Blogs e Colunistas
Se em meu ofício, ou arte severa,/ Vou labutando, na quietude/ Da noite, enquanto, à luz cantante/ De encapelada lua jazem/ Tantos amantes que entre os braços/ As próprias dores vão estreitando —/ Não é por pão, nem por ambição,/ Nem para em palcos de marfim/ Pavonear-me, trocando encantos,/ Mas pelo simples salário pago/ Pelo secreto coração deles. (Dylan Thomas — Tradução de Mário Faustino)

22/05/2012

às 18:41

Um vídeo com um achaque asqueroso e a pergunta que não quer calar: por que Protógenes escondeu a extorsão praticada por Luiz Antônio de Medeiros?

Vocês têm estômago forte? Estão preparados para ver algo asqueroso, nojento mesmo? Abaixo, segue um post publicado pelo jornalista Fábio Pannunzzio no Blog do Pannunzzio.  Assistiremos ao ex-deputado Luiz Antônio de Medeiros, ex-secretário das Relações de Trabalho do governo Lula,  extorquindo, de maneira inequívoca, o contrabandista Law Kin Chong.

Importante: lembram-se de um certo delegado chamado Protógenes Queiroz, hoje deputado pelo PCdoB-SP? Ele investigou esse caso, teve acesso a essa fita, mas transformou o extorquido, Law Kin Chong, em corruptor ativo. E manteve intocado Luiz Antônio de Medeiros, que praticava a extorsão. Chong é um santo? Ora, a pergunta só pode ser brincadeira. O ponto não é esse. Ocorre que Medeiros presidia justamente a CPI que deveria investigá-lo. Em vez de se dedicar a combater as safadezas, cobrou benefícios para livrar a cara do outro. Vejam o filme. Em seguida, o texto de Pannunzzio. Volto para encerrar.

 

Escreve Pannunzzio:
O vídeo acima deve ser visto com reserva. Foi produzido pelos advogados do empresário Law Kin Chong, apresentado ao País como o maior contrabandista brasileiro há oito anos. Ele é dono de vários “shoppings populares” em São Paulo - inclusive do maior deles, a Galeria Pajé. Os imóveis que Law aluga ou subloca são utilizados para a venda de muamba eletrônica no varejo. Law diz que apenas administra os imóveis, que não tem nada a ver com a distribuição do contrabando. Mas já foi condenado e preso por descaminho e evasão de divisas.

A importância dessas imagens é dada justamente pelo fato de que elas jamais foram reveladas integralmente. Elas fazem parte do inquérito instaurado pela Polícia Federal para apurar os crimes imputados ao comerciante sino-brasileiro e deram causa à prisão de Law Kin Chong por supostamente tentar subornar Luiz Antônio Medeiros em 2007. Naquele ano a Câmara Federal havia criado e instalado a CPI da Pirataria, presidida por Medeiros.

As cenas agora publicadas ampliam o que já se sabia do caso - e mostram como o delegado que conduzia a investigação, o agora deputado Protógenes Queiroz, se utilizou de provas que poderiam ter colocado Medeiros na cadeia para prender a vítima de extorsão praticada pelo parlamentar.

Assim que o contrabandista caiu nas malhas da Comissão Parlamentar de inquérito, três emissários do deputado começaram a assediá-lo com ofertas pornográficas para que ele saísse impune do processo. Um dos assessores de Medeiros chegou a criticar o chefe, que estaria pedindo pouco dinheiro para livrar a cara de Law - 500 ou 600 mil reais apenas, contra uma estimativa do restante da quadrilha de assessores de que a armação poderia render pelo menos R$ 3 milhões.

Esses assessores provocaram uma reunião entre Medeiros e Law num hotel em Araraquara, no interior de São Paulo. O vídeo que publico agora revela o que ocorreu na conversa. Dele, a única parte conhecida pela opinião pública (por meio de vazamentos seletivos para uma rede de televisão chamada a participar da coleta da prova) era o trecho em que Law pede a Medeiros que divida o suborno em quatro ou cinco prestações.

O material foi gravado por uma equipe da Polícia Federal, que o utilizou como prova de que o contrabandista havia tentando atrapalhar os trabalhos da CPI e livrar-se de ser citado no relatório final. Mas o que se vê é um afoito Medeiros regateando o valor e as condições do pagamento do suborno de R$ 1,5 milhão. Pelo que se pode depreender da cena, é o deputado quem pede dinheiro ao contrabandista, e não o contrário.

O Blog teve acesso à íntegra das gravações e vai publicá-las assim que for possível fazer a transcodificação do material, que é extenso e demandaria dias de upload para serviços como o Youtube. Ela não tem outro valor a não ser repor elementos de uma verdade histórica que ficou sepultada pelo lixo processual produzido ao final da CPI da Pirataria, transformada em instrumento de chantagem contra os que pretendeu investigar.

Luiz Antônio Medeiros já viveu seu ocaso político. A esperteza do parlamentar, no passado celebrado como o criador do neopeleguismo conhecido como “sindicalismo de resultado”, lhe valeu o banimento da vida pública pela vontade do eleitor.

Faltava ainda discutir o papel que coube ao delegado. Até hoje não está claro por que Protógenes Queiroz preferiu transformar uma vítima de extorsão em corruptor ativo sem molestar o verdadeiro criminoso - o deputado que o extorquia.

Voltei
Como se vê, Protógenes — o preferido de Paulo Henrique Amorim e dos “blogs sujos” em geral (eles próprios se chamam assim, cheios de orgulho) — está convicto de que pode atuar, vamos dizer, nos dois polos dos processos criminais. Já foi pescado em conversas com a turma de Cachoeira — e não para fazer reportagens, claro! Como a gente vê, à diferença dos jornalistas, ele não é do tipo que torna público tudo o que apura… No entanto, está na CPI, posando de grande moralista.

Agora, vem a público este escândalo. Como é que tendo em mãos o que vai acima, Protógenes teve o desplante de livrar a cara de Medeiros? O que o terá convencido a agir desse modo? Daqui a pouco este senhor escreve lá em seu blog, naquela língua que lembra o português às vezes, que tudo não passa de uma conspiração da “mídia golpista” contra ele…

O que tem Protógenes a dizer sobre a eloquência incontestável desse vídeo? Nada! O “ínclito” Protógenes, como o chama o não menos “ínclito” Paulo Henrique Amorim, está combatendo a “mídia golpista”…

Vocês sabem onde essa gente toda deveria estar, não? Na cadeia!

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 16:58

Se Cachoeira voltar à CPI, ele vai falar? Ou: No quintal do ApeDELTA

Se o bicheiro Carlinhos Cachoeira voltar à CPI, ele vai falar? Duvido! A menos que decida selecionar os alvos, obedecendo a uma estratégia de defesa, ditada pelo seu advogado. De todo modo, não creio muito nisso, não. Se a comissão quiser avançar, terá de ser por intermédio da investigação. E, obviamente, há caminhos que podem desobstruir a apuração. Um deles, o principal, é a quebra do sigilo nacional da Delta.

Há pouco, o deputado petista Paulo Teixeira (SP) concedia uma entrevista à GoboNews. Fica clara a sua rejeição — e a do PT — a essa linha de investigação. O partido quer, contra todas as evidências, fingir que o problema se restringe à atuação de um contraventor, eventualmente associado à Delta em alguns de seus negócios.

Não! Trata-se rigorosamente do contrário. O nome do esquema é “Delta”, e Carlinhos Cachoeira era só o operador local da empresa. Há outros espalhados Brasil afora.

