Sérgio Cabral, a defesa da legalização das drogas e o pacto com o capeta

Sérgio Cabral, este assombroso governador do Rio de Janeiro, avaliou que o momento é bom para retomar uma antiga tese sua: a defesa da descriminação das drogas. Não de todas elas, claro! Afinal, ele é um senhor responsável: só daquelas leves. “Droga leve”, no Brasil, costuma ser sinônimo de maconha. Ele nada disse sobre o […]

Sérgio Cabral, este assombroso governador do Rio de Janeiro, avaliou que o momento é bom para retomar uma antiga tese sua: a defesa da descriminação das drogas. Não de todas elas, claro! Afinal, ele é um senhor responsável: só daquelas leves. “Droga leve”, no Brasil, costuma ser sinônimo de maconha. Ele nada disse sobre o crack, por exemplo, um verdadeiro flagelo nacional.

No dia 27 de outubro do ano passado, escrevi aqui um texto intitulado “Drogas – Um pacto com o demônio”. Recomendo a releitura ou, a depender do caso, a leitura. Notem que eu me referia ali ao Complexo do Alemão, às obras do PAC, à tese da legalização, à questão do tratamento dos drogados e, muito importante!, à subcultura das drogas, que também é um flagelo, só que moral. E que fique uma vez mais registrado, porque, nesse caso, sem qualquer pretensão bobinha, é um registro que fica para a história: Cabral está pondo em prática a sua tese. As UPPs, como vêm sendo implementadas, legalizam as drogas no Rio de Janeiro. Diz José Mariano Beltrame que o objetivo de sua política é recuperar território. Sem dúvida, isso é importante! Só que é preciso recuperar o território e exercer a soberania, não é mesmo?

Se o tráfico continua, e continua, quem manda é o traficante. A polícia apenas faz a segurança… Vamos ao texto do dia 27 de outubro de 2009, que abre com um magnífico vídeo de Carlos Minc.

As drogas estão se tornando um flagelo no país. Sob o olhar cúmplice das autoridades brasileiras. Mais do que isso: há uma cultura de tolerância com o consumo — e, por conseqüência, com o tráfico. Quem cheira mata! No Ministério da Justiça, há um estudo, que deve se converter num projeto de lei assinado por um deputado do PT, que tira da cadeia o chamado “pequeno traficante”. Um ministro de Estado, Carlos Minc, não só participou de uma tal “Marcha da Maconha” como subiu num palco e discursou em defesa da descriminação das drogas num ambiente visivelmente relaxado, descontraído… O vídeo está publicado acima. Um ministro de estado é a representação do presidente da República. Minc continuou ministro.

No Rio, fica evidente que o narcotráfico domina vastos territórios, onde a polícia não entra a não ser em operações que lembram ações de guerra. O Complexo do Alemão — que chamo “Complexo da Ideologia Alemã — não recebe a visita da Polícia há 13 meses para não atrasar as obras do PAC… O narcotráfico, como deixarei claro aqui nos próximos dias, desenvolveu até uma estética, que se confunde com uma ética, que chegou à industria do entretenimento: o funk. “O que o funk tem com isso, Reinaldo?” Ok. Tentar combater o mal exaltando os seus valores e sua visão de mundo é perda de tempo. Muitas ONGs, todo mundo sabe, mas ninguém diz, se tornaram fachadas legais do poder paralelo do tráfico. Estamos começando a colher os efeitos da incúria, da irresponsabilidade, do erro de análise e da ideologização do crime.

A droga é, sem dúvida, um flagelo. A maioria dos brasileiros acompanhou a história terrível de Bárbara, uma jovem de 18 anos, assassinada pelo namorado, Bruno Prôa, de 26, que havia acabado de consumir crack. Foi o próprio pai do rapaz, Luiz Fernando, quem chamou a polícia. Numa carta ao jornal O Globo e, ontem, no Jornal Nacional, ele reclamou da impossibilidade de se internar, contra a vontade, um viciado em drogas. A lei que força a internação existe, mas todos sabem que não é aplicada.

O Jornal Nacional resolveu debater o assunto com dois especialistas: o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, considerado uma das maiores autoridades sobre o assunto no país, e Pedro Gabriel Delgado, coordenador da área de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Basta assistir à entrevista de ambos para se constatar que Laranjeira tem razão: “Essa lei não é seguida aqui no Brasil. O sistema público de saúde não tolera esse tipo de atitude. Então acaba desassistindo uma parte da população. O crack é uma doença grave, em que é preciso uma série de recursos, inclusive a internação involuntária, em que as pessoas que não têm recursos no Brasil estão sendo privadas de receber o tratamento necessário para essa doença tão incapacitante.

