prestígio profissional para não precisar mais se ajoelhar no milho do petismo. Mas falta a independência espiritual. Encontrar um critério que una Collor, FHC e Lula — a egolatria —, vênia máxima, é vigarice intelectual. Quando foi que FHC ficou se vangloriando em púbico de “suas” conquistas? Aliás, o então presidente era ironizado quando chamava a atenção para o fato de que a estabilidade era um processo que não combinava com cesarismos. A sua dita vaidade, existindo, está ligada ao fato de ser um intelectual mundialmente respeitado. Pergunto: em que isso adensava o ambiente político, prejudicando a “paz”? Em nada! Certo de que sua categoria é furada, mera concessão ao petismo, o próprio autor diz que a “egolatria” de FHC era um “subproduto benigno de sua vaidade”. Isso quer dizer que… Isso não quer dizer nada!

Em benefício dos três, reconheça-se que chegaram ao Planalto com a obrigação de mudar sensivelmente a vida do país. Nenhum deles podia, simplesmente, tocar o barco. Quando José Sarney tentou, fracassou.
Collor e FHC não podiam simplesmente tocar o barco. Lula, sim! Desafio Gaspari — e ele responda a seus leitores, não a mim — a demonstrar qual foi a grande medida de correção de rumo tomada por Lula. Não é que eu lhe peça dez, cinco ou três ações: uma só basta. Eu me refiro a mudança mesmo, de caráter estrutural, da economia. Quanto a Sarney, um erro de fundamentação histórica: ele tentou o Plano Cruzado I e o Plano Cruzado II. Não deu. O arroz-com-feijão só veio quando ninguém mais sabia o que fazer.

Um bom exemplo da opção preferencial do governo pela paz deu-se no caso da revolta dos peões do PAC.
O Planalto chegou atrasado mas, em poucos dias, enquadrou a agenda policial das empreiteiras e expôs a letargia das centrais sindicais. Para isso não precisou nem sequer do ministro do Trabalho, que estava em órbita.
O governo vive a lua de mel típica dos primeiros meses de mandato. Esbanja popularidade, consome mitologias e promessas. Durante o apagão nordestino de fevereiro, Dilma foi festejada porque determinou que o ministro de Minas e Energia determinasse a apuração do ocorrido. Durante a catástrofe da enchente do Rio, fez apenas uma aparição burocrática, teatral.
É uma coisa fabulosa! Qualquer outro partido que estivesse no poder teria enfrentado as hostes da CUT a acusar os empreiteiros de trabalho escravo — daí para baixo. A situação nesses canteiros de obras não se conformou da noite para o dia. Essas empresas trabalham em parceria estreita com o governo. O próprio Gaspari, estou certo, fosse um governo tucano, estaria a metaforizar com o andar de cima, o andar de baixo etc. Mas atenção para o que vem agora.

A doutora prometia uma equipe de colaboradores selecionados pela capacidade. Conta outra. Em Furnas, trocou o indicado do deputado Eduardo Cunha pelo protegido do eletrizante Fernando Sarney.
Defenestrou Maria Fernanda Coelho da Caixa Econômica para abrigar Geddel Vieira Lima. Hospedeira da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, nomeou um deputado obscuro para a pasta do Turismo. Tão obscuro que ainda não o chamou para despachar.
Se isso fosse pouco, na primeira grande mudança de seu mandarinato, detonou o presidente da Vale, uma empresa neoestatal controlada por interesses privados (ou uma empresa privada controlada por interesses neoestatais). Ainda está nas suas mãos a entrega de uma cadeira de senador ao comissário José Eduardo Dutra por meio da outorga de um ministério ao titular do mandato por Sergipe. Esse tipo de gratificação dos suplentes é uma das modalidades mais vulgares da corrupção política nacional.
Viram? Não é que Gaspari não reconheça a existência de “alguns” problemas. Entendi: ele não está elogiando Dilma por sua capacidade de resolvê-los, mas por sua habilidade em mantê-los longe de si mesma…

Dilma manda a energia das crises para longe do Planalto. Lula transformaria cada uma dessas tristezas num tema de debate sem pé nem cabeça. Para o bem e para o mal, a maior novidade foi a saída de Lula do proscênio.
Ah, sim! Madame Natasha informa que Gaspari quis dizer que a ausência de Lula é que confere identidade a Dilma, “para o bem e para o mal”. Por que é “para o bem”, ele tenta dizer. Mas não diz por que é também “para o mal”.

Fernando Henrique Cardoso fez o parto da estabilidade da moeda e Lula impôs ao governo um vetor social. Graças a eles, Dilma não precisa enfrentar velhas dificuldades. Essa era a hora em que se precisava de alguém que chegasse ao palácio para cuidar do expediente. Parece banal, mas é a paz.
A paz, apesar daqueles probleminhas… É isto mesmo, sem dúvida: Gaspari está elogiando Dilma porque ela sabe como fazer um problema não parecer um problema. Quanto ao mais, colocar em pé de igualdade a criação e implementação do Plano Real — que significou, praticamente, reinventar a economia brasileira, toda ela ancorada, então, na indexação — com a ampliação de programas sociais (e foi isso que Lula fez) é um desserviço à história e à inteligência.

Por Reinaldo Azevedo

06/04/2011

às 16:17

Daqui a pouco, um vermelho-e-azul com Elio Gaspari; faz tempo que não pego no pé dele…

Faz tempo que não pego no pé de Elio Gaspari, e ele pode ficar chateado, achando que, agora, eu só dou bola para Arnaldo Jabor, o neofalcão do intervencionismo americano, ou que está havendo falta de reciprocidade: ele me lê, mas eu não o leria. Leio, sim. E que a coisa andou meio aborrecida, tatibitate (agora entendo por quê). Mas hoje ele me atraiu para um minueto. Vai até um vermelho-e-azul daqui a pouquinho.

Por Reinaldo Azevedo

05/12/2010

às 7:25

Gaspari foi ali e deixou a coluna para Eremildo, que mandou ver!

Elio Gaspari resolveu comprar o peixe conforme Celso Amorim lhe vendeu e tratou os vazamentos do Wikileaks que dizem respeito ao Brasil como evidência de sucesso do Itamaraty. E sobrou porrada para Nelson Jobim, que teria apontado o caráter antiamericano da política externa brasileira.

É um daqueles dias em que Eremildo toma conta da coluna. Escreve:
“[Clifford] Sobel, um quadro estranho à diplomacia americana, saído do plantel de empresários republicanos com carreiras políticas fracassadas, qualificou-o [Nelson Jobim] como um homem decidido a ‘desafiar a supremacia histórica do Itamaraty em todas as áreas da política externa’. Em treze palavras, resumiu o objeto do desejo dos americanos: desafiar a supremacia histórica do Itamaraty em todas as áreas da política externa.

Há vários truques vulgares que ele não deveria usar a esta altura da vida. O primeiro é satanizar Sobel, tratando-o só como um serviçal da turma de Bush. Se é assim,  para boa parte dos leitores, nada do que ele diz presta. Digno das melhores máquinas esquerdistas de moer reputações! Gaspari descobriu a esquerda depois de velho, sem saber que é droga pesada para moços, que têm tempo de procurar ajuda. O segundo truque é o convite ao leitor para que descanse na zona de conforto dos imbecis: se os EUA criticam, então é sinal de que Amorim e seus aloprados estão certos: tudo o que é ruim para os EUA e bom para o Brasi, entenderam? Santo Deus!

Tentando sustentar seu preconceito em fatos, escreve Eremildo:
“Se o embaixador Sobel pudesse tratar temas da defesa só com Jobim, seria um prazer. Os diplomatas brasileiros não decidem todas as questões onde se metem, mas atrapalham. Por isso, um embaixador americano queixava-se dos ‘barbudinhos do Itamaraty’.”

Bem, tudo indica ser uma pena aos cofres públicos que Sobel tenha sido malsucedido. A “Defesa” vai comprar os caças Rafale da França, coisa universalmente tomada como um mau negócio — inclusive e muito especialmente pela Aeronáutica.

Mas “Eremildo, o Idiota” estava impossível:
“Os diplomatas brasileiros não decidem todas as questões onde se metem, mas atrapalham. Por isso, um embaixador americano queixava-se dos ‘barbudinhos do Itamaraty’.
Poucas vezes os “barbudinhos” apanharam tanto como no caso da resistência brasileira ao golpe de Honduras, no ano passado. Graças ao WikiLeaks, conhece-se agora o telegrama enviado pelo embaixador americano em Tegucigalpa, Hugo Llorens, a Washington, três semanas depois da deposição do presidente Manuel Zelaya: ‘Na visão da embaixada, os militares, a Corte Suprema e o Congresso armaram um golpe ilegal e inconstitucional contra o Poder Executivo’. O texto integral do telegrama é quatro vezes maior que este texto e nele a palavra “golpe” é usada 13 vezes. O companheiro Obama agasalhou o golpe, Nosso Guia, não.”

Circunstâncias
Já tratei dessa questão aqui, mas retomo. O fato de o embaixador americano chamar “golpe” o que se deu em Honduras não transforma em golpe a deposição de Manuel Zelaya. E basta ler a Constituição — coisa que Llorens talvez não tivesse feito à época e que Eremildo certamente não fez até hoje — para que se constate que a ação foi constitucional.  Gaspari está entre aqueles que apostaram que Obama “restauraria a democracia” em Honduras, reinstalando aquele maluco no poder. Errou mais uma vez! E decide agora bater no presidente americano.

Não há novidade nenhuma nessa questão! Tanto os EUA consideraram golpe que puniram o governo interino, suspendendo ajuda humanitária, congelando constas e cassando vistos. Os EUA, com o passar dos dias, cederam à realidade: a deposição era constitucional (isso nunca foi admitido), a esmagadora maioria da população, os três Poderes e o Ministério Público eram contra o retorno de Zelaya, eleições livres estavam marcadas, e o calendário seria seguido.

Tentativa de golpe foi a conspirata de que o Brasil participou para meter Zelaya na embaixada: um golpe contra a nossa Constituição, que proíbe tal ação, e contra a Carta da OEA, que veda esse tipo de interferência na realidade de outro país. Mas Eremildo não quer saber.

Para encerrar
Escreve ainda: “Poucas vezes os ‘barbudinhos’ apanharam tanto como no caso da resistência brasileira ao golpe de Honduras (…)”. É mesmo? De quem? Só se Gaspari estiver se referindo a este blog. Ao contrário: o Itamaraty foi paparicado, mesmo quando estava incentivando uma guerra civil para reinstalar no poder, contra a vontade da população, alguém que havia violado a Constituição e investido na desordem militar ao atribuir às Forças Armadas o papel de garantidoras de um plebiscito declarado ilegal pela Justiça.