Insisto, pois, no que é evidente. Há dois terrenos de investigação. Um deles diz respeito às ações de um bicheiro local, de um contraventor com influência regional — no Centro-Oeste. Ele e os parlamentares que cooptou têm de pagar por isso. O outro e mais importante é, repita-se, a Delta, de que Cachoeira é mero estafeta local. E isso, já está evidente, o PT não quer investigar. Por quê? Porque a Delta explode, necessariamente, dentro do Palácio do Planalto, na gestão do ApeDELTA.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 16:41

Requerimento de Kátia Abreu é aprovado, e sessão é encerrada

O requerimento da senadora Kátia Abreu (PSD-TO) foi aprovado, e a sessão da CPI foi encerrada. Foi o que defendi aqui, também, como sabem no primeiro post que escrevi a respeito nesta terça à tarde. Recorrendo às palavras de Kátia, os parlamentares não podem ficar ali, servindo de massa de manobra e de plateia de “bandido”. Da forma como as coisas se encaminhavam, os únicos a ganhar com a continuidade do depoimento eram o próprio Cachoeira e seu advogado, Márcio Thomaz Bastos.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 16:03

Conselho de Ética altera data do depoimento de Demóstenes

No Globo:
O Conselho de Ética alterou a data do depoimento de Demóstenes Torres (sem partido-GO) no processo contra o senador por quebra de decoro parlamentar. O depoimento acontecerá na próxima terça-feira, dia 29, a partir das 9h30m. Anteriormente, estava marcado para o dia 28, às 18h.

O advogado do senador Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, disse que Demóstenes irá comparecer mas fez um apelo ao colegiado para o cumprimento de alguns pedidos, como por exemplo, a perícia nos áudios das gravações entre Cachoeira e Demóstenes. Segundo Kakay, peritos contratados pela defesa constataram que parte dos diálogos foram “suprimidos e alterados”.

” O pedido da ampla defesa tem que ser respeitado. Temos peritos dizendo que as provas técnicas foram alteradas”, disse o advogado, referindo-se a conversa de Demóstenes sobre o pagamento de R$ 3 mil por um frete de avião.

O relator do processo no conselho, senador Humberto Costa (PT-PE), disse que vai analisar o pedido, mas lembrou que o julgamento no Conselho de Ética é político. “Uma coisa é certa, o tratamento que damos no Conselho de Ética é que o julgamento é político. Não temos necessidade de provas consolidadas. Avaliamos se o senador quebrou ou não o decoro. Mas estou analisando ainda o pedido da defesa”, afirmou.

O advogado Ruy Cruvinel Neto, arrolado pela defesa do senador goiano, não compareceu ao depoimento no conselho na manhã desta terça-feira. Conforme já era esperado, ele justificou razões “pessoais e familiares”. O advogado não era obrigado a prestar depoimento já que recebeu um convite. Humberto Costa disse que o não comparecimento de Cruvinel Neto traz prejuízos unicamente a Demóstenes.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 15:44

Cachoeira e os maxilares que esmagam ódios e traições

Já está claro que, por enquanto, Carlos Cachoeira não vai falar nada. Márcio Thomaz Bastos, seu advogado, estava usando a sessão para conhecer quais eram as preocupações e a linha de inquirição dos parlamentares. Não parece que tenha chegado a hora de Cachoeira detonar as várias bombas que certamente tem guardadas.

Mas não é preciso muita argúcia para perceber que ele é, como na música de Chico Jabuti, “um pote até aqui de mágoa”. Muitos quilos mais magro, está abatido. Quando levanta o rosto e encara os parlamentares, nada há de contrito em seu olhar. Ao contrário: é severo e autoconfiante. Ali está o senhor de muitos segredos. Notam-se os maxilares contraídos, tensos, esmagando ódios e traições.

O mais impressionante é que Cachoeira, se vocês pensarem bem, tem a faca e o queijo na mão. Sendo quem é e tendo se enfronhado, como se enfronhou, no sistema político, pode, se quiser, continuar a fazer negócios.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 15:29

Kátia Abreu diz a coisa certa! CPI não é palco para dar “audiência para bandido”

A senadora Kátia Abreu (PSD-TO) fez a coisa certa e pediu que a sessão da CPI seja transformada em sessão administrativa, suspendendo-se imediatamente as inquirições. Disse o óbvio: os parlamentares não podem ficar ali dando “audiência para bandido”. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) já havia se pronunciado no mesmo sentido. O mesmo falou o deputado Silvio Costa (PTB-PE). Ufa!!!

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 15:02

Parlamentares estão se comportando, literalmente, como bobos da corte e trabalhando, sem querer, para Márcio Thomaz Bastos. Ponham fim à sessão, por favor!

A sessão da CPI está em curso, e Carlinhos Cachoeira, ao lado de seu advogado, Márcio Thomaz Bastos, segue, monocórdio, usando o seu direito de permanecer calado. “Eu vou me reservar o direito de permanecer em silêncio…” E Bastos ali do lado, a consciência jurídica mais cara da nação!

Não estou criticando, não, o direito que Cachoeira tem de não se autoincriminar. É um fundamento das democracias. É que há um limite até para a inutilidade. Já está claro que ele não vai falar nada — ou só vai dizer o que eventualmente sirva à sua defesa. Pra que perder tempo?

Ora, se Cachoeira não vai responder e se os parlamentares insistirem em fazer suas perguntas, estarão trabalhando, sem querer, para Márcio Thomaz Bastos, que terá, então, o roteiro completo de suas indagações. Para orientar a defesa, é um espetáculo.

Há pouco, o deputado tucano Fernando Francischini (PSDB-PR) fez uma bela e enfática defesa da importância da CPI e lembrou que ela atende aos reclamos por moralidade da sociedade brasileira. É verdade. “E daí?”, perguntaria Bastos.

A sessão está servindo para que falem os parlamentares. Os governistas vão tentar implicar no rolo representantes da oposição; a oposição tentará fazer o contrário. Daqui a pouco, a banda podre começará a atacar a “mídia”. E assim vai.

Não há sentido em continuar com a sessão. Os parlamentares deveriam se dispensar de fazer o trabalho que cabe à caríssima banca de Bastos. Ela que tentem descobrir de que elementos dispõem os membros da CPI. Entregá-los, assim, de mão beijada é bobagem.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 6:09

LEIAM ABAIXO

Luiz Inácio ApeDELTA volta a negar a existência do mensalão, a acusar o golpismo da oposição e da mídia e a atacar a Dona Zelite! Ainda haveremos de criar uma Comissão da Verdade para combater suas mentiras;
Eloquentes na CPI, tudo indica, serão apenas os silêncios de Cachoeira;
Petição pública com 20 mil assinaturas até agora pede que se inicie já o julgamento do mensalão;
Em reportagem, militante do PSTU é chamado apenas de “professor da USP” ao defender palavra de ordem do partido. Ou: Crime contra a inteligência;
Presidente da CPI emprega assessora fantasma no Senado em troca de artigos elogiosos do pai dela!!!;
J&F pede mais tempo para evitar que empreiteira se torne inidônea;
Cachoeira se recusa a falar em processo contra Demóstenes;
Com PIB magro, governo reduz IPI para carros e incentiva área de bens de capital em novo pacote;
Ministro do Supremo autoriza depoimento de Cachoeira à CPI;
A redação da Fuvest que trazia “mensagem subliminar” e o desastre da qualidade no ensino universitário;
Ok, também falarei sobre Xuxa no Fantástico. Só não sei se é o que esperam ler…;
Leiam! Escandalizem-se! Esse cara é um anistiado e um indenizado. Que mentira a Comissão da Verdade dirá a respeito?;
Para criar mistificações e mitos oficiosos, já existe a Comissão da Anistia; a da Verdade, agora, pelo visto, vai se dedicar à mentira oficialista;
Para a Comissão da Verdade renunciar à mentira: O filme “Reparação”;
Mau começo - Comissão da Verdade inicia trabalho com apoio da Comissão de Anistia;
Chega de conversa mole! Matando a charada: “Carlinhos” é só um dos “Cachoeiras” da Delta. Pergunto: “Quem é o ‘Cachoeira’ do Rio, por exemplo?”;
COMISSÃO DA VERDADE: Marighella arrancou a perna dele! Indenização: R$ 500 por mês. Chefão terrorista foi homenageado pela Comissão da Anistia; terrorista que largou a bomba no local recebe o triplo! Rosa Maria, Paulo Sérgio Pinheiro e Maria Rita Kehl aplaudem?;
Mano Brown, o maior intelectual da esquerda contemporânea, celebra Marighella, o arrancador de perna e defensor do assassinato de inocentes