O representante do Ministério da Saúde tentou contestá-lo sem sucesso e só evidenciou que é mesmo impossível internar, contra a vontade, um drogado que esteja fora do controle. Sem ter saída, o valente se aproveitou do fato de Laranjeira ser de São Paulo e fez o quê? Ora, política!!! Atacou o sistema de saúde paulista, como se isso estivesse em debate. É com gente assim que o Brasil está lidando. Isso explica por que chegamos aqui. As reportagens do Jornal Nacional estão aqui e aqui.

O país brinca com fogo. Seja num drama quase privado, uma tragédia que colhe de modo avassalador duas famílias — mas que representam milhares —, seja no episódio do abate do helicóptero e das mais de 40 mortes do Rio, estamos constatando a falência do… Não! Estamos constatando a inexistência de políticas oficiais que cuidem do assunto, que abrange, como se nota, várias áreas: da segurança pública à saúde mental. E as falácias vão se acumulando.

Imaginar que se possa combater o grande tráfico de drogas sem combater o consumo e os pequenos traficantes é dessas bobagens que vão se tornando influentes apenas porque ganham uma roupagem de “progressismo”. A tese prospera não porque comprovadamente eficiente, mas porque parece apelar a um senso de Justiça superior, que as pessoas comuns não alcançariam. Imaginar que se pode descriminar a maconha, por exemplo, mas manter na ilegalidade as demais drogas, é outra dessas vigarices influentes que adquirem ares de fina sapiência. Considerar que a política de redução danos — que levaria a um consumo mais “responsável” das drogas, com um manual de instrução — substitui a política de repressão é outra dessas  mentiras que tentam ser convincentes. Lembro-me do embate aqui com um grupo que dizia defender tal procedimento no consumo de ecstasy. Raramente li tanta bobagem. Naqueles dias, o professor Laranjeira foi um dos que se colocaram ao lado deste blogueiro na censura a certas considerações que eram nada menos do que apologia das drogas — sob o pretexto de combatê-las.

Estudos demonstram, por exemplo, que boa parte dos moradores de rua de São Paulo — e isso deve ser verdade em todas as grandes cidades — são doentes mentais. Em alguns casos, a doença é efeito da droga; em outro, os males se conjugaram. Não há local para recolher e tratar essas pessoas ainda que a Prefeitura se dispusesse a tirá-las das ruas. Ao contrário: aqui em São Paulo, certa Escatologia da Libertação, cobrindo o rabo do capeta com a batina, advoga justamente o contrário: o “direito” que essas pessoas teriam de morar nas ruas. ONGs chegam ao requinte de distribuir cachimbos para o consumo de crack e um kit com seringa, água esterilizada e outros apetrechos para o uso de drogas injetáveis. Só falta fornecer mesmo a droga. A suposição, sempre, é a de que, já que o consumo é inevitável, que seja feito de maneira segura. Iniciativas como essas costumam contar com ajuda oficial.

Entenderam a perversidade da coisa? Já que o Estado brasileiro não pode estatizar a segurança e o combate às drogas, então ele, na pratica, estatiza o drogado, a doença. Não deriva o Bem do Mal. Não há hipótese. Cedo ou tarde, o que se supõe um Bem, derivado do Mal, vai cobrar o seu preço. Estamos começando a pagá-lo agora. Os anos todos de tolerância com a cultura da droga já corroeram também as instituições.

A tolerância com o estado paralelo da droga e os flertes com a sua “cultura alternativa” não poderiam dar em outra coisa. Diante do crime, há duas alternativas: combatê-lo ou fazer com ele o pacto que o demônio costuma fazer com seus eternos subordinados. O Brasil tem escolhido reiteradamente o rabudo.

Mas Dilma disse que outros bairros ainda ficarão com inveja do Complexo do Alemão, lá onde a polícia não entra e onde o presidente, FB, nem precisa de eleição.

PS: Publiquei, à época, o tal vídeo com Carlos Minc. Mas acho que ele merece circular de novo como evidência da miséria intelectual, ética e moral que tomou conta do Brasil também nessa área. Quem não entender o que isso tem a ver com o helicóptero abatido e com a tragédia da jovem Bárbara não tem o que fazer neste blog. E peço moderação nos comentários, por razões óbvias.

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  1. Comentado por:

    Alex Lima

    Só faltou (ou não faltou não sei porque eu não estava lá)o Minc dizer vamos agora acender um agora e festejar!!!