Eremildo não tem mais jeito, não! Já era. Nem percebe que, em seu texto, um americano (Clifford) é tratado como um bobalhão, que só diz sandices; já o outro, o embaixador em Honduras, vira a prova dos noves de que houve golpe. Ou seja: americano bom é aquele que diz as coisas com as quais Gaspari concorda.

Por Reinaldo Azevedo

31/10/2010

às 6:45

A Fada Sininho bate as asinhas

Elio Gaspari é a prova de que o vinho nem sempre melhora; às vezes, azeda. Hoje. Seguindo os passos de seu guia, foi buscar no futebol uma ironia que deve ter considerado fina e sutil para retratar a vitória de Dilma, que dá como certa. Escreveu.

“Dois filósofos do futebol podem socorrer tanto aqueles se julgarem vencedores como os que se sentirem derrotados.
Aos vencedores: “O melhor time sempre ganha. O resto é fofoca”. (Do técnico escocês Jimmy Sirrel.)
Aos perdedores: “O melhor time pode perder. O resto é fofoca, boa fofoca”. (Do professor norueguês Steffen Borge, da Universidade de Tromso, comentando a teoria de Sirrel.)”

Para não ser acusado de ter lado, agora que julga que o lado que escolheu faz tempo já ganhou, então oferece, faceiro, gracejos para os dois. Huuummm… Deixe-me prever: caso Dilma vença, Elio Começará a bater as asinhas lá pelas cercanias de Minas. Suas convicções me fascinam…

Mas esse democrata, radicalmente convertido à democracia depois da democratização  (ele já escreveu o livro “A Ditadura Aplaudida”, com textos da própria lavra?), escreve ainda:
A pobreza da campanha durante o segundo turno criou terreno fértil para uma perigosa radicalização. De um lado e de outro surgiram vozes, ainda tímidas, discutindo a legitimidade do mandato. Em alguns casos, vocalizam um paradoxo: o resultado de hoje pode colocar em risco a democracia brasileira. Fica difícil entender como uma eleição pode ameaçar a democracia.

Gaspari usa um tática argumentativa vigarista que consiste em combater o que o adversário não afirmou para que ele possa, então, sustentar o que bem entende. Digam-me uma só pessoa da oposição que questiona a legitimidade do mandato de Dilma, caso eleita. A eventual eleição de Serra, essa, sim, é questionada. Lula a considera um retrocesso da democracia. Gaspari, o morno!

Quanto ao mérito da tese — e não estou comparando períodos, mas apenas demonstrando que ele está falando bobagem —, cabe perguntar a Hitler, Mussolini e Chávez se uma eleição pode ou não ameaçar a democracia.

Mas o mais interessante do seu texto está mesmo no primeiro parágrafo, que poderia ter sido escrito a quatro mãos com Luiz Gonzales, o marqueteiro da campanha tucana:

“HOJE À NOITE será conhecido o próximo presidente da República. Desde 1989 não se via uma campanha terminar de forma tão divisiva e oca. O estudo do mapa eleitoral permitirá que se chegue a explicações políticas e sociais para o resultado. De todas, a de alta toxicidade e baixa honestidade será aquela que atribuirá a derrota ao marqueteiro.
Nenhuma explicação superará a mais elementar constatação: o povo foi chamado, cada cidadão teve direito a um voto, eles foram contados, e foi eleito quem teve mais preferências.”

Como não ocorre a ninguém atribuir a João Santana uma eventual derrota de Dilma, é claro que o derrotado do seu texto é Serra e que o marqueteiro que ele quer blindar é Gonzales — a campanha do PSDB, com efeito, foi horrível, pouco importa o resultado das urnas. A Fada Sininho já correu para oferecer a sua proteção e para chamar de desonestos os que discordam dele. Todo honesto concorda com Gaspari, tá, pessoal?

Desonesto, meu senhor, é não chamar as coisas e as pessoas pelo nome e ficar plantando fofoca em coluna. Esse estilo oblíquo já era! Mais uma vez: pouco importa o que digam as urnas, o fato é que o PT sempre teve uma candidata muito pior do que a sua propaganda, e o PSDB, uma propaganda muito pior do que o seu candidato.  Gaspari e seus protegidos se acalmem. Esse debate está só no começo, ainda que Serra ganhe, a despeito de sua campanha.

Ah, e concordo com Gaspari: é preciso ser honesto!

Por Reinaldo Azevedo

10/10/2010

às 6:53

Gaspari precisa pôr o fígado de lado e se ater mais aos fatos

A 3 de outubro, dia da realização do primeiro turno, Elio Gaspari escreveu um notinha curta, a saber:
A FALTA DE RUTH
Se Ruth Cardoso estivesse viva, a charanga do tucanato não teria tomado o caminho da baixaria que atribuiu a Dilma Rousseff a defesa da legalização do aborto. Ela nunca se associou a esse tipo de tática eleitoral. Vale lembrar que seu marido também nunca jogou esse jogo.”

Eu o contestei no texto Elio Gaspari se candidata a censor da campanha eleitoral. E demonstrei que os tucanos não haviam “atribuído” coisa nenhuma a Dilma. Ela, de fato, defendera a legalização do aborto mais de uma vez. Pois bem: o companheiro não se deu por vencido e voltou hoje à carga. Está entre aqueles que decretaram, com certa precocidade, a derrota humilhante de Serra. Caso o tucano vença, é Gaspari quem perde — aliás, a fila é gigantesca! Perde o quê? A pose! A simples realização do segundo turno já desmoralizou muitas pitonisas… Hoje ele resolveu escrever um pouco mais. Então vai um vermelho-e-azul com ele. Começo pelo título.

O debate do aborto, Miriam Cordeiro 2.0
É mentira!

VINTE E UM ANOS depois da noite em que Mirian Cordeiro, a ex-namorada de Lula, surpreendeu o país acusando-o de ter sugerido que abortasse a criança que viria a ser sua filha Lurian, a palavra maldita voltou à agenda da sucessão presidencial. Em 1989 a questão do aborto foi fertilizada pelo comando da campanha de Fernando Collor. Desta vez, reapareceu com o mesmo formato oportunista, trazida pela infantaria do tucanato. Nos dois casos, ninguém mostrou-se interessado em discutir o assunto ao longo dos meses anteriores à eleição. O propósito, puramente eleitoral, sairá da agenda depois do dia 27. Até lá, terá emburrecido o debate, rebaixado a campanha e tisnado a biografia dos beneficiários da baixaria.
Vamos ver: quem achou Mirian Cordeiro foi o agora lulista Fernando Collor. Quem encontrou o tema do aborto e o transformou numa questão TAMBÉM ELEITORAL — como é em qualquer país do mundo — foi, literalmente, a sociedade. Não toda ela, que isso não existe, mas as várias confissões cristãs. Os tucanos não moveram a vontade dos católicos e evangélicos como Collor moveu a vontade de Mirian Cordeiro. Trata-se de uma mentira grotesca.

Também é mentira que o debate não estava dado: esquentou com o Programa Nacional-Socialista de Direitos Humanos, que trazia a legalização do aborto como um… direito humano. E, como confessa um representante de Dilma no post acima, ali estava o programa da própria Dilma, já que o texto fora elaborado na Casa Civil.

Gaspari tem de apurar melhor as informações. Tanto houve mobilização contra o PNDH3 que o governo se viu obrigado a recuar nessa e em outras questões, ainda que de modo um tanto malandro. Caso o colunista decida pôr o fígado de lado para se ater aos fatos, encontrará críticas severas do tucano José Serra ao plano — especialmente  à inclusão da legalização do aborto.

Então ficamos assim: a) é mentira que os tucanos tenham lançado a questão; b) é mentira que ninguém estivesse debatendo o assunto antes. Quanto ao emburrecimento do debate, vamos ver o que Gaspari acha inteligente.

Há 19 anos tramita na Câmara um projeto que dá à mulher o direito de interromper voluntariamente uma gravidez. Em 2008, por unanimidade, ele foi rejeitado na Comissão de Seguridade Social e Família. Pelo andar da carruagem, se não morrer antes, levará anos para chegar ao plenário. Se e quando isso acontecer, caberá ao Congresso decidir.
Faltam algumas coisinhas aí: foi derrotado, sim, apesar da mobilização dos petistas, em particular de José Eduardo Cardozo, coordenador da campanha de Dilma Rousseff. A decisão cabe ao Congresso, mas a influência do chefe do Executivo em qualquer matéria votada no Parlamento é grande. Isso é o de menos: o importante é que os eleitores têm o direito de saber o que pensam aqueles que se candidatam a governá-los.

Flertando com a transformação do aborto numa “bala de prata” eleitoral, o tucano José Serra expôs sua posição: “Nunca disse que sou contra o aborto porque eu sou a favor, ou melhor, nunca disse que sou a favor, porque sou contra”. Em seguida, expôs a ferida petista: “O que está em questão nessa campanha não é ser contra ou a favor. É a mentira”. O comissariado petista e Dilma Rousseff defenderam programática e pessoalmente a descriminalização do aborto.
“Bala de prata” é uma expressão empregada por Dilma Rousseff, depois de ter sido lançada como uma espécie de palavra de ordem por Giberto Carvalho. Ele dizia que a o “caso da Receita” era a bala de prata. Gaspari tenta transformar uma confusão normal da fala num ato falho. Não cola! A questão — e Serra, como até Gaspari nota, foi ao ponto — é outra: se Dilma era favorável à descriminação até abril do ano passado, por que diz ter mudado de idéia? A resposta é óbvia, não? Percebeu que o eleitorado pensa outra coisa.

Chegou-se a um conflito de oportunismos. O dos tucanos, que só lembraram do assunto na reta final da campanha, e o dos petistas que, na mesma reta, mudam de opinião.
O colunista, embora anti-Serra, esforça-se para parecer isento, acusando o oportunismo de ambos os lados. Como não conseguiria dizer onde está o oportunismo do tucano, acaba, na prática, privilegiando Dilma. O candidato do PSDB, reitero, já havia criticado duramente a inclusão da legalização do aborto no PNDH3. Já havia se declarado, também, contrário à legalização. De fato, confissões cristãs se mobilizaram — PROVOCADAS, ORIGINALMENTE, PELO PNDH3, REITERO. E se cobrou do candidato uma posição. O que Gaspari esperava que ele fizesse? Que não dissesse o que pensa para não deixar Dilma chateada? O oportunismo, no caso, é de um lado só.

