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Dilma

25/01/2012

às 6:41

Dilma e PT, Aécio e PSDB. Ou: O que falta à oposição? Um nome ou um conjunto de idéias?

Caras e caros,
Prometi um texto sobre a oposição e seu futuro. Ficou longo! Mas acho que saiu direitinho, redondo. Sim, alguns vão detestar. É do jogo. Penso o que penso — e jamais escondo —, mas o meu compromisso é com os fatos, ainda que o que eu vislumbre não seja do meu agrado. Para chegar ao ponto que quero, terei de falar um pouco do governo Dilma e da avaliação extremamente positiva que os brasileiros, segundo as pesquisas, têm dela. Vamos lá?

No domingo, a Folha trouxe a pesquisa Datafolha com a avaliação do governo. Desde o primeiro levantamento, feito em março, com 90 dias de gestão, consolidou-se um critério a meu juízo cretino e tecnicamente furado que consiste em comparar os números obtidos pela presidente com aqueles de igual período de seus antecessores, especialmente Lula e FHC. Para que isso fizesse algum sentido, seria preciso que:
a) a pesquisa fosse respondida pelas mesmas pessoas;
b) ainda que fosse possível, forçoso seria que o entrevistado tivesse como fazer a avaliação dos três governos.

Isso é uma besteira gigantesca que combina duas vertentes. Uma primeira é mesmo a paixão adesista que caracteriza boa parte da análise política no Brasil — afinal, Dilma sempre esteve à frente dos que a antecederam. Uma segunda não deixa de trair uma forma curiosa de viés anti-Lula!!! “Como, Reinaldo?” Sim, é isto mesmo: não são poucos os que consideram que reforçar a posição de Dilma é uma forma de manter afastado do poder — ao menos do poder formal — o fantasma lulista. Eu, vocês sabem, não lido com esse critério. Para mim, as diferenças pessoais entre os petistas são quase irrelevantes.

O que mais me interessa no petismo não são pessoas, mas o sistema. E não alimento a ilusão que vejo em alguns colegas de que existam contradições relevantes entre ambos. Ela, é bem verdade, à diferença do antecessor, não tentou até agora, por exemplo,  censurar a imprensa. Sim, ponto positivo. Se tentasse, não conseguiria, como ele não conseguiu. Só para encerrar este particular: se Dilma fosse muito diferente, poria um ponto final na prática indecorosa que consiste em financiar o gangsterismo disfarçado de imprensa, especialmente na Internet. Mas não o faz. Administração direta e estatais continuam a usar o dinheiro público para financiar campanhas de difamação contra líderes da oposição, contra ministros do Supremo e contra a chamada grande imprensa. Dilma é a chefe. Se deixa a coisa rolar, é a responsável. O pior é que nada disso seria necessário porque raramente se viu uma imprensa tão dócil com uma presidente. De maneira geral, o jornalismo consegue ser ainda mais “dilmista” do que era “lulista”. Não são os escroques que colaboram para a sua boa reputação. Ao contrário até… Volto ao curso.

Dilma superou Dilma; isso é o que conta
Quando afirmo que é uma besteira essa história de comparar o desempenho dela com o de antecessores em igual período, alguns tontos acreditam que o faço para tentar diminuir a conquista da presidente! Como petralha é burro! Ao contrário até! O DADO RELEVANTÍSSIMO DA PESQUISA DATAFOLHA DE DOMINGO, E AQUI COMEÇO A TANGER A CORDA DA OPOSIÇÃO, NÃO ESTÁ NO FATO DE AVALIAÇÃO POSITIVA DELA SER SUPERIOR À DE LULA, E SIM NO DE TER CRESCIDO 12 PONTOS DESDE MARÇO, 10 DELES SÓ NOS ÚLTIMOS SEIS MESES! Isso, sim, é importante!

Dilma não está muito bem junto à opinião pública porque com uma avaliação de “ótimo e bom” (59%) superior à do antecessor. Ela está muito bem porque, em comparação consigo mesma em início de mandato, quando os pontos ainda não eram seus, mas de Lula, ela cresceu. A sua grande conquista, até agora, É TER SUPERADO DILMA, NÃO TER SUPERADO LULA. Nota: existe uma forma burra e dilmista de ser antilulista; fazer aquela comparação é uma delas. Eu não sou “anti” coisa nenhuma! Só sou a favor de uma meia-dúzia de idéias não compartilhadas nem por ela nem por ele. Vamos continuar.

O que aconteceu e o que não aconteceu
A avaliação positiva da presidente disparou justamente no período das crises que colheram seus vários ministros — seis deles demitidos sob suspeita de corrupção. E olhem que a lista poderia ser de nove! Nesse caso, talvez ela já andasse ali pelos 65% de ótimo e bom… À medida que Dilma demitia, à esteira de denúncias feitas pela imprensa, conquistava o apoio popular. É bem verdade que a grande imprensa lhe deu uma ajuda fabulosa. Nesse caso, aliás, os escroques financiados tentaram empurrar a presidente para o lado errado — e Lula também… Convidaram-na a resistir, a não demitir ninguém. Se o fizesse, diziam o Apedeuta e o subjornalismo a soldo, ela ficaria refém da grande imprensa e das denúncias etc e tal… É claro que os petralhas sempre estão de um lado, e a verdade, de outro. À medida que as evidências de corrupção foram punidas ao menos com a demissão (e não haverá outra pena), a presidente consolidou a fama de moralizadora.

Deu-se um fenômeno estranho, algo talvez possível só nestas terras: a presidente passou a ser tratada como ombudsman no próprio governo, como ouvidora. Parecia que estava apenas corrigindo erros alheios, pelos quais não tinha a menor responsabilidade. Ora, não tinha sido ela própria a nomear aquela gente, tão cedo defenestrada porque com um padrão moral incompatível até mesmo com os elásticos costumes políticos brasileiros? O fato é que ali estava a Dilma que caía nas graças do povo: enérgica!

Sua gestão, já demonstrei aqui tantas vezes, é muito ruim. O Brasil vai relativamente (e só relativamente) bem porque mudanças estruturais feitas nos últimos 20 anos, especialmente o Plano Real, forneceram condições para sair de atoleiros históricos. O fato é, no entanto, que a infra-estrutura é lastimável, a máquina é cara e ineficiente, os serviços são precários, e as promessa solenes feitas por Dilma para o primeiro ano de mandato se frustraram todas. Já coloquei aqui a verdade em números — das casas às creches. Chega a ser constrangedor. No atual ritmo, o governo entregará, por exemplo, três milhões de casas (um milhão de Lula e mais dois milhões de Dilma) só daqui a 22 anos! Para realizar parte das obras previstas para a Copa (e será parte mesmo!), foi preciso violar a legislação e alargar ainda mais os já alargados critérios de moralidade no uso do dinheiro público. Para mais detalhes sobre as ruindades, leia-se um texto que publiquei aqui no dia 26 de setembro do ano passado.

Se o governo é ruim, o povo é bobo?
Não, o povo não é bobo. O modelo petista está fortemente ancorado no consumo, e isso não mudou, ainda que algumas âncoras de manutenção desse arranjo acenem para severas dificuldades no futuro. E daí? O eleitor avalia o seu presente. Com uma economia estável e com uma cobertura das ações presidenciais que beira, em alguns casos, a hagiografia, é compreensível que tantos considerem o governo Dilma “ótimo ou bom”. Mais: a despeito das não-casas, das não-creches, das não-UPAs, das não-quadras, do atraso vexaminoso nas obras da Copa, das trapalhadas nas privatizações dos aeroportos, das estradas federais miseráveis, da roubalheira das ONGs incrustadas no governo, apesar de tudo isso, 72% a consideram “competente”. Desde quando era ministra, já escrevi aqui, a maior competência de Dilma é fazer os outros acreditarem que ela é competente. Um de seu segredos era o ar sempre enfezado; eleita, um de seus segredos é fazer-se de enfezada generosa…

Cadê a oposição?
“Pô, Reinaldo, você afirmou que falaria da oposição, mas cadê?” É de caso pensado, queridos! Meu texto reflete o que foi a oposição nesse tempo. Sim, vimos líderes a protestar no Parlamento, esmagados, coitados!, por uma maioria avassaladora. Um senador como Álvaro Dias (PSDB-PR) merece o reconhecimento por um trabalho sério e dedicado na tentativa de apontar desmandos. Mas é evidente que isso não basta. Repete-se, no primeiro ano de gestão de Dilma, o que foi uma constante no governo Lula, muito especialmente depois que o petista se recuperou da crise do mensalão: teme-se enfrentar um governo popular. O grande discurso do senador Aécio Neves (PSDB-MG), que viria para ser a bússola da oposição, foi pouco mais do que nada. A sua síntese poderia ser esta: “Nós não somos como o PT”. Claro que não! Ocorre que a maioria do eleitorado escolheu justamente o… PT!

Não custa lembrar que um texto recente escrito por Alberto Goldman, vice-presidente do PSDB, com críticas severas ao governo Dilma passou por uma plástica quando caiu nas mãos de Sérgio Guerra, presidente do partido, e do próprio Aécio. Escrevi a respeito no dia 13 de janeiro. Ontem, diga-se, na presidência interina do PSDB, Goldman emitiu uma nota dura e sensata sobre a exploração vagabunda que o petismo faz da desocupação do Pinheirinho. Os leitores deste blog até estranharam: “Nossa! Há quanto tempo o PSDB não fala assim!” E alguns atribuíram o tom mais duro ao fato de que Sérgio Guerra está fora do país…

O curioso é que não seria difícil demonstrar que o PSDB parece sem agenda não exatamente porque jamais teve uma, mas porque o PT lhe tomou a que tinha. Ou alguém conseguiria demonstrar que os petistas estão executando seus programas históricos? Ora… São bem poucos os acertos em curso que fazem parte de seu estoque intelectual. E daí? Quem tem de ser convencido não são os historiadores honestos, mas os eleitores.

Nome ou idéias?
O noticiário nacional está ainda carregado pela entrevista — calculada e, a meu ver, desastrada e contraproducente — que FHC concedeu à Economist, em que classificou Aécio Neves de “nome óbvio” do PSDB para 2014 e teceu considerações que creio impertinentes sobre a candidatura de José Serra em 2010. Que bem faz ao partido a sua fala? Se ele souber, que diga. O que eu digo? Acho que há aí um erro de análise fundamental — e nada tem a ver com o nome de Aécio em princípio. A pergunta que faço é outra: o problema do PSDB (e das oposições) está na definição do nome ou na definição do conjunto de valores com o qual se vai enfrentar a disputa eleitoral?