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 5:59

Luiz Inácio ApeDELTA volta a negar a existência do mensalão, a acusar o golpismo da oposição e da mídia e a atacar a Dona Zelite! Ainda haveremos de criar uma Comissão da Verdade para combater suas mentiras

Neste texto, demonstro que o bem que Lula pode ter feito ao Brasil foi sem querer — a institucionalidade que herdou o fez em seu lugar. Já o mal que faz é deliberado, consciente, por querer. Sabem por quê? O Lula que governou não pôde ser plenamente petista. Já o ex-presidente o é em sua plenitude. Se gostarem, passem adiante.
*
Luiz Inácio ApeDELTA da Silva recebeu ontem à noite, na Câmara Municipal de São Paulo, o título de “Cidadão Paulistano”. O combinado é que seria a primeira de uma série de solenidades para alavancar o nome de Fernando Haddad, o candidato à Prefeitura que ele impôs na base do dedaço. Parece que a coisa não saiu como o esperado. No discurso, o ex-presidente se referiu uma única vez a Haddad, que estava na plateia (”o maior ministro da Educação que este país já teve”, claro, claro…), e preferiu usar seu tempo para atacar as elites… A cascata de sempre. Presente, a senadora Marta Suplicy (PT-SP), que teve a sua pré-candidatura cassada por Lula, discursou. Disse que o novo pelo novo (leia-se: Haddad), por si, não significa nada; o importante é um “programa novo”. Para o ungido do Babalorixá, foi um anticlímax… E não se tinha ali o melhor… quero dizer, o pior da noite.

Lula voltou a se referir ao mensalão e ressuscitou a tese vigarista, obviamente falsa, de que aquilo tudo não passou de uma mancomunação da oposição com a imprensa para derrubá-lo. Uma tentativa de “golpe”, disse de novo. Deve-se entender, assim, que tanto a Procuradoria-Geral da República, que apresentou a denúncia, como o Supremo Tribunal Federal, que a recebeu, são partícipes dessa conspirata. Relembrando as próprias palavras, o ApeDELTA afirmou que a oposição só não deu prosseguimento ao impeachment — nunca houve movimentação efetiva nesse sentido; é mentira! — porque ficou com medo da mobilização popular. Isso também é falso. A aprovação de Lula, naqueles dias, estava pouco acima dos 50%. Ademais, entre aprovar e sair às ruas fazendo barricadas, há uma grande diferença.

Mas o recado é claro! Lula acredita dever a manutenção de seu mandato apenas ao “povo”, entendido, na sua visão perturbada, como o outro lado das “instituições”. Afinal, se oposição, imprensa, Ministério Público e Supremo participaram de uma conspiração, só restou mesmo uma instância de verdade no país: o PT — e, obviamente, os que se aliaram ao partido.

O ex-presidente comanda, de maneira nem tão clandestina e com pressões nada sutis, o esforço para cassar moralmente o direito de o Supremo julgar com isenção os mensaleiros. A fala de ontem, repetindo boçalidade antiga sobre um golpismo que nunca existiu, é parte da pressão. Até o seu discurso de agradecimento, que volta a fazer a velha clivagem vigarista entre “povo” e “elite”, é fração desse esforço. Lula quer que o país acredite que condenar José Dirceu por “formação de quadrilha” é um atentado aos interesses populares…

Incrível este senhor! Contrariando mais uma promessa solene que fez — e ele é o rei do descumprimento de promessas (já me estendo a respeito) —, está sendo muito pior como ex-presidente do que foi como presidente. Explico-me: na Presidência, mesmo tentando coisas novas e ruins, acabou, felizmente, limitado pelas coisas antigas e boas. Não encontrou o país como seus amigos Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales e o casal Kirchner encontraram, respectivamente, a Venezuela, o Equador, a Bolívia e a Argentina — com a institucionalidade em frangalhos. Ao contrário: em razão da conjuntura internacional, a nossa economia não ia muito bem, mas havia plena governabilidade. Na verdade, os oito anos do governo FHC haviam sido um período de institucionalização de procedimentos. Em muitos aspectos, O TUCANO INVIABILIZOU O QUE SERIA UM GOVERNO TIPICAMENTE PETISTA. Lula teve de seguir o modelo.

Tentou inovar na área das liberdades democráticas? Tentou, sim! Esforçou-se para diminuí-las, propondo ou endossando, por exemplo, mecanismos de controle da imprensa — esta mesma que ele continua a atacar ainda hoje — e demonizando os órgãos que vigiam o governo. Mas acabou sendo malsucedido nesses intentos. Os marcos legais que encontrou ao chegar ao poder o obrigaram a uma gestão dentro das regras — e essa foi, obviamente, a sua sorte. Não foi um Chávez não porque não tivesse disposição e caráter para tanto — lembre-se de que ele é o autor de uma frase fabulosa: “Nunca houve tanta democracia na Venezuela como agora”; não foi um Chávez porque as leis brasileiras não lhe permitiram ser e porque a sociedade, mesmo aprovando sua gestão, recusa expedientes autoritários.

Sem regras
Se teve de ser um presidente segundo as regras — o que o obrigou a jogar no lixo o programa do PT, para sua glória e nossa sorte! —, pode agora ser um ex-presidente sem limites. Há dois meses, comanda um esforço brutal para tentar impedir que se investigue a fundo o esquema Delta — de que Carlinhos Cachoeira era só um operador local, do Centro-Oeste. Há dois meses, lidera a palavra de ordem para levar a imprensa para o banco dos réus, esforço malogrado porque se percebeu a tempo a pilantragem, esta sim, golpista: junto com o jornalismo, Lula queria desmoralizar o Ministério Público Federal e uma parte do Supremo.

Ontem, realizou-se uma reunião da casa do deputado Maurício Quintela (PR-AL), sob o comando dos petistas, com um único propósito: impedir que a CPI investigue a Delta nacionalmente, mantendo o foco só no Centro-Oeste e nas relações da empresa com Carlinhos Cachoeira. O Lula que quer fraudar o passado é o mesmo que frauda o presente para impedir que o país se livre de alguns larápios que têm tudo para infelicitar o seu futuro. O contraventor e suas franjas no Congresso e em governos têm, sim, de ser investigados e, estabelecidas as culpas, punidos. MAS JÁ NÃO HÁ DÚVIDA NENHUMA DE QUE O NOME QUE DESPERTA PÂNICO NO PT E NA BASE GOVERNISTA É UM SÓ: DELTA!!!

Tenho escrito alguns textos sobre a tal “Comissão da Verdade” e sua vocação natural, desde o nome, para a mentira. Não é impressionante que se tenha instalado algo assim em dias como esses? Não é impressionante que uma comissão que pretende estabelecer a “verdade oficial” sobre fatos ocorridos há quase 50 anos seja contemporânea e cria de um líder político que nega a existência de um crime escancaradamente provado? Não é impressionante que atue firmemente para impedir a apuração de outros tantos crimes?

