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Aécio Neves

09/04/2011

às 8:35

O DEM como ninho auxiliar de um tucano

O Democratas realmente passa por um momento que se pode dizer único. Na terça-feira, dia 5, o senador José Agripino (RN), presidente do partido, marcou uma reunião em seu gabinete para decidir os destinos da legenda no Tocantins, com a saída da senadora Kátia Abreu, que saiu para ser uma das fundadoras do PSD. Sim, é necessário fazê-lo. Por isso estavam lá dois deputados do estado, um federal e um estadual. O líder na Câmara, ACM Neto (BA), também compareceu ao encontro.

Inusitada mesmo foi a participação ativa, na reunião, com direito a voz — e, se fosse necessário, até a voto — do senador Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais. Uma das acusações que faz o grupo que deixou o Democratas é que o partido se tornado uma sublegenda de Aécio e está sendo “administrado” de fora, segundo os interesses eleitorais do senador tucano, o que Agripino já nega.

Por Reinaldo Azevedo

06/04/2011

às 19:31

Aécio na tribuna: a situação já escolheu o seu candidato de oposição. Ou: por que Dilma deveria se preocupar?

Vamos lá. Algumas considerações sobre o discurso do senador Aécio Neves. Em primeiro lugar, destaco que o governo já tem o adversário preferido em 2014: Aécio. Parte do jornalismo também decidiu que será assim. Os dois, governo e imprensa, resolveram, como posso dizer?, “bombar” a fala do senador antes mesmo que ela acontecesse. No jornalismo online, houve um certo frenesi: “Aécio discursa daqui a pouco…”; “Aécio vai dizer que…”; “Petistas se preparam para responder a Aécio…” E foi por aí. Com três anos e oito meses de antecedência, já se decidiu qual será o confronto de 2014. Aécio, como protagonista do dia, atuou para isso. Seus antagonistas — do histriônico Lindberg Farias (PT-RJ), quase um anfitrião de Aécio no Rio, ao pudoroso Jorge Viana (PT-AC) — aceitaram o papel de antagonistas sem contestar o enredo. E o senador mineiro comandou a sessão. Chegou mesmo a “nomear” o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) ministro da Justiça — o que, diga-se, se e quando acontecer, contará com meu apoio entusiasmado. O que me pergunto é se um discurso de um líder da oposição deve se confundir com o pré-lançamento de uma candidatura a esta altura do campeonato. Aécio foi muito hábil na operação. O tempo dirá se foi também prudente.

Vamos ao discurso (íntegra aqui).

Sem pedir desculpas
Aécio citou, num dado momento, uma fala do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), segundo a qual “ser oposição é tão patriótico quanto ser governo”. Também acho. Por isso mesmo, doravante, acho eu, os líderes oposicionistas — Aécio inclusive — podem se dispensar daquelas escusas iniciais, que buscam deixar claro que o opositor não é um sabotador. Afirmou o senador:
“Estarei onde sempre estive, como homem do diálogo que não foge às suas responsabilidades e convicções; não teme o enfrentamento do debate nem as oportunidades de convergência em torno dos interesses do Brasil. Farei a política que sempre fiz, aquela que entende que, neste campo, brigam as idéias e não os homens.”
“Sim, isso tudo é correto. Correto e, reitero, desnecessário. Em nenhuma democracia consolidada do mundo, e nós temos uma, fazem-se necessárias tais ressalvas. Até porque jamais houve oposição sistemática ao governo Lula. O oposicionismo doidivanas é monopólio do PT. Digam-me uma só proposta boa para ao Brasil à qual PSDB, DEM e PPS tenham dito “não”. Inexiste!

A fala de Aécio pode ser dividida em três blocos. O primeiro fez uma síntese do passado, mostrando como o PT se comportou ao longo da sua história, preocupado mais com a sua própria construção do que com o país, o que levou o partido a se omitir em momentos cruciais para o destino do Brasil, opondo-se de modo radical, em particular, ao governo FHC. É fato! O PT disse não à Lei de Responsabilidade Fiscal, ao Proer, aos programas sociais (que chamava “assistencialismo”, às privatizações… A tudo, em suma, que depois se mostrou essencial para garantir ao PT a governabilidade do país.

Aécio emendou dizendo que o PSDB segue na sua mesma trajetória, em favor do Brasil, ao contrário do PT, que continua ocupado em fortalecer o próprio partido, daí o inchaço da máquina pública e a interferência indevida na direção da Vale:
“Não é interesse do país que o Poder Federal patrocine o grave aparelhamento e o inchaço do Estado brasileiro, como nunca antes se viu na nossa história. Da mesma forma, não posso crer que seja interesse do país que o governismo avance sobre empresas privadas, com o objetivo de atrelá-las às suas conveniências.”

O senador fez elogios a Lula, que, em muitos aspectos, teria dado continuidade à obra de FHC. Do mesmo modo, e concordo com ele porque já escrevi isso aqui, considerou que não estamos experimentando o primeiro ano do governo Dilma, mas o nono ano do governo do PT. E isso lhe deu o gancho para a crítica:
“Não há ruptura entre o velho e o novo, mas o continuísmo das graves contradições dos últimos anos. O Brasil cor-de-rosa vendido competentemente pela propaganda política - apoiada por farta e difusa propaganda oficial - não se confirma na realidade. E nós vivemos no Brasil real. Por isso, senhoras e senhores, cessadas as paixões da disputa eleitoral, o Brasil precisa, neste momento, de um choque de realidade.”

Choque de realidade
E partiu para o segundo bloco. Quais são os problemas do Brasil hoje, segundo Aécio? Ele apontou o risco de “desindustrialização de setores importantes da economia” — não apontou causas ou disse como corrigir o problema —, a gastança, a infraestrutura precária e a carga tributária extorsiva. A oposição terá de lidar com eles, disse Aécio, em três frentes:
“Uma, que define a nossa postura perante o governo. Outra, que nos remete ao nosso compromisso inalienável com o resgate da Federação. E a terceira frente, a que nos permitirá uma aproximação ainda maior com os brasileiros.”

A primeira frente pede “fiscalização do governo”; a segunda, o “resgate da federação”; a terceira estaria naquele documento — lembram-se? — lançado primeiro neste blog, o “Manifesto em Defesa da Democracia”:
“É um insulto à Republica que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo (como denuncia todos os dias o senador Itamar Franco)… O poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder não lhe conferem licença para ignorar a Constituição e as leis… É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político… Esse documento, ao meu ver, reflete a alma e o coração de tantos de nós e, ao fazer isso, nos traz a dimensão maior da política.”

O tucano defendeu, em seguida, algumas medidas pontuais: a redução a zero da alíquota de PIS e Cofins para investimentos em saneamento — proposta, lembrou, que Serra fez durante a campanha — e energia; execução orçamentária restrita em áreas essenciais, como os Transportes; transferência de parcela maior da CIDE para estados e municípios; o não-contingenciamento de verbas da área de Segurança Pública — 70% do total deveriam ser repassados mês a mês; recomposição gradual do Fundo de Participação dos Estados e do Fundo de Participação dos Municípios;  revisão da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, criando o Simples Trabalhista, universalizando o direito de opção pelo Simples Nacional e estendendo os benefícios do Empreendedor Individual para as micro e pequenas empresas.

Como se nota, Aécio se empenhou em mostrar que tem idéias que interessam, em especial, aos estados mais pobres. Falava o pré-candidato. Feita a pausa, digamos assim, mais tarefeira, voltou às questões gerais. A oposição, disse, no terceiro bloco, tem de ter três valores: “coragem, responsabilidade e ética”. Nas suas palavras:
“Coragem, para resistir à tentação da demagogia e do oportunismo. Responsabilidade, não podemos cobrar do governo responsabilidade se não a tivermos para oferecer ao país. E Ética, não só a ética que move as denúncias.Não só a ética que cobra a transparência e a verdade. Mas uma ética mais ampla, íntima, capaz de orientar nossas posições, ações e compromissos, todos os dias.”

No importante momento da peroração, a conclusão do discurso, voltou à Minas universal, ao muito que o Brasil e, suspeito, o mundo têm a aprender com o Estado:
“E, aqui, não posso deixar de lembrar Minas, a história de Minas e as lições que nos legaram os homens e mulheres de Minas. Elas nos dizem que cada geração tem o seu compromisso com a história. Elas nos dizem que a pátria é honrosa tarefa diária, coletiva e compartilhada. Não a realizaremos sob o signo do confronto irracional nem tampouco da complacência. A oposição que defendo não é a de uma coligação de partidos contra o Estado ou o país, mas a da lucidez da razão republicana contra os erros e omissões do poder público. Convoca-nos, neste momento, a responsabilidade para fazer o que precisa ser feito. Ou o faremos ou continuaremos colecionando sonhos irrealizados. Não temos, senhoras e senhores, esse direito. Precisamos estar, todos, à altura dos sonhos de cada um dos brasileiros.
Nós, da oposição, estaremos.
Muito obrigado.”