Os aecistas do PSDB já tratam a entrevista como a unção — e ponto final! Eis o PSDB que jurou, desta feita, acabar com decisões de cúpula… Mas nem entro nesse particular. Digamos que, sim, a entrevista de FHC consolide desde já: “Será Aécio é pronto!” E aí? O que isso significa? Que conjunto de valores ele representa que se distingue, de maneira essencial, daquele representado por Dilma Rousseff, que disputará a reeleição? Digamos que eu soubesse a resposta… Ocorre que eu não represento a maioria ou a média do eleitorado. Há coisas que chegam mesmo a ter uma graça particular. O PSDB aecista tem no PT, em Minas, um parceiro antigo. Como bem lembrou o governador Antonio Anastasia quando as “consultorias”de Fernando Pimentel vieram a público, o petista era “amigo e mineiro”… Por que o eleitorado tem de ser convencido de que o PT, bom para governar Belo Horizonte junto com os tucanos, com a mediação do PSB, não é bom para governar o Brasil? Digamos que uma campanha se encarregue de esclarecer… A minha pergunta segue sendo a mesma: seja candidato Aécio, Serra ou qualquer outro, qual será a mensagem levada ao eleitor? Não adianta os tucanos virem com retórica oca: terão de dizer por que eles merecem um “sim” do eleitor e por que o PT merece um “não”.

Por quê?

Eu sei parte da resposta
Parte da resposta, ao menos, eu conheço. Posso não saber hoje por que “sim PSDB”, mas sei muito bem “por que não PT”. E, de novo, as minhas respostas não são as mesmas dos tucanos que conheço. Na verdade, vênia máxima, eu os vejo fazer rigorosamente o contrário do que entendo que seria o certo. Há algum tempo, a cúpula do PSDB debateu o resultado de uma pesquisa sobre a reputação do partido — usada, para não variar, para fazer guerrilha contra Serra — e constatou que o PSDB tinha imagem de “elitista”, que precisaria se aproximar mais do povo, ter seu braço sindical mais ativo, ser mais popular, sei lá eu…

Entendo isso tudo como o caminho da perdição. Nas próprias entrevistas de FHC, um dos presidentes mais corajosos que o país já teve, noto certas inflexões à esquerda — e outras fracamente doidivanas, como o debate sobre a maconha — que evidenciam o esforço para emular com o PT no, como vou chamar?, campo do progressismo. É tão impressionante constatar que os tucanos ainda não perceberam que jamais tomarão a bandeira do “social” das mãos dos petistas! Se existe alguma saída para o partido, é evidente que essa saída só pode se dar pela — à falta de melhor palavra, vai esta —  direita. Falo em termos relativos: à direita do PT.

Escrevi dia desses, e muitos tucanos ficaram bravos — paciência! —, que os tucanos ocupam hoje o lugar que, em todas as democracias do mundo, é ocupado por partidos conservadores. Só que o PSDB não é um partido “conservador”, mas não consegue ser um “partido progressista” — ou, se quiserem, de esquerda. Então é o quê?

Na entrevista que concedeu à Economist, agarrado à tese errada de que é preciso logo definir um nome e partir pra luta, FHC arriscou alguma sociologia: à diferença de Serra, Aécio viria de uma política mais tradicional, mais afeita a alianças etc… Huuummm… Digamos que sim! Dado o andar da carruagem, quem terá mais condições de assegurar as alianças em 2014? Ou alguém conta que o prestígio de Dilma vai se esfarelar por obra do Espírito Santo?

Medo do eleitor e do conservadorismo
A verdade é que o PSDB tem medo do eleitor, especialmente do eleitor que não é “progressista”. Teme, em suma, o conservadorismo da sociedade brasileira — o bom conservadorismo, deixo claro! Isso ficou evidente na campanha eleitoral de 2010, por exemplo. O debate sobre o aborto — é mentira que tenha sido feito pelos tucanos; essa foi uma invenção dos petistas e da imprensa patrulheira —, por exemplo, deixou foi o partido assustado.

Ontem, Alberto Goldman, como já informei, emitiu uma nota dura sobre a exploração vigarista que o PT faz da desocupação da tal área do Pinheirinho. Falou em nome da direção do partido! Mas que demora, não? As grandes lideranças do PSDB — quais? — já deveriam ter-se manifestado a respeito. Deveriam ter feito o debate político também por ocasião da retomada da cracolândia — afinal, eis um assunto que não diz respeito apenas a São Paulo. Mas quê!!! Fez-se um silêncio sepulcral a respeito. Para ser preciso, o governo tucano de Minas até entrou na guerra de propaganda oferecendo uma suposta abordagem alternativa a respeito…

Caminhando para a conclusão
Ok, os aecistas do PSDB podem se regozijar. Hoje, e tudo o mais constante, o nome do PSDB para disputar a Presidência da República é Aécio Neves. Digamos que a questão interna esteja mais do que precocemente resolvida. E daí? Com que eleitor, e sobre quais temas, os tucanos pretendem conversar? Como é que vão convencer os brasileiros, COM QUAIS VALORES?, de que Dilma não merece uma segunda chance? FHC parece apostar que um “político tradicional”, aliancista, tem mais chances. Pode ser. Desde que a equação não ignore o eleitor…

Para encerrar: que os tucanos e seus eventuais aliados não caiam na esparrela de  disputar em 2014 “só para fazer nome”, deixando a esperança de vitória mesmo para 2018, quando, então, nem Lula nem Dilma estiverem no páreo… O PT tem como fazer novos candidatos até lá. Para o bem e para o mal — sobretudo para o mal —, trata-se de um partido — isto é, de um sistema que aprendeu como dobrar “elites tradicionais”.

Por Reinaldo Azevedo

24/01/2012

às 19:45

Em solenidade, Mercadante deixa claro que, no governo Dilma, o bom sofista leva vantagem sobre o bom executor. Eu já desconfiava!

Ah, os mistificadores. No texto que escreverei sobre as oposições, falarei um tantinho também, sobre a imagem que se está plasmando de Dilma Rouseff, que ajuda a explicar o seu bom desempenho nas pesquisas de avaliação de governo. Leiam o que segue. Volto em seguida.

Por Flavia Foreque, Renato Machado e Márcio Falcão, na Folha Online:
Em cerimônia de posse nesta terça-feira, o novo ministro da Educação, Aloizio Mercadante, fez uma série de sugestões ao seu substituto na pasta de Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp, sobre como lidar com a presidente Dilma Rousseff em reuniões de trabalho. Em tom bem-humorado, ele afirmou ao novo titular do ministério que a primeira etapa de uma proposta a ser apresentada à presidente é o “espancamento do projeto”.

“Você vai ouvir a seguinte expressão: ‘Ele não fica de pé’”, afirmou Mercadante, arrancando risadas da platéia. Após mais uma rodada de conversas, ele afirmou, ainda não haverá apoio da presidente. “Você vai poder ouvir a seguinte expressão: ‘Está de pé, mas você não vai conseguir entregar’”, afirmou o ministro. Segundo ele, esse estilo da presidente é uma prova da eficiência da gestão de seu governo. “Foi um aprendizado absolutamente inédito”, elogiou.

Mercadante fez afagos a seu antecessor na pasta, Fernando Haddad, que deixa o governo federal visando a campanha pela prefeitura de São Paulo. “Não vejo como seu nome não possa estar entre os grandes ministros da Educação da história desse país”, afirmou Mercadante para o petista.  Mercadante ainda se emocionou ao citar o trabalho feito pelo ex-presidente Lula, que acompanhou a cerimônia ao lado da presidente Dilma. “Tem um significado muito especial sua presença aqui hoje. Nós começamos juntos quando esse projeto era apenas um sonho.” Antes de assumir o ministério, Raupp era presidente da Agência Espacial Brasileira.

Comento
Começo por um dado engraçado: Lula, a quem Mercadante se referiu com tanta emoção, pôs muita tranqueira em seus ministérios, mas nunca escolheu Mercadante para a tarefa. Vai ver era vingança do tempo em que o agora ministro da Educação convenceu Lula de que o Plano Real seria um desastre para o Brasil…

A historinha de Mercadante, contada na solenidade, ajuda a compor a mitologia sobre Dilma Rousseff, a severa. O curioso é que esse juízo só faz sentido em contraste com Lula, também presente, que seria o relaxado. Fica a impressão de que, com ele, qualquer porcaria servia; já ela ficaria fazendo teste de estresse com seus subordinados para ver se eles sabem se defender.

Que pena que Lula não fez o mesmo com ela, quando ministra da Casa Civil. Tivesse feito, a privatização dos aeroportos teria saído muito antes. Tivesse feito, os portos não se encontrariam na situação miserável de hoje. Tivesse feito, as estradas federais não estariam esburacadas.

Entendi, também, do método revelado por Mercadante que o governo, então, não sabe direito o que fazer. Tudo é uma questão de saber argumentar direito, de convencer a presidente. Um bom executor e mau sofista quebraria a cara com Dilma; já um bom sofista, mas mau executor, leva uma imensa vantagem.

É por isso que Mercadante ficou um ano na Ciência e Tecnologia, e não se conhece exatamente o seu trabalho. Mau executor, certamente se mostrou um sofista competente — com Dilma ao menos. Tanto é assim que vai substituir um outro na Educação.

Pra mim está tudo muito claro. Agora eu compreendo todas as casas, as creches, as quadras e as UPAs que não saíram do papel. Os sofistas enrolaram a presidente, que também enrolou a seu tempo. Afinal, ninguém, como Dilma, foi e é tão competente na arte de convencer os outros de que é competente. Essa é a impressão que 72% dos brasileiros têm dela, segundo o Datafolha, ainda que as casas, as creches, as quadras e as UPAs sejam feitas de saliva.

Por Reinaldo Azevedo

22/01/2012

às 6:17

Dilma é considerada ótima ou boa por 59% após um ano, diz Datafolha. E daí?

Por Bernardo Mello Franco, na Folha:
A presidente Dilma Rousseff atingiu no fim do primeiro ano de seu governo um índice de aprovação recorde, maior que o alcançado nesse estágio por todos os presidentes que a antecederam desde a volta das eleições diretas. Pesquisa Datafolha realizada na última semana mostra que 59% dos brasileiros consideram sua gestão ótima ou boa — um salto de 10 pontos percentuais em seis meses. Outros 33% classificam a gestão como regular, e 6% como ruim ou péssima — cinco pontos a menos que na pesquisa de agosto. Não responderam 2% dos entrevistados. A nota média do governo é 7,2. Os números atestam que a presidente não teve a imagem afetada pelos escândalos que marcaram o início de sua gestão. Ela demitiu sete ministros em 2011, seis deles sob suspeita de corrupção.