O bem que Lula pode ter feito ao Brasil foi sem querer — a institucionalidade que herdou o fez em seu lugar. Já o mal que faz é deliberado, consciente, por querer. Sabem por quê? O Lula que governou não pôde ser plenamente petista. Já o ex-presidente o é em sua plenitude.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 5:51

Eloquentes na CPI, tudo indica, serão apenas os silêncios de Cachoeira

 “Assiste a qualquer pessoa regularmente convocada para depor perante Comissão Parlamentar de Inquérito o direito de se manter em silêncio, que representa direta consequência fundada na prerrogativa constitucional contra a autoincriminação”.

Essas são palavras da decisão do ministro Celso de Mello, que obriga o bicheiro Carlinhos Cachoeira a comparecer hoje à sessão da CPI, cujo início está marcado para as 14h. Mello rejeitou um segundo pedido de adiamento feito pela equipe de defesa, liderada por Márcio Thomaz Bastos. Mas fez o óbvio, conforme já se havia advertido aqui: lembrou que ele tem, sim, a obrigação de responder o que lhe for perguntado, a menos que avalie que se vá autoincriminar.

Essa questão, nestes tempos de valores um tanto tumultuados, tende a ser mal compreendida. Embora seja desejável que ele conte tudo, esse princípio é um dos fundamentos da democracia e do estado de direito. Sabem aquela fala tradicional dos filmes americanos: “Você tem o direito de permanecer calado; tudo o que disser pode e será usado contra você etc.”? Pois é. O fundamento é o mesmo. Nas democracias, quem tem de apresentar provas são a polícia e o Ministério Público.

Ora, é evidente que o silêncio não é inócuo quando se tem em mãos uma porção de indícios, evidências, provas. Os parlamentares dispõem de um grande arsenal em mãos. Poderão indagar o que lhes der na telha. Se Cachoeira decidir não responder, o silêncio também é cheio de significados, não é?

Texto pubicado originalmente às 4h18 desta terça

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 5:49

Petição pública com 20 mil assinaturas até agora pede que se inicie já o julgamento do mensalão

Há uma petição pública que já reúne 20 mil assinaturas pedindo o início imediato do julgamento do mensalão. O texto lembra o óbvio: o país já esperou bastante. Que o ministro Ricardo Lewandowski, o revisor do processo, se sensibilize. Só depende dele. De mais ninguém.

Para assinar, clique aqui. Não sei quem tem o controle da qualidade das assinaturas, mas tome cuidado! Os petralhas, que monitoram a rede com seus grupelhos e falsos perfis, são doidos para pichar petições das quais discordam.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 5:45

Em reportagem, militante do PSTU é chamado apenas de “professor da USP” ao defender palavra de ordem do partido. Ou: Crime contra a inteligência

Eu faço um convite aos leitores! Ou melhor: eu lhes dou uma dica. Sempre que aparecer algum “professor universitário” opinando em favor de alguma tese, especialmente se for de esquerda, recorra ao Google para saber se ele não é um militante partidário. O caso de que vou tratar aqui é até besta e se refere a uma quase-bobagem, mas ilustra um método.

Escrevi ontem um post sobre a redação de um candidato da Fuvest que mandava um recadinho em letras em negrito. Nem me estendi muito sobre a coisa em si porque é uma bobagem. Lamentei, isto sim, a qualidade do texto, que foi, não obstante, considerado exemplar pelo examinador. Tanto é assim que estava no site da Fuvest entre os textos de destaque. O(a) estudante mandava um recado: “Fora Rodas” e “Fora PM”. A fundação, numa atitude correta, tirou o texto do ar — seja em razão do proselitismo fora de lugar, seja por causa da baixa qualidade, jamais deveria ter estado lá.

Muito bem. A Folha noticiou o assunto e decidiu ouvir um “especialista”. Por que não o professor Ruy Braga, do Departamento de Sociologia da USP? É mesmo, né? Por que não? Ele defendeu a postura do(a) estudante e ainda criticou a Fuvest. Leiam trecho. Volto em seguida.
*
O professor do Departamento de Sociologia da USP Ruy Braga elogiou a redação que trazia mensagens subliminares contra o reitor João Grandino Rodas e criticou o fato de a Fuvest ter suprimido o texto do seu site. “Se existe um mantra que é sistematicamente repetido pela Fuvest, é o de que eles desejam estudantes com formação crítica, que saibam pensar com a própria cabeça”, disse Braga. “Quando um jovem se manifesta politicamente, exatamente com base nesses parâmetros, eles tiram a redação do ar? Isso não faz sentido”, afirma o docente.

Braga criticou ainda a atitude da Fuvest, que qualificou o protesto presente na redação como uma “brincadeira indesejável” e retirou o texto de seu site. “Não é uma brincadeira, é uma atitude política. A Fuvest não pode simplesmente tapar os olhos, como se isso não tivesse acontecido.”
(…)

Voltei
Ruy Braga é um dos mais conhecidos militantes do PSTU na USP. É editor da revista “Outubro”, do partido. “Fora Rodas” e “Fora PM”, como ele mesmo diz, são, sim, “mantras”… do PSTU, também repetidos pelo PSOL. O que o ilustríssimo chama “pensar com a própria cabeça” se traduz em “pensar com a cabeça do PSTU”. Não é fabuloso?

Nem vou entrar no pensamento desses dinossauros. O que me incomoda é que o mestre, tudo indica, desconhece também o sentido das palavras. Quem repete um “mantra” — e esta é sua razão de ser — está fazendo tudo, menos “pensar com a própria cabeça”. Aliás, se Braga tivesse um pouco mais de apreço por seu ofício (e isso significaria uma construção compatível com a função), saberia que os mantras representam justamente o momento de suspensão do juízo e da consciência. Seu objetivo é limpar a mente de todo pensamento para o ser se integrar ao “Todo Universal”, tá ligado???

Logo, senhor professor, quem repete mantras não pensa! Ou alguém continuaria a ser do PSTU se pensasse um pouco? O repórter Dario de Negreiros poderia ter feito direito o seu trabalho. Bastaria informar: “Ruy Braga, professor da USP e militante do PSTU, partido que adotou o ‘Fora Rodas’ e o ‘Fora PM’, disse que…” E pronto! Tudo estaria no seu lugar. O leitor teria mais elementos para se posicionar.

Apresentar um militante ligado à causa que está na raiz da notícia só como um especialista corresponde a enganar o leitor. Infelizmente, e isto é cada vez mais comum na imprensa brasileira, militantes políticos são apresentados como analistas independentes, voluntários de redes sociais, cidadãos com vontade de participar…

“Por que, Reinaldo, o cara não pode ser militante do PSTU e professor da USP ao mesmo tempo?” Sim. Só que os leitores têm o direito de saber, e o jornalista, o dever de informar.

Nota — O meu “sim” acima diz respeito à questão legal apenas. Poder, ele pode. Mas acho que não deve. Tenho certas ideias românticas a respeito. Por mais que um mestre tenha uma posição política, uma ideologia, um conjunto de valores, uma moral, um aporte ético, jamais deveria ter um partido. Ou sua inteligência para ENSINAR estará, a meu ver, tisnada. Um mestre tem de pensar com desassombro. Se é procurador de um projeto de poder, por mais inviável que seja, seu lugar é a militância, não a sala de aula. Se milita em sala de aula, comete um crime contra a inteligência, o saber e, obviamente, os estudantes.

Texto pubicado originalmente às 3h47 desta terça
Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 5:43

Presidente da CPI emprega assessora fantasma no Senado em troca de artigos elogiosos do pai dela!!!

