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Sem véu sobre a nudez da verdade: Doria e Alckmin querem o mesmo

Para uma coisa serviu a jornada de Alckmin e Doria em Nova York. Ninguém mais precisa fingir que o prefeito não é pré-candidato

Publiquei ontem aqui um texto cujo título é este: “Doria em NY: prefeito nega a candidatura e lança a candidatura…”. Alguns — partidários da candidatura do prefeito de São Paulo à Presidência — tentaram se irritar: “Está querendo indispor o João Doria com o Geraldo Alckmin?”. Ora… Eu não! Creio que os dois se conhecem o bastante para se indispor ou se compor por sua própria conta, sem minha ajuda. De resto, eu não escrevo para provocar esta reação ou aquela. Escrevo o que vejo.

E ficou evidente que a jornada da dupla em Nova York, no volume do noticiário e nos títulos que rendeu na imprensa brasileira, foi mais favorável a Doria. De fato, Alckmin pareceu um coadjuvante. De tal maneira foi eficiente o marketing do prefeito — no sentido mais neutro do termo; sem juízo moral negativo ou positivo — que, parece-me, a coisa tende a um desfecho precoce. E, nesse sentido, há uma possibilidade de que tenha sobrado marketing e faltado estratégia. A corrida presidencial é uma maratona, não uma disputa de 100 metros.

Se alguma ambiguidade pôde ser percebida no prefeito, na segunda, entre o café da manhã e o jantar — ora não era, ora era pré-candidato —, ela desapareceu na entrevista à Bloomberg: sim, vitorioso numa prévia, Doria aceita disputar a Presidência. Não me digam! É o mínimo que se espera, não? Ou teria entrado numa prévia para, uma vez bem-sucedido, declarar: “Ah, não, prefiro ficar na prefeitura mesmo…”? E o prefeito já deixou claro que, para ele, deve ser o candidato do partido quem tiver mais intenções de voto nas pesquisas… Mas, se é assim, então se dispensam as prévias, certo?, que ele disse defender.

Voltemos ao ponto. Alckmin também afirmou, pela primeira vez de forma explícita, que pretende, sim, se candidatar à Presidência. Fossem dois adversários, poderiam já partir para a porrada. Mas não são. Sem o governador, Doria não teria tido a chance de disputar a prefeitura. E sabe o prefeito que seu aliado pretende tê-lo como peça estratégica. Ocorre que…

Ocorre que, desde os passos iniciais, ficou evidente que o prefeito tinha horizonte mais largo. E ele não se fez de rogado. Vestiu a carapuça do candidato e foi à luta. E, justiça se faça, não se pode dizer que o tenha feito pelas costas de Alckmin. Não! A bola do jogo foi posta à frente mesmo. E o ápice foi a viagem a Nova York.

Durante algum tempo, alguns assessores do governador inventaram a exótica teoria — duvido que eles próprios acreditassem no que diziam — de que Doria e Alckmin atuavam em conjunto e que seriam inúteis todos os esforços para distanciá-los. Acho que essa fantasia já pode sair de cena, não? E é por isso que o marketing da jornada nova-iorquina pode ter sido bom demais para estratégia de menos.

Tudo o mais constante, Alckmin não tem mais de se perguntar se Doria atua ou não para ser candidato. Atua. O prefeito não tem mais de fazer ressalvas: “Ah, meu candidato é o Geraldo”. Mas aí surge a questão: é razoável que criador e criatura lutem tão precocemente pelo mesmo objeto do desejo? Minha resposta é “não”.

Alckmin tem uma de três saídas:

a: retirar-se da pré-disputa e se conformar em ser um subordinado, em São Paulo, daquele que ele bancou;

b: deixar claro que irá disputar as prévias com ou sem Doria na parada;

c: tocar um tango argentino, como recomendava o médico de Manuel Bandeira diante do irremediável.

Depois de Alckmin dar a Doria a vaga de candidato a prefeito, eis os dois a cultivar o mesmo objeto do desejo.

Tiremos o véu diáfano da fantasia que cobre a nudez forte da verdade.

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  1. Marcelo Rosa Melo

    Dória fogo de palha.

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  2. O mérito do Alckmin, ninguém tira.”ficou evidente que o prefeito tinha horizonte mais largo”
    Não fosse seu apoio, o Brasil não poderia saber que existe, sim, quem possa governar o país com um horizonte luminoso pela frente.
    DÓRIA 98, GRAÇAS A ALCKMIN.

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  3. Respeito Alckmin, votei nele e, salvo alguma novidade, continuaria votando. Seja para prefeito, governador ou presidente. Mas esse negócio de “fila” no partido não enche urna.
    Existem duas situações inegáveis, hoje: 1) o PSDB precisa se renovar, tragado que foi pela exposição dos modos dos financiamentos de campanha no Brasil; e 2) Dúvida ou não, no momento Dória representa a renovação no PSDB junto ao eleitorado.
    Nessa decisão não cabe ficar lamentando a morte da bezerra. Óbvio que Alckmin não guarda semelhança com a indecente figura de Lula. Claro que, pecados pesados um a um, o PSDB sai muito melhor que o PT do confessionário (o PT é caso de excomunhão!). Mas é fato: a população não acredita mais no modelo e cansou, em tese, dos nomes da chamada “política tradicional” (seja esta uma definição com algum fundamento ou não).

    Dória, em minha opinião, defende os valores certos e promete atuar rumo a um país mais moderno como democracia liberal. Se é ele no PSDB que atrai o eleitor hoje, que seja o candidato, oras! Qual o seu defeito, aos olhos dos valores e estatutos do PSDB, que o tornam indigno de candidatar-se pelo partido??? Nenhum!

    Alckmin não será o primeiro ser capacitado e de boas idéias a “não chegar lá”. O barco da política é assim e não se controla os ventos. Às vezes, simplesmente não era para ser… Se ele gosta do Brasil e já deu seu aval a Dória anteriormente, que engula o orgulho, se necessário, e demonstre grandeza de apoiar quem pode levar seus valores à vitória. Isso, é lógico, se a coisa caminhar assim. Até lá, que busque seu espaço no partido e no eleitorado para se cacifar. Mas que não imite Serra e Aécio nas caneladas em baixo da mesa, que só serviram para derrubar o PSDB e dar espaço ao trágico petismo.

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  4. Alexsandro Vieira

    Bom, eu somente espero que o PSDB não cometa novamente o Tucanocídio, eles adoram

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  5. Valderi Felizado da Silva

    Alckmin perde. Mesmo sem Dória perde. Não tem fôlego para atravessar o Rio Grande e o Rio Paranapanema.

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  6. Penso q Dória daria um ótimo candidato e um ótimo presidente-se tal existisse.Alckmin continuaria a ser um bom governador da locomotiva do Brasil e um respeitado e importante homem público.

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  7. César Guerra

    Alckmim, sempre um coadjuvante. Cadê seu eleitorado?

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