Ao completar um ano no Planalto, Fernando Collor tinha 23% de aprovação. Itamar Franco contava 12%. Fernando Henrique Cardoso teve 41% no primeiro mandato e 16% no segundo. Luiz Inácio Lula da Silva alcançou 42% e 50%, respectivamente. De acordo com o novo levantamento, a avaliação de Dilma melhorou entre homens e mulheres e em todas as faixas de idade, renda familiar e escolaridade. Sua aprovação agora é de 62% no eleitorado feminino e de 56% no masculino.

A presidente alcançou um equilíbrio entre os eleitores da base e do topo da pirâmide social. Tem 61% de ótimo e bom entre os que estudaram até o ensino fundamental e 59% entre os que chegaram ao ensino superior. Na divisão por renda familiar, o maior avanço foi na faixa de cinco a dez salários mínimos: 16 pontos de melhora, atingindo 61% de aprovação. Para o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, a chave para entender a evolução dos números nos últimos meses está na economia.
(…)
A fatia de entrevistados que acredita que sua situação econômica vai melhorar subiu de 54% em junho passado para 60% neste mês. O otimismo sobre a economia do país foi de 42% para 46% no período. Em 2011, a inflação chegou a 6,5%, a maior em sete anos. A alta de preços atingiu o pico em setembro, mas agora segue tendência de queda. A imagem pessoal de Dilma também melhorou. Ela é considerada “decidida” por 72% dos brasileiros. Para 80%, ela é “muito inteligente”, e para 70%, “sincera”.
(…)

Comento
Os índices são formidáveis para presidente que teve de demitir seis ministros sob suspeita de corrupção — e só não demitiu mais porque achou que tinha capital político, e tem, para não arrumar mais confusão na base aliada. A economia deu uma discreta piorada para o consumidor na comparação com Lula, mas nada que assuste. Continua fortemente ancorada no consumo, e a percepção é a de que tudo vai bem.

A oposição, como discurso alternativo, neste primeiro ano de governo Dilma, mal existiu. Procurou repercutir denúncias feitas pela imprensa e coisa e tal, mas é preciso bem mais do que isso. Se, no passado, não soube cuidar dos seus acertos, hoje, não consegue cuidar dos erros do governo. É claro que há exceções, como, para citar um, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), sempre muito atento.

Dilma deu a sua grande tacada quando se livrou da primeira leva de ministros-problema. É bem verdade que amplos setores da imprensa colaboraram, alimentando a imagem da presidente decidida, que é ombudsman do próprio governo. Ela é tratada como a gerente durona da máquina — 72% a consideram “decidida”.  A presidente não cumpriu, nem minimamente, as promessas feitas para o primeiro ano. E daí?

Anteontem, lemos nos jornais que Dilma, vejam vocês, se opõe a cortes no Orçamento que atinjam áreas sociais ou que acabem refletindo no consumo e no emprego. Tem-se a imagem da mulher destemida que luta por nós “lá junto aos homens”. É a nossa protetora. Assim como nos protegeu ao demitir aqueles seis — que ela havia nomeado. É evidente que essas construções têm menos chances de prosperar quando encontram pela frente um discurso organizado de combate a mitos e mitologias. Mas não há nada parecido.

Concorre, finalmente, para essa avaliação positiva em setores onde o próprio Lula nunca conseguiu avaliação tão expressiva o fato de a presidente ter escolhido o figurino da sobriedade há o risco de escorregões em período eleitoral, vamos ver. Os mais exigentes nunca tiveram muita paciência para as bazófias de Lula. Dilma optou pelo caminho da discrição. Fala pouco e conseguiu plasmar a imagem de que está sempre muito ocupada, cuidando do Brasil.

De fato, seu governo é lento, fraco. Mas só 6% acham isso, e, para um político, é o que importa. A menos que a crise internacional dê um tombo na economia brasileira e não há essa perspectiva ou que venha à luz um escândalo avassalador (ainda existe?), caminha para a reeleição (sim, sei que é cedo e coisa e tal). Ora, perguntem-se: quem lidera o contraponto no país, tornando audível a sua voz?

Encerro lembrando que, se Dilma tivesse dado bola àquele bando de puxa-sacos pagos com dinheiro público, teria mantido no governo todos os suspeitos. Preferiu, ao contrário, atentar para o que informa a imprensa séria, que aqueles vagabundos chamam de “golpista”. Ao fazê-lo, captou um sentimento que a canalha a soldo já não reconhece: indignação. Fez algumas demissões e consolidou a sua imagem de durona e austera. Esse foi o seu maior acerto até agora. O resto é pífio. “E daí?”, pergunta o petralha. “Você está nos 6%, Reinaldo!” Claro que sim! Numa democracia se tolera a crítica da minoria, não é mesmo?

Por Reinaldo Azevedo

18/01/2012

às 16:44

A operação Haddad e a mentira como método. Ou: Cadê as 1.695 creches, soberana?

Outro dia recebi um comentário mais ou menos assim: “Reinaldo, você é o ultimo oposicionista do Brasil!” Numa reunião de jornalistas, contam-me, alguém se referiu à oposição, e um desses jornalistas isentos, engajados no governismo, ironizou: “Que oposição? O Reinaldo Azevedo?” e riu satisfeito. Os gracejos - um amistoso, outro hostil - são falsos de várias maneiras, mas refletem o espírito do tempo.

Não sou “de oposição” porque não faço política partidária. Já fui hostilizado por alguns tucanos, por alguns democratas e, obviamente e desde sempre, pelas esquerdas. E mantenho relações cordiais com pessoas de todas essas correntes. Mas, obviamente, não sou da turma do pudê. Meus valores não estão representados nesse governo - todo mundo que me lê sabe disso.

Tampouco sou o único, inclusive da imprensa, a ter um posicionamento crítico em relação ao petismo - na verdade, a governos. Há muito mais gente. “Sempre crítico, não imposta o tema?” Não! Contra alguns parceiros liberais, com os quais costumo estar alinhado, defendi, por exemplo, a decisão de baixar os juros - e ainda os considero excessivamente elevados, a despeito de todos os motivos que explicam a taxa. No caso daquela patuscada de Belo Monte, eu e os petistas de carteirinha estivemos do mesmo lado. Eu nunca me ocupo em saber antes o que os outros pensam para depois dizer o que eu penso. E nem tudo o que não é petismo me interessa. Como sempre digo tudo, lá vai mais uma vez: considero o marinismo mais obscurantista do que o petismo.

Mas acabei me alongando demais nos considerandos introdutórios, hehe - “Diga-me um de seus defeitos, Reinaldo…” E eu diria: “Escrever demais!” Sigamos. Confrontar o que se diz com os fatos não é “fazer oposição”, mas expressar apreço pela verdade. No post anterior, vemos um Haddad todo ancho, a afirmar: “O governo federal não tinha programa para a educação infantil. Incluímos a creche e pré-escola no Fundeb [Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica] e repassamos recursos para investimentos.”

Huuummm… Como é que se conta a verdade inteira? O PT FOI CONTRA A CRIAÇÃO DO FUNDEF, que antecedeu o Fundeb - na verdade, o “b” substituindo o “f” foi mais uma das patranhas petistas. Resolveram botar marca nova no que já havia. Quem criou o Fundef foi o ministro Paulo Renato, este, sim, um grande ministro da Educação, a despeito da história recontada pela ligeireza de Sérgio Cabral. Grande e perseguido pela escória sindical.

O petismo fez com o Fundef o mesmo que fez com o “Bolsa Família”. O partido era contra as bolsas, chamava-as de “esmola”. Lula o disse LITERALMENTE. Mais: afirmou que pobre que recebia dinheiro do governo deixava de plantar macaxeira, sugerindo que se tornava um vagabundo. Em lugar do programa, inventou um troço que nunca chegou a existir: o “Fome Zero”. Algum tempo depois, dados o insucesso e as trapalhadas da iniciativa, reuniu, por decreto, todas as bolsas criadas pelo governo FHC numa bolsa só: a “Família”. E passou a cacarejar. Como Haddad cacareja agora.

FHC chegou ao poder, em 1995, e a taxa de matrícula no ensino fundamental era de 89%. Quando Lula assumiu, estava perto de 98% - o mesmo índice em que está agora. No início do governo tucano, havia 33% dos brasileiros de 15 a 17 anos fora da escola; no fim, eram  18% - redução de 15 pontos percentuais (ou 45%). No governo Lula, caiu para 14,8% (redução de apenas 20%). Uma coisa é assumir a Presidência sem dispor de um instrumento para intervir da educação, ter de criá-lo (enfrentando a oposição de petistas e de seus aliados sindicais) e operá-lo com eficiência, como fez Paulo Renato. Outra, distinta, é chegar com tudo pronto, com o fundo disponível, e poder trabalhar sem ter de enfrentar sabotadores - porque, afinal, os sabotadores passaram a ser poder… Paulo Renato criou ainda o Saeb (Sistema de Avaliação do Ensino Básico) - a portaria que o instituiu é de dezembro de 1994, mas só começou a existir, de verdade, no governo tucano - e o Exame Nacional de Cursos, depois rebatizado de Enade pelos petistas. No post abaixo, a gente lê que Sérgio Cabral considera Haddad o melhor ministro da Educação da história do Brasil. Claro, claro… Quando se tem a determinação de puxar o saco de alguém, os fatos contam muito pouco. E eu trato de fatos.

Finalmente, no que diz respeito ao post abaixo, vemos Dilma e Haddad a fazer proselitismo na inauguração de uma creche. Não porque eu seja da oposição (não sou; até porque a oposição não parece ser de oposição, hehe); não porque eu esteja determinado a não reconhecer os méritos dos companheiros (a acusação é tola), mas porque, mais uma vez, estamos diante de fatos.

DILMA PROMETEU, NA CAMPANHA ELEITORAL, CONSTRUIR CINCO MIL CRECHES ATÉ 2014. As metas para 2011, aliás, eram estas:
- 3.288 quadras esportivas em escolas;
- 1.695 creches;
- 723 postos de policiamento comunitário;
- 2.174 Unidades Básicas de Saúde;
- 125 UPAs.

Quantas creches a soberana construiu até agora? Lembro, como arremate, que Lula prometeu erguer um milhão de casas, e Dilma, mais dois milhões. No ritmo de entrega, na conta que fiz em dezembro, a promessa será cumprida daqui a 22 anos…

Encerro
“Pô, Reinaldo, quem tem de dizer essas coisas é o Sérgio Guerra, é o Aécio, é a oposição…” Eu não tenho a menor pretensão de pautar que quer que seja.

Eu sei o que eu tenho a obrigação de dizer.

