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Caetano Veloso

26/03/2013

às 6:56

Caetano, Wagner Moura, Jean Wyllys e Chico Alencar se acham democratas? Então vamos ver o que eles pensam sobre o regime democrático e o Parlamento

Ouvi dizer que haviam convocado uma manifestação de repúdio ao preconceito e coisa e tal na sede da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), no Rio. Pensei: “Que bom! A ABI ainda estava sob os miasmas da corrupção ativa e da formação de quadrilha, que ali se juntaram no evento em defesa de José Dirceu”.  Aí falaram que o Caetano Veloso, o Wagner Moura e a Preta Gil iriam. “Ah, então é coisa de sustança intelectual.” Imaginei que os três estavam decididos a protestar contra a Funarte, que barrou a inscrição de um trabalho de dez bailarinos negros no “Prêmio Funarte de Arte Negra” porque a pessoa jurídica à qual são ligados tem um diretor branco. Pensei: “O autodeclarado mulato Caetano Veloso não concorda com isso”.

Mas não! Tratava-se de mais uma manifestação contra Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Com alguns nomes estrelados do mundo das Artes & Espetáculos & Celebridades, a convocação logo juntou 600 pessoas, sob o comando do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) e do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

Repetiram-se as acusações de racismo e homofobia contra Feliciano. Eu jamais votaria nele para deputado. Tampouco o escolheria, se dependesse de mim, para presidir qualquer comissão. Mas o fato é que a acusação de homofobia é só uma tentativa de puni-lo por delito de opinião e que a de racismo vai além do ridículo. Feliciano tem o direito de ler errado a Bíblia, embora não deva. E é mais mulato do que Caetano Veloso.

O cantor, aliás, como de costume, arranhou a dialética:
“Não é admissível que essa Comissão de Direitos Humanos e de Minoria esteja sendo dirigida e presidida por um pastor que expressou nitidamente a intolerância, tanto da ordem sexual como racial. É fato conhecido e notório. Esse é um momento que nós deveríamos estar reunidos para tentar defender o que significa ter um Congresso. Porque o maior perigo é levar o povo brasileiro a desprezar esse nível do exercício do Poder Legislativo. Isso pode criar uma má impressão do que é democracia. Estamos reunidos aqui hoje para dizer que no Congresso não se podem fazer coisas absurdas, significa também dizer que nós não queremos viver sem o Congresso”.

“Fatos conhecidos e notórios”, em casos assim, costumam se confundir com linchamento. As duas coisas são falsas. E isso é apenas um fato. Caetano deveria nos explicar “o que significa ter um Congresso”. Eu entendo que significa, entre outras coisas, haver lá gente com a qual não concordo. E eu não concordo com Feliciano. Mas também não concordo com Caetano. O povo anda tendo algum desprezo pelo Congresso, mas por razões que passam longe dessas evocadas pelo artista. Cito o caso do mensalão, que, salvo engano, nunca levou a nossa vestal baiana para a praça — embora esteja certo de que ele não concorda com aquela sem-vergonhice.

Caetano não é burro, não! Conhece a língua portuguesa, mas se expressa numa espécie de idioleto, o “caetanês”, que pode ser surpreendentemente autoritário: “Estamos reunidos aqui hoje para dizer que, no Congresso, não se podem fazer coisas absurdas; significa também dizer que nós não queremos viver sem o Congresso”. Em síntese: “Queremos (eles querem) um Congresso, desde que ele faça coisas com as quais concordemos; se passar a fazer coisas com as quais outros concordam, aí a gente começa a pôr em dúvida a existência do Congresso”.

Quando pego no pé de Caetano, alguns amigos, admiradores de sua música, protestam. Ora, eu também gosto de muitas das suas canções. Mas o pensador da democracia pode ser de uma impressionante ligeireza.

Wagner Moura, que incorporou, definitivamente, o papel de Capitão Nascimento das causas politicamente corretas também estava lá, com aquele seu ar de pensador grave. Tentou negar que exista preconceito religioso na pressão contra Feliciano:
“Acho muito desonesto os parlamentares do PSC dizerem que a oposição ao nome do Feliciano à presidência é uma intolerância contra a figura dele. É, portanto, significativa a presença de vários líderes religiosos aqui, inclusive os pastores presbiterianos”.

Havia pastores presbiterianos lá, que, obviamente, concordavam com o pleito de Moura. Isso significa dizer, portanto, que Moura não tem intolerância nenhuma contra pastores desde que os pastores concordem com… Moura!

Ainda bem que o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) estava lá para dizer a verdade: “Hoje ou amanhã, o Feliciano pode ser trocado e entrar um deputado que não diz tanta coisa que choque, mas pode representar a mesma política de anulação da comissão”. Vale dizer: Alencar quer é destituir a comissão inteira. Feliciano é apenas o primeiro da lista.

Jean Wyllys, numa demonstração que entende perfeitamente a independência entre os Poderes herdada lá de Montesquieu, cobrou que Dilma — sim, que a chefe do Executivo! — faça alguma coisa. E pensou, indo a altitudes inéditas: “O governo sabe se meter no Legislativo quando é de seu interesse”. A sabedoria convencional estaria a indicar que o deputado Wyllys — que é representante de um Poder, não apenas dos gays — deveria é protestar contra a ingerência do governo no Legislativo… Mas quê! Ele quer é ainda mais ingerência. Quando é a favor de causas que ele defende, então essa ingerência é boa. Entenderam?

Wyllys extrapolou. Leio no Globo:
Jean Wyllys ressaltou que a iniciativa do protesto não é apenas lutar contra a permanência de Marco Feliciano à frente da comissão, mas também, segundo o parlamentar, lutar contra o “projeto fundamentalista” que Feliciano representa. Ele disse ainda que os possíveis pré-candidatos à Presidência da República em 2014, Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB), Marina Silva (REDE) e Eduardo Campos (PSB) deveriam participar deste debate.
“Toda a sociedade está engajada. E o comportamento dessas quatro pessoas potenciais candidatos no ano que vem é ignorar esse movimento. Isso é inadmissível”, declarou o deputado, lembrando de questões referentes aos direitos LGBT e à religião. Para ele, este tema foi ignorado na última eleição para a Presidência da República, em 2010.

Eu não concordo com uma vírgula do que pensa o deputado Feliciano. Mas noto, pelas palavras de Wyllys, que ele tem certa propensão a eliminar do mundo dos vivos os que o contestam. E, obviamente, nesses termos, não terei como concordar com ele, com Caetano, com Moura e com a psolada toda porque vai que amanhã eles tentem me eliminar também, né?

Lamento! As palavras estão aí e fazem sentido. Essa gente não tem como dar aula de tolerância a ninguém. Até porque o seu protesto é seletivo, politicamente orientado. O silêncio sobre a violência institucional ocorrida na Funarte diz tudo.

Chico Alencar deu o fecho de ouro: “Ouvi dizer que ele (Feliciano) disse que só sairia morto. Nós, defensores dos direitos humanos, queremos matá-lo politicamente”.  Alencar me força a lembrar que socialistas defensores de direitos humanos são mesmo uma novidade na história, coisa recente. Como não podem — não nas democracias ao menos — matar seus adversários fisicamente, tentam matá-los moralmente.

Não por acaso, um dos fundadores do PSOL, ali mesmo no Rio de Chico Alencar e Freixo, é Achile Lollo. Está tudo contado aqui. Quem é ele? Trata-se de um terrorista italiano que, em 1973, despejou gasolina sob a porta de um apartamento, na Itália, onde estavam um gari, sua mulher e seis filhos. Ateou fogo. Morreram uma criança de 8 anos, Stefano, e seu irmão mais velho, de 22, Virgilio. O gari era membro de um partido neofascista. Como Lollo não gostava do fascismo, então ele resolveu incendiar crianças, entenderam? Um verdadeiro humanista!!!

Não! O pensamento de Feliciano não me serve e eu o combato. Mas toda essa gente que fala aí acima não tem a menor, a mais remota, a mais pálida ideia do que seja um regime democrático. Encerro com esta ilustração.

A PIRA HUMANISTA – O jovem Virgílio, minutos antes de morrer carbonizado, vítima de um atentado terrorista praticado por Achille Lollo, que hoje vive livre, leve e solto no Rio. Foi um dos fundadores do PSOL, que hoje pretende dar aula de democracia

Por Reinaldo Azevedo

25/05/2012

às 4:43

O Rio assiste ao renascimento da esquerda festiva e do miolo mole. O queridinho da vez é Marcelo Freixo, do mesmo partido que liderou o caos em São Paulo

Lá vou eu parafrasear o ex-presidente mexicano Porfirio Díaz, que afirmou sobre seu país: “Pobre México! Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”. Na reta das eleições municipais, digo cá com os meus botões: “Pobre Rio, tão perto do Cristo Redentor e tão longe de uma solução!”. Por que isso?

Prêmio Jabuti do Miolo Mole: candidato do PSOL é o novo queridinho dos descolados

Prêmio Jabuti do Miolo Mole: candidato do PSOL é o novo queridinho dos descolados

Os descolados, descoletes, intelectuais alternativos, celebridades e “pessoas boas no geral” — incluindo cineastas, claro!, que sempre têm na ponta da língua um “projeto” para o Brasil — têm um novo queridinho: o deputado Marcelo Freixo, do PSOL, caracterizado como herói no filme “Tropa de Elite 2″. Sim, claro!, Freixo travou uma batalha meritória contra as chamadas milícias. “Meritória”, diria eu, na ponta, mas não nos fundamentos. As suas considerações sobre as razões do crime organizado no Rio não fogem à triste ladainha das esquerdas que acabaram contribuindo para que o Rio fosse sitiado pela marginalidade. Ainda voltarei a esse tema, estejam certos.

Muito bem! Chico Buarque — desta vez em companhia de Caetano Veloso — acaba de adotar a candidatura de Freixo à Prefeitura do Rio. Principal propagandista do PT — e, obviamente, de seus métodos —, o sambista agora adota um outro bibelô da esquerda. No Rio, continuar no petismo significa se jogar na cachoeira da Delta, de Sérgio Cabral. Não pega bem em certos endereços de Leblon, Copacabana e Ipanema. Nesses locais, geralmente de um por andar, há que se endurecer, ser socialista, mas sem perder jamais a ternura pela propriedade privada — ainda que com dor no coração.

Leiam o que informa Marcelo Gomes, no Estadão Online. Volto em seguida:
Eleitor tradicional do PT, o cantor e compositor Chico Buarque declarou, na noite da última terça-feira, 22, apoio à candidatura do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) à Prefeitura do Rio. A confirmação foi feita na casa do artista, no Leblon, Zona Sul da cidade, durante um encontro, organizado pelo também cantor e compositor Caetano Veloso, que já havia aderido à candidatura do PSOL. O PT não terá candidato próprio nas eleições de outubro. Porém, terá a vaga de vice na chapa do atual prefeito Eduardo Paes (PMDB) à reeleição. O vice de Paes será o vereador Adilson Pires, ex-sindicalista e atual líder do governo na Câmara Municipal.

Segundo Freixo, Chico entrou “de cabeça” na campanha e aparecerá no horário eleitoral na televisão. “É esse tipo de aliança, com pessoas comprometidas com o futuro do Rio e do País, que eu busco. É melhor que fazer alianças espúrias para aumentar meu tempo no horário eleitoral na TV em troca de cargos públicos. Vamos ter pouco tempo de TV, mas temos as redes sociais e, sobretudo, a militância”, disse Freixo.

Além de Freixo e Paes, já lançaram suas pré-candidaturas à Prefeitura do Rio a deputada estadual Aspásia Camargo (PV), o deputado federal Otávio Leite (PSDB) e o deputado federal Rodrigo Maia (DEM). A vice de Maia, filho do ex-prefeito César Maia, será a deputada estadual Clarissa Garotinho (PR), filha dos ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho.
(…)

Voltei
O PSOL, partido ao qual pertence Freixo — e do qual até Heloísa Helena teve de pular fora — é a legenda que comandou, ao lado do PSTU, a greve do Metrô em São Paulo. Atenção! O reajuste obtido pela categoria acabou sendo inferior àquele que a Justiça havia proposto. Mas a greve, que fez a cidade mergulhar no caos, era uma questão de honra para a legenda — embora seja um fato universalmente conhecido que o Metrô oferece uma das melhores estruturas de trabalho do país a seus funcionários. Ocorre que o PSOL é socialista, entendem?…

O partido lidera ainda — também ao lado do PSTU — uma campanha bucéfala contra o reitor João Grandino Rodas, da USP, única universidade da América Latina a integrar o ranking das 100 melhores do mundo. Há dias, o senador Randolfe Rodrigues, do PSOL do Amapá — destacado membro da CPI do Cachoeira e insuspeito de desvio direitista — reclamava da patrulha que passou a sofrer na legenda porque resolveu integrar um grupo de personalidades que tentam levar investimentos para o Amapá. Os psolistas consideram que isso é desvio burguês.

