Reportagem em defesa do Baladaboa desqualifica presidente da Fapesp

O lobby a favor do projeto “Bala da boa” — também se pode ler com “ecstasy do bom” — chegou aos jornais. E não viria por meio de melhores mãos. Laura Capriglione, a repórter isenta que deu atestado de pureza ideológica aos invasores da USP. Alguns deles são ladrões de computadores e componentes eletrônicos. Huuummm… […]

O lobby a favor do projeto “Bala da boa” — também se pode ler com “ecstasy do bom” — chegou aos jornais. E não viria por meio de melhores mãos. Laura Capriglione, a repórter isenta que deu atestado de pureza ideológica aos invasores da USP. Alguns deles são ladrões de computadores e componentes eletrônicos. Huuummm… Contribuíram ao menos para revelar uma das essências do socialismo. Laura também é responsável por ter classificado de “reacionária” uma manifestação havida na USP contra a invasão. Levou até um pito do ombudsman. Mas uma “progressista” jamais se emenda. Ah, sim: um leitor me diz que a Carta Capital também trouxe uma reportagem — não sei quando porque não leio a revista — a favor do projeto. Faz todo sentido.

Segue, em vermelho, texto publicado na Folha de hoje, entremeado de comentários meus, em azul. Como vocês verão, procura-se até desqualificar o currículo do presidente da Fapesp em benefício do projeto. Ele seria apenas um “poeta”, que nada entende de ciência. Nem, naturalmente, de balada boa… Ao texto.

Médicos, psicólogos, farmacologistas, psiquiatras -intelectuais, docentes e cientistas com currículos vistosos que incluem cursos de especialização nas mais prestigiosas universidades dos Estados Unidos e da Europa- aliaram-se a freqüentadores de baladas e outros agitos da noite paulistana para subscrever moção de apoio a duas pesquisadoras da Universidade de São Paulo atingidas por medida inédita na história da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Até sexta-feira passada, eram 805 os signatários em defesa das pesquisadoras.
Lembram-se que falei aqui outro dia sobre a mania brasileira de fazer abaixo-assinados? Pois é. Observem o velho hábito do “sabem com quem está falando?” E também o complexo de vira-lata. Se os signatários estudaram na Europa e nos EUA, então devem estar certos. Laura fala sobre os especialistas a favor do projeto, mas ignora os que são contra. Vi a lista de apoiadores. A maioria é constituída de ilustres desconhecidos. Gente que se conhece na mesa de botecos da Vila Madalena — para quem não sabe, bairro paulistano que mistura um pouco de SoHo com Woodstock…

A mobilização dos cientistas e do chamado “povo da noite” é uma resposta à suspensão pela Fapesp da liberação de recursos para o projeto de pesquisa coordenado pela pós-doutoranda em psicologia Stella Pereira de Almeida, 43, e pela professora titular do Instituto de Psicologia da USP, Maria Teresa Araujo Silva, 67.
O “Povo da Noite” é uma categoria sociológica nova. Em vez da luta de classes, parece que promove apenas “luta de espadas”.

No dia 18 de junho passado, Maria Teresa recebeu carta assinada pelo procurador da Fapesp, Andrei Vinicius Gomes Narcizo, comunicando-lhe que “dada a gravidade das denúncias veiculadas pela imprensa”, a fundação determinou “a imediata suspensão” da liberação de recursos para o projeto de pesquisa “Implantação e Avaliação de Programa de Redução de Danos para o Uso de Ecstasy na Cidade de São Paulo”.
Como a gente vê, a imprensa só é “iluminista” quando serve aos propósitos da luta dos “progressistas”. Se é evocada para contrariar seus interesses, então ela passa a ser nefasta.

As “denúncias” a que se refere a nota do procurador consistem em noticiário sobre a distribuição de 8 flyers (folhetos, no jargão do pessoal das festas), impressos em tiragens de 4.000 exemplares cada, em festas onde é notório o uso de ecstasy. No material, informações sobre como consumir a droga com menos riscos para a saúde.Exemplo de “dica”: “Uma forma de diminuir os riscos do consumo de ecstasy é tomar metade da dose planejada, aguardar os efeitos (pode demorar até uma hora) e então decidir se tomará a outra metade”. Houve quem visse incitamento ao consumo da droga, impressão reforçada pelo nome “fantasia” do projeto: Baladaboa, que pode ser lido como “balada boa”, ou como “bala da boa” (“bala” é uma das gírias que designa ecstasy).
”Flyer” não é jargão coisa nenhuma. Um dos seus sentidos é “folheto” . É que, em inglês, parece mais interessante, como certos currículos. O mais fantástico nos textos de Laura Capriglione — sim, não é só neste — é a forma como ela emprega uma linguagem aparentemente denotativa para opinar. Nesse sentido, ela realmente inova: consegue ser mais incisiva que os editoriais da Folha. Observem que ela, evidentemente, está negando que haja algo de incitamento dos folhetos. Chama isso de “impressão reforçada Pelo nome ‘fantasia” do projeto”. Por que “impressão”? Os próprios promotores da iniciativa dão destaque aos trocadilhos “balada boa” e “bala da boa”. Eu sei que é perda de tempo tentar provar para essa gente que as palavras fazem sentido.

