Protestos – “Fantástico” vende ficção como se fosse jornalismo e transforma violência em poesia

Programa edulcora a violência do Passe Livre, demoniza a PM e desinforma de maneira determinada. Quando a Globo é boa, é difícil superá-la; quando é ruim, é insuperável

Absurda, sob qualquer aspecto que se queira, a peça de ficção — nego-me a chamar aquilo de jornalismo — levada ao ar neste domingo pelo “Fantástico” sobre os protestos em favor do passe livre. Segundo o apresentador, o programa acompanhou “durante três semanas as meninas que são a nova cara das manifestações de rua de São Paulo”.

Bem, isso já serviria para desqualificar uma reportagem. Quem decretou que elas são a nova cara da cidade?
– Isso está assentado em que apuração?
– Quais são as evidências?
– Elas pertencem, ao menos, ao grupo que convoca os protestos?
– O que quer dizer “a nova cara”?
– Qual é a velha cara?

Não! Lamento, não é jornalismo! Vejam a matéria. Parece que gente feia não protesta. Mais: por que só meninas? Que sentido faz emprestar um viés de gênero a atos que degeneram quase sempre em vandalismo?

O conjunto da obra, claro!, é lamentável por tudo aquilo que omite: a violência a que recorre, de modo deliberado e determinado, o Movimento Passe Livre — que nem sequer é citado; o caráter político dos atos (nesse caso, a distorção atinge o paroxismo); o absurdo da reivindicação… Mas é ainda mais lamentável por aquilo que afirma.

Prestem atenção a este texto, narrado pelo ótimo Tadeu Schmidt, que não tem nada a ver com o peixe:
“Em todos os protestos, para onde você olhasse, era fácil encontrar um pessoal bem jovem, adolescentes antenados, que não são de partidos políticos nem de movimentos organizados, não são black blocs e não depredam nada. Apenas vão para a rua dizer em alto e bom som o que consideram justo. Quem são esses estudantes, a nova cara dos protestos de São Paulo”?

Respondo: são personagens de ficção criados pelo “Fantástico”.

Pra começo de conversa, o que vai acima é um editorial, que distorce a realidade de maneira brutal. O fato de haver jovens com essas características nos atos em favor do gratuidade da passagem não implica que sejam eles a dar a direção do movimento.

De resto, é um princípio elementar da pedagogia e do elemento forçosamente didático que tem o jornalismo deixar claro que a gente lutar por aquilo que “considera justo” não torna a reivindicação… justa!

Se eu decidir mobilizar um monte de meninas bonitas em favor da gratuidade total das TVs hoje por assinatura — pedindo a estatização do sistema —, o “Fantástico” vai me dar uma colher de chá? Adiante.

Uma das PERSONAGENS, em sentido literal, da peça de ficção fantástica é Arielle, 16 anos, que estuda em escola pública. Nota: o comando do Movimento Passe Livre, como é sabido, é formado por endinheirados dos bairros ricos de São Paulo. Logo, a jovem escolhida não representa o espírito do que vai nas ruas. Na sua primeira fala, ouve-se isto (transcrevo a fala na sua forma original):
“Aumentou bem mais as mina no protesto; as mina defendeno um direito que não é só dos cara. Que as mina também têm força. Pode não ter força nos braço, mas têm força de ideia pra trocar e tudo mais”.

A garota é uma belezinha. Tivesse mais cuidado, talvez eu elogiasse a sua gramática. O “feminismo” pedestre não é dela, mas de quem produziu — e é claro que há ali um trabalho de produção, não de reportagem — a bobajada. E tudo vai piorar muito.

O “Fantástico” também foi achar a Milena, do Jardim Ângela. Notem: tudo é feito na medida para desfazer alguns supostos mitos do Movimento Passe Livre: o seu caráter elitista (oh, a menina é da periferia); a sua disposição óbvia para a violência (elas são pacíficas); a sua reivindicação estúpida (elas lutam por aquilo que acham justo). Acontece que, nesse caso, os mitos são apenas evidências.

A coisa foi adiante. Diz o apresentador sobre o ato de 19 de janeiro:
“A manifestação acabou na porta da Prefeitura de São Paulo. Tudo na paz.”

Atenção, dos protestos organizados pelo Passe Livre, não pelas “Garotas do Fantástico”, só o do dia 19 foi relativamente pacífico. Mesmo assim, houve, sim, choque com a PM. Em todos os outros, houve depredação de bens públicos e privados. No dia 14 de janeiro, um coquetel Molotov foi jogado dentro da estação Consolação do Metrô. Acho que não saiu no “Fantástico”.

Politização boçal
Aí volta o narrador:
“Pra essa galera (sic), o entusiasmo de agora tem a ver com um fato marcante: no fim do ano passado, estudantes ocuparam cerca de 200 escolas do estado contra a reorganização do ensino em São Paulo. Com a pressão, o governo recuou e suspendeu a medida”.