Por Reinaldo Azevedo

18/01/2012

às 15:09

Começou a “Operação Haddad”. Como de hábito, ancorada na mistificação

É…

Considerando que eles nunca foram conhecidos por seu excessivo amor à democracia, digamos que estejam cumprindo o seu “papel histórico”, como gostam de dizer alguns esquerdistas: a construção, na prática, de um Partido Único, onde caiba de tudo. Leiam o que vai abaixo. Volto em seguida.

Dilma usa inauguração para exaltar Haddad

Por Italo Nogueira, na Folha Online:
A presidente Dilma Rousseff usou evento de inauguração de uma creche na tarde desta quarta-feira (18) para exaltar o ministro da Educação, Fernando Haddad, que sairá da pasta para disputar a eleição à Prefeitura de São Paulo. Na cerimônia de inauguração da creche Júlia Moreira da Silva, em Angra dos Reis (RJ), Dilma o classificou como “um dos grandes ministros desse país na área de Educação”. Haddad também foi elogiado por outros políticos presentes no evento.

“Ele viu que a Educação tinha que começar e ter importância desde a criança ao nascer. Quando ele cunhou a frase que a educação era um projeto da creche à pós-graduação, cunhou uma coisa importantíssima para o Brasil, que é a igualdade de oportunidade”, disse a presidente.

Em tom de despedida, Dilma disse que Haddad merece “reconhecimento” antes de sair do governo. “O ministro Fernando Haddad vai sair do governo, enfrentar outra realidade. Ele merece o reconhecimento do meu governo e do presidente Lula pela contribuição que deu para que pudéssemos aprofundar esse momento do país, que é de crescer e distribuir renda”, disse a presidente.

O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), disse que Haddad foi o melhor ministro da Educação que o país já teve.
“Dizem que Anísio Teixeira foi um grande ministro da Educação, e Gustavo Capanema [também]. Sem dúvida foram, mas em períodos não tão densamente democráticos como esse –uma coisa é ser ministro do Estado Novo, ou ser ministro de um período em que o presidente não chegou ao poder eleito diretamente. Onde não havia Ministério Público ou imprensa livres. Outra coisa é ser ministro, graças a Deus, com MP e imprensa livres. Não tivemos no período democrático ministro da Educação que se compare a Haddad.”

O ministro foi econômico no discurso. Agradeceu Dilma pelo “gesto” de inaugurar a creche e exaltou o aumento das matrículas em creches e universidades durante o governo Lula. “O governo federal não tinha programa para a educação infantil. Incluímos a creche e pré-escola no Fundeb [Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica] e repassamos recursos para investimentos.”

Comento
Ainda volto ao tema no próximo post. Perguntem aos milhões de estudantes que fizeram o maior vestibular do mundo, inventado por Haddad, o Enem, o que eles pensam da atuação deste mago da educação. Sérgio Cabral, como sempre, está dedicado a seus superlativos encomiásticos, que não encontram lastro na realidade. Ele próprio deve se achar o maior governador que o Rio já teve, como bem sabe a população da região serrana do estado.

Em algum lugar, li que Cabral não era exatamente um estudante dedicado. Nota-se. História do Brasil não estava, certamente, entre as disciplinas em que mais se destacava. Mas há muito mais a respeito.

Por Reinaldo Azevedo

17/01/2012

às 6:23

Saúde - Dilma sanciona Emenda 29; “Não muda absolutamente nada; é inócua”, diz Alckmin

Por Rafael Moraes Moura e Daiene Cardoso, no Estadão:
Com 15 vetos, a presidente Dilma Rousseff sancionou ontem a lei complementar que fixa os recursos mínimos a serem investidos por União, Estados e municípios em saúde. Um dos vetos descarta recursos adicionais para a área em caso de revisão positiva do PIB, sob a justificativa de que a “necessidade de constante alteração nos valores a serem destinados à saúde pela União pode gerar instabilidade na gestão fiscal e orçamentária”.

O texto diz que a União aplicará em saúde o correspondente ao valor empenhado no orçamento anterior, corrigido pela variação do PIB. O artigo vetado previa “créditos adicionais” em caso de revisão positiva do valor do PIB. “O Produto Interno Bruto apurado a cada ano passa por revisões periódicas nos anos seguintes”, justifica a presidente.

Em caso de variação negativa, os recursos não poderão ser reduzidos. A lei determina que Estados invistam, no mínimo, 12% da receita em serviços públicos de saúde. Para municípios, o mínimo é de 15%.

Promessa de campanha de Dilma, a regulamentação da chamada Emenda 29 abalou a lua de mel entre a presidente e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). “Não altera absolutamente nada. A Emenda 29 é totalmente inócua, não traz nenhum dinheiro novo para a saúde”, criticou Alckmin. Para o tucano, o governo federal precisa colocar mais dinheiro no setor.

“Vamos continuar com o grave problema de financiamento da saúde no Brasil”, previu. O governo paulista, de acordo com Alckmin, destina 12,5% de seu orçamento para saúde. O prefeito Gilberto Kassab também afirmou que não haverá alteração porque a capital já investe mais que o previsto em lei - entre 19,5% e 20%. “São Paulo é um exemplo”, gabou-se Kassab.

Maquiagem. A presidente também vetou o artigo que previa que taxas, tarifas ou multas arrecadadas por entidades da área não fossem considerados na conta dos recursos mínimos previstos em saúde. Manteve, no entanto, a relação de despesas que não constituem serviços públicos de saúde, como o pagamento de aposentadorias e pensões, gastos com merenda escolar, ações de assistência social, saneamento básico e limpeza urbana - subterfúgios usados por governantes para maquiar as contas. São consideradas despesas desse gênero gastos com aquisição de insumos hospitalares, remuneração de pessoal da área e obras de reforma da rede SUS.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

13/12/2011

às 22:39

Pimentel não tem obrigação de ir ao Congresso, diz Dilma

Por Felipe Bächtold, na Folha. Na madrugada, volto ao assunto:
A presidente Dilma Rousseff disse nesta terça-feira que o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) não tem obrigação de ir ao Congresso falar sobre seus ganhos como consultor antes de entrar no governo. A base governista derrubou hoje convite para que ele falasse ao Senado sobre suspeitas de tráfico de influência. Entre 2009 e 2010, o ministro foi sócio da empresa P-21 Consultoria e Projetos. “O governo só acha o seguinte: é estranho que o ministro preste satisfações ao Congresso da vida privada, da vida pessoal passada dele”, disse Dilma.

Ela acrescentou: “Se ele achar que deve ir, ele pode ir. Se ele achar que não deve ir, ele não vai”. Para a presidente, o ministro só é “obrigado” a se manifestar no Legislativo sobre “assuntos do governo”. Dilma está em Porto Alegre, onde entregou máquinas para prefeituras e anunciou uma ponte que ligará a cidade à parte sul do Estado. Questionada sobre quem será indicado para ministro do Trabalho, cargo que era ocupado por Carlos Lupi, ela pediu que os jornalistas aguardassem e ficassem “calmos”.

Por Reinaldo Azevedo

12/12/2011

às 16:52

Ora, acreditem em Dilma! Ou: Entrevista de Dilma desmente biografia de Dilma

Vejam que coisa fabulosa!

Na biografia autorizada de Dilma, um eufemismo para ao puxação de saco autorizada ou a autoglorificação, Ricardo Amaral faz uma acusação mirabolante. Um guru indiano, a serviço dos tucanos, teria criado uma campanha, via e-mail, associando Dilma à defesa da legalização do aborto.

Eu já tinha publicado um outro arquivo do vídeo abaixo. Foi tirado do ar. Copiem este antes que tirem também.

Eis Dilma Rousseff, a “socialista”, numa sabatina na Folha de S.Paulo, em 2007. Vocês vão acreditar em Dilma ou em Ricardo Amaral no que diz respeito ao pensamento de Dilma?

Ninguém precisa de guru indiano! Como se nota, era uma Dilma antes do banho de loja e salão de beleza.

Por Reinaldo Azevedo

12/12/2011

às 16:40

Ninguém vai escrever uma biografia dizendo que Dilma cuidava do ensino religioso da VAR-Palmares?

Quem lê a puxação de saco autorizada de Dilma, também conhecida por “biografia autorizada”, fica com a impressão de que o apoio da petista à legalização do aborto é uma invenção da oposição. É como se ela nunca tivesse dito aquilo.

Daqui a pouco, vão dizer que, na VAR-Palmares, ela cuidada do ensino religioso. Em vez de praticar atentados terroristas, vai ver a entidade cuidava do catecismo.

Por Reinaldo Azevedo

07/12/2011

às 0:04

Lula diz estar ainda “desencarnando”. Então tá…

Eu me dediquei a alguns textos longos na tarde desta terça e deixei alguns registros de lado, mas vamos lá. Lula se encontrou com Dilma e disse que ainda está desencarnando. Confesso que essa metáfora já encheu um pouco o saco. Hora de arrumar outra.
*
Por Daniel Roncaglia, na Folha Online:
Quase um ano após deixar a Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva admitiu nesta terça-feira que ainda não “desencarnou” do cargo. Após se reunir com sua sucessora, Dilma Rousseff, em um hotel na zona sul de São Paulo, Lula deu uma rápida declaração aos jornalistas que o aguardavam no saguão do hotel. “Estou desencarnando ainda”, afirmou. A frase faz referência a uma declaração que o próprio Lula fez no início deste ano, de que ficaria longe dos assuntos do governo para poder “desencarnar” do cargo.

Dilma está na cidade para participar de um evento na noite de hoje e aproveitou a viagem para encontrar Lula. De acordo com a assessoria da Presidência, que não divulgou o encontro, Dilma tinha uma “agenda privada” no período da tarde. Antes de encontrar Dilma no hotel, Lula, que está em tratamento contra um câncer na laringe, esteve em seu escritório no Instituto Lula, no bairro do Ipiranga (zona sul). Ele saiu do escritório por volta das 15h. Por volta das 19h30, o governador do Rio, Sérgio Cabral, e o secretário de segurança do Estado, José Mariano Beltrame, também reuniram-se aos dois.