Mas o que foi que ele disse mesmo?
O discurso de Aécio é bom? Publico a íntegra no blog. Leiam quando tiverem tempo. A síntese que faz do passado é excelente. Boa parte do que vai ali está nos arquivos deste blog desde 2004 — e em Primeira Leitura, já extinta, desde 2003. A crítica ao aparelhamento do estado e às indevidas interferências do PT numa empresa privada, que se dão no presente, são corretas e pertinentes; as propostas pontuais — o que chamei de lado tarefeiro — parecem boas. Mas, no que concerne ao futuro, não há nada que vá muito além de questões adjetivas e da reiteração de que, afinal, somos todos homens honrados. Perfeito!

Ao retomar o “Manifesto em Defesa da Democracia”, texto que vocês conhecem melhor do que ninguém, parece-me que cumpria ser um pouco mais incisivo na crítica às muitas vezes em que o PT investiu na desinstitucionalização do país. Era disso que tratava aquele texto — e a interferência de Dilma na Vale é parte desse processo. Valeu a citação, mas faltou apontar com mais clareza o problema. Da mesma sorte, a tal “desinsdustrialização” a que se referiu, se está em curso, não existe no vácuo. Está por quê? Qual é a origem? Como corrigi-la?

Li e reli o discurso. O evento do dia, que eu me lembre, foi inédito. Aécio comandou pessoalmente a sessão do Senado a partir das 15 e poucos  e lá está até agora, ouvindo apartes, sempre elogiosos, até mesmo do PSOL — só Lindberg ameaçou estrilar de mentirinha, mas passou logo. O texto, a esta altura, está nas mãos dos governistas e de seus estrategistas políticos. Alguns deles estarão ocupados em grifar os trechos que podem gerar mais preocupação. E eu indago: por que o governo deveria ficar preocupado?

Isso não quer dizer que eu não concorde com muita coisa do que vai na fala do senador, especialmente no que respeita à retrospectiva. Mas não se pode deixar de lembrar que esse lado “conciliador, mas firme”, de que ele se orgulha significou, na prática, em Minas, um acordo entre o PSDB e o PT, tendo o PSB como pelego para diminuir o atrito. Pode-se até dizer que, assim, ele mitigou o PT local, reduzindo a sua força. Ocorre que se tratava de fazer oposição ao PT nacional, não é? Confesso que senti falta de “realidade” no “choque de realidade” de Aécio.

O “contundente” discurso de oposição, como deixou claro o petista Jorge Viana (PT-AC), que o cobriu de elogios, não contundiu ninguém — reitero: a íntegra está disponível; procurem lá. Como operação para se lançar pré-candidato à Presidência, a operação foi muito bem-sucedida, além, certamente das expectativas. Coube ao senador petista Wellington Dias (PT-PI) resumir o espírito desta tarde-noite: a situação já escolhe o seu candidato de oposição.

Agora resta combinar com a história.

Por Reinaldo Azevedo

06/04/2011

às 17:52

Abaixo, a íntegra do discurso de Aécio Neves

Abaixo, a íntegra do discurso de Aécio Neves

“Senhor Presidente, senhoras e senhores senadores,

Ocupo hoje a tribuna do Senado Federal para examinar de forma mais profunda a conjuntura e os grandes desafios do país, nesse meu reencontro com o Parlamento Nacional. Chego a essa Casa, por delegação dos mineiros. Retomo aqui o trabalho que, por 16 anos desenvolvi no Legislativo, onde tive a honra de receber importantes missões, entre elas a de presidir a Câmara dos Deputados. Trago desse período lembranças de vigorosas iniciativas pela valorização do Parlamento. Destaco, entre elas, a limitação das medidas provisórias e a aprovação do “Pacote Ético”, que acabou com a imunidade parlamentar para crimes comuns, criou o Conselho de Ética e institucionalizou o princípio da legislação participativa. É com a mesma convicção democrática, com o mesmo respeito ao Congresso e com a mesma disposição para o trabalho e o diálogo que chego a essa Casa. Os que ainda não me conhecem bem e esperam encontrar em mim ataques pessoais no exercício da oposição vão se decepcionar. Não confundo agressividade com firmeza. Não confundo adversário com inimigo. Os que ainda não me conhecem bem e acham que vão encontrar em mim tolerância diante dos erros praticados pelo governo, também vão se decepcionar. Não confundo o direito à defesa e ao contraditório, com complacência ou compadrio.

Estarei onde sempre estive, como homem do diálogo que não foge às suas responsabilidades e convicções; não teme o enfrentamento do debate nem as oportunidades de convergência em torno dos interesses do Brasil. Farei a política que sempre fiz, aquela que entende que, neste campo, brigam as idéias e não os homens. Saúdo inicialmente essa Casa através dos grandes brasileiros que por aqui passaram e também através de todos os parlamentares que, hoje, aqui honram a delegação que receberam, respeitando a sagrada autonomia do Parlamento. Parlamentares que reconhecem ter apenas um senhor: o povo brasileiro. E apenas uma senhora: a sua própria consciência.

Senhores senadores e senhoras senadoras, a memória e o conhecimento da própria história são patrimônios preciosos de uma nação. Mais do que isso, formam a matéria-prima essencial e insubstituível à construção do futuro. A consciência do que fomos e do que somos é que nos permite, todos os dias, moldar os contornos do que seremos, ou do que poderíamos vir a ser. O Brasil de hoje é resultado de uma vigorosa construção coletiva que, desde os primeiros sopros da nacionalidade, vem ganhando dimensão, substância e densidade. Ao contrário do que alguns nos querem fazer crer, o país não nasceu ontem. Ele é fruto dos erros e acertos de várias gerações de brasileiros, de diferentes governos e líderes, e também de diversas circunstâncias históricas e econômicas. Juntos, nós, brasileiros, percorremos os caminhos que nos trouxeram até aqui. Mas é importante e justo que nos lembremos, sempre, que não chegamos até aqui percorrendo os mesmos caminhos.

Não podemos nos esquecer das grandes diferenças que marcam a visão de país das forças políticas presentes na vida nacional nas ultimas décadas. Porque, por mais que queiram, os partidos não se definem pelo discurso que fazem, nem pelas causas que dizem defender. Um partido se define pelas ações que pratica. Pela forma como responde aos desafios da realidade. Em 1985, quando o Brasil se via diante da oportunidade histórica de sepultar o autoritarismo e reingressar no mundo democrático, nós estávamos ao lado do povo brasileiro e do presidente Tancredo Neves. Os nossos adversários não. Permanecemos ao lado do Presidente José Sarney, naqueles primeiros e difíceis anos de consolidação da nova ordem democrática. Os nossos adversários não. Mais à frente, em um momento especialmente delicado da nossa história, quando foi preciso convergir para apoiar a governabilidade e o presidente Itamar Franco, nós estávamos lá. Os nossos adversários não. Recusaram, mais uma vez, a convocação da história. Para enfrentar a grave desorganização da vida econômica do país e a hiperinflação que penalizava de forma especial os mais pobres, o governo Itamar criou o Plano Real. Neste momento, o Brasil precisou de nós e nós estávamos lá. Os nossos adversários não.

Sob a liderança do presidente Fernando Henrique aprovamos a Lei de Responsabilidade Fiscal para proteger o País dos desmandos dos maus administradores. Nossos adversários votaram contra. E chegaram ao extremo de ir à Justiça contra essa saneadora medida, importante marco da moralidade administrativa do Brasil. Para suportar as crises econômicas internacionais e salvaguardar o sistema financeiro nacional, estruturamos o Proer, sob as incompreensões e o ataque cerrado dos nossos adversários. Os mesmos que o utilizaram para ultrapassar o inferno da crise de 2009 e que o apresentam, agora, como exemplo de boa governança para o mundo. Estruturamos os primeiros programas federais de transferência de renda da nossa história. A partir de sucessos locais, como o do prefeito Grama, em Campinas, e do governador Marconi Perillo, em Goiás, criamos o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação e o Auxílio Gás. Que, depois, serviram de base para, ampliados e concentrados, se transformarem no emblemático Bolsa Família. Quando os fundamos nossos adversários também não estavam lá. E, ironicamente, nos criticaram por estarmos criando políticas assistencialistas de perpetuação da dependência e não de superação da pobreza. As mudanças estruturais do governo Fernando Henrique, entre elas as privatizações, definiram a nova face contemporânea do País. A democratização do acesso à telefonia celular talvez seja o melhor exemplo do acerto das medidas corajosamente tomadas. Porque disso é feito um bom governo: de decisões e não apenas de circunstâncias.