Por Andreza Matais e Felipe Coutinho, na Folha:
O presidente da CPI do Cachoeira, Vital do Rêgo (PMDB-PB), contratou como funcionária fantasma em seu gabinete Maria Eduarda Lucena dos Santos, que se diz coautora do hit “Ai, Se Eu te Pego”, cantado por Michel Teló.

O emprego foi arrumado pelo pai de Maria Eduarda, o jornalista Adelson Barbosa, que admitiu à Folha que a filha foi contratada para receber pelos trabalhos que ele e outros dois jornalistas executariam: publicar reportagens favoráveis ao senador na imprensa local. Barbosa, que trabalha no jornal “Correio da Paraíba”, disse que partiu do senador a sugestão para burlar as normas do Senado.

“Quem faz o trabalho sou eu e meus outros dois colegas. Ele [senador], quando convidou a gente para fazer o trabalho, disse que não poderia nomear três pessoas. Ele sugeriu colocar uma pessoa e a gente divide o valor”, contou Barbosa. “Poderia ser no meu nome, ou no de um dos outros dois. Só que eu não podia, porque o Senado exigia não ter outro vínculo [de trabalho]. Minha filha é estudante e sugeri que fosse no nome dela.”

Maria Eduarda, 20, também disse à reportagem que o pai é quem responde pelo cargo. Ela foi contratada em fevereiro de 2011 como assistente parlamentar com salário de R$ 3.450. E é dispensada de comprovar presença.

Estudante universitária, ela diz ter criado o “Ai, se eu te pego” numa viagem com colegas à Disney em 2006. A Justiça concedeu liminar em favor dela e das amigas bloqueando o dinheiro arrecadado com a música até que se decida a autoria. A contratação de funcionários fantasmas pode gerar ação por improbidade. O presidente da CPI também emprega no gabinete parentes de políticos e aliados. Ele contratou uma filha do ex-governador peemedebista José Maranhão, a mãe do deputado federal Hugo Motta (PMDB-PB), uma prima do ex-senador Ney Suassuna e uma cunhada de seu primeiro-suplente, Raimundo Lira, com salários que variam de R$ 2 mil a R$ 12,8 mil. O senador emprega ainda a mulher de Carlos Magno, coordenador de comunicação de sua campanha em 2010.
(…)

Post publicado originalmente às 3h desta terça
Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 5:35

J&F pede mais tempo para evitar que empreiteira se torne inidônea

Por Fábio Fabrini, no Estadão:
A J&F Participações, nova controladora da Delta Construções, pediu ontem mais prazo para defender a empreiteira em processo que pode declará-la inidônea e proibi-la de firmar contratos com o governo federal. O recurso foi apresentado à Controladoria-Geral da União (CGU), que instituiu comissão para apurar o envolvimento da empresa com tráfico de influência na administração pública e fraudes no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

 

Inicialmente, a CGU concedeu à Delta dez dias corridos para se pronunciar, a partir da notificação, em 7 de maio. Na semana passada, a construtora solicitou prorrogação por mais 15 dias. O órgão autorizou apenas cinco, que se encerram hoje.

No novo pedido, a J&F alega que precisará de mais tempo, pois acaba de assumir o controle da empreiteira. E reclama igualdade no tratamento, argumentando que, de forma geral, empresas que apresentam recursos obtêm de 30 a 90 dias.

Um dos efeitos da extensão de prazo seria descolar a apuração da CGU da agenda da CPI do Cachoeira, em curso no Congresso Nacional, sob intensa cobertura da imprensa. O temor é que o noticiário influencie o processo.

A aplicação de uma eventual sanção à empresa é tarefa do ministro-chefe da controladoria, Jorge Hage, com base em relatório da comissão instituída para tocar a investigação. Por lei, não há prazo para a conclusão dos trabalhos, mas Hage cobrou celeridade e quer uma definição no fim de junho.

Investigação. A CGU abriu o processo em 24 de abril, a partir da divulgação de denúncias de participação da Delta no esquema do contraventor Carlinhos Cachoeira, apurados na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. Um ex-diretor da construtora, Cláudio Abreu, está preso por suspeita de participar de esquema de corrupção no Distrito Federal, e outro, Heraldo Puccini, está foragido.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2012

às 3:03

Cachoeira se recusa a falar em processo contra Demóstenes

Por Gabriela Guerreiro, na Folha:
O empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, não vai prestar depoimento ao Conselho de Ética do Senado, inicialmente marcado para amanhã. Ele era uma das testemunhas de defesa do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) no processo que o parlamentar responde por quebra de decoro, mas decidiu suspender o depoimento para evitar a produção de provas contrárias a ele no processo criminal a que responde na Justiça.

Cachoeira é acusado de comandar um esquema de exploração de jogo ilegal e de corromper agentes públicos, dentre outros crimes. “Ele não vai porque isso pode resvalar no processo penal que ele responde”, disse à Folha Dora Cavalcanti, da equipe de Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça no governo Lula Márcio e advogado de Cachoeira.

Com a decisão, Demóstenes fica sem sua principal testemunha no processo que pode resultar na cassação do seu mandato. Diferentemente de uma CPI, que tem poderes similares aos de polícia, o Conselho de Ética não pode obrigar testemunhas a depor. Na noite de ontem, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que houve tempo hábil para a defesa de Cachoeira acessar os documentos da acusação, e o empresário deve comparecer hoje à CPI. Demóstenes é investigado por usar seu mandato para supostamente beneficiar os negócios do empresário no Congresso e por ter mentido aos senadores sobre sua ligação com Cachoeira.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2012

às 21:55

Com PIB magro, governo reduz IPI para carros e incentiva área de bens de capital em novo pacote

Por Gabriel Castro e Anna Carolina Rodrigues, na VEJA Online:
O Ministério da Fazenda anunciou nesta segunda-feira um pacote de medidas para aquecer o consumo e combater os efeitos da crise financeira internacional. Entre as medidas, que beneficiam o setor automotivo e a produção de bens de capital, está uma redução de até sete pontos porcentuais do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a venda de carros. As medidas valem até 31 de agosto (veja tabela).

Como continua valendo o regime automotivo especial, que beneficia a maior parte dos veículos fabricados no país com um corte de 30 pontos percentuais no IPI, um carro 1.0 nacional, que tinha IPI de 7%, passa a ter isenção da taxa.

Sem considerar o regime especial, o IPI de carros de até 1.000 cilindradas (1.0) passará de 37% para 30%; na faixa de 1.000 (1.0) a 2.000 (2.0) cilindradas, a redução é de 43% para 36,5% (carros a gasolina) e de 41% para 35,5% (bicombustíveis). Para os utilitários, o corte é de 34% para 31%. A renúncia fiscal prevista é de 1,9 bilhão de reais no período.

O pacote foi discutido com os bancos e com as montadoras. As fábricas se comprometeram a reduzir o preço dos automóveis. Para veículos de até 1.000 cilindradas, haverá redução de 2,5%. Os carros entre 1.000 e 2.000 cilindradas terão o preço cortado em 1,5%. Para os utilitários, redução será de 1%. As companhias também devem realizar promoções especiais no período.

“O resultado esperado para essas medidas é a redução do custo do investimento. Em segundo lugar, a redução do preço dos veículos ao consumidor. É mais uma medida para garantir a continuação do crescimento econômico num momento de crise na economia internacional, onde o governo tem que tomar mais medidas de estímulo para rebater a influência dos problemas”, afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante entrevista coletiva.

Crédito
 De acordo com Mantega, os bancos públicos e privados se comprometeram a aumentar o volume de crédito para o financiamento de veículos, além de elevar o número de parcelas e reduzir o valor da entrada e dos juros dos empréstimos. Como contrapartida, Banco Central vai liberar parte do valor compulsório recolhido pelos bancos, o que deve facilitar a concessão de crédito. Essa medida não tem prazo de encerramento.