Por Reinaldo Azevedo

05/12/2011

às 6:41

O problema da jovem Dilma no tribunal é o photoshop na história, não na fotografia. Ou: quem mostra e quem cobre a cara

Peço que leiam com muita atenção este texto e outros que se seguem. No conjunto, eles caracterizam, entendo, a metafísica de um período da nossa história. É raro podermos relatar, em tempo real, a falsificação da história. No geral, o trabalho fica para os pósteros. Agora, podemos fazer nós mesmos esse trabalho. Vejam de novo esta foto, sobre a qual escrevi ontem. A petralhada ficou enlouquecida. Posso entender por quê. Essa gente nega até que o mensalão tenha existido, né? Tem dificuldades para conviver com a verdade. Muitos, na rede, afirmam tratar-se de uma montagem. Outros falam que o Photoshop atuou pra valer. Há quem desconfie que ela tenha sido, de fato, torturada porque estaria muito bem etc. Bem,  vejam de novo a imagem. Volto em seguida.

foto-dilma-depoimento-justica-militar1Ela foi presa em 16 de janeiro de 1970, e o interrogatório foi feito em novembro. Daria tempo para ter se recuperado. O ponto que interessa à lógica é outro. Sessões de tortura ao longo de 22 dias, conforme a versão influente, não eram prática dos trogloditas dos porões. As coisas costumavam ser mais rápidas e letais. Mas não! Eu não vou especular a respeito e, já escrevi aqui em outras ocasiões, acho que não se deve fazê-lo. Até porque havia, sim, torturadores operando nos porões do regime. NINGUÉM PRECISA NEGAR A PRÁTICA DA TORTURA PARA DIZER AS COISAS CERTAS A RESPEITO DAQUELE TEMPO.

A foto teria sido resgatada por seu hagiógrafo no arquivo oficial. Não há razão para duvidar de sua veracidade. Tampouco acredito que tenha havido qualquer manipulação técnica. ATENÇÃO, MEUS CAROS, O PHOTOSHOP QUE TEM DE SER COMBATIDO É OUTRO. O QUE SE PRETENDE COM O ESCARCÉU EM TORNO DESSA FOTOGRAFIA É OPERAR UM PHOTOSHOP NA HITÓRIA. É isso que tem de ser combatido. NÃO CAIAM NA CILADA DE DESCOFIAR DA VERACIDADE DA IMAGEM. TENHAM, ISTO SIM, É A CLAREZA PARA DESCONFIAR DO NOVO OFICIALISMO.

Conforme vocês verão no post abaixo, as esquerdas não eram compostas de anjos rebeldes, mas essencialmente bons, que estavam combatendo os dragões da maldade. Essa narrativa que a foto sugere é uma falsificação grotesca da história. No post abaixo, vocês constatarão, por exemplo, o que aconteceu com um homem chamado Orlando Lovecchio. Conhecerão, ou vão se lembrar, de Carlos Eugênio da Paz, que era da ala militar da Ação Libertadora Nacional, liderada por Carlos Marighella. Terão a chance, em suma, de ver de perto as esquerdas armadas, com a sua face real. A Dilma que aparece sentada ali num tribunal militar não remete àquela que tinha cargo de direção na VAR-Palmares, uma organização que era, sim, terrorista.

Os militares, que lêem papéis com o rosto coberto, geraram polêmica. Os mistificadores adoraram o contraste: ela, a jovem prisioneira, com o rosto à mostra; os fardados, que a julgavam, protegendo-se com as mãos. Estranho? Nem tanto!  Cometiam eles ali alguma ilegalidade para o estado de direito da época? Não! Agiam nos porões? Não! Faziam algo que contrariasse a lei, a exemplo dos torturadores? Também não! Ocorre, e sei que alguns agora terão borborigmos estertorosos, que mostrar a cara, nesse caso, implicava um risco considerável. Uma das linhas de atuação das esquerdas armadas consistia, justamente, em matar militares… fardados!

Era uma recomendação explícita, por exemplo, do Minimanual da Guerrilha Urbana, de Carlos Marighella (em vermelho):
- “Hoje, ser “violento” ou um “terrorista” é uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada”;
- “é inevitável e esperado necessariamente, o conflito armado do guerrilheiro urbano contra os objetivos essenciais: a exterminação física dos chefes e assistentes das forças armadas e da polícia.”
- “Esta é a razão pela qual o guerrilheiro urbano utiliza a luta e pela qual continua concentrando sua atividade no extermínio físico dos agentes da repressão”.

Um militar era, portanto, sempre um alvo. No dia 12 de outubro de 1968, um comando da VPR assassinou, por exemplo, Charles Chandler, capitão do Exército americano que estudava Sociologia e Política no Brasil com uma bolsa de estudos. Era considerado agente da CIA. Na frente da mulher e de um de seus filhos, Jeffrey, de quatro anos (havia ainda Todd, de três, e Luanne, com três meses), Chandler levou seis tiros de revólver calibre 38 e 14 de metralhadora quando saía de casa, de manhã.  Ah, sim: ele não era agente da CIA. Nomes de seus executores: Pedro Lobo de Oliveira, Diógenes José Carvalho de Oliveira e Marco Antônio Braz de Carvalho.

E o que dizer da morte do marinheiro inglês David A. Cuthberg, no dia 5 de fevereiro de 1972, decidida pela VAR-Palmares (grupo de Dilma), ALN (grupo de Marighella) e PCBR (grupo ao qual pertenceu, depois, Tarso Genro)? Leiam trecho de um texto publicado, à época, no jornal “O Globo”:
“Tinha dezenove anos o marinheiro inglês David  A. Cuthberg que, na madrugada de sábado, tomou um táxi com um companheiro para conhecer o Rio, nos seus aspectos mais alegres. Ele aqui chegara como amigo, a bordo da flotilha que nos visita para comemorar os 150 anos de Independência do Brasil. Uma rajada de metralhadora tirou-lhe a vida, no táxi que se encontrava. Não teve tempo para perceber o que ocorria e, se percebesse, com certeza não poderia compreender. Um terrorista, de dentro de outro carro, apontara friamente a metralhadora antes de desenhar nas suas costas o fatal risco de balas, para, logo em seguida, completar a infâmia, despejando sobre o corpo, ainda palpitante, panfletos em que se mencionava a palavra liberdade. Com esse crime repulsivo, o terror quis apenas alcançar repercussão fora de nossas fronteiras para suas atividades, procurando dar-lhe significação de atentado político contra jovem inocente, em troca da publicação da notícia num jornal inglês. O terrorismo cumpre, no Brasil, com crimes como esse, o destino inevitável dos movimentos a que faltam motivação real e consentimento de qualquer parcela da opinião pública: o de não ultrapassar os limites do simples banditismo, com que se exprime o alto grau de degeneração dessas reduzidas maltas de assassinos gratuitos”.

O tenente da FAB Mateus Levino dos Santos não teve melhor sorte em Pernambuco. O PCBR precisava de um carro para usar no seqüestro do cônsul norte-americano, em Recife.  No dia 26 de junho de 1970, o grupo decidiu roubar um Fusca, estacionado em Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife, nas proximidades do Hospital da Aeronáutica. Ao tentarem render o motorista, descobriram tratar-se de um tenente da Aeronáutica. O terrorista Carlos Alberto disparou dois tiros contra o militar: um na cabeça e outro no pescoço. Depois de nove meses de intenso sofrimento, Santos morreu, no dia 24 de março de 1971, deixando viúva e duas filhas menores. O imprevisto levou os terroristas a desistir do seqüestro.

Era perigoso pertencer à Força Pública de São Paulo, hoje Polícia Militar. No dia 22 de junho de 1969, militantes da ALN queriam as armas de dois soldados que estavam na rádio-patrulha 416. Não tiveram dúvida: incendiaram o carro, mataram os soldados Guido Bone e Natalino Amaro Teixeira e lhes roubaram as armas.

No dia 1º de julho de 1968, Edward Ernest Tito Otto Maximilian Von Westernhagen, major do Exército alemão, foi assassinado no Rio, onde fazia o Curso da Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Foi confundido com o major boliviano Gary Prado, suposto matador de Che Guevara, que cursava a mesma escola. Seus matadores: Severino Viana Callou, João Lucas Alves e um terceiro não-identificado. Sabem a que organização pertenciam? Colina (Comando de Libertação Nacional). Sabem quem era uma das dirigentes? Dilma Rousseff. Tinha tal importância na turma que foi uma das pessoas que negociaram com Carlos Lamarca a fusão do Colina com a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), dando origem à VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). E foi justamente por divergências com o grupo de Dilma que Lamarca se descolou da nova organização para refundar a VPR.

Aquele ar de musa existencialista com cabelo à la garçonne faz photoshop na história, entenderam? Esse é o retoque verdadeiramente nefasto. Acima, relato algumas execuções, e nada disso justifica a brutalidade dos porões ou a tortura. Nem remotamente. Não adianta a canalha ficar me atribuindo o que não escrevi. Mas não me venham com conversa mole. Militares, mesmo exercendo o seu papel legal, podiam estar cobrindo o rosto para preservar a vida. A tortura é uma prática asquerosa. Mas o que dizer de grupos que matam inocentes e jogam em cima do cadáver um manifesto explicando os “motivos”, responsabilizando-o por sua própria morte? Será coisa, assim, tão moralmente superior?

Está em curso um processo, agora mais agressivo — e é impressionante que isso aconteça na democracia — de santificação de criminosos. O meu paradigma é a democracia, é o estado de direito. Não reconheço grandeza, legitimidade ou beleza em assassinos convictos. A presidente Dilma Rousseff é beneficiária da democracia. A contribuição que ela deu a esse processo se conta a partir de sua reinserção da vida política, aproveitando-se, como todos nós, dos benefícios decorrentes DA LUTA POR DEMOCRACIA, NÃO DA LUTA PELO SOCIALISMO. A luta armada era só o imaginário golpista com sinal invertido. Ou um bando que mata um homem inocente na frente da mulher e do filho de quatro anos com 20 tiros é muito diferente de uma súcia de torturadores? Com quem você dividiria a mesa do bar ou os seus afetos? Tenham paciência! Todos merecem o lixo. Ocorre que os torturadores são justamente execrados. Já aqueles assassinos são indenizados e ainda viram mártires.

Podem contar quantas mentiras quiserem a meu respeito, especialmente alguns vagabundos que foram puxa-sacos do regime militar, puxa-sacos do Sarney, puxa-sacos de FHC e que agora puxam o saco do PT. Eu tive problemas com a ditadura, tratei Sarney aos pontapés, fiz a primeira capa de revista da imprensa brasileira alertando para o apagão de energia no governo FHC (e foi apenas uma das críticas) e trato o PT como se vê. Podem contar quantas mentiras quiserem, reitero, que continuarei a contar as verdades sobre eles.

Tontos ficam babando: “Alguns leitores deste blog têm saudades da ditadura”. Talvez um ou outro tenham, não sei. O que é certo é que a maioria sente uma certa nostalgia até do que não tiveram: uma democracia de direito, em que assassinos não posem (Emir Sader escreveria “pousem”) de heróis e mártires.

Nos comentários, reitero, peço comedimento. Temos de combater é o photoshop da história. Em nome da democracia e do estado de direito, fora dos quais não há solução. Esta é uma página contra golpistas, de direita ou de esquerda. Se os esquerdistas são mais criticados, isso se deve ao fato de que, no momento, são os mais assanhados em justificar os próprios crimes. Afinal, estão no poder.