A luta de Freixo contra as milícias, sua cara de bom moço e aquele ar de coroinha que ele faz às vezes servem para disfarçar a natureza truculenta de seu partido quando envolvido nos tais movimentos sociais. Uma coisa é distinguir a sua atuação contra os trogloditas do crime organizado que se disfarçam de agentes da lei, outra, distinta, é ter respostas para a cidade.

A adesão a Freixo é uma espécie de reedição da esquerda festiva e do miolo mole, que não tem a menor noção do que está fazendo. De pronto, tenho uma pergunta a Chico Buarque e a Caetano Veloso, que, mais falastrão, poderia responder: se Freixo for eleito prefeito, deve ser ele a liderar uma greve nos transportes do Rio, nos moldes daquela que seu partido liderou em São Paulo, com todas as suas dramáticas consequências para os pobres?

E que ninguém me venha com a história de que o apoio ao indivíduo não implica apoio ao partido. Isso não existe na esquerda. Ele terá de governar com os seus. E o PSOL é justamente um pedaço que se descolou do PT porque acusou a nave-mãe de não aplicar, na prática, as palavras que tinha como princípio.

Encerro
“Ah, é assim, Reinaldo? E votar em quem?” Queridos, graças a Deus, não voto no Rio! E sei que a expressão do meu alívio não responde grande coisa. Os cariocas façam suas devidas ponderações. PSOL como resposta? No Rio ou em qualquer lugar, esse partido está mais para um problema, ainda que Freixo, pessoalmente, consiga lavar o caráter da legenda.

“Como a gente faz, Reinaldo, quando nenhuma solução é exatamente boa?” Vou lhes dizer o que eu faria: escolher o mal menor. Sabendo o que sei do PSOL e vendo o que o partido fez ontem na cidade de São Paulo, digo sem medo de errar: não é o mal menor! O resto é com os cariocas.

Texto publicado originalmente às 22h07 desta quinta
Por Reinaldo Azevedo

28/03/2011

às 4:55

Caetano Veloso diz não querer dançar comigo “nem morta”! Um beijinho, então, nem pensar! Amadureça, meu senhor! Debata como um rapaz!

É triste o que está a acontecer com alguns dos chamados “ícones” da MPB: vinte e cinco anos de democratização os conduziram à obsolescência! Isso não deixa de ter seu lado bom! Nunca mais chamaremos ninguém de “ícone”. Acho correto recuperarmos o sentido original da palavra, que remete ao sagrado, o que não é o caso dessa gente — nem dessa turma nem de ninguém. Havia mesmo uma disfunção na política brasileira: artistas eram confundidos com pensadores; letristas, com poetas; metáfora, com solução administrativa. A ditadura lhes facultava falar por símbolos, o que deixava entrever a suspeita de sublime e pensamento superior. Na democracia, podem falar com clareza. É um deus-nos-acuda! Quantos de nós não imaginávamos que Chico Buarque, por exemplo, tivesse um bom Brasil na cachola? Sempre que lhe foi dado escolher um país como exemplo de sua “luta”, ele nos exibiu Cuba e seus assassinos.

Quem faltava à polêmica da Lei Rouanet? Aquele que não falta a nenhuma polêmica, procedimento com que, de certo modo, recauchuta a própria obra: Caetano Veloso! Nesse caso, ele vem com menos dendê e mais fúria porque também está defendendo a irmã. Louvo-lhe o amor fraterno e, uma vez mais, lamento o entendimento que tem da República. Fala como um aristocrata, um fidalgo, um defensor de privilégios.

Sabem qual é o grande e fundamental babado no Brasil? O desrespeito à propriedade privada! Como? Qual é a tese, Reinaldo? O dinheiro público — e renúncia fiscal é dinheiro público —, no Brasil, é considerado de ninguém ou, no máximo, “do governo”, como se governos produzissem bens e, portanto, valor. É mentira! Ele vive do que arrecada — e, pois, do confisco de uma parte da produção, prerrogativa que lhe facultamos em nome do bem comum. Deve ser usado para financiar operações que, se entregues às iniciativas privadas (no plural mesmo!), gerariam uma confusão dos diabos. Num caso escandaloso de inversão da finalidade, o dinheiro que aceitamos ser público é usado, com freqüência, para financiar operações privadas — e não só de artistas. Curiosamente, e o caso da Vale está aí como evidência escandalosa, a propriedade privada é expropriada de seus direitos em nome do chamado “interesse público”: o governo Dilma quer Roger Agnelli fora da direção da empresa porque ele teria pensado apenas no bem dos acionistas, ignorando supostas necessidades do Brasil…

Se o dinheiro da Lei Rouanet fosse privado, ninguém teria de torrar a paciência de Bethania ou de Caetano Veloso. Cada um faz com a sua grana o que bem entender, excetuando-se as práticas que os códigos legais consideram criminosas. Ninguém teria de se meter! Mas não é! Se a Vale fosse uma estatal, dentro do que a lei prevê, o governo direcionaria livremente suas estratégias. Mas não é! Qual é a melancólica constatação? Um país que desrespeita a propriedade privada também não vê motivos para respeitar a propriedade pública: o privado passa a ser do estado, e o que é do estado passa a ser de ninguém — ou dos espertalhões que se organizarem com mais eficiência. Essa é a questão de fundo!

Caetano resolveu usar a sua coluna no jornal O Globo para tratar do “caso Bethania”. E diz não querer dançar comigo, chamando-me, pois, para o arrasta-pé. E eu topo, claro! Sempre topo. Esse meu texto vale mais pelo que segue acima, que Caetano está se mostrando bem menos interessante do que eu próprio supunha. Mas vamos lá. Ele segue em vermelho; eu, em azul!

Bethânia

Não concebo por que o cara que aparece no YouTube ameaçando explodir o Ministério da Cultura com dinamite não é punido. O que há afinal? Será que consideram a corja que se  expressa” na internet uma tribo indígena? Inimputável? E cadê a Abin, a PF, o MP? O MinC não é protegido contra ameaças? Podem dizer que espero punição porque o idiota xinga minha irmã. Pode ser. Mas o que me move é da natureza do que me fez reagir à ridícula campanha contra Chico ter ganho o prêmio de Livro do Ano. Aliás, a “Veja” (não, Reinaldo, não danço com você nem morta!) aderiu ao linchamento de Bethânia com a mesma gana. E olha que o André Petry, quando tentou me convencer a dar uma entrevista às páginas amarelas da revista marrom, me assegurou que os então novos diretores da publicação tinham decidido que esta não faria mais “jornalismo com o fígado” (era essa a autoimagem de seus colegas lá dentro). Exigi responder por escrito e com direito a rever o texto final. Petry aceitou (e me disse que seus novos chefes tinham aceito). Terminei não dando entrevista nenhuma, pois a revista achando um modo de me dizer um “não” que Petry não me dissera – e mostrando que queria continuar a “fazer jornalismo com o fígado”) logo publicou ofensa contra Zé Miguel, usando palavras minhas.
Se não quer dançar “nem morta”, acho que não rola beijinho, certo? Que bom! Caetano é experiente no negócio das polêmicas. Atacar a VEJA, em casos assim, sempre rende — ele não lograria o seu intento xingando a Carta Capital, certo? Sua obsessão com a revista o faz ter, a cada hora, uma memória nova: trata-se de uma obra aberta, que vai crescendo e se modificando na medida do seu desagrado. É matéria psicanalítica! Eu nem sei de que vídeo ele fala. Eu, de qualquer modo,  sou contra ameaças terroristas e, sobretudo, ações terroristas — e em qualquer tempo. Isso tem me custado caro!

Nem VEJA nem eu aderimos a linchamento nenhum! A revista dedicou uma pequena matéria ao assunto e não se referiu apenas a Bethania. Eu escrevi vários textos sobre o tema e sempre deixei claro que sou contra a Lei Rouanet em si; o caso da irmã de Caetano se tornou emblemático, vamos convir, por causa dos valores envolvidos. O bom senso considerou excessivo que ela cobrasse R$ 600 mil para dirigir… Bethania em pílulas poéticas na Internet.

A histeria contra Chico me levou a ler o romance de Edney Silvestre (que teria sido injustiçado pela premiação de “Leite derramado”). Silvestre é simpático, mas, sinceramente, o livro não tem condições sequer de se comparar a qualquer dos romances de Chico: vi o quão suspeita era a gritaria, até nesse pormenor. Igualmente suspeito é o modo como “Folha”, “Veja” e uma horda de internautas fingem ver o caso do blog de Bethânia. O que me vem à mente, em ambas as situações, é a desaforada frase obra-prima de Nietzsche: “É preciso defender os fortes contra os fracos.” Bethânia e Chico não foram alvejados por sua inépcia, mas por sua capacidade criativa.
Trata-se de uma abordagem intelectual e historicamente desonesta. O juízo de valor que Caetano faz do livro de Edney Silvestre é, como todo juízo de valor, arbitrário. Direito dele! A crítica ao Prêmio Jabuti estava relacionada ao critério, QUE MUDOU! Eu já disse por que os romances de Chico são ruins. Caetano não consegue dizer por que são bons! Prefere apelar à torcida, um jeito covarde de debater. Como o autor de Leite Derramado  tem uma legião de fãs, apela aos admiradores de seus trinados para que defendam a sua prosa. Eu duvido, mas não dá para comparar aqui, que Caetano seja um leitor de Nietzsche mais dedicado do que sou. Descolada a frase do contexto, ela pode servir à justificação da tirania, assim como a irmã do filósofo tentou fazê-lo um justificador do nazismo. Sem essa, Caetano Veloso! Nietzsche não ampara o nazismo nem explica o capilé para Maria Bethânia.

A “Folha” disparou, maliciosamente, o caso. E o tratou com mais malícia do que se esperaria de um jornal que – embora seu dono e editor tenha dito à revista “Imprensa”, faz décadas, que seu modelo era a “Veja” – se vende como isento e aberto ao debate em nome do esclarecimento geral. A “Veja” logo pôs que Bethânia tinha ganho R$ 1,3 milhão quando sabe-se que a equipe que a aconselhou a estender à internet o trabalho que vem fazendo apenas conseguiu aprovação do MinC para tentar captar, tendo esse valor como teto. Os editores da revista e do jornal sabem que estão enganando os leitores. E estimulando os internautas a darem vazão à mescla de rancor, ignorância e vontade de aparecer que domina grande parte dos que vivem grudados à rede. Rede, aliás, que Bethânia mal conhece, não tendo o hábito de navegar na web, nem sequer sentindo-se atraída por ela.
Não debato a Folha. Isso é coisa lá entre eles. No que diz respeito à VEJA, CAETANO MENTE DE FORMA VERGONHOSA. A revista, reitero, tratou do assunto apenas na edição desta semana, sem uma única incorreção. Eu, no meu blog — e não sou “a” VEJA —, escrevi vários posts a respeito. Respondendo à ex-cria da ARENA Jorge Furtado, expliquei o que era Lei Rouanet, deixei claro que autorização para “captação” não era concessão de verba do Orçamento e que o dinheiro, se conseguido, é público porque vem de renúncia fiscal. COMO CAETANO NÃO CONSEGUE RESPONDER À CRÍTICA COM FUNDAMENTO, RESPONDE À QUE NÃO TEM FUNDAMENTO PORQUE PRECISA DIZER ALGUMA COISA. É uma das técnicas que Schopenhauer denunciava para se tentar ganhar um debate mesmo sem ter razão. É interessante saber que Bethania “mal conhece a rede”, como entidade que pairasse acima dessa vulgaridade. Vai ver é por isso que pediu logo de cara 600 paus para dirigir-se a si mesma, né, Caetano?