Outra medida do pacote é a redução no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o crédito para pessoa física: de 2,5% para 1,5%, o que provocará uma renúncia fiscal de 900 milhões até o fim de agosto.

Incentivo
A segunda parte do pacote trata de incentivos à aquisição e à exportação de bens de capital. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai reduzir as taxas de juros cobradas no pré-embarque de empresas exportadoras (9% para 8% ao ano), as taxas cobradas para aquisição de máquinas e equipamentos por empresas (de 7,3% para 5,5% ao ano) e as taxas cobradas por participantes do programa Pró-Engenharia (de 6,5% para 5,5%). O prazo de financiamento para a compra de caminhões por pessoas físicas também será estendido. O custo dessa parte do pacote está previsto em 619 milhões de reais. Essas medidas também valem até 31 de agosto.

“As medidas são o resultado de um compromisso assumido entre o setor privado, o setor produtor e o setor financeiro. Cada um deles se juntou e nos unimos para estabelecer medidas para que cada um desse a sua contribuição no sentido de reduzir o custo dos produtos”, disse Mantega.

PIB
Apesar do pacote, o ministro Mantega admitiu que o Produto Interno Bruto (PIB) dificilmente crescerá em 2012 os 4,5% previstos pelo governo. “É mais difícil agora crescer 4,5% no ano como um todo. Porém, a aceleração da economia virá, porque nós tomamos várias medidas que demoram a fazer efeito”, disse ele. Nesta segunda-feira, um novo relatório divulgado pelo Banco Central mostrou que a perspectiva dos economistas para o resultado do PIB caiu ainda mais e chegou a 3,09%.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2012

às 20:59

Ministro do Supremo autoriza depoimento de Cachoeira à CPI

Por Marcelo Parreira, no Portal GT1:
O ministro Celso de Mello autorizou o depoimento de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, à CPI mista que investiga as relações do contraventor com políticos, autoridades e empresários . Com isso, fica mantida a previsão de que Cachoeira seja ouvido pelos parlamentares na audiência marcada para esta terça na comissão. A decisão de Celso de Mello é mais um capítulo na série de embates jurídicos que se desenrolaram ao longo da última semana entre a defesa de Cachoeira e a CPI.

Primeiro, os advogados argumentaram que a comissão havia negado o acesso aos dados das investigações sobre o contraventor que estão em posse dos parlamentares, provocando o chamado “cerceamento da defesa”.

O argumento convenceu o ministro, e na decisão proferida na última segunda-feira, Celso de Mello criticou a restrição. “A unilateralidade do procedimento de investigação parlamentar não confere, à CPI, o poder de negar, em relação ao indiciado, determinados direitos e certas garantias que derivam do texto constitucional”, dizia o texto. Celso suspendeu o depoimento até análise do pedido pelo plenário do Supremo Tribunal Federal ou caso algum fato novo relativo ao tema ocorresse.

Como resposta, a comissão aprovou no dia seguinte - quando seria realizada originalmente a audiência com Cachoeira - o acesso da defesa aos dados, mas no mesmo formato permitido aos parlamentares integrantes da CPI: por meio dos computadores colocados à disposição em uma sala de acesso restrito no Senado Federal. A comunicação do fato foi feita ao ministro, que se mostrou disposto a reanalisar a decisão.

Os advogados de Cachoeira, no entanto, utilizaram a sala por menos de três horas na última semana, o que levou o presidente da comissão, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), a liberar o acesso deles também durante o fim de semana. Não foi suficiente.

“Não adianta entrar na sala no fim de semana. Não dá para examinar na CPI. Teríamos que passar anos na sala. Não tem ferramenta de busca. Os próprios deputados e senadores sabem a dificuldade em acessar”, afirmou na última sexta Dora Cavalcanti, uma das advogadas do contraventor.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2012

às 20:26

A redação da Fuvest que trazia “mensagem subliminar” e o desastre da qualidade no ensino universitário

Como vocês já devem ter lido, a Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular), que realiza o vestibular da USP,  mantém em seu site aquelas que considera as melhores redações. Uma delas trazia uma mensagem nem tão subliminar assim, como se nota abaixo. O candidato ou candidata reforçou  letras de palavras que compunham dois acrósticos vagabundos: “Fora Rodas” e “Fora PM”. Por que vagabundos? Porque nem recorreu às primeiras letras de cada vocábulo. Essas são palavras de ordem que mobilizam a extrema esquerda uspiana e maconheiros militantes, que querem queimar mato dentro da universidade sem incômodos. São os filhos radicalizados da geração Toddynho com sucrilho, que não se sentem obrigados a seguir a termo as leis que valem para a pobrada brasileira…

Quando o caso virou notícia, a Fuvest tirou a redação do site. Já há orelhudos falando em censura. A fundação diz que não tinha percebido o truque — é o caso de demitir o falso distraído, não? — e que decidiu excluir o texto porque não quer estimular manifestações dessa natureza. Vejam parte da redação antes que eu prossiga.

 redacao-fuvest

Voltei
A coisa em si é uma tolice e nem merecia figurar aqui não fosse um particular: a Fuvest considera essa maçaroca de abstrações um texto exemplar??? Mesmo para um estudante que acabou de concluir o ensino médio, isso é ruim de doer. Se atende aos princípios gerais da correção gramatical (nem tanto: há ali um ” permite-se que (…) decisões afete“), o que se tem acima é um pastel de vento, um apanhado contraditório de tolices e generalidades. Em 20 linhas de texto, não há um miserável argumento.

Atropelar a regência de modo miserável constitui redação exemplar, ainda que o autor seja um aluno que acaba de concluir o segundo grau? Leiam isto:
 “Mas o que muitas vezes não é percebido é que a crescente campanha de reavivamento do interesse pela política poderia ser considerada como mais uma artimanha para introduzir e absorver cada vez mais os indivíduos para um senso de pseudocoletivismo, uma falsa sensação de estar contribuindo (…)”

Heeeinnn? O quê? “Introduzir e absorver o indivíduo para???” O candidato, apesar de erros evidentes, expressa-se de forma razoavelmente ordenada. O chato é perceber as consequências da tal “educação crítica” exercida nas escolas. Notem aí: o indivíduo é tratado como vítima passiva do “sistema”. Isso é fruto do proselitismo de professores em sala de aula, mais ocupados em demonizar os meios de comunicação e em pregar a resistência ao “famigerado capitalismo” do quem em… ensinar a parte que lhes cabe.

Esse negócio do “Fora Rodas” e “Fora PM” é uma tolice sem importância. Espanta-me saber que a Fuvest, que realiza o vestibular mais concorrido do país, considere esse troço um modelo a ser seguido. Isso,  se querem saber, é evidência de um desastre que está em curso no ensino universitário. É cedo para saber quanto vai custar. Mas será caríssimo.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2012

às 19:09

Ok, também falarei sobre Xuxa no Fantástico. Só não sei se é o que esperam ler…

Ai, ai… Vou mesmo ter de falar sobre a Xuxa? Vou! Então tá.

Começo pelo aspecto que mais chamou a minha atenção nessa história toda: o ataque de subcelebridades (inclusive  as do subjornalismo e da Internet) ao Fantástico — mero pretexto para atacar a Rede Globo — , que teria optado pelo sensacionalismo etc. e tal. Que sensacionalismo? Nesse particular, tudo foi muito sóbrio.

Vamos ver. Se uma pessoa nacionalmente conhecida como Xuxa está disposta a revelar que foi vítima de abuso quando criança, isso é ou não é notícia? Isso merece ou não espaço num programa como o Fantástico? Que emissora no mundo se recusaria a levar a declaração ao ar? Criticar a Globo por isso é, com efeito, a manifestação de sempre de rancor e ressentimento com quem é líder de audiência. “Ah, mas estava querendo ibope…” E daí? Jornalistas querem ser lidos, programas de TV querem ser vistos etc. Desde que não se recorra a expedientes antiéticos para conseguir esse intento — e não parece que tenha sido o caso —, qual é o problema?