Por Reinaldo Azevedo

04/12/2011

às 7:16

O que a foto de Dilma sugere, revela e esconde

Como disse Voltaire, o segredo de aborrecer é dizer tudo. Então vamos lá.

foto-dilma-depoimento-justica-militarA foto acima circulou bastante na Internet ontem. Vemos ali Dilma Rousseff, aos 22 anos, em novembro de 1970, quando depunha numa auditoria militar, no Rio. A imagem está no livro “A Vida quer coragem”, de Ricardo Amaral, que foi assessor da Casa Civil quando Dilma era ministra. Ele trabalhou depois na campanha eleitoral da então candidata do PT à Presidência. A petezada está excitadíssima — uma estranha e mórbida excitação, acho eu. Já falo a respeito. Antes, algumas considerações.

A hagiografia lulística exalta o nordestino tangido pela seca, o menino pobre, depois operário e sindicalista, que venceu todas as vicissitudes do destino — sua mãe nasceu analfabeta; fosse rica, já viria à luz citando Schopenhauer — até se tornar presidente da República e inventar o Brasil. Antes dele, eram trevas. Em palanque, o homem já chegou a se comparar a Cristo. O analfabetismo de nascimento de Dona Lindu é, então, uma espécie de metáfora da virgindade de Maria. Dilma, cuja família era rica, tem de ser santificada por outro caminho. Em tempos de instalação de uma “Comissão da Verdade” — que será a verdade dos que perderam a luta, mas ganharam a guerra de versões , é preciso ressuscitar a têmpera da heroína. Os grupos a que ela pertenceu praticavam, na verdade, ações terroristas. E daí? Isso não vai interessar à tal comissão.

Segundo se informa, Dilma havia sido torturada durante 22 dias antes de ser apresentada ao tribunal. Não vou pôr isso em dúvida. É coisa séria demais! Noto apenas que alguém que se deixa torturar pela lógica se vê obrigado a indagar por que os trogloditas que a seviciaram interromperam o serviço sujo para dar curso ao aspecto legal e formal da prisão. Adiante. O fato é que a imagem reúne um coquetel de clichês que serve à hagiografia dilmista.

Vemos ali uma mocinha magriça, bonita, cabelo meio à la garçonne, socialista por dentro (mas isso não se vê, só se sabe) e existencialista por fora. Embora, consta, ela desse aula de marxismo para a sua turma e cuidasse de parte das finanças da VAR-Palmares, há a sugestão de uma intensa vida interior, mais para “A Náusea”, de Sartre, do que para a literatura leninista. Olha para o vazio, com uma firmeza triste. Atrás dela, fora do foco, militares devidamente fardados consultam papéis. As mãos escondem o rosto. O contraste resta óbvio: na narrativa fantasiosa, a vítima, de cara limpa, estaria enfrentando seus algozes, que tentam se esconder da história. A justiça, firme e frágil, contra os brutamontes acovardados. Davi contra Golias. O Bem contra o Mal. A democracia contra a ditadura. O título do livro não deixa dúvida sobre o desfecho: “A Vida quer coragem”.

Em tempos de “Comissão da Verdade”, essa é a grande falácia alimentada por esse coquetel de clichês. Não eram democratas os militares que estavam no poder. Tampouco eram democratas aqueles que tentavam derrubar os militares do poder. Os poderosos de então tinham dado um golpe de estado. Os atentados terroristas não buscavam derrubá-los para instituir, então, um regime democrático no país. Os ditos “revolucionários” queriam também uma ditadura, só que a socialista.

Morreram 424 pessoas combatendo o regime militar — algumas delas com armas na mão, trocando tiros com as forças de segurança ou tentando articular as guerrilhas. Outras foram assassinadas depois de rendidas pelo Estado, o que é um absurdo. Os grupos de esquerda no Brasil, não obstante, embora com um contingente muito menor e muito menos armados do que o estado repressor, mataram 119! E, como é sabido, ninguém acende velas para esses cadáveres porque não têm o pedigree esquerdista. Contam-se nos dedos os “mortos pela ditadura” que não estavam efetivamente envolvidos com a “luta” para derrubar o regime. Não estou justificando nada. Apenas destaco, até em reconhecimento à sua própria coragem, que elas sabiam, a exemplo de Dilma, o risco que corriam. Já a esmagadora maioria dos indivíduos assassinados pelos grupos de esquerda — sim, também pelos grupos de Dilma — eram pessoas que nada tinham a ver com a “luta”, nem de um lado nem de outro: apenas estavam no lugar errado na hora errada: comerciantes, transeuntes, taxistas, correntistas de banco, guardas…

Apelando à pura lógica, isso é uma indicação do que teria acontecido se os movimentos ditos revolucionários tivessem realmente conseguido se armar para valer, atraindo milhares de brasileiros para a sua aventura. Teria sido uma carnificina, como é, ou foi, a história do comunismo. Dada a brutal diferença de aparato, fôssemos criar um “Índice de Letalidade” dos esquerdistas armadas e das forças do regime, aqueles ganhariam de muito longe. No campeonato na morte, as esquerdas são sempre invencíveis. É inútil competir.

Esses são fatos que a foto esconde. A luta dos democratas — não a dos partidários de ditaduras — nos restituiu um regime de liberdades públicas e respeito ao estado de direito. Felizmente, Dilma sobreviveu e é hoje umas das beneficiárias, em certa medida, de sua própria derrota, já que é a democracia que a conduziu ao posto máximo do país.  Este garoto, no entanto, não teve igual sorte.

mariokozelfilho11Trata-se de Mário Kozel Filho, que morreu num atentado praticado pela VPR no dia 28 de junho de 1968. A organização terrorista lançou um carro sem motorista contra o QG do II Exército, em São Paulo. Os soldados que estavam na guarda dispararam contra o veículo, que parou no muro. Kozel foi em sua direção para ver o que tinha acontecido. O carro estava carregado com presumíveis 50 quilos de dinamite. A explosão fez em pedaços o corpo do garoto, que tinha 18 anos. Treze meses depois, a VPR se fundiu com o Colina, o grupo a que pertencia Dilma, e surgiu a VAR-Palmares. Os assassinos de Kozel foram, pois, companheiros de utopia daquela moça que lembra uma musa existencialista na foto que agora serve à hagiografia.

Este homem também não teve a mesma sorte de Dilma.

capitao-alberto-mendes-juniorTrata-se do capitão da PM Alberto Mendes Júnior, assassinado por Carlos Lamarca e seus comparsas da VPR no dia 10 de maio de 1970. Àquela altura, o grupo já havia se separado da VAR-Palmares. Mendes havia sido feito prisioneiro do grupo. Como julgassem que ele estava atrapalhando a fuga, um “tribunal revolucionário” decretou a sua morte. Teve o crânio esmagado com a coronha de um fuzil. Dia desses, vi um ator na televisão exaltando a “dimensão da figura histórica de Lamarca”. Entenderam???

Caminhando para a conclusão
Alguns bobalhões — os que me detestam, mas não vivem sem mim — enviaram-me vários links com a foto de Dilma, fazendo indagações mais ou menos como esta: “E aí? Quero ver o que você vai dizer agora”. Pois é… Já disse! Alguns preferem ficar com as ilusões que a imagem inspira. Eu prefiro revelar os fatos que ela esconde.

A presidente Dilma Rousseff — que se fez presidente justamente porque as utopias daquela mocinha frágil, felizmente, não se cumpriram — assinou anteontem a carta da tal Comunidade de Estados Latinoamericanos e Caribenhos (Celac). Trata-se apenas de uma iniciativa para dar voz a delinqüentes como Raúl Castro, Hugo Chávez, Rafael Correa, Daniel Ortega e Evo Morales. A carta democrática não toca em eleições e imprensa livre porque isso feriria as susceptibilidades desses “democratas diferenciados”. Na cerimônia, o orelhudo Daniel Ortega identificou um grande mal na América Latina: A IMPRENSA.

De certo modo, Dilma assinou aquela carta com os olhos voltados para o passado. E ela só é presidente porque os democratas lhe deram um futuro.

Por Reinaldo Azevedo

02/12/2011

às 22:06

“Não sou propriamente romântica”, diz Dilma sobre declaração de Lupi

Por Flávia Marreiro, na Folha Online. Comento depois.
A presidente Dilma Rousseff ironizou nesta sexta-feira (2), em Caracas, a declaração de amor feita a ela pelo ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), no mês passado e disse que fará uma análise “objetiva” para decidir, a partir de segunda, se ele permanece na pasta.

Questionada se o “Dilma, eu te amo” lançado por Lupi durante sessão da Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara no dia 10 havia influenciado a decisão da mandatária de mantê-lo no cargo até agora, apesar do parecer contrário da Comissão de Ética da Presidência, ela respondeu:

“Eu tenho 63 anos de idade, uma filha com 34 anos, um neto de um ano e dois meses. Eu não sou propriamente uma adolescente e eu diria também [que não sou propriamente] uma romântica. Acho que a vida ensina a gente. Acho que a gente tem de respeitar as pessoas, mas eu faço análises muito objetivas.”

“Qualquer situação referente ao Brasil vocês podem ter certeza que eu resolvo a partir de segunda-feira”, continuou.

Na quinta-feira, antes de embarcar rumo à Venezuela, Dilma disse a Lupi que a única chance de ele permanecer no cargo até a reforma ministerial era fornecer explicações “convincentes” sobre o fato de ter ocupado, simultaneamente, dois cargos públicos por quase cinco anos.
(…)

Comento
Essa história de que Dilma teria dito a Lupi que ou ele explica os dois empregos públicos simultâneos ou está fora é de um ridículo atroz. Pergunta óbvia: com o resto, tudo bem? Está tudo explicado? Quem pagou o tal jatinho? Por que um ministro de Estado mentiu a uma comissão da Câmara? Aliás, consta que teria mentido à presidente também.

Vamos dar o nome certo às coisas. O Palácio está empenhado numa operação: convencer Lupi a sair sem usar “a” bala. Até agora, não conseguiu.

Por Reinaldo Azevedo

18/11/2011

às 19:15

As falas corretas de Genoino e Dilma sobre a Comissão da Verdade. Vamos ver se serão postas em prática

Não tenho preconceitos. Quando ouço ou leio coisas sensatas proferidas por pessoas de quem costumo discordar, não tenho receio de declarar: “concordo” — e a inversa também é verdadeira. José Genoino, ex-presidente do PT, um dos processados no escândalo do mensalão, é quem é, e o arquivo está aí para demonstrar o que penso de algumas de suas ações. Mas disse algo sensato hoje, segundo informa o Portal G1. Leiam. Volto em seguida.