Afora o oportunismo, o nível da discussão abortou a inteligência. Dilma Rousseff disse que “as mulheres ricas têm acesso a clínicas, mulheres pobres usam agulha de tricô”. Propagou a lenda produzida pelo filme “Pixote”, de 1981. Mesmo há 30 anos essa prática era desprezível. Hoje, nem pensar. A forma mais comum de aborto se dá com o uso da droga Cytotec. Em tese, sua comercialização é proibida. Na prática, custa em torno de R$ 400 e pode ser comprada pela internet. Estima-se que, de cada dez abortos, sete sejam feitos com Cytotec.
Como se nota, nesse caso, Gaspari não conseguiu encontrar o “aborto da inteligência” do tucano. Quem resolveu dramatizar foi a petista. Mesmo num trecho tão crítico, o colunista ainda atua como o Grilo Falante de Dilma — depois de ter sido a Fada Sininho de Lula por oito anos. A candidata recorre a essa retórica terrorista, sanguinolenta, como ARGUMENTO, SENHOR GASPARI, para defender a legalização do aborto de modo oblíquo. Tal horror a justificaria. A imagem da agulha, diga-se, é a preferida dos grupos pró-aborto.

Em 1990, o professor Laurence Tribe, de Harvard, publicou um livro intitulado “Aborto – O Choque de Absolutos”. (Entre os seus pesquisadores estava um estudante de direito chamado Barack Obama.) Tribe mostra que o aborto divide as sociedades e, sem uma certeza religiosa, não há como sair do debate seguro de que um lado está certo e o outro, errado. O aborto não é apenas uma questão de saúde pública, como a dengue. Trata-se de um conflito entre o direito do feto à vida e o direito da mulher à liberdade de interromper sua gravidez. (Sempre até o terceiro mês da gestação.)
Huuummm… Bem, então é um debate pertinente, certo? Há os que, como Dilma, se alinham com o “o direito da mulher à liberdade de interromper sua gravidez”, e há aqueles — como Serra, este escriba e, estou certo, a esmagadora maioria dos brasileiros — que se alinham com o “direito do feto à vida”. Trata-se de uma escolha moral. Eleição é um bom momento para fazer esse debate. A militância do PT em favor do aborto é histórica. Que vá para o confronto de idéias, ora essa!

Em 1973, a Corte Suprema dos Estados Unidos decidiu, por sete a dois, que as mulheres têm esse direito. No mesmo dia, julgaram dois casos. Uma das mulheres abortou. A outra perdeu o prazo e concebeu uma menina. Passaram-se 37 anos, a mãe mudou de idéia e tornou-se uma militante contra o aborto. A filha defende a decisão da Corte, que teria evitado seu nascimento.
Huuummm… E daí?

No Brasil de hoje é improvável que o Supremo Tribunal Federal reconheça o direito das mulheres de interromper a gravidez. Também é improvável que o Congresso vote uma lei nesse sentido. A candidata Marina Silva, a única a expor uma posição que faz sentido, é contra o aborto, mas remeteria a questão a um plebiscito, no qual a proposta dificilmente seria aprovada.
Comecemos pelo fim: se, dificilmente, seria aprovada, então a maioria dos brasileiros deve ser contra — maioria que tem o direito de saber qual é a opinião daqueles que pretendem governá-la. Quanto a Congresso e Supremo, Gaspari está apenas chutando. No que respeita a Marina, longe de fazer sentido, sua posição é a do descompromisso.

Sobrou o lixo: a instrumentalização do tema para satanizar adversários políticos. Collor fez isso com rara maestria.
Atribuir a Dilma o que ela realmente pensa é satanização? Por quê? Lixo é afirmar, por exemplo, que o adversário político vai privatizar estatais quando se sabe que isso é mentira. Satanização é acusar um governo de fazer “privataria” quando não se tem em mãos uma miserável prova de irregularidade. Ao contrário: tem-se a evidência da lisura do procedimento.

A baixaria circula na campanha presidencial de um país onde a rede pública de saúde do estado de São Paulo mantém, desde 1986, o Programa de Atenção Integral à Adolescente. Para júbilo internacional, entre 1998 e 2008 a internação de adolescentes por conta de abortos caiu de 10 mil por ano para 8.700. Mais: a gravidez de jovens de 10 a 20 anos caiu 38%, para 94 mil. Reduziu-se à metade os casos de segunda gravidez nessa faixa de idade.
E, não obstante, a saúde em São Paulo é satanizada pelo PT sob o silencio cúmplice de certo colunismo, não é mesmo?

Gaspari está bravo porque o aborto virou tema, como ele gosta de dizer, do “andar de baixo”. Enquanto dizia respeito a gabinetes ministeriais, militância feminista — a Secretaria das Mulheres e o Ministério da Saúde se tornaram centros de proselitismo em defesa da prática — e descolados em geral, tudo bem! Mas esse é um daqueles temas que teriam de ser mantidos longe do “povão”. “Povão” é para receber cartão do Bolsa Família, encher a pança na birosca da esquina, votar no PT e ficar de bico calado, certo?

Por Reinaldo Azevedo

03/10/2010

às 6:43

Elio Gaspari se candidata a censor da campanha eleitoral

Elio Gaspari, sabido como sempre; íntimo, como de hábito, das intenções dos mortos se vivos estivessem – o que o faz freqüentemente intermediar e-mails do além -, escreve hoje:

A FALTA DE RUTH
Se Ruth Cardoso estivesse viva, a charanga do tucanato não teria tomado o caminho da baixaria que atribuiu a Dilma Rousseff a defesa da legalização do aborto. Ela nunca se associou a esse tipo de tática eleitoral. Vale lembrar que seu marido também nunca jogou esse jogo.”

A Fada Sininho já bate as asinhas para proteger Dilma Rousseff. Comecemos do começo. “Baixaria” é um jornalista faltar a um compromisso básico com os leitores: falar a verdade. Dilma defendeu a descriminação do aborto em entrevistas várias. É fato. Então tá bom. Segue o vídeo de novo. Gaspari reconhece o jornal?

Para quem acha que existe diferença, na fala de Dilma, entre “descriminação” e “legalização”, então segue o trecho da entrevista à Marie Claire, de abril de 2009, posterior ainda àquela da Folha:

MC Uma das bandeiras da Marie Claire é defender a legalização do aborto. Fizemos uma pesquisa com leitoras e 60% delas se posicionaram favoravelmente, mesmo o aborto não sendo uma escolha fácil. O que a senhora pensa sobre isso?
DR –
Abortar não é fácil pra mulher alguma. Duvido que alguém se sinta confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização. O aborto é uma questão de saúde pública. Há uma quantidade enorme de mulheres brasileiras que morre porque tenta abortar em condições precárias. Se a gente tratar o assunto de forma séria e respeitosa, evitará toda sorte de preconceitos. Essa é uma questão grave que causa muitos mal-entendidos.

O que o parceiro de Eremildo chama de “baixaria”, tentando falar em nome de Dona Ruth? O aborto? A opinião de Dilma? A suposta mudança de opinião de Dilma? Ou o fato de que isso tudo, afinal de contas, é notícia? Curiosa a abordagem do colunista. Tão chegado a evocar questões exemplares da democracia americana para submeter ao calor tropical de Pindorama, como ele diz naquele seu estilo, por que o aborto não pode ser tema de uma campanha eleitoral? É tema nos EUA e no mundo inteiro.

Alguns são favoráveis à legalização; outros são contrários. E alguns são a favor e depois passam a ser contra para, como é mesmo?, conquistar os votos da “patuléia”, mentindo para ela se for necessário.

Isso não pode
Parece só uma bobagenzinha de Eremildo? Mas não é! Essa é uma tentativa de cercear o debate. Falar do passado de Dilma? Ah, só se for para ela se orgulhar de seus “irmãos de armas” (como diria Dirceu), a exemplo do que fez no discurso em que admitiu a candidatura. Aí a sua militância em favor da ditadura comunista pode ser evocada como traço distintivo e exemplo de sua moral superior. Mas lembrar que as organizações terroristas a que ela pertenceu mataram inocentes é uma baita “baixaria”. Deve-se também chutar o traseiro dos familiares dos mortos? Também eles são desaparecidos: DESAPARECERAM DA HISTÓRIA.

O Imposto de Renda de tucanos é pego com a turma que está fazendo a campanha de Dilma? Sim, não é lá coisa muito bonita, mas ninguém deve falar a respeito porque devemos pensar em campanhas substantivas, sem essas “baixarias”.

Descobre-se um verdadeiro propinoduto na Casa Civil? Que não se explorem essas coisas porque pode parecer uma tentativa desesperada de ganhar a eleição, e o eleitor não está interessado nessa “troca de acusações” – como se houvesse o que “trocar” nesse caso; afinal, os petistas acusam os tucanos, nesse episódio, exatamente do quê?

Aliás, a evocação de Dona Ruth vem bem a calhar. Pouco tempo antes de morrer, uma das pessoas mais corretas que já pisaram em Brasília teve seu nome envolvido numa baixaria – esta, sim, uma “baixaria” – perpetrada na Casa Civil: foi vítima de um dos dossiês petistas.

Quando a coisa vazou, a então ministra Dilma telefonou para Ruth afirmando que aquilo era inaceitável, que ignorava tudo etc e tal. Dias depois, apareceram na lambança as digitais de Erenice Guerra, sua então secretária-executiva e que jamais daria um passo sem autorização da chefia. Ou seja: as digitais eram de Dilma, aquela que havia ligado havia pouco para Ruth…

Elio Gaspari gosta de campanhas elevadas. Para tanto, cobra dos adversários de Dilma que tenha a grandeza de preservá-la de sua própria biografia.

Por Reinaldo Azevedo

03/09/2010

às 6:45

Gaspari, o alter ego de “Eremildo, o Idiota”, não gosta da oposição. E isso é verdade desde o regime militar! Ou: a Fada Sininho de Lula quer ser o Grilo Falante de Dilma

Na quarta-feira, Elio Gaspari, o alter ego de “Eremildo, o Idiota”, escreveu um artigo na Folha intitulado “Quando a oposição perde, apita: PRIiiiiii!”. Decidi escrever a respeito, naquele dia mesmo, até anunciei, mas a tarefa que me impus foi ficando pelo meio do caminho, atropelada por eventos que evidenciavam tudo o que o Aiatoélio negava em seu texto. Como ele é dono de um estilo que se pretende insinuante nas idéias e fartos nos exemplos históricos, terei de optar  pelo já tradicional “Vermelho e Azul”. E começo pelo título.