É estupefaciente! De fato, o movimento de agora está ligado às ocupações porque também estas foram comandadas, na maioria dos casos, pelo Movimento Passe Livre. Quando não era o MPL, era o MTST, de Guilherme Boulos.

O governo de São Paulo errou, sim, na condução do debate sobre a reorganização, mas ela era e é necessária. A pauta da extrema esquerda, que comandou as ocupações — o que o Fantástico omite — é retrógrada, obscurantista e antieconômica. Tudo aquilo que os editoriais do grupo Globo recomendam que os governos não sejam. Aí volta a Arielle:

“Se você chegasse, antes de acontecer as ocupações, com qualquer pessoa na rua, com cinco meses antes, e falasse: ‘ó, daqui a cinco meses, os jovens vai ocupar as escolas para defender seus direitos de estudo, todo mundo ia olhar pra sua cara e falar ‘mano, cê tá um otário porque a juventude brasileira não quer nada com nada”.

Aí aparece outra:
“Eu acho que foi um tapa na cara da sociedade, sabe?, o movimento. Porque os jovens de hoje tá sabendo, sim; tá indo atrás, sim”.

A vilã
Mas como pode? O “Fantástico” fez uma peça de ficção sem vilão? É claro que não! Ele vai aparecer. É a Polícia Militar, ora essa!

Já aprendemos, até aqui, que existe uma “nova cara da juventude”; que o movimento é “pacífico”; que luta por aquilo que considera “justo”; que é formado por jovens “pobres”…

Onde está o Lobo Mau para tanto Chapeuzinho Vermelho?

Volta o narrador:
“Mas o mundo dos protestos fora dos muros das escolas tem os seu perigos.”

E o que se vê? Policiais em ação e bombas de efeito moral explodindo. Ou por outra: há, sim, uma força que ameaça esses anjos da paz: a PM.

E aí conhecemos a história da Laura, de 17 anos. Dado o cenário, não parece ser mais uma da periferia. E provável que não ande de ônibus. Diz a menina: “Começaram a jogar bomba no meio dos manifestantes, e uma delas caiu no meu pé. E eu só via a explosão. Vi tudo branco na minha frente”.

O apresentador:
“Ela passou para a segunda fase da Fuvest, o vestibular da USP em arquitetura. Mas, por causa dos machucados, perdeu as provas práticas.”

Vale dizer: jovens pacíficos entram com o sonho; a PM, com a brutalidade. Não sei se o “Fantástico” já informou que, desde fevereiro do ano passado, 12 policiais foram feridos em protesto. Acho que não.

Laura diz que vai continuar a participar de protestos, sim. E a novelinha do “Fantástico” termina com a Arielle, que, diz o narrador, “gosta de música” e fez até o que o programa, sei lá por quê, chamou RAP. É assim:
“Mulheres, não vamos mais ser oprimidas,/
por homens das cavernas com pensamentos machistas/
que acha que lugar de mulher é só no tanque ou na pia/
desculpe-me desapontá-los por não ser submissa/
mas o nosso lugar é onde a gente quiser”.

Não entendi onde está o RAP, mas também não entendi o conjunto da obra. Note-se que não aparece nem mesmo um repórter. A voz em off, que conduz a piada, é do sempre bom Schmidt, que fala um texto que, obviamente, não é seu.

Barafunda
Raramente a desinformação, a mistificação, a omissão, o proselitismo rasteiro e a confusão se juntaram de forma tão determinada na tela da Globo. O que se viu ali é obra de militância.

Olhem aqui: a Globo pode defender, se achar que deve, o quebra-quebra. É um ponto de vista. Mas entendo que não pode mentir sobre a existência de depredação. Pode defender que os manifestantes furem bloqueios policiais na marra. Mas entendo que não pode mentir sobre o caráter violento dos protestos. Pode defender que os black blocs sejam aceitos como parte da democracia. Mas entendo que não pode mentir sobre o seu protagonismo.

O mais espantoso
Num dos flagrantes de uma das escolas invadidas, reconheci um notório militante do… Movimento Passe Livre, também pertencente a uma corrente ligada ao PT. Mas a Globo dizia aos telespectadores que ainda tinham paciência para o Fantástico que a nova cara dos protestos são meninas bonitinhas, pobres, sem partido, que lutam por um ideal. E, ora vejam!, sem violência.

Violenta é a Polícia Militar, né? Uma vergonha como raramente vi. “Ah, a Globo não sabe fazer…” Sabe! E sabe fazer muito bem!

Encerro assim: quando a Globo faz o seu melhor, é difícil superá-la. Quando faz o seu pior, aí, meus caros, não tem pra ninguém: é insuperável.

Os fatos estão à espera de uma desculpa.

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