Ex-preso político na Comissão da Verdade “não dá certo”, diz Genoino

Por Nathalia Passarinho:
O assessor especial do Ministério da Defesa, José Genoino, afirmou nesta sexta-feira (18) que ex-presos políticos não devem integrar a Comissão da Verdade, que será criada para apurar violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988 - período que inclui a ditadura militar. Segundo ele, escolher alguém que foi torturado durante o regime militar poderá dar margem a questionamentos sobre a imparcialidade da comissão. “Colocar ex-preso político não dá certo. Você não pode dar pretexto, porque se coloca alguém de um lado, o outro vai pedir. Se coloca um preso político, vão pedir para colocar quem prendeu”, afirmou após cerimônia de sanção do projeto que cria a comissão.

Genoino, que foi preso e torturado durante da ditadura, defendeu ainda que a presidente Dilma Rousseff não escolha representantes de entidade nem acolha indicações de ministros. “Não pode ter representante de indicação de ministério, senão vira uma colcha de retalhos. Você também não pode colocar representante de entidade, porque ele vai acabar representando a entidade”, disse.

Para o assessor especial do Ministério da Defesa, o grupo que será responsável por investigar crimes políticos não pode ser um “mero ajuntamento de pessoas”. “A comissão não é um ajuste de contas, é um ajuste de contas com o futuro. Se você ideologizar e dividir, você sacrifica o objetivo principal, que o direito à memória e não julgar A, B ou C”, disse. Segundo Genoino, a Comissão da Verdade deve iniciar a atuação já no início de 2012. “A presidente tem que escolher os nomes com calma. Deve terminar este ano [sem ser instalada] e começar a funcionar a no início do ano que vem”, disse.

A Comissão da Verdade será composta por sete membros indicados por Dilma Rousseff. Segundo o texto da lei, eles deverão ser “de nacionalidade brasileira, designados pelo Presidente da República, com base em critérios como o da pluralidade, reconhecimento de idoneidade e de conduta ética e por defesa da democracia, da institucionalidade constitucional e dos direitos humanos”.

Voltei
É o mais sensato, já que se fez a tal “comissão”, com esse nome absurdamente pretensioso. “Comissão da Verdade” regulada pelo estado e por governo é sempre algo suspeito, mas vá lá. Lembro, sendo absolutamente rigoroso com a fala de Genoino, que não se deve mesmo colocar ex-preso político na comissão, ele está certo, mas não apenas porque isso daria “pretexto ao outro lado”. É porque ficaria caracterizada mais uma revanche do que uma conciliação. Todo mundo sabe que a nossa comissão, à diferença daquela liderada por Desmond Tutu, na África do Sul, vai apontar os crimes cometidos apenas por um dos lados, certo? Os esquerdistas eram só vítimas, e o Regime Militar, só algoz. Falta agora preencher essa narrativa fantasiosa com alguns personagens. A Comissão da Verdade é isto: um grupo em busca de personagens para dar curso a um roteiro que já está escrito.

Na Bahia, onde participou de cerimônia para o lançamento (Atenção! Era só a inauguração de uma intenção) de obras de mobilidade urbana previstas no PAC, Dilma também falou sobre a Comissão da Verdade:
“Eu acredito que, na questão da verdade, chegamos ao momento em que o Brasil encontra consigo mesmo. A gente encontra consigo mesmo porque a gente encontra sem revanchismos. Porque o revanchismo não é uma forma de encontro. Então, encontramos sem revanchismo, mas também sem o silêncio comprometedor da cumplicidade, sem as duas coisas”.

Tá… O texto é mais confuso do que o de Chico de Oliveira, do PSOL, mas deu pra entender. E o sentido geral é correto. O que não vai bem aí é esse “consigo”. Mas fica para o próximo post.

Por Reinaldo Azevedo

03/11/2011

às 19:07

O câncer de Dilma ajudou a elegê-la; o de Lula o fez tomar de volta o mandato. Voltou a ser o presidente de fato do Brasil

Eu tenho, vocês já repararam, uma enorme preguiça dessa história de ranking de IDH etc e tal. Por motivos certamente diferentes dos de Lula. Vejo uma enorme salada de conceitos. Um caso ilustra bem o imbróglio. Há uma leitura demonstrando que países que produziram mais gases do efeito estufa acabaram tendo uma elevação no IDH, mas, adverte o estudo, isso vai até o ponto em que começa a acontecer o contrário, e a vida passa a piorar. Qual é o ponto ótimo? Vai saber. Trata-se de uma cascata incompreensível. O que sei, isso me parece pacífico, é que, sem desenvolvimento, tende-se a morrer de fome. Adiante.

Agora prestem atenção ao que segue. Volto em seguida.

Lula ficou “iradíssimo” com posição do Brasil no ranking do IDH, diz ministro

Por Tânia Monteiro, no Estadão Online:
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou “iradíssimo” e classificou como “injusta” a avaliação do estudo realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) que pôs o País em 84º lugar entre 167 países, com avanço do Brasil em apenas uma posição na classificação no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do ano passado para cá. Lula e o governo criticam o método usado desde o ano passado pelo PNUD para o estudo, que mostra que o Brasil subiu apenas quatro posições no ranking e questionou o órgão em relação à metodologia.

A queixa e o desabafo do ex-presidente e do governo foram transmitidos pelo ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, durante um seminário de cooperação entre Brasil e Itália, no anexo do Palácio do Planalto. Para Carvalho, a reclamação contundente do ex-presidente Lula é sinal de que ele continua acompanhando atentamente tudo que está acontecendo no País e “é uma prova de que ele está muito bem de saúde”.

Depois de comentar que Lula falou que o governo “precisa reagir” aos números apresentados pelo PNUD, Gilberto Carvalho esclareceu que já havia uma reclamação da metodologia adotada desde os dados apresentados no ano passado. Carvalho queixou-se que “os números das instituições brasileiras (do governo brasileiro) não foram utilizados” para se chegar ao IDH apresentado no estudo. Ele ressalvou que entende que é preciso ter respeito e cautela nesta questão e que “tem uma questão de metodologia do PNUD”, e defendeu que “vale a pena uma discussão em torno da metodologia que é usada”.

“Nós temos consciência de que nossos indicadores sociais cresceram e seguem crescendo. Mas nós não queremos entrar em uma polêmica sobre isso”, disse Carvalho, explicando que o ex-presidente ficou preocupado com a primeira visão que houve. “Estamos colocando ele a par de tudo que houve, de todo o processo. Para nós o importante é que o Brasil continua, em um ritmo mais lento, ou mais rápido, em uma linha de diminuir as suas diferenças sociais”.

Questionado se a maior queixa de Lula em relação ao PNUD era o fato de o Brasil ter subido apenas um ponto no ranking de IDH, Carvalho respondeu: “É por todo o esforço que temos feito, e então ele questionou a metodologia”. Gilberto Carvalho lembrou que “no ano passado já tinha havido uma contradição grande porque o PNUD havia mudado a metodologia sem nos avisar e aí houve uma queda em não sei quantos pontos”. O ministro Carvalho se referia ao estudo de 2010 que dizia que, com desigualdade, o IDH do Brasil caiu 19%, de acordo com a nova metodologia do PNUD.

Para a apresentação deste novo estudo, reconheceu, “houve um comportamento diferenciado” e houve diálogo com o PNUD anteriormente e o governo não quer criar “nenhuma confusão ou briga” com o órgão. Mas ressalvou: “Só temos ainda divergências quanto ao método, mas aí é uma questão técnica e que os nossos técnicos se sentarão com o PNUD para fazer a discussão adequada. Para nós, o importante é que nós continuaremos investindo para que a diminuição das desigualdades prossigam e que sejamos cada vez mais um país menos desigual”.

Voltei
Se faltava alguma coisa para Lula voltar a ser tratado como presidente, não falta mais: a doença. Em muitos aspectos, o câncer de Dilma ajudou a elegê-la. Foi um fator importante, como sabe qualquer especialista em eleições. E, agora, o câncer de Lula arranca da mão dela o galardão. Em vez de a presidente reclamar, quem se manifesta é o ex, que se torna mais atual do que nunca.

A reclamação, em que pese eu não dar muita bola pra esse troço, é absurda. Rankings são dados comparativos. O Brasil pode ter melhorado segundo os critérios dados, mas outros podem ter avançado ainda mais.

Mas eis aí: voltamos a ter o homem que fala aos brasileiros e ao mundo em nome do Brasil. Lula reassumiu a Presidência da República.

Por Reinaldo Azevedo

30/10/2011

às 6:55

De braços dados com os meus leitores - Só os que acreditam em bandidos a soldo se surpreenderam com o que escrevi sobre Lula. Este blog tem história, arquivo e memória!

Os leitores que conhecem este blog e que me lêem habitualmente não se surpreenderam com o que escrevi sobre a doença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Aqueles que caem no conto de vigaristas e que acreditam nas coisas que me são atribuídas —  não naquelas que eu efetivamente escrevo — se disseram surpresos. Estava na igreja quando recebi a notícia, via SMS. Dei instrução para que se publicasse a informação e se tomasse extremo cuidado com os comentários.

Tinha um compromisso familiar — o batismo do queridíssimo Tiago, de quem nos tornamos padrinhos —, e só voltei à minha casa no fim da tarde. Escrevi, então, o post acima e li os comentários do outro, excluindo muitos que me pareceram acima do tom. Fernando Oliveira, que nos ajuda (a mim e à Dona Reinalda) na mediação dos comentários, é competente e criterioso, mas se trata de uma operação sempre delicada, que envolve aspectos também subjetivos.

Antes que prossiga, uma observação importante. Ser “anti-Reinaldo Azevedo”, atacar-me, ainda que de modo estupidamente gratuito, rende grana. Os que o fazem, sem exceção, são patrocinados por dinheiro público — propaganda de governo ou de estatais. Virou uma profissão. Quem paga deve saber por quê. Quem recebe também. Não dou bola. Meu compromisso é com os meus leitores.

Ontem, em pleno sabadão, este blog recebeu 90.121 visitas. Agredir-me é uma forma de tentar existir na rede — sem contar que se trata, como é verificável, de uma profissão, de um meio de vida. É um troço moralmente miserável, mas, às vezes, o sujeito não tem outra opção na carreira; é o que resta a ex-jornalistas convertidos em esbirros do oficialismo. Sugiro, a propósito, aos admiradores dessa página que ignorem os valentes. Não entrem nessas páginas suspeitas para bater boca como comentaristas. Estão em busca de visibilidade.