“Quando a oposição perde, apita: PRIiiiiii!”
O título já deixa claro que Elio está escrevendo um texto, e a primeira linha do artigo o evidencia, contra a “oposição brasileira” de qualquer tempo. É compatível com a sua trajetória profissional. Ele é o medalhão mais governista, não importa o governo, de que  tem notícia o jornalismo brasileiro. De fato, combateu até hoje todas as oposições, em especial a oposição ao Regime Militar. Antes de ser alter ego de Eremildo, foi alter ego de Golbery do Couto e Silva e de Heitor de Aquino Ferreira, por exemplo. Nunca ninguém defendeu o ciclo militar com tanto brilho. Nesse sentido, a sua trilogia sobre a ditadura, vazada em tom às vezes crítico, não faz justiça a seu passado.

Nos anos FHC, arrumou ali uma pinima ou outra com o que chamou “ekipekonômica”, pondo sempre a sua notável ignorância em economia a serviço de mistificações, mas não chegou a ser exatamente um entusiasta da oposição — a não ser quando já não havia dúvidas de que o PT seria o vitorioso. Aí ele ficou mais enfezado. Não porque houvesse mudado. Governista que é, só estava usando seus dons antecipatórios. E já faz isso de novo, vocês verão.

QUANDO A OPOSIÇÃO brasileira é devastada pelo resultado eleitoral, alguém apita: “PRIiii!”. É um grito de advertência contra o perigo da instalação de um regime de partido único (de fato) no Brasil. Algo parecido com a coligação de políticos, burocratas, sindicalistas e cleptocratas que governou o México de 1926 a 2000, boa parte do tempo sob a sigla do Partido da Revolução Institucionalizada.
Como se nota, é um texto contra “a oposição”, qualquer uma. Gaspari é como Lula, que combate até a oposição no Irã… A síntese que ele fez acima foi do PRI, mas parece do PT: “coligação de políticos, burocratas, sindicalistas e cleptocratas”.

O apito de PRI costumava soar depois da eleição. Agora ele veio antes, com um inoportuno componente de derrotismo. Ele soou em 1970, quando a popularidade do general Médici e os camburões da polícia esmagaram o MDB. A oposição ficou com 87 das 310 cadeiras da Câmara, perdendo até o terço necessário para requerer uma CPI. O governo elegeu 42 senadores, perdendo apenas no Rio de Janeiro e na antiga Guanabara. Era o PRI. Quatro anos depois, o MDB elegeu os senadores em 16 dos 22 estados. Não se falou mais em PRI.
É mentira! Cadê os textos apontando a “PRIização” da política brasileira em 1970? Esse debate nem mesmo existia naquele tempo — aliás, não existia debate nenhum dessa natureza. Por que ele não cita as suas fontes? Como Gaspari quer desqualificar o debate presente para exaltar as glórias do governo, como sempre faz, apela a um suposto fato do passado, que não pode ser verificado. Aliás, a sua trilogia sobre a ditadura — exaltada como “coisa de historiador” (pfuuiii) — é prenhe desse procedimento: com o que sabe do presente, ele recua no tempo para encontrar causalidades improváveis, motivações não-comprovadas e paralelos descabidos.

E notem que minha informação sobre o seu contumaz governismo se revela. Segundo diz, “a popularidade do general Médici e os camburões da polícia esmagaram o MDB”. O alter ego de Eremildo acha que popularidade e camburão, embora levemente antitéticos, se davam por justaposição. Não lhe ocorre, naturalmente, que o camburão pudesse ter alguma coisa a ver com a popularidade… Ele é, afinal, um governista em 1970 e em 2010.

Em 1986, cavalgando o Plano Cruzado, o PMDB de José Sarney elegeu 22 governadores, 36 senadores e a maioria dos deputados. Novamente: PRI! Três anos depois Fernando Collor de Mello elegeu-se presidente da República e, desde então, o apito calou-se, para voltar a ser ouvido agora.
Não se falou de PRI em 1986 coisa nenhuma! Cadê? Como não se falou em 1970. E por uma razão bastante simples, que as primeiras linhas de seu texto desmentem. O que é mesmo o partido mexicano? Gaspari responde: “coligação de políticos, burocratas, sindicalistas e cleptocratas”. Políticos, burocratas e cleptocratas, vá lá, estão sempre presentes em qualquer governo. Mas nem os militares nem Sarney reuniam a cleptocracia sindical, sem a qual não há como gritar “PRIiii”

Este escriba fala da vocação do PT para PRI antes mesmo de ele vencer as eleições de 2002. Por quê?  De fato, aquelas categorias estão abrigadas no PRI, mas não são suficientes para definir o processo de PRIização da política. Este se realiza quando um partido se oferece para tomar o lugar da sociedade — no México, foi o PRI; no Brasil, é o PT. E como isso se opera? Por meio do já conhecido aparelhamento do Estado — de que os eventos da Receita são só os exemplos mais recentes —, mas também por meio do aparelhamento da sociedade. O “partido”, como ente de razão, espalha as suas células nas organizações e entidades da sociedade civil, nas escolas, nos sindicatos (claro!), nas igrejas (e como!), de modo que nada exista fora de seu alcance e, de algum modo, de seu controle. Gaspari precisa estudar mais. Não basta ficar elencando fatos e contando historinhas exemplares. É preciso entender o sentido da história, dedicar-se ao estudo das idéias. Se quiser, indico bibliografia. E uma nota à margem: com certeza absoluta, saiu ao menos um artigo na Folha falando em risco de “PRIização” quando FHC se reelegeu.  Tratava-se, claro, de um erro. Quem já estava aparelhando estado e sociedade, inclusive os fundos de pensão, era o PT.

Mas sigamos. O alter ego de Eremildo pretende agora ter encontrado dois exemplos matadores, daqueles que deixam o interlocutor sem fala. Mas Tio Rei é do tipo que não se deixa intimidar por Aiatoélio. Ele não me detesta sem motivo.

Falar em PRI no Brasil quando o PSDB caminha para completar 20 anos consecutivos de poder em São Paulo é, no mínimo, uma trapaça. Sabendo-se que o PT conformou-se com uma posição subsidiária nas eleições para governadores, o espantalho torna-se risível.
Trapaça é a argumentação de Gaspari. Ninguém ainda disse: “O PT é o PRI”. O que se tem debatido, um debate legítimo e correto, é o risco de “PRIização”, é o processo que está em curso, de que São Paulo entra, sim, como nota dissonante, mas também como palco exemplar de uma batalha. A máquina eleitoral do governo federal atua no estado com força inédita. Derrotar os tucanos virou uma questão de honra — e eu mesmo já escrevi aqui, como vocês sabem, que o PT jamais considerará completa a sua vitória enquanto isso não acontecer.

A PRIização está, por exemplo, em utilizar a máquina sindical controlada pelo partido para produzir fatos eleitorais, como fez a Apeoesp, o que rendeu até multa do TSE. A PRIização está na criação, pelo partido, de um “movimento antipedágio” disfarçado de organização social. A PRIização está na tentativa de politização das polícias, excitando o conflito armado nas ruas. A PRiização está na sabotagem sistemática de todos, sem exceção, programas do governo do Estado, até o que prevê duas professoras para os alunos na fase de alfabetização. Foi com essas ações que Mercadante construiu a sua plataforma no Estado.

Sei não… Segundo os meus estudos, Gaspari tinha mais acuidade no tempo em que defendia os governos da ditadura. Para negar a vocação do PT para PRI, escreve que o partido “conformou-se com uma posição subsidiária nas eleições para governadores”. Ora, se ele mesmo chama isso de “conformar-se”, deve entender que é uma escolha. E a escolha deve atender a algum objetivo estratégico. Não! O PT não “escolheu” perder nos estados; ele escolheu fazer uma aliança gigantesca para derrotar a candidatura de oposição porque, no federalismo chinfrim brasileiro, o que importa é o poder central; o resto se arranja. Mas que se note: a PRIização convive muito bem com os poderes locais, desde que subordinados.

É nessa hora que se deve olhar para o espantalho. Ele não é o que quer o tucanato abichornado, mas o paralelo histórico tem algo a informar.
“Abichornado”? Quando a Fada Sininho de Lula quer ser irônica, ela pode ficar agressiva… Atenção que Gaspari se prepara agora para escrever o texto mais petista de sua carreira. Governista compulsivo, ele já se prepara para exaltar as glórias da companheira Dilma Rousseff.

O PRI surgiu depois de uma revolução durante a qual mataram-se três presidentes e desterraram-se outros dois. Seu criador não foi Emiliano Zapata, muitos menos Pancho Villa (ambos passados nas armas), mas um general amigo dos sindicatos e dos movimentos sociais. Chamava-se Plutarco Elias Calles, assumiu em 1924, saiu em 28 e governou até 1935 por meio de prepostos, fazendo-se chamar de “Jefe Máximo”. Esse período da história mexicana é conhecido como “Maximato”. A boa notícia para quem flerta com um Lulato é que Calles parece-se com Nosso Guia na política voltada para o andar de baixo e até mesmo fisionomicamente, sem barba.
Você encontra essa leitura da revolução mexicana na Wikipedia, inclusive a tal foto. Atenção para o que vem agora.

A má notícia vai para a turma do mensalão. Um dia “El Jefe Máximo” teve uma idéia e decidiu entregar o poder ao companheiro de armas Lázaro Cárdenas. Encurtando a história, Cárdenas dobrou à esquerda, exilou meia dúzia de larápios do “Maximato”, inclusive um ex-presidente e, em 1936, despachou o próprio Calles, que ralou cinco anos de exílio.
Entenderam? Na fantasia do alter ego de Eremildo, o Idiota, Lula está para Calles como Dilma pode estar para Cárdenas. O que a Fada Sininho de Lula, agora candidata a Grilo Falante de Dilma, está dizendo é mais ou menos isto: “Vai, companheira, dobra à esquerda e pega os larápios que o Lula não conseguiu pegar”. Gaspari, como se nota, prevê uma Dilma mais moralista; ela seria uma “má notícia” para a turma do mensalão. Nem diga! Zé Dirceu já pensa em pedir refúgio, desta feita nas Ilhas Cayman.