Os planos de Bethânia incluíam chegar a escolas públicas e dizer poemas em favelas e periferias das cidades brasileiras. Aceitou o convite feito por Hermano como uma ampliação desse trabalho. De repente vemos o Ricardo Noblat correr em auxílio de Mônica Bergamo, sua íntima parceira extracurricular de longa data. Também tenho fígado. Certos jornalistas precisam sentir na pele os danos que causam com suas leviandades. Toda a grita veio com o corinho que repete o epíteto “máfia do dendê”, expressão cunhada por um tal Tognolli, que escreveu o livro de Lobão, pois este é incapaz de redigir (não é todo cantor de rádio que escreve um “Verdade tropical”). Pensam o quê? Que eu vou ser discreto e sóbrio? Não. Comigo não, violão.
Nessa baixaria, não entro. Aí deixo para o fígado de Caetano Veloso. Começo meu texto fazendo a devida distinção entre “público” e “privado”. Não sou amigo nem de Noblat nem de Mônica Bergamo; tenho com ambos mais divergências do que convergências, mas acho que Caetano não incorre em ilações porque tenha fígado, não, mas porque pode não ter caráter. Pretende, ao expor supostos aspectos da vida privada de seus contendores, matar o debate com um procedimento similar à chantagem! E nada disso torna explicável o benefício concedido a Maria Bethânia.

O projeto que envolve o nome de Bethânia (que consistiria numa série de 365 filmes curtos com ela declamando muito do que há de bom na poesia de língua portuguesa, dirigidos por Andrucha Waddington), recebeu permissão para captar menos do que os futuros projetos de Marisa Monte, Zizi Possi, Erasmo Carlos ou Maria Rita. Isso para só falar de nomes conhecidos. Há muitos que desconheço e que podem captar altíssimo. O filho do Noblat, da banda Trampa, conseguiu R$ 954 mil. No audiovisual há muitos outros que foram liberados para captar mais. Aqui o link: http://www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2011/02/Resultado-CNIC-184%C2%AA.pdf. Por que escolher Bethânia para bode expiatório? Por que, dentre todos os nossos colegas (autorizados ou não a captar o que quer que seja), ninguém levanta a voz para defendê-la veementemente ?
Muitos erros não fazem um acerto. Caetano, a Soninha-toda-pura, na definição de Wally Salomão, faz de conta que não entendeu  a reação do distinto público. Aquela gente toda a que ele se refere, convenham, ao menos se dispôs a pôr o pé na estrada. Bethania enviou um projeto ao Minc em que receberia R$ 50 mil por mês para… dirigir-se!

Não há coragem? Não há capacidade de indignação? Será que no Brasil só há arremedo de indignação udenista? Maria Bethânia tem sido honrada em sua vida pública. Não há nada que justifique a apressada acusação de interesses escusos lançada contra ela. Só o misto de ressentimento, demagogia e racismo contra baianos (medo da Bahia?) explica a afoiteza.
Ah, a velha acusação de racismo! Pra começo de conversa, “baiano” não é raça, Caetano. Raça nem mesmo existe!

Houve o artigo claro de Hermano Vianna aqui neste espaço. Houve a reportagem equilibrada de Mauro Ventura. Todos sabem que Bethânia não levou R$ 1,3 milhão.
E ninguém afirmou o contrário. Pare de responder a uma mentira!

Todos sabem que ela tampouco tem a função de propor reformas à Lei Rouanet. A discussão necessária sobre esse assunto deve seguir.
É o que todos estão fazendo, tendo como emblema um caso escandaloso.

Para isso, é preciso começar por não querer destruir, como o Brasil ainda está viciado em fazer, os criadores que mais contribuem para o seu crescimento. Se pensavam que eu ia calar sobre isso, se enganaram redondamente. Nunca pedi nada a ninguém. Como disse Dona Ivone Lara (em canção feita para Bethânia e seus irmãos baianos): “Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há?”
Ninguém pensava que Caetano fosse calar, convenham! Há anos ele é tomado como símbolo do homem que opina sobre tudo, e com mais convicção em assuntos sobre os quais não entende nada. O choque provocado pelo caso Bethania foi até uma deferência à cantora. Como é um medalhão da MPB — aquilo que antigamente os tontos chamavam “ícone” —-, não se esperava dela um projeto que previsse aquele desfrute.

Caetano responde àquilo que ninguém disse porque não teria como responder àquilo que se disse. Se não quer dançar comigo “nem morta”, santa!, então tem de me deixar fora de sua cantilena nepotista. Se evoca o meu nome, é fatal que a gente se esbarre no salão!

*

Texto originalmente publicado às 16h07 de domingo

Por Reinaldo Azevedo

28/03/2011

às 4:39

Onde o “U” faz a curva!

Um vídeo de 1992 que tem lá sua graça 19 anos depois. Hoje se pode falar de uma nação de linchadores da divergência e da liberdade de expressão.

Por Reinaldo Azevedo

16/12/2010

às 15:39

Caetano, quer dançar comigo?

Caetano Veloso citou o blog em sua coluna no Globo de domingo. E o fez pela terceira semana seguida: explicitamente nesta e na retrasada, de modo indireto na anterior, quando escreveu sobre o pensamento de Mangabeira Unger, respondendo a uma crítica deste blogueiro. Não! Não estou tirando Caetano para dançar. O título é só pra chamar a atenção.  Ao contrário: aprecio a idéia de que estamos nos hostilizando um tantinho, cada um num canto do salão. Ele gosta de “briga”, o que acho bom. Eu também. Detesto essa conversa de conciliação. Quando alguém propõe frente ampla, costumo perguntar: “Se estamos todos juntos, contra quem vamos lutar?”

Confronto? Sou como os marxistas? Acredito que a luta de classes move a história e traz a semente do futuro? Eu não! Desde, deixe-me ver, os 21 anos — estou com 49 —, acho que é a história contada por vigaristas intelectuais a mover a luta de classes, reduzida a meros estratagemas de conquista do poder com o intuito de seqüestrar prerrogativas da democracia, transferindo-as aos “donos do povo”, que passam a falar por nós. Fui trotskista, confesso, ainda na minha primeira pelagem. Quem me convenceu do horror daquele pensamento não foi nenhum direitista, mas Lênin, cuja obra decidi ler de modo obsessivo num determinado momento da juventude. Cumpridos uns 20% da jornada, constatei que ele pouco estava se importando com tudo o que eu compreendia — ou que a civilização compreende — por justiça, liberdade ou mesmo igualdade.

O grande inimigo de Lênin era a democracia, que continua a ser a grande inimiga das esquerdas ainda hoje, na fase em que é patrocinada por bancos e conglomerados industriais, assumindo máscaras as mais diversas: ecologia, racialismo, confrontos de gênero, regionalismos etc. Feita aquela constatação no começo da jornada, o resto da trajetória serviu para que eu tivesse a certeza: “Eu detesto isso aqui”. Ficou claro para mim: a diferença entre o fascismo e o comunismo era só de perspectiva, não de objetivos. Para ambos, as divergências são só uma etapa primitiva da construção da uma totalidade, que, num caso, se revela no estado integral e, no outro, no partido.

Nesse particular ao menos, eu era mais nietzschiano. Eu acredito numa certa ética do guerreiro, que não vislumbra a eliminação do outro, mas o duelo permanente. Indivíduos existem para o embate. A história não é feita de eliminações, mas de acúmulos. No tempo em que me ocupava de Lênin, eu já havia lido a formidável biografia de Trotsky, de Isaac Deutscher, e me lembrava da visita que o jovem revolucionário fizera ao líder mais maduro, em Londres. Ambos saíram para passear, e Lênin mostrava os monumentos da cidade ao visitante dizendo: “Esta é a catedral deles, esta é a ponte deles…” “Eles” eram os burgueses. Um tanto envergonhado, ainda moço, pensei: “Este Lênin é uma besta”. Lendo depois a sua obra, confirmei: “Este Lênin é uma besta-fera”. As catedrais são nossas. As pontes são nossas.

Na coluna da semana passada, Caetano cita em tom depreciativo a obra do detestável filósofo Slavoj Zizeck, esloveno de nascimento. É um pensador contemporâneo (só mesmo no tempo) que, na prática, justifica o terrorismo como expressão moderna daquelas velhas contradições que as esquerdas acreditam mover a história. Devo ter sido o primeiro a dar uns pontapés neste senhor aqui no Brasil. Vai ver o meu pontapé não vale porque, afinal, Caetano já sugeriu que me alinho com a direita carola  e com as “marchadeiras de 1964″. Vai ver o fato de eu rezar o Pai-Nosso todos os dias me inabilita para combater um teórico do terror. Bem, em 1964, eu tinha três anos. Em 1976, aos 15, estava enfrentando problemas com um agente da ditadura infiltrado no colégio em que eu estudava…

Não estou aqui a exibir credenciais de esquerda para que não me confundam. Eu não estou nem aí para o que pensam a meu respeito. Os meus inimigos são os inimigos do regime democrático, pouco importa a fantasia de bons propósitos que eles enverguem. Imaginem se o demônio mostrasse sempre a sua cara feia, não é? Ninguém cairia no conto do rabudo. Peguemos um caso momentoso: querem rever a Lei da Anistia no Brasil em nome da Justiça? Pois bem: se é (e eu não acho que seja o caso) para ignorar a essência de um processo de anistia — que é um perdão concedido a crimes políticos (que assumem as feições mais diversas), não uma absolvição —, que o façamos, então, sem critério seletivo. Vamos “reencruar” a história para que todos os facínoras paguem por seus crimes. Vamos viver o esplendor de nossos conflitos de três décadas atrás! Ou toquemos a vida adiante , agarrando-nos às conquistas do estado de direito, que não faz a lei retroagir para punir inimigos. Penso assim porque sou de direita e me alinho com os militares? Penso assim porque sou lógico.

Volto a Caetano depois da digressão.

Eu fui o primeiro a protestar contra os jabutis em cima da árvore de Chico Buarque. E não porque ele é um bibelô das esquerdas, mas porque é um mau romancista. Expus aqui os meus motivos, apontando a sua falta de intimidade com a prosa, o que, a meu juízo, impede que seja distinguido como… um prosador! Caetano, no fim das contas, pede que eu respeite um ídolo da cultura popular brasileira, apelando — ele, não eu — a elementos que são externos à obra. Tanto é assim que o colunista se esqueceu de dizer por que os livros de Chico Buarque são bons. Acredito que isso faça parte de suas sutilezas…

Gosto de fazer os meus vermelhos-e-azuis, respondendo a textos trecho a trecho. Marcelo Coelho, da Folha, me acusou de arrogante ou policialesco certa feita por proceder assim. Errado. É uma questão de respeito ao autor que contesto. Estou cansado de ler coisas que jamais escrevi, mas que me são atribuídas. Gosto que o leitor tenha acesso ao original para poder se precaver também dos meus eventuais erros de leitura. O Globo não permite que se faça cópia do texto. Se Caetano quiser, pode enviar para a área de comentários. Facilita.

Vou parando por aqui — este texto, não a batalha. De tal sorte se tem criminalizado a divergência no Brasil — e o ambiente anda tão hostil ao debate — que, se querem saber, acho positivo que Caetano Veloso também tente agitar o marasmo. Num país sem oposição, por que um blogueiro e um compositor não podem se estapear um pouco, desafinando o coro dos contentes?

No que concerne a idéias, estamos no fundo do poço. As diatribes de Caetano e as minhas lixam o céu seco. Quem sabe a gente dê algumas esperanças às almas esticadas no curtume.

Por Reinaldo Azevedo

16/12/2010

às 13:41

Uma resposta a Caetano Veloso

Em sua coluna de domingo no Globo, Caetano Veloso volta a citar este blogueiro e comenta um post da nossa querida Yara Chiara, que responde ao colunista. Reproduzo o texto de Yara e volto com mais Caetano no post seguinte.

*
Rei, Caetano me citou em um artigo. Achei por bem escrever algo que encerre minha participação no episódio do “Jabuti”. Não tenho outro espaço senão o desse blog tão “grosseiro” e “reacionário” que acha que alianças com Collor e Sarney não tornam “menos pior” o “melhor Lula”; que não vê a ética como epifania momentânea que, incapaz de conduzir e alimentar o show por todo o tempo, deve dar espaço, polidamente, para o avanço histórico que nos torna um “pré-” de algum “pós-” difícil de discernir. Beijo!