Surpresa por quê?
Sou menos vaidoso do que muitos supõem ou acusam, mas tenho alguns orgulhos. Um deles é pensar com coerência e não mudar de acordo com o vento. No dia 25 de abril de 2009, quando a então ministra Dilma Rousseff fez o anúncio de sua doença, escrevi o texto “A atitude digna de Dilma”. Lá está com todas as letras:
“(…) doença não é categoria de pensamento. Doença não serve para distinguir pessoas, nem para o mal nem para o bem. No meu mundo, homens e mulheres são mesmo imperfeitos, têm problemas - inclusive os de saúde. Mas não se conformam com eles. Os males que temos, no corpo e na alma, têm de ser combatidos.
Espero, sinceramente, que a ministra vença a sua doença. E aproveito para dar a diretriz do blog neste caso. Será considerado um inimigo desta página aquele que ousar fazer o que faz a escória que combato: usar essa questão para atingir politicamente a pré-candidata do PT. A Dilma que combato é a que lidera a farsa política do PAC. A Dilma que luta, como todos nós, contra os seus males merece o meu aplauso.”

Faço, quando é pertinente fazer, a devida distinção entre “a pessoa” e “o político”. É claro que muita gente tenta embarcar nessa diferença para chamar “questão pessoal” o que é mera apropriação do dinheiro público. Eu escolhi a civilização.

No dia 26 de abril de 2009, num texto intitulado “A doença sem metáforas”, apontava o trabalho de “gente que vem lá do submundo do subjornalismo para tentar borrar a área de comentários, fazendo um esforço para caracterizar os leitores desta página como brucutus que não sabem a diferença entre dramas privados e questões públicas.” Acrescentei: “E agem assim precisamente porque eles não distinguem uma coisa de outra. É preciso que arrastem para a lama aqueles que consideram adversários para justificar seu próprio vício de se espojar no lodo.” Nesse texto, eu já apontava o risco de que os petistas fizessem uma exploração eleitoreira do evento a partir de uma fala da própria Dilma na entrevista coletiva: Aliás, nós, brasileiros, temos esse hábito de sermos capazes de enfrentar obstáculos, de transpô-los e de sair inteiros do lado de lá.”

Muito bem! No dia seguinte, 27 de abril de 2009, Fernando Haddad, ministro da Educação, caia de boca no câncer eleitoreiro. Para a minha estupefação, afirmou: “Imagino que [o câncer] possa até fortalecer [a ministra] pela sua própria trajetória, pelos desafios que ela já venceu. Pode fortalecer a identidade da ministra no projeto que se confunde com a superação das dificuldades do próprio país”. Entenderam? Haddad via a doença como um ativo eleitoral e como uma metáfora. E não estava sozinho.

A reflexão mais grotesca, e não há surpresa nisto, foi feita por Marco Aurélio Garcia sobre a qual escrevi no dia 28 de abril de 2009, presenteando-o com um texto intitulado “A voz do tártaro: dirigente do PT reflete sobre os benefícios eleitorais do câncer”. Dizendo ter conversado com um filho médico, afirmou o bruto:
“Do ponto de vista médico, ela tira isso aí de letra. Do ponto de vista político, ele disse que isso vai reforçar a candidatura dela.
Eu, que já enfrentei situações parecidas, não tenho a mínima dúvida de que nossa ministra Dilma já se saiu bem desta, inclusive a coragem com que enfrentou, a franqueza. Ou seja, isso deve ter impactado muito bem na opinião pública do País”.

No dia seguinte, 29 de abril de 2009, escrevi então o artigo “Câncer no palanque: um ‘case’ de Comunicação. E notava:
“Faltavam a Dilma qualidades de, digamos assim, ‘mãe dos pobres’ - assim como Lula é o pai. Ela era tão-somente a mãe do PAC, algo muito impessoal, frio, que não vinha rendendo os necessários dividendos eleitorais. Ninguém inventou uma doença para Dilma - isso é uma bobagem. A invenção é outra. Trata-se de uma personagem: UMA MULHER DOENTE, CURADA PELA CORAGEM. Essa é a peça publicitária, sobre a qual os próprios petistas falam com destemor; mais do que isso: tratam do assunto com uma falta de vergonha que é muito característica.”

Vergonha na cara
Não! Eu jamais faria, ou permitira que se fizesse, baixa exploração política de um tema como esse. Como digo no texto lá do alto, sobre Lula, eu acho detestável que se possa politizar o câncer, que a doença seja tratada como metáfora, como punição moral, como conseqüência de nosso eventual mau comportamento. E, como está fartamente demonstrado aqui, não assumi essa postura agora. Há mais de dois anos, com Dilma, atuei da mesma maneira. E a razão é simples: eu sei o que eu penso, e penso o que penso. Não emprego instrumentos que considero ilícito que meu adversário empregue. Do mesmo modo, não acho que ele só tem legitimidade se operar com os meus critérios. E nada disso me impede ser bastante duro com aquilo que repudio.

É bom provar o que se diz, não? O que vai acima desmonta duas farsas: 1) a dos vigaristas do subjornalismo, que pretendem me atribuir uma prática e um pensamento que não são meus para me caracterizar como truculento porque, assim, disfarçam a própria truculência a serviço do oficialismo, e 2) a dos petralhas; eles, sim, conforme o demonstrado, levaram o câncer para o palanque e para a rinha política.

“Mas e então, Reinaldo, como é que ficamos?” Ficamos como estávamos. Nego-me a considerar essa gente o meu norte moral e a reproduzir as suas práticas. A Internet está aí. Devo ter sido o primeiro jornalista, talvez no mundo, a considerar inaceitáveis as práticas daqueles que derrubaram o homicida Muamar Kadafi. Não precisei que Obama se dissesse chocado para, então, poder ancorar em alguma referência politicamente correta a minha própria indignação.

Não são meus adversários que ditam meu norte moral. E eles só são meus adversários porque acreditam em coisas em que não acredito, porque fazem coisas que eu não faço, porque querem um mundo que eu não quero.

Por Reinaldo Azevedo

28/10/2011

às 6:33

Dilma está me saindo uma pândega… Ou: Um duplo atentado terrorista

Essa Dilma! O Apedeuta fez 66 anos (é mentira que seja 666, credo!), e ela, com fino e insuspeitado senso de ironia não lhe deu um, mas dois livros de presente.

No dia 19 de agosto de 2009, no, vejam só, meu aniversário, ele me presenteou com a seguinte fala, numa entrevista à Rádio Tupi, do Rio:
“Eu agora estou lendo o novo livro do Chico [Buarque], ‘Leite Derramado’. Passo um pouco da noite lendo. Eu não consigo ler muitas páginas por dia, dá sono. E vejo televisão: quanto mais bobagem, melhor para mim! Eu quero é limpar a cabeça!”.

Então.

Calma lá, gente, sem preconceito! O sujeito dormir lendo um livro do Chico Jabuti faz todo sentido. Mesmo um Apedeuta juramentado é capaz de perceber, intuitivamente, períodos desconstruídos, composição ruim de palavras, ausência de paralelismos sintáticos que evidenciam que a língua é um sistema… O colecionador de Jabutis alheios é ruim de lascar na prosa e, em versos, consegue ser competente na glosa…

Boa mesmo é a declaração sobre televisão: se a bobagem limpa a cabeça de Lula, a gente imagina como é a dita-cuja quando está suja…

Mas volto. Vai Dilma e resolve cometer um duplo atentado terrorista…

Por Reinaldo Azevedo

25/10/2011

às 6:49

Dilma admite que ministro Orlando Silva não resistiria a nova denúncia; se é assim…

No Globo:
Por Gerson Camarotti, Cristiane JungblutNuma conversa reservada nesta segunda-feira, em Manaus, a presidente Dilma Rousseff demonstrou preocupação com a situação política do ministro do Esporte, Orlando Silva. Ao lado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de outros interlocutores, ela admitiu, segundo relato de presentes, que o surgimento de novas denúncias poderia inviabilizar a permanência do ministro no governo. “Ele não resistiria a mais uma denúncia nova”, constatou Dilma, segundo relato de interlocutores que estavam em Manaus.

Em outro momento, foi o próprio Lula quem demonstrou preocupação com a quantidade de denúncias envolvendo o Ministério do Esporte e assessores de Orlando. Mas ressaltou que era preciso ter cautela com a veracidade das denúncias.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

25/10/2011

às 6:41

FHC volta ao Alvorada para receber “The Elders” com Dilma

Por Valdo Cruz e Ana Flor, na Folha:
Quase nove anos depois de deixar a Presidência, Fernando Henrique Cardoso voltará hoje ao Palácio da Alvorada como convidado da presidente Dilma Rousseff. Ela receberá para jantar o grupo conhecido como The Elders (os anciãos, em português), que reúne líderes mundiais em torno de uma agenda de promoção da paz. Estão confirmados o arcebispo sul-africano Desmond Tutu; o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter; o ex-presidente da Finlândia Martti Ahtisaari; a ex-primeira-ministra da Noruega Gro Brundtland; e a ex-alta comissária da ONU para Direitos Humanos Mary Robinson.

O grupo foi criado em 2007 pelo ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, que não participará do jantar por motivos de saúde. Em fevereiro, FHC pediu a Dilma que os recebesse em audiência. À época, a presidente confirmou o desejo de encontrar os líderes. Eles estão reunidos no Rio. Será a primeira vez que FHC voltará ao Alvorada, residência oficial da Presidência, desde o final de seu governo (1994-2002).
(…)

Por Reinaldo Azevedo

24/10/2011

às 16:59

A barriga do petismo

petismo-gordo

Acima, vocês vêem Luiz Inácio Apedeuta da Silva, Dilma Rousseff e o governador  do Amazonas, Omar Aziz, durante inauguração da ponte Rio Negro, que liga Manaus ao município de Iranduba. A obra custou R$ 1,099 bilhão e levou quase quatro anos para ser concluída. A presidente aproveitou a ida ao estado para anunciar o envio de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que prorroga até o ano de 2073 a Zona Franca de Manaus. Logo o PT estará tomanhdo decisões para os próximos mil anos… No discurso, ela disse que os outros presidentes quase acabaram com o benefício, que Lula o reabilitou etc e tal — é a cascata costumeira do nunca antes…

A foto revela autoridades têm uma certa visão turística do Brasil — ou de regiões do país. No Nordeste, chapéu de vaqueiro; no Amazonas, cocar… Vejam que Omar Aziz não paga o mico. Por que os governantes não se vestem de malandros da Lapa quando estão no Rio e de cantadores de viola quando em São Paulo?

A foto, de Roberto Stuckert Filho, fotógrafo oficial da Presidência, indica ainda, de maneira inequívoca, que o petismo está obeso. Caciques com essa circunferência teriam de levar uma guerra com a barriga… E não levam?

Por Reinaldo Azevedo

 

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