Senhoras e Senhores, faço essas rápidas considerações apenas para confirmar o que continuamos a ver hoje: sempre que precisou escolher entre os interesses do Brasil e a conveniência do partido, o PT escolheu o PT. Por isso, não é estranho a nós que setores do partido tentem, agora, convencer a todos de que os seus interesses são, na verdade, os interesses da nação. Nem sempre são. Não é interesse do país, por exemplo, a subordinação das agências reguladoras ao governo central, gestadas que foram para terem independência técnica e, pelo país, atuarem livres de pressões políticas. Não é interesse do país que o Poder Federal patrocine o grave aparelhamento e o inchaço do Estado brasileiro, como nunca antes se viu na nossa história. Da mesma forma, não posso crer que seja interesse do país que o governismo avance sobre empresas privadas, com o objetivo de atrelá-las às suas conveniências. Como se faz, agora, sem nenhum constrangimento, com a maior empresa privada do Brasil, a Vale, criando perigoso precedente.

Senhoras e senhores, não sou, como todos sabem, daqueles cegos pela paixão política, que não se permite enxergar méritos no adversário. Reconheço avanços no governo Lula. A manutenção dos fundamentos da política econômica implantada pelos governos anteriores é, a meu ver, o primeiro e o mais importante mérito da administração petista. E é necessário reconhecer que o adensamento e ampliação das políticas sociais, foram fundamentais para que o Brasil avançasse mais. Acredito que, mais adiante, por mais que isso desagrade a alguns, a independência dos historiadores considerará os governos Itamar, Fernando Henrique e Lula um só período da história do Brasil, de estabilidade com crescimento, sem rupturas. Meus amigos, não ocupo essa tribuna para fazer uma análise dos primeiros meses do governo da Presidente Dilma Rousseff.

O processo de governança instalado à frente do país - com suas falhas, equívocos, mas também virtudes –, não conta apenas alguns dias. Pontua-se, de forma concreta, o início do 9º ano de um mesmo governo. Quase uma década. Ainda que seja nítido e louvável o esforço da nova presidente em impor personalidade própria ao seu governo, tem prevalecido a lógica dominante em todo esse período e suas heranças. Não há ruptura entre o velho e o novo, mas o continuísmo das graves contradições dos últimos anos. O Brasil cor-de-rosa vendido competentemente pela propaganda política — apoiada por farta e difusa propaganda oficial — não se confirma na realidade. E nós vivemos no Brasil real. Por isso, senhoras e senhores, cessadas as paixões da disputa eleitoral, o Brasil precisa, neste momento, de um choque de realidade.

Um choque de realidade que nos permita compreender corretamente a situação do país hoje, e, essencial, que nos permita também compreendê-la dentro do mundo que nos cerca. Escondido sob o biombo eleitoral montado, o desarranjo fiscal, tantas vezes por nós denunciado, exige agora um ajuste de grande monta que penalizará investimentos anunciados com pompa e circunstância. E não é bom para um partido inaugurar uma nova fase de governo sob a égide do não cumprimento de compromissos assumidos com a população. É consenso que o país convive com o grave risco de desindustrialização de importantes setores da nossa economia. A participação de produtos manufaturados na nossa pauta exportadora, que era de 61%, em 2000, recuou para 40%, em 2010. Vemos, infelizmente, renascer, da farra da gastança descontrolada dos últimos anos, e em especial do ano eleitoral, a crônica e grave doença da inflação. E não há razão para otimismo quando comparamos a nossa situação com a de outros países.

Estudo feito a partir do relatório de competitividade do Fórum Econômico Mundial mostra que, comparado a outros 20 países com os quais concorre, o Brasil ficou apenas na 17ª colocação no quesito qualidade geral da infraestrutura. Empatamos com a Colômbia. No item qualidade da infraestrutura portuária o Brasil teve o pior desempenho. Fomos os lanternas do grupo. A qualidade das estradas brasileiras, por onde trafega mais da metade das cargas no país, supera apenas a da Rússia. Ficamos na penúltima colocação. E, enquanto isso, em 2010, a nossa carga tributária atingiu 35% do PIB.

Impressiona também saber que, apesar de todos os avanços que, reconheço, existiram nos últimos anos, a carga tributária das famílias com renda mensal de até dois salários mínimos passou, segundo o IPEA, de 48,8%, em 2004, para 53,9% da renda em 2008. E, lamentavelmente, repete-se agora o que se viu nos últimos anos: não há espaço e dedicação real à discussão do essencial. As reformas constitucionais continuam à espera de decisão política para que sejam debatidas e aprovadas. Senhoras e senhores, a população brasileira nos delegou a honrosa tarefa de exercer oposição ao atual governo. Repito o que disse recentemente o governador Alckmin: “Ser oposição é tão patriótico quanto ser governo”.

Aproveito este momento para fazer a minha homenagem aos companheiros do PSDB, do DEM e do PPS, pela coragem e coerência com que têm honrado no Parlamento a delegação recebida das urnas. Hoje, cerca de metade da população vive em estados governados pela oposição. No plano nacional tivemos a confiança de cerca de 44 milhões de brasileiros que caminharam ao nosso lado e optaram pela experiência e competência de José Serra para liderar o país. Esses números, por si só, demonstram a dimensão política e a responsabilidade das oposições no país. Acredito, no entanto, que o tamanho da oposição será equivalente à nossa capacidade de interpretarmos e defendermos os valores e expectativas da nossa gente. Como oposição, é nosso dever atuar com firmeza e lealdade em três diferentes e complementares frentes. Uma, que define a nossa postura perante o governo. Outra, que nos remete ao nosso compromisso inalienável com o resgate da Federação. E a terceira frente, a que nos permitirá uma aproximação ainda maior com os brasileiros.

Em relação ao governo, temos como obrigações básicas: fiscalizar com rigor; apontar o descumprimento de compromissos assumidos com a população; denunciar desvios, erros e omissões; e cobrar ações que sejam realmente importantes para o país. O segundo eixo de atuação que defendo é o compromisso de resgatarmos o princípio da Federação no Brasil. Aqui, peço licença para fazer uma manifestação de apreço aos prefeitos municipais de todas regiões, que vêm travando, há anos, inglória luta para sensibilizar o governo federal, o Parlamento e a opinião pública acerca da difícil realidade das administrações locais. Hoje, suportamos uma das mais graves concentrações de impostos, recursos e poder de decisão na esfera da União de toda a nossa história. Esta é uma realidade que avança dia após dia e compromete o equilíbrio federativo. Meus amigos, como terceiro eixo de ação, acredito que a nossa aproximação ainda maior com os vários setores da vida nacional vai ocorrer a partir da coragem que tivermos para assumirmos e partilharmos as indagações e indignações do nosso tempo. Assumirmos e partilharmos os sonhos e utopias da nossa geração.

Nesse sentido, peço licença para trazer aos senhores trechos daquele que considero o mais importante documento político produzido nos últimos tempos no País. Trata-se do Manifesto em Defesa da Democracia, que tem entre seus signatários, brasileiros da dimensão de Hélio Bicudo e Dom Paulo Evaristo Arns. Manifesto que não pertence a um partido, mas ao Brasil e aos brasileiros. Diz o manifesto em alguns trechos: “É um insulto à Republica que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo (como denuncia todos os dias o senador Itamar Franco)… O poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder não lhe conferem licença para ignorar a Constituição e as leis… É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político… Esse documento, ao meu ver, reflete a alma e o coração de tantos de nós e, ao fazer isso, nos traz a dimensão maior da política.”

Senhoras e senhores, precisamos romper a inércia.

A ausência de iniciativas concretas do governo em torno das grandes reformas não pode ser justificativa para deixarmos de fazer o que pode ser feito hoje. E o que é nosso dever fazer hoje. Ouso apresentar algumas primeiras idÉias para serem examinadas por esta Casa. Começo por aquela que, defendida inicialmente pelo nosso candidato José Serra, foi acolhida e transformada em compromisso pela presidente Dilma Roussef, na campanha presidencial, e que, por isso, pode significar uma inédita convergência em torno de um dos nossos mais legítimos interesses nacionais. Refiro-me à redução de tributos cobrados em setores estratégicos da nossa economia, no caso a redução a zero das alíquotas de PIS e Cofins das empresas de saneamento. Podemos somar forças e apoiar iniciativas como a do ilustre Senador Dornelles, que defende proposta semelhante para capitalizar as empresas de água e esgoto e fomentar novos investimentos em saneamento em todas as regiões.