Não sei como se responde a Caetano Veloso. Na verdade, não sei nem se é possível responder a Caetano Veloso: ele é emblemático demais para a modéstia que a vida, não o capricho ou a dissimulação afetada, me impôs. Se eu tenho algo em comum com Machado, trata-se da condição de pessoa míope inegavelmente cabeçuda e irreversivelmente prosaica, “condenada ao lado prático das coisas”.

Caetano Veloso me desconcerta. Não é seu nome nem seu legado, porque a honestidade me obriga a dizer que pouco conheço de sua música e, na medida em que músico e música encarnam a história, pouco entendo do passado e do presente também. Caetano me desconcerta por descobrir tendências profundas naquilo que me toca por diversão, hábito, gosto ou ingênuo prosaísmo.

Não estou – como achava até então – discutindo, em tom educado e sem maiores pretensões, a qualidade de um livro que eu comprei na livraria porque precisava ler algum romance para contrabalançar a leitura técnica e muitas vezes entediante do dia a dia. Sendo um romance brasileiro, pensei, tanto melhor, contanto que seja bom.

Caetano me diz que, de alguma forma, com minha modesta e quase envergonhada crítica, reflito o estado da educação no Brasil; a trajetória sinuosa e cruel de nossas mazelas; a reação histérica, mas compreensível, que a ânsia pela integração no mundo letrado provoca.

Eu achei que havia apenas encontrado um romance ruim. Não é verdade. Caetano também me ajudou a descobrir quem sou nesse processo todo: fui a Budapeste e voltei para o Brasil como uma histérica complexada, latindo estridente e inutilmente contra uma inferioridade histórica que devo ter herdado em algum ponto da minha vida e da qual provavelmente jamais me desvencilharei.

Desse modo, confesso-me incapaz de discutir com Caetano Veloso, por irrelevante – eu, não ele; por histérica e complexada; por preconceituosa contra o vôo destemido do cantor que se projeta do palco para saltitar nas teclas do computador ou dançar, entre erros e acertos, nas pautas de um caderno.

A última consideração, porém, me deixa cética quanto a meu total desacerto: jamais deixei de ouvir Vinícius por amar sua escrita, nem deixei de amar sua escrita por gostar de sua música. Será que, sem precisarmos chamar Sérgio Buarque ou Leonard Cohen, podemos simplesmente perguntar se Chico tem o mesmo talento multiforme do Vinícius, (ainda) tão mais próximo de nós?

Quanto à parte do WikiLeaks, reconheço o dilema de Caetano com seu amigo: sendo a não-escolha uma escolha, é preciso fazer escolhas, sempre. Eu penso que nada há de ilegal no WikiLeaks e não me oponho a que continuem divulgando o que quer que seja, assim como considero a publicação dos “Papéis do Pentágono” por Noam Chomsky um marco da historiografia, embora estejamos tão afastados pela idade quanto pela ideologia. Os “Papéis” eram bem mais subversivos então do que o Wikileaks é hoje, quando celebridades se mostram dispostas a pagar uma fiança astronômica para libertar este novo símbolo do antiamericanismo em que se tornou Julian Assange.

Talvez seja essa mania de decidir que me faça chatear um amigo israelense ao me posicionar contra as políticas de Israel ou que leve Caetano a repetir, pela enésima vez, que gosta do livro “Budapeste”. A tal da “História”, em que tenho dificuldade de pensar se não estivermos falando de memória ou historiografia, pode me esmagar entre suas muretas, mas a verdade é que não ligo: a morte se encarregará desse trabalho com muito mais certeza e eficiência.

Mas sou assim, uma pobre coitada – visto não saber se há “diaba” como existem “presidentas” – “condenada ao lado prático das coisas” e, de mais a mais, “míope, cabeçuda e prosaica”.

Por Reinaldo Azevedo

29/11/2010

às 19:08

Caetano, 68, diz “sim” ao “não”

Caetano Veloso me atacou e virou herói dos petralhas no Twitter. Muito bem, valentão! Está escolhendo o seu público. É aplaudido, como ele mesmo diria,  pela turma que adora a “arrogância eufórica de Lula”, que vê no Babalorixá de Banânia o “pai eterno”, que tem com o PT uma relação “religiosa  e dogmática”, que quer confinar o Brasil num “ambiente mental que se excita com Chávez, se alimenta do sindicalismo operário e do corporativismo dos servidores públicos” e que, calculem!, para espanto da língua portuguesa, “indulge no ressentimento contra os Estados Unidos e desculpa o indesculpável no Irã.”

O artista finalmente faz as pazes com aqueles que o impediram de cantar uma vez  “É proibido proibir”. Servi, “reacionário” que sou, para conciliá-lo com os brucutus de esquerda do passado e do presente. Mas automóveis continuam a arder em chamas.  O mesmo signo, mas outro símbolo.

Caetano, 68, finalmente diz “sim” ao “não”.

Por Reinaldo Azevedo

29/11/2010

às 15:15

Para ler e aplaudir de pé!

Yara Chiara, leitora deste blog, como todos sabem, decidiu dar a sua própria resposta a Caetano Veloso.
*
Conheço bem os livros de Chico Buarque. Conheço até a última palavra da página 163, da 2ª Edição, 12ª Reimpressão – lado direito do livro – do romance Budapeste, publicado pela Companhia das Letras. Lê-se: “O carro afundou na garagem, o vigia se metera na guarita e a persiana da Vanda já estava arreada. Era dia claro quando cruzei zunindo a portaria do hotel, e nem bem alcancei minha porta, o telefone tocou.”

Assim como Caetano não indulge em certas coisas, a persiana da Vanda fica permanentemente arreada, edição após edição.

Ou o cantor que estranha a presença de acento agudo em “Gadú” acha normais os erros mais esdrúxulos [o certo é "arriada"]?

Que Caetano acuse de grosseiro quem já debateu seriamente o mérito literário de Chico Buarque enquanto escreve uma diatribe de viés estritamente pessoal, sem manifestar-se uma vez sequer sobre por que Chico seria, afinal, um bom escritor, não denota lá muita coragem. Que traga a política quando, em teoria, condena a politização das críticas a um prêmio literário, trata-se já de certa ausência de autocrítica.

Também o incomoda a existência de pseudônimos. Para Caetano, opinião só vale com “CPF na nota”: o importante é quem opina, e não o que se diz, no mundo em que a fabricação e a projeção da imagem constituem a essência das coisas.

Chico Buarque é mau escritor com ou sem petição, com ou sem prêmio: os leitores e os escritores de respeito discordam do clube que outorgou a Chico a premiação. Eu não coloquei nem nome nem pseudônimo na petição: ela não me interessa. Não acho que Chico deva devolver o Jabuti – a ordem das coisas exige que se critique, antes de tudo, quem conferiu o prêmio, não o ato de recebê-lo, de que Chico é, a essa altura, vítima inescapável.

Jamais encontrei quem goste da obra literária de Chico Buarque, embora conviva com leitores ávidos diariamente. Sempre encontro reservas: “É bom letrista, mas muito fraco como escritor”, dizem. Foi o que disse, basicamente, Wilson Martins, a quem não se pode acusar de ter sido um ignorante literário ou um político da literatura.

Como Caetano Veloso lida com a crítica do saudoso Wilson Martins a Chico Buarque? Qual é o posicionamento de Caetano quanto a “Chico escritor”?

Versado no mundo da psicanálise, Caetano deveria “saber melhor” (should know better…): não há algo de regressivo nessa história de ficar trazendo a figura do pai para o debate? Sérgio Buarque foi um dos fundadores do PT, mas não um sobrevivente de Auschwitz: seu legado é principalmente, ou mesmo exclusivamente, intelectual. Um legado notável, sem dúvida, de que Chico não é herdeiro – o cantor pode ter adotado atitude política semelhante à do pai, mas certamente não herdou o mesmo brilho para a análise política ou sociológica. Daí que, com entusiasmo juvenil e rigor escolar, ainda esteja ao lado do PT, apesar da história, algo que Sérgio Buarque se negaria a fazer.

Não consigo ver o mestre de “Raízes do Brasil” ao lado de mensaleiros, populistas, demagogos e censores da democracia.

Também José Serra foi perseguido pela ditadura. Aliás, teve de fugir de duas, e creio que, como governador do maior Estado da Federação, não tenha deixado um legado de perseguição política. Foi bem o contrário. José Serra está entre os poucos políticos perseguidos na ditadura e na democracia desvirtuada do PT: falar do ex-governador sem mencionar as palavras “dossiê” e “quebra de sigilo” é condescender com o autoritarismo.

Caetano sente que encarna a História. Eu não tenho essa pretensão. Na verdade, tenho medo de quem a tem: é gente que costuma a passar sobre os “excluídos da história” como escavadeira.

Acho mais bonita a história encarnada por José Serra, em que a preocupação social legítima não se deixou afogar pelo populismo, pela baixaria, pela corrupção, pela intolerância. Só um democrata aceita perder as eleições da forma como José Serra o fez. O PT jamais aceitaria – tanto é assim que, para vencer, utilizou-se de tudo: do dinheiro público à depredação institucional, do discurso rancoroso e monopolista à mentira institucionalizada.

As pessoas crescem e fazem suas escolhas.

Algumas não crescem nem escolhem, mas acabam sendo escolhidas pelas vagas do momento, pelos ventos da estação, e jamais deixam de ser exatamente isso: escravos do preconceito alheio.

Por Reinaldo Azevedo

29/11/2010

às 6:59

RESPOSTA A CAETANO VELOSO, QUE REVELOU O LADO COVARDE DE SUA PROPALADA CORAGEM!

Queridos, vai um texto longo. As forças da reação estão assanhadas. Fazer o quê? Fica evidenciado que a firme determinação de calar qualquer crítica no país não se resume à política. Estamos diante de algo que começa a se anunciar como um sistema.

Em sua coluna no Globo deste domingo, Caetano Veloso resolveu entrar na polêmica do Prêmio Jabuti. Ataca-me e aos signatários honestos (mais de 10 mil) da petição “Chico, devolve o Jabuti”. Para evidenciar a minha desimportância, escreve errado meu nome, chama-me, obliquamente, “carola e grosseiro”, representante das “forças da reação”, e mente sobre o conteúdo da minha crítica àquela patuscada. Não é a primeira vez que faz alusão a um texto meu — pelo visto, ele anda lendo o blog. Ok. É uma relação desigual porque há muito tempo não ouço o que ele canta. Da outra vez, reclamou da expressão “esquerdopatas da USP”. Caetano pertence ao ADA do mundo das artes, espetáculos & celebridades. É um verdadeiro “amigo dos amigos”: sai em defesa de Chico e dá uma força a Luiz Schwarcz, dono da Cia. das Letras, que editou “Leite Derramado”, de Chico, e “Verdade Tropical”, de… Caetano. No texto que escreveu na Folha, Shwarcz sugeriu que eu não poderia ter criticado a premiação porque sou autor da Editora Record. Mas Caetano pode defendê-la porque é autor da Cia. das Letras. Entenderam ou não?

Farei um vermelho-e-azul com Caetano, sim. Relembro: fui, de fato, o primeiro a reagir. Mas não fiz a petição. Eu apenas a assinei e publiquei o link. Estava mais no terreno da brincadeira. Tornou-se coisa séria quando uma simples crítica a um cantor, romancista para alguns, transformou-se numa ofensa à cultura nacional e aos valores fundadores da pátria! Acho, ou achava, Caetano uma figura divertida. Ele tem, não é de hoje, faro para a polêmica. Está certo de que confronto de que ele não participa não vale. É uma questão de temperamento. No moço, o comportamento ambicionava a gravidade do “homem velho”; no “homem velho”, revela que persiste o que era fatuidade no moço. Caetano ainda não está certo de suja imortalidade… Deve ser apovarante quando se a deseja. Adiante. Ele em vermelho; eu em azul

Estou excursionando com Maria Gadú (não sei por que o acento agudo no nome dela, mas sei que ela é um talento autêntico), de modo que, desatento aos rumores do momento, tomei susto ao ouvir que eu estaria entre os assinantes covardes da petição que rola na internet com o título – em tom de ridículo brado – “Chico, devolve o Jabuti!”. Só não me decidi a expressar reação escandalosa porque li que o nome do próprio Chico (sim, Chico Buarque) está também incluído.
Por que os assinantes são “covardes”? Serão covardes todos aqueles que assinam petições com as quais o compositor não concorda? Não é preciso ser muito sagaz para intuir que aqueles que se assinaram “Caetano Veloso” e “Chico Buarque” o fizeram com o objetivo de desmoralizar a lista. E a quem interessava tal desmoralização? Àqueles que realmente não se conformaram com a premiação? Está claro que não! Aliás, o Leãozinho não tente roubar o papel de maior vítima da petição, não! Como ela foi invadida por gente que se quer admiradora de Chico — de sua “arte” ou de sua “política”, tanto faz —, a pessoa mais atacada naquele troço sou eu. As “chiqueiros” transformaram o documento num show de horrores e agressões. É o que sempre acontece quando não se coloca um mata-burros na porta ou não se faz um filtro de caráter: os petralhas tomam tudo, emporcalham tudo, porque é essa a sua natureza.