Agora a coisa em si
Isso não significa que eu tenha gostado do que vi. Se a Globo tinha até a obrigação de ter levado a coisa ao ar, a decisão de Xuxa me parece equivocada — ainda que tenha vindo junto com a revelação de que ela dá apoio a crianças vítimas de abuso e que sua mensagem possa conter um sentido de alerta.

Eu não gosto desse tipo de exposição. Em 2002, quando Lula chorou diante das câmeras de Duda Mendonça, contando a morte de sua primeira mulher e do bebê no parto, eu o censurei severamente. Tenho claro que uma coisa é a dor que se sente, outra, diferente, a dor que se exibe diante de uma câmera, por mais decorosa que a pessoa seja. Xuxa foi um pouco mais do que Lula. Ela chora com mais dificuldade do que ele… Curiosamente, a dor dele comoveu milhões; a dela resultou numa corrente na Internet que traz grande carga de ressentimento. Recorrendo a uma imagem infeliz de Lula, gente loura e de olhos azuis também pode sofrer, ora essa! O ponto é outro.

Não compreendo a que tipo de apelo interno ou necessidade atendeu a confissão de Xuxa. Se ela é, como é sabido, uma das celebridades mais protegidas por um impressionante aparato de segurança, que a mantém distante da vigilância do grande público, por que a revelação agora? Por que essa brutal exposição da intimidade? Deveria, a meu ver, ter sido convencida a tempo, por amigos e familiares, a não fazê-lo.

Quanto ao Fantástico em si, não há nada de errado. Fez o que tinha de fazer. E fim de papo. Eu não gostei, na noite de ontem, foi de outra coisa, infinitamente mais importante. Depois que o “aquecimento global” (ou “mudanças climáticas”) caiu em desuso, a repórter Sônia Bridi e seu marido, o cinegrafista Paulo Zero, resolveram aderir a outra tese do terrorismo ecochato: a suposta superpopulação do planeta. O malthusianismo voltou com tudo, agora vestindo nova roupagem. Antes, o mundo chegaria ao colapso por causa da falta de alimentos; agora, do esgotamento dos recursos naturais. A perspectiva continua reacionária. Mas cuidarei disso em outro post.

Voltando ao caso Xuxa: é impressionante que até um depoimento como aquele vire pretexto, em determinadas áreas, para malhar a Globo. Também acho impossível tecer considerações sobre a qualidade do relato, se convincente ou não. No meu tribunal pessoal, coisas dessa natureza têm de ser tratadas em outro ambiente, distante das câmeras. Xuxa considerou que não. E a única coisa que havia a fazer era levar seu depoimento ao ar.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2012

às 18:10

Leiam! Escandalizem-se! Esse cara é um anistiado e um indenizado. Que mentira a Comissão da Verdade dirá a respeito?

Muitos leitores já conhecem a história, mas vale revisitá-la à luz das declarações de pelos menos três membros da Comissão da Verdade. Os novos leitores do blog talvez a ignorem e vão ficar espantados. Contei o caso aqui no dia 20 de maio de 2011. Trata-se da história, e de um depoimento, de Carlos Eugênio da Paz, o homem que cuidava da inteligência militar da ALN, o grupo terrorista de Carlos Marighella, aquele que Mano Brown, do baixo de sua ignorância arrogante, exalta em uma música, para delírio dos esquerdopatas da “imprensa burguesa”. Carlos Eugênio FOI INDENIZADO — !!! — PELA COMISSÃO DE ANISTIA. Abaixo, ele conta como matou um empresário que era acusado de financiar um grupo que combatia terroristas. E ficamos sabendo também por que ele matou um amigo seu de militância, “companheiro de luta”. É que havia a suspeita, SEM PROVAS, de que ele pudesse ter passado informações para a polícia. Nos tribunais da esquerda, na dúvida, dá-se um tiro na cabeça. Mano Brown deve gostar — daí ter cantado as glórias do bandido que chefiava essa gangue. CARLOS EUGÊNIO TAMBÉM DEIXA CLARO QUAL É A DIFERENÇA MORAL ENTRE UM TORTURADOR E UM TERRORISTA: NENHUMA!!!

Não obstante, o torturador é considerado lixo pelas Comissões de Anistia e da Verdade — e eu acho isso justo. Já o terrorista vira um santo. E isso é asqueroso! Leiam. Escandalizem-se.
*
“Eu, atrás [do banco do carro] com um fuzil Mauser 762, que é um fuzil muito bom para execução, de muita precisão. E quando ele [a vítima] chega na esquina da alameda Casa Branca, ele tinha de parar porque tinha uns dois carro (sic) na frente (…). Ele teve que parar. Quando ele parou, eu tava no banco de trás do carro e falei ‘Vou dar um tiro nele’. Peguei o fuzil, o companheiro que tava na frente, no Fusca, baixou a cabeça e já dei um primeiro tiro de fuzil. Não acertei de cheio porque eu sou destro; eu atiro nessa posição [ele mostra a maneira; notem o verbo no presente], como eu tava atrás, no Fusca, eu tive que inverter e atirei assim, então pegou aqui, de cabeça, no occipital dele, mas já começou a sangrar. Ele abre a porta do carro e sai do carro. Nós saímos. Só o motorista que não sai porque o motorista tem que ficar ali, assegurando a fuga. Saímos eu e outro companheiro. Ele sai com a metralhadora, eu saio com o fuzil. Ele [a vítima] saiu correndo em direção à feira, o companheiro metralhando ele, e eu acertando com dois, três, quatro [tiros], acertei três tiros nas costas dele, e o companheiro, com a metralhadora, acertou vários. Aí, de repente, ele caiu; quando ele caiu, eu me aproximei, e, com a última bala, a gente (sic) sempre dá o último tiro de misericórdia, que é para saber que a ação realmente foi cumprida até o fim.

O que é isso? Algumas considerações prévias. Depois volto ao testemunho do herói que fala acima.

O SBT exibia uma novela chamada “Amor e Revolução”. O didatismo bucéfalo do texto e o desempenho melancólico dos atores, tudo amarrado numa direção primária, transformam o que pretendia ser um drama com muito sangue — “revolucionário” — numa comédia involuntária. Silvio Santos trocou “A Semana do Presidente”, programa com que puxou o saco de sucessivos governos, por “O Passado da Presidenta”. O resultado não poderia ser pior.

Ao fim de cada capítulo, ex-revolucionários prestam um depoimento, contando a sua história. José Dirceu esteve lá. Uma das pessoas que deram seu testemunho sobre o período foi Carlos Eugênio da Paz, ex-chefão da ALN (Ação Libertadora Nacional), comandada por Marighella.

No vídeo abaixo, de onde extraí o depoimento que vai em vermelho, Carlos Eugênio conta, com riqueza de detalhes, como assassinou o empresário Henning Albert Boilesen (1916-1971), então presidente do grupo Ultra, que era acusado de organizar a arrecadação de dinheiro entre empresários para financiar a Operação Bandeirantes (Oban), que combatia os terroristas de esquerda. Notem bem: não estou fazendo juízo de valor neste momento. Deixo qualquer questão ideológica de lado. Peço que vocês avaliem com que desenvoltura, precisão e até entusiasmo Carlos Eugênio fala da morte. Assistam ao vídeo. Volto em seguida.