“É subestimar demais a inteligência das pessoas”, afirma Stella. “Daqui a pouco, vai-se dizer que o lema “se beber, não dirija” é um estímulo a que as pessoas encham a cara, ou que a distribuição de preservativos é um incitamento a orgias.” Segundo a pesquisadora, o projeto serve exatamente para checar a linguagem mais adequada para se atingir os usuários de ecstasy. “O objetivo é dialogar com os usuários. Se esse nome não se mostrasse adequado, poderíamos mudá-lo.”
Vamos ver. Stella acaba se traindo. Como já observei aqui, o único momento em que se usa o verbo no modo imperativo nos folhetos é para recomendar o consumo de metade da “dose planejada”. Eu não sei exatamente o que quer dizer “checar a linguagem”, mas presumo. Parece que se trata, como diria Paulo Freire, de entrar no “universo do educando”, certo? Ao fazê-lo, reforçam-se os seus valores, como queria o mestre da empulhação pedagógica. Feito esse reforço de valor, então esse “educando” é estimulado a se “libertar”, mas dentro do universo que é o seu: nesse caso, o das drogas. Daí que os tais “flyers” sejam multicoloridos, sempre sugerindo o ambiente de festa e de oba-oba. Laura também não diz o óbvio, porque as pesquisadoras não sabem: o que quer dizer “metade da dose planejada”? E se a dose planejada forem 10 comprimidos? Também se omitem as passagens mais polêmicas dos folhetos, como aquela que afirma que a droga, qualquer droga, pode ser inócua ou até benéfica para o organismo (ver abaixo).

O projeto de pesquisa sobre ecstasy foi aprovado há um ano pela própria Fapesp, incluindo a sistemática de análise pelos pares. Também recebeu aval do Comitê de Ética sobre Pesquisas em Humanos do Instituto de Psicologia da USP. Os protocolos científicos foram validados e eram de conhecimento da Fapesp, que, inclusive, já havia liberado 83% da verba da bolsa, além de 71% dos recursos necessários para a confecção e a impressão dos flyers.
Já gastaram todo esse dinheiro, é? Bem, os mesmos que validaram pediram um tempo para análise. Se tinham autoridade para validar, têm autoridade para suspender. Por que ela valeria num caso e não valeria no outro?

Fernando Cunha, assessor de comunicação da Fapesp, disse que nenhum dos diretores da fundação falaria sobre o assunto. Garantiu que a decisão de suspender a liberação dos recursos tinha sido “da presidência”, atualmente ocupada pelo poeta Carlos Vogt.
É o trecho mais maldoso do texto de Laura. Observem: seus “cientistas” (misturados a um monte de ‘ninguéns’ influentes) apóiam o projeto. Já Carlos Vogt, presidente da Fapesp, é chamado de “poeta”, sugerindo, sei lá, que habita nas nuvens. Carlos Vogt é mestre em lingüística, doutor em ciências sociais e atua há muitos anos na área de ciência do conhecimento. Já foi reitor da Unicamp e vice-presidente da SBPC. Para saber mais, clique aqui. Ao chamá-lo apenas “poeta”, Laura tenta desqualificar a poesia e Vogt a um só tempo. Ela está tentando dizer que ele não tem autoridade intelectual para presidir a Fapesp. Talvez a instituição devesse ser entregue ao “povo da noite”.

Segundo Cunha, suspensões de recursos são “comuns”, em casos de atrasos na entrega de relatórios científicos. Ele disse, entretanto, que “nunca viu”, “não tem conhecimento de suspensões a partir de noticiário da imprensa” -como foi o caso com a pesquisa de redução de danos aplicada ao ecstasy. A comissão formada para avaliar a pesquisa tem 30 dias para apresentar o relatório final. Se aprovar o relatório de pesquisa, o financiamento será retomado.
Como disse abaixo, vou tentar saber se o financiamento foi ou não retomado. O site voltou ao ar, com o logtipo da Fapesp e da USP. A resportagem da Folha não informa também que o conteúdo mudou. Como a gente vê, o lobby é bem mais forte do que parecia. Se preciso, desqualifica-se até o presidente da Fapesp para defender o “Baladaboa”. Ou “Bala da boa”.

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