O que está aí para todo mundo ver é o Lulato, com Nosso Guia pedindo votos para sua candidata e uma grande parte do eleitorado, consciente e satisfeita, dizendo que atenderá com muito gosto ao seu pedido.
Gaspari sabe que a massa está satisfeita, claro! Mas ele também a considera “consciente” — o que faz supor que, se não eleger Dilma, então é inconsciente. Eu não estou entre aqueles que saem por aí apontando a necessidade de “conscientização” das pessoas, velho mito esquerdopata. Mas é preciso apontar que, em seu ódio histórico à oposição —  não importa qual —, o que Gaspari pretende é desqualificar qualquer crítica que se possa fazer ao governo Lula ou à candidata oficial.

Um país com a sofisticação econômica do Brasil, com a qualidade da sua burocracia e com o vigor de suas instituições democráticas não cai nas mãos de um PRI qualquer. Apitando-se, faz-se barulho, e só. O problema da oposição brasileira, com sua vertente demófoba, chama-se Lula, “El Jefe Máximo”, que o embaixador Celso Amorim chamou de Nosso Guia e Dilma Rousseff qualificou como o “grande mestre, ele nos ensinou o caminho”.
Gaspari ainda vai tomar o lugar de Palocci, enviado especial de Dilma aos mercados  e aos “conservadores”. Paloccii, como se sabe, ele mesmo um notório respeitador de  sigilos… Uma ova! Lula pode ser, sim, um “problema” da oposição, mas não pelo motivo sugerido por Gaspari, que aponta a suposta “vertente demófoba” — o que é de uma desonestidade intelectual estupenda, já digo por quê! É o exato oposto: Lula é um problema para a oposição em razão de sua (da oposição) “vertente demofílica”, o que a levou a combater os arreganhos autoritários do governo de maneira tímida, acanhada, envergonhada até, como se Lula fosse, de fato, como quer Gaspari, a encarnação do próprio povo. Não é! Lula é uma construção que tem história, que remonta, no mínimo, aos 200 anos que o precederam. As dificuldades da oposição não se devem a seu combate a Lula, mas à falta de combate.

Mas eu entendo os motivos desse gigante. Gaspari não deixa de ser uma nota de rodapé da mistificação petista, com suas tolices sobre privataria, andar de baixo, andar de cima e afins. Já afirmou bobagens garbosas sobre programas do governo que não deram em nada, embora ele vislumbrasse grandes auroras. Governista, sempre governista!

Acusar de “demófobo” aquele de quem se discorda é querer vencer a disputa no terreno da moral de propaganda. Aquele que o faz, num ato de covardia intelectual suprema, usa o “povo” para se proteger. Assim, a gente não discorda de Gaspari porque seus argumentos são ruins, mas porque a gente não gosta do povo. Qual é? Pode-se suportar uma tolice dessas num garoto, não num velho! Ou será ele candidato a Comissário Colunista do regime? Boa sorte! Mas a concorrência é grande!

Encerro observando que Gaspari distorce e rebaixa o debate sobre o risco de PRIização da política ao tentar reduzi-lo ao mero debate sobre quantos deputados, senadores e governos de Estado o PT pode fazer. A questão é outra. O que tem de ser pensado é a escala da degradação das instituições no país, de que os descalabros da Receita são apenas uma evidência. Nesta sexta, fazendo jornalismo — e não genuflexão —, o Estadão demonstra quão longe chegou o órgão na farsa para tentar encobrir um crime político. Caso Dilma vença as eleições, virá o debate sobre, como é mesmo?, a “democratização da mídia”. Gaspari deve estar satisfeito. Vai ver ele também quer submeter a “mídia” aos ditames do Lázaro Cárdenas de saias.

*
PS – Há uns vagabundinhos aí me atacando em blogs e sites etc. e tal. Eles próprios devem me mandar os textos — já que leitores não têm — na esperança de que eu os torne idiotas célebres. Esqueçam! Só bato em quem tem tamanho pra apanhar. Ao que Celso Amorim diria: “Mentiiiiraaaa!!!” Ihhh, acho que essa pancada em Amorim ficou “fora do contexto”… Tudo bem! Sempre será por bons motivos. Faço-o em nome dos apedrejados  e dos enforcados do mundo.

Por Reinaldo Azevedo

17/06/2010

às 6:25

MORALIZA O CRONISTA NOS OCIDENTES DO SOL A FÁBULA IMORALISTA DE “EREMILDO, O IDIOTA”

O paralelismo é um método de argumentação muito próprio do gênero ou subgênero didático, daí que seja habitualmente empregado nas fábulas e na literatura religiosa, como exemplificam amplamente os Evangelhos. Seu objetivo é chegar a uma “moral da história”, que possa, de preferência, ser traduzida numa sentença de amplo espectro, generalista. Ninguém lê a fábula do cordeirinho que foi beber água no rio freqüentado pelo lobo, embora ele tenha tido o cuidado de fazê-lo correnteza abaixo, porque considere a narrativa plausível. Afinal, um bichinho tão esperto nas leis da física não tinha o direito de ser tão estúpido na lei dos lobos. O fabulista não pretendeu contar essa história besta.

Ele queria ser exemplar ao expor a máxima de que o mais forte, vencido pela força do argumento, pode recorrer ao argumento da força. As parábolas de Jesus não valem pelos fatos em si, mas pelo norte moral que enunciam. O paralelismo é uma história-metáfora, uma alegoria. A boa alegoria traz mais do que uma verdade estrutural; traz uma verdade estruturante, que ajuda a arrumar o pensamento. Anteontem (pois é, ontem, Tio Rei levou uma vassourada da bruxa…), Elio Gaspari resolveu ser parabólico, enveredar pelo terreno do paralelismo, e produziu uma peça triste do subgênero didático.

Já cheguei a supor que, às vezes, Gaspari saía para tomar café, e Eremildo, que tem “O Idiota” por alcunha, assumia o seu lugar, como os amigos faziam com Nelson Rodrigues. Descarto hoje essa possibilidade em nome da hipótese político-psicanalítica. Eremildo não é nem mesmo o alter ego de Gaspari, seu “outro eu”, eventualmente mais verdadeiro do que o original. Não! Tornou-se o seu superego, o seu censor. Eremildo está se tornando o patrulheiro do colunista, levando-o a escrever textos muito próprios daquele isentismo dos… partidários neutros do PT!!! Por que isso?

Vejam o que Gaspari escreve em sua coluna (ele vai em vermelho; eu, de azul):
(…)
Multado quatro vezes pela Justiça Eleitoral, Lula está numa situação semelhante à de Diego Maradona na Copa de 1986, durante o jogo contra a Inglaterra.
Aos seis minutos do segundo tempo, o craque (1,65 m) subiu na pequena área, disputou uma bola com o goleiro Steve Hodge (1,85 m) e marcou. Maradona não cabeceou. Mais tarde, atribuiu o gol à “mão de Deus”. Se tivesse ficado nisso, teria entrado para a história das infâmias esportivas. Quatro minutos depois, pegou a bola no campo argentino e correu 60 metros em dez segundos, driblando seis ingleses, inclusive o goleiro.
Esse gol, considerado o melhor da história do futebol, levou-o à glória, e “a mão de Deus” tornou-se uma vinheta de pé de página. (Registre-se, com o depoimento do próprio Maradona, que teria sido fácil para os ingleses derrubá-lo com uma falta. Ele deveu o êxito a um respeito a regras que violara.)
Como vocês hão de verificar na seqüência, Gaspari usará a história acima como um paralelismo. Por intermédio dela, vai tentar nos dizer alguma coisa, chegar a uma sentença, esclarecer questões que dizem respeito a outro universo — no caso, o da política. De todo modo, o que vai acima já merece uma reflexão.

O jogador fez um gol porque desrespeitou o oponente. E fez o outro porque seus oponentes o respeitaram. Como quer Gaspari, um fato virou nota de rodapé na história; o outro pertence à galeria dos feitos memoráveis. Não por acaso, o ato fabuloso é aquele que estava de acordo com a norma; o outro entra como mácula na carreira do jogador. Mas o colunista não queria discutir futebol, assim como o fabulista não quis contar a história do cordeiro abestalhado. Gaspari pretendia extrair lições totalizantes do fato paralelo. Vamos ver.

Se Dilma Rousseff for eleita, Lula terá feito a campanha do século. Se perder, será um manipulador fracassado e ela, um poste perdido.
Segundo entendi, então, ele nos diz que Lula está fazendo gol de mão ao reincidir em crimes eleitorais, que vêm resultando numa cascata de multas. Caso, no entanto, eleja Dilma, estará fazendo um golaço, como aquele de Maradona, uma verdadeira pintura. E, seguindo a avaliação que fez sobre o jogador argentino, o malfeito ficará para trás, e só a glória espreitará o craque brasileiro.

Já há duas falhas relevantes no raciocínio do fabulista amador. O segundo gol de Maradona, o feito notável, não deriva do primeiro, o de mão. Já a ascensão de Dilma Rousseff, sua eventual vitória, é função das reiteradas faltas de Lula. Mesmo no mundo esportivo, o tento irregular não deve ser tratado como algo irrelevante. A Argentina venceu a Inglaterra por 2 a 1. Agora o fabulista vai falar sobre José Serra, ainda recorrendo ao futebol como metáfora.

José Serra chegou ao jogo com a popularidade de Neymar e, em poucas semanas, passou a comandar uma campanha interessada em cavar faltas. Pode-se garantir que Maradona jamais passaria por uma defesa que reunisse Delúbio, Gushiken e José Dirceu. Neymar sofre faltas verdadeiras, mas nenhum time ganha campeonato cavando penalidades. Parece difícil que Serra consiga chegar ao Planalto impulsionado pelo estrondo de dossiês.
O que o superego de Gaspari chama de “cavar penalidades”? Acusar a existência de dossiês? Até outro dia, a petezada dizia que o papelório nem existia. Tudo não passaria de um livro escrito por um ex-jornalista metido a araponga. A Folha de S. Paulo, que Eremildo precisa ler, trouxe a notícia de que há, sim, dossiê — um outro, não só aquele do tal ex-jornalista —, que contém a quebra do sigilo fiscal de Eduardo Jorge Caldas Pereira. O assunto rendeu até um editorial do jornal do jornal no qual Gaspari escreve.

Há verdadeiros tratados sobre a metáfora. A origem da palavra está ligada à idéia de “transportar”: uma palavra “transporta” o sentido de outra. A figura só é possível quando se estabelece uma relação entre o “objeto ou situação A” e o “objeto ou situação B”. Atenção para esta seqüencia e seu desfecho.