A informação, dada pelo blog da Companhia das Letras, que edita o meu colega, diz que, por 17 vezes, o prêmio de Livro do Ano já foi para livros que não estavam em primeiro lugar em sua categoria. (Para quem não sabe, o argumento contra o prêmio dado a Chico é que “Leite derramado”, ganhador como Livro do Ano, não tinha ficado em primeiro lugar entre os livros de ficção: os ganhadores de cada categoria são eleitos por um júri de especialistas, e o Livro do Ano é escolhido por associados da Câmara Brasileira do Livro, que é quem criou o Jabuti.)
Blog da Cia. das Letras, é? Luiz Schwarcz foi o inspirador branco da depredação da lista. Foi ele o primeiro a alertar: “Há nomes falsos lá”, como a anunciar: “É possível postar falsas assinaturas; fiquem à vontade”. E os petralhas atenderam à sua solerte convocação. Ele já andava espalhando isso por aí em e-mails — não sabia que o fazia também por intermédio de um blog, que nunca li, obviamente. A síntese do imbróglio, feita por Caetano, é mentirosa — até porque repete a de Schwarcz. Sim, o prêmio permite essa excrescência, mas o motivo do protesto é outro: a imprensa já sabia o veredicto dos jurados tanto no Prêmio Jabuti como no Prêmio Portugal Telecom. Chico Buarque já havia vencido antes de concorrer.

Li em outro lugar que essa discrepância entre melhor de uma categoria e Livro do Ano aconteceu três vezes. Seja como for, volto a chamar de covardes os que se expressam na internet sob outros nomes, como fiz quando vi a guerra eleitoral exacerbar essa mesquinharia. E é no panorama mesquinho da guerra eleitoral que se inscreve ainda esse episódio. Não dá para saber se a motivação para a premiação nasceu dessa pequena política, mas é óbvio que a reação a ela vem daí e aí se esgota.
Eu também chamo de “covardes” os que se expressam na Internet sob outros nomes  — até porque eu não poderia ser mais claro nas minhas posições usando sempre o meu próprio nome. Caetano não é besta: a quem ele atribui a falsificação? Quem sai ganhando com ela? Quanto às motivações, dá para ter algumas pistas. Ao subir para receber a premiação, Chico foi ovacionado: “Dil-má/ Dil-má”.

Lê-se o Ronaldo Azevedo sobre o assunto e fica claro que não é de valores literários que se está tratando, mas de opor-se a um escritor que, sendo uma figura enormemente popular por causa de décadas de atividade como compositor de canções, pôs a força de sua imagem pública a serviço da candidata do PT à Presidência, quando a eleição desta se viu ameaçada pela renovação do embate no segundo turno.
Caetano gosta de nomes, mas erra o meu. É uma coisa tolinha de se fazer para um homem maduro. Talvez tenha lido outro. Sim, existe o caráter obviamente político da premiação, e não apontá-lo é fugir à verdade. Eu expressei aqui as minhas restrições à dita “literatura” de Chico Buarque e expliquei por que a considero sofrível. Para não repetir argumentos, segue o link. A acusação de Caetano, que repete a de Shwarcz — esse moço tem muitos amigos  e um bom catálogo de celebridades —, é só mais uma maneira de driblar o essencial (as premiações prévias de Chico Buarque) e de acusar a politização do debate , quando política foi a premiação.

Chico sempre foi apoiador do PT. Seu pai foi um dos fundadores do partido, e sua mãe era entusiasta de Lula. Inimigo preferencial da censura na ditadura militar, Chico não encontrou senão motivos para firmar suas posições de esquerda – e sua desconfiança dos defensores da liberdade que fecham os olhos para a vista grossa feita pelas nações poderosas quando os desrespeitos aos direitos humanos são praticados por seus aliados estratégicos de ocasião.
Todos os leitores deste blog leram que Sérgio Buarque de Holanda foi fundador do PT. Jamais entrei no mérito das motivações pessoais de Chico para ser de esquerda. Ele que se dane com seu esquerdismo de beira de piscina. Não tenho nada com isso. Só não creio que deva receber um prêmio literário — ou quatro — por isso. Quanto ao mais, ou Caetano faz humor involuntário ou está sacaneando seu “amigo” sob o pretexto de defendê-lo. Quem são esses “defensores da liberdade” que fecham os olhos para os países poderosos que ignoram os direitos humanos? Não sou eu, por exemplo. Ele está falando mesmo sobre Chico Buarque? Aquele que toca violão sobre cem mil cadáveres cubanos? Que jamais disse uma única palavra contra as agressões praticadas por países comunistas? Que saudava o “chocalho amarrado da canela” de sua “camarada do MPLA”, que lidera uma dos governos mais corruptos de uma das nações mais ricas da terra, mantendo o povo numa pobreza fabulosa? Caetano acha isso grosseiro, reacionário, carola ou os três? Ora… Mesmo quando se é Caetano Veloso, é preciso ter um pouco de pudor para argumentar.

Sei que eu próprio estou por vezes sob exatamente esse tipo de suspeita. Mas faço minhas contas e chego a minhas conclusões pela minha própria cabeça, agindo e manifestando-me de acordo e arcando com as consequências, inclusive a possibilidade de a realidade me provar errado no médio ou no longo prazo.
E por que outros tantos não podem fazer o mesmo no jornalismo, na sociedade? Caetano acredita que deva haver uma aristocracia das pessoas que podem emitir opiniões?

Não vejo o Brasil sem Chico apoiando Lula. Meu senso das proporções – que afinal é o que rege quem trabalha com formas artísticas mesmo as mais bastardas – impede-me de ignorar a energia histórica que há em configurações assim.
É o fácil falar difícil. Caetano é um bom letrista, mas seu lado de antropólogo amador é de lascar. Se clareza fossem dentes, ele seria uma boca banguela.  Esse palavrório parece querer dizer grande coisa. Sem definir o que quer dizer “energia histórica”, o trecho não faz sentido. Como “energia histórica” está, assim, na ordem do indefinível, o trecho não quer dizer nada mesmo. Como ele acha que se explicou o suficiente, o trecho seguinte começa com “portanto”!!!

Portanto, vi esse manifesto na internet como mais uma Marcha da Família com Deus pela Liberdade expressando-se de forma verbal. Não vi meu nome entre os assinantes (não fui olhar a lista de pseudônimos marchadeiras): apenas acreditei em quem me disse que ele estava lá. Indigna-me que brinquem assim com ele.
Caetano sempre foi um pensador amador — ele próprio já admitiu ter o miolo meio mole, o que já havia sido detectado por José Guilherme Merquior. Mas esperava mais dele. Brandir o espantalho da tal “marcha” para desqualificar adversários, quando se nota que está desinformado, é coisa de polemista vagabundo, de quinta. Está matando em 2010 o velhote inimigo que morreu em 1984!!! Esquece que ele próprio já foi, em certo momento, o espantalho. Tivesse consultado a lista — e escrito, pois, seu texto, com mais informação —, teria verificado que foram os ditos “amigos” de Chico que meteram lá o seu nome; os mesmos que me xingam a valer. Em linguagem  menos educada, não são muito diferentes de Caetano: “Reinaldo Azevedo nos ofendeu com a sua crítica, então vamos xingá-lo”. E percebam: a religião não entrou nessa polêmica em nenhum momento. Caetano resolveu introduzi-la. Ele acredita que devo ser demonizado também porque sou católico — sinônimo, obviamente, de “reacionário” quando não se é do tipo que faz aquelas rezas heréticas de Frei Betto…

Meu pai ficaria tão revoltado quanto o pai de Chico.
Então tá! O meu, creio, diria: “Vocês são bem grandinhos. Virem-se!”  Cresça, vovô! Ou, ao menos, aprenda a envelhecer!

Fiz questão de não votar em Dilma e de dizê-lo. Alegro-me por ter reagido duramente à arrogância eufórica de Lula durante a longuíssima campanha de sua candidata. E de nunca ter me submetido à pressão popular que quer fazer de Lula um pai eterno – nem à outra pressão, não propriamente popular, que faz do PT um representante das esquerdas e destas, uma posição religiosa dogmática.
Caetano sempre fez sucesso no mundo da polêmica porque não quer estar nem à esquerda nem à direita, mas acima — e sempre muito amigo dos amigos. Julgando que já hostilizou bastante a direita, então agora ele decide demonstrar que também não se alinha com o petismo. De fato, fez campanha eleitoral para Marina Silva, sintoma, já direi por quê, de confusão mental, não de clareza.

Detesto que me queiram confinar num ambiente mental que se excita com Chávez, se alimenta do sindicalismo operário e do corporativismo dos servidores públicos, indulge no ressentimento contra os Estados Unidos e desculpa o indesculpável no Irã. Mas menos ainda me identifico com reacionários carolas e grosseiros. Ou com defensores de privilégios assentados e indevidos.
Caso se refira a mim, “reacionário” e “carola” talvez, “grosseiro” acho que não. Vamos ver. Começo com uma observação prévia: o “mulato que fala português” (ver abaixo) deve andar batendo muito papo com Mangabeira Unger, daí a palavra inglesa “indulge” —  satisfazer-se, saciar, ser indulgente, condescender  (ou “indulge in”= entregar-se,  se dar a, deliciar-se…). A origem é latina. Em português, até rola um “indulgenciar” (Camilo Castelo Branco empregou…), mas nada de “indulger” ou “indulgir”..O trecho é de uma covardia intelectual espantosa, ridícula num homem de 68 anos, que deveria estar um pouquinho mais seguro de si. Prestem atenção!

Todas as críticas que Caetano faz acima se fazem diariamente neste blog, na contramão das conhecidas falanges do ódio. Aqui se ataca desde 2006 (quando o blog começou) a arrogância eufórica de Lula; seu paternalismo bocó; a idéia de que a voz do povo é necessariamente a voz de Deus; o chavismo; o corporativismo; o antiamericanismo vigarista; o alinhamento do governo com a tirania iraniana. Caetano é contra todas essas coisas, como sou. Mas ele o é por boas razões; e eu, pelas más!!! À diferença do que parece, está pagando pedágio à patrulha: “Olhem, não me confundam com a direita, hein?, com esse Ronaldo aí…” Ele se opõe a esses horrores porque é um bom rapaz; eu, porque reacionário. O nome disso é vigarice intelectual. Caetano quer o privilégio assentado e indevido de ser o monopolista das boas intenções ao criticar as esquerdas.

Dilma é o melhor resultado das eleições se pensarmos pragmaticamente. Serra não teria personalidade para enfrentar Lula como opositor. E Dilma está mais perto de Mangabeira. Quem sabe os planos ambiciosos deste para o Nordeste serão agora levados em consideração. E sua visão da questão amazônica. Não penso mais em Dilma como Dutra. Torço por ela. Torci até por Collor. Já consigo vê-la descolada de seu criador. Penso em como ela encarnará o destino que se desenha do Brasil.
É penoso ter de comentar opiniões políticas de um cantor. É claro que ele pode e até deve tê-las. O problema, no caso, é que não sabe o que diz. No ambiente de ignorantes ilógicos que o incensam, Caetano fala o que bem entende e passa por gênio também da política. Serra não teria personalidade para enfrentar Lula como opositor, certo? Assim, ele acha que a eleição de Dilma é um bem porque a criatura vai se descolar do criador ; vale dizer: ela teria personalidade para enfrentar Lula como aliada… Alguns chamarão isso de dialética, mas é só besteira.

