O incêndio na favela e a razia jornalística. Ou: Homicida põe fogo em namorado, incendeia favela, mas a culpa é da… Prefeitura!

A imprensa paulistana, já escrevi aqui algumas vezes, fez picadinho da gestão de Gilberto Kassab. É claro que há coisas na Prefeitura que não funcionam bem. Mas outras tantas avançaram bastante. Inútil! Já demonstrei também como essa razia jornalística preparou o caminho de um Celso Russomanno, com sua glossolalia política. Muito bem! Na favela do […]

A imprensa paulistana, já escrevi aqui algumas vezes, fez picadinho da gestão de Gilberto Kassab. É claro que há coisas na Prefeitura que não funcionam bem. Mas outras tantas avançaram bastante. Inútil! Já demonstrei também como essa razia jornalística preparou o caminho de um Celso Russomanno, com sua glossolalia política.

Muito bem! Na favela do Moinho, em São Paulo, o senhor Fidélis Melo de Jesus, de 37 anos, brigou com o namorado, Damião de Melo, de 38. Na luta amorosa dos Melos, quem pagou o pato foram os moradores da favela. Fidélis usou um botijão de gás como maçarico e meteu fogo no companheiro instável, que morreu carbonizado. Só que botou fogo na favela também. Na Folha desta terça, narram Rogério Pagnan, Marina Gama e Pedro Ivo Tomé:

Com apenas três moradores treinados, sem extintores e com hidrantes trancados, o programa da prefeitura para combater incêndios voltou a falhar ontem e não impediu a destruição de cerca de 80 barracos na favela do Moinho, no centro de São Paulo. O fogo, iniciado perto das 7h, deixou um morto, cerca de 300 pessoas desalojadas, paralisou duas linhas de trem da CPTM, interditou o viaduto Engenheiro Orlando Murgel por tempo indeterminado e levou caos ao trânsito. Esse foi o segundo episódio, em menos de 15 dias, em que favelas na capital foram destruídas por incêndios embora tenham o Previn, o plano criado pela prefeitura em 2010. No último dia 3, o fogo destruiu parte da favela Sônia Ribeiro, no Campo Belo (zona sul), berço do programa. A própria Moinho já tinha queimado no final do ano passado. O incêndio de ontem  – o 34º em favelas neste ano – durou quase três horas.
(…)

Voltei
Não há gestão que resista a abordagem assim, dia após dia. Título da reportagem: “Plano da prefeitura volta a falhar e fogo destrói favela”. As palavras fazem sentido. A culpada pelo fogo na favela do Moinho, está claro, é a Prefeitura — de Gilberto Kassab, quem sabe… Fidélis, o que fez torresmo do companheiro, foi apenas a mão que acendeu o maçarico.

Ele, como se vê, não pode ser responsabilizado por nada. A Prefeitura está implementando esses planos de brigadas contra incêndio. Seria interessante saber se há menos ou mais ocorrências agora do que antes. Noto que, se o plano não existisse, então a Prefeitura não poderia ser responsabilizada. Como existe, ela passa imediatamente à condição de culpada. É espantoso! Estupefaciente mesmo! Até porque a Folha só poderia ter estabelecido essa relação de causa e efeito depois de um laudo técnico. Um incêndio naquelas dimensões poderia ter sido evitado com um hidrante ou com uma brigada bem treinada? Especialistas demorariam alguns dias para chegar a uma conclusão. Os três repórteres não precisaram mais do que alguns minutos. Afinal, todos os textos contra Kassab já estão redigidos antes de qualquer ocorrência.  E isso ainda é o de menos.

Há uma nova cultura se plasmando no país — que, não tenham dúvida, nos condena ao atraso eterno. Ninguém é responsável por mais nada. Do Poder Público (lembrem-me, mais tarde, de escrever sobre uma fala de Mitt Romney que está sendo explorada pela turma de Obama) espera-se que dê tudo de graça: casa, transporte, leite, pílula, pílula do dia seguinte, remédio, camisinha, aborto, educação, saúde, cultura, felicidade… A lista só vai aumentando. Em contrapartida, bem…, em contrapartida, nada! Nem mesmo se responsabiliza um maluco que resolve meter fogo no namorado. Afinal, também ele deve ser uma pobre vítima do “plano da Prefeitura” que falhou.

“Ah, o Reinaldo acha que os pobres brasileiros vivem muito bem…” Não! Acho que vivem mal. E continuarão a viver a mal se essa cultura se consolidar. O Poder Público se torna o donatário de benefícios sem fim, e não se cobra dos indivíduos nem mesmo a responsabilidade por seus atos.

É claro que coisas assim prosperam porque há um espírito plasmado nas redações. Essa favela do Moinho — e voltarei ao assunto mais tarde — é, aliás, a evidência do triunfo da demagogia sobre a racionalidade. A Prefeitura tentou removê-la do local. Esquerdopatas das mais variadas tendências se mobilizaram acusando “higienismo”. E agora assistem à tragédia, apontando o dedo acusador para terceiros.

Exploração asquerosa
Ah, sim: os bombeiros ainda realizavam a operação rescaldo, e a equipe de TV de Fernando Haddad já estava lá, explorando a desgraça alheia, como urubus. A conclusão óbvia a que se chega é uma só: o candidato do PT precisa da miséria e da cegueira alheias para crescer. O jornalismo paulistano, com raras exceções, está com ele. Podem aguardar que essa história vai para o horário eleitoral com a chancela da “isenção jornalística”.

Lembram-se de “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil? Nestes novos tempos, a coisa seria vista assim: “Polícia de São Paulo falha, e o Zé mata o João”. Os jornalistas ainda mais críticos e independentes, formados na escola moral de Maria Rita Kehl, seriam ainda mais isentos: “Polícia de Alckmin falha, e o Zé mata o João”.

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