O que quer dizer “cavar pênalti” no futebol? À diferença do que possa pensar Gaspari, um pênalti cavado não é um pênalti falso. Sabendo que há um zagueiro cabeça-de-bagre no time adversário, um atacante pode decidir fazer uns dribles a mais na área para provocá-lo. O outro, irritado com a sua própria falta de talento, vai lá e “pimba!”: penalidade máxima! Seria este o Serra da parábola de Eremildo?

O que o tucano vinha fazendo de tão irritante na área adversária a ponto de provocar (“cavar”) a brutalidade dos zagueiros? Eu respondo! ELE EXISTE! Basta que um adversário exista e que seja viável eleitoralmente, e os defensores do petismo podem aplicar o famoso carrinho por trás, com a chuteira levantada à altura da canela do oponente. Entram para quebrar as pernas mesmo.

“O Idiota”, como se nota, repete Lula e, pelo visto, avalia que Serra está caindo demais na área. O tucano passa a ser, assim, quando menos, co-responsável pela estupidez do adversário. No terreno das metáforas, Gaspari está culpando a minissaia da moça pela tentativa de estupro: “Quem mandou provocar???” Gaspari, quem diria?, está dizendo que aquele cordeirinho estava mesmo a fim de provocar o lobo. Que importa que bebesse água correnteza abaixo?

(…)
Até agora, Lula conseguiu que “os russos” se comportassem como antevia o técnico Vicente Feola, mas isso não significa que a sopa dure até outubro. A resposta à “dúvida de Garrincha” está na “Crítica da Razão Dialética”, de Jean-Paul Sartre (assim como no balcão do botequim mais próximo): “Numa partida de futebol tudo se complica pela presença do outro time”.
Serra e Dilma têm mais algumas semanas para jogar seus próprios jogos, complicando a vida do outro, talvez em benefício da galera. Tomara que o futebol lhes ensine a calçar as chuteiras da humildade.
Os “russos” de Lula são seus adversários — no caso, Serra. Eremildo considera que o candidato faz o jogo do PT ao criticar a existência de dossiês — revelados, reitero, pela imprensa: um pela VEJA e outro pela Folha. Deveria fazer, então, o quê? Deixar prosperar a maledicência? Deixar avançar a mentira? Ficar exposto à delinqüência? Permanecer lá atrás, no campo de defesa, para não “cavar” faltas de zagueiros como Fernando Pimentel e Luiz Lanzetta? Trata-se de um raciocínio absurdo, estúpido.

Por que desmontar a parábola fajuta de Gaspari? Em primeiro lugar, porque ele está errado. Em segundo, porque aiatoélio se pretende uma espécie de Sócrates do colunismo, sabem?, reunindo alguns Fedros, Aristodemos e Pausânias para banquetes filosóficos. É, assim, um guia da “juventude”. Como a sua narrativa não me convenceu,  eu sou, nesta parábola, o Aristófanes a zombar de sua argumentação claudicante.

A coisa é séria
Ironia à parte, a coisa é séria. Não li até agora — pode ter me escapado — nenhuma reprimenda de Eremildo à Casa do Espanto em Brasília. Nada mesmo!  Ao se referir ao episódio, ele decide censurar a vítima? Vai além do razoável.

Aliás, a sua dedicação em desmoralizar qualquer crítica mais contundente à gestão Lula chega a ser comovente. Há dias, enroscou com Serra porque este acusou a conivência do governo boliviano com o tráfico de cocaína para o Brasil. Em seguida, ironizou os que afirmaram que o crescimento econômico havia revelado gargalos na economia.  Para Gaspari, tratar do assunto corresponde a não reconhecer os méritos do governo. Agora, aponta a culpa da vítima no caso dos dossiês.

O tratamento que Gaspari dispensa a Lula — “Nosso Guia” — é, a cada dia, menos uma ironia do que uma expressão de reverência. Sua fábula político-futebolística é imoralista.  Afinal, suas duas histórias — a de Lula e a de Maradona — têm a mesma não-moral: o que torna ou não um indecência digna é o resultado. Ou ainda: feio é fazer gol de mão e perder. Na vitória, a degradação se transforma em ascese espiritual.

Esopo concederia uma bolsa de estudos a Elio Gaspari. Para estudar fábula e Educação Moral e Cívica. Com essa conversa, Gaspari acaba corrompendo os jovens…

Por Reinaldo Azevedo

14/04/2010

às 5:37

ESTRADAS DA MISTIFICAÇÃO: O QUE EU DISSE E O QUE DISSERAM

Leram o texto acima, do Estadão, com aquela introdução que fiz? Pois é… Vocês sabem quem não me importo que lembrem as coisas que escrevi. Aliás, faço questão. Porque costumo lembrar o que os outros escreveram. Tenho memória boa. No dia 19 de outubro de 2007 (!!!), mandei ver sobre o modelo Dilma de privatização das estradas:

Na pantomima em curso sobre a superioridade do modelo petista de privatização de estradas – aquele que dará, se der, resultados dentro de uns 10 anos -, acreditem, os tucanos não conseguiram lembrar, por exemplo, que a segunda pista da Imigrantes, que leva ao Litoral, foi feita sem que o estado desembolsasse um tostão. Mas muito se fala do valor do pedágio. Jornalistas repetem bovinamente a pistolagem militante: vai-se pagar R$ 13,40 para andar 40 km na Imigrantes contra R$ 1,42 para transitar 100 km na (esburacada e assassina) Fernão Dias.
Quem já transitou na nova Imigrantes viu uma obra sem igual no Brasil e rara no mundo em segurança, engenharia e respeito ao meio ambiente. O caso nem sequer foi lembrado. Aliás, leiam as matérias, a quase totalidade pautada pelo PT, e tentem identificar qual é a porcentagem do texto dedicada à informação de que as estradas privatizadas em São Paulo nada devem às melhores do mundo.
Dilma Rousseff é um milagre da engenharia de estradas, já laureada pelo que ainda não fez. Agora, tentam transformá-la num milagre da engenharia política.

No dia 19 de outubro, fiz um outro texto, aí criticando um artigo de… Elio Gaspari. Eu já o aconselhava desde aquele tempo a parar com essa mania de usar a bola de cristal do Eremildo. E juro que o faço para o bem dele. Tivesse me escutado então, não teria previsto, dois anos mais tarde, o sucesso fabuloso de “Lula, O Filho do Brasil”…Assim eu apresentava um texto do articulista:Mas o que dizia ele sobre o Modelo Dilma? Isto:

Boa notícia: o eleitor cobrará pedágio

O TUCANO É UM animal estranho. Quando se discorda dele, repete a explicação. Afinal, se alguém ousa divergir, deve ter entendido mal.
Na semana passada, a empresa espanhola OHL arrematou cinco estradas federais num leilão de resultados surpreendentes. A concessão das rodovias saiu por cerca da metade do teto que a União aceitava. O tucanato odiou esse desfecho.
Dois hierarcas da equipe do governador José Serra criticaram o modelo seguido por Nosso Guia e previram o Apocalipse rodoviário. Carlos Dória, da Agência de Transporte do Estado, indicou que leiloará cinco estradas paulistas seguindo o tradicional modelo dos anos 90.
A principal diferença entre os dois métodos está nas luvas que São Paulo exige e o governo federal dispensa. Os tucanos que condenam esse caminho e o atribuem a Lula não fizeram a lição de casa ou, o que é mais comum, acham que os outros são bobos. Nosso Guia fez exatamente a mesma coisa que FFHH. Entre 1995 e 1997, o tucanato federal leiloou cinco concessões, entre as quais estavam a ponte Rio-Niterói e a Dutra. Foram ao martelo sem um ceitil de luvas.
Nunca será demais repetir que, se um cidadão viajar de Belo Horizonte para São Paulo, pagará à OHL R$ 1,42 para cada 100 quilômetros. Caso prossiga para o Rio, o pedágio sobe para R$ 7,58.
Não foi o governo federal quem fixou os pedágios baratos. Foram as empresas, na livre competição do mercado, que baixaram os preços. Se houvesse apenas dois interessados na Fernão Dias, um pedindo R$ 4,00 (o teto aceito pela União) e outro deixando os 100 quilômetros por R$ 3,99, o segundo ficaria com a concessão. A OHL ofereceu-se para operar a R$ 1,42 e levou-a.
No caso dos próximos leilões paulistas a situação se complica.
Primeiro, porque se o cidadão que veio pela Fernão Dias resolver ir a Santos, pagará R$ 13,10 para cada cem quilômetros. Certamente o governo de José Serra poderá destrinchar a oferta que fará ao mercado. Qual será o impacto das luvas sobre os pedágios? Assim, o sujeito saberá que pagará R$ 10, mas que 20% desse valor (pura hipótese) destina-se a novas obras. Trata-se de um imposto disfarçado, mas deixa pra lá.
Além disso, a patuléia poderá conhecer a taxa de retorno que o governo de São Paulo considerou razoável. Com um pouco de trabalho, pode-se desossar as cifras, de forma a tornar os dois sistemas tão comparáveis quanto possível. Estranho animal o tucano, cobra mais caro e ainda quer convencer a escumalha de que fazer comparações é coisa de imbecil.
Finalmente, um detalhe que foi decisivo nas últimas privatizações federais: qual a abertura para a entrada de empresas estrangeiras no leilão? Quando as sete rodovias vendidas por Nosso Guia estavam amarradas ao cartel de empreiteiras e concessionárias nacionais, a taxa de retorno andou em 18%, para não dizer 25%. Acabou em 9%.
Uma lei espanhola subsidia empresas que investem na América Latina. Para US$ 4 exportados, podem deduzir US$ 1 da base de cálculo de seu imposto de renda. O rei da Espanha subsidia, com dinheiro de seu tesouro, uma empresa do seu país para explorar a concessão de uma estrada no Brasil, cobrando pedágios baratos. Pode-se protestar, mas também pode-se sugerir que se mude o nome de uma estrada dessas para “Rodovia Rei Juan Carlos”.

Leitores petistas, claro!, me pedem que comente o novo panfleto de Elio Gaspari em defesa do modelo petista de concessão de estradas. Dizem que é uma resposta ao que escrevi. Não é. Trata-se de uma tentativa bisonha de contestar Carlos Alberto Sardenberg, que tratou do assunto no Estadão de anteontem. Temos, de fato, a mesma opinião. Embora o artigo de Sardenberg seja posterior ao meu e com idêntica conclusão, ele é melhor, mais técnico e mais rico em argumentos.
Gaspari escreve bem, sem dúvida. Mas não sabe fazer conta. Acha que pode substituir a lógica por diatribes vocabulares e gracejos. O título do texto já não deixa a menor dúvida: “Boa notícia: o eleitor cobrará pedágio”. Quando digo que seu artigo é panfleto eleitoral, não o é porque quero, mas porque Gaspari e a lógica querem. Observem:
- o modelo tucano é muito pior;
- o eleitor cobrará por isso, o que é “boa notícia”;
- a boa notícia da “cobrança” beneficia o PT.