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  2. Comentado por:

    Alex Lima

    Se as drogas forem discriminalizadas não vai faltar deputados e senadores maconheiros quem irão logo propor pra ser acrescentado na cesta básica um cigarrinho de maconha e assim garantir seu pleito nas próximas eleições, porque tendo em vista a quantidade de droga que está sendo apreendida nos morros do Rio dá-se para ver quantos eleitores ficariam “felizes”com essa medida!

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  3. Comentado por:

    Alex Lima

    Com grandes custos a sociedade tem conseguido diminuir a presença do cigarro nos ambientes públicos, agora mais essa de liberalizar a maconha pra jogar todo trabalho fora por algo ainda tão ou mais nefasto, e fedorento!

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  4. Comentado por:

    Alex Lima

    O exemplo do cigarro vem bem a propósito qual o benefíco dos imposto recolhido em favor do tratamento das lesões?LAguém por acaso já viu em alguma placa de obra pública escrito “esta obra foi reslizada graças aos impostos do tabaco?”
    Ao contrário só vemos as segunite notícias; Por ano morrem não sei quantos devido ao cigarro, etc.
    Que argumento imbecil dizer que legalização das drogas vai trazer benefíco algum, só pode ser coisa, ou idéia mesmo de alucinado.

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  5. Comentado por:

    Alex Lima

    Tive uma idéía(fiquem tranquilo estou “puro”), na próxima invazão que a polícia irá fazer nos morros cariocass que tal o Minc subir antes do BOPE e debater as idéias dele com “os irmãos?”

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  6. Comentado por:

    Marcos Vinícius Barbosa

    Pois é, mas então deveriamos criminalizar o álcool também;
    Por que alguém que consome cannabis deveria ser enquadrado como marginal, enquanto altos motoristas embriagados já mataram mais do que os supostos traficantes & comparsas mataram em seu exercício de venda & consumo ?
    A questão aqui não é intelectualidade maior ou menor; E sim disposição para encarar os fatos

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  7. Comentado por:

    mario

    Minc e Cabral querem continuar financiando os traficantes. Tratam-se de 2 caras de pau que não sabem o que fazem e o que dizem. O que estão fazendo no RJ é enfeitar o rabo do pavão, ou seja as UPPs são fachadas. Peço lerem o artigo da Lya Luft desta semana que com certeza exprime tudo o que uma pessoa séria quer dizer.

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  8. Comentado por:

    Luiz Danzi

    Caro Reinaldo, o governador tem suas razoes, defende a liberacao do que gosta.

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  9. Comentado por:

    Alex Lima

    Emcriminar sim quem irresponsavelmente faz uso de qualquer droga, e aqueles que tiram proveito disso. Nas devidas proporções das suas consequencias.O maconheiro, ou alcoólatra, antes de tornar-se dependente químico, portante irrecuperável no estado de saúde,também deve procurar se tratar, ou ser “tratado” devidamente, ou vai acabar se destruindo, e dificilmente, na escalada da sua auto-destruição, não afetará outras pessoas. Assim como quem quiser encher a cara de alcóol torna-se tão nocivo, se não lhe for retirado ou cerceado alguns direitos, como o de diriger, enquanto estiver sobre os efeitos dessa droga.O ‘drogado”, ou usuário, precisa “receber” tratamento afim de evitar sua auto-destruição, ou de sua família e parentes. O ser humano precisa ser encarado não apenas como indivíduo soberano de sua liberdades individuais mas um bem precioso e importante para toda sociedade.Ninguém vive isolado no mundo.
    O álcool embora não seja proibido é restrito.E os efeitos são mais prejudiciais tanto ao indivíduo como a toda a sociedade. O maior mecanismo de prevenção do uso de álcool e de suas nefastas consequencias , ou quaisquer outra, é não usá-lo nunca!

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  10. Comentado por:

    ANTONIO CARLOS MAGALHÃES

    UM CARA, COMO SERGIO CABRAL, GOVERNADOR DE UM ESTADO COMO O RIO DE JANEIRO, CIDADE ESTA QUE JÁ ESTÁ VINCULADA AO TRAFICO DE DROGAS A MUITOS ANOS QUERER DEFENDER O USO DE MACONHA, É MESMO UM ABSURDO. TAMBEM GOSTARIA DE SABER PORQUE NOS 4 ANOS DE GOVERNO O SR. SERGIO CABRAL NÃO TOMOU ESTA INICIATIVA DE SE COMBATER A BANDIDAGEM DO RIO, E SÓ AGORA NO FIM DO SEU PRIMEIRO MANDATO ELE VEM FAZER ESTA ENCENAÇÃO TODA ?.

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