É também compromisso assumido pela Presidente - e bandeira defendida pela oposição- a extensão da mesma iniciativa à área de energia. Podemos construir um consenso mínimo entre as várias propostas que tramitam na Câmara e no Senado, que buscam reduzir os mais de uma dezena de tributos federais cobrados na conta de luz dos brasileiros. Se o governo federal seguisse o exemplo do governo de Minas e de outros estados que concedem isenção total de ICMS às famílias de baixo consumo, as contas de luz dessas famílias poderiam chegar a ser 20% mais baratas! Por outro lado, não há, senhoras e senhores, justificativa para que permaneçamos passíveis diante das reconhecidas dificuldades de execução orçamentária em áreas fundamentais ao país.

Segundo o Contas Abertas, por razões as mais diversas, nos últimos oito anos o Ministério dos Transportes, não executou parte expressiva do orçamento que dispunha para investir. Para enfrentar esse e outros problemas trago uma proposta que, sei, parecerá, para muitos, ousada: estarei propondo a transferência gradual dos recursos e da gestão das rodovias federais para a competência dos estados. Isso poderia ser iniciado imediatamente com a transferência de parclea mais expressiva da CIDE para os estados e municípios. Meus amigos, do ponto de vista dos interesses da Federação, proponho ainda que 70% dos recursos do Fundo Nacional de Segurança e do Fundo Penitenciário, tantas vezes contingenciados, sejam distribuídos mensalmente, de forma republicana, proporcionalmente à população de cada estado. Sabemos, todos, que a Federação brasileira vive um processo de esfacelamento. O mal é conhecido.

Do ponto de vista tributário, vivemos grave injustiça federativa. Nesse sentido, proponho adotarmos mecanismos que protejam a participação na receita dos estados, especialmente das regiões mais pobres, e das prefeituras, sobretudo as do interior e de pequeno porte. Estou encaminhando iniciativa capaz de recompor gradualmente o tamanho da fatia que o FPE e o FPM tinham no bolo tributário federal, impedindo que as isenções tributárias dadas pelo governo Federal continuem a alcançar a parcela dos estados e municípios, que já foi, de 27% em 2002 e, hoje, é de apenas 19,4%. No campo da geração de empregos, defendo a revisão da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, criando o Simples Trabalhista, universalizando o direito de opção pelo Simples Nacional e estendendo os benefícios do Empreendedor Individual para as micro e pequenas empresas.

No meu entendimento, decisões como essas atendem muito mais às justas demandas do setor do que a criação de mais cargos públicos e de novas estruturas burocráticas. Precisamos, insisto, buscar a equação que nos permita progressivamente desonerar as microempresas, mas também as exportações, os investimentos, a produção e a folha salarial. Senhoras e senhores, reafirmo meu compromisso com outros grandes desafios do país. Não faltará a mim e, estou certo, a outros membros da oposição, disposição para discutir com o governo, medidas efetivas e corajosas que nos permitam superar os sempre prioritários desafios da qualidade da educação e da saúde publica no Brasil.

Assim, como estaremos presentes na defesa de medidas que permitam que a questão ambiental possa alcançar um novo patamar e permear todas as áreas de ação do poder publico. Senhoras e Senhores, acredito que devemos organizar o exercício da oposição em torno de três valores. São eles: coragem, responsabilidade e ética. Coragem, para resistir à tentação da demagogia e do oportunismo. Responsabilidade, não podemos cobrar do governo responsabilidade se não a tivermos para oferecer ao país. E Ética, não só a ética que move as denúncias.Não só a ética que cobra a transparência e a verdade. Mas uma ética mais ampla, íntima, capaz de orientar nossas posições, ações e compromissos, todos os dias.

Acredito, senhoras e senhores senadores, que estamos vencendo um ciclo. Hoje, o Brasil não acredita mais no discurso que tenta apontar uma falsa contradição entre responsabilidade administrativa e conquistas sociais. Em 2002, quando criamos a expressão “choque de gestão” — e fomos criticados por nossos adversários — tínhamos como objetivo afirmar que não pode haver avanço social permanente, sem responsabilidade administrativa. Os emblemáticos avanços de Minas Gerais comprovam a tese. Hoje, para o bem do Brasil, podemos visitar, país afora, uma densa agenda de gestão pública, empreendida por uma nova geração de líderes e gestores brasileiros, de diferentes partidos, que nos apontam caminhos para a transformação que nos exige a população. Há muito a ser feito.

Nos apresentamos hoje, sem batalhas próprias, prontos para iniciar um denso debate sobre os grandes desafios que nos esperam. É nosso dever contribuir para que a travessia iniciada - e empreendida por muitas mãos - avance na direção do pleno desenvolvimento. Esta é a grande tarefa inconclusa. E se há um erro que juntos não podemos cometer é nos perdermos na grandiloquência do discurso oficial, como se tivéssemos alcançado o nosso ponto de chegada. Não alcançamos. Estamos longe dele, apenas no inicio da jornada. Há grandes desafios a serem enfrentados e vencidos, que não pertencem apenas ao governo. Ou às oposições. Mas ao país inteiro.

E,aqui, não posso deixar de lembrar Minas, a história de Minas e as lições que nos legaram os homens e mulheres de Minas. Elas nos dizem que cada geração tem o seu compromisso com a história. Elas nos dizem que a pátria é honrosa tarefa diária, coletiva e compartilhada. Não a realizaremos sob o signo do confronto irracional, nem tampouco da complacência. A oposição que defendo não é a de uma coligação de partidos contra o Estado ou o país, mas a da lucidez da razão republicana contra os erros e omissões do poder público. Convoca-nos, neste momento, a responsabilidade para fazer o que precisa ser feito. Ou o faremos ou continuaremos colecionando sonhos irrealizados. Não temos, senhoras e senhores, esse direito. Precisamos estar, todos, à altura dos sonhos de cada um dos brasileiros.

Nós, da oposição, estaremos.

Muito obrigado!

Por Reinaldo Azevedo

06/04/2011

às 17:12

Comento o discurso de Aécio daqui a pouco…

Comento o discurso do senador Aécio Neves (PSDB-MG) daqui a pouco. Preciso de algum tempinho para escrever, hehe. Não muito, como sempre.

Por Reinaldo Azevedo

03/03/2011

às 15:25

Nem vem que não tem!

Tolas, mas jamais surpreendentes, algumas reações à crítica que fiz à proposta de reforma política do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Seus entusiastas parecem estar tão acostumados a certa abordagem da imprensa — necessariamente a favor — que se escandalizam quando um crítico faz não uma análise de exceção, mas reafirma um ponto de vista de sempre.

Desde quando eu critico aqui a proposta do voto em lista, aquele mecanismo segundo o qual os partidos podem esconder entre os seus “deputáveis” tudo quanto é malandro, mensaleiro e salafrário? Basta ter uns dois ou três nomes fortes para puxar o voto para a legenda, e o resto está garantido. Não comecei a criticar o modelo nesta manhã, só para torrar a paciência do senador… O arquivo está à disposição. Qual é? Os entusiastas segurem um pouco o seu furor.

Reitero: a proposta do senador tucano (ver post desta manhã) carrega o vício do voto em lista, que é eleger um bando de Zé-Ninguém, segundo a vontade da burocracia partidária. E carrega também o mal essencial da proposta de Michel Temer, que é estimular a “celebrização” do voto, enfraquecendo o partido.

Na sua sede — ou marketing, cada um escolha — da conciliação, Aécio conseguiu unir duas propostas que tinham coisas boas e ruins numa única, que só tem coisa ruim. De resto, pergunto: ele está expressando um consenso do PSDB? Fala em nome do partido? É preciso tomar cuidado com esse negócio de querer ser sempre o tertius… Há coisas que não admitem conciliação. Só para pensar: qual é o meio do caminho entre o legal e o ilegal? Não existe terceira via. A proposta de Aécio é o meio-termo entre fraudar e respeitar a vontade do eleitor. E a única coisa aceitável é respeitá-la.