Quanto a Mangabeira Unger… Caetano está entre aqueles que julgam ter entendido o que o professor quer para o país. Deve ser o único! Nem Mangabeira entendeu, já que denunciou o “governo mais corrupto” da República e era um seu ministro pouco tempo depois.  O curioso nessa história toda é que o cantor fez campanha para Marina Silva, do PV. Dilma e Mangabeira são os dois motivos principais por que a senadora deixou o ministério de Lula — e depois o PT. Lula entregou a Coordenação do Plano Amazônia Sustentável (PAS) para a Secretaria de Assuntos Estratégicos, e Marina detestou a projeto de Mangabeira. Por uma questão de honestidade intelectual, tenho de destacar que a proposta dele fazia mais sentido do que o discurso dela  — mas até uma litania em búlgaro arcaico faz…

O Brasil está me parecendo um lugar ruim nesta semana de tardio reconhecimento por parte do governo do estado do Rio da relação entre a criação das UPPs e os atos paraterroristas das facções criminosas (então Cabral e Beltrame não tinham nenhuma mirada estratégica?).
Vejam que coisa! Caetano concorda comigo nessa questão. Mas os motivos dele certamente são bons, e os meus, maus. Afinal, ele tem de avisar aos progressistas que pagam ingresso que ele, não sendo um petista, também não é um desses reacionários…

Vejo ainda longe a superação do horror que é haver pobres presos sem julgamento, prisioneiros provisórios jogados no lixo tóxico das prisões, essas heranças horrendas dos porões dos navios negreiros. Quando canto com Gadú, ela com 23 e eu com 68 anos, sinto fisicamente a História. E, diante das amarguras da nossa vida, percebendo as plateias sentirem a História na carne também, comovo-me. Quase desanimo. Mas gosto da vida e nasci aqui, falo português, sou mulato: minhas esperanças estão atadas à existência do Brasil. Nem mitos esquerdistas nem a retórica da reação me desviam da trilha que vejo de onde estou.
Caetano vê uma trilha clara para o país, apesar da dor. Que bom! Malditos são os outros  — reacionários porque, afinal, contestam um prêmio que já estava concedido a Chico Buarque antes mesmo que se soubesse o resultado da votação. O fim do texto é patético. José Maria Eymael, o eterno presidenciável do PDC, era mais criativo: “Nem o comunismo que esmaga a liberdade nem o capitalismo que não promove a Justiça”.

Não seria difícil apontar que Chico Buarque endossa todos — sem exceção —  os mitos esquerdistas daqui e de fora. Em recente pronunciamento em favor de Dilma, afirmou, referindo-se ao governo FHC, que aquele era um governo que falava “fino com Washington e grosso com o Paraguai e com a Bolívia”, o que é um boçalidade. Caetano não quer papo com essa história.  Certo! Eu desafio o “mulato que fala português” a demonstrar que eu “induljo” — a conjugação é essa, mestre? — nas ou com (qual é a regência do verbo?) as forças da reação.

A história também se faz e pulsa fora dos palcos. Em 1977, eu militava num grupo trotskista havia mais de um ano já, e Caetano lançou o disco “Bicho”, que trazia a música “Odara”. As esquerdas detestaram e tomaram como um símbolo da alienação do cantor. Afinal, corríamos riscos ao combater a ditadura, e ele ficava lá com aquelas frescuras… Convivo ainda com amigos que me conhecem desde aquele tempo. E sabem que eu considerava aquela crítica uma boçalidade. Ao contrário: eu já achava que cantor fazia bem em cantar, dançarino em dançar, e Caetano em caetanear, entenderam? Sempre detestei a contaminação do domínio da arte, mesmo a mais bastarda, por aspectos e valores que lhe são estranhos.

Reacionária é a justificativa do mal em qualquer momento da história, senhor Caetano Veloso, e eu o desafio a demonstrar que algo em algum texto meu faça essa escolha. O velho polemista resolveu atender a um pedido de socorro de seu editor (que perdeu a batalha; ou o Jabuti muda ou já era), pegou a rabeira de uma polêmica cujo conteúdo ignora, falou besteira e evidenciou o lado covarde de sua propalada coragem.  Incidiu no mais manjado, vulgar e vigarista dos truques, aquele que acho mais desprezível: só consegue falar mal das esquerdas se antes pagar pedágio aos aiatolás anunciando: “Mas não me confundam com a direita!”

Por Reinaldo Azevedo

28/11/2010

às 16:59

A Revolta do Quelônio – Agora é Caetano Veloso que me chama pra dançar; eu aceito, claro!

Caetano Veloso, por que não?, decidiu entrar na polêmica do Prêmio Jabuti em sua coluna no Globo de hoje. E me chama de “Ronaldo Azevedo”, tentativa de evidenciar a minha irrelevância, já que nem saberia direito o meu nome. Huuummm… Repete os argumentos do editor Luiz Shwarcz. Nunca antes na história destepaiz alguém tão irrelevante provocou tanto barulho ao divulgar — porque não foi iniciativa minha — uma petição, que os esquerdopatas sujaram acrescentando palavrões, xingamentos e  nomes falsos, inclusive o de Caetano. Imaginem se alguém poderia imaginar que ele endossaria a petição de verdade… Foi posto lá justamente para tentar desmoralizar as mais de 10 mil assinaturas verdadeiras. No texto, ele mente! Estou ocupado agora. Respondo à noite. Não é a primeira vez que o cantor se incomoda com “Ronaldo Azevedo”. Vejam vocês: resolvi invadir o Complexo da Ideologia Alemã da intelligentsia brasileira — Caetano é o nosso segundo “intelequitual” mais importante; o primeiro é Chico Buarque —, e estou enfrentando a reação. Esses, como a gente vê, reagem… Como vocês sabem, acho tudo isso muito divertido.

Por Reinaldo Azevedo

20/11/2009

às 19:52

A mãe de Caetano e o fascismo de esquerda

Quero aqui responder a algumas questões suscitadas pelo post em que comento o telefonema de Lula à mãe de Caetano, Dona Canô. Diz um: “Cuidado! Caetano pode vir a público para dizer que achou linda a iniciativa de Lula”. Pode, sim. E daí? Não estou especulando sobre a privacidade da relação Caetano-Dona Canô. Ele até poderia achar “lindo”, e eu continuaria a achar horrorosa a máquina de propaganda oficial, que recorre a esse tipo de apelo para dar uma “resposta superior” a uma crítica. Se mete a mãe no meio, não tem como ser superior.

Diz um outro: “Caetano não deveria ter falado o que falou…” Ou ainda: “A própria Dona Canô tinha manifestado a intenção de falar com Lula”. Olhem, queridas e queridos, estamos mesmo começando a perder a dimensão do que é vida privada. Acompanhei o noticiário. Sei que havia ao menos um irmão do compositor ligado ao PT, ou coisa assim, que estava inconformado; a própria Dona Canô teria manifestado sua insatisfação etc. Sei de tudo. Mas essas me parecem ser circunstâncias, semelhantes às dos estados totalitários, em que as vítimas se tornam responsáveis pelos males que as acometem.

Reitero: nem estou endossando a crítica de Caetano a Lula — embora pudesse fazê-lo sem qualquer problema; só acho que ela é um pouco modesta; Lula é mais perigoso, na minha opinião, do que supõe o artista. Não importa. O fato é que as circunstâncias conspiraram para que a família do compositor fosse mobilizada para desautorizar a sua opinião. E isso é um tanto monstruoso.

A popularidade de Lula está na casa dos 80%. Ele quer chegar a 150%? É possível. Afinal, vemos que ele já se refere a si mesmo num futuro em que as pessoas ou têm saudades do passado ou a ele se referem como se falassem de tempos imemoriais.

A petralhada foi em peso naquele outro post em que trato deste assunto ironizando a suposta complexidade — não tem nada de complexo — da minha análise. Odeiam sutileza de pensamento, detalhe, objeções de natureza ética, moral, filosófica. É incrível como o regime lulista poderia se encaixar na definição de “fascismo de esquerda”. Falta só a agressão física aos adversários, àqueles que chamam “minoria”. A depender do que aconteça no ano que vem, chegam lá. A agressão moral está aí, aos olhos de toda gente.

Por Reinaldo Azevedo

20/11/2009

às 16:49

Advertência

Cuidado! Lula quer expropriar a sua mãe!

Por Reinaldo Azevedo

20/11/2009

às 16:35

OS PODRES PODERES DE LULA

São autoritários.

São brutais.

Nada escapa a seu projeto de poder. Nem as vidas privadas. Nem as famílias. Nem a intimidade. Que seja Lula o chefe disso que já se pode chamar um “regime” é particularmente asqueroso. É porque ele próprio foi vítima da exploração política de uma invasão de privacidade em 1989, quando Fernando Collor, hoje seu aliado, levou ao horário eleitoral o caso Miriam Cordeiro. E, basta pesquisar, o expediente foi unanimemente rejeitado.

A que me refiro? Lula ligou para Dona Canô, 102 anos, mãe do cantor e compositor Caetano Veloso, para dizer que estava tudo bem. Era o nosso Sumo Sacerdote perdoando os pecadores. Por quê? Por causa deste trecho de uma entrevista de Caetano ao Estadão, segundo a transcrição: “Não posso deixar de votar nela [Marina Silva]. É por demais forte, simbolicamente para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro.”

O contexto não ameniza a palavra “analfabeta”, mas, se me permitem a aparente tautologia, “contextualiza-a”. Há implícita, ou bem explícita, a idéia de que Marina venceu uma limitação de origem, enquanto Lula preferiu transformá-la em ativo eleitoral e em ideologia.

Já reagi a uma crítica de Caetano. Ele afirmou em entrevista que considerava “cafajeste” certo jornalismo de São Paulo (ou coisa assim) que acusava parte dos professores da USP de “esquerdopatas”. O “jornalismo de São Paulo” que faz isso sou eu. Ele falou, eu reagi, as coisas estão ditas. É assim na democracia. Não precisamos ser amigos nem inimigos. PRECISAMOS DE UM REGIME EM QUE AS PESSOAS DIGAM AS COISAS SEM SE TRANSFORMAREM EM ALVO DE PERSEGUIÇÃO E, EVENTUALMENTE, DE CENSURA MORAL MANIPULADA PELO ESTADO.

Eu mesmo, comentando o imbróglio todo, fiz uma leitura bastante severa da opção de Caetano por Marina, uma vez que se diz admirador de Mangabeira Unger. No plano das idéias e das escolhas, são opções antitéticas. Mas reitero: ele fala, eu falo, os outros falam. A democracia também se define por essa pluralidade de vozes.

Não sob o lulismo. O petismo, como já está claro, infiltrou-se também na família Veloso. Era inevitável. Esse vírus se espalha com tanta facilidade quanto a gripe suína. Trata-se de um agente patogênico que se adapta com facilidade às mais diversas circunstâncias. É dotado de múltiplas portas de conexão. “Você não gosta de injustiças?” Então é petista. “É a favor da igualdade?” Então é petista. “É a favor dos ditos oprimidos?” Então é petista. Só que há um preço para sê-lo: deixar que o partido e o demiurgo cuidem dessas coisas por você. Eles vão fazer algumas coisas estranhas — como juntar num mesmo imbróglio político-partidário movimentos sociais, fundos de pensão, empreiteiras, BNDES etc. Também vão dar de ombros para o ordenamento jurídico. Mas tudo para o bem da causa.

E, claro, é preciso adorar o líder. No petismo, pode-se tirar o crucifixo da parede na suposição de que isso pode pegar mal — já trato do assunto. Mas é proibido não adorar o retrato de Lula.

Não fazia sentido, claro!, porque exporia a brutalidade na sua crueza,  levar Dona Canô — 102 anos, muito admirada, com justiça, na Bahia e em boa parte do Brasil — a ligar para Lula para pedir perdão. Então é Lula quem liga para Dona Canô para perdoar a família, o que ressalta, ademais, a generosidade do líder.

Lula tenta, assim, o que nem a ditadura militar tentou: desautorizar Caetano junto a seu próprio público e, pior e mais grave, à sua família. Duvido que o cantor reaja. O esquema “franklinstein” não tem qualquer pejo em avançar no território do sagrado.