Voltei
O que mais impressiona na fala deste senhor é que ele, com todas as letras, justifica a violência que era cometida, naquele período, pelo estado, que prendeu e matou pessoas ao arrepio das leis do próprio regime militar. Carlos Eugênio deixa claro que ele próprio fazia o mesmo. Leiam este outro trecho:

“Um Tribunal Revolucionário da Ação Libertadora Nacional do qual eu fiz parte, um grupo de dez ou 12 pessoas decidiu que, se a pessoa faz parte da guerra e está do outro lado, ele merece ser executado”.

 

E aí se segue aquela narrativa macabra. Não há a menor sombra de arrependimento, constrangimento, pudor. Boilesen, para Carlos Eugênio, era alguém que merecia morrer —e, como se nota, com requintes de crueldade. Os torturadores do período pensavam o mesmo sobre as esquerdas. A diferença é que eles foram parar na lata de lixo da história — o que é muito bom. Já o senhor que fala acima é tido, ainda hoje, como um homem muito corajoso e um gênio militar. Atenção: sem jamais ter sido preso ou torturado, assassino confesso, Carlos Eugênio é um dos anistiados da tal Comissão de Anistia. Isso quer dizer que ainda teve direito a uma indenização, reconhecida numa das caravanas lideradas por Tarso Genro, em 13 de agosto de 2009.

Observem que, quando fala sobre o modo como atira, o homem põe o verbo no presente. Parece que ainda é um apaixonado pelo fuzil Mauser, que, segundo ele, é um “fuzil muito bom para execução”. Evidenciando que nada entende da ética da guerra, mas sabe tudo sobre a morte, afirma:

Quando ele [Boilesen] caiu, eu me aproximei, e, com a última bala, a gente (sic) sempre dá o último tiro de misericórdia, que é para saber que a ação realmente foi cumprida até o fim.”

Percebam: “A gente sempre dá [verbo no presente] o último tiro…”. Atenção! Tiro de misericórdia, como o nome diz, é aquele disparado para encerrar o sofrimento da vítima, mesmo inimiga, não para “saber se a missão foi realmente cumprida”. É asqueroso!

 

O “anistiado” e indenizado Carlos Eugênio deixa claro que ele era apenas a outra face perversa da tortura. Leiam:

Em tempo de exceção, você tem tribunal de exceção. Eles não tinham o deles lá, que condenava a gente à morte, informalmente? A gente nunca condenou ninguém à morte informalmente. Nós deixamos um panfleto no local dizendo por que ele tinha sido condenado à morte, o que é que ele fazia…”

Viram? Para ele, um tribunal da ALN nada tinha de “informal”! Reconhece, ao menos, que era de exceção. Aí está o retrato da democracia que teriam construído se tivessem vencido a guerra. Com esse humanismo, com essa coragem, com essa ética.

 

Mais um assassinato
Foi seu único crime? Não! Ele já confessou num texto que tem sangue pingando das mãos — sem arrependimento. Aquele era o seu trabalho. O “Tribunal Revolucionário” de Carlos Eugênio também matava companheiros. No dia 19 de novembro de 2008, Augusto Nunes narrou, no Jornal do Brasil, um outro assassinato cometido pelo valentão. A vítima era Márcio Leite de Toledo, membro da cúpula da ALN. Reproduzo um trecho:

“Márcio Leite de Toledo tinha 19 anos quando foi enviado a Cuba pela Aliança Libertadora Nacional para fazer um curso de guerrilha. Ao voltar em 1970, tornou-se um dos cinco integrantes da Coordenação Nacional da ALN. Com 19 anos, lá estava Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz. Em outubro, durante uma reunião clandestina, os generais garotões souberam da morte de Joaquim Câmara Ferreira, que em novembro do ano anterior substituíra o chefe supremo Carlos Marighella, assassinado numa rua de São Paulo. Márcio propôs uma pausa na guerra antes que fossem todos exterminados.

Já desconfiado de Márcio — não era a primeira vez que divergia dos companheiros —, Carlos Eugênio convenceu o restante da cúpula de que o dissidente estava prestes a traí-los e entregar à polícia o muito que sabia. Montou o tribunal que aprovou a condenação à morte e ajudou a executar a sentença no fim da tarde de dia 23 de março de 1971, no centro de São Paulo. Antes de sair para o encontro com a morte, o jovem que iria morrer escreveu que “nada o impediria de continuar combatendo”. Não imaginava que seria impedido por oito tiros.

O assassino quase sessentão admite que o crime foi um erro, mas não se arrepende do que fez. Na guerra, essas coisas acontecem, explica o justiceiro impiedoso. Depois do crime, ele se tornou muito respeitado pelos companheiros, que o conheciam pelo codinome: Clemente.”

 

Carlos Eugênio, acreditem, responde a Augusto, nestes termos:

“A lembrança dessa época, para mim, é lembrança de uma luta que não me arrependo de ter travado. Era uma luta armada, era dura, precisamos todos, humanistas que éramos, aviltar nossas entranhas, nosso sentimentos, nossas convicções. (…) Tenho sangue em minhas mãos? É claro que tenho. Não era pra lutar? Não era pra fazer uma guerra de guerrilhas? Dá para medir quem estava mais certo? Todos estávamos errados, pois fomos todos derrotados. (…) Mas não se esqueçam também que o sangue que escorre de minhas mãos escorre das mãos de todos aqueles que um dia escolheram o caminho das armas para libertar um povo. E que defenderam a luta armada, mesmo sem ter dado nenhum tiro. (…)

 

Numa coisa, ao menos, ele está certo, não é? Se a pessoa integrou um bando armado, que matava, traz sangue nas mãos, ainda que não tenha dado um tiro…

Retomo
Vocês conhecem alguém mais “clemente” do que Carlos Eugênio? Não é a primeira vez que a gente assiste a um vídeo em que os terroristas de esquerda justificam os métodos que eram empregados pelos torturadores e paramilitares, deixando claro que faziam e fariam o mesmo, evidenciando que compartilhavam a mesma lógica perversa. Já exibi aqui o filme em que Franklin Martins — aquele — e seus amigos deixam claro que teriam, sim, matado o embaixador americano Charles Elbrick se o governo militar não tivesse cedido às exigências dos sequestradores. E o fez dando gargalhadas e justificando a decisão.

Carlos Eugênio escreveu um livro chamado “Viagem à Luta Armada”, publicado em 1997. Sabem quem fez um prefácio elogioso e quase emocionado? Franklin Martins!

Marighella, o ídolo de Carlos Eugênio, escreveu até um Minimanual da Guerrilha Urbana. Lá está escrito:

“Hoje, ser “violento” ou um “terrorista” é uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada, porque é um ato digno de um revolucionário engajado na luta armada contra a vergonhosa ditadura militar e suas atrocidades.”

 

E mais adiante:
“Esta é a razão pela qual o guerrilheiro urbano utiliza a luta e pela qual continua concentrando sua atividade no extermínio físico dos agentes da repressão, e a dedicar 24 horas do dia à expropriação dos exploradores da população.
(…)
A razão para a existência do guerrilheiro urbano, a condição básica para a qual atua e sobrevive é a de atirar. O guerrilheiro urbano tem que saber disparar bem porque é requerido por este tipo de combate.
Tiro e pontaria são água e ar de um guerrilheiro urbano. Sua perfeição na arte de atirar o fazem um tipo especial de guerrilheiro urbano - ou seja, um franco-atirador, uma categoria de combatente solitário indispensável em ações isoladas. O franco-atirador sabe como atirar, a pouca distância ou a longa distância e suas armas são apropriadas para qualquer tipo de disparo.

 

O sobrenome de Carlos Eugênio é “da Paz”. E seu codinome no terrorismo era “Clemente”. Essa é a paz dos clementes. Nada mais a acrescentar neste post.
Por Reinaldo Azevedo

 

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