Por Reinaldo Azevedo

03/03/2011

às 7:59

Abaixo a reforma política! Ou: Tiririca é Schopenhauer no Congresso em que Aécio é Salomão

O debate sobre a reforma política mal começou e já virou uma pantomima! Que ninguém mais fale sobre a presença do palhaço Tiririca (PR-SP) na Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Os deputados Paulo Maluf (PP), Valdemar Costa Neto (PR) e José Guimarães (PT) — aquele cujo assessor usava a cueca como casa de câmbio —  estão na comissão da reforma política da Câmara! O mensaleiro João Paulo Cunha (PT), fazendo um ar muito contrito, o que parece ter comovido alguns jornalistas, agora preside a Comissão de Constituição e Justiça. Parece piada, provocação, acinte, mas é isto: um sujeito processado pelo STF responde pela constitucionalidade das proposições da Casa. Como é mesmo? Se cercar vira hospício, se cobrir vira circo — mas o único profissional do ramo ali é mesmo Tiririca. Não dá!

No Senado, as coisas não vão por um caminho muito melhor. Vocês sabem o que penso sobre o chamado voto em lista: PI-CA-RE-TA-GEM! É uma forma de alijar o eleitor do processo. O único propósito decente de uma reforma política é aproximar o representante do representado. Se não for assim, é truque. Defendo, por isso, o voto distrital. Eu sei que é difícil formar os distritos etc. Se é para ser fácil, deixem tudo como está, ora essa! Porque Tiririca chegou à Câmara com uma montanha de votos e levou alguns sem-voto com ele, querem fazer da Casa, na prática, ou um picadeiro de Tiriricas ou um valhacouto de sem-voto. E  com a ajuda do senador Aécio Neves (PSDB-MG)!

Aos fatos. Michel Temer, vice-presidente da República, propôs o chamado “distritão”: seriam eleitos os deputados mais votados de cada estado e ponto final. Huuummm… Mal intrínseco da proposta:  ela enfraquece o partido; as legendas buscariam “nomes fortes”: quanto mais Tiriricas, melhor! O PT, por sua vez, quer o voto em lista: a campanha seria feita para a legenda, com nomes fortes para seduzir o eleitor, mas os eleitos seriam aqueles definidos por uma lista do partido. Mal intrínseco da proposta: o eleitor  ignora quem está mandando para a Câmara.

Aí, então, aparece Aécio com a sua proverbial obsessão: ser uma terceira via!  Na Líbia, ele não estaria nem com Kadafi nem com os rebeldes. O senador teve uma idéia genial, salomônica mesmo: por que não fazer a coisa meio a meio? Uma parte se elege pelo distritão, e a outra, pela lista! Grande!!! Ainda bem que, com efeito, o senador não estava no lugar de Salomão. Teria proposto a divisão da criancinha na tentativa de ser justo, não de ser sagaz. Ele até deu o exemplo da bancada de São Paulo: 40 deputados seriam eleitos na forma do distritão — os mais votados — e 30 sairiam da lista dos partidos!

O que a proposta de Aécio tem de fabuloso é que ela junta o pior dos dois modelos! Os partidos correriam em busca de nomes populares, políticos ou não, para que arrebanhassem votos. Legendas ridículas, sem qualquer expressão, seriam meras plataformas para celebridades e subcelebridades: do Big Brother para a Câmara! Se, hoje , há um Tiririca, teríamos dezenas deles. Já a outra parcela, os da lista, seria definida por alguma forma de quociente eleitoral. O que definiria o número de parlamentares de cada partido? Suponho que terá de ser a votação obtida pelas legendas. E quem teria determinado tal votação? As celebridades! São Paulo elegeu um Tiririca, e Tiririca levou com ele uns três quase-sem-votos. Aécio quer mudar: 40 Tiriricas levariam 30 sem-votos! Ainda que essa parcela da lista fosse definida por voto em legenda, o problema essencial continua: estarão sendo eleitos ilustres “ninguéns”, meros estafetas das burocracias partidárias.

Trata-se de uma proposta ridícula! É um caso clássico de cruzamento malsucedido da vaca com o jumento: o híbrido nem dá leite nem puxa carroça!

Os políticos parecem determinados a se fechar numa casta, promovendo uma reforma política contra os eleitores. Tiririca ainda vai virar Schopenhauer no Parlamento em que Aécio decidiu ser Salomão!

Por Reinaldo Azevedo

24/02/2011

às 6:21

Do protagonismo à coadjuvação

Acanhadíssima a atuação do senador Aécio Neves (PSDB-MG) na votação do projeto do salário mínimo. Quem esperava ver o leão, o grande articulador em ação, decepcionou-se. Quem liderou a primeira fase da resistência foi, sim, um político de Minas: Itamar Franco (PPS). Podem até dizer: “Ah, mas foi combinado com Aécio”. Então faltou a noção de tempo.

Aécio não participou dos debates sobre o valor do mínimo. Não se ouviu a sua voz. Guardou-se para ser o protagonista da noite na votação do destaque que suprimia o Artigo 3º da lei — aquele da inconstitucionalidade. Aí fez um bom discurso, embora precisa melhorar a entonação de palanque. Ela é um pouco anos 50 demais, muito empostada, com uma melodia de discurso de político velho, à moda antiga. Nesse caso, sim, é preciso mesmo ser pós-Lula. O Apedeuta mudou esse tom para sempre.

Quando Aécio falou, a noite já ia longe — dois ou três minutos depois, José Sarney encerrava a votação. O que eventualmente se pretendia protagonismo virou coadjuvação.

Por Reinaldo Azevedo

23/02/2011

às 22:47

Aécio, finalmente, fala contra o esbulho constitucional

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), finalmente, fala: defende a supressão do Artigo 3º da lei do salário mínimo, aquele que solapa a prerrogativa do Congresso e viola a Constituição.

Por Reinaldo Azevedo

23/02/2011

às 22:29

Aécio: pós-Lula, pós-Dilma…

Aécio Neves (PSDB-MG) silenciou. Mas com impressionante convicção. Aécio dizia ser o pós-Lula. Pelo visto, já se considera também o pós-Dilma.

Por Reinaldo Azevedo

23/02/2011

às 20:44

Aécio Neves ainda vai falar?

Marta Suplicy leu há pouco uma lista de inscritos e não citou o senador mineiro Aécio Neves (PSDB-MG). Ele está ou não no comando da resistência oposicionista? É dúvida mesmo.

Por Reinaldo Azevedo

20/02/2011

às 16:01

Aécio quer mais proximidade com as centrais? É mesmo, é? A troco de quê?

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) conseguiu bom espaço na “mídia” defendendo uma maior aproximação do PSDB com as centrais sindicais… Ah, tá!  Se um dia Aécio for presidente, é até possível que ele goze da inimputabilidade que hoje agracia os petistas. Justiça seja feita, ele é um dos políticos que podem falar o que bem entendem sem que lhe perguntem como fará isso ou aquilo ou qual é a lógica interna do que diz. Qualquer pergunta mais incisiva levanta a suspeita de que aquele que indaga está a serviço de Serra…

“Aproximação com centrais” não é questão de vontade, de disposição subjetiva, mas de agenda. O PSDB tem o que ceder a elas mais do que o próprio PT pode fazê-lo? Lula lhes concedeu, por exemplo, uma fatia do Imposto Sindical. E as entidades não precisam prestar contas de um dinheiro legalmente regulado.  O que mais Aécio poderia lhes dar? A honra, não vale!

Quais outras concessões, necessariamente à esquerda, Aécio faria que o PT não pudesse fazer com mais facilidade? Mas a “mídia” engole a tal disposição de “aproximação com as centrais” sem se dar conta de que isso demanda questões muito objetivas: qual é a pauta?

Caso o PSDB opte por esse caminho, vai tentar disputar mercado nos locais onde o PT já se consolidou como poder. Mais do que isso: no caso da CUT, não há diferença entre partido e central.

Tudo bem! Não se trata de uma agenda política mesmo. É só ocupação do espaço noticioso. Amanhã, inventa-se outra pauta.

Por Reinaldo Azevedo

18/02/2011

às 15:23

Autoritarismo não tem virtude, de um lado ou de outro

Em declaração ao blog Presidente 40, da Folha, coordenado por Vera Magalhães, o senador Aécio Neves criticou o autoritarismo do governo. Reproduzo um trecho. Comento em seguida:

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) disse nesta sexta-feira ao blog que o governo Dilma Rousseff começou de forma “autoritária” sua relação com o Congresso Nacional. Ele aponta pelo menos duas manifestações desse autoritarismo. A primeira teria sido declaração do ministro de Assuntos Institucionais, Luiz Sérgio, segundo a qual “a ordem” do governo era que a base votasse os R$ 545 do salário mínimo.