O lulo-petismo privatizou as vidas privadas. Na cabeça dessa gente, pertencemos todos ao partido, queiramos ou não.

Deve ser tarde demais para que Caetano e eu venhamos a concordar, mas, quando cravei o termo “esquerdopatia”, referia-me justamente a essa doença do espírito que não reconhece o direito de um indivíduo ser aquilo que é. O “ser” se define apenas como afirmação ou negação do partido e seu líder. No caso de a definição se dar pela negativa, a máquina é acionada para esmagar o rebelde.

E, se preciso, eles põem a mãe no meio.

É a Revolução dos Bichos. O vírus da praga suína está aí. Os porcos estão com tudo.

Por Reinaldo Azevedo

09/11/2009

às 18:50

Caetano Veloso e o analfabetismo e cafonice de Lula, agora em carta

Em entrevista a Sonia Racy, no Caderno 2 do Estado, no último dia 2, o compositor Caetano Veloso se referiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva com expressões como “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro” ao anunciar preferência pela eventual candidatura da senadora Marina Silva (PV-AC) à Presidência. “Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem”, disse na entrevista.

A declaração provocou reações no meio político. Na última sexta-feira, o próprio Lula reagiu: “Tem gente que acha que a inteligência está ligada à quantidade de anos de escolaridade que você tem. Não tem nada mais burro do que isso”. Leia abaixo a que o cantor enviou à redação:

“O que mais me impressiona é as pessoas reagirem diante da manchete do jornal, tal como ela foi armada para criar briga, sem sequer parecerem ter lido o trecho da entrevista de onde ela foi tirada. É um país de analfabetos? A intenção sensacionalista da edição tem êxito inconteste com os leitores. Pobres de nós.

Sonia Racy sabe que eu ressaltei essa diferença entre Lula e Marina para explicar porque eu dizia que ela é também um fenômeno tipo Obama (coisa que Racy e Nelson Motta não entenderam). Marina é Lula (a biografia) e é Obama (a cor escura e o modo elegante e correto de falar – e escrever). Li aqui que Lula disse que é burrice minha dizer isso. É. Serve para Berzoini contar alegremente votos migrando de Serra ou Aécio para Marina, não de Dilma.

Ainda mais que toca nesse ponto óbvio (que para mim tem todas as vantagens e desvantagens, não sendo um aspecto meramente negativo) da fala pouco instruída e frequentemente grosseira e cafona de Lula. Todos sabem disso. Ele próprio se vangloria. Os linguistas aplaudem. E todos têm razão: ele é forte inclusive por isso. Fala “bem”: atinge a maioria dos ouvintes.

Sua fala tem competência – e ele, como eu próprio disse na entrevista, é um governante importante. Mundialmente está reconhecido como alguém que chegou lá e foi além do esperado. Quisera Obama estar na mesma situação. Querer dizer que FH era mau governante e Lula é bom é maluquice. Ambos foram conquistas brasileiras importantes. Marina seria um passo à frente. Simbolicamente ao menos.

Não creio que ela seria um entrave às pesquisas de células-tronco e à união civil de homossexuais. Se for, eu estarei aqui para me opor a ela. Aborto, união gay, embriões são matéria do Legislativo. O executivo pode influir? Pode. Mas Marina seria uma presidente do tipo autoritário? Não creio. Criacionismo? Ela jamais cairia na confusão de ensino religioso com ensino científico. Ela é racional, atenta, dialoga com calma. Todos esses assuntos podemos debater com ela como com ninguém: ao menos estaremos certos de que ela não será hipócrita.

Se houver candidatura e campanha, teremos tempo para isso. Não penso tanto como Marina sobre a Amazônia. Penso mais como Mangabeira. Já disse. Mas forças políticas surgem assim. Marina chegar a ser candidata é notícia grande. Não posso fingir que não é. E detesto essa mania de que nada se pode dizer que não seja adulação a Lula. Não estamos na União Soviética. Eu não disse nenhuma novidade. Nem considero ofensivo. É descritivo. E a motivação era esclarecer a parecença de Marina com Obama (que me interessa muito). E todos os entendidos me dizem que os banqueiros estão com medo é de Serra: adoram Lula.

Então por que a demagogia de dizer que FH era pelos de poder aquisitivo? Até os programas sociais que Lula desenvolveu nasceram no governo FH. O Fome Zero naufragou. Eles se voltaram, espertamente (e felizmente), para o Bolsa-Escola de dona Ruth. Eu ter mencionado a fala analfabeta de Lula não é bom para a campanha de Marina. Mas ainda não estamos em campanha. Eu acho.”

Por Reinaldo Azevedo

06/11/2009

às 5:13

CAETANO, O ANALFABETO E PETRALHAS FURIOSOS

Perguntam-me o que achei da entrevista em que Caetano Veloso chama Lula de “analfabeto e cafona” e declara seu voto em Marina Silva, misto de Lula e Obama, segundo ele próprio.

Olhem, pus a entrevista no clipping porque, afinal, os leitores me cobrariam isso. Mas não dou bola para o pensamento político de cantores da MPB — ou, mais genericamente, de artistas. Prefiro que dançarinos dancem, cantores cantem, pintores pintem, e atores representem. Desde, claro, que haja liberdade para que eles possam falar sobre o que bem entenderem — política inclusive. Quase sempre acho perda de tempo e, com freqüência, acabam dizendo bobagens, o que cria certo constrangimento para o seu trabalho. Mas vá lá…

Caetano, a quem andei fazendo aqui certas contraposições, é uma espécie de esteta da contradição. Na entrevista em que declara voto em Marina Silva, volta a elogiar o pensamento de Mangabeira Unger, uma das figuras que ajudaram a indispor Marina com o Planalto. O futuro da Amazônia, por exemplo, os separa. E, na dialética caetânica, eles estão juntos, embora o cantor admita a… contradição. Dizer o quê? Caetano, ademais, parece ser o único brasileiro a ter entendido o pensamento político de Mangabeira — coisa que nem ele próprio ousaria dizer. Um ano e pouco depois de ter proclamado o governo Lula o mais corrupto da história, Mangabeira era um seu ministro — e justamente aquele encarregado de cuidar do… futuro!

Assim, não tenho nada a dizer sobre isso a não ser que Caetano, como é mesmo?, caetaneou as suas opiniões no jornal. A forma como qualificou Lula não teria merecido tanto destaque não vivêssemos tempos de endeusamento do presidente. Imaginem! Chamar alguém de “analfabeto” virou uma transgressão!

A fúria dos petralhas foi impressionante, mesmo no meu blog, que não fez a entrevista. Reparem: acho que os fãs de Lula podem se manifestar se consideram que seu ídolo foi injustificadamente atacado ou agredido. Isso, eu até posso compreender. O que me deixa estupefato é o vocabulário; o que me deixa espantado é o primitivismo da reação.

Algumas pessoas, como se esperava, decidiram desqualificar as credenciais de Caetano para a crítica política, o que me parece até razoável ou compreensível. Mas a esmagadora maioria — e vetei este tipo de boçalidade — se dividia entre os que afirmavam que ele não tem o “direito” de dizer aquelas coisas e os que recomendavam que ele deixe o país. É, isto mesmo: “Quer criticar Lula? Então vá embora daqui”. É o “Lula – Ame-o ou Deixe-o”.

E, claro, apareceram aqueles para ironizar Caetano, afirmando que ele agora faz parte dos 6% que reprovam o presidente. Pois bem, pego daí: se são apenas 6%, por que tanta intolerância? Porque essa gente quer 100%, o que nem Saddam Hussein, com seus métodos muito peculiares, conseguiu: chegou a 96%!

E só para encerrar: Caetano escolher Marina me parece muito simbólico do que vai acontecer em certa faixa da população que se quer esclarecida e alternativa: a senadora ocupa, no imaginário dessa gente, o lugar que Lula já ocupou um dia: o da chamada “utopia”. Ela é mais uma “mensagem” do que uma proposta de governo. É, assim, uma escolha que folcloriza a diferença para que não se olhe para as deficiências técnicas do candidato — ou candidata.

Ah, sim: Marina pode vir a fechar um acordo com o PSOL. Um dos cotados para vice na chapa da senadora é o bilionário Guilherme Leal, sócio da Natura. O socialismo, mais uma vez, encontraria a generosidade do capital. É assim desde que o milionário Engels pagava as contas do pobretão Marx. Há forças superiores às quais os esquerdistas não conseguem mesmo resistir.

Por Reinaldo Azevedo

05/11/2009

às 4:41

Caetano Veloso: “Marina não é analfabeta como Lula”

Caetano Veloso em entrevista a Sonia Racy, no Estadão:

Você já escolheu [um nome para a Presidência]?
Pode botar aí. Não posso deixar de votar nela [Marina Silva]. É por demais forte, simbolicamente para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem. Mas olha, eu concordo com o Mangabeira sobre a vanguarda tecnológica e o desbravamento. Parece uma contradição? Mas é assim.

Talvez não seja. Em nenhum momento o Mangabeira fala em destruição, em uso não sustentável…
Não sei se a Marina diria dessa forma. E acho que há, sim, uma tensão da posição dela em relação à de Mangabeira, embora ela seja a minha candidata. Se ela for, voto nela, com a esperança de que ela, com sensatez que sempre demonstra, acolha a complexidade da realidade. E, no poder, seja mais pragmática que Lula. E mais elegante, o que já é.

A Marina teria condições de gerir um país deste tamanho?
Acho que ela é muito responsável e muito sensata. Se empenhar as energias para ganhar e se tornar capaz disso, ela levará a sensatez ao ponto de poder gerir. Suponho que agora ela não parece ter essa capacidade, com as coisas como estão. Aqui

Por Reinaldo Azevedo

22/07/2009

às 15:38

CAETANO DÁ UMA ENTREVISTA ANTIGA, DO TEMPO EM QUE… BEM…

A dupla Caetano Veloso-Paula Lavigne segue imbatível no quesito marketing. Ela profissionalizou — o que é um mérito — o talento natural do agora ex-marido para gerar notícia e, assim, ganhar dinheiro, o que não é pecado. É mérito também. Feio é roubar grana dos outros. Ganhá-la com trabalho, eventualmente contando com a complacência ou benevolência alheias, não tem nada demais. Ele está na capa da Ilustrada de hoje, da Folha, descendo o sarrafo na… Folha. Isso é tão antigo, né? Ainda é do tempo em que… Bem, já chego lá.

Às vezes, parece que a própria Folha é cliente de Paula Lavigne. Entenderam ou fui muito sutil? Ah, sim: Paula e Caetano estão lançando o filme Coração Vagabundo, dirigido por um rapaz “bonitinho” (by Caetano) chamado Fernando Gronstein Andrade, 28 anos.

E por que Caetano está bravo ou “estrila”, como diz o jornal? Bem, em primeiro lugar, porque está lançando o filme e é hora de criar marola. Em segundo, porque a Folha noticiou, em reportagens honestas, de autoria de Marcio Aith, que nada tinham de operação de marketing, que o cantor pleiteava — ou seus produtores — incentivos da Lei Rouanet para seus shows. Vocês conhecem a história. Eles foram negados pelo Ministério da Cultura, mas aquele ministro da área, como é mesmo o nome dele?, ficou bravo e demonstrou disposição de rever a decisão.

Pronto! Está criado um caso. Caetano sai atirando contra o jornal, duas jornalistas, faz frases de efeito — “fui tratado como um misto de Sarney e Dado Dolabella” —, e o filme está devidamente lançado, não? E sem gastar um tostão! Pode-se dizer que, em último caso, os assinantes da Folha e do UOL é que pagaram pela operação.

Caetano é mesmo mestre em seu ofício. Num dado momento, cheio de, como direi?, lirismo triste (a fúria já havia passado), comenta sobre velhice e juventude:
“Sou um cara que tem saudades da juventude – não do tempo em que fui jovem, mas da juventude em si, do equilíbrio e da elasticidade do corpo, da força dos cabelos, o jato de urina forte, as ereções firmes, a alegria física da juventude”.
 Dizer o quê? Sinto saudades do compositor de Força Estranha – “E a coisa mais certa de todas as coisas não vale um caminho sob o sol”.

Essas briguinhas de Caetano com a imprensa são do tempo em que o jato de sua urina era mais forte. O que dizer diante disso, de tanta desnecessidade? Cantar a marchinha de Silvio Santos? “A pipa do vovô não sobe mais/ a pipa do vovô não sobre mais”?