O que mais me encanta é o misto de convicção e agressividade, que agora se revela CONTRA OS FATOS. Ok, Gaspari sempre poderá dizer que Dilma não aplicou direito o Modelo Dilma… No dia 14, antes do texto tresloucado de 17 de outubro de 2007, eu bem que tentei lhe dar a mão. Assim:

domingo, 14 de outubro de 2007 | 5:45

O PT e a ministra Dilma Rousseff não precisam fazer campanha política – quiçá eleitoral – com a privatização das estradas federais. Elio Gaspari faz por eles com muito mais competência e estilo, pondo a serviço dos companheiros o seu estoque de metáforas. Como sabemos, Gaspari resume a política a um conflito entre o andar de cima e o andar de baixo. É assim um Romeu Chap Chap da ideologia. Andou incomodando os petistas aqui e ali, é verdade, mas só o fez porque julgou que, no andar de baixo, estavam fazendo a política do andar de cima. Escreve na Folha e no Globo deste domingo um texto deplorável porque não vai além da propaganda. E, pior, desinforma o leitor. Seguem um trecho do texto e o link. Volto depois.

Na tarde de terça-feira concluiu-se no salão da Bolsa de São Paulo um bonito episódio de competência administrativa e de triunfo das regras do capitalismo sobre os interesses da privataria e contubérnios incestuosos de burocratas. Depois de dez anos de idas e vindas, o governo federal leiloou as concessões de sete estradas (2,6 mil km). Para se ter uma medida do tamanho do êxito, um percurso que custaria R$ 10 de acordo com as planilhas dos anos 90, saiu por R$ 2,70. No ano que vem, quando a empresa espanhola OHL começar a cobrar pedágio na Fernão Dias, que liga Belo Horizonte a São Paulo, cada 100 quilômetros rodados custarão R$ 1,42. Se o cidadão quiser viajar em direção ao passado, tomará a Dutra, pagando R$ 7,58 pelos mesmos 100 quilômetros. Caso vá para Santos, serão R$ 13,10. Não haverá no mundo disparidade semelhante.Se essa não foi a maior demonstração de competência do governo de Nosso Guia, certamente será lembrada como uma das maiores. Sua história mostra que o Estado brasileiro tem meios para defender a patuléia, desde que esteja interessado nisso. Mostra também que se deve tomar enorme cuidado com o discurso da modernidade de um bom pedaço do empresariado. Nele, não se vende gato por lebre. É gato por gato mesmo.

Assinante lê mais aqui

Voltei
Gaspari sabe, mas finge ignorar (prefere falar, como ele costuma dizer, à choldra que também ignora) que o modelo de privatização das estradas paulistas difere do modelo federal. Em São Paulo, elas tiveram de pagar luvas ao estado. As federais saíram de graça. No preço do pedágio está embutido esse pagamento inicial.

O que é um preço abusivo de pedágio? Trafeguei neste sábado pelas exemplares Bandeirantes, Anhangüera, Washington Luiz e SP-225, duplicada e talvez a estrada mais bem-sinalizada do Brasil. Mesmo num sábado pós-feriado, estavam cheias. É caro andar nessas rodovias? Eu, por exemplo, não acho: avalio o que elas me oferecem em segurança; levo em conta as obras de duplicação – ou o novo trecho da Bandeirantes; considero a infra-estrutura que está à disposição dos usuários.

No ano que vem, informa Gaspari, cada 100 quilômetros da Fernão Dias custará R$ 1,42. É verdade. Para o usuário andar no buraco, interrompido, às vezes, pelo asfalto. Quem disse que o modelo de Dilma já deu certo? Há, quando muito, uma expectativa gerada pela propaganda e pelos marqueteiros de ocasião. O consórcio vencedor vai tocar as obras de que a rodovia precisa? Em que velocidade? Não me lembro de nada parecido. Demoniza-se um modelo que, efetivamente, deu certo e se exaltam as glórias de uma escolha cujos resultados podem demorar ainda uma década. Como de hábito nos tempos de Lula, setores da imprensa acabam sendo os maiores aliados da empulhação e da vigarice.

Isto mesmo: declarar que o modelo de concessão das federais é superior àquele das concessões das rodovias paulistas é empulhação eleitoreira e vigarice intelectual. E a razão é simples: ninguém conhece o modelo federal na prática. Ademais, ainda que o leilão de Dilma venha a se mostrar uma revolução, as circunstâncias das concessões hoje são muito diferentes daquelas do passado.

Ora, bastava a Lula declarar bem-sucedida a sua escolha – ainda que ele não saiba no que vai dar – e pronto. Não! Ele e seu partido resolveram se dedicar a seu esporte predileto: demonizar quem veio antes. E, como se vê, com a ajuda de uma parte da imprensa.

Encerro
Por que esses erros monumentais, vexaminosos mesmo, acontecem? Porque algumas pessoas supõem exercer uma espécie de monopólio de amor pelo povo. Mesmo quando a matemática e a lógica insistem em demonstrar que estão erradas. Se preciso, acusam, então, a matemática e a lógica de “demofóbicas”.

Por Reinaldo Azevedo

04/04/2010

às 7:25

DISCURSO DE SERRA TEVE 6.495 PALAVRAS; GASPARI NÃO GOSTOU DE UMA E…

Elio Gaspari escreve hoje duas notas de que eu não poderia privá-los. Até porque provocou em mim aquela irresistível tentação de fazer um vermelho-e-azul. Então segue um vermelho-e-azul. E começo comentando o título.

José Serra não é Carlos Lacerda
Concordo.

COMO ERA previsível, uma única palavra -”roubalheira”- deu o tom do discurso de despedida de José Serra. Pena. Foi uma fala tediosa, mas uma só palavra desviou o curso de uma reflexão em torno de idéias, honradez e sobriedade administrativas. Ela não caiu como cabelo na sopa. Foi um flerte com “a busca da notícia fácil” que o próprio Serra criticaria no mesmo discurso.
“Roubalheira”, como diz Gaspari, foi apenas uma palavra do discurso. E esteve longe de dar o tom da despedida de Serra. Basta ler as notícias daquele dia.

(…)
Na atual campanha há uma energia interna no mandarinato oposicionista que procura um foco na denúncia da amoralidade do governo de Lula. Foi essa força que levou o “roubalheira” para o discurso de Serra.
Por que Serra estaria se referindo necessariamente ao governo Lula, e não, sei lá, a José Roberto Arruda, a Collor, a Sarney, a todas as roubalheiras? Gaspari está afirmando que qualquer um que critique a “roubalheira” estará atacando necessariamente o governo Lula?

Se essa tática prevalecer, acarretará vários riscos, todos lesivos ao nível político do país e à biografia do candidato. O combate à corrupção não deve ser plataforma de governo, mas pressuposto.
A premissa errada conduz à conclusão errada. Caso Gaspari leia o discurso (seria conveniente, né?), verá que Serra afirmou não haver “roubalheira” no seu governo. Não expôs uma “plataforma”, mas o que diz ser “um pressuposto”.

O país sofre com o desembaraço dos mensaleiros e com a proteção paternal que Lula lhes dá, assim como padece com o silêncio tucano diante da cassação do mandato, pela Justiça, de seu governador da Paraíba. O mais ilustre detento do sistema carcerário nacional é o ex-governador José Roberto Arruda, o queridinho do DEM, que chegou a aspirar à Vice-Presidência na chapa de Serra.
É incrível que Gaspari dê curso ao que sabe ser uma mentira cretina: a história de que Arruda chegou a ser cotado para vice de Serra. Isso não chegou nem a ser cogitado, e já expus aqui os motivos. Pré-escândalo, ele tinha uma reeleição assegurada ao governo do DF. O próprio Gaspari, é bom lembrar, punha em dúvida se o ex-governador de São Paulo seria mesmo o candidato do PSDB… O debate sobre o vice, por descabido, não era feito por ninguém. Isso é coisa da rede delinqüente da Internet. Mais: Cássio Cunha Lima foi cassado por crime eleitoral, não por “roubalheira”, e o colunista sabe disso. Crime é crime, mas nem todos os crimes são iguais, razão por que há penas diferentes.

Dois presidentes chegaram ao Planalto montados na bandeira da moralidade: Jânio Quadros (seu símbolo de campanha era uma vassoura) e Fernando Collor. Nenhum dos dois concluiu o mandato, e Jânio tornou-se o único governante nacional com conta secreta no exterior disputada em juízo. Esses exemplos não devem estimular complacência, apenas ilustram que o moralismo é um refúgio habitual do corrupto.
Falácia lógica e mentira histórica. Jânio e Collor podem até ter sido eleitos por causa da bandeira da moralidade — trata-se de uma visão apressada, de mau historiador, mas vá lá… Mas uma coisa é certa: eles caíram por causa da IMORALIDADE — no caso de Jânio, uma imoralidade principalmente política. Pergunto aos leitores: não foi “a bandeira da MORALIDADE” que saiu às ruas pedindo o impeachment de Collor? A avaliação é tão simplória que a gente pode desmontá-la com qualquer Maluf. Eis um homem que, segundo os critérios de Gaspari, cuida bem da própria biografia e jamais é “lesivo” aos interesses nacionais. Afinal, nunca saiu por aí carregando a bandeira da moralidade.

Serra nada tem a ver com Jânio e Collor. Faltam-lhe até mesmo a teatralidade, o oportunismo e a mediocridade administrativa. Pelas obsessões, pelo estilo e pela visão de governo, ele se parece com Carlos Lacerda, seu adversário juvenil. Lacerda foi o maior governante da história do Rio de Janeiro (1960-1965).
Segundo entendi, por dedução lógica, Gaspari considera Serra o maior governante da história de são Paulo, mas algo o impede de dizê-lo. Talvez fique com receio de que o leitorado petista não o considere, depois, isento…

Fez a adutora do Guandu e resolveu o problema secular do abastecimento de água da cidade. Urbanizou o Aterro do Flamengo, abriu o túnel Rebouças e remendou a rede escolar pública. Desse Lacerda, o “Carlos” dos amigos, pouco se fala.
Para não elogiar Serra, Gaspari elogia, então, Lacerda.