A segunda demonstração dessa tendência seria, segundo ele, o artigo que estabelece que o valor do benefício será fixado por decreto presidencial até 2014, a partir de política de reajuste já estabelecida. “É lamentável que um governo comece sua relação tentando solapar uma prerrogativa constitucional do Legislativo, que é a de discutir e definir o valor do salário mínimo, que está explícita no artigo 7º da Constituição”, afirmou o senador tucano ao blog.

Voltei
Há duas questões aí: um governo passar uma “ordem” — a palavra pode não ser boa, mas vá lá — para que a base vote unida é parte do jogo. Não escrevo isso para contestar Aécio. Já expressei esse juízo no post de ontem. O governo desempenha o papel que lhe cabe. Quem tem de descobrir qual é a sua função é a oposição.

A segunda questão: escrevi dois textos muito contundentes ontem acusando o governo federal de solapar uma prerrogativa do Congresso. O projeto de lei é inconstitucional. E sou obrigado a voltar a um texto que escrevi aqui no dia 17 de dezembro. O governador de Minas, Antonio Anastasia (PSDB), conseguiu aprovar na Assembléia, por 50 votos a 12, a lei delegada que lhe dá poderes de promover a reforma administrativa sem a participação da Assembléia.

Tio Rei é justo. Não gosta de autoritarismo no Brasil, em Minas, na Venezuela ou em Dois Córregos, que é o centro do mundo, como todos sabem, hehe… Quando Anastasia conseguiu aquela licença, escrevi aqui o texto Governar com Lei Delegada é autoritário em Minas ou na Venezuela. “Ah, é que você é serrista, né?, e pega no pé dos mineiros”. Sou? Peçam para  Alckmin tentar aprovar uma “lei delegada” em São Paulo para vocês verem se reajo ou não. À época — e ainda hoje —, fui voz isolada na crítica.

O que foi que Dilma conseguiu na Câmara anteontem? Ora, uma lei delegada! Por quatro anos, o Congresso não se mete com o salário mínimo — assim como a Assembléia não se mete com a reforma em Minas. Aécio acha o procedimento bom para o seu estado e ruim para o país? Tio Rei acha o procedimento ruim para Minas e ruim para o Brasil.

É bem possível que os petistas respondam a Aécio lembrando que eles fizeram o mesmo no Estado, naquela moralidade muito típica do partido: “Não sou só eu; os tucanos começaram primeiro”, como se isso depusesse a favor de si mesmos e contra os adversários. O PT promoveu no Congresso o procedimento que criticou na Assembléia de Minas; Aécio critica em Brasília o procedimento que promoveu em seu estado.

Nós, queridos leitores, estamos entre aqueles que atacam práticas autoritárias azuis ou vermelhas. É bem verdade que os vermelhos apanham mais aqui. É que se entregam mais gostosamente ao autoritarismo. Tenho uma proposta a fazer a Aécio: ele lidera o movimento contra a Lei Delegada de Minas e contra a Lei Delegada de Dilma. Que tal?

Por Reinaldo Azevedo

02/02/2011

às 21:16

Para Aécio, Dilma mostrou “conjunto genérico de boas intenções”

Na Folha Online:
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) classificou como um “conjunto genérico de boas intenções” a mensagem presidencial lida por Dilma Rousseff na tarde desta quarta-feira no Congresso.

“Eu guardei meus aplausos para o momento que essas questões [reformas política e tributária] forem efetivamente cumpridas”, afirmou o senador, um dos líderes da oposição.

Segundo o tucano, a mensagem de Dilma foi idêntica a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início de seus dois mandatos. “Estou esperando as mesmas reformas que foram anunciadas pelo presidente Lula serem efetivadas”, afirmou Aécio.

No discurso, Dilma se comprometeu a trabalhar em conjunto com o Congresso para aprovar essas reformas. Ao citar a necessidade uma reforma política, a presidente foi aplaudida, num momento de maior descontração.

“Trabalharemos em conjunta com essa Casa para a retomada da agenda da reforma política”, afirmou Dilma, cortada por aplausos dos deputados e senadores. Diante da interrupção, disse: “Vou até repetir”. Ao repetir a frase, foi novamente aplaudida. A presidente reagiu com um sorriso.

Para Aécio, a presidente deveria ter apresentado compromissos mais claros neste momento porque “reforma constitucional se faz no início de mandato” “Temos a experiência no Parlamento no Brasil que não se aprova reforma constitucional sem o governo tomar partido”, afirmou o tucano.

Por Reinaldo Azevedo

31/01/2011

às 22:15

Aécio agora promete oposição “propositiva, vigilante e sem adjetivos”

Do Portal G1:
Um dos principais líderes do PSDB no novo Congresso, o senador Aécio Neves (MG) prometeu nesta segunda-feira (31) uma “oposição vigorosa e vigilante” em relação às ações do governo da presidente Dilma Rousseff. Para Neves, “é hora de o PSDB mostrar a sua cara”.

“Estou muito confiante com essa nova etapa. É hora de o PSDB mostrar a sua cara e se reencontrar com a sociedade brasileira. Os brasileiros podem contar com uma oposição vigorosa e vigilante em relação às ações do governo”, disse Neves.

O senador tucano conversou com a imprensa pouco depois de participar da primeira reunião da bancada do PSDB no Senado. Para Neves, a oposição tem de atuar de maneira propositiva, fiscalizadora e “sem adjetivos”.

“O papel da oposição tem que ser propositivo, além do papel fiscalizador que nós exerceremos com toda a profundidade. Vamos fazer uma oposição sem adjetivos, uma oposição que é o papel que as urnas e a população brasileira destinaram ao PSDB, ao PPS e ao Democratas”, avaliou o tucano.

Neves disse que o seu partido pretende apresentar uma agenda política ao Congresso com matérias que sejam de interesse da população. Ele pregou uma qualificação da oposição para enfrentar os desafios dos próximos anos no Congresso: “Não existe governo forte sem oposição forte. Apesar de estarmos mais frágeis do que estávamos na legislatura anterior, temos plenas condições de qualificar a nossa oposição e apresentar junto com os outros partidos da oposição uma agenda ao Congresso Nacional que reflita o sentimento do país.”

Por Reinaldo Azevedo

31/01/2011

às 20:18

Teve bico tucano na eleição do Democratas

A escolha de ACM Neto (BA) para líder do DEM marca a vitória da chamada “ala aecista” do partido. Líderes democratas afirmam que o agora senador mineiro atuou firmemente para convencer alguns deputados que estavam um tanto divididos.

Por Reinaldo Azevedo

28/01/2011

às 18:44

Conspiração exaltada em prosa. Faltam, agora, os versos

Escrevi nesta madrugada um texto de que gostei muito sobre o futuro do PSDB. Sustento ali que os tucanos parecem não ter percebido que o Brasil mudou — mudança pela qual eles são os principais responsáveis, com o Plano Real. Não há mais espaço para cascata regionalista. Isso já era! O melhor trecho é este:
Os três últimos presidentes - FHC, Lula e Dilma - são figuras dotadas, digamos, de certa transversalidade, que atravessam fronteiras, em vez de estabelecê-las; sua identidade - o intelectual, o operário e a mulher - servia para furar camadas, para romper nichos, não para criar linhas divisórias. E ISSO É BEM MAIS IMPORTANTE DO QUE PARECE.

E digo também que, se Aécio Neves quer ser presidente, tem de parar de falar como se fosse a encarnação das Minas Gerais míticas. Uma campanha eleitoral bem-conduzida por um eventual adversário faria picadinho dessa estratégia. Mas ele parece cercado de gente que o estimula cada vez mais na direção errada.

Um leitor me manda aqui um texto do jornal “O Tempo”, de Minas. É uma coisa muito impressionante. Segue em vermelho. Comento em azul.

Aécio ganha espaços no PSDB

Aos poucos, o grupo do PSDB ligado ao senador eleito Aécio Neves vai conseguindo se impor dentro do partido e aglutinando forças ao seu redor. Os tucanos mineiros já consideram como “praticamente assegurada” a reeleição do presidente nacional da legenda, senador Sérgio Guerra (PE). Anteontem, numa reunião, 53 dos 55 deputados federais do partido, que estavam presentes, assinaram um manifesto de apoio a Guerra.
Apontei ontem que a tentativa de reeleger Sérgio Guerra na marra tinha a marca de Aécio. Apanhei pra caramba. Eis aí.