Vulgaridade? Eu? É mesmo?

Leiam trecho que está na Folha Online:
“O filme é dele [do diretor]!”, diz a produtora Paula Lavigne, na terça-feira, na pré-estreia do documentário “Coração Vagabundo”, de Fernando Grostein Andrade, 28, no shopping Morumbi. Caetano também afirma que não deu palpite no corte das 57 horas originais, nem na cena em que aparece nu. Mas Andrade confessa: “Achei que eles não iam deixar passar [a nudez], então pensei em dar uma de espertinho e exibi-la no final do filme, entre as imagens de bastidores”. Eles quem? “Caetano e Paulinha”, diz Fernando.
“Fui a primeira a dizer que não era pra cortar a cena! Ainda mais porque Caetano é bem dotado. O que é bonito tem de ser mostrado!”, diz Lavigne ao repórter Paulo Sampaio.

Caetano diz odiar “a cultura do desprezo” no Brasil, que associa especialmente aos paulistas. É… Imaginem o principal astro da música americana (escolham um aí…) num, vá lá, debate com ingredientes como “paumolecência” (o termo é da turma do Casseta & Planeta), tamanho do pingolim e, o mais escandaloso naquelas plagas, grana oficial para artista fazer show…

Por falar em Estados Unidos, Caetano tem uma receita para salvar aquele país:
“Mas eu penso que os EUA só se salvarão quando entenderem Chico Buarque e Lulu Santos”.

É? O que isso quer dizer? Nada! Deixa entrever uma suspeita de profundidade misturada ao sublime. É a hora em que devemos dizer: “Ahnnnn”, afetando um entendimento superior do que diz o pensador. Como isso é antigo, Santo Deus! Ah, sim: e que a patrulha não venha encher o meu saco. Caetano tem algumas letras excelentes — e outras são rematadas bobagens. Mas sua entrevista foi sobre música?

Como? Eu também caí no truque? É possível.

Por Reinaldo Azevedo

13/06/2009

às 6:09

E Caetano vai levar a prebenda da Lei Rouanet…

Por Marcio Aith, na Folha:
“Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O ministério não tem vocação para irmã Dulce ou para Madre Teresa de Calcutá.” Com essas palavras o ministro da Cultura, Juca Ferreira, indicou à Folha que irá rever a decisão que proibiu produtores do músico Caetano Veloso de captar patrocínio da Lei Rouanet para divulgar o novo CD do artista, “Zii e Zie”.
Em reunião em maio, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) decidiu que o projeto, no valor de R$ 2 milhões, não precisa da Rouanet por ser comercialmente viável. A CNIC é um órgão colegiado que pertence ao Ministério da Cultura. O ministro pode, a seu critério, rever as decisões da comissão. Ferreira negou ter sofrido pressões da empresária Paula Lavigne, ex-mulher e empresária de Caetano, para que a decisão fosse revertida:
“Ela não fez nenhum sauê, apenas ligou para mim e perguntou qual critério tinha sido utilizado para Caetano que ela não percebia que tinha sido usado para outras pessoas”. Leia a seguir a entrevista.
 
FOLHA- O sr. vai rever o veto a Caetano Veloso?
JUCA FERREIRA
– A produção de Caetano entrou com o recurso, que vai ser analisado pelo ministério. Estou acompanhando. Evito ao máximo rever decisões da CNIC. Só quando ocorre um erro muito contundente procuro chamá-los à razão.

FOLHA- Que erro foi esse?
FERREIRA
– O que houve é o seguinte. Não é possível aplicar um critério para um artista e não aplicar para outro. A lei atual não tem nenhum critério que diga que os artistas bem-sucedidos não podem ter seus projetos aprovados, e nem a nova deverá ter. No ano passado, quando eu intervim para aprovar o show da Maria Bethânia [a CNIC também tinha negado acesso da cantora à Rouanet], já tínhamos aprovado projetos da Ivete Sangalo, artista mais bem-sucedida comercialmente em todos os tempos. Não podemos sair discricionariamente decidindo, sem critérios legais.
(…)
FOLHA – O senhor diz que não há critério legal para negar o projeto de Caetano Veloso. Se não existe critério, por que musicais como “Peter Pan” e “Miss Saigon”, e exposições como “Leonardo da Vinci” e “Corpo Humano” foram negados?
FERREIRA
– Não vou aqui discutir casos.Frequentemente há erros, eu tenho dito isso. É justamente a falta de critérios que cria ambiente para julgamentos subjetivos. Um dos objetivos da reforma da lei é adotar critérios previamente legitimados pela discussão pública.

FOLHA – Não há uma contradição entre o espírito da reforma da Lei Rouanet, baseada no uso de dinheiro público para quem precisa, e a decisão de estender a lei a Caetano, um artista consagrado?
FERREIRA
- De modo algum. O show já está em turnê, cobrando um preço. Seus produtores se dispuseram a reduzi-lo para pouco menos da metade se for incorporado dinheiro público. Ao que parece, o ingresso cairia para R$ 40 inteira, e R$ 20 meia. Isso possibilita a ampliação de pessoas na plateia. Atende a uma demanda nossa, a de que um artista bem-sucedido amplie seu público. Não é contraditório. Queremos uma política cultural sólida, mas não faremos isso sem os grandes artistas brasileiros. A única coisa que apontamos é que, da maneira como a lei é hoje, os artistas novos, de diversos Estados, não têm acesso à lei. Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O ministério não tem vocação de irmã Dulce nem de Madre Teresa de Calcutá. Um artista conhecido pode ter dificuldade de conseguir patrocínio para uma obra experimental, ou pode ser do interesse público abaixar os preços de um espetáculo popular. Deve-se avaliar economicamente cada projeto, o que hoje a lei sequer prevê. A discussão não está aí. Aqui

Comento
Este bogueiro já se declarou contra subsídio até para feijão, como sabem. Ou jamais seremos eficientes na produção de feijão. Simples e óbvio assim. Imaginem esse papo de subsidiar cultura…

Mas vá lá. A coisa está aí. Juca Ferreira, coitado!, chega a ser patético, bisonho. Sabe que Caetano, se quiser, pode fuzilá-lo com três ou quatro palavras, que seriam publicadas em todos os jornais. E por quê? Porque, se pode haver dúvida sobre se é ou não o mais importante artista popular brasileiro, uma coisa está fora de debate: é o mais influente. E, obviamente, não tem problemas para atrair público a seus shows. Se um Caetano precisa de Lei Rouanet, os outros artistas precisam de muleta. Tenham paciência!

É uma piada. Ao justificar, no entanto, a revisão da decisão, concedendo ao cantor o benefício, Juca Ferreira se trai e evidencia uma espécie de má consciência que vai tomar conta da lei. Explico.

O espírito da revisão da lei, diz ele, é descentralizar a concessão de benefícios, atendendo a produções regionais, que não se orientem só por critérios de mercado etc. Bem, vocês conhecem essa cascata. É claro que, dado esse critério, Caetano estaria fora: tem público, não é um autor regionalista desconhecido, não faz arte experimental… Ao contrário: é a própria filha da Chiquita Bacana…

Mas aí é Juca Ferreira quem demonstra o que realmente pensa dos tais artistas fora do mercado que serão apoiados pela Lei Rouanet: “Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O ministério não tem vocação de irmã Dulce nem de Madre Teresa de Calcutá.”

Sacaram? O que não for, digamos, coisa de mercado, como Caetano, é “artista malsucedido”… Pergunto: por que o Estado tem de dar subsídio a artista malsucedido? E os caminhoneiros malsucedidos? E os contabilistas malsucedidos? E os padeiros malsucedidos? Ah, bem, não vale perguntar sobre torneiro-mecânico malsucedido…

Por Reinaldo Azevedo

11/06/2009

às 6:56

Lei Rouanet para Caetano??? É o Bolsa Dendê!

Por Marcio Aith, na Folha. Comento rapidamente. Depois falo mais a respeito:
A Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), que analisa os projetos aspirantes ao benefício da Lei Rouanet, negou autorização para que os produtores do músico baiano Caetano Veloso captem patrocínio para o novo trabalho do artista, o CD “Zii e Zie”.
Em reunião do último dia 21 de maio, a comissão decidiu que o projeto “Tour Caetano Veloso”, no valor de R$ 2 milhões, não precisa de incentivo por ser comercialmente viável. O projeto prevê a realização de shows em 22 capitais.
No entanto, é muito provável que essa decisão seja derrubada nos próximos dias pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira.
Ao ministro cabe rever as decisões da CNIC. No ano passado, ele derrubou o veto da comissão à turnê da cantora Maria Bethânia, que pedia autorização para buscar R$ 1,8 milhão em patrocínio.
Naquela ocasião, a CNIC rejeitou o show pelo mesmo motivo que nega agora autorização para o show de Caetano: a receita de bilheteria “tornaria desnecessária a utilização de incentivo fiscal na realização do evento”. Ferreira derrubou a decisão e viabilizou o patrocínio de Bethânia, com dinheiro de renúncia fiscal.
Naquele episódio, como agora, o ministro dizia concordar com o sentido da decisão do CNIC, mas não com a forma. Segundo Ferreira, a Lei Rouanet não possui um critério específico para impedir o patrocínio de espetáculos comercialmente viáveis. Para ele, a orientação da CNIC seria justa, mas não legal.
Esta suposta omissão legal é justamente um dos motivos pelos quais o ministro pretende reformar a Lei Rouanet.
A Folha apurou que Ferreira também foi alvo de forte pressão de Paula Lavigne, ex-mulher e empresária de Caetano, para que a decisão da CNIC fosse revertida.
Em debate anteontem, Ferreira referiu-se obliquamente à decisão da CNIC no caso de Caetano. Disse que “estão tentando”, sem sucesso, usar o episódio para causar intriga entre ele e um conterrâneo (Juca Ferreira e Caetano Veloso são baianos).
Questionado pela Folha sobre o tema, Caetano comentou, por e-mail: “Não. Não há nenhum estremecimento entre mim e o ministro. Ele foi assistir ao meu show em Brasília e conversamos bastante”.

Comento
Sob muitos aspectos, Caetano Veloso é o mais — sei lá: poderoso, importante, respeitado, escolham aí… — artista brasileiro. Ele precisa de renúncia fiscal para fazer show? Os desdentados têm Bolsa Família, e Caetano, Bolsa Show! É evidente que não há razão que justifique a concessão. A não ser, como lembrou o próprio ministro da Cultura, o tal Juca Sei Lá do Quê, o fato de que, bem…, Caetano é seu “conterrâneo”. Então é o Bolsa Dendê.

Por Reinaldo Azevedo

08/06/2009

às 15:46

Ainda Caetano, alhos e bugalhos

Mas é realmente muito engraçado, não?

Eu lá falei do “Caetano enquanto artista”? Nada! Zero! E, quando o fiz, não aqui, foi em texto elogioso. Desta feita, respondi a um ataque — grosseiro e superficial — do “Caetano enquanto pensador político”.

O Brasil é realmente engraçado. Caetano resolve opinar sobre o debate ideológico e cercanias. Se alguém responde, se diz que ele está errado, logo aparece um: “Como você ousa? Ele é um grande artista”. Ser um grande artista, na suposição de que seja, lhe dá licença especial de afirmar bobagens em outras áreas? Não! Pior: boa parte da simpatia que angaria não deriva do mérito da opinião, mas de sua atividade principal. Pego outro exemplo: Cristiane Torloni acredita saber o que fazer com a Amazônia. Ganha espaço na imprensa com as suas ligeirezas ambientais porque é atriz, não porque tenha estudado a matéria sobre a qual proclama sentenças. Se contestada, logo aparece alguém: “Ah, mas ela é uma boa atriz”. E daí?

Trata-se de uma espécie de “Maldição Chico Buarque”, o proclamado “poeta”. Inegavelmente, trata-se de um grande letrista da tal MPB. Tem realmente alguns versos bastante apreciáveis se acompanhados ao violão. Nunca neguei isso. Mas é um idiota político. Nas vezes em que o critiquei, ataquei o seu discurso político, não as suas rimas. Qual é?

Reitero: as pessoas opinem sobre o que bem entenderem. Mas a sua especialidade numa determinada área não as torna intocáveis em outras.

Por Reinaldo Azevedo
 

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