Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Serviço público: os baixos salários dos mais capacitados

A botocúndia petista é mesmo de amargar. Diz agora que aprovo a elevação dos salários do secretariado do governo de São Paulo porque a medida conta com o apoio do tucano José Serra. É impressionante! Já devo ter escrito umas duas dezenas de textos — desde Primeira Leitura — apontando o ridículo da remuneração do […]

A botocúndia petista é mesmo de amargar. Diz agora que aprovo a elevação dos salários do secretariado do governo de São Paulo porque a medida conta com o apoio do tucano José Serra. É impressionante! Já devo ter escrito umas duas dezenas de textos — desde Primeira Leitura — apontando o ridículo da remuneração do serviço público especializado no Brasil. Em todas as áreas. Há alguns marajás que conseguem liminares na Justiça e acabam recebendo supersalários. Mas, na média, o serviço público paga mal às categorias de ponta.

De quanto será o salário de um secretário em São Paulo? R$ 11.885 brutos. O valor líquido deve ser algo em torno de R$ 9 mil. Médico, engenheiros, arquitetos, administradores ou jornalistas bem-sucedidos ganham bem mais do que isso na iniciativa privada. Chamo de “bem-sucedida” gente de qualidade, disputada pelo mercado de trabalho, com experiência para exercer postos de comando — que é o caso de um secretário. Hoje, ele recebe em torno de R$ 5 mil — abaixo de um editor assistente de jornal, inferior ao ganho de muitos redatores experientes.

O que se diz aqui vale também para a União, onde a realidade é ainda pior. Um ministro tem um salário líquido de uns R$ 6 mil. Ridículo. Waldir Pires reclamou outro dia. Ele não seria mais competente se ganhasse o quádruplo, mas que o valor é irrisório, lá isso é. Secretários-executivos, os que realmente fazem funcionar a máquina, ganham ainda menos. O porta-voz de Lula, André Singer, tem vencimento inferior a ministro. Receberia mais na universidade, de onde se afastou.

Se os funcionários de ponta recebem muito menos do que paga o mercado aos competentes, no outro extremo, o dos salários mais baixos, tem-se o inverso. Não é preciso ser um gênio da administração de pessoal para perceber que a lógica está invertida. Ela acaba privilegiando, digamos, mais o aspecto social do que o funcional. Só que este “social” diz mais respeito à corporação do que ao conjunto da sociedade. Note-se ainda que, à diferença dos deputados, senadores, presidente da República e até governadores de Estado, estes secretários e funcionários especializados não têm qualquer regalia especial: 13 salários e só. Em alguns casos, dispõem de carro oficial com gasolina garantida. Mas não muito mais do que isso.

O que queremos?
Queremos serviços competentes, gente dedicada ao trabalho? É preciso pagar. Eu já disse e repito: duvido da realidade salarial de alguns nomões que estão por aí exercendo cargo público; duvido que recebam apenas aquilo que a lei especifica. Por que gente competente vai comprometer o próprio futuro e o da família servindo ao Estado por R$ 6 mil quando poderia estar ganhando R$ 18 mil?

Existem os abnegados? Ah, existem, sim. Mas também há aqueles que:
– aceitam o cargo como indicação do partido, que passa a ser a sua real fonte de rendimento. No cargo, comportam-se como procuradores de interesses partidários;
– não precisam trabalhar; podem exercer o cargo por amor à causa, mas não vivem do seu salário;
– são pagos, indiretamente, por empresas que prestam serviço aos governos. A prática é ilegal, mas admitida como uma forma possível de manter a pessoa no cargo;
– ocupam cargos no conselho de empresas públicas para dar um jeito de elevar o ganho mensal
– usam o serviço público como um investimento; o objetivo é pular para a iniciativa privada levando consigo as preciosas informações adquiridas no serviço público. Bancos, por exemplo, têm especial apreço por funcionários de ponta mal remunerados

Quem perde? Na maioria das vezes, é a população. Notem que estatais, autarquias e assemelhados já estão fora do teto dos servidores.

Acusei aqui e acuso a indecência do que se tentou fazer com o salário dos parlamentares. É impossível debater seus vencimentos mensais sem levar em conta a cadeia de vantagens de quem dispõem. Recebessem apenas os pretendidos R$ 24,5 mil, seria um valor baixo. Mas sabemos dos outros benefícios. Se Lula gastasse como um mortal comum, os R$ 8,8 mil que recebe seriam uma porcaria. Mas é claro que seu salário é muito maior do que isso. O que sustento é que os altos cargos executivos da administração pública — não o dos políticos eleitos ou o dos funcionários de base ou médio — são baixos.