Na prática, os parlamentares reduzem o poder de fogo do candidato tucano derrotado à Presidência José Serra, que teria a intenção de comandar o PSDB, e aumentam o de Aécio, que quer se candidatar à Presidência, em 2014. Ao mesmo tempo que se mobiliza em busca da reeleição de Sérgio Guerra, o grupo tucano já tratou de se mover no Senado. Tasso Jereissati (CE) e Arthur Virgílio (AM), que foram derrotados nas últimas eleições, iriam, respectivamente, para o comando do Instituto Teotônio Vilela (ITV) e para a diretoria de relações internacionais do partido.
Como se nota, o “grupo tucano” se organizou para tirar Serra da jogada, ocupando, segundo o jornal, todos os espaços. Tudo meticulosamente calculado. É bom lembrar que Guerra negou com veemência a conspirata.

Ambos são aliados de Aécio e poderiam ser fundamentais nos planos do mineiro de chegar ao Palácio do Planalto. “São indicações que se fortalecem a todo momento dentro do partido”, afirma um tucano, que pediu para não ter o nome divulgado.
Certo!

Para contribuir com a possível candidatura de Aécio à Presidência da República em 2014, os tucanos de Minas Gerais vêm ainda uma outra possibilidade: ceder a secretaria geral do partido, atualmente ocupada pelo deputado federal Rodrigo de Castro. O posto é estratégico no organograma do partido, mas os mineiros sabem que precisarão se aliar com tucanos de alta plumagem de outros Estados para dar a força necessária aos planos de uma candidatura aecista.
Chega-se nesse parágrafo ao estado da arte. Os “aecistas”, segundo o texto, deram, então, um jeito de eleger o presidente, que o jornal dá como certo, e também emplacariam Tasso Jereissati na Fundação Teotônio Vilela e Arthur Virgílio na diretoria de Relações Internacionais. Cabelo, barba e bigode, certo? Mas, vejam vocês,  o PSDB de Minas teria de fazer uma “concessão”: abrir mão da secretaria geral. Uau! Depois de levar tudo, então, segundo a lógica do texto, é como se a secretaria geral ainda fosse um direito natural  à qual generosamente se pode renunciar. Um gesto de boa-vontade!!!

O próprio Rodrigo de Castro, um dos aliados mais próximos ao senador eleito, já teria admitido a hipótese de deixar a secretaria geral do partido, caso isso seja necessário, em nome de uma composição nacional dentro do PSDB. O parlamentar, entretanto, ainda costuraria algum espaço dentro da executiva nacional do partido.
Que bom! Vitória atrás de vitória.

Em outro texto, lê-se este outro impressionante parágrafo:
Caso Serra resolva espernear e reclamar publicamente de estar sendo minado dentro do PSDB, os tucanos de Minas já têm um argumento na ponta da língua: “Serra nunca disse publicamente que seria candidato a presidente do PSDB. Não é possível que ele esteja repetindo o que fez, quando definiu que seria candidato à Presidência da República, anunciando somente na última hora. Seria novamente uma tática suicida”, ironiza um tucano paulista, aliado de Aécio.
Não é um blog. É o espaço noticioso. No jornal “O Tempo”, Serra não protesta, contesta ou reage, ele “esperneia”. E a justificativa dos tucanos de Minas, segundo se lê, é um mero pretexto, mas exibido pelo jornal como sinal de grande esperteza. Ditas as coisas em outros termos, teria assim: “Se ele espernear, a gente inventa uma mentira porque a gente é muito ladino mesmo!” Mais um pouco.

Nos próximos dias, o PSDB de Minas Gerais deve se reunir para traçar uma “tática de guerra”. Os tucanos do Estado querem demonstrar, com isso, poder de organização e decisão para tocarem as estratégias da corrida presidencial. Na tropa de choque, estão Rodrigo de Castro, o secretário de Governo de Minas Gerais, Danilo de Castro, o governador Antonio Anastasia e o presidente do PSDB no Estado, Nárcio Rodrigues.
Excelente! Segundo o jornal, a “tropa de choque” já está preparada para a “tática de guerra” contra… os adversários internos. Segundo o jornal, isso demonstraria “poder de organização e decisão”. A imprensa de Minas também impressiona, não é mesmo?

O PT deve estar aplaudindo de pé!

Encerro
Volto ao ponto inicial. Isso é tristemente velho e passadista. Desse mato, não sai coelho. Esse Brasil não existe mais. O tempo vai se encarregar de prová-lo. Os que se comportam como torcedores odeiam ler isso. Lamento! O Brasil vai eleger o próximo presidente da República; não será Minas. Nessa toada, o PT caminha para o quarto mandato sem muito esforço.

Quanto ao caráter do que aconteceu anteontem, nada como ler os detalhes na imprensa de Minas.  Como diria o jornal “O Tempo”, muita gente esperneou ontem, negando tratar-se de uma ação concertada, que nem mesmo cuidou de certos pruridos éticos. Etá tudo ai.

Por Reinaldo Azevedo

27/01/2011

às 19:25

Minas não existe; São Paulo não existe; é possível que existam os brasileiros, em sua diversidade

Já que as oposições não lêem O Príncipe e insistem em usar a eventual “virtù” de seus líderes para ferrar a “Fortuna”, então sou obrigado a atacar de O Pequeno Príncipe mesmo, não é? Jamais desisto de uma idéia ou de fazer algumas perguntas. É absolutamente insuportável ouvir a mesma conversa, perceber os mesmos erros, tudo seguindo a mesma rotina.

Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), líder da minoria na Câmara, é um bom parlamentar. É justo que tenha candidato à Presidência da República e do partido. Tudo muito certo. Mas destaco uma fala sua que já não tem mais lugar na oposição e que tem custado caro a mineiros, paulistas e aos brasileiros como um todo. Vamos a ela: “Os mineiros respeitam o José Serra e reconhecem a importância do seu papel como representante do PSDB e da oposição”.

Desculpem! Ninguém fala pelo conjunto dos “mineiros”. Fala Aécio, o senador mais votado do Estado? Fala Dilma, a candidata a presidente mais votada? Falam os parlamentares? Políticos representam fatias do eleitorado. No Executivo, têm funções institucionais que a todos dizem respeito. Mas representação não quer dizer substituição. Estou certo de que o deputado não se dá conta de uma impostura presente em sua fala: de um lado, estariam os mineiros; de outro, Serra. No máximo, poderia haver respeito entre ambos.

Esse espírito, deputado, tem contribuído para que Minas vote sistematicamente com o PT. O senhor sabe, não?  Fica parecendo que alguém está usurpando o direito natural de um mineiro ser presidnete. E não está. Aliás, há uma mineira da Presidência da República — ou essa mineira não vale?

Dirijo-me diretamente a Paulo Abi-Ackel; se ele quiser, pode responder: seria conveniente colocar, por exemplo, Aécio de um lado e os paulistas de outro? Uma fala como: “Os paulistas respeitam Aécio” faria do senador um estranho no estado, alguém que se tolera, não que se admira; alguém que se respeita, mas não necessariamente em quem se vota.

Na boa, deputado Paulo Abi-Ackel: há três eleições, esses que falam em nome de “Minas” repetem o mesmo erro. Não serei eu a convocar a reação de São Paulo porque repudio essa caipirice. Não lhe exijo o pão de queijo como expressão de sua identidade, e o senhor não me exija o catira. A política, senhores, está passando por outro lugar.

Esse negócio de “Minas isso, Minas aquilo”, de “São Paulo isso, São Paulo aquilo”, toda essa bobajada já foi superada. Ainda voltarei ao assunto na madrugada.

Por Reinaldo Azevedo

27/01/2011

às 15:01

Foi esta a prova de habilidade dada pelos tucanos “modernos”? O que há de novo num golpezinho?

A questão do PSDB, reitero, é de método. Sérgio Guerra quer concorrer à eleição? É o candidato de Aécio Neves e de outros tantos tucanos? É tudo absolutamente legítimo. Que as coisas se façam segundo a rotina e o ritual. A operação deflagrada ontem tinha o objetivo de isolar e esmagar uma liderança do partido, justamente em São Paulo, o declarado e escancarado objetivo estratégico dos petistas.

Digamos que, tudo passado, a operação dê certo, e Guerra fique na presidência. Que presidente será ele? Aquele da conspirata? O presidente de uma crise permanente?  A peça de um joguete? Quem quer que tenha tido a idéia demonstra imaturidade, açodamento, incapacidade de gerenciar divergências.

Será mesmo isso etapa de um plano para conquistar a Presidência da República?