O personagem da história foi outro, o “Corvo” dos inimigos, que carimbava “roubalheira” nos adversários. Demolidor audaz, escondia em ímpetos de calculada agressividade um temperamento egocêntrico e depressivo. Carregava nas costas o suicídio de Getúlio Vargas (cujos capangas tentaram matá-lo em 1954), assim como carregou a deposição de João Goulart e um pedaço da ditadura que se instalou em 1964. Vale ouvi-lo:
Sobre Vargas: “Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.
Sobre Juscelino Kubitschek: “Um político notoriamente desonesto, cujo enriquecimento, seu e de seus amigos, constitui uma afronta ao país”.
Sobre João Goulart: “Eu agarro o touro pelos chifres”. Diante dos risos da plateia, fez um adendo infame: “E ele os tem”.
Sobre o presidente Castello Branco: “O marechal é um anjo da rua Conde Lages”. (Numa referência aos santos colocados nas salas de estar dos bordeis da Lapa.)

Como se nota, com efeito, esse não é o perfil de Serra. E Gaspari diz que o tucano não é Lacerda na prática política (só nas virtudes de administrador). Mas me digam: o Lacerda caracterizado como “o corvo” era o que atacava a “roubalheira” ou o que flertava com golpes de estado? Não seria esse o seu maior pecado, e não a pregação moralizante? Se há roubalheira, que mal há em denunciá-la — o que, reitero, Serra não fez em seu discurso de despedida?

Nada a ver com Serra. Numa trapaça do tempo, ele recorreu ao “roubalheira” no dia 31 de março, exatos 46 anos depois do levante militar que o levou ao exílio e deu a Lacerda um breve período de esplendor.
Uma campanha desqualificadora, que fecha seu foco na denúncia da corrupção alheia, precisa que o candidato puxe o samba. Para aprender esse papel, Serra tem idade demais e treino de menos.
Leiam o discurso. É um delírio afirmar que ele “fechou o seu foco na denúncia da corrupção”. Ao contrário: foi até exaustivo em listar as obras do governo (que Gaspari, pelo visto, aprova, mas sem admiti-lo claramente) e expôs aqueles que considera os valores virtuosos de sua gestão: não condescender com a bandalheira foi apenas um deles. Seus adversários certamente não concordam. É muito pouco para fazer um “corvo lacerdista”, não é meso?

MADAME NATASHA
Madame Natasha sabe que terá muito trabalho durante a campanha eleitoral e já concedeu uma de sua bolsas de estudo a José Serra por um trecho de seu discurso de despedida do governo de São Paulo: “Repudiamos protagonismo sem substância que alimenta mitologias”. Ele quis dizer o seguinte: “Dilma é um pastel de vento vendido à sombra do culto à personalidade de Lula”.
Concedo a Madame Natasha uma bolsa de estudos de interpretação de texto e de tradução. Acho que ela reescreveu a fala de Serra depois de tomar algum chá. Converteu 56 toques em 62, substituiu a linguagem referencial por uma metáfora-clichê e ainda errou o alvo. Madame certamente foi a única leitora a ter entendido que a fala faz uma alusão a Dilma… Isso está mais para Eremildo.

Que o óbvio fique ainda mais claro: Gaspari tem todo o direito de detestar o discurso de Serra. Se, no entanto, a sua única reserva é a que faz acima, deveria, então, ter a coragem de elogiá-lo: ninguém o suporia tucano ou serrista por isso. De jeito nenhum!

O discurso do então governador de São Paulo tem 32.622 caracteres e 6.495 palavras. Gaspari resolveu enroscar com UMA palavra de ONZE caracteres: “roubalheira”. Considerou uma agressão ao governo Lula e um rebaixamento do debate. Segundo entendi, ao dizer que em seu governo não houve “roubalheira”, Serra acabou indo para a… direita! É, vai quer que sim…

Por Reinaldo Azevedo

28/03/2010

às 7:07

QUANDO AIATOÉLIO QUIS SER O PRÓPRIO PROFETA

Não que seja, como diria Lula, uma obsessão deste escrevinhador. É só um trabalho de apoio, a saber: tenho tentando fazer com que Elio Gaspari dê menos bola a Eremildo, o, por epífrase, “Idiota”. De vez em quando, “O Idiota” lhe sopra coisas ao ouvido, mais o menos como  Sócrates era inspirado pelo “daimon”, que vocês não devem confundir com o demônio, mas como uma espécie, assim, de eco universal da sabedoria.  O “daimon” não teria jamais levado Gaspari a prever que o filme “Lula, O Filho do Brasil” levaria os brasileiros à rendição catártica. Já Eremildo, que agora passarei a chamar “O Traiçoeiro”, fez o que fez, não é?

No dia 15 de novembro do ano passado, Gaspari escreveu:
“O filme “Lula, o filho do Brasil” estreará em 500 cinemas no dia 1º de janeiro. As platéias chorarão de emoção e a oposição, de raiva. São 128 minutos de viagem pela história de um garoto que sai do sertão pernambucano, come o pão que o Diabo amassou, e chega à presidencia da República. É possível que algumas pessoas comecem a chorar já na fila para a compra de ingressos.”

O mais impressionante é que, NA MESMA COLUNA, teve uma outra antevisão:
PÁREO DURO
Quem sabe ler pesquisa e examinou os números da Vox Populi (36% para Serra e 19% para Dilma) acha que, em condições normais de temperatura e pressão, entre o final de janeiro e o início de março, os dois estarão emparelhados.

Não que Eremildo não tenha dado a Gaspari uma baita folga — entre janeiro e março… Com essa largueza, deve ter sido uma previsão de Marcos Coimbra… Mas, como se vê, os “idos de março” de Serra não foram como os de Julio César. Esse, ao menos, “O idiota” sabe quem é…

Naquele dia, Eremildo estava insaciável. Levou Gaspari a escrever isto também:
SERRA X AÉCIO
Prospera num pedaço do empresariado a ideia de que é melhor perder a sucessão presidencial com Aécio Neves do que ganhá-la com José Serra. A manobra nasceu no poço de rancor que a ekipekonômica de Fernando Henrique Cardoso cultiva em relação a Serra. Desse núcleo propagou-pela pela banca e pela turma do papelório. A conta é simples: “Se ganharmos com Aécio, acertamos na loteria. Admitindo-se que para nós tanto faz Dilma como Serra, trocamos um jogo de perde-perde por outro de perde-ganha.”

Aiatoélio precisa se contentar em ser apenas um aiatolá dos que seguem seu xiismo. O que vai acima é uma tentativa malsucedida de ser o próprio Profeta! O povo já o traiu duas vezes: ignorou o filme de Lula e dá nove pontos de vantagem para Serra.

O Profeta está ouvindo demais o andar de cima do petismo e deixando de lado o andar de baixo do povo sem cabresto.

Por Reinaldo Azevedo

21/03/2010

às 6:35

JORNALISMO TAMBÉM É MEMÓRIA. OU: UM ERRO DE EREMILDO

Elio Gaspari gosta de arquivos e datas. Uma nota na sua coluna de hoje prova isso mais uma vez. Leiam o que ele escreve:


O MEC PLANEJOU 1+1 = 2 E OBTEVE 1+1= -3

A megalomania do MEC cravou mais um prego no caixão do Enem como sucedâneo do vestibular. Em março do ano passado, o ministério informou que as notas da garotada teriam validade nacional. Assim, um craque do Piauí poderia conseguir matrícula em São Paulo. Santa medida, tomada em nome de uma política de redução dos desequilíbrios regionais.

Quem ouviu a professora Azuete Fogaça aprendeu: “Pode acontecer o contrário, um aluno com nota baixa de São Paulo pode migrar para uma faculdade do Nordeste. Um não tem nota, mas tem recursos. O outro tem nota, mas não tem recursos”. Não deu outra. Os repórteres Fábio Takahashi, Patrícia Gomes e Angela Pinho descobriram que São Paulo importou 169 alunos e exportou 2.531. O Piauí importou 612 e exportou 85.

Minas Gerais teve 431 vagas ocupadas por candidatos de São Paulo. Em nome do combate aos desequilíbrios regionais, o melhor que as universidades dos Estados importadores têm a fazer é fugir dessa arapuca.

Comento
Como sabemos, este não foi o único problema do destrambelhado MEC em sua fase de acelerada marquetagem. Fernando Haddad conseguiu desmoralizar o Enem. Quando anunciou a decisão de acabar com o vestibular das federais da noite para o dia, não foram poucos — este escriba inclusive — que advertiram para o risco de fazer a coisa à matroca. Mas Elio Gaspari achou uma maravilha, conforme evidencia sua coluna de 22 de março de 2009. Vejam aqui:

Boa notícia: o vestibular pode mudar

NOSSO GUIA poderá livrar os jovens da praga do vestibular. O ministro da Educação, Fernando Haddad, está concluindo uma negociação com os reitores das universidades federais e é possível que já em 2010 a primeira fase seletiva seja substituída pela nota do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Apesar de haver ideias adicionais, a mudança tende a começar pelo mais simples. A cada ano, as 55 federais recebem em torno de 1,2 milhão de candidatos para 150 mil vagas. Numa primeira fase, 70% deles são massacrados numa prova mais preocupada em eliminar do que em julgar. Adotando-se as notas do Enem para a demarcação das linhas de corte, leva-se para dentro das escolas a responsabilidade pelo desempenho dos alunos. Atualmente, a irracionalidade do decoreba e das pegadinhas serve de álibi para quem ensina mal. A segunda fase, que cobraria taxas de inscrição, continuaria no âmbito das universidades.

Devem existir argumentos razoáveis contrários à mudança, mas desde já seria bom separá-los da defesa de interesses estabelecidos. Algumas escolas não gostam do Enem porque ele expõe a má qualidade do ensino que entregam. As burocracias da organização dos vestibulares não gostam de mudanças porque elas secariam uma fonte de arrecadação e de distribuição de gratificações. Afinal, quem paga o Enem é a Viúva.

Comento
Tenho memória boa para o que escrevo e para o que os outros escrevem. O que vai acima é um pouco mais grave do que a previsão de que o filme “Lula, O Filho do Brasil” seria um estouro de lágrimas e bilheteria.

Às vezes, as coisas têm particularidades técnicas que vão além da dialética do “andar de cima e do andar de baixo”. Às vezes, pode-se discordar de uma tese de Elio Gaspari sem que isso seja mera “defesa de interesses estabelecidos”. Às vezes, é só a defesa da prudência.

Por Reinaldo Azevedo
 

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