País pobre
É claro que esses números em face de um mínimo de R$ 350 parecem uma enormidade. O país é pobre; a renda média é ridícula. Mas é fato que alguém terá de exercer os cargos de comando. E que tais cargos demandam uma formação intelectual e profissional. É cruel, mas é assim: essa mão-de-obra não é escolhida no conjunto dos 180 milhões de brasileiros. Ela é fornecida pela elite intelectual e econômica do país. As pessoas investiram em sua formação e esperam retorno, como qualquer um de nós.

Governantes podem tentar se orgulhar dos salários magros, espartanos, de seus subordinados diretos. Desconfiem. O dinheiro que você vê pode ser apenas uma cortina de fumaça para o dinheiro que você não vê.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    Anônimo

    O problema dos gastos com pessoal no que diz respeito a união não é o maior problema, nem no poder executivo dos estados, que empregam no máximo centenas de pessoas com poder de decisão (e altos salários). O maior problema mesmo são as assembléias estaduais e câmaras municipais que não fazem nada e gastam muito. Pelo menos nas pequenas cidades os vereadores sugam recursos (na maioria das vezes vindos dos repasses federais pois muitas das cidades não geram imposto suficiente. Em Macaé a Câmara usa os royalties do petróleo para se financiar). Seria difícil aumentar os salários dos especialistas sem provocar efeito cascata (como se viu nos 91%) por conta disso. Vc poderia fazer algum comentário sobre isso? Acho que daria uma boa reportagem. Feliz Natal.

    Curtir

  2. Comentado por:

    efenti

    Reinaldo, Acho q estás errado. 24.500 reais pra um deputado é um baita salário, mesmo sem os penduricalhos.Sobre o Judiciário, p.ex, a Folha publicou em 17 de agosto o seguinte(excerto):“O Brasil é o país que mais gasta com o Judiciário – 3,66% do orçamento público do país -, mas mesmo assim 4,790 milhões de processos deixaram de ser julgados em 2003. A estrutura da Justiça também é boa, já que o país tem 7,7 juízes para cada 10 mil habitantes, acima da média internacional de 7,3 juízes. Os nossos magistrados estão entre os mais bem remunerados do mundo: os juízes federais brasileiros são os “vice-campeões” no ranking de melhores salários (que leva em conta a paridade do poder de compra entre as diferentes nações), ficando atrás apenas dos canadenses…. O diagnóstico inédito foi feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) para a Secretaria Especial da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça e apresentado ontem em Brasília….”O diagnósstico morreu ali. O Jobim disse q ia fazer um “quente” e ninguem mais falou nisso

    Curtir

  3. Comentado por:

    Márcia Ruiz

    Concordo em número, gênero e grau Rei. Quando escrevi para nossos politiquinhos sobre o aumento de 91% sempre citei os funcionários públicos que trabalham mais do que formigas em piquenique e não ganham proporcionalmente.
    Só faço exceção ao “país pobre” pq. não acredito nisso há muito tempo. É um país injusto, isso sim.
    Agora Rei, você não quer que os lulistas admitam que certos tucanos te detestam, quer?Está querendo muito Rei…

    Curtir

  4. Comentado por:

    Anônimo

    Caro Reinaldo,sensacional a sua análise!Parabéns!

    Curtir

  5. Comentado por:

    Anônimo

    TRabalho como func publica há 23 anos, ganhos 35 mil bruto. Acho que poderia ganhar mais, por minha função!!!!

    Curtir

  6. Comentado por:

    Anônimo

    O que não consigo entender é que tudo é muito vísivel e não conseguimos mudar nada. Sou funcionária pública, tenho vários cursos de aperfeiçoamento profissíonal, faço curso universitário e vemos pessoas que mal sabem escrever dando ordens. É realmente uma vergonha. O Brasil deveria ter um dia de troca: verificar como os que recebem mais fariam com o nosso salário e trocar por um dia que fosse de posição hierarquica, será que conseguiriam fazer o nosso serviço? Muitos certamente, devido a competência sim e merecem estar onde estão, mas toda regra tem excessão!

    Curtir