Insisto num ponto: ninguém precisa ter sobre Serra a avaliação positiva que eu tenho, por exemplo. É um clichê, mas tem sua utilidade: nem os princípios humanistas de Cristo gozam da unanimidade. A questão definitivamente não é essa. O que se pergunta é se o caminho escolhido foi, está sendo e será bom para o PSDB.

Essa é a turma que fala em “renovação”, movendo-se permanentemente nas sombras, plantando fofocas em tudo quanto é canto, terceirizando ataques? É assim que os tucanos pretendem vencer os petistas?

Sim, um dia os petistas perderão, até por fadiga de material. Se o PSDB continuar a pisar nos astros desastrado (olhe aí um colher de chá para Caetano; ele não se refere a mim há mais de um mês!), vai ser o freguês bem-comportado do petismo por muito tempo. Se e quando a população cansar, troca. Mas não necessariamente por um presidente filiado ao PSDB, não é? Outras forças políticas e outras lideranças surgem no horizonte.

No texto desta manhã, escrevi exatamente isto: a operação será contraproducente. E está sendo!

Por Reinaldo Azevedo

27/01/2011

às 11:01

A tentação asnal. Ou: PSDB faz de tudo para entregar SP ao PT

A presidente Dilma Rousseff montou aquele que deve ser o mais paulista dos ministérios  — ao menos da República Nova para cá. Isso significa que São Paulo está na mira, cidade e estado. Dilma e os petistas devem estar rindo a valer. Esta brincadeira perigosa — que continuará a custar eleições — que consiste em opor Minas a São Paulo é mel na sopa do petismo. A depender de como se dêem as coisas, a próxima eleição presidencial se definirá em terras paulistas. É uma espantosa cegueira atuar para tentar esterilizar José Serra, uma das forças políticas do estado e do país, pouco importa quem seja o próximo candidato tucano à Presidência. O PT bem que tentou, sem sucesso. Agora alguns representantes do PSDB se esforçam eles próprios para ser bem-sucedidos no que o adversário falhou.

Por Reinaldo Azevedo

27/01/2011

às 5:55

A conspirata tucana e a opção preferencial pelo desastre

Que coisa melancólica!

As oposições não conseguem tirar a sua reputação do vermelho. Mesmo quando poderiam produzir notícias positivas — ou, ao menos, neutras —, atuam para se manter na espiral negativa. Ontem, a bancada federal do PSDB escolheu Duarte Nogueira (SP) seu líder. Era candidato único, com apoio de alckmistas, serristas, aecistas etc. Chegou a defender a necessidade de se fazer uma oposição firme, consistente, programática etc. Ainda que ganhasse só um cantinho no jornal, estaria de bom tamanho. Mas quê… Uma das manchetes de página interna da Folha, por exemplo, é esta:

Aécio e Alckmin isolam Serra em eleição no PSDB

Escrevem Catia Seabra e Maria Clara Cabral:
Aliados do senador eleito Aécio Neves (MG) e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, endossaram uma operação que fecha as portas do comando do PSDB para o ex-governador José Serra. Derrotado na corrida presidencial, Serra manifesta interesse pela direção da sigla para se manter em evidência. Numa articulação desenhada anteontem, alckmistas e aecistas lideraram abaixo-assinado pela recondução do senador Sérgio Guerra à presidência do partido. Consultado sobre a redação do abaixo-assinado, Aécio disse que o apoiaria desde que tivesse aval de Alckmin. Segundo a Folha apurou, Guerra ligou para Alckmin na manhã de ontem para falar sobre o documento. (…) A operação foi posta em prática na manhã de ontem, durante reunião da bancada do PSDB para eleição de Duarte Nogueira (SP) para a liderança do partido na Câmara, quando mais adesões à ideia foram obtidas. “Não sabia de nada”, disse o presidente do PSDB de São Paulo, Mendes Thame, que assinou o documento. O abaixo-assinado reuniu assinatura de 53 dos 55 deputados presentes à reunião.

Voltei
É possível que a versão que acusa a participação ativa de Alckmin nessa espécie de conspirata seja um tanto exagerada. De todo modo, os jornais e sites trazem a versão da “Operação Isola Serra”. Vamos lá. Importa pouco saber se este blogueiro é ou não “serrista” — não dou a menor pelota para as tentativas de me etiquetar. Isso é coisa de “policiais de consciência” da estirpe de Marcos Coimbra… A questão relevante é outra: uma reunião que tem o objetivo de escolher o líder na Câmara é a mais apropriada para uma definição dessa natureza? A resposta, obviamente, é “não”. Especialmente quando posta em prática sem nem mesmo disfarçar o objetivo: “Ah, parece que o Serra gostaria de presidir o partido; vamos dar um olé nele!” Beira o patético.

A “unanimidade” que se tentou construir — com as tais 55 assinaturas de um bancada de 57 deputados (muito inocente caiu na conversa) — busca demonstrar que o ex-governador de São Paulo e ex-candidato à Presidência estaria isolado no partido. Ora, se é assim, por que fazer pela via do golpismo mixuruca o que podia seguir todos os rigores da democracia interna? Correntes do partido antes defensoras da prévia escolheram agora o caminho da exclusão, do isolamento e do fato consumado?

Aloysio Nunes Ferreira (SP), senador mais votado da história do partido, reagiu, ainda segundo a reportagem da Folha: “É um aviltamento à democracia interna do PSDB tentar reeleger o presidente em reunião para escolha do líder. Houve um rolo compressor. Eles assinaram sob constrangimento”.

Ainda na reportagem da Folha, pode-se ler:
“Aliados de Aécio e tucanos de Pernambuco deram início à campanha para nomeação do senador Tasso Jereissati (CE) na presidência do Instituto Teotonio Vilela -outro destino cogitado por Serra.”
E mais:
“Aecistas também atribuíram a Serra o vazamento da informação de que o publicitário indicado pelo ex-governador para produção do programa do PSDB é réu no processo do mensalão mineiro.”

O clima criado, parece, é para tentar silenciar uma das vozes da oposição, que acaba de disputar uma eleição presidencial, com 44 milhões de votos. Quanto à acusação dos aecistas, sugiro aos leitores uma operação simples. Entrem no Google e coloquem lá as palavras “Eduardo Guedes mensalão”. Vocês verão se Serra precisaria ter vazado alguma coisa para que a imprensa se lembrasse do nome do publicitário. Mais: atentem para a data dos arquivos. Como na fábula do lobo que come o cordeiro que bebe rio abaixo, acusando-o de turvar a água,  há quem busque apenas um pretexto para exercer a sua natureza, não um motivo.

Guerra precoce e estúpida
Não se trata desse modo uma das figuras mais expressivas do partido — e não por questão moral ou ética apenas; por pragmatismo mesmo. Ganhe ele ou perca eleições, sou, sim, um admirador de Serra — e isso não é segredo pra ninguém. Como não tenho de ficar fazendo “fontismo”,  não corro para saçaricar entre “vencedores” para ter o que escrever. Sou, como diria o poeta, “rei absoluto das minhas simpatias”. Mas elas contam menos agora. Se eu considerasse que o PSDB está fazendo a coisa certa, faria a devida distinção: “O jogo foi bruto, mas o caminho é virtuoso”. Mas não está.

Ontem, comentei um texto do tal Marcos Coimbra que atacava Serra e pedia o banimento dos serristas do PSDB. Sua vocação de exterminador é mais ampla: quer também excluir Fernando Henrique Cardoso do debate. Assim, depreende-se de seu texto, Aécio Neves conseguiria construir a unidade. Estamos no 27º dia do terceiro mandato petista. Motivos para a oposição cumprir o seu papel — e recebe generoso financiamento público para isso — não faltam. Mas está “construindo” a unidade excluindo lideranças.

Em vez de tentar buscar alguma coesão interna e definir um eixo de atuação, alguns “líderes” decidiram que é preciso antes esmagar os inimigos “de dentro”. A história ensina que esses processos funcionam nas tiranias, não nas democracias.

A verdade dramática é a seguinte: trata-se de uma luta de amadores assoberbados contra profissionais metódicos. O PT deve rezar para que o destino não lhe pregue nenhuma peça. Dada a qualidade dos adversários, só pode ser vencido pelo inesperado. Esse tipo de oposicionista não representa risco nenhum! Como na outra fábula, a do sapo que carrega o escorpião nas costas, o aracnídeo ferroa o batráquio porque, mesmo sabendo que também vai morrer, não consegue conter a sua natureza.

Por Reinaldo